Niède Guidon

Niède Guidon, Serra da Capivara, Piauí (foto www.saoraimundo.com)

Niède Guidon, Serra da Capivara, Piauí (foto http://www.saoraimundo.com)

A dama das cavernas na caatinga do Piauí, Niède Guidon, arqueóloga paulista, desenterrou um Brasil de 70 mil anos que está revolucionando a pré-história das Américas. Mas agora ela só quer encontrar certo homo sapiens sapiens de apenas 238 anos, Wolfgang Amadeus Mozart, e não consegue descobrir nenhum rastro dele em São Raimundo Nonato, a 435 km ao Sul de Teresina.

  “Estou doente de não poder ouvir a Flauta Mágica” (de Mozart) – lamenta Guidon: “Chega a doer…” Perfumes ela tem: usa Diorissimo, até nas cavernas. Há vinho francês na adega. Lá fora a caatinga virou um jardim, tanto que choveu aplacando uma das maiores secas do sáculo: “É uma beleza que não se esgota” – maravilha-se. A seus pés brincam os três inseparáveis cachorrinhos Schnauzer, alemães. Ela vive um momento de glória: seu trabalho de 23 anos está conquistando o reconhecimento científico mundial e até o interesse do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em Washington.

  Só falta ópera, e nem mesmo o homo sapiens vivo a substitui. “De vez em quando a gente fica sozinha na vida, não é? Depois, já cheguei a uma idade em que essas coisas…” Guidon, 61 anos e solteira, ou “sábia” que pretende “permanecer sábia até a morte”, vai agora introduzir um sistema de vídeo com telão aonde muitos descendentes dos primeiros brasileiros estão só agora descobrindo a TV

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(divulgapiaui.com.br)

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O (próprio) passado não é importante para a arqueóloga que recuou o tempo dos primeiros homens na américa de 20 para 70 mil anos. Ela resiste em escavá-lo. Mas faz um “Resumo da ópera” pessoal: a paulista de Jaú formou-se em História Natural na USP, foi professora em escolas de pequenas cidades de interior, a mãe morreu quando tinha seis anos e o pai está com 90 anos, aposentado como fiscal de rendas do estado. Mais uma escavada, e revela:

  “Tive um problema. Éramos três professoras morando sozinhas. Também dirigíamos carro. E não íamos a missa aos domingos. Eu ainda tinha que falar de evolução em algumas aulas. Alunos perguntavam: mas, e Adão e Eva? Aí denunciaram que estávamos ensinando filosofia ateia e pregando amor livre. A Secretaria da Educação abriu um inquérito. Fomos absolvidas de qualquer erro, mas condenadas a partir por falta de clima para permanecer. Então nos comissionaram no Museu do Ipiranga, com vaga, na época, apenas no departamento de arqueologia”.

  Outra cavucada, e Guidon acrescenta: “Aí me perguntei o que era arqueologia. E descobri que não sabia a resposta. Fui ao diretor do museu para dizer que não poderia trabalhar, a menos que aprendesse. Só existiam cursos nos Estados Unidos, na Inglaterra ou na França”. Ela apostou na terra do avô, francês. E ganhou uma bolsa para a Sorbonne. Viveu Paris de 1961 a 62. E o Brasil do golpe militar de 1964, quando de novo a denunciaram, como subversiva. “Tinha ideias socialistas. Mas não fui uma socialista de carteirinha. E nem fiz política estudantil”. Mesmo assim a demitiram. Ela então voltou a ser professora e estreou no comércio até que uma tia relacionada aos militares aconselhou: “Suma”. E ela sumiu mesmo. Continua “sumida”, o lado franco mais pesado que o brasileiro, professora na Escola de altos Estudos em Ciências Sociais, com intervalos em que se transforma na dama das cavernas da Serra da Capivara, no sertão do Piauí, sob o patrocínio oficial da França e apoio da Itália.

  Madame Guidon não apagou em Paris a lembrança dos “bordados de pedra” que viu em 1963 nas fotos levadas ao Museu do Ipiranga pelo então (e atual) prefeito de São Raimundo Nonato, Gaspar Dias. “Era uma arte diferente de tudo aquilo que existia na literatura”, ela lembra. Tentou ver de perto, mas não passou de Petrolina, à beira do rio São Francisco, em Pernambuco, barrada por uma ponte caída. Conseguiu, sete anos depois, ao final de uma expedição franco-brasileira a tribos indígenas em Goiás: “Levamos uma semana rodando de jipe por um areão infernal”. Mas foi um vernissage pré-histórico. “Ah, vi que os desenhos eram de um gênero ainda desconhecido no Brasil. Catei cacos de cerâmica. E tirei fotos”. A França, interessada, logo liberou verbas para uma missão, em 1975, depois repetida em 1978. Hoje já são mais de 400 galerias, com um acervo de 25 mil cenas coloridas de sexo, dança, caça, animais, guerra, colheita e jogos, pintadas entre 17 e 12 mil anos, numa extraordinária paisagem esculpida pela erosão.

imagem015  O trabalho de desvendar a coleção de arte pré-histórica do Piauí foi passado há 13 anos a uma antropóloga francesa, Anne-Marie Pessis. Ela se adaptou à caatinga sem abandonar o perfume Rive Gauche. Alguns desenhos são de homens com pênis gigantes – “talvez símbolos de poder, como um cocar”. Já as mulheres têm a vagina representada fora do corpo, portátil. E há figuras sem sexo definido. As cenas variam do beijo ao sexo grupal. Nada por acaso: os primeiros artistas brasileiros dão aos especialistas a clara intenção de “registrar, marcar o cotidiano”. Guidon escreveu o livro Peintures Prehistoriques du Brèsil, publicado na França, em 1991, mas acabou se dedicando totalmente à chefia de uma pesquisa global, que incluiu zoólogos, geólogos e botânicos. O Brasil começou a coparticipar via Conselho Nacional de Pesquisas (antigo CNPq), o governo do Piauí, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), e os institutos de Desenvolvimento Florestal (IBDF) e o de Meio ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Um projeto de proteger os 130 mil hectares da Serra da Capivara com um Parque Nacional, anunciado em 1979, só nasceu depois de uma difícil gestação de nove anos, dando tempo a devastação de algumas áreas de caatinga virgem, primária, e a chegada dos grafiteiros. A ONU logo o batizou de Patrimônio da Humanidade.

  As comunidades vizinhas ao Parque Nacional entraram nos planos de Guidon. “Partimos do princípio de que preservação da natureza é um luxo que só existe quando se tem o suficiente para sobreviver. Quem está com fome vai caçar mesmo”. Ela se tornou “mãe” para 600 crianças: deu-lhes três escolas, três refeições por dia, chuveiro com água em plena seca, e postos de saúde. E um “pai” para os sertanejos sucessores dos índios Pimenteiras e Jaicós: ensinou-lhes a ler e escrever, a escavar e peneirar os tesouros arqueológicos sob seus pés, e os preparou para o turismo e a apicultura. Ê uma “cabra-macho”, dizem de madame Guidon, 1,5 metro de altura, porque ela pilota trator, escala íngremes paredões, sobreviveu ao ataque de abelhas que a furaram com 200 picadas, trabalha direto de 4 da madrugada às 10 da noite enfrentando pedreiros, posseiros, prefeitos e até preconceitos científicos ao desbravar a pré-história do continente americano.

(www.saoraimundo.com)

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  Um telefonema de Paris localizou Guidon em Teresina, num dia de 1981. “Temos duas datações de 25 mil anos”, ela ouviu diretamente do laboratório. E respondeu: “Não, vocês misturaram as amostras. Não pode ser: na américa do Sul não tem nada dessa idade. Impossível”. O chefe entrou na linha: “Por isso estou telefonando. Quero que amplie as escavações. O carvão que você nos mandou tem 25 mil anos”. A sondagem aprofundou oito metros. E cada metro representou um salto de 10 mil anos. “A datação mais antiga que já temos é de 48.700 anos”, ela conta. “E ainda há material mais abaixo que ultrapassa o limite de medição do Carbono-14. Estamos aplicando outras tecnologias. Mas podemos calcular que os primeiros homens chegaram há 70 mil anos na Pedra Furada”.

  Chovia muito no sertão há 22 mil anos. “Era uma imensa quantidade de água” – e Guidon aponta para um vale ressequido, acrescentando: “Ali corria um caudaloso rio”. Antes, há 70 milhões de anos, as ondas do mar vinham bater por aqui. Grandes animais rondavam até 10 mil anos atrás a Pedra Furada – esse buraco de 15 metros de diâmetro num paredão com mais de 60 metros de altura, o cartão postal da Serra da Capivara que os franco-sertanejos apelidaram de Arco do Triunfo. Manadas de mastodontes e de superlhamas dominavam a paisagem. Os bichos-preguiça chegavam a ter oito metros de altura. E dos tigres dente-de-sabre restou uma preciosa mandíbula que disputa com um pedaço de crânio fossilizado, a cerâmica de 8.960 anos e um machado de pedra polida de 9.200 anos, o lugar de honra no Museu do Homem Americano, recém-fundado em São Raimundo Nonato.

  Um exame de fezes fossilizadas (coprólitos) do homo sapiens sapiens abala a tese de que os descobridores pré-históricos da América vieram da Ásia por um tapete gelado formado no Estreito de Behring. Elementar, como explica Guidon: “detectou-se a presença do Ancilóstomo, o verme do amarelão. Ê um parasita de clima quente. Ele não resistiria ao frio do Polo Norte. Até hoje não o encontraram na Ásia nem nos Estados Unidos. E ele existe na África e no Mediterrâneo. A tribo que chegou ao Piauí veio por um caminho quente”. Mas ela não rejeita nenhuma hipótese, e acrescenta outras: viagens por mar, através das ilhas aleutas, ou pelo Atlântico. Falta-lhe uma ossada para uma conclusão científica. O esqueleto mais antigo desenterrado na Serra da Capivara tem dez mil anos. A acidez da areia de clima tropical úmido corroeu os mortos pré-históricos.

  A dama das cavernas vai logo voltar à rotina de madame em Paris. “Importante”, diz Guidon: “Este trabalho não é meu. Sozinha não o teria feito nunca. Agora chegou o momento de ir me retirando aos poucos”. Ela tem que reassumir em dezembro seu posto na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais. Precisa trabalhar: “Gasto o que ganho, porque o que a gente leva do mundo é o que viveu de bonito”. Para Cloet, Dachta e Mimo, os três cachorrinhos, já assegurou uma herança em dólares para que “vivam como sempre viveram”. Como antes, então, virá a São Raimundo Nonato só durante as férias, para continuar as escavações na Toca do Caldeirão do Rodrigues, iniciadas pelo arqueólogo italiano Fabio Parenti, 36 anos, autor de uma tese de doutoramento que formalizou para a comunidade científica as datações mais antigas da Serra da Capivara. Espera aterrissar num aeroporto já dentro da cidade, e não mais há 300 quilômetros, em Petrolina. Ela também quer encontrar um Parque Nacional funcionando como uma Disneylândia da pré-história. Está deixando pronto o projeto, com espetáculos de luz e som, grutas iluminadas por energia solar, hotel cinco estrelas, plataformas para mergulhos de asa-delta, cânions para escalar, anfiteatros naturais e guias formados. No antigo quartel da PM em que vive, ela começou a transferir a administração da Fundação Museu do Homem Americano (Fundham) para uma profissional contratada. E já escuta ao longe a Flauta Mágica.

Dubai!



O gênio da ostra

maravilhosa.

E os Mil e Um 

recordes de Dubai.

ra uma vez um beduíno pescador que catou uma concha no fundo do mar da Arábia. Ele não poderia fazer a menor ideia do que encontrado. Vivia a 1500 anos da pérola hoje considerada a mais antiga do mundo, datada entre 5547 e 5235 a.C., e exumada de um túmulo por arqueólogos franceses. Tão distantes no tempo, e tão próximas! A concha na origem (e futuro) de Dubai, e a pérola com que o morto de Umm al Quwain partiu para o além, posta sobre seu lábio superior há muito dessecado, estavam separadas apenas 44,4 quilômetros uma da outra, no deserto atualmente compartilhado pelos sete Emirados Árabes Unidos (EAU).

Ao abrir a inusitada concha, o pescador neolítico deve ter liberado algum gênio, como Aladim e sua Lâmpada Maravilhosa. Materializou-se um poderoso ímã que atraiu caravanas de beduínos do Iêmen, Egito, Iraque, Arábia Saudita e Oman, constituindo uma vila que prosperou com a pesca e caça à pérola, já então um precioso talismã. Milênios sem dar o ar de sua graça, há 25 anos parece ter saído do… (desculpem-me) ostracismo: só pode ser ele o mago por trás do melhor, maior, mais alto, mais rico e outros tantos superlativos e recordes que se tornaram sinônimo de Dubai – “rastejar” em árabe.

Outro mago, o brasileiro Paulo Coelho, ganhou do sheik-poeta Mohammed Bin Rashid Al Maktoum, emir de Dubai e vice-presidente da união dos emirados, uma mansão de US$ 4,5 milhões (Pelé, Beckham e Schumacher, também). Mas ele não seria assim poderoso como o Aladim das ostras, mais para Ali Babá, Simbad e Xerazade, dos contos das Mil e Uma Noites, do que para Alquimista. Parece miragem a paisagem de opulência, com o horizonte de 600 arranha-céus (até novembro), no deserto batido por frequentes tempestades de areia. Mais de perto é um desfile marcante de contrários: nas ruas, camelos e Ferraris, mulheres tampadas por abbaya preta (cloak – disfarce, em inglês), escondendo roupas e lingeries de grifes da moda; e nas praias, o burkini, que descobre só olhos e mãos, enquanto turistas se despem em sumários biquínis. Os homens vestem branco imaculado, até na keffiah, o pano enrolado na cabeça.

(Pérolas são poder, saúde, sorte, sabedoria, pureza, inocência. Adornam os fiéis de Alá, no Alcorão. Jesus as equiparou ao reino do céu, e pregou: “…não as lanceis aos porcos”. No Cântico dos Cânticos, elas marcam a revelação divina a Moisés no Sinai – a própria Torá, o livro sagrado dos judeus. Os gregos as congelaram das lágrimas de alegria de Afrodite; para os romanos a pérola é Vênus, nascida de uma ostra – ambas deusas do amor. Os hindus creditam ao deus Krishna a façanha de trazer à tona a primeira do mundo, quando procurava o que dar de presente de casamento para sua filha, Pandaïa. Mas só os chineses sabem que elas se escondem no cérebro dos dragões. E os poetas veem o beijo da lua no mar como o momento sublime em que são concebidas, filhas da beleza. )

Lulu ou gamashah, ostra em árabe, sustentou Dubai até a década de 40, quando o cultivo de pérolas em fazendas marinhas, bem mais fácil e produtivo, substituiu a caça no fundo do mar. A Arábia perdeu o fôlego. E o Japão emergiu para garantir as joias das coroas, colares e anéis de monarquias, dos ricos, das noivas e dos mitos em todo o mundo. Foi o filho de um fabricante de talharim, Kokichi Mikimoto, quem patenteou, em 1896, o seu método de inocular microrganismos nas conchas, atiçando-as a se defender secretando o nácar, que é a mãe da pérola – a madrepérola. Na natureza, basta um grão de areia para desencadear as camadas de calcário brilhante e rosado que formarão a bolinha de gude preciosa. Na linha de montagem japonesa até a cor, entre tons mais escuros e esbranquiçados, pode ser determinada. Depende do freguês.

Lula criou o bordão NANP – Nunca Antes Nestepaiz. Em Dubai o ufanismo vai bem mais além, ambicioso: Nunca Antes no Mundo (NAM). O impossível, seja adjetivo ou substantivo, foi banido do dicionário. Acabou a Lulu? O Aladim das ostras a substitui por outra preciosidade, o ouro negro. O petróleo jorra desde 1960, secando a terceira maior reserva do mundo. Emerjamos à tona das águas do Golfo Pérsico com as lulus, lulas e tesouros das Mil e Uma Noites. Vamos às alturas explorar a obsessão dubaiense: recordes.

O mais alto do mundo

O mais alto do mundo

Pessoalmente, o recorde em Dubai que mais me afetou, dolorido por muito tempo, foi o dos torcicolos. O contágio se dá ao pé do edifício Burj Khalifa, onde turistas torcem o pescoço para ver o topo, o “No Topo”, a 828 metros. NAM uma torre chegou tão alto! E se por acaso alguma chegar, será derrotada por uma antena regra-três, nem um pouco secreta, que, alçada, baterá o recorde do recorde. Seus 57 elevadores engolem 10 andares por segundo. Param no 124, a 452 metros de altura, o máximo permitido aos visitantes. Que alívio dos 50 graus de calor no chão, lá fora! A brisa penetra pelas frestas do paredão de vidro, que dá a volta de 360 graus sobre a vastidão do deserto, o litoral do Irã, o estreito de Ormuz e o Golfo Pérsico.

Nos primeiros 37 andares desta cidade vertical, NAM!, outro recorde dentro do recorde: o pioneiro hotel do estilista Giorgio Armani. O menor preço para quem quiser dormir ao menos uma das Mil e Uma Noites é o de R$ 500, dentro de um pacote comprado antecipadamente. Passar oito dias na Suíte Fountain custará R$ 20 mil. Temos ainda o recorde do recorde do recorde: os 700 apartamentos de Burj (Torre) Khalifa, entre os andares 45 e 108, foram vendidos em oito horas. Os árabes dos países vizinhos formam a maioria dos proprietários, alguns em busca de refúgio seguro caso a Primavera Árabe ainda dê uma nova florada de democracia no Oriente Médio.

O Burj Al Arab, Torre das Arábias, já foi recordista de hotel mais alto, com 321 metros, até que a Rose Tower, em Dubai mesmo, a superou. Perdeu a pose, mas não as exclusividades que a tornam um NAM. Tem sete estrelas, numa avaliação em que cinco são o máximo. Seu apartamento mais barato sai por US$ 1.000/noite; e o mais caro, US$ 28.000/noite. O ouro da decoração começa no hall de entrada e adentra os quartos. Por fora, é uma vela imensa de um dhow, o barquinho árabe que vai e vem no estuário da cidade por 1 dirham (US$ 0,20), e um mastro gigantesco com duas colunas em forma de V. O hotel navega sobre a ilha artificial Palm Jumeirah, que forma uma palmeira com duas outras ilhas, o Palm Islands – o maior arquipélago feito à mão do mundo.

Burj-arab

Burj-arab

Tudo em Dubai é faraônico. As réplicas das pirâmides na Dubailand em construção, já o dobro da Disneylândia, serão maiores que as originais egípcias. A megalomania chega a ser canibalesca: o projetado centro comercial Mohammed Bin Rashid vai desbancar do Guiness o shopping Dubai, com seus 350 mil metros quadrados e 1200 lojas. Não bastasse, ainda terá mais de 100 hotéis, um lago NAM (no deserto!) e um parque de fazer sombra ao Hyde Park, de Londres. O emirado já tem o recordista Jardim do Milagre, com 45 milhões de flores, uma super-horta só de plantas medicinais e um borboletário que está no casulo. Golfe? Aqui, uma controvérsia: os dubaienses dizem que NAM existiu um melhor que o deles, em Meydan. Mas os aficionados votam nos norte-americanos. Imbatível, porém, é a estação de esqui dentro do shopping dos Emirados, a maior etc., etc.. Lá fora, o calor infernal; aqui, nos Alpes das dunas, -2ºC, e cai neve realmente.

Existem recordes não contabilizados. O de trabalhadores estrangeiros no emirado, por exemplo. Só a construção do Burj Khalifa reuniu 12 mil operários de 80 nacionalidades. Hoje a legião estrangeira é dominada por bengalis, filipinos e indianos. As empresas que os trazem confiscam passaportes para que, arrependidos, não fujam. O outono da Primavera Árabe também trouxe fugitivos da Líbia, Egito, Iêmen, Síria e Tunísia. Mas brimos têm outro status.

NAM um país quebrou como Dubai, soterrado por uma duna de US$ 100 bilhões em dívidas, em 2009. O mundo enfrentava a crise financeira da bolha imobiliária dos EUA. E o emirado investia num cassino etc., etc., em Las Vegas. Apostou US$ 5 bilhões, e perdeu. Jogou US$ 1 bilhão na livraria Barnes & Noble de Nova Iorque, quando o e-book abria um novo mercado. Mas o pior foi a estatal dubaiense Emaar Properties comprar, por US$ 1,05 bilhão, a construtora americana John Laing Homes, que então fechou as portas. O que seria um sonho de brasileiros é creditado como mais uma das causas que levou o Daily Mail, de Londres, a titular: “Bye, Bye Dubai”. É que, aqui, não há imposto de renda para pessoa física ou jurídica, e nem sobre lucros de capital.

Mas a manchete se despedindo de Dubai foi precipitada. Sheik Khalifa Bin Zayed Al Nahyan, presidente da união dos sete emirados e autócrata de Abu Dhabi, veio em socorro do vizinho sheik Mohammed Bin Rashid Al Maktoum. Não por acaso a torre mais alta do mundo foi batizada de Burj Khalifa. Salva, solvente, Dubai voltou à efervescência, caçando novos recordes. Eleita anfitriã da Expo Mundial de 2020, em disputa com São Paulo, haja Guiness para incluir seis anos de projetos mirabolantes. O primeiro título já foi descoberto: NAM tal evento ocorreu no MENASA (Middle East + North Africa + South Asia). Sob o lema “Conectando Mentes, Criando o Futuro”, US$ 20 bilhões serão investidos (e cá entre nós, se o “brimo” Fernando Haddad ganhasse o “prêmio” de receber 20 milhões de visitantes, em 2020, nem com um IPTU cobrado NANP e NAM reuniria recursos suficientes).

O aeroporto internacional de Dubai, entre os dez melhores do mundo, com 14 milhões de passageiros/ano, imenso centro comercial e muita organização e eficiência, já é considerado pequeno. O novo, Maktoun, deverá receber até 150 milhões de passageiros/ano, parte do projeto Aerotrópolis, uma cidade com serviços e indústria integrados ao porto de Jebel Ali, hoje o mais movimentado entre Singapura e Europa. Passei por lá uma noite. Impressiona ver o que foi importado – geladeiras, televisores, máquinas de lavar, computadores -, guardado num espaço aberto, à mostra, ao alcance da mão, e sem nenhum guarda ou vigilante por perto. A guia brasileira Jaysa Pinheiro explicou: – Ninguém toca, aqui não tem assaltos.

A Emirates, com dois voos de 15 horas diários para o Brasil, foi a… recordista em compras no Show Aéreo de novembro de 2013, montado no futuro aeroporto de Dubai, a 50 km do centro: 150 Boeing 777 mini-jumbos, por US$ 76 bi, e mais 50 Airbus A380, por US$ 23 bi. NAM! Provavelmente o destino de tantos aviões será o de conquistar os asiáticos para os voos às Américas, África e Europa. E o contrário, também. O show foi um sucesso: as vendas somaram astronômicos US$ 206,1 bi. Armaram estandes no pedaço asfaltado do deserto para 1.046 exibidores de 60 países. A Embraer estava lá.

Foi num momento do show aéreo que teve início um inesperado show terrestre, naquele cenário de helicópteros, drones e caças-bombardeiros torrando ao sol. Uma multidão de homens de branco seguia a apressada Sua Alteza, à frente de todos. Vestia a galabya branca, mas com alguns panos marrons por cima. Só ele. Era o emir Mohammed Bin Rashid Al Maktoum em pessoa, um rosto popularizado por inúmeros pôsteres e fotos frequentes na paisagem. Entrou (e todos o seguiram) e saiu (com a caravana atrás) dos aviões de transporte civil da próxima geração. Mulher árabe ali? Nenhuma.

Também fui atrás de Sua Alteza, entrando na caravana – e nela havia um grupo que só queria a chance para um selfie com o sheik Mohammed. Ele saiu do sol de mais de 50 graus para uma área ar-condicionada. Sobrei. Puxaram-me para fora do séquito. Era o único com roupa “civil”, muito visível. Mesmo credenciado, dali não dei mais um passo; só meia-volta, volver!

Os Maktoun reinam em Dubai desde que deixaram Abu Dhabi, em 1833. Parte de sua tribo, a Bani Yas, a maior que existia, com ramificações até no Catar, adotou o povoado de casas feitas de gesso e lascas de coral e ostras dos caçadores de pérola e peixes. É o que se vê ainda hoje no bairro mais antigo do reino, Bastakiya. Ponto turístico e de partida para os guias, estava para ser destruído e dar lugar a novo projeto. Salvou-o, por pouco, o príncipe Charles, da Grã-Bretanha. Soprou para o sheik Mohammed a palavra “preservar”. E foi atendido.

Bastakya

Bastakya

O “guru cultural” de Bastakiya, Nasif Kayed, faz parte do roteiro turístico. É o diretor do Centro para o Entendimento Cultural Sheik Mohammed. Ele leva infiéis e mulheres, desde que com os ombros cobertos, para dentro da mesquita do bairro, e lá deixa que assistam a uma das cinco orações do dia, uma liberalidade rara no rígido mundo islamita. O encontro termina com um almoço, a comida sobre um tapete no chão. As ruelas estreitas são consideradas precursoras do ar-condicionado, canais de brisa constante.

Em Deira, outro bairro antigo, descobre-se o que falta nas ruas do restante da cidade: gente. Aqui é o mercado árabe de especiarias e também de ouro, que tomou o lugar das pérolas. Vielas apinhadas, pequenas lojas transbordando de fregueses, o cheiro de açafrão pairando no ar. No centro, as ruas são, na verdade, avenidas mais largas que as brasilienses. Pedestres circulam por passarelas. Viajam de metrô sem motorneiro. Poucos se arriscam a ficar sob o sol. Multidões só dentro dos shoppings-centers, a Meca do consumo, ou nos bares dos últimos andares dos altos hotéis, em que se sobe trocando duas ou três vezes de elevadores.

O sheik Al Maktoun no poder, 65, é filho de Rashid Bin Saeed Al Maktoun, e tem um diploma inglês, duas mulheres e 21 filhos, três dos quais medalhistas em equitação. Os cavalos dividem seu coração com a poesia, consideradas “duas paixões”. Acabou de lançar “Poemas do Deserto”, com prefácio de Paulo Coelho.

“Escrever é um ato de coragem” – ele escreveu.“Mas vale a pena correr o risco, e os poemas de Sua Alteza ajudam a entender melhor a alma do homem e a herança da nação”.

Sua Alteza é o proprietário de 99,67% da Dubai Holding. O petróleo, 7% na economia do emirado, não importa mais que a diversidade que faz a fortuna do PIB nominal de US$ 54.607 per capita. O turismo rende fluxo constante de receita, e aumenta sempre. Em 2012, foram 11 milhões de visitantes; agora, a nova meta é 15. A Primavera Árabe nos países vizinhos teve a influência de levar o sheik para mais perto de seus súditos. Mais do que Revolução os dubaienses querem Evolução. Ao contrário da maioria no Oriente Médio são pró-EUA abertamente: emprestaram seus portos e aeroportos para forças internacionais que por duas vezes combateram o Iraque de Saddam Hussein. Aceitou ainda que o serviço secreto americano montasse uma sucursal de espionagem em algum oásis não identificado de seu deserto, com o foco principal no Oriente Médio.

Consta que Dubai coleciona 59 recordes no Guiness. No último réveillon, então, chegou ao 60º: NAM se viu tão prolongado foguetório – embora por ali os muçulmanos estejam no ano de 1434 e os judeus chegarão a 5775 em 2014. Pouco depois da meia-noite, lá seis horas antes que no Brasil, começou a circular a notícia pela Internet.

Dubai Sets a Guinness World Record for the Largest Fireworks Show with Over 500,000 Fireworks.

   Um passeio pelo deserto é a volta às origens de Dubai. Dunas de areia como ondas do mar. Beduínos com seus camelos. Alguns órix pastando um capim invisível. Falcões domesticados (mas não os teste como papagaios fossem, que ficará sem dedo ou mão). O vento sopra carregado de areia. A caravana de Toyota 4×4 com pneus esvaziados surfa escorregando, atolando e provocando a parte de “aventura” prometida na Aventura nas Arábias. A excursão começa em tempo de parar em uma duna de onde se avista o sol se pondo. Já noite, num oásis de beduínos, a iluminação fraca, aparece Sumaya, mestra de dança do ventre. NANP: ela é brasileira, do interior do Maranhão. Está em temporada em Dubai, mas seu palco abrange o Oriente Médio.

   Falando das pérolas que originaram Dubai, um beduíno retrucou com um pequeno conto digno das Mil e Uma Noites: “Uma vez, perdi-me no deserto, sem provisões. Estava prestes a morrer quando, subitamente, vi de longe um saco. Nunca esquecerei a alegria que senti ao pensar que o saco continha grãos de trigo fritos, e, depois, a minha amargura e desespero quando descobri que só continha pérolas!”.

(fotos freeimages, rabinovici, agência do governo de Dubai)

O livro de ouro dos mórmons

O anjo com trombeta é Moroni.

Um novo mórmon a cada 90 segundos, ou 950 por dia, 350 mil por ano, e uma receita anual de US$5,9 bilhões, dão hoje à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias um reino espiritual de 10 milhões de fiéis e um império material de mais de US$30 bilhões, reinvestidos na expansão mundial que só em São Paulo já inclui a construção de 90 novas capelas.

“Estamos construindo casas de Deus para o próximo milênio” – diz via Internet (www.lds.org) o atual “profeta” dos mórmons, Gordon B. Hinckley, presidente da LDS, acrônimo em inglês de Latter-day Saints, ou Santos dos Últimos Dias, como é mais conhecida a igreja mormônica em sua “terra prometida”, Salt Lake City, em Utah, no oeste norte-americano.

A imobiliária paulista Sitehunters recebeu a incumbência de localizar 80 terrenos em São Paulo para a fundação de novas “estacas” (dioceses, atualmente 170 no Brasil); “alas” (paróquias, já 1.320); distritos (54); “ramos” (paróquias distritais, 263); e missões (hoje 23, com 3.700 missionários brasileiros e estrangeiros). O Brasil e o México são os países em que os mórmons mais crescem no mundo, depois dos Estados Unidos.

Os mórmons creem que Jesus Cristo, ao ressuscitar, tenha ido pregar aos indígenas americanos, que seriam uma das tribos de Israel reduzida à apostasia pelas igrejas cristãs do Velho Mundo. Para eles, Deus, em 1820, também restaurou a religião dos “últimos dias”, enviando o anjo Moroni para revelar novas escrituras a um simples menino de 14 anos, Joseph Smith, que morava numa fazenda perto Palmyra, em Nova York.

Templo Mórmon em São Paulo

Templo Mórmon em São Paulo

As revelações, em placas de ouro, escritas em “egípcio reformado” e atualizadas diretamente por Deus, Jesus Cristo, João Batista, São Pedro e São João, são o Livro de Mórmon, impresso por Smith em 1830. Uma de suas últimas revelações é a de que Jesus Cristo voltará à terra para reinar por mil anos. A nova Jerusalém será o Condado de Jackson, no Missouri, onde os LDS, abençoados por um milagre econômico que os colocou acima de empresas como a Nike e a Gap entre as 500 maiores da revista Fortune, já compraram 5.900 hectares de terra.

Capa da revista Time em agosto, vilipendiados quando se organizaram há 167 anos, mas hoje admirados, os mórmons têm 4 senadores, 28 deputados federais e 4 governadores nos Estados Unidos; e um vice-governador no Brasil, o cearense Moroni Torgni (PSDB); 56 mil missionários (3.700 no Brasil), 11.600 capelas e 50 templos em 160 países; 16 estações de rádio e 1 TV, a revista Deseret News, a cadeia de livraria Deseret Books, a Universidade Brigham Young em Utah, com uma extensão em Jerusalém, e a Faculdade Ricks, em Idaho; a maior produção mundial de carne e de amendoim, 50 fazendas, 100 propriedades pelo “Sistema de Bem-Estar”; indústrias de sabão e de enlatados de atum e pêssego em calda; agências de viagem, imobiliárias e companhia de seguro.

O material e o espiritual não brigam entre os Santos dos Últimos Dias. O bispo paulista Vladimir Campione, de 43 anos, até mesmo os corporifica, ganhando a vida (temporal) com uma empresa de marketing.

Estado – Ninguém melhor do que o senhor poderia explicar qual o marketing de tanto sucesso mundial dos mórmons…

Bispo VC – É o marketing boca a boca. Mas o sucesso não está ligado a marketing. O que conta, realmente, é o entendimento de nossa mensagem, tão limpa, tão clara! Não nos consideramos os donos da verdade. Cada qual deve decidir-se por si próprio se entra ou não para a igreja.

Estado – No seu caso, como foi?

Bispo VC – Um amigo me convidou para visitar a igreja numa noite cultural. Os mórmons também se divertem! Um ancião simpático cantava, a voz trêmula. Senti empatia por todo lado. Ninguém gritava: “Aleluia!” Se ouvisse um desses gritos, daria no pé.

Campione ainda participou de uma “reunião sacramental”, o equivalente à missa, mas o vinho substituído por água, que os mórmons não bebem álcool, nem café ou chá preto. Tinha 20 anos. Era católico, não praticante. Seduziu-o não ser forçado a crer, “só a compreender”. Então, concluiu: “Esta é a igreja do politicamente correto” – embora até 1978 os mais baixos escalões em sua hierarquia fossem proibidos aos negros, e a poligamia ter vigorado por 49 anos, a partir de 1831, quando a sancionou o primeiro “profeta” Joseph Smith, sucedido pelo “profeta” Brigham Young (1801-1877), que já teve 17 mulheres e 56 filhos.

“É vedada qualquer discriminação de raça, sexo, cor, origem, condição social e idade”, advertem hoje os Santos dos Últimos Dias em placas visíveis em toda congregação. Aberta aos negros, a igreja conquistou 110 mil fiéis em 24 países africanos. Também alçou aos quadros da direção mundial um negro brasileiro, Helvécio Martins, ex-professor de economia da UFRJ.

A bandeira brasileira está içada entre a capela e o único templo da igreja no Brasil, o primeiro da América do Sul, construído há 19 anos num terreno de 21 mil metros quadrados na avenida Francisco Morato, 2.430, no Caxingui, em São Paulo. “Simboliza nosso respeito ao governo e às leis”, explica o bispo Campione. “Não nos importa o partido que detém o poder”, ele ainda ressalta. “Um fiel pode ser petista, ou psdebista, mas dentro da igreja ninguém faz política, nem usa ou empresta a listagem de nomes e endereços para correio político”.

Os mórmons (“superiormente bons”, em “egípcio reformado”) têm a reputação de incorruptíveis. A central de inteligência dos Estados Unidos (a CIA) e também o FBI, a polícia federal, os cortejam querendo empregá-los. No Brasil dos anões do orçamento, do escândalo dos precatórios, da compra de votos e do “frangogate”, eles enfrentam problemas. Um “habite-se” que pode ser concedido rapidamente, estimulado por propina, leva meses para os Santos dos Últimos Dias. Com despachantes proibidos de subornar, também fica emperrada a liberação de equipamentos importados da igreja matriz em Salt Lake City. “Mas ser mórmon não confere a ninguém um atestado automático de incorruptibilidade”, alerta o bispo Campione. “Não é assim, bambambã: não há perfeitos na igreja”.

Estado – Como é ser incorruptível em meio a tanta corrupção?

Missionário Joshua Carr – Temos que viver no mundo, mas não como o mundo vive…

Estado – Um notório corrupto pode se tornar mórmon?

Carr – São três os princípios básicos da conversão: fé, arrependimento e batismo. Quem passar por estes três estágios, e com sinceridade, não será mais corrupto – mas um mórmon.

Inconfundíveis, esses missionários: cabelo cortado à escovinha, camisa branca de manga curta, gravata e um crachá preto no peito, e a aura de quem “encontrou o caminho na vida”. Confiantes e sorridentes, eles batem de porta em porta como vendedoras de cosméticos da Avon. Andam em dupla, mas não escolhem o parceiro. Têm entre 18 e 26 anos. Servem no mundo, mas não escolhem o país – os homens, por 2 anos; e as mulheres, 18 meses. Não ganham um centavo: são sustentados pela própria família.

O missionário Joshua Carr, de 20 anos, nascido na pecaminosa Las Vegas, está encerrando sua temporada no Brasil. Logo voltará à “terra prometida”, Salt Lake City, para estudar Odontologia. Acabado de chegar de Paradise (Paraíso), na Califórnia, Bryan Reeve, de 19 anos, tem dois anos pela frente. Ambos são fluentes em português, a língua mais falada pelos mórmons depois do inglês e espanhol, ensinada no centro de treinamento de Provo, em Utah, onde há cursos de 41 idiomas.

“O brasileiro é um povo abençoado”, acreditam Carr e Reeve, testemunhas e promotores da taxa explosiva de conversões ao mormonismo. Os pioneiros Santos dos Últimos Dias no Brasil foram imigrantes alemães que chegaram em 1923. Os primeiros missionários de Utah os reforçaram em 1928. A primeira igreja da América do Sul surgiu em Joinville, em Santa Catarina, em 1931. A literatura mormônica começou a ser traduzida para o português em 1938. E o “profeta” Gordon B. Hinckley acabou de declarar, via Internet, que “Campinas (SP) tem grande necessidade de um templo”.

Estado – O que os missionários dizem de tão convincente?

Carr e Reeve – Temos uma técnica: focalizamos áreas em particular. Auto-suficiência, por exemplo. Mostramos como é importante ser independente, estudar, ter emprego. E convidamos todos a visitar a igreja. Quem vier verá o que somos. Mas em nossas capelas não forçamos a evangelização.

Estado – Qual é a mensagem?

   Carr – Uma mensagem forte… muito forte. Mensagem de família e de respeito. Primeiro, fé em Jesus Cristo; segundo, arrependimento; e terceiro, batismo por imersão para remissão dos pecados.

Os Santos dos Últimos Dias não acreditam em pecado original. “Cremos que os homens serão punidos pelos seus próprios pecados e não pela transgressão de Adão”, disse o primeiro profeta, Joseph Smith. A teologia mórmon reconhece “ser a Bíblia a palavra de Deus”, mas acrescenta-lhe o Livro de mórmon, com as novas revelações já feitas ou que ainda serão feitas a “profetas vivos”. Os missionários pregam a honestidade, castidade, benevolência e virtuosidade; a submissão a reis, presidentes, governadores e juizes; e acenam com uma futura “coligação de Israel” e a restauração das Dez Tribos numa Sião no continente americano.

Os pioneiros

Os pioneiros

Não há crucifixos nas capelas. Nem imagem de santos. Os templos são proibidos aos não-iniciados porque usados exclusivamente para rituais sagrados, como o “selamento” (casamento) e a “ordenança para os mortos” (batismo por procuração para a salvação de ancestrais dos fiéis).

Os mórmons não casam “até que a morte os separe”, mas para a eternidade. E como podem salvar antepassados, reuniram o maior acervo genealógico do mundo, com 7 milhões de livros de 300 páginas cada, repletos de registros microfilmados, mesmo de brasileiros, copiados em cartórios, cemitérios e em listas de navios negreiros. Os originais estão guardados numa biblioteca perfurada numa montanha de granito em Salt Lake City, protegidos de explosão nuclear ou do impacto direto de mísseis, com um sistema de refrigeração munido de filtros que vedam não só o pó, mas também a poeira radioativa. Em São Paulo, o arquivo é muito procurado por descendentes de europeus que querem um passaporte da União Européia.

O templo paulista dos Santos dos Últimos Dias só permaneceu aberto à visitação pública entre 5 e 29 de setembro de 1978, quando foi purificado “por recomendação” de Cristo. Construído “para Deus”, ele é “eterno”, todo em mármore, à prova de terremoto, decorado com cortina e carpete antifogo, e equipado com uma infra-estrutura de tratamento de água e ar comandada por computador. Uma agulha de 30 metros banhada a ouro o identifica em meio aos fast-food, postos de gasolina e um shopping-center no Caxingui, ao lado do bairro chique do Morumbi.

Os jardins em volta do templo são bem cuidados. A fonte, funcionando. Árvores dão sombra ao grande estacionamento, todo demarcado. Um oásis de silêncio com 4.925 metros quadrados, num terreno cinco vezes maior. Relatos da época em que 47 mil pessoas o visitaram destacam uma pia batismal sobre 12 bois representando as tribos de Israel. Uma entre 76 salas é a “Celestial”, com lustres e espelhos que refletem “o infinito”. Outra, a das noivas, tem um guarda-roupa com vestidos para o “selamento”. Nos fundos, os prédios da administração e alojamento para peregrinos de todo o Brasil.

Lembra os escritórios de grandes empresas americanas. Computador nas mesas das secretárias diante das salas dos executivos mórmons. Mulheres de saias que terminam nos tênis. Os homens de gravata – e há feições de todo o mundo. Nos cartões de visita, o nome dominante é Jesus Cristo – e, depois, pequeno, por exemplo, Antonio Fernandes, o diretor de Assuntos Públicos dos Santos dos Últimos Dias. A maioria tem e-mail, fax, telefone e celular.

Ex-radialista no Recife, Antonio Fernandes hoje conversa com o “profeta” durante freqüentes teleconferências. Numa quinta-feira de 1990 ele abriu a porta para dois missionários que perguntavam por um vizinho. No domingo já era mais um mórmon. “Assim descobri esta igreja”. Como todos os fiéis, 10% de sua renda bruta anual vão para os Santos dos Últimos Dias. O editor da revista mormônica independente Sunstone, Elbert Peck, contou à Time que a igreja-matriz em Salt Lake City controla cada centavo arrecadado e depositado em bancos. Em 1997, foram US$5,2 bilhões, dos quais US$300 milhões enviados de fora dos Estados Unidos.

Mas Antonio Fernandes também jejua no primeiro domingo de cada mês e dá aos Santos dos Últimos Dias mais o equivalente a duas refeições, R$10. Os mórmons são generosos nos donativos. Construíram galpões para abrigar os sem-teto do terremoto de 1988 na Armênia. Contribuem com hospitais infantis e bancos de alimentos. E doaram US$100 milhões para um centro de câncer da Universidade de Utah. O que os diferencia das outras religiões que coletam dízimo, porém, é a capacidade única de multiplicar o dinheiro. Para a Time, pelo menos US$6 bilhões são investidos diretamente nas próprias empresas agrícolas, imobiliárias, agências de viagem, companhias de seguro e mídia. E os investimentos dão um retorno que excede US$600 milhões.

“A igreja ampara os fiéis desempregados ou que estejam em dificuldade”, diz Antonio Fernandes. Os Santos dos Últimos Dias abriram 97 agências de emprego nos Estados Unidos. Cada mórmon, porém, deve estocar alimentos e água em casa para um ano. Preparam-se, pois Cristo voltará ao fim de um período de muita flagelação. Na Praça do Bem-Estar, em Salt Lake City, estão estocados 9 milhões de quilos de trigo, o suficiente para alimentar uma pequena cidade por seis meses.

“Eu já usei minha dispensa uma vez”, comenta Antonio Fernandes.

Não é por acaso que o “guru da reengenharia da alma”, Stephen Covey, autor do bestseller Os Sete Hábitos das Pessoas Muito Eficazes, é mórmon, nascido em Utah, onde, ao chegar há exatos 150 anos, num êxodo de 2.092 quilômetros, fugindo de assassinos que mataram o “profeta” Joseph Smith a sudoeste de Nauoo, em Illinois, declarou solenemente o segundo “profeta” Brigham Young, como se avistando a Terra Prometida:

“Este é o lugar!”.

E plantou a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, que terá 260 milhões de fiéis em 2080, no Brasil e no mundo, num cálculo feito para a Time pelo sociólogo Rodney Stark, da Universidade de Washington.

Nota:

Artigo publicado em 1997 em O Estado de S. Paulo. Os números não estão atualizados.

Aos Amigos

Sempre lembram de mim perto do Natal. Não por ser judeu, evidentemente. Pelo judaísmo, o meu grande dia é o de malhar o Judas. Os mineiros levam a sério a delação não premiada de Jesus. Uma vovó em Minas foi quem melhor resumiu a minha condição judaica:
“Você é um menino tão bom… nem parece judeu”.
Lembram de mim no Natal porque vivi na Terra Santa e fui algumas vezes a Bethlehem, Casa do Pão (em hebraico) e da Carne (árabe); para nós, Belém. Sempre voltava da visita anual à Basílica da Natividade com garrafas do intragável vinho local.
Dali a alguns dias, partiria para o Brasil em férias, com escala na festa de Natal na casa de um amigo em Paris. O vinho bíblico causava certo impacto à mesa da ceia. Apontavam-no dizendo: “Veio da terra de Jesus!”. Mas todos bebiam mesmo o francês.
Pois o Natal em Belém é como seu vinho: uma decepção. Por cinco anos seguidos, a única “novidade” que revi foi um pinheirinho de verdade, brotando ao lado da delegacia de polícia, em frente à Natividade. Uma repórter americana levava fita métrica para anunciar aos cristãos dos EUA quantos centímetros crescera a futura árvore de Natal autêntica da cidade. O prefeito Elias Freij vivia seus dias de glória do ano, procurado por jornalistas do mundo inteiro. Mas fazia charme e só reclamava, como se estivesse diante do Muro das Lamentações, a alguns poucos quilômetros de distância, em Jerusalém. Lamentava:
— O Natal vai ser uma tristeza, por causa da guerra no Líbano, ou da ocupação israelense, dos combates em Gaza, da ascensão de aiatolá Khomeini no Irã, porque Yasser Arafat foi expulso de Beirute, por Sabra e Shatilla…
Uma única vez ele denunciou um culpado inesperado: a greve da companhia aérea jordaniana, o voo preferido dos peregrinos. Por ser baixinho, servia de explicação maldosa para a altura da porta da Basílica da Natividade, 1,25 metro. Ironizavam: “Só ele não se curva para entrar na igreja…” A verdade, porém, é que assim, baixinha, impedia as orações de fiéis a cavalo ou a camelo.
O canto do muezim convocando os muçulmanos às orações do dia soa mais poderoso e mais popular que os sinos da Natividade, inaugurada em 333 d.C.. E a noite de Natal se resume à Missa do Galo, transmitida ao vivo para o mundo porque, graças ao fuso horário, antecede a do Vaticano. A procissão vem de Jerusalém. À entrada, cruza a tumba de Raquel. Ali perto, em Hebron, jaz o patriarca de judeus e árabes, Abraão.
A estrela de prata, com 14 pontas, marca o exato local em que cristo nasceu. É uma gruta escura, iluminada por velas e lamparinas a óleo. Respira-se incenso. Os turistas descem uma escada, e saem subindo outra. Poucos são aqueles que se ajoelham e rezam, fechando os olhos aos flashes que capturam selfies para álbuns de recordações ou Instagram. Guias traduzem para várias línguas o que foi aqui inscrito em latim, em 1917: “hic de Virgine Maria, Jesus Christus natus est” (“Aqui Jesus Cristo nasceu da Vir­gem Maria”).
Todo Natal um ou dois peregrinos saem da Natividade direto para o manicômio, em Jerusalém. Incorporam Jesus. Em cinco dias, na companhia de outros Jesus e alguns São João Batista, voltam ao que eram, e ganham alta.
Feliz Natal!

Tombo na passarela

De tirar o boné (foto: divulgação).

De tirar o boné (foto: divulgação).

   Entre joias de Boucheron, Van Cleef, Arpels, Buccelatti e Chaumet, o luxo do hotel Ritz, a potência do Morgan Bank e o poder do Ministério da Justiça francês, instalado na casa em que morreu o compositor Frédéric Chopin, na Place Vendôme do rei Luís XIV, do imperador Napoleão, da rainha da moda, Coco Chanel, e da princesa Diana, em Paris, o estilista brasileiro Ocimar Versolato acaba de tomar uma decisão: tirou o boné, a sua marca registrada.

   “Não uso mais” — anunciou.

   A cabeça nua revela um Versolato que equipara o seu sucesso na recente temporada de desfiles em Paris “ao do filme Central do Brasil”, porque em ambos “houve muita sinergia, um boom de imprensa, uma histeria total de tudo quanto é lado”. Um careca em trégua financeira, em vigor desde 1998, com a associação à Ana Luíza Pessoa de Queiroz, tataraneta do presidente Epitácio Pessoa e representante de um grupo de usineiros do Nordeste, há mais de dez anos vivendo na França.

   O boné era permanente como o cigarro, sempre aceso. Fazia gênero na cabeça detalhista e obsessiva do único brasileiro jamais aceito pelo mínimo de 20 dos 24 estilistas da Câmara Sindical da Alta-Costura Parisiense. Por que o tirou? Versolato dá de ombros. Foi instintivo, como a moda que faz. Talvez uma “atitude”. Moda “é uma questão de atitude”, ele ensina. E não há griffe que vista uma atitude errada.

   Da sala de costura da mãe perto do Paço Municipal de São Bernardo do Campo, na periferia de São Paulo, ao auge da alta-costura francesa, foram 25 anos. Menino, ele viu tanques avançando contra metalúrgicos em greve. Hoje ele vive num mundo de 400 metros quadrados todo branco. Seu showroom ocupa o jardim de inverno de Chopin. E também há 1.200 canhões lá fora. Estão fundidos numa coluna com a estátua de Napoleão. “Queria um endereço luxuoso em Paris, longe dos outros estilistas”. Não poderia ter encontrado melhor. Só o rival Valentino é seu vizinho, mas com loja, não a “maison”, onde as roupas são feitas. Versolato ainda mora em três salões com vista para o Grand Palais. “Meus endereços dão um bom efeito”, diz.

   Manter os dois endereços e a paixão pelos três “F” de fashion (moda), food (comida) e films (filmes), dá trabalho. E ele “só vive para o trabalho”. Dorme três horas por noite, insone. Fica pensando em “tudo, tudo, tudo”. De manhã lembra uma frase do cineasta italiano Pier Paolo Pasolini: “Não sei por que o artista tem que executar a obra se só imaginá-la é tão bom!”. Versolato nem desenha as roupas sonhadas. Arma vestidos em modelos. As paredes de seu ateliê exibem dezenas de croquis, mas ele os trata com certo desprezo. Seu processo de criação requer três dimensões – o comprimento, a largura e a altura. Como um escultor, ele vai formatando o tecido, com o mínimo de pontos de costura. O resultado tem que ser confortável. E tornar a manequim mais bonita.

   Com filho tão pródigo, a mãe deixou de costurar e hoje tem uma cantina italiana em São Bernardo. Versolato continuou a aprender com Marie Rucki, diretora do Cours Berçot, em Paris. Ele a viu na TV quando tinha 13 anos. E a encontrou num curso em São Paulo, dez anos depois. Ela o convenceu a continuar estudando na França. Aceitou, formou-se como o melhor aluno e acabou enviado como representante francês a um concurso de moda na Suíça. “Daí fiz estágio com Versace, trabalhei com o estilista Hervé Léger por quatro anos, montei minha própria marca e passei um ano na maison Lanvin”. Foi o primeiro brasileiro a ser contratado por uma casa de alta moda em Paris.

   Versolato, com 38 anos, está agora expandindo. Já conta com 18 pontos de venda nos Estados Unidos, 12 na Europa e 30 no Brasil. Não diz o preço de suas roupas. “Já fiz vestido de US$ 50 mil e até de US$100 mil”, conta. Mas também de US$ 4 mil. Com uma calcinha na mão, explica: “Olha, este Versolato custa US$ 60”. A estratégia é diversificar mais: “Quero fazer até móveis para casa, mas com tempo, porque senão tropeço”. O seu último desfile mostrou 32 modelos com nuances de 12 tons de branco. A crítica o elogiou. Para ele, foi uma antecipação do ano 2.000. “Um mix (misto) de tudo, sob o tema geral da modernidade, a roupa ganhando mais alma, mais espiritual do que material”. Mas ninguém encomendou até agora uma roupa assim para o réveillon do milênio.

   Quando fala de moda no Brasil, Versolato tem a impressão de voltar ao Paço Municipal de São Bernardo. Não cita nomes. “Fui o primeiro, espero não ser o único e não fecho a porta para ninguém em Paris”. Mas ele acha que os estilistas brasileiros estão querendo fazer sucesso, “masturbação pessoal”, e não roupa. “Roupa não é fácil, dá trabalho e requer talento”.

   

Ocimar e o Oscar

   O vestido da noite do Oscar de Fernanda Montenegro já está definido. É um Valentino. O brasileiro da moda em Paris, Ocimar Versolato, perdeu a oportunidade porque se ofereceu tarde, na semana passada. “Fernandinha me ligou para se desculpar por não poder aceitar um vestido meu porque já estava com roupa feita”. No telefonema, os dois combinaram outro projeto: encenar Gabrielle “Coco” Chanel, com texto de Maria Adelaide. Versolato diz que vai ensinar Fernanda a fazer prova de roupa e levá-la ao quarto de Coco Chanel, mantido intacto no hotel Ritz, do outro lado da rua de seu ateliê na Place Vendôme. Ele ainda prometeu que ficará torcendo para que ela ganhe o Oscar, mesmo vestida de Valentino. “Impressionante o trabalho que fez, metade do Central do Brasil é dela”, disse. Mas explicou: “Se fosse a Sônia Braga vestindo outro que não eu, ela apanhava”. Não será surpresa para Versolato se um vestido dele aparecer na noite do Oscar. Sua griffe enviou roupas, mas ainda não sabe se alguma foi selecionada pelas atrizes.

Nota

Este texto é de 1999. Ocimar Versolato brilhava em Paris. Em 2005, de volta ao Brasil, ele abriu oito lojas de artigo de luxo que fecharam em oito meses, e lançou seu primeiro livro — Vestido em Chamas. Em 2009, criou a rede de franquias e vendas on-line Versolato Cosmetics. Hoje ele vive na Itália.

A guerrilha sai do vulcão

Erupção guerrilheira

no vulcão de El Salvador

O vulcão "expelia" guerrilheiros

O vulcão “expelia” guerrilheiros

Ao pé de um vulcão adormecido, San Salvador vive em ebulição. Uma cidade aterrorizada. O tiro e a bomba podem ferir a qualquer instante. O ruído de um helicóptero é a possibilidade de um fuzilamento. O guerrilheiro pode ser qualquer um, dissimulado na multidão.

Uma cidade de sonâmbulos. Os combates começam, em geral, às duas da madrugada. E se prolongam até o amanhecer. Os guerrilheiros descem a encosta do vulcão, separam-se, e disparam de vários pontos, com seus fuzis AK-47 e lançadores de granadas. O exército responde com tanques, morteiros e a aviação, que dispara foguetes. Ouvem-se grilos e bombas, ao mesmo tempo. De repente, os guerrilheiros desaparecem. O dia começa. Surgem os ônibus, táxis e pessoas, nas ruas. A guerra continua presente, mas os ruídos das bombas já são distantes.

O pânico coletivo começa ao entardecer, todos os dias, por causa do “toque de queda”, de 18 às 5 horas. Um rapaz pensou que nada lhe aconteceria, se apenas atravessasse uma rua, numa corrida entre a sua casa e a de um primo, e foi baleado pelo exército. Outro entrou em coma, sem atendimento para uma intoxicação. E há vários casos de mulheres que pariram sozinhas, em miseráveis barracos das favelas da periferia.

Todos correm para casa, antes das 6 da tarde, engarrafados numa cidade em que a metade dos faróis de trânsito não funciona por falta de energia – um dos principais alvos das sabotagens dos últimos rounds da guerra de 10 anos e cerca de 72 mil mortos. Ninguém quer ficar na rua, por um defeito no carro, falta de gasolina ou trombada. Buzinam. Xingam. Passam por cima de canteiros. Táxi? Táxi? Nenhum para, depois das 5h30. Os ônibus levam passageiros até nos para-choques dianteiros, quase à  frente do motorista. E nos tetos.

O toque de recolher produziu a “pica” – as pickups, que carregam 35 passageiros por 1 cólon cada um, 60 centavos a mais do que os ônibus (cada dólar vale 6,45 colónes). As salvadorenhas só enrubesceriam se ouvissem alguém passar o nome de seu meio de transporte para o masculino. Ai’ teria o mesmo sentido que em português.

Às 6 da tarde as ruas ficam desertas, misteriosas. Foi durante um toque de recolher que um grupo ainda não identificado matou seis jesuítas, e suas duas empregadas, na Universidade Centro-americana. A situação propicia o retorno dos esquadrões da morte que operaram em El Salvador no início da década, ligados a políticos de extrema-direita. Alguns corpos encontrados pela manhã não são de guerrilheiros nem de soldados mortos em combate. São vítimas de uma outra guerra, acertos de conta. Os grupos que monitoram o respeito aos direitos humanos em El Salvador passaram, praticamente, para a clandestinidade. Estrangeiros fugiram do país, sob ameaça de morte.

As explosões coincidem, muitas vezes, com o início do toque de recolher. Sob seu impacto, San Salvador vibra. Pode ser que antes, durante o dia, fiquem abafadas pelo barulho da cidade. De noite, assustam. Os salvadorenhos as escutam junto ao noticiário diário do governo, que repete um slogan que dá a impressão de que a guerrilha foge em debandada para a Nicarágua. “Estamos derrotando os terroristas. E vamos triunfar”. As rádios também participam do esforço de guerra. Divulgam depoimentos de “terroristas arrependidos”. Oferecem um prêmio à delação: 5 mil colónes, ou cerca de 775 dólares, para quem der a pista de algum líder da Frente Farabundo Marti pela Libertação Nacional (FMLN). Há uma tabela com o valor de cada arma capturada e entregue ao Exército: um fuzil soviético AK-47 está valendo 2 mil colónes (cerca de 310 dólares); um fuzil norte-americano M-16, a metade do preço, ou 1 mil colónes – 155 dólares.

“Mantenha-se alerta”, diz um locutor, “e contribua para que estas armas não sejam utilizadas pelo FMLN contra tua própria família”.

Uma outra propaganda: “Agora, os salvadorenhos já conhecemos os enganos discriminados dos assassinos, terroristas, comunistas da FMLN”.

Fora, as explosões, o perigo. Em casa, a televisão e o rádio travando uma guerra total de propaganda contra a rádio clandestina “Venceremos”, da FMLN, pouco captada em San Salvador.

Há exceções, como contou um relações públicas da empresa aérea Taca: a moda, em fins de semana, são as festinhas conhecidas como de “toque a toque”, sem alternativa que não a de varar a madrugada. Os jovens, então, cantam um “trio”, o “De que manera” – o sucesso atual:

“De que manera te olvido

De que manera yo entiero

este carino maldito

que adiario atormenta mi corazon”.

Um hotel no fogo cruzado

Corpos ficam nas ruas. Ordem da FMLN.

Corpos ficam nas ruas. Ordem da FMLN.

O franco-atirador instalou-se numa árvore perto da piscina do hotel Presidente, na encosta do vulcão San Salvador, por onde surgiram outra vez os guerrilheiros para uma nova ofensiva, agora como uma lava escaldante que penetrou em algumas mansões, incendiou a casa de um diplomata e forçou mais de 300 norte-americanos a procurar abrigo na embaixada ou a deixar o país, em dois aviões fretados.

O franco-atirador disparou seu fuzil soviético AK-47. Logo veio a resposta – uma mistura de morteiros, fuzil americano M-16, disparos de tanques, metralhadoras e pistolas. Um empregado do hotel, como se fosse um daqueles homens que identificam passarinhos pelo pio, ia observando: “Isso agora foi o foguete de um helicóptero”. Cada arma tem seu som distinto, e ele conhece todos.

Às duas da manhã de quarta-feira, o tiroteio se tornou generalizado, em volta do hotel Presidente, com 11 hóspedes alemães e eu, mas lugar para 350. Era o começo da segunda ofensiva em 18 dias, que continuava ontem. A maioria dos repórteres estava noutro hotel, o Camino Real, no centro da cidade — como em Beirute eles se concentravam no Commodore, e no Panamá, no Marriott.

Acaba a luz. Os tiros ficam bem próximos. Os helicópteros rodopiam, tentando iluminar o franco-atirador para dezenas de soldados acertar, com todas as suas armas. Mas ele é apenas uma cilada. Enquanto todos ficam à sua caça, outros guerrilheiros tomam posição em vários outros pontos, nos bairros chiques de San Benito e Escalon, a oeste da capital, e também começam a atirar.

O toque de recolher impede que qualquer repórter ouse ir ao front. Mesmo se pudesse, onde o encontraria? Um dos fronts, neste momento, é a árvore nos fundos do hotel, ao lado de um casarão onde dormem alguns funcionários indispensáveis. É possível visualizar vários rostos assustados numa janela. Depois que passam os helicópteros, e numa pausa do tiroteio, escutam-se os ruídos de uma noite tropical: grilos, corujas, e a brisa nas folhas das árvores. O front aproveita para se mover para outro lugar.

“Está feio hoje, hein?” – comenta o maître do restaurante do hotel, acostumado a outras noites parecidas. Há dois dias que se esperava outra “ofensiva final”, e pode até ser que ela esteja começando por aqui. Os veteranos garantem que é só “mais uma provocação”. Os guerrilheiros descem do vulcão, acordam a cidade, e somem antes de clarear. Mas hoje, não. Já clareia, e os tiros continuam, e persistentes.

As fotos em preto e branco são do álbum da guerrilha

As fotos em preto e branco são do álbum da guerrilha

Um porta-voz da embaixada americana calcula que entre 100 a 200 guerrilheiros penetraram em San Benito e Escalon, durante a madrugada. Alguns invadiram três mansões de ricos salvadorenhos, e as transformaram em ninhos de metralhadora e lançadores de granadas, depois de permitirem que seus moradores fossem embora. Uma casa de um diplomata norte-americano pegou fogo. A rádio rebelde, “Venceremos”, explicou que o objetivo da nova ofensiva é o de manter “um cerco constante à capital, o centro nervoso da nação”. A cadeia de rádios do governo, porém, continuou divulgando a deserção de guerrilheiros, a descoberta de novos arsenais, o estouro de vários aparelhos, e o slogan criado depois da primeira ofensiva, em 11 de novembro, que foi concentrada nos bairros pobres da periferia de San Salvador: “Estamos derrotando os terroristas. E vamos triunfar”. Uma fonte militar caracterizou o novo ataque como “um ato de desespero” para forcar o governo do presidente Alfredo Cristiani a reabrir as negociações de paz. (Quando o entrevistei, ele trancou a chave o seu gabinete, “por precaução).

Qualquer pequeno ruído, numa situação assim, fica maior, e tem muita importância. Um “traque” que o identificador de sons de guerra garantiu ser o barulho de alguém armando o gatilho de uma arma não identificada, ali mo breu, provocou a aparição de dois soldados tipo Rambo, fitinhas na cabeça, e com vontade de dar uns tiros.

“Onde, onde?” — eles perguntam. Cada um vai para um lado, e daqui a pouco se ouve um ra-ta-tá.

“M-16” — pontifica o conhecedor.

Tiros em vão, sem alvo e sem resposta. O franco-atirador, depois de criar o caos no hotel, e em toda a região vizinha, fugiu por um muro, e pode ter subido a encosta, na direção da cratera do vulcão. Os focos dos tiros, agora, estão por toda a parte, na região oeste da cidade. O impacto das bombas faz o chão tremer. Nestes momentos, todos temem uma bala perdida, ricocheteada.

Já clareia, e o tiroteio continua. Toca o telefone no hotel Presidente, e um homem que se identifica como porta-voz da Frente Farabundo Marti pela Libertação Nacional diz à telefonista:

“Vamos disparar com a artilharia. Evacuem todos os hóspedes. Aqui é a FMLN”.

A telefonista, apavorada, responde: “Un momentito, señor”. E chama todos que estão no lobby: “Ouçam, ouçam”. O guerrilheiro desliga. A gerente do hotel olha feio para a funcionária que alimentou o pânico entre os hóspedes. Um oficial do exército dá uma ordem:

“Ninguém se retira. Os terroristas não têm artilharia”.

Os guerrilheiros são forçados a subir a encosta do vulcão, com a barreira de fogo criada pelos soldados e helicópteros. Numa rua abaixo do hotel Presidente três corpos de guerrilheiros são arrumados lado a lado por um grupo de soldados. Mais acima, o corpo de uma mulher, acertada por uma bala do fogo cruzado. O cálculo é o de que cerca de 2 mil pessoas tenham morrido desde 11 de novembro, quando começou a fase mais violenta da guerra de 10 anos e 70 mil mortos. Mas a trégua, que traz de volta uma aparência de normalidade à San Salvador, deve durar apenas algumas horas. Logo vai começar o toque de recolher, e as ruas voltarão a ser uma zona de guerra.

Hiroshima na cabeça

O brasileiro com a

bomba no corpo

O brasileiro Nelson Nishimura vive com a bomba de Hiroshima “grudada no corpo”. E com lembranças do apocalipse gravadas na alma.

  A ponta da bomba já não está mais tão saliente para que o pente tropece ao alisar o cabelo de Nishimura. Foi cortada em julho de 1989, no Hospital do Câncer de São Paulo, após uma dolorida convivência de 34 anos. Mas era como a ponta de um iceberg. Outros fragmentos continuam enterrados dentro de sua cabeça – estilhaços de vidro espetados pela pioneira explosão.

  “Trago a bomba grudada comigo” – ele diz, aos 66 anos.

  Contra as lembranças não há bisturi. Elas o levam todo 6 de agosto ao gigantesco cemitério de Vila Formosa. Hoje, 50 anos da bomba, lá estará ele, ajoelhado diante de um cruzeiro, em meio a um mar de cruzes. A mulher acenderá as oito velas de um pacote. E ela, Iasuko, também vai rezar: nasceu há 64 anos em Hiroshima, e sobreviveu à sua destruição em 1945.

  A chama e os mortos de Vila Formosa são um altar perfeito para o casal “hibakusha” – exposto à bomba, em japonês. Pois o começo do cataclismo foi um clarão, um relâmpago, o fogo que despregou a pele dos corpos, a fumaça que formou um sinistro cogumelo no futuro do planeta. E o final, um holocausto: 140 mil mortos numa cidade em que viviam 350 mil habitantes.

  “Daqui homenageamos Hiroshima” – disseram Nelson e Iasuko Nishimura contemplando a chama e os mortos em Vila Formosa, na quarta-feira passada.

  Talvez haja outros brasileiros hibakushas. Os Nishimura já ouviram falar de uma brasileira, entre os 158 sobreviventes da bomba registrados na Associação das Vítimas da Bomba Atômica no Brasil. Muitos hibakushas não se revelam, temendo o estigma que persegue os expostos à radiação, e que se reproduz até nas novas gerações. Nelson e Iasuko tiveram filhos, e netos, e um bisneto. Mas nenhum com “a bomba grudada”, ou a mínima sequela.

  Os pais de Nelson imigraram para o Brasil com os primeiros japoneses, há 87 anos. Vieram “ganhar dinheiro”, trabalhando nas plantações de café de São Paulo. O casal Fujikiti e Way teve oito filhos. Ele, o “caçura”, partiu com quatro dos irmãos para Hiroshima, aos 4 anos, na contramão dos imigrantes. E tinha 16 anos quando viu o “pikka” (relâmpago) e escutou o “don” (estrondo) – o “pikkadon”, ou a bomba atômica. Estava nos estaleiros da Mitsubishi, onde era marceneiro. O chefe o mandara sair dos reparos no casco de um navio para buscar pilhas de lanterna no almoxarifado.

  “No caminho soou o alarme de mais um ataque aéreo” – lembra Nishimura. Pródiga manhã de segunda-feira, com alarmes às 7h09, às 7h31, e agora outra vez. “Pensei: isso está errado”. Mas ele ainda pediu as pilhas, antes que “tudo clareasse”, num relâmpago. Olhou o relógio: 8h13 – não 8h16m08s, como marcado para a História. “Marquei o momento exato”, ainda hoje garante. Diante do intenso clarão, perguntou-se: “Que será?” Só havia uma explicação: “Estourou uma bomba”. A fumaça logo obscureceu o almoxarifado. “Subi num guindaste para ver o que tinha acontecido”. E o que viu jamais esquecerá: “Hiroshima tinha acabado”.

 Nishimura “não sentiu nada”. Mas sangrava. O sangue “estava que nem mingau”, represado nas costas, pela camisa. Ele achava que não poderia se permitir a perda de tanto sangue, quando à volta surgiam frangalhos humanos, mutilados, gente já sem pele clamando por água e socorro. Então, bebeu o próprio sangue. Cacos de vidro tinham penetrado em sua cabeça, no violento vácuo da explosão. Mas ele nada sentia; apenas sangrava. E dava “graças a Deus por estar vivo”.

  O estaleiro da Mitsubishi ficava a 2,5 quilômetros do hospital Shima, o epicentro da explosão de Garotinho, o ponto central de Hiroshima. Assim os americanos batizaram a primeira bomba atômica a explodir: Little Boy. Lançada de 10 mil metros de altura por uma fortaleza voadora, o B-29 Enola Gay, detonou a 617 metros do solo, matando imediatamente quem se encontrava num raio de meio quilômetro. “Não tinha mais prédios”, viu Nishimura. Ele procurou ajudar. Não havia muito o que fazer. A maioria dos médicos era cinzas, sob o impacto direto de Garotinho. Restava-lhe repartir o que sobrara de “okayu”, uma canja rala de arroz, mas sem arroz. Ele não chegou a se molhar na chuva preta que a tantos aterrorizava porque parecia uma chuva proposital de óleo aonde logo seria jogado um fósforo aceso, ou uma bomba incendiária, para queimar o Japão.

  Yasuko viu a chuva preta cair a 16 quilômetros de Hiroshima. Teve mais sorte do que outros 7.800 estudantes convocados para ajudar no alargamento das ruas do centro da cidade, preparando-o para o prolongamento da guerra. Ficara na escola. Estava no pátio quando os vidros se quebraram de uma só vez, repercutindo a distante explosão. “Se tivesse entrado para a sala de aula, morreria” – ela ainda acha. “Cinco minutos depois, caiu a chuva preta”. Molhando, caminhando, chegou em casa. De uma irmã enfermeira nada ficou: “foi desintegrada”.

   Nishimura também procurou a família. Durante a semana, trabalhando, vivia no alojamento da Mitsubishi. A tragédia e o próprio desespero o empurravam sobre cadáveres em busca do pai e irmãos. As ruas estavam cobertas de mortos e escombros. Moribundos vagavam deformados, irreconhecíveis. Ele ajudava como podia. Alguns o paravam suplicando que se tornasse portador de uma mecha de cabelo, um pedaço de pano ou uma última palavra a parentes de outras cidades – o correio da morte. Anotou muitos endereços, recolheu últimas lembranças e desincumbiu-se como pôde. Mas vivia também a morte de um irmão. “Primeiro, ficou careca; depois lhe nasceram fios dourados, e em cinco meses morreu, estragado pela bomba”.

Crew of the B-29 "Enola Gay"

O ódio aos Estados Unidos contagiou Nishimura. Hoje, não mais. “Era tempo de guerra”, justifica. “Muitos morreram…” E a propaganda oficial martelava: “O Japão não pode perder a guerra”. Disso tudo ele se libertou. Menos da bomba. Numa noite de 1985, acordando como num pesadelo, “sentiu um caroço crescendo na cabeça”. Sabia dos cacos de vidro que o penetraram – e concluiu: “Devem estar saindo”. O pente tropeçava nas pontas que emergiam, como plantas. Amiga de bairro em Hiroshima, amante nos anos de dor, esposa oficial desde que vieram morar no Brasil, em 1955, Yasuko acendeu a luz na casinha de quarto, sala e cozinha. E “viu uma bolinha”. Apertada, ela jorrou sangue e “um líquido amarelo”, talvez pus.

  “Pensei”, conta Nishimura: “saiu o vidro da bomba atômica”. Mas no mesmo lugar, mais tarde, depois do café da manhã, nascia outra “bolinha”. Espremeram-na também, e nada de vidro. A cada caroço esvaziado surgia outro. Mesmo assim ele foi pintar carros em sua oficina de Vila Carrão. As bolinhas se multiplicaram entre 6 e 8 horas da manhã. Então, ele começou a tremer. Sentiu-se tão mal que pediu ajuda a amigos para encontrar um médico que entendesse de erupções nucleares numa cabeça cravada de vidros fragmentados pela bomba de Hiroshima. Ficou febril. O pescoço inchou.

  “Aí senti tristeza: escapei, mas a bomba anda comigo, grudada”. O que o magoava era saber que os hibakushas do Japão tinham um tratamento especializado garantido. Ele só o ganhou do governo japonês em 1994. Passou 15 dias fazendo check-up em Hiroshima. Saiu “aprovado”, mas sem tempo de rever o estaleiro onde entrou na era nuclear. Ainda está com vidro na cabeça. Só a ponta foi cortada em 1989, no Hospital do Câncer. Ele deveria voltar para tirar os pontos. Mas passou antes no barbeiro Martins para cortar o cabelo. Os pontos ficaram no pente.

(Nelson e Yasuka estão enterrados em Vila Formosa)

SINAI

vashonhavurah.wordpress.com

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AQUI É TERRA SANTA

www.portalsaofrancisco.com.br)

O Monte de Moisés (www.portalsaofrancisco.com.br)

Terra Santa vista do céu

Terra Santa vista do céu

Melhor do que a definição de Deus, impossível: “Tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é terra santa”. Estamos ao pé do monte Horebe, no deserto do Sinai. Um silêncio profundo, poentes sangrentos, montanhas majestosas, o sol abrasador e as dunas de areia — ou o paraíso, um oásis: a água doce, fresca, e a sombra das palmeiras e tamargueiras. Camelos e cabras pastando.  Beduínos imóveis, contemplando. Uma Terra Santa, como dizia Deus a Moisés, há mais de 3.200 anos, revelando-se “numa chama de fogo do meio de uma sarça”.

O que se avista é o cenário do Êxodo. Ou a terra da lua, a terra dos gigantes, a casa de Deus — um triângulo de 61 mil quilômetros quadrados, com o mar Mediterrâneo em sua base, e o mar Vermelho e o Golfo de Suez banhando cada ponta, ligando África e Ásia.

O Sinai, 25ª província do Egito, foi devolvido por Israel, em 1979, em troca da paz. Por aqui andou Abraão. E José se tornou escravo. Foi onde o povo judeu passou 40 anos perdido em busca da Terra Prometida. E recebeu as tábuas da Lei. Por aqui também passaram Jesus Cristo e a Virgem Maria, caminhando para Palestina. E onde ainda hoje se refugiam eremitas, cruzam andarilhos peregrinando para Meca e Medina, iluminam-se os hippies, maravilham-se os ecólogos, e clic, clic: chegaram os turistas. Os nudistas estão proibidos pelas leis islâmicas.

Uma Terra Santa, sim, e para as três grandes religiões monoteístas. Antes de ser assassinado, o presidente egípcio Anwar El Sadat sonhava com a construção de uma mesquita-sinagoga-igreja ao pé do monte Horebe, o monte Sinai, ou Jebel Musa – a montanha de Moisés. Para os cristãos, aqui os anjos depositaram o corpo de Santa Catarina, a mártir decapitada em Alexandria. O mosteiro construído em sua homenagem e com seu nome, no ano de 530, pelo imperador Justiniano I, continua aberto aos visitantes. Logo á entrada, na porta conhecida por Bab El Rais, está escrito: aqui é a porta do eterno. É por ela que os justos entrarão”. Em outra porta, encontra-se Estevão, só ossos: ele morreu em 580 vigiando o ossuário de três mil monges. Seu esqueleto mantém ainda a mesma posição, e a função.

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O Mosteiro de Santa Catarina (en.wikipedia.org)

O mosteiro de Santa Catarina é protegido dos intrusos por uma alta muralha de granito cinzento. Lembra uma fortaleza. Era antes, no século IV, ao tempo de Constantino, apenas uma capela e uma torre de refúgio para os cristãos que escapavam das perseguições romanas. Depois de concluído, ganhou uma pequena mesquita. A cruz e a meia-lua têm a montanha de Moisés como fundo, com seus 2.285 metros acima do nível do mar. São o monumento mais importante do deserto do Sinai.

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Os monges do mosteiro de Santa Catarina não sabem com certeza qual foi o motivo que lhes rendeu os vizinhos, na mesquita, na época do califado Fatímida, que coincidiu com os primeiros anos do reino cruzado. Seria uma demonstração de irmandade entre muçulmanos e cristãos, hoje perdida no Líbano? Ou haveria alguma razão política justificando a aproximação? Intrigas do deserto: se consultados agora, os solitários monges recusariam o projeto de construção de um templo triplo como idealizado pelo presidente Sadat, em 1979. Das comemorações da paz eles só aprovaram mesmo aqueles aparelhos telefônicos que puderam compartilhar com os jornalistas, conectando a Terra Santa ao resto do mundo. Os habitantes deste deserto bíblico já viram passar por aqui as tropas hititas, assírias, persas, gregas, romanas, árabes, francesas, turcas, cruzadas, inglesas, egípcias, israelenses e varias outras nacionalidades que compõem o exército de paz das Nações Unidas.

Wadi el Tor (commons.wikimedia.org)

Wadi el Tor (commons.wikimedia.org)

Uma lenda localiza a sarça-ardente que não se consumia onde se encontra, exatamente, a igreja do mosteiro. E 1.500 metros acima, ou 3 mil tortuosos degraus, no topo do monte Sinai, o lugar em que Moisés falou com Deus, recebendo os Dez Mandamentos. Conta-se que, gago, quando perguntado para onde queria levar seu povo, respondeu: “Ca…ca…ca… E a voz divina completou:

— Canaã!

(Moisés queria dizer Ca…ca…ca…li…fór…nia, mas não conseguiu. Uma dissidência afirma que, na verdade, seria Canadá.)

Os muçulmanos sempre foram mais interessados na história e em seu significado ético do que na geografia histórica. E é por isso que não identificariam a montanha de Moisés, a sua Jebel Musa, com nenhum ponto particular no mapa. Mas isto não quer dizer que não a reverenciem profundamente, esteja onde estiver.

A biblioteca do mosteiro, uma das mais antigas e ricas do mundo, contém uma carta do profeta Maomé aos monges, confirmando a forte influência da história de Moisés sobre o islamismo. E para protege-la de um provável ataque dos bandos de beduínos, junto com o verdadeiro tesouro representado por 1.500 pinturas e 2 mil ícones, os imperadores bizantinos foram buscar os guardas ideais na Bósnia. Tornaram-se muçulmanos, e uma nova tribo no deserto do Sinai, conhecida como Al-Jibaliá, ou os montanheses.

“Sobe a mim na montanha, e lá espera” ordenou Deus a Moisés. Nos últimos 150 anos, 12 diferentes montanhas foram cotadas como o local certo do encontro: cinco no sul do deserto do Sinai, quatro ao norte, uma no centro e duas do outro lado da península triangular, na Arábia Saudita e na Jordânia.

No topo do Monte Sinai (www.gopixpic.com)

No topo do Monte Sinai (www.gopixpic.com)

Um geografo alemão, Burckhardt, foi um dos primeiros a seguir os rastros de Moisés e o povo de Israel, montado num camelo. E acabou apontando, em 1819, uma montanha ao lado de Jebel Musa e de seu mosteiro como o mais provável, por causa de algumas inscrições, “Jebel Sarbal”. Quase 50 anos depois, em 1870, Henry Spencer, chefiando uma grande expedição, pesquisou a região com geólogos, zoólogos e botânicos. E escolheu o pico oeste do Monte Sinai: Jebel Tzuftzufa, no vale de Er-Raha. De 1920 a 30, o governador inglês do Sinai, C.S. jarvis, defendeu a teoria de que Moisés teria viajado para a Terra Prometida seguindo o Mediterrâneo. Ele ficou fascinado por Jebel Hillal, perto do oásis de Cades Barnéia, alcançado dois anos depois da fuga da escravidão no Egito. A travessia do Mar Vermelho, assim, ficaria localizada na lagoa de Bardawil, perto de El Arish, cidade de exilio para criminosos.

A mais recente teoria sobre a rota do êxodo e a localização de Jebel Musa, ou Montanha de Moisés, pertence a um geógrafo israelense, Menashe Harel. Ele não acredita que os israelitas tenham tomado o “Caminho dos Filisteus”, pelo nordeste, por um simples motivo: encontrariam o exército egípcio facilmente. Assim, passaram por Ismailya, dando a volta pelo golfo de Suez e descendo por Wadi Sudar para chegar a Refidim. Aqui, Moisés, com seus 80 anos, poderia subir o Jebel Sin-Bishr, de apenas 618 metros acima do nível do mar, e receber de Deus as tabuas da lei, com os Dez Mandamentos.

Os turistas, como o próprio presidente Anwar El Sadat e os monges do mosteiro de Santa Catarina, visitam Jebel Musa, a Montanha de Moisés, o monte Sinai, como sendo o local certo do encontro sagrado. Sobe-se de madrugada ainda, para alcançar o topo durante o alvorecer, quando o calor não é insuportável. Um espetáculo grandioso, anunciado por agências de turismo como “a visão de uma paisagem lunar”. Vai-se a passos curtos, em fila de um, com guias beduínos que carregam galões com água. No alto, no “portão do céu”, encontra-se uma capela e uma casa de uma só peça, geralmente fechadas. Dependendo da época do ano pode ser vista ali uma senhora que se apresentava como “a monja do Sinai”, até 1984. A quem chegava, ela oferecia uma bala. Vestia-se toda de branco, dizia que escutava Deus e tinha um discípulo, um Iugoslavo encarregado de “limpar a montanha”. Andavam descalços: pisavam a Terra Santa.   

(www.walkopedia.net )

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Líbano dos mártires

Praça dos Mártires, 1982.

Praça dos Mártires (redzijs.wordpress.com)

Duas mulheres de mãos dadas (foto), uma com véu, muçulmana, e a outra cristã, simbolizavam a unidade do Líbano, na Praça dos Mártires, desde 1930. Entre elas, uma urna com as cinzas de 21 enforcados, o marco do longo martírio libanês. Em setembro de 1948, as duas mulheres foram atacadas a machadadas. Depois, sumiram. Só reapareceram, de repente, em 2001, no Museu Sursoq, em Beirute.

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A mulher de bronze perfurada de balas abraça um jovem de braço amputado. A outra mão levanta uma tocha, como a estátua da Liberdade. Os dois refletem o sol laranja mergulhando no Mediterrâneo. Estão à beira de um precipício em que um homem, entre mortos, clama por vida. Homenageiam 21 libaneses cristãos e muçulmanos enforcados em 1916, na Praça dos Mártires, em Beirute.

Mas o martírio libanês é feito de muito mais cadáveres. Em 15 anos e 6 meses, até 1990, foram mortos 152 mil maronitas, sunitas, greco-ortodoxos, drusos e xiitas, em batalhas que ainda tiveram a participação extra de palestinos, israelenses e sírios.

Estátuas feridas, o braço da união mutilado, elas são agora uma monumental lição aos libaneses que estão tentando reconstruir o país e a identidade nacional esfacelados: ninguém venceu a guerra.

 Este monumento à união do Líbano, uma vez já sequestrado e escondido, vai sobreviver metralhado e aleijado na nova Praça dos Mártires. Mas em volta, no coração de Beirute, outras ruínas, esqueletos de prédios e ruas serão definitivamente arrasados por tratores numa nova batalha – agora, pela paz.

O projeto prevê uma avenida dez metros mais larga do que a Champs-Elysée, em Paris. Diante do mar se erguerão duas torres de 40 andares inspiradas nas do World Trade Center de Nova York (que ainda existiam). Uma ilha de lixo que emergiu no Mediterrâneo ganhará uma Ponte Vecchio, como em Florença, e se transformará num jardim de 60 mil metros quadrados. A reforma do governo libanês pretende apagar os vestígios da guerra; não restaurar os fragmentos que restaram. “Vamos ressuscitar a Suíça do Oriente Médio”, disse-me o ministro da Habitação, Mahmoud Abou Hamdane. Um provérbio popular o ampara: “Jogue um libanês ao mar, e ele voltará com dois peixes na boca”.

  Os turistas já fazem pose ao pé do casal de bronze na Praça dos Mártires devastada. Estão reaparecendo aos poucos em Beirute tranquilizados por três anos de silêncio dos canhões. O último obus foi disparado em 13 de outubro de 1990, agora também o aniversário do primeiro acordo entre a OLP e Israel. É o turismo de uma tragédia ainda cheirando a pólvora. A guia explica em alemão: “Aqui era a Embaixada dos Estados Unidos, destruída por um suicida com um carro-bomba em 1983”. As câmeras miram a carcaça do prédio em que 67 pessoas morreram. Cozinhas e quartos improvisados pelos novos “diplomatas”, os sem teto da guerra, estão expostos como se abertos a serrote. Crianças brincam entre os escombros já verdejantes de musgo e mato. E em frente, a praia do Mediterrâneo verde-azulado. Voam aviões, e não são mais caças F-16 despejando bombas. “Aqui morreram 300 americanos e franceses das Forças Multinacionais de Paz”, continua a guia. Mais ao sul estão os campos de Sabra e Shatila, onde dois mil palestinos foram massacrados por milícias falangistas em 1982, enquanto cercados por tropas israelenses. Mas neles turistas ainda não entram.

  O termômetro do otimismo durante a guerra era o movimento dos vidraceiros. Se vendiam vidros para janelas, projetavam a esperança de que acabariam os booms supersônicos que estilhaçavam as vidraças. Agora são os cartões de crédito. “Que país os aceitaria à beira de uma guerra?” – desafia Rachid Fayed, diretor da Sociedade Libanesa para o Desenvolvimento e Reconstrução do Centro de Beirute (Solidere). E ele acrescenta com muita certeza: “O mundo está confiando no futuro do Líbano”. Mas é bom ser precavido, como a própria Middle East Airlines (MEA). Sua passagem mostra, com desenhos didáticos, o que os passageiros não devem levar na bagagem: revólveres, espingardas, gases comprimidos ou venenosos, ácidos corrosivos, munição e até material radioativo. Nada mais natural no Líbano. Afinal, numa conferência de paz em Genebra, na Suíça, os delegados libaneses chegaram fortemente armados, e foram barrados nos detectores de metal.

1982: Israel cerca Beirute.

1982: Israel cerca Beirute.

“Crazy beoble”, explica um curioso armênio que faz ponto toda noite no saguão do hotel Cavalier, o substituto para a imprensa do memorável hotel Commodore, destruído no final da guerra. “O povo aqui é louco”, ele comenta para justificar um conselho pessoal: “Se fosse você diria que me chamo Pedro, não Moisés. Pedro é melhor”. No aeroporto de Beirute o guarda da imigração, depois de ler no passaporte, e certificar-se perguntando-me o nome, preferiu não acreditar: “OK, Maurice. Pode passar”. O armênio me propôs logo no primeiro contato: “Você me vende um passaporte brasileiro por US$ 5 mil, e ainda lhe dou outros US$ 5 mil”. Depois, inflacionou o pedido com mais outros cinco passaportes. “Quero dos bons”, avisou, “porque falsos compro ali na esquina por US$200”. Era talvez um agente sírio suspeitando de uma identidade falsa, como concluiu um funcionário da Embaixada do Brasil, veterano no Líbano. Beirute é uma cidade em que todos ainda são suspeitos. Quando o porteiro xiita viu o aperto de mãos com um druso, aconselhou: “Agora, conte os dedos”.

  Olha-se a destruição em volta, e concorda-se: “crazy beople”. Em “A Morte de uma Nação”, a cientista política americana Sandra Mackey lembra uma estatística de um amigo libanês: “50 por cento dos libaneses consideram-se líderes naturais, 25 por cento acham que são profetas, e 10 por cento imaginam-se deuses”. O presidente da Assembleia Nacional, Nabih Berri, explicou uma vez: “Se você nos toma como indivíduos, somos muito civilizados. Mas se você nos toma como um grupo, vai pensar que está de volta à Idade Média”. 

  Cada um dos dois predominantes grupos no Líbano, muçulmanos e cristãos, subdivididos em 16 seitas oficialmente reconhecidas, tentou aniquilar o outro, numa violenta e autodestrutiva competição pela identidade nacional desde a independência da França, em dezembro de 1943. Deveriam viver em harmonia com um presidente cristão maronita, um primeiro-ministro muçulmano sunita, e um xiita como presidente de um Parlamento de maioria cristã, com a proporão de 6 por 5 entre 128 deputados. Era o Pacto Nacional. Mas o balanço de forças sofreu uma reviravolta quando os muçulmanos e drusos tornaram-se 2/3 da população, e os cristãos encolheram para 1/3, em 1970. Os xiitas passaram a ser a maior comunidade do país. Os muçulmanos exigiram reformas. E os cristãos resistiram. Cada grupo se armou e criou sua própria milícia. Num Líbano em pé de guerra palestinos e israelenses começaram a travar um combate extra, pela Palestina.

  A guerra civil libanesa começou em 13 de abril de 1975. O estopim foram os disparos saídos de um carro em alta velocidade contra uma igreja no bairro de Ain Rummane. Com quatro mortos, os cristãos decidiram ir à forra. Horas depois, emboscaram e mataram 27 palestinos dentro de um ônibus. A escolha nada teve de casual. A liderança cristã via a Organização de Libertação da Palestina (OLP), já a maior milícia em Beirute, aliada dos muçulmanos, como a principal ameaça à soberania libanesa. Morteiros e foguetes riscaram o céu numa imediata reação da OLP. Canhões miraram das colinas os campos palestinos. Levantaram-se barricadas nas ruas. Grupos que compunham o exército debandaram para aderir às milícias comunitárias. Bairro contra bairro, duelos pelas janelas dos prédios, sequestros, carros-bombas, kamikazes, franco atiradores, e o Líbano mergulhou em fogo e cinzas. Os sírios tentaram garantir a paz com a força de suas tropas, em 1976, e continuam ainda hoje acampados por todo o país. Israel invadiu o sul libanês atrás da OLP em 1978, cercou Beirute em 1982, quando expulsou o líder Yasser Arafat para Tunis, e retirou-se em 1984, sem criar uma “nova ordem” que ampliaria a paz isolada com o Egito. E continua retendo uma “faixa de segurança” dentro do Líbano, ao longo de sua fronteira.

  “Beije a mão que você não pode morder, e peça a Deus para quebrá-la”, diz outro provérbio libanês. Nenhum dos grupos no conflito do Líbano acabou impondo a sua vontade. O Pacto de Reconciliação Nacional de 1989, assinado em Taif, na Arábia Saudita, manteve um cristão na Presidência e um sunita como primeiro-ministro, estabeleceu a igualdade parlamentar e legitimou a presença militar síria. Mas os combates ainda prosseguiram por mais um ano até a derrota do general cristão Michel Aoun, que desde 1988 travava uma “guerra de liberação” contra a Síria. O diretor da Solidere, Rachid Fayed, gosta de explicar que “os libaneses prolongaram a guerra, ao se adaptarem a ela tão bem no dia-a-dia”. Os fios nas ruas são um impressionante exemplo. Brotam dos postes e se reproduzem como trepadeiras. Formam pencas, se entrelaçam e cruzam Beirute pelo ar. Alguns vendem energia de geradores particulares. São as mini-centrais elétricas particulares. Outros ligam bairros com horários de racionamento opostos. Assim ninguém fica sem luz. O bairro a ser apagado de 4 às 8 horas é iluminado pelo que apagará de 8 às 12 horas, e vice-versa. Ainda há fios de roubo de energia e os de telefone, muitos sem uso.

Carros luxuosos se misturam aos atingidos pela guerra no trânsito caótico de Beirute. Não existe um único farol. Houve um tempo em que se disparava ao alto para atravessar um cruzamento. Não mais. A cidade ganhou guardas de trânsito chiquérrimos, todos com luvas brancas. Levantam a mão, e ela se destaca das ruínas sempre ao fundo, por toda a parte. Talvez por isso a usem: para que os motoristas a vejam. Mas os próprios guardas não sabem ao certo. “Deve ser por elegância”, arriscou um diplomata. Alguns pontos da “linha verde” que antes dividia a cidade ainda estão guardados por tanques estacionados sobre calçadas. Nos bloqueios militares, soldados carregam lançadores de granadas às costas. Posters com os rostos de aiatolá Khomeini, do presidente iraniano Ali Akbar Rafsanjani e do íman Mussa Sadr, líder libanês do Amal (Esperança) que sumiu enquanto viajava para a Itália, em 1978, enfeitam os bairros dominados pelo Hezbollah, o Partido de Deus. As guaritas sírias ostentam a foto de um sorridente presidente Hafez Assad. Para completar, bandeiras pretas tremulam sobre os escombros dos campos de Sabra e Shatila em sinal de luto pelo aperto de mãos entre o “presidente” Yasser Arafat e o primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin. A impressão é a de que uma nova guerra está por explodir. Mas os libaneses vão vivendo e repetindo: “Al hamdallah”, graças a Deus. Os restaurantes de Jouniê lotam todas as noites, as mesas fartas com os variados pratos do mezzeh, e o cheiro adocicado do Arak e do narguilé.

  Deitado numa cadeira da piscina do outrora luxuoso hotel Saint-Georges, hoje um esqueleto vazio, o torrefador de café Maher Haddad queima-se ao sol como uma de suas sementes, enquanto admira as ruínas de Beirute. Bem em frente estão dois outros hotéis destruídos: o charmoso Phoenicia e o americano Holiday In. Linda paisagem, não? “Esta é a imagem de mais de 15 anos de guerra”, ele diz. “Esperamos que tudo seja agora mudado. Se você vive sem esperança, não pode ser feliz”. O futuro de paz no Oriente Médio o perturba só num outro front, o comercial. “Se não corrermos, perderemos o mercado árabe para Israel”. Esta será uma guerra difícil para os israelenses. 

  Os libaneses são imbatíveis nos negócios. Eles têm uma tradição que começa com os fenícios, em 2.800 AC. Então, o principal produto no Líbano era o cedro, hoje o símbolo nacional. Dele extraíam uma tinta púrpura, que simbolizava riqueza e dignidade social, e um óleo e uma resina para a conservação dos mortos. Os faraós do Egito enviavam compradores a Byblos e Tyre. Cada egípcio morto dava um lucro certo. Vocação precoce… Quando o professor perguntou quanto é um mais um, o aluno libanês respondeu: “Você está comprando ou está vendendo?” Sim, os libaneses vendem tudo, e com lucro. Mesmo em guerra, aumentaram de 342.584 para 1.041.216 o número de carros no país. Instalaram mais 200 mil linhas telefônicas, embora só a metade esteja funcionando. (Um minuto de ligação para o Brasil custa US$6, por uma linha especial que não é libanesa, nem cipriota, mas – surpresa! – norte-americana.) A renda média individual caiu de US$1.869, em 1974, para US$1.112, em 1990, e já registrou um crescimento de 15 por cento em 1992. O setor elétrico deu um salto de 260 por cento em 19 anos. O ministro das Finanças, Fouad Siniora, está conseguindo a proeza de reduzir em 8% o déficit público ao mesmo tempo em que aumenta em US$250 milhões o orçamento para 1994. A inflação chegou a 117% contada desde o começo do ano passado pela Confederação Geral dos Trabalhadores do Líbano. E isso num país que teve um estrago de US$ 25 bilhões só em sua infraestrutura de água, esgoto, gás, eletricidade, telefone, ruas e jardins públicos. O dólar, que valeu até 3 mil libras libanesas na guerra, estabilizou agora em 1.700

  Tostando ao sol, Maher Haddad se ufana: “Somos suíços”. Os libaneses estão mais para “a delicadeza do relógio do que para a máquina da guerra”. E ele repete, quase ofendido: “Nunca fomos guerreiros”. Que o desmintam os 67 quilômetros quadrados de destruição ao pé do Monte Líbano, entre os rios do Cão e Damour, os limites da Grande Beirute. As barricadas de areia ainda diante de muitas casas. O casal de bronze furado de balas. E que o confirmem a competição de iates dando a largada na baía de Saint George, os carros luxuosos estacionados diante do Iacht Club, a badalação noturna e o boom da construção. “Temos mais segurança aqui, hoje, do que na Europa”, garante uma funcionária na nova loja da Middle East Airlines, no centro da cidade. Ela só não entende porque os aviões libaneses não podem ainda decolar para os Estados Unidos. E nem porque um visto norte-americano deve ser pedido em Damasco, a hora e meia de carro de Beirute. O presidente Bill Clinton está esperando do Líbano uma prova a mais de confiança: a paz com Israel. A livraria Internationale se beneficia com o terceiro ano de cessar-fogo. Cada dia surge um novo livro explicando o que aconteceu ao país das mil e uma versões.

  O rio Adônis desce vermelho o Monte Líbano, sagrado para fenícios e romanos. Foi nele que Adônis teria morrido nos braços de Vênus. A cor talvez seja a do minério de ferro lavado pela neve derretida. Por 15 anos e meio muitos libaneses fantasiavam que a verdadeira nascente era o Líbano sangrando. Mas os poetas também podem estar certos: o sangue deve ser mesmo o de Adônis, ferido por um javali.

liban

OS BATRÍCIOS

VALE DE BEKAA – Bem-vindo ao Brasil do Oriente Médio. Aqui vivem nossos “batrícios”. Eles são a maioria em várias aldeias incrustadas entre o Monte Líbano e as montanhas Antilíbano, perto da Síria e Israel. Falam “bortuguês”, tomam guaraná, plantam feijão roxinho, improvisam feijoadas com carne de carneiro, torcem apaixonadamente pela Seleção, às vezes captam novelas repassadas por um canal de televisão da Turquia, e importam abacaxis e manga.

  — Ministro, o Líbano está confiando na paz?

  Hamdane – Com o acordo de reconciliação nacional passamos a planejar seriamente a reconstrução. Agora, no governo do primeiro-ministro Rafic Hariri, entraremos na fase de execução. Não digo que estejamos verdadeiramente cem por cento confiantes na paz. Mas os partidos e religiões se uniram no Líbano. É esta união, o reencontro de todos os libaneses, que vai permitir a reconstrução, já partir do ano que vem. Estamos todos trabalhando juntos. Recomeçamos unidos.

  — O Líbano pode pagar a reconstrução?

  Hamdane – Trabalhamos com empréstimos do Banco Mundial, do Banco Islâmico e de vários países árabes. Já temos contratos assinados que ultrapassam US$1 bilhão. Os italianos também prometeram ajudar. Não estamos mais em dívida no Líbano. Retificamos o orçamento para 1994  (cerca de US$2,5 bilhões, ou US$200 milhões a mais que o de 1993).

  — Os jornais de hoje estão publicando que os Estados Unidos condicionaram o envio de ajuda ao Líbano à paz geral no Oriente Médio. Verdade? O Líbano deverá esperar a paz entre Síria e Israel?

  Hamdane – Os Estados Unidos procuram criar um status no mundo árabe, do qual fazemos parte. Em todo o caso, o governo americano não dará dinheiro de graça aos libaneses. Emprestarão. E pedirão que os amigos árabes ajudem o Líbano. Isto com certeza vai acontecer, mas aos poucos. O Líbano e a Síria estão fora da paz com Israel. Esperamos que este e outros problemas logo se resolvam. Aqui no Ministério não trabalhamos com política.

  — Noto um certo otimismo. Engano?

  (A tradutora, antecipando-se: “Sim, o ministro é otimista”.)

  Hamdane – Com a situação econômica do Líbano sou mais ou menos otimista. Mas com a região, incluindo o Líbano, não é ainda seguro dizer que tenhamos alcançado verdadeiramente a paz.

  — Quinze anos para destruir, quantos para reconstruir?

  Hamdane – Dentro de três anos viveremos sob condições razoáveis. Depois, seremos de novo como a Suíça. Esperamos que as condições o permitam. É preciso levar em conta também o papel do Líbano no desenvolvimento do Oriente Médio. Veremos o que lhe caberá. De qualquer modo, em três anos, se trabalharmos seriamente, teremos condições de vida muito aceitáveis.

  — Os libaneses do Brasil podem ajudar?

  Hamdane – A partir de amanhã, se quiserem.

  — Pode-se dizer aos libaneses no Brasil que o Líbano voltou a ser um país seguro, e que eles podem vir visitá-lo sem medo?

  Hamdane – Diga-lhes: não há nenhum problema.

Eu vi Cícero Dias

O painel Eu Vi o Mundo... (foto divulgação)

O painel Eu Vi o Mundo… (foto divulgação)

A obra mais celebrada do pintor pernambucano Cícero Dias pode ter seu título, enfim, completado:

Eu Vi O Mundo… Ele Começava No Recife… e Acabou em Paris 

Acabou em Paris, no apartamento-ateliê da Rue du Longchamp, 123, com vista para os telhados do Trocadéro, aos 95 anos de uma vida para a arte compartilhada com a nata dos artistas, escritores e compositores europeus e brasileiros do século 20.

O mundo acabou de morte natural, sem doença, ao lado da mulher, filha e dois netos, e interrompeu as memórias  Eu Vi O Mundo, até então só pincelado em cores vivas, mas agora brotando em palavras e fotos para um livro depois completado e lançado pela editora Cosac Naify.

Nós Vimos O Mundo, capítulo final de Eu Vi O Mundo, acrescenta o olhar da mulher francesa de Monsieur Dias, Raymonde, que ele conheceu em abril de 1941, na Paris ocupada por tropas nazistas. O Nós no título deve incluir o editor Augusto Massi, que finalizou as memórias inacabadas em uma operação tão bem executada que ficou imperceptível, os vazios costurados com pesquisa e sensibilidade.

Eu Vi Monsieur Dias com 92 anos, bem agasalhado com cachecol, paletó de lã e cobertor nas pernas em seu apartamento inundado de sol da primavera. “Fui a vida toda um friorento”, lembrou em suas memórias. Uma noite, ele encheu a lareira com tanta lenha que a concierge do prédio telefonou para avisar: “Há um incêndio em sua chaminé”. Os bombeiros que vieram apagar o fogo ficaram para jantar. Apesar do frio em dia morno, encontrei-o bem humorado, memória afiada, encantado com a internet, atualizado sobre o Brasil e o mundo — e ainda um bom copo: “Que vamos tomar?”, perguntou sorvendo uma pequena dose de uísque, a garrafa ao alcance da mão, como a inseparável bengala. As paredes do corredor de entrada até a sala onde passava parte do dia sentado o expunham em sua fase abstrata, geométrica, colorida de Pernambuco — o “colorido insolente” detectado pela amiga Rachel de Queiroz.

Cicero Dias-Picasso-Sylvia-a-Vallauris-1952-

Cicero Dias-Picasso-Sylvia-a-Vallauris-1952-

O amigo Pablo Picasso deixou para C.D., só assim identificado na campainha à entrada do prédio, uma obra invisível, porém onipresente: o próprio apartamento, trés chic. Não fosse aquela natureza-morta… Quando a ganhou, Cícero chegou a reclamar, e por pouco, merci beaucoup, não a devolveu:

— Quero quadro para ver todo o tempo, e não para guardar dentro de um cofre.

Pendurar um Picasso já era um enorme risco, atraía assaltantes. Mas o presente fora dado com uma intenção explícita: “Venda, e compre um lugar para você viver”. Assim se fez: a natureza-morta pagou a entrada da natureza viva dos Dias. Quem procurar ainda achará no apartamento preciosos picassinhos, se é que algo que Ele tenha feito permita um diminutivo. São desenhos em pedras, ossos, madeira, caixa de fósforos e rolha de champanhe como os que fazia, apaixonado, brincando, para a musa e amante Dora Maar, fotógrafa surrealista pintada Adormecida, Na Praia, Chorando, De Unhas Verdes, com O Minotauro e de Perfil Sentada. Estão bem ali no corredor, dentro da maquete de três andares de um museu “ideal”, único vestígio da carreira de arquitetura de Cícero abandonada em 1928, no Rio. E atenção: acompanham-nas outras miniaturas feitas especialmente por Vasarelly, Calder e Léger.

Eu Vi Cícero Dias… o “Cicinho dos canaviais de Jundiá”, no litoral de Pernambuco. Ele me contou que atendeu o telefone para Picasso por 12 anos. Sorri malicioso, e explica: “O homem tinha três, quatro mulheres, e estava sempre metido em tremendas brigas com pelo menos duas delas”. Com zelo desempenhava o papel de protetor da intimidade do amigo. Blindava-o ao sabor das paixões do momento, que variavam como o vento. A amizade rendeu um bônus para o Brasil: a viagem pioneira do célebre painel expressionista Guernica para a Segunda Bienal de São Paulo. “Consegui convencê-lo durante um almoço, mas confesso: saí com indigestão”. Uma revelação lhe vem à lembrança. Mas ele pede: “O que vou contar agora fica por sua conta, e se alguém vier me pedir para confirmar, desmentirei”. Falava sério: em Eu Vi O Mundo, o livro, nem toca no assunto, resumido apenas a um diálogo entre soldados da Gestapo e Picasso.

meiocridade-plural.blogspot.com

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— Quem fez isso? — perguntou um SS apontando para Guernica, o retrato da destruição da aldeia basca de Guernica pela aviação alemã, em 1937, durante a guerra civil espanhola, a pedido do general Francisco Franco.

— Ué, não foram vocês? — respondeu Picasso.

Eu Vi O Mundo… Ele Começava No Recife, o afresco, de 15 metros de largura por 2,5 metros de altura, foi pintado entre 1926 a 29. Ficou pronto quando Cícero fez 21 anos, e foi sua obra-prima. Nas memórias ele resgata  o clima, a ansiedade e a excitação que vivenciava enquanto a produzia: “Toda hora andava pra baixo e pra cima, de Santa Teresa para o bar Nacional. Tudo se mexia na cabeça. Imagens do começo da minha vida. Tantas coisas: mulheres, histórias fantásticas, escada de Jacó, as onze mil virgens. Levaria todas essas imagens para dentro de um grande afresco? Executar um afresco era uma realização material impossível. Impraticável. Pensei então em executar uma grande tela. Decidi colocar tudo num painel, onde o imaginário se espalhasse para todos os lados. O mais representativo seria a realidade onírica. Eu pintaria a própria vida numa superfície de mais de 50 metros. Tudo teria grandes proporções. Corri todo o Rio de Janeiro à procura do material. Mas, por volta dos anos 20, não se encontrava nada disponível na praça: tela, papel, tintas, pincéis. Tudo era difícil.Passei no Teatro Municipal, onde havia aqueles panos de boca, mas fiquei desiludido. Nas casas de tintas da rua São José também não encontrei a solução. Enfim, indicaram-me um depósito de papéis, perto da Central do Brasil, passagem obrigatória de todo mundo devido ao célebre mangue. No depósito achei papéis, confetes, serpentinas, artigos de carnaval, lança-perfume. Encontrei-me diante do proprietário. Largos bigodes, de tamancos, grande lenço de rapé: — O que quer o rapaz? — perguntou. Avistei-me com uma valentona bobina de papel com dois metros de altura. Gritou o bigodudo: — Papel de primeira, papel kraft, venda em grosso para as indústrias. Tudo resolvido. Uma feliz solução. Faltava resolver somente as tintas e a cola, que terminou por ser de peixe. Mãos à obra. Um porre a mais no bar do Palace Hotel.”

Ao fim de cada dia de trabalho, Cícero se sentia um náufrago, encharcado de suor. Pelo painel, começaram a desfilar procissões, danças, sonhos, delírios, Recife, o nordeste brasileiro, fantasias, carros-de-boi, engenhos, bichos, senzalas, até um autorretrato, e tudo sob a luz amarela da caatinga e do canavial. Atribuíram-lhe certa influência  de Marc Chagall, então desconhecido no Brasil. Surrealista, rotularam-no. “Surnudista”, inventou o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre. Um “fenômeno inexplicável a desafiar a geografia, a cronologia e a genealogia”, descreveu o jornal francês Le Monde. “Maluco!”, elogiou Mário de Andrade, no Diário Nacional. Em carta a Tarsila do Amaral, ele acrescentaria depois, em 1931: Cícero Dias está fazendo com que “rachassem as paredes da Escola Nacional de Belas Artes”. E, no entanto, a primeira exposição aconteceu num hospício, a Policlínica, na Praia Vermelha, porque nenhuma galeria do Rio se interessava por arte moderna, ou tinha espaço para acomodar obra tão gigantesca, decantada como a maior da América Latina. Literalmente, coisa de louco.

Quando Cícero foi ao hospício pedir espaço para Eu Vi O Mundo, armado com os poderosos amigos Graça Aranha, Di Cavalcanti, Murilo Mendes e Ismael Nery, um dos loucos os saudou, gritando: “Os senhores estão em casa”. Lar doce lar que projetou o painel em sua órbita de sucesso e onde foi apreciado, ou analisado, nos primeiros dias, por psicanalistas internacionais, alguns diretamente ligados a Freud e Jung, reunidos na Policlínica, para um congresso. Havia ali material de sobra para seu autor deitar-se num divã por muitos anos. A exposição seguiu depois para o Recife e Escada, a cidade natal, num mergulho na infância que “iluminou-me o espírito”. Foi difícil obter a bênção do vigário Pedrosa para aquela obra do diabo, “uma afronta a Deus”. Nada, porém, que a imponente presença de Gilberto Freyre não pudesse superar. E ao som de viola, cheiro de folhas de canela espalhadas no chão e foguetes espocando no céu, o povo humilde do sertão viu o mundo que um dos seus via — mundo que mais tarde foi castrado por vândalos em três metros, do lado esquerdo, para livrá-lo das exuberantes e pecaminosas mulheres nuas, com seus sexos realçados. Justificando-se, ele diria: “Não cultivo a penumbra, mas a resplandecência. Nada é obscuro na minha obra”.

Eu Vi O Mundo… Ele Começava (e terminava) No Recife. Não ia além do Brasil.  Mas em 1937, Cícero estendeu suas fronteiras e seu horizonte, embarcando para Paris. “O  Groix não era um navio como o Andes ou o Alcântara, mas uma expressão francesa em alto-mar. A começar pelo paladar, pela liberdade, um à vontade que não se encontrava em outros vapores. A bordo, logo procurei o comandante. Fui indiscreto apenas para me informar que a rota ou derrota do navio não passaria pelas costas nordestinas (…) Rumávamos pelo Atlântico, fugindo à ditadura de Vargas. Peixes voadores ao lado do vapor. Baleias soprando seus esguichos. Ilhas perdidas. Íamos a caminho de Dacar.” E da Europa sob o nazismo.

Eu Vi Cícero Dias… E ele era um Louvre de artistas amigos, uma biblioteca de escritores com os quais se dava. Pensemos em alguém improvável: Albert Einstein? Sim, estivera com ele, que se vestia de vaqueiro, no bar do Glória, no Rio. Guimarães Rosa? Ficaram presos juntos em Baden-Baden, na Alemanha, em 1941. Villa-Lobos? Ah, ele saía de noite para jogar bilhar; depois fazia a via sacra pelos bares. “Quando o víamos com seu chapelão e um taco na mão, como se fosse a sua bengala, aplaudíamos”. James Joyce? “Conheci-o em circunstâncias dramáticas em Vichy”. Pintou pratos com Braque, Cocteau, Dupont, Françoise Gillot, Lebowitz, Leonor Fini, Man Ray, Miró e Vasarely. Picasso foi companheiro de todos os dias e padrinho de sua filha, Sylvia. Numa foto dos três juntos, escreveu: “A mi filhinha y com um beso”. Marc Chagall? Era sempre convocado para opinar se Guernica deveria ser colorido ou mantido em preto e branco. “Deixa como tu fizeste. Deixa, não toca, deixa como está”. Eu Vi O Mundo é repleto de nomes, links para outras histórias e dimensões: Manuel Bandeira, Mário e Oswald de Andrade, Di, Tarsila, Malfati, Oscar Wilde, Le Corbusier, Lúcio Costa, Klee, Modigliani, Gertrude Stein… e mais, muito mais…

Eu Vi Cícero Dias… E ele protagonizou uma obra histórica que lhe valeu a medalha azulada estelar da Ordem Nacional do Mérito da França, recebida das mãos do então primeiro-ministro Edouard Balladur, em 1998, na Unesco. A obra foi uma chuva de papel com o poema Liberté, de Paul Éluard, disparada por aviões ingleses sobre a Europa ocupada por tropas nazistas, em 1943. “Se os alemães me pegassem, pá!, me matavam” —  então ele sorve mais um gole de uísque, empolgado com as lembranças que ainda o deixam orgulhoso. Para começar sua “missão”, ele cortou a primeira e a última palavra-chave escrita na muamba, Liberté. Era um perigo de morte, liberdade. Depois, a salvo, as reescreveria.

O poema ficou guardado dentro de uma mala na prateleira de bagagens vazia de um vagão de trem com refugiados espanhóis e portugueses. Dias sentou-se distante. Se a revistassem, não saberiam a quem pertenceria. Veio a Gestapo. Um soldado lhe pediu o passaporte. Gritou para outro, na frente: “Brasília!” Mas o devolveu. E não revistaram o maleiro. Já na Espanha, um susto: “A polícia quis saber como eu, brasileiro, tinha cruzado a fronteira”. Não havia o que discutir, só lembrar que “o Brasil não está em guerra com a Espanha”. E assim ele chegou à Lisboa, de onde a embaixada britânica despachou o poema direto para o poeta surrealista Roland Penrose, piloto da Royal Air Force, a RAF. Alguns dias depois, caía poesia das nuvens em todo o front europeu.

Eu Vi O Mundo… Ele Começava No Recife e jaz, desde 2003, no cemitério de Montparnasse, em Paris.

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Com a mulher, Raymonda, durante a ocupação alemã.

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No ateliê, em Paris