A TRIBO PERDIDA

Casa de família falasha, na Etiópia (foto: www.mikewallach)

Casa de família falasha, na Etiópia (foto: http://www.mikewallach)

Os judeus

negros

de Israel

(Jerusalém, 22/11/1982) — Como muitos outros judeus religiosos, rezava diante do Muro das Lamentações, em Jerusalém, sexta-feira passada, preparando-se para o Shabat começando ao por do sol. A única diferença: sua cor, negra.

Não, ele não era um dos controvertidos negros norte-americanos que se converteram ao judaísmo, célebres pelos nostálgicos blues que tocam pela noite, em Dimona, no deserto do Neguev.

Miss Israel 2013, Yityish Aynaw, a Titi.

Miss Israel 2013, Yityish Aynaw, a Titi.

É um falasha. Um dos 1300 falashas que vivem em Israel, na cidade bíblica dos Sete Poços, Beersheva. Outros 28 mil falashas estão sobrevivendo à fome, à perseguição e à tortura ao redor do lago Tana, uma das duas maiores fontes do rio Nilo, ao sul de Gondar, na Etiópia. Ainda há mais 2500 falashas em campos de refugiados do Sudão, da Somália e do Djibuti.

Falasha é uma palavra de um antigo dialeto etíope, o Ge’ez, que significa exilado, ou estrangeiro. A tribo dos falashas seria a Dan, a que se perdeu de Israel. Quando descobertos, na Etiópia, em 1867, praticavam a circuncisão e observavam as principais festas judaicas.

O falasha rezando diante do muro das lamentações, em Jerusalém, não quis dizer seu nome. Ofereceu um pseudônimo, um nome comum israelense, para não por em perigo sua família vivendo na província de Gondar, na Etiópia. Para ele, não há duvida: “Somos descendentes de Menelik, o filho da rainha de Sabá e do rei Salomão. Jacó e os patriarcas eram todos negros…”

O imperador Hailé Selassié teria sido o último dos “613 Leões de Judá”, a linha imperial fundada por Menelik. Era um amigo de Israel, mas se opunha a que os falashas imigrassem de seu país, explicando:

“Todas as tribos da Etiópia são como os dedos de uma única mão. Se eu deixo partir uma tribo, será como amputar um dedo”.

Coroação da Miss Titi

Coroação da Miss Titi

Selassié foi deposto em 1975, num golpe pró-soviético. E em 1978, o novo líder etíope, Mengistu Haile Mariam, rompia relações com Israel, aproveitando a oportunidade dada pelo então chanceler Moshe Dayan ao confirmar, num discurso em Genebra, em termos genéricos, as denúncias da Somália: os israelenses estavam participando dos combates contra os eritreus, no deserto de Ogaden.

Em 1981, um estudante israelense em Toronto, no Canadá, voltaria ao assunto, explicando que Israel ajudava a Etiópia em troca da liberdade para os falashas. A ajuda envolvia o fornecimento de armas. Sua intenção era a de denunciar a política secreta desencadeada pelo governo Beguin para salvar os falashas. Ele defendia a prática de denunciar publicamente as atrocidades cometidas pelo major Melaku, o governador da província de Gondar, chamado de “o irmão de Hitler” nas associações criadas em defesa dos falashas nos Estados Unidos, no Canadá e em Israel.

-Eu não acredito em diplomacia silenciosa – diz o falasha em Jerusalém, pois meu povo está morrendo.

Os falashas foram reconhecidos como judeus, em Israel, em 1972, pelo grão-rabino Ovadia Yosef. Seis anos depois, outro grão-rabino, Shlomo Goren, o confirmou. E os dois decidiram que os descendentes da tribo perdida de Dan deveriam passar por uma cerimônia de reconversão, a que chamaram de “renovação da aliança”.

O governo israelense ficou entre os dois rabinos, decidindo, em 1975, que os falashas se beneficiariam da “lei do retorno”, como qualquer outro judeu no mundo, e uma “operação-êxodo” foi montada.

Um médico de Israel chegou a ir a Gondar, discretamente, seguido depois pela primeira esposa de Moshe Dayan, Ruth, e de um ex-ministro de Transportes. Espantaram-se ao encontrar uma sinagoga voltada para Jerusalém, vários livros em hebraico, e bíblias em Ge’ez. Os visitantes não supunham tamanha religiosidade entre os falashas.

-Um deles, vindo a Israel, tornou-se rabino – conta o falasha no Muro das Lamentações , que lembra mais um hippie dos anos 60, o cabelo ao estilo de Djavan.

hamiticunion.proboards.com

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Mulu Dese, outro falasha que veio para Israel, voltou para a tribo, em Gondar. Era “um enviado”. Prepararia os outros para a fuga, depois que a imigração legal tornou-se impossível sob o governo de Mengistu Haile Mariam. Foi preso: “agente sionista”.

As últimas notícias de Mulu Dese datam de 1975, e o caracterizam como um subversivo descuidado: reúnia líderes da tribo em sua casa para acompanhar a guerra do Yom Kippur através da rádio israelense, em hebraico.

O jornalista israelense Louis Rapoport foi uma das últimas pessoas a se encontrar com Mulu Dese, sua esposa Esther e seus três filhos.

“Ele tinha perdido toda a fé na ajuda dos israelenses e dos judeus do mundo: -eles não querem ouvir nossas advertências – protestava”.

Rapoport esteve em Gondar pouco antes que as visitas fossem oficialmente proibidas pelo governo etíope. Para ele, “falashas não sofrem um holocausto, mas as escolas da tribo foram fechadas, ocorrem muitas prisões e as torturas são “terríveis”. Para o major Melaku, eles são espiões sionistas, agentes da CIA, e inclusive os teria advertido: “ninguém virá salvar vocês, judeus sujos…”

Segundo a comunidade falasha em Israel, de três a cinco mil membros da tribo morreram nos últimos meses de fome, de doenças. E pressionando por providências israelenses, seus líderes, em Beersheba, no deserto do Neguev, fizeram greve de fome, só interrompida ao receberem garantias de que “o governo Beguin está fazendo tudo o que pode”, dadas pelo chefe do departamento de imigração da Agência Judaica, Raphael Kotlowitz.

Um falasha que andou 14 dias para fugir de Gondar, e foi resgatado por Israel, agora viaja pelo mundo, apelando por assistência à sua tribo. É conhecido por um pseudônimo, Nahum Ben-Yosef, e defende, ao contrário do governo Beguin, uma estratégia agressiva contra a Etiópia.

Nahum conseguiu colocar as associações americanas e canadense pelos judeus Etíopes em guerra aberta contra Israel. O biólogo norte-americano Graenum Berger chegou a acusar o governo israelense de racismo contra os falashas – esquecendo-se, porém, dos Etíopes e dos “black Hebrews”, os negros convertidos de Dimona.

Racismo?

-Isto não é verdade – diz o falasha, em Jerusalém, argumentando que não se sente mais um exilado, um estrangeiro, desde que chegou a Israel, há oito anos. Sente-se integrado como um israelense, fala hebraico fluente, está noivo de uma sabra e é industriário.

Uma proclamação pública seria feita em Nova York, em defesa dos falashas, mas Israel conseguiu impedi-la, alegando que ela provocaria mais repressão, em Gondar. Um funcionário do governo explicou, em Jerusalém, o paradoxo diante do qual se encontra:

-Se revelarmos os esforços que estão sendo feitos pelos falahsas ameaçamos nosso trabalho.

Desfile de plumas em Beirute

ber5

O dia em que

os bersaglieri

chegaram

para a guerra

Plumas castanhas nos capacetes brancos, e lenços violetas enrolados no pescoço — Beirute nunca viu tamanho luxo militar desfilando por suas ruas já indiferentes aos vários exércitos que a ocupam. São os Bersaglieri, os soldados italianos que chegaram anteontem, mas só ontem puderam desembarcar, sob os olhares espantados dos marines norte-americanos, da legião estrangeira da França, israelenses, libaneses, sírios e palestinos.

— Vieram para um baile? – gritou um “GI” norte-americano, enquanto instalava uma caixa de comunicações perto dos silos do porto de Beirute.

De cima de um tanque, também branco, um Bersaglieri respondeu:

— Sei que isso aí é uma bomba, mas explode depois que a gente passar, tá bem?

Os italianos trouxeram o bom humor à Beirute, apagando mesmo o sucesso do último desfile militar, o de anteontem, feito pelo próprio exercito Libanês, saindo pela primeira vez às ruas, organizados, em grandes contingentes, depois de quase oito anos de guerra.

O coronel Mastico, camisa e bermuda brancos, olhava, com prazer, seu exército de plumas desembarcando do “Buona Speranza” e do “Caorle”, ancorados no porto de Beirute com um grande atraso.

— Este lenço violeta… É moda? — perguntou uma jornalista polaca.

— Não…é o símbolo desta nossa missão — explicou, sério, o coronel Mastico. — Cada missão tem uma cor…Você vê este botão rosa aqui? (no meio do lenço violeta, ele mostrou um botão rosa, quase invisível). É para dividir os grupos.

A jornalista polaca, entre os italianos, causou alguma sensação. E grupos de soldados pediam para fotografar-se com ela. Outros, ainda a bordo, gritavam para ela. Bombas explodiam à distância, comemorando a despedida da OLP.

ber4Um outro jornalista perguntou ao coronel Mastico se suas tropas tinham instruções especiais para capturar membros da Brigada Vermelha que foram surpreendidos em Beirute quando Israel a cercou. Ele o pegou pelo braço, levou-o um pouco para fora do grupo de imprensa e de outros oficiais, e quis saber:

— É verdade? Tem célula da brigada aí dentro — e apontou para além das trincheiras de containers, Beirute oeste. De uma janela, longe, viam-se papeis picados caindo.

— Parece que sim. Mas como os palestinos começaram a retirar-se com kefyas (o pano envolvendo parte do rosto e a cabeça), não se sabe se ainda estão aqui, ou se já partiram para o Yemen, ou para Síria…

Quando a tropa de Bersaglieris deixou o porto, percorrendo a cidade em direção ao aeroporto internacional, que se encarregará de controlar, alguns beirutenses saiam de seus carros, para vê-la. E a maioria achava engraçado.

Dentro do porto, num jipe, observando os marines com seus fuzis M-16, e um equipamento ultrassofisticado, um coronel libanês comentou:

— Estamos nos preparando para entrar em Beirute oeste. E entraremos, muito possivelmente, neste fim de semana.

Um pouco mais além, no edifício destruído da alfândega, no teto, escondido entre escombros, um soldado israelense observava por binóculo os papeis picados caindo para além dos contêineres que marcam a fronteira, neste setor. Agitado, comunicava a novidade para seu comando. E por que? “Não havia ninguém ali, há muitos dias”.

Beirute fervilhava, ontem, de calor e agitação. Diante da galeria Semaane, e na passagem do museu, formavam-se filas quilométricas de carros com mudanças sobre os tetos, a maioria aos pedaços, perfurada por balas. Eram os libaneses voltando para o setor oeste, de onde fugiram durante as várias fases da guerra.

Seguindo a coluna deste êxodo ao avesso, descobria-se um medo geral de não reencontrar a casa de pé, ou o que tinha ficado dentro. A fila não andava, congestionada desde os postos de checagem de documentos. Crianças brincavam atirando com seus revólveres de espoleta ao som das bombas, ontem mais uma vez ininterrupto. Poucos adultos falavam francês ou inglês – só o árabe. A volta às suas casas foi decidida depois que chegaram os marines, especialmente. E reforçada pela televisão libanesa, mostrando os Sírios carregando 30 caminhões com fogões, geladeiras, malas…depois, o exercito libanês garante que os protegerá de possíveis vinganças

bersa

Tawfik, que mora perto da comiche Mazra, e que trabalhava na embaixada do Marrocos, fugiu para Aley, durante os bombardeios. Continuava vendo-os, porém a salvo, do alto das colinas que cercam a cidade.

— Não sei se tenho ainda a minha casa, nem meu emprego — ele explicou. — Volto para ver. Tendo a casa, fico.

Mais que falar, os libaneses muçulmanos que voltam têm dúvidas, como traduziu Tawfik, diante de um grupo que o rodeou, expressando-se em árabe — e fazendo surgir “café Libanês”, como o café turco é chamado em Beirute. “Bachir Gemayel vai trazer a paz para nós?” – era a principal questão.

A esperança está no ar: a Gendarmerie, parte do exército libanês, já tenta controlar o caótico trânsito de Beirute — e guardas já são vistos nos principais cruzamentos, apitando. A luz voltou à noite, nas grandes avenidas, as corniches, embora parcial. Bandeiras do Líbano surgem por toda a parte. Os israelenses desapareceram do centro, reagrupando-se pela periferia. Tratores removem escombros. Pequenos aviões pousam no aeroporto internacional. O embaixador da Arábia Saudita, general Ali Shaer, já estaria de volta, mas sem confirmação oficial. Surpresa, porém, é que os telefones estejam funcionando, entre o oeste e o leste. Até charges voltaram a ser publicadas nos jornais. No “Le Reveil”, ontem, na última página, via-se um libanês todo ferido, enfaixado, fazendo uma chamada: o soldado americano, presente, o francês, presente, e o italiano? – ele pergunta. O soldado italiano está desembarcando correndo de seu barco, atrasado. São os Bersaglieris, o luxo de ontem. Debaixo da mesa de chamada, tremendo, pequeno, vê-se um soldado sírio.

berOs sírios começam a se retirar hoje, pela galeria Semaane, em direção de Damasco — uma partida já duas vezes adiada, por motivos de segurança, os falangistas concentrando-se em pontos no caminho. Ontem, partiram 697 palestinos para o Yemen do Norte, por navio, e também 190 feridos, para Grécia, acompanhados do doutor Arafat, o irmão de Yasser Arafat.

O jornal da OLP já fechou — todos os redatores partindo para o exílio. O conselheiro de Yasser Arafat, Hani Al Hassan, também partiu anteontem, para a Tunísia. O rumor nesta misteriosa Beirute era o de que o próprio Arafat já teria ido embora, entre os 4.371 palestinos que saíram. Ele foi provocado pelo anúncio de Saeb Salam, ex-primeiro ministro que serviu de contato entre o embaixador Philip Habib e a OLP, de que os dois já tinham se despedido. Mas houve um desmentido — uma entrevista com Arafat divulgada ontem pela BBC, sem indicar data.

O tenente-coronel Robert Johnson, dos marines, protagonizou o primeiro contato formal entre os Estados Unidos e a OLP, embora ele o minimize: foi pedir para que a bombástica celebração cotidiana seja encerrada, “um contato técnico”, como o qualificou. Não o atenderam: os tiros para o ar prosseguiram durante todo o dia.

Os legionários franceses, penetrando mais em Beirute oeste, ocuparam o setor do cassino, destruído completamente. Aqui, há 60 anos, um general francês, Gouraud, proclamou a independência do grande Líbano. A independência está próxima: até o próximo dois de setembro, Beirute oeste será reunificada ao leste, e assim, aberta, deverá permanecer. Até 23 de setembro, as forças multinacionais devem se retirar. Depois, sairão também os israelenses e os sírios, que ocupam outras regiões do país. Então, o presidente Bachir Gemayel assumirá o poder, com enviado americano Philip Habib se entregando, atualmente, á tarefa de unificar as várias facções políticas num governo estável. Quem conhece muito bem o Líbano, como o correspondente de “O Estado”, Issa Goraieb, não ousa arriscar um palpite para o futuro.

— Aqui, nada é previsível — ele lamentava, deprimido com a presença de tantas forças estrangeiras em Beirute.

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Tiro em Londres. Guerra total no Líbano.

Inimigos mortais, depois parceiros em busca da paz (Foto: CBS)
Inimigos mortais, depois parceiros em busca da paz. (Foto: CBS 
Shlomo Argov

Shlomo Argov

O embaixador israelense em Londres,

Shlomo Argov, é baleado na cabeça por

terroristas palestinos. Era o que o general Ariel

Sharon esperava para caçar Arafat

e expulsá-lo do Líbano.

Vieram pelo mar Mediterrâneo, envolvendo-se de ar térmico contra mísseis infravermelhos, e lançaram o ataque mais devastador sofrido por Beirute desde o último bombardeio de 24 de julho do ano passado (1981). Em sete ondas sucessivas, das 15h15 às 18h15, os aviões israelenses despejaram bombas sobre objetivos pré-selecionados da OLP, atingindo-os com impactos diretos, e provocando incêndios, grandes explosões – “um pânico indescritível”, como narraram as rádios libanesas. A represália de Israel ao atentado contra o seu embaixador em Londres prosseguia ainda de noite, com a artilharia de longo alcance disparando contra baterias de foguetes Katiushas, no sul do Líbano.

“Não há mais cessar-fogo”, explicou o porta-voz do primeiro-ministro Menachem Béguin. “Aqui, não cairá mais Katiushas”, prometia o ministro Yacoov Meridor, na alta Galileia, confortando a população dentro dos abrigos antiaéreos, depois que uma salva de 20 foguetes matou um homem ao volante de seu carro, ferindo outras quatro pessoas, no começo da noite.

— O exército cumprirá esta promessa – ainda acrescentou o ministro Meridor. Outras fontes do governo, durante o dia, falavam em “exterminar a OLP”, ou em “dar o golpe final contra os terroristas no Líbano”. E se assim for, o cálculo de 30 mortos e de 120 feridos, provisório, na noite de ontem, pode ser apenas um trágico começo de uma guerra total, o ministro da Defesa anunciando que “não vamos entrar numa nova guerra de desgaste”.

Através de seus próprios serviços de informações, Israel já tinha concluído, pela manhã de ontem, que seu embaixador em Londres fora atacado, durante a madrugada, por terroristas árabes. Shlomo Argov, há três anos na Inglaterra, foi baleado, na cabeça, com uma pistola de nove milímetros, polonesa, quando se retirava de um jantar diplomático, no hotel Dorchester, em Park Lane, e encontra-se em estado crítico, no Hospital Nacional.

Para algumas fontes israelenses, Londres teria sido escolhida para o atentado “por parecer um terreno propício, depois da divulgação, sistemática, pelo governo britânico, de que Israel vinha fornecendo armamento à Argentina, clandestinamente” (era o início da Guerra das Malvinas). Haveria, na Inglaterra, assim, um clima anti-israelense, e por isso lá ocorreu o atentado, e não na Itália ou na Alemanha Federal, como era antecipado em Israel, com agentes infiltrados no mundo da guerrilha palestina na Europa.

Prevendo um atentado que marcaria os 15 anos da Guerra dos Seis Dias, exatamente hoje, diversas fontes israelenses passaram as duas últimas semanas advertindo publicamente a OLP: “o cessar fogo”, rompido duas vezes desde julho do ano passado, “envolve também todas as instituições judaicas no exterior, e não apenas a fronteira, no sul do Líbano”.

Após o atentado da madrugada de ontem, nenhum membro do governo de Israel repetiu qualquer ameaça. Este silêncio, raro, provocou o alerta máximo para a OLP, em todo o Líbano. Nas ruas, os israelenses, escutando “o céu carregado”, bombardeiros rompendo a barreira do som, previam, de uma forma geral:

— Vai ser um terrível golpe…

Caças israelenses a caminho do Líbano. photo credit: Thibaud Saintin via photopin cc

Caças israelenses a caminho do Líbano. photo credit: Thibaud Saintin via photopin cc

Antes que Londres revelasse a nacionalidade dos passaportes dos suspeitos presos, entre eles dois jordanianos, um iraniano e um sírio, o porta-voz do Ministério do Exterior, Avi Pazner, já anunciava:

— Não há dúvida de que terroristas árabes são os responsáveis.

Pazner acrescentaria, também, que “todas as organizações terroristas árabes tem seus QGs no Líbano”, indicando o objetivo de uma iminente represália israelense, e ainda revelaria, concluindo, que todas as representações israelenses no exterior já haviam recebido ordens para redobrar a segurança contra “uma nova onda de atentados”. Há dois meses, o segundo secretário da embaixada de Israel em Paris, Yacoov Bar-Simantov, foi assassinado, com um tiro na cabeça. Há dois anos, no mesmo centro londrino, em Park Lane, morreu uma aeromoça da El-Al, num ataque ao ônibus que transportava a tripulação israelense. Em 17/04/1971, o cônsul de Israel em Istambul, Ephraim El-Rom, apareceu morto, após ser sequestrado. Em 13/11/79, o embaixador em Lisboa, Ephraim Elder, foi baleado na perna. Recentemente, dois escritórios israelenses, um em Roma e outro em Paris, também foram atacados.

Saindo de uma reunião do governo de que nada filtrou, o chanceler Shamir apenas diria, “chocado”:

— Árabes terroristas…

Os aviões partiram, mesmo que o Shabat estivesse para começar. A última vez que atacaram em Beirute, em julho do ano passado, deixaram o trágico saldo de 180 mortos. As primeiras bombas caíram perto da concorrida rua Jaloul, visando a tribuna do estádio de futebol transformada em depósito de armas e munição da OLP. Depois, sucessivamente, em ondas que se repetiam a cada meia hora, bombardearam um centro de treinamento do El-Fath, ou “o Relâmpago”, de Yasser Arafat; a base da “Força 17”, que é um grupo especial dentro da OLP; e a entrada que leva ao aeroporto internacional, guardada por palestinos e por soldados sírios da “força de dissuasão árabe”. Segundo o porta-voz militar, em Jerusalém, os aviões “encontraram pouco fogo antiaéreo” – mas ele não revelou que aparelhos estavam sendo usados na operação. A aviação Síria não apareceu sob os céus de Beirute, como nos últimos dois raids aéreos israelenses.

Os campos de Sabra e Chatila também foram acertados – e, pela primeira vez, também a casa de Yasser Arafat, em Bahane, ao sul da cidade, mas ele estava na Arábia Saudita, tentando uma mediação para uma outra guerra, a do Iraque – Iran.

A OLP desmentiu qualquer responsabilidade no atentado em Londres, condenando-o, mas para Israel “a OLP não tem credibilidade, nem para desmentidos”. Só duas horas depois de iniciado o ataque, o porta-voz militar, em Jerusalém, o confirmou, publicando um comunicado oficial:

“Após o ataque criminoso contra o embaixador de Israel em Londres, Shlomo Argov, e após múltiplas violações do cessar-fogo de julho de 1981, o governo deu ordens ao exército de atacar objetivos terroristas no Líbano”.

Um ministro, Yitzhak Modai, explicando então o ataque, declarou: “O preço da nossa moderação tornou-se muito alto. Isto não podia continuar…”.

Beirute em chamas (photo credit: JiPs☆STiCk via photopin cc)

Beirute em chamas (photo credit: JiPs☆STiCk via photopin cc)

O secretário de Estado norte-americano, Alexander Haig, defendeu a represália israelense, dizendo que “Israel mostra ao mundo que ataques terroristas não ficarão impunes”. Mas o Departamento de Estado, em Washington, expressava “uma profunda preocupação com a nova onda de violência”, à véspera da quinta visita de seu diplomata Philip Habib, que obteve o último cessar-fogo, agora inexistente. Ele chega na segunda-feira, a Beirute, enviado pelo presidente Ronald Reagan. Os Estados Unidos consideram que “o cessar-fogo ainda é valido, embora frágil”. A Inglaterra e a ONU foram os primeiros a enviar notas de condenação ao atentado em Londres ao primeiro-ministro Menachem Béguin.

Reagindo ao ataque à Beirute, as baterias de foguetes Katiushas, no sul do Líbano, abriram fogo contra aldeias israelenses da alta Galileia. Os aviões reapareceram, bombardeando uma área entre o porto de Sidon e Nabatyie, ao mesmo tempo em que entrava em ação a artilharia de longo alcance.

O duelo, na fronteira, prosseguia na noite de ontem, toda a população da Galileia dentro dos abrigos antiaéreos. Um diplomata via um grande perigo neste duelo, “embora a represália israelense já tenha sido desproporcional ao atentado”. Lembrava-se que as tropas de Israel estão reforçadas na fronteira, ao norte, desde a anexação do Golan Sírio, “e elas podem avançar, invadindo o Líbano para destruir as rampas de lançamento de foguetes”.

JE SUIS AHMED

AHMED, POLICIAL MUÇULMANO, MORREU EM DEFESA DOS "INFIEIS"

AHMED, POLICIAL MUÇULMANO, MORREU EM DEFESA DOS “INFIÉIS”

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A tevê de Israel perguntou a um soldado do batalhão que invadia o Líbano se ele sabia qual era a sua missão. Sem titubear, ele respondeu: “Acabar com as katiushas” — os foguetes russos que choviam sobre o norte de Israel, em 1978, disparados pela OLP. A entrevista prosseguiu: “E onde estão as katiushas?” A resposta, totalmente inesperada: “Em Moscou”.

Ouvi um diálogo parecido na tevê francesa. Perguntado como acabar com o crescente terror jihadista na França, um especialista advertiu: “O que assistimos é só o começo; para que não mais se repita, será preciso pegar quem dá as ordens”. Um segundo silencioso de surpresa, ele arrematou: “E os chefes que dão as ordens estão no Oriente Médio e no Norte da África”.

A França está refém da jihad, ou guerra santa. Um dos irmãos que “vingaram” a “profanação” de Maomé, com 12 mortos no ataque à revista Charlie Hebdo, estava em duas listas dos serviços secretos dos EUA. Por uma delas, não podia embarcar em avião de nenhum aeroporto. Noutra, era um da seleção dos mais perigosos terroristas no momento. Os franceses tinham ambas as listas. Por que os deixaram em liberdade? No caso de um deles, por que o soltaram, depois de prendê-lo?

A França relaxou, permissiva, a ponto de ser paralisada por dois dias da trama que foi ao ápice com dois sequestros simultâneos — uma première em Paris. Foi tolerante ante ataques antissemitas. Não entrou em alerta com o êxodo de judeus franceses para Israel. Fechou os olhos para os extremos dos seus cinco a 10% de cidadãos muçulmanos. Agora, acorda para uma nova realidade. Liberdade, Igualdade e Fraternidade não são para quem aspira impor com violência seus valores ou sua religião a outros povos e credos, um choque de civilizações.

Não por acaso o escritor Michel Houellebeca acaba de lançar o já bestsellerSoumission (Submissão) cujo enredo é a islamização da França, que então contagia todos os outros países da União Europeia. Aliás, ele é a capa da edição ensanguentada de Charlie Hebdo. Mas, atenção, nem todos os muçulmanos são jihadistas — ainda uma minoria. O policial muçulmano francês Ahmed Merabet foi morto protegendo exatamente aquilo que o fanatismo tentou destruir, a liberdade de expressão.

No mesmo dia do ataque ao Charlie Hebdo, uma afiliada da rede CBS, em Maryland, EUA, foi invadida por hackers. Nos monitores da redação surgiu a frase: “Infiéis, o novo ano lhes trará sofrimento”. Assinado: “Cybercalifado” — o grupo de apoio ao Estado Islâmico, Iraque e Síria. Mas não só: o sobrevivente dos irmãos que explodiram uma bomba na linha de chegada da maratona de Boston, em abril de 2014, deverá ser julgado na semana que vem.

Se não vamos a Maomé, Maomé vem a nós. O temor aos jihadistas cresce a cada cabeça degolada diante de uma câmera de tevê, ao vivo. O patrulhamento jihadista aumentou a paranoia nos aeroportos, profere sentenças de morte, ou fatwas, contra “profanadores”, mesmo quem só se arma com um lápis, e destampou da garrafa o gênio do mal que assombrou a França — e que promete mais. Quando aiatolá Khomeini saiu de seu exílio francês para assumir o Irã, um “vento” xiita soprou todo o Oriente Médio, contagiante. Mas arrefeceu com o tempo, limitado aos muçulmanos. Já os jihadistas do Estado Islâmico, no Iraque e na Síria, e também no Iêmen, são vulcões que irrompem sem aviso prévio, e em qualquer lugar em que haja infiéis para justiçar em nome de Alá.

Je suis Ahmed  brown

Estou comprando crack


2015-01-05 00.09.36

O fotógrafo Luiz Prado fotografava do alto de um prédio. Na foto acima, pago.

Abaixo, recebo a pedra de crack. Era uma reportagem sobre a Cracolândia,

então novidade em São Paulo. Quando ia embora, a craqueira gritou para mim:

– Ei, vamos fumar juntos?


2015-01-05 00.10.46

Crack em brasa no cachimbo, tragada profunda, relampejam os olhos e… abracadabra: “Sou outra pessoa” – diz Adriana Rodrigues de Souza. É a vez de Gabiru. Isqueiro no fornilho, dá uma cachimbada, prende a fumaça até tossir e… Shazam! “Agora fica mais fácil aguentar o dia” – ele explica, aliviado. Outro pedacinho de crack sobre as cinzas completa a rodada. Micróbio aspira e… tuiinnnn: fissura aplacada.

  Nem cinco minutos depois, Adriana quer de novo ser outra pessoa, Gabiru sente que vai “saindo do ar”, Micróbio afunda na “nóia” – a paranoia. Os três estão na rua Conselheiro Bebias, no centro de São Paulo, contagiados pela epidemia de crack. Imundos, maltrapilhos, confundem-se com o lixo no escuro da noite. Já perderam o amor-próprio, a esperança e a memória. Trocam-se por uma pedra de crack. Perderam-se de tanto barato instantâneo.

   “Cada pedra é uma pessoa” – conta Adriana, 20 anos. “E todas falam comigo”. Mas ela ainda não entendeu “o que as pessoas estão querendo dizer”, mesmo fumando-as, todos os dias e noites, há mais de quatro anos. A próxima dose será sempre uma nova promessa de revelação. Miragem enfumaçada: “Sinto que as pessoas me puxam…”

   Gabiru, 19 anos, “está numa boa”. Quando acha que deve comer, fuma maconha: “Abre o apetite”. Para se desligar, então dormir, ele toma álcool. Assim se cuida. Por suas mãos rolam “umas 80 pedras por dia”. Algumas o mantém “24 horas no ar”. Outras, vende. Ele as chama de “Kuwait”, porque inventadas nos Estados Unidos. “Tô nessa porque quero”, garante. Micróbio, arredio, não fala nem a idade. Irrequieto, ansioso, de pé o tempo todo, só acalma pipando o cachimbo.

  Uma garota de oito anos se enrosca numa sobra do cobertor de Adriana. Fuma tabaco com a compulsão de um adulto. O quarteto se une por algumas coincidências: nenhum sabe de pais ou família, todos são “diplomados” pela Febem e vivem nas ruas. Pressentem o crack como cães, o cio. O mundo vai da estação da Luz até a avenida São João. Há quem cruze a fronteira, chegando à praça da República. Misturam-se às prostitutas e mendigos. Brilhou um isqueiro à noite, ali estão eles. De dia sentam-se no meio-fio, ou se esticam sob o sol para dormir.

  De uma janela para a rua Conselheiro Nébias, no quarteirão próximo da rua Aurora, avista-se uma mulher de vestido preto e branco. Chama a atenção tentando se enfiar entre um carro estacionado e a calçada. Quando consegue, acende o cachimbo. Dia claro, lojas abertas, até a polícia está em ação na esquina, descobrindo que Micróbio é Rodrigo, menor de idade que traz na mão esquerda, tatuada, uma temerária confissão: a caveira com um punhal, marca de quem já matou policial. O soldado Araújo examina a tatuagem. Do outro lado, a mulher se levanta, na fugaz curtição do crack, e encosta na parede de um supermercado, escorregando até sentar-se, as pernas abertas.

  “Não matei ninguém, não” – Micróbio puxa a mão. “Foi na Febem que me tatuaram, mas vou apagar”. Agora o soldado Araújo procura picadas nos braços, enquanto vai perguntando: “Rodrigo de quê?” Cada resposta é um novo sobrenome. Outro soldado os transmite por walkie-talkie. Abordada por um homem, engravatado, a mulher se levanta, cruza a blitz, e logo está de volta. Óbvia transação: vê-se a troca de uma nota por algo invisível, tão pequeno, mas logo enfiado no bolso da calça. E lá vai ela de volta entre o carro e o meio-fio queimar “a comissão”.

  Micróbio olha desconfiado para o repórter. “Foi você”, está na ponta da língua. De noite, Gabiru teria se enganado, agora foram todos dedurados. A imprensa por testemunha, o estudante Marcos Perusi dá um passo adiante, e acusa o soldado Araújo: “Você chamou o suspeito de bobo”. E se apresenta: “Sou da Comissão de Direitos Humanos”.

  -Seus documentos – pede o soldado, surpreendido. “Xinguei ele de bobo?”, pergunta. “Você o insultou”, insiste Perusi, que prova fazer pós-graduação na USP. “Este menino (R.A.M) é ladrão de toca-fitas”, ouve-se pelo walkie-talkie. Limpo, sem drogas nem picadas, Micróbio foi substituído pela Comissão de Direitos Humanos no interesse das Rondas Ostensivas com Apoio de Motociclistas (Rocam). Não sendo bobo mesmo, ele cai fora rapidinho. Do outro lado da rua, o repórter decide testar o mercado de crack a céu aberto.

  -Tem pedra? – pergunta à mulher de preto e branco.

  -Você é da polícia? – desconfia. Tranquilizada, impõe a comissão: “Metade para mim”. Uma pedra, R$10,00. Pega a nota, manda esperar e sobe a rua até um grupo de garotos. Uma perua da polícia chega junto. Descem militares armados. Mas lá vem ela voltando. Cochicha ao passar: “Vem comigo”. Não que temesse ser escutada; com a pedrinha de crack escondida na boca, mal podia falar. Entrega feita, ela diz se chamar Márcia, e convida: “Se deixar eu fumar com você faço o que quiser”. Por enquanto, tem uma nova fornada para o cachimbo. Então se espreme entre um carro e a guia. O mundo vai passando em volta. Com uma aparente alucinação, surrealista: um cavalo sem cavaleiro  surge galopando, perseguido por um policial montado e uma radiopatrulha. Capturam-no na rua Brigadeiro Tobias, já perto do Denarc, o Departamento de Narcóticos, vencido o rush do trânsito na avenida Casper Líbero.

  Um sintoma da epidemia de crack é a violência. Ali está um homem caído no chão. As pessoas que o rodeiam parecem estar drogadas. Olhar esbugalhado, um rapaz abre a porta de um “táxi” que parou – o carro de reportagem do Estadão, camuflado. “Coloca ele aí” – ordena. Esquina de ruas dos Gusmões e Protestantes, quatro da tarde, o motorista Evandro só exige que testemunhas o acompanhem. Ele não quer chegar no Pronto-socorro com um corpo perfurado por cinco tiros, e nada a declarar ao plantão policial. A multidão se impacienta, balançando o carro como se fosse virá-lo. Todos gritam. “Ai minha cabeça: parece uma panela de pressão” – reclama a mulher que tem o respeito geral.

  O Tático Móvel desce a rua a toda, sirene ligada. Dois soldados vestem luvas enquanto perguntam: -O que aconteceu? Silêncio. Um vê sangue, então pergunta: -Quem atirou? Silêncio. Fica irritadíssimo, diz uns palavrões e se dirige a todos: “Agora ninguém sabe p…. nenhuma! Ninguém viu nada. Que se …..” Partem com o corpo sem nome, sem testemunhas, sem nada para o boletim de ocorrências além de local e hora. “Foi uma menina”, revela a ex-panela de pressão, agora aliviada. “Chegou no homem e disparou cinco vezes”. Depois, saiu andando, e ninguém a deteve nem pela curiosidade de saber: -Por que? “Aqui todos sabem”, explica um policial que chegou para investigar. “É droga, com certeza”. Ele não tira a mão do gatilho do revólver, no coldre. “Fuma-se crack no meio da rua”. Só procurar pelo chão: no meio do lixo, há maricas – os cachimbos improvisados, feitos de rosca de lâmpadas ou tampa de vidro de esmalte. As garrafinhas do saudável Yakult também servem. Sem nunca ter passado do cigarro, ele adivinha pelo que já viu: “O efeito deve ser muito forte, muito mais do que o da cocaína pura”.

  Viúva duas vezes, a “Pantera Negra”, ou “Jaboticaba”, ou “Yolanda”, esclarece: “Aqui é uma rua, ali é outra”. Tem lógica, como acrescenta: “O ponto de drogas está ali; aqui ficamos nós”. Não que sejam incompatíveis. Mas o que acontece do outro lado da rua está além de uma fronteira virtual. “Não sou nenhuma santa” – e ela mostra o gesso do braço direito lotado de assinaturas de novos pretendentes. A terceira viuvez? Ela dá uma gargalhada. Uma amiga ao lado parece desconhecer fronteiras. Alucinada, murmura incongruências na calçada dominada pela prostituição. Alguém a chama de “Maria das Pedras”.

  A prostituta cobra R$35,00. Anuncia: “Faço o que posso”. O craqueiro pede R$15,00 mas deixa por R$10,00. Também faz propaganda: “Esta é turbinada”. Quem experimentou, nega. O efeito da pedrinha começa em 15 segundos, dá um pico em cinco minutos, tuiiinnnn, e decai até desaparecer no máximo de 15 minutos. Uma droga fast-food. Fica o vazio que só será preenchido por novas baforadas. Fuma-se para fumar mais, e mais, e mais. O crack é assim, insaciável. Ao estreante, enjoa. Mas produz uma sensação de potência e euforia. A cachimbada equivale ao “Shazam!” que dá poderes ao super-herói das histórias em quadrinhos. Ao abracadabra das metamorfoses mágicas. Em seis semanas de uso, vicia. Com mais tempo, provoca hipertensão, taquicardia, paranoia. E pode levar ao suicídio.

   “Ah, nem sei o que faria sem as pedras” – diz uma craqueira de 17 anos num “ponto” ao lado do tradicional Bar do Leo, na rua Aurora. “Loucura: estou nessa desde os 13 anos”. Uma vez, no barato, ela enxergou cobras avançando poste abaixo. Também já entrou em pânico, gritando sem controle. Desistiu de namorar: “Não tenho nenhum prazer sexual”. Mas ela topa qualquer programa, não importa com quem, por uma pedrinha. “Não estou nem aí para Aids”. Nem para a família: “Esqueci quem são meus pais”.

  A divisão entre consumidor e traficante se embaralha no fast-food do crack. Adriana vendia mais do que fumava. “Aí a Ivonete morreu, de cachimbo na mão, e um tiro no peito”. Era a fornecedora. Agora ela fuma a comissão do que vende. “Pintou freguês, vou buscar”. A memória começa a capengar. Já não se lembra mais de uma irmã. Gabiru a chama de “Gorda”. Maldade: ela parece ter o peso normal, nem tão franzina como os outros craqueiros.

  -O que você come?

  Ela abre a mão para mostrar uma pedra. Come crack.

  -Sede não tem?

  Ela aponta para o esgoto escorrendo para um bueiro.

  -Trabalha? “Cato lixo”, responde. Adriana se gaba de que “pode parar quando quiser”. Gabiru, ex-gráfico, também se mostra convencido: “Eu me controlo, ainda sou dono de mim mesmo”. Então, fumarão mais um pouco hoje, amanhã, depois. Micróbio nem fala mais, só espera a chama de um isqueiro. Já regrediu tanto que o apelido, de outros tempos, lhe faz justiça.

Foto: MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL (21/01/2013)

Foto: MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL (21/01/2013)

 Os pilotos do casarão Santos Dumont

  Reféns do crack, os 400 moradores do “casarão de Santos-Dumont”, no bairro de Campos Elísios, caberiam dentro de um Jumbo voando na rota de um desastre já anunciado por um oficial de Justiça há uma semana: o despejo, em mais 40 dias. Numa escadaria do cortiço, um grupo de craqueiros tenta decolar pipando um cachimbo. Voo baixo, cego, raspando a lama e o lixo.

  “A batalha aqui é grande: os drogueiros são de 30 a 40; a gente disposta a lutar, só dez” – conta um dos moradores. “Mas se nos despejarem não acabarão com a droga”, ele aposta.

  O casarão em que morou Alberto Santos-Dumont, na esquina das alamedas Nothman e Cleveland, deverá agora ser esvaziado e restaurado. Há 12 anos foi tentado o primeiro despejo. Mas 52 famílias despejadas antes de dois cortiços no bairro de Santa Cecília o invadiram. A situação mudou com a chegada dos craqueiros. “Infiltraram-se entre as pessoas de bem”, reclamam moradores que nasceram no cortiço, rompendo um silêncio imposto sob a ameaça de navalha. Uma avó que denunciou ao Estado que a propuseram tornar-se “um avião”, entregando drogas, recebeu a advertência de que poderá “sangrar”.

  À noite, quem tem que passar a pé diante do casarão, corre. O motorista que der duas voltas no quarteirão, revelando algum interesse, será abordado: quer crack? Mas “Salsicha” não está para conversas, só negócios. “Tô numa boa não”, ele avisa. “Desbaratina”, ordena. Uma mulher confessa que se casou “só para sair deste inferno”. Mas ela volta para visitar a mãe. E protesta contra a ordem de despejo: “Como aqui as portas são abertas para todos, não podemos impedir quem quer que seja de entrar. Já entrou ladrão fugindo da polícia. Já chegou para morrer ferido em tiroteios na rua. Aqui há craqueiros como nas ruas centrais da cidade. Todos os lugares têm viciados”.

  As 120 famílias, com 176 crianças, incontáveis cachorros e gatos, foram surpreendidos em março com a chegada dos “Rambos”. Eram policiais bem armados que revistaram todos os cubículos do cortiço. Pela primeira vez a comunidade do Casarão de Santos-Dumont percebeu que tinha se tornado refém dos craqueiros. E que o provável resgate será o despejo final, que o Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, a Unificação de Centros de Cortiços, a Pastoral da Moradia e a vereadora petista Aldaiza Sposite estão tentando evitar.

  “Botar a população na rua?” – espanta-se a coligação anti-despejo. “A rua já está cheia…” Uma moradora protesta: “Tem muita família boa e trabalhadora aqui dentro que não deve pagar pelo que fazem uns poucos”. A comunidade também sofre diretamente: “Os craqueiros te quebram os canos, arrancam fios de luz, compram briga”. O anexo do casarão já está contagiado pela epidemia de crack. Completamente alucinado, um homem perambula entre crianças. “O crack me dá alegria”, apregoa. “Troquei pela cachaça, que me perturbava”. Um encarregado da limpeza, diante de um monte de lixo, propõe, mas ninguém o escuta: “Por R$2,00 limpo todo o quintal”.

CREDENCIAIS, POR FAVOR – II

Aqui está a segunda rodada de credenciais que colecionei enquanto correspondente.Nem todas foram para abrir passagem para guerras. Com uma delas segui a vitória de Guga em Roland Garros, na França. Beleza! Outra me levou pela Copa dos Estados Unidos até a vitória da seleção brasileira contra a Itália. Com outra, ainda, fui até a derrota do Brasil para os franceses, em Paris — e ao voltar à feira ao lado de onde morei, perto da Torre Eiffel, alguns anos depois, tive que ouvir o padeiro ainda me lembrar: “les bleus…” Tudo bem: ganhei algumas madeleines pelos desaforos. A primeira rodada das credenciais pode ser vista clicando neste link.

A principal credencial: a placa visível no meu carro para rodar em Gaza, Líbano e Israel.

A principal credencial: a placa visível no meu carro para rodar em Gaza, Líbano e Israel.

Ah, Roland Garros...

Ah, Roland Garros…

Encontro de chefes de Estado na Bahia.

Encontro de chefes de Estado na Bahia.

Esta vale  pela graça: virei "Rabinovia", e a revista para a qual trabalhava, Epola Magazine.

Esta vale pela graça: virei “Rabinovia”, e a revista para a qual trabalhava, Epola Magazine.

Copa do Mundo nos EUA

Copa do Mundo nos EUA

Eco 92, Rio.

Eco 92, Rio.

2015-01-04 23.57.40

Convenção Democrata em Atlanta, EUA

Mike Tyson & Foreman, duas grandes lutas.

Mike Tyson & Foreman, duas grandes lutas.

Encontro Gorbachov e Ronald Reagan

Encontro Gorbachov e Ronald Reagan

Panamá, na invasão americana que derrubou Noriega.

Panamá, na invasão americana que derrubou Noriega.

Carteira do Líbano, durante a guerra de 1982-84

Carteira do Líbano, durante a guerra de 1982-84

Passeio pelo sul do Líbano

2015-01-02 21.15.54

O repórter e a escolta obrigatória (Foto Rina Castelnuovo, New York Times).

Vestir o colete à prova de balas, e estar protegido por uma escolta armada com fuzis M-16. É obrigatório, como apertar o cinto e desligar o celular, nos aviões. Estamos nos aproximando do Líbano, via Metula, em Israel.

Adiante, o “portão número um”. Antes de cruzar a fronteira, paramos num grande pátio, ao lado de uma fila de carretas carregadas com tanques cobertos com panos finos e manchados de marrom e verde, camuflagem transparente, e vários caminhões brancos da ONU com soldados explicitamente nórdicos, louros e já vermelhos do tímido sol de primavera.

Do comboio da imprensa, surge o gordo e simpático arquiteto de Beersheba, no deserto do Negev que, por 40 dias cada ano, assume seu posto de oficial do exército israelense, cumprindo o “Miluim” — o serviço militar compulsório. Ele sai do primeiro dos três carros, todos alugados com seguros especiais para regiões em guerra, e some num barracão de madeira. Vai obter o nosso “visto de entrada” final.

Ônibus com turistas param perto, onde há uma paisagem perfeita para álbuns de recordação: arame farpado, trincheira, a cerca eletrificada que se perde de vista, o chão de areia fina e constantemente varrida que grava as pegadas dos guerrilheiros que conseguirem a raridade de uma infiltração, enganando os sistemas de defesa, e a placa que indica” Perigo: fronteira”. Tem até tenda que vende envelopes com selos libaneses, e como são válidos para remessa dali mesmo, muitos turistas trocam a máquina fotográfica por canetas, então descrevendo suas experiências de guerra. Os soldados alimentam a ficção, posando com suas armas. Este lugar já foi conhecido como Fatahland, por causa dos guerrilheiros do Fatah, e como Haddadland, agora, quando o major rebelde libanês Saad Haddad o proclamou “Líbano livre”. (Cá entre nós, é mais uma Disneylândia do Oriente Médio, graças ao turismo de guerra.

— Israel está querendo retirar-se do Líbano, ou na verdade vai é invadi-lo outra vez? — pergunto aos dois soldados da escolta, enquanto instalam um potente rádio de campanha no meu carro. Não respondem. Aponto para a caravana das carretas com tanques camuflados. Aí um deles explica

— Ah, isto é normal, trocas no front…

Quando não estão mobilizados, em “miluim”, trabalham como carpinteiros, em Holon, ao sul de Tel-Aviv. Hoje farão a última viagem dos 40 dias de serviço obrigatório. “Maspik”, ou “basta”, diz um deles. Vai embora daqui a pouco para casa, onde o esperam mulher e filhos. Volta o oficial e arquiteto de Beersheba, papeis à mão, gritando “Yala, Yala” , “Vamos, vamos”, coletes fechadoa, fuzis ao alcance prontos.  Abre-se o portão número um: entramos no Líbano.

Atire-se um libanês

Ao mar, e ele voltará,

Com um peixe na boca.

Os buracos de tiros de todos os calibres já foram rebocados, na maioria das casas. Como feridas, cicatrizaram, mas deixaram marcas. Ainda se encontram montes de ruinas, aqui e ali. Quando um telhado está quase inteiro no chão é porque desabou implodido por uma granada lançada para dentro pela janela. Mas quando restam apenas pedras, não há dúvida; bombardeio aéreo, ou impacto direto de obus de grosso calibre.

Os sul-libaneses, emergindo depois da guerra de Israel contra a OLP, em meio à guerra civil destruindo o Líbano desde abril de 1975, confirmam o provérbio. Seus peixes tomam a forma de um número impressionante de novas obras. Alguns projetos revelam outra característica do libanês, a sua capacidade de recomeçar do zero, ou o gosto pelo risco: do contrário, como entender o grande hotel sendo levantado vizinho ao portão número um, na fronteira com Israel? Ou o cassino anunciado por uma placa, em frente a uma obra já adiantada?

Será que os sul-libaneses esperam que os israelenses virão lotar o hotel, e apostarão no cassino? E como é que viriam? Uniformizados e armados, como sempre? Ou com passaportes, turistas? Será que estão acreditando numa eventual e distante paz entre Israel e o Líbano, que então abriria a rodovia Jerusalém-Beirute?

O Chateau Beaufort, de onde a OLP disparava contra o Norte de Israel.

O Chateau Beaufort, de onde a OLP disparava contra o Norte de Israel. Thibaud Saintin via photopin cc

Os libaneses não são ingênuos: se voltam com um peixe na boca, depois de jogados ao mar, é porque tem “shatara”, malandragem, no melhor dos sentidos, uma mistura de astúcia e malícia, como me explica um libanês. Alem disso, são ambiciosos: muitas das casas que projetam enormes, luxuosas mansões, ficam inacabadas. Isto se vê por todo o país. Beirute está repleta de sobrados interrompidos no primeiro andar, com as colunas do segundo apenas iniciadas, abertas para o céu como esperando um milagre.

Observe-se bem as casas em construção no sul do Líbano: elas não têm fundações. E o que isto revela não pode ser chamado de otimismo. Os libaneses acreditam tão pouco no futuro imediato que nem raízes fixam. A explosão de um bujão de gás derruba um edifício libanês, como aconteceu no porto de Tiro, onde os israelenses tinham instalado a sede de um comando regional. Ali 62 pessoas morreram.

Mesmo como um castelo de cartas, o sul do Líbano está sendo reconstruído, os buracos de balas tampados, as estradas reabertas, os serviços públicos funcionando. E apesar de todo o dinamismo que se supõe olhando a paisagem, o que mais se vê são homenzarrões jogando bolinha de gude, admirados pelas crianças.

Outra obra impressionante tomando forma no sul do Líbano tem a marca israelense, e está em fase de fundação: é a que recebeu, em hebraico, a abreviatura de “Zadal”, significando “Zva Drom Levanon”, ou Exército do Sul do Líbano.

Os libaneses dizem: “Quem recebemos em casa são nossos primos”. Isto vale para os israelenses? Afinal, esses “brimos” não foram exatamente convidados, impuseram-se. Resta-lhes sempre um argumento decisivo: a força, e se em algumas casas são recebidos com toda a pompa de uma cerimônia de café, em muitos locais caem vitimas de emboscadas, seus jipes de patrulha voam em minas plantadas durante a noite nas estradas, e bombas acionadas por controle remoto explodem à passagem de ônibus de transporte de tropas.

Não é à toa que os soldados da escolta, no meu carro, pedem para aumentar o volume do rádio, quando começa a tocar uma canção popular que diz: “Quero voltar para casa”, e se ela nada tinha que ver com a guerra no Líbano, para muitos soldados servindo em território libanês agora soa como um hino.

Primos? Os israelenses eram heróis, no começo da guerra, para cristãos e muçulmanos do sul do Líbano, cansados da ocupação palestina. Os tanques avançavam rumo a Beirute, arrasadores, e aqui eles eram recebidos sob chuva de flores, e os soldados, presenteados. Os israelenses aprenderam rápido a palavra que resume a grande generosidade do libanês: “tfadale”, “é seu”, ou “leva para você, por favor”, que ouviam quando gostavam de alguma coisa. Nos restaurantes, não lhes cobravam as contas. E no trânsito davam-lhes passagem. Hoje, hoje não aceitam mais nem mesmo o dinheiro de Israel. O israelense passou a ser visto como ocupante, mesmo pelos seus antigos aliados, os cristãos.

“Quero voltar para casa”, cantarola um dos soldados, olhando o pico do monte Hermon coberto de neve. Mas se está incômodo ficar, muito mais será sair — “muito difícil mesmo”, assegura o arquiteto que comanda o comboio da imprensa pelo sul do Líbano, quando nos aproximamos do quartel do “Zadal” em Marjayoun, famoso bastião das forças do major Saad Haddad, que morreu no começo de 1984.

Aquele que permanece sentado

É uma pedra. E o que

se move, um pássaro.

Os israelenses são como os pássaros do provérbio libanês. Estão ensaiando uma nova direção política no Líbano. Com a morte o comandante do Exército do Líbano Livre, o major Haddad, e o cancelamento do acordo de maio do ano passado, para a retirada das forças estrangeiras, com o governo do presidente Amin Gemayel, uma nova situação foi criada. E o capitão Malihi Menachem que o diga.

O capitão Menachem está trabalhando na criação do novo exército, “Zadal”. É israelense, como a bandeira que tremula no pátio do quartel. Mais que isso: recebe tratamento de comandante, de fato, já que oficialmente ninguém foi apontado para substituir o major Haddad. Assim, novos recrutas e veteranos o recebem nos bloqueios militares nas estradas, e os civis o saúdam respeitosamente. Todos os problemas da região acabam sobre sua mesa.

— Subentende-se que é Israel que comanda o novo exército do sul do Líbano. E será assim até quando? — Pergunto.

— Nós… nós não: eles… O major Haddad… Quando ele estava vivo, e ao saber que iria morrer de câncer, daí a sete meses, nomeou cinco prováveis sucessores. Um deles foi Elias Khalil, oficial do exército libanês. Era o mais indicado mesmo, entre todos. Mas ele não compareceu à cerimônia de sua própria posse. “Vocês me mataram antes que eu chegasse”, ele reclamou. Com o seu nome publicado pelos jornais, e sendo cristão, ele passou a receber ameaças de morte. E não assumiu…

— E o capitão Sharbal Barakat, o vice de Haddad?

— Não, muito jovem…ele está descartado. Dentro de mais duas semanas, no máximo três, teremos aqui um novo comandante.

— Cristão? Xiita? Druso? Quem?

— Por favor: não posso responder agora…Temos problemas. Nem tudo que Israel quer é possível, aqui e agora.

A preocupação do capitão Menachem é a de apagar a imagem de força cristã que ainda marca o novo exército do sul do Líbano. “A era Haddad acabou”, ele repete. E mostra alguns números:

— Os cristãos são agora 63% da brigada em formação. Os xiitas, 17%; os drusos, 13%; e os sunitas, 7%. Já contamos com dois mil homens.

— E eles se dão bem juntos? — pergunta-se à lembrança de que em Beirute os grupos étnicos estão muito distantes de formar um exército unido, reconciliados. Como Israel conseguiria o que os próprios libaneses ainda não conquistaram, mesmo após duas conferências de cúpula na Suíça?

Menachem olha para o vice-comandante de uma unidade mista, um libanês que não pode dar o nome por ter família em Beirute exposta a represálias. Ele explica: “Nós temos um interesse comum, só um objetivo — proteger nossas casas e aldeias com nosso próprio exército, enquanto tudo desmorona em Beirute…”

Outro motivo específico ao sul do Líbano: os seus 965 mil habitantes parecem ter concluído, à custa de toque de recolher como punição a atentados, ou fechamento das pontes sobre o rio Awali, ou por causa do excesso de violência que já experimentaram, que não há alternativa senão cooperar com Israel. “Ein brerá”, “não tem jeito”, dizem os israelenses, como consolação. Depois, ainda há o dinheiro: cada recruta, de 18 a 60 anos, com contrato que pode ser renovado a cada ano, recebe mensalmente o salário de cerca de 1.700 libras libanesas, equivalente a 300/350 dólares. Mas mesmo que nada ganhassem antes, muitos soldados já chegam ao quartel com seus Mercedes, pois o Líbano é um país sem impostos de importação.

Os uniformes causam certa confusão, iguais aos dos israelenses. As caixas de munição estão marcadas em hebraico. Mas a arma padrão é o fuzil Kalachnikov, capturado em grandes quantidades dos arsenais da OLP. A cor dos antigos Sherman e T-54, os tanques em operação no “Zadal”, é cinza claro.

Há soldados do exército do sul do Líbano que foram membros das milícias Amal (Esperança), xiitas, e da Saika, o grupo palestino apoiado pela Síria. Não estariam eles, na verdade, infiltrando-se, para sabotagens, muito mais do que voluntariando-se para uma luta em favor de Israel? Não acontecerá igual desastre ao ocorrido com o exército libanês, no momento da batalha decisiva, quando a maioria preferiu desertar?

O capitão Menachem assegura que “até agora, o novo exército mostrou eficiência e fidelidade”.

— São melhores que os soldados israelenses, em algumas coisas – ele acrescenta. “Primeiro, porque são da região, porque servem numa área em que conhecem praticamente a todos, sendo então capazes de distinguir os forasteiros. Digo-lhe: eles descobrem, só olhando, quem chegou para tumultuar, ou quem esconde alguma arma. Já aconteceu várias vezes, em bloqueios de estradas. Segundo, porque estão defendendo suas famílias. E terceiro: eles se comportam agora como um exército. Esta é a grande mudança, eles podem ser enviados em missão, a qualquer parte.

— Quer dizer: os cristãos são enviados para áreas cristãs, e os xiitas, para as xiitas?

— Não, diz o capitão Menachem. — O objetivo é a integração. E se há alguma divisão ela não será nunca étnica, mas de acordo com a atividade.

O grupo que mais procura o novo exército, para alistar-se, é o cristão. Mas a recusa tem sido sistemática. Mesmo aqueles que desertaram o exército regular libanês foram reenviados para o norte, em navios que partiram do porto de Sidon.

— Só ficamos com cem deles — diz Menachem. — E por uma única razão: não queremos que o novo exército seja predominantemente cristão.

Durante a operação Litani, em 1978, Israel invadiu uma área cristã do Líbano. Estando agora na linha do rio Awali, mais para norte, a situação mudou completamente. A região sob controle israelense inclui 520 mil xiitas, 200 mil cristãos, 110 mil sunitas, 55 mil drusos e 80 mil palestinos. Por isso, o capitão Menachem conclui:

— Desencorajamos cristãos, e aceitamos os xiitas. Assim decidimos que tem que ser…

Uri Lubrani, o coordenador das atividades de Israel no Líbano, está levando em conta o pró-khomeinismo xiita, mas explica:

— Sou um otimista, apesar das más notícias. Sem otimismo, melhor ficar em casa, ler os matutinos, tomar a dose diária de frustração, e continuar. Aqui, estamos trabalhando duro para evitar que as coisas ruins aconteçam. A pressão pública em Israel para que nos retiremos do Líbano só agrava a situação. Tanto os xiitas como os sunitas nos perguntam: “Mas vocês estão saindo, ou ficando? Se estamos nos retirando, eles dizem que não querem conversa com a gente. Por isso, tenho insistido em não marcar datas de retirada, em comprar tempo… a nossa vantagem é a divisão entre os xiitas.

A luta interna vai crescendo dentro do Amal. Os pró-khomeinistas (os extremistas que estão prontos a morrer em nome de Alá) não passam de uma minoria, e a maioria os considera um grande perigo.

Os israelenses estão certos, depois que ouviram centenas de depoimentos de sul-libaneses de várias tendências, que os guerrilheiros da OLP não são mais bem-vindos na região. Em Beirute mesmo, os drusos eliminaram, recentemente, as milícias pró-nasseristas e pró-líbias, os mourabitun, porque seu líder, Koleilath, estava convidando os rebeldes do Fatah a penetrar em Beirute. A situação se repetiu no Shouf. E também ao sul de Beirute, evitando uma penetração para as linhas ocupadas por Israel.

— Uma consciência cresceu aqui pelo sul do Líbano, fruto de um desejo de viver. O povo está descobrindo que uma forma de viver uma existência normal é a de evitar ataques contra Israel.

Cada ataque palestino em Israel, antes da guerra de junho de 1982, significava represálias aéreas israelenses que atingiam a toda a população, direta e indiretamente. E depois, a ocupação palestina no sul do Líbano foi sinônimo de muita violência, assassinatos, estupro de mulheres e lutas intercomunais. O prefeito em El-khiam, Kamel Zawi, é um caso comum, típico. Sua aldeia foi talvez a que mais sofreu durante o império da OLP, abrigando cerca de cinco mil guerrilheiros. Os israelenses a bombardearam constantemente. A maioria da população fugiu para o norte, de onde fugiu de novo para o sul, há 18 meses. Agora que reconstruíram quase tudo, voltando do naufrágio com um peixe na boca, Zawi e alguns amigos fazem campanha para que os jovens juntem-se ao exército do sul do Líbano, desde que possa ser evitada qualquer publicidade: “Temos família em Beirute…”

Pergunto ao capitão Menachem quando é que Israel vai se retirar do Líbano. Ele parece surpreso: “Vamos ficar aqui 20, 30 anos…Esta é a realidade. Se sairmos, tibum: tudo desaba. Não se fala mais em retirada…Falamos em reduzir o máximo o número de soldados israelenses dentro do sul do Líbano. Claro: acontecendo algo sério, sempre temos condições de voltar.

— Se a integração entre xiitas, cristãos e sunitas funcionar aqui no sul poderá servir de modelo ao norte, para Beirute?

— De jeito nenhum – garante o capitão Menachem. — Se o cão do sultão morre, uma multidão vai ao enterro. Mas ao enterro do próprio sultão, quase ninguém.

Pouco depois da morte do presidente Anuar Sadat, fui a El Arish, no deserto do Sinai, onde vi a população recebê-lo em delírio, pela sua iniciativa de paz. Procurei quem tinha entrevistado antes. Era uma maneira de avaliar o impacto do assassinato. Mas, então, ouvia: “Não é mais Sadat. Agora, é Mubarak…” Tanto provoquei, um senhor me disse: “Escuta aqui, Sadat está morto”, e me ensinou um novo provérbio árabe, que embora não seja libanês aplica-se ao Líbano de hoje. Em Bint Jubayl acompanhei uma patrulha xiita numa ronda. Fui conversando com um soldado que todos chamavam de “Ringo”, xiita nascido em Burj Al Barajne, na região do aeroporto internacional de Beirute.

— Sou da metrópole, mas vim para cá faz seis anos – diz “Ringo” com orgulho. O que ele está fazendo aqui, num exército apoiado por Israel. “Yea, yea…Este é um bom exército…”

— E seus irmãos do norte?

— Você está falando de Nabi Berri (líder xiita do Amal, “Esperança”)? Ele não é um homem de bem. Ele não é um bom xiita.

— E por que?

— Porque ele está em contato com a Síria e com os palestinos.

— E você, com Israel…

— Eu quero paz. Israel é um bom país. Gostaria que Israel fosse de novo até Beirute. Dar uma surra no Berri.

— E como são suas relações com os cristãos?

Ringo dá uma gargalhada: — Meu coração está com os cristãos.

Outro xiita, Mustapha Nedji, que não está no exército do sul do Líbano, diz claramente:

— Se um xiita me pergunta se eu gosto de Khomeini, eu lhe digo: “Mas claro”. Só que eu não gosto.

— Você quer que o exército israelense vá embora daqui?

— Sim, se houver paz entre Líbano e Israel.

No alto, com um estrondo supersônico, surgem os aviões israelenses. Sobre a cidade, disparam vários mini-foguetes antimísseis, alaranjados. Estão treinando. Na rua central, nada se altera. Na sede do comando, à porta, oficiais do exército do sul do Líbano, entre eles um druso israelense, tomam cafezinho. Dois oficiais da ONU, um norte-americano e um canadense, tentam comprar vasos que transformarão em lustres, mas não sabem árabe, e ninguém os ajuda. A rua se enche de estudantes saindo das escolas. O capitão Menachem conta, como se fosse um segredo:

— Esta cidade é perigosíssima. Há um grupo khomemista muito influente. Se Israel se retirar, os extremistas tomam o poder.

Quis saber do capitão Menachem o que acontecerá se o Partido Trabalhista vencer as próximas eleições em Israel. Afinal, o líder Shimon Peres está prometendo retirar as tropas em três meses.

— Política… Yitzhak Rabin (ex-primeiro-ministro e ex-chefe do Estado Maior do exército, futuro ministro da Defesa, num governo Peres) esteve aqui, comigo, na semana passada. E ele é completamente favorável a nossa atual política…

— Quer dizer: com os trabalhistas no poder, nada mudará aqui?

— Nada, porque governo e oposição concordam com os mesmos objetivos, embora adotando caminhos diferentes para atingi-los.

Um pneu do comboio fura na estrada, perto de um bloqueio militar de muçulmanos xiitas, sem uniformes. Dois carros, com quatro soldados israelenses, e um xiita que usa revólver como em filmes de faroeste, são escalados para encontrar um borracheiro. Toda saída dos caminhos normais, dentro do Líbano, implica em perigo. E na medida em que fomos penetrando para os subúrbios de Bint Jubayl, grupos ficavam no meio da rua, colocando-se diante dos carros. Mas a visão dos soldados armados parecia dissuasiva.

Num posto de gasolina, quando um israelense mostrou o pneu furado, nada aconteceu. Foi preciso que o xiita á paisana fosse buscar o borracheiro. Os imans e os mullahs da região estão proclamando ser pecado usar um copo que um israelense tocou. Melhor será quebrá-lo. O que dizer então de consertar um pneu?

O dono do posto de gasolina, um xiita que acabou de chegar da Costa do Marfim, veio ver os israelenses, ao saber que apareceram para consertar um pneu. Sendo pró-Israel, não quis inclusive cobrar, e ainda ofereceu cafezinhos. Perguntei se não estava comprando um problema com seus empregados, e os religiosos da cidade. E ele suspirou, e disse:

— Estamos sobre um vulcão.

No caminho de volta, entardecendo, surgem novas carretas com tanques, cobertos de camuflagem. Um soldado da escolta lembra: “Não disse? Estão trocando tanques…tudo normal…”

Publicado em 1984

Galeria

CREDENCIAIS, POR FAVOR.

São lembranças de guerras. E também de paz. Faltam muitas credenciais, sumidas em várias mudanças. De Israel, onde passei oito anos, mostro apenas a primeira carteirinha, que as outras que se seguiram mudaram apenas de ano. Longe de mim estar me ufanando de mim mesmo. Pensei que as credenciais viriam bem com textos de um passado que, graças a elas, testemunhei. Passado que me surpreende quando o revisito. Já ouvi muitas vezes: “No Brasil, até o passado é imprevisível”. Não, não só aqui.

2015-01-02 21.17.28

Israel, Rússia.

Os russos invadem Israel

O veterano de guerra russo Vimer Bariz Samuelovich pôs suas três medalhas de bravura no peito, e fugiu. Rendido à crise econômica na Rússia, ele voou 2.117 km de Kiev até a “outra Rússia prosperando por ser o destino do êxodo de 850 mil russos desde 1987 – o início do fim do império soviético. Um pioneiro russo de Plonsk, David Gruen, mudou de nome ao chegar, em 1906, e o aeroporto foi batizado em sua homenagem: David Ben-Gurion. O cartaz em caracteres cirílicos dá “boas-vindas ao lar”. Os funcionários da imigração falam russo. A música de fundo é russa. As moças do café grátis são russas. O jornal, russo. E os israelenses riem da piada: “o hebraico está rapidamente se tornando a segunda língua em Israel”.

   Uma das medalhas de Samuelovich é a General Jukov. As outras são das duas guerras mundiais. Mas num país de milhares de heróis de 50 anos de guerras, elas apenas simbolizam a principal característica dos imigrantes das 15 ex-repúblicas soviéticas, todos recebidos como “russos”: o sentimento de superioridade. O sovietólogo Amnon Sela parodia os russos: “Nós temos uma grande e rica cultura, e vocês, nenhuma”. Eles não se submetem, como os imigrantes etíopes ou marroquinos; impõem-se. Também não se integram; conquistam direitos. “E por que deveríamos nos integrar?” – pergunta um antigo dissidente soviético, Eduard Kuznetsov, hoje editor do jornal russo mais popular de Israel, Vesti (Notícias). “Se somos muitos podemos lutar para manter nossa própria cultura”.

   Aos 73 anos, Samuelovich ostenta suas medalhas na sala do aeroporto lotada com 500 russos. Todos esperam ser chamados para dentro das 15 baias onde terão os nomes digitados num banco de dados, receberão uma carteira de identidade, seis meses de assistência médica gratuita e ajuda imediata em dinheiro, mais um carnê para uma retirada mensal em banco que ainda inclui benefícios para o primeiro ano em Israel. Para cada família de quatro pessoas, US$ 540 na hora e o equivalente a US$ 10 mil em 12 meses. Aos aposentados, aposentadoria. Aos doentes, hospitalização. Para todos, cursos intensivos de hebraico. A única condição para imigrar é a de ser judeu. Mas “exceto por algumas frases em iídiche, a maior parte dos judeus russos não conhece nada da vida judaica, nada do judaísmo e nem é sionista”, diz uma funcionária do Ministério do Trabalho, Nitza Zvi. “Seus filhos, porém, não serão diferentes dos nossos”, ela acrescenta.

   Como as medalhas de Samuelovich, muitos exibem colares com grandes estrelas de David, o entrelaçado de dois triângulos com seis pontas, o símbolo judaico. Tão à mostra, provocam suspeitas, ao invés de dirimi-las. Um jovem russo morto num recente atentado palestino em Jerusalém não pôde ser enterrado como judeu, por decisão do Rabinato. Um quarto dos russos israelenses não seria considerado judeu pela Lei Judaica: “judeu é todo aquele nascido de mãe judia”. A Organizatsiya, a máfia russa que já abriu filial em Israel, consegue “cobertura judaica” para quem quiser imigrar. Assim exportava gângsteres para Nova York ao tempo em que as portas da União Soviética estavam fechadas à imigração. E hoje envia prostitutas para as ruas de Tel-Aviv, ou “mensageiros” com malas de dinheiro ilegal para ser depositado no seguro sistema bancário israelense.

O visto para sair da União Soviética

O visto para sair da União Soviética

Samuelovich era gerente de loja, em Kiev. “Lá estava muito duro viver”, reclama. “Não tinha mais dinheiro”. A sua experiência de soldado deixou de ser compatível com as guerras sofisticadas travadas por Israel. Nem a idade permitiria um voluntariado. Então, o que vai fazer? Ele espera saber a resposta depois que aprender hebraico. O filho que imigrou há três anos dá aulas de educação física e poderá ajudá-lo. De condecorado à dependente, ele não perde a pose: estufa o peito, e tilintam as medalhas.

   Houve tempo, no início da década de 90, que o imigrante russo que não descesse do avião com um violino, então era médico. No hospital de Barzilai, perto de Ashkelon, a maioria da equipe é russa, mesmo os chefes de cirurgia e da área de oncologia. Estudantes de medicina russos trocam de carreira para evitar o mercado congestionado de Israel. Uma orquestra, a Andaluza, orgulho dos judeus expulsos de Portugal e Espanha em 1492 e 1496, os sefardins, já está tomada por russos. A diretora do conservatório de Ashdod, Hanita Zvevner, tem num caderno os nomes de 60 professores russos esperando vaga. “Não há alunos para todos!” Do dilúvio de oito mil imigrantes violinistas e pianistas, três mil foram empregados. Quando a Filarmônica de Israel apresentou “1812”, de Peter Ilyich Tchaikovsky, na praça Rabin, em Tel-Aviv, o público falava russo. Em 1989, menos do que 700 mil espectadores foram a concertos em Israel. Mas em 1994, com a chegada de 500 mil russos, o público passou a ser de 1,1 milhão.

   O flautista e saxofonista Vladimir Devorskin chegou de Moscou há três meses. Está tocando no calçadão de Jerusalém. Decepcionado? Vai voltar? “Yeltsin bandit, bandit”, xinga. Se tocasse numa rua russa, a Organizatsiya apareceria para cobrar pedágio. “Pelo menos aqui a máfia não assumiu o controle”. O organista Ariel, também moscovita, está conformado em viver de esmolas. Fez uma dupla com Devorskin para tocar algo brasileiro em homenagem ao repórter. E atacou “La cucaracha”… Ao lado, Ida Guershkah, de 72 anos, não toca nem canta: oferece antigas canções em iídiche num velho gravador quase sem som. Mas se diz feliz: “Tenho assistência médica de graça sempre que preciso”. E recebe “um dinheirinho” do governo.

   Os russos estão russificando Israel. Já são um quinto dos 5,9 milhões de israelenses. E continuam a chegar ao fluxo médio de 150 por dia, 5 mil por mês. A fábrica de chips da Intel em Haifa, que só tinha um único russo em 1983, agora tem 150. E o pioneiro, Mikhail Kagan, é hoje o chefe do departamento de microprocessadores. Com 600 mil eleitores, os russos decidiram a queda de Yitzhak Shamir, do Likud, em 1992, e elegeram Binyamin Netanyahu, do Likud, em 1996, rejeitando um aprendiz público de russo, o trabalhista e Nobel da Paz Shimon Peres. O partido Israel Ba’Aliya já fez os ministros Anatoly Sharansky (Indústria e Comércio) e Yuli Edelstein (Imigração e Absorção). E tem sete deputados. Os judeus russos são de direita. Minoria na antiga União Soviética, eles não se identificam com a outra minoria do Oriente Médio, os palestinos. O editor do Novosti Nidli (Notícias da Semana), Dmitri Ladizhinsky, justifica assim uma opinião geral russa sobre a troca de territórios ocupados pela paz: a ex-União Soviética, 28 mil vezes maior do que Israel, não devolveu ao Japão as ilhas Kural, tomadas na Segunda Guerra Mundial, agora 1% do território russo. “Então, é difícil entender por que os israelenses deveriam devolver mais de 10% de seu país – e para inimigos”.

   O soldado Nicolai tem uma visão mais próxima dos palestinos, por servir na Cisjordânia. “Em multidão, são perigosos, mas sozinhos nos convidam até para cafezinhos”. Só agora, com Bibichicov Netanyahu (Netanyahuzinho), é que há processo de paz”. Pai químico, ele vai estudar engenharia de computação e namora uma russa, embora neste momento, na praia de Ashdod, esteja paquerando uma loura cor de neve da Sibéria. Por que não uma israelense? “Mentalidades muito diferentes”, diz. O ministro Sharansky, trocado por espiões soviéticos depois de preso por nove anos, diz que o êxodo russo alterou o sionismo, que deixou de ser o caldeirão em que todos os diferentes judeus eram misturados. “Temos agora judeus russos, judeus americanos e judeus marroquinos, e queremos suas tradições e conhecimentos: Israel tem que se tornar a pátria de todos os judeus”.

Como as medalhas de Samuelovich, muitos exibem colares com grandes estrelas de David, o entrelaçado de dois triângulos com seis pontas, símbolo judaico. Tão à mostra, induz suspeitas, ao invés de dirimi-las. Um jovem russo morto num recente atentado palestino em Jerusalém não pôde ser enterrado como judeu, por decisão do rabinato. Um quarto dos russos israelenses não seriam considerados judeus pela Lei Judaica: “judeu é todo aquele nascido de mãe judia”. A Organizatsiya, a máfia russa que já abriu filial em Israel, consegue “cobertura judaica” para quem quiser imigrar. Assim exportava gângsteres para Nova York ao tempo em que as portas da União Soviética estavam fechadas à imigração. E hoje envia prostitutas para as ruas de Tel-Aviv, ou “mensageiros” com malas de dinheiro ilegal para ser depositado no seguro e curioso sistema bancário israelense.
Samuelovich era gerente de loja, em Kiev. “Lá, estava muito duro viver”, reclama. “Não tinha mais dinheiro”. A sua experiência de soldado deixou de ser compatível com as guerras sofisticadas travadas por Israel. Nem a idade permitiria um voluntariado. Então, o que vai fazer? Ele espera saber a resposta depois que aprender hebraico. O filho que imigrou há três anos dá aulas de educação física e poderá ajudá-lo. De condecorado à dependente, ele não perde a pose: estufa o peito, e tilintam as medalhas.
Houve um tempo, no início da década de 90, que o imigrante russo que não descesse do avião com um violino, então era médico. No hospital de Barzilai, perto de Ashkelon, a maioria da equipe é russa, mesmo os chefes de cirurgia e da área de oncologia. Estudantes de medicina russos trocam de carreira para evitar o mercado congestionado de Israel. Uma orquestra, a Andaluza, orgulho dos judeus expulsos de Portugal e Espanha em 1492 e 1496, os sefardins, está tomada por russos. A diretora do conservatório de Ashdod, Hanita Zvevner, tem num caderno os nomes de 60 professores russos esperando vaga. “Não há alunos para todos!” Do dilúvio de oito mil imigrantes violinistas e pianistas, três mil foram empregados. Quando a Filarmônica de Israel apresentou “1812”, de Peter Ilyich Tchaikovsky, na praça Rabin, em Tel-Aviv, o público falava russo. Em 1989, menos do que 700 mil espectadores foram a concertos em Israel. Mas em 1994, com a chegada de 500 mil russos, o público passou a ser de 1,1 milhão.
O flautista e saxofonista Vladimir Devorskin chegou de Moscou há três meses. Está tocando no calçadão de Jerusalém. Decepcionado? Vai voltar? “Yeltsin bandit, bandit”, xinga. Se tocasse numa rua russa, a Organizatsiya apareceria para cobrar pedágio. “Pelo menos aqui a máfia não assumiu o controle”. O organista Ariel, também moscovita, está conformado em viver de esmolas. Fez uma dupla com Devorskin para tocar algo brasileiro em homenagem ao repórter. E atacou “La cucaracha”… Ao lado, Ida Guershkah, de 72 anos, não toca nem canta: oferece antigas canções em iídiche num velho gravador quase sem som. Mas se diz feliz: “Tenho assistência médica de graça sempre que preciso”. E recebe “um dinheirinho” do governo.
Os russos estão russificando Israel. Já são um quinto dos 5,9 milhões de israelenses. E continuam a chegar ao fluxo médio de 150 por dia, 5 mil por mês. A fábrica de chips da Intel em Haifa, que só tinha um único russo em 1983, agora tem 150. E o pioneiro, Mikhail Kagan, é hoje o chefe do departamento de microprocessadores. Com 600 mil eleitores, os russos decidiram a queda de Yitzhak Shamir, do Likud, em 1992, e elegeram Binyamin Netanyahu, do Likud, em 1996, rejeitando um aprendiz público de russo, o trabalhista e Nobel da Paz Shimon Peres. O partido Israel Ba’Aliya já fez os ministros Anatoly Sharansky (Indústria e Comércio) e Yuli Edelstein (Imigração e Absorção). E tem sete deputados. Os judeus russos são de direita. Minoria na antiga União Soviética, eles não se identificam com a outra minoria do Oriente Médio, os palestinos. O editor do Novosti Nidli (Notícias da Semana), Dmitri Ladizhinsky, justifica assim uma opinião geral russa sobre a troca de territórios ocupados pela paz: a ex-União Soviética, 28 mil vezes maior do que Israel, não devolveu ao Japão as ilhas Kural, tomadas na Segunda Guerra Mundial, agora 1% do território russo. “Então, é difícil entender por que os israelenses deveriam devolver mais de 10% de seu país – e para inimigos”.
O soldado Nicolai tem uma visão mais próxima dos palestinos, por servir na Cisjordânia. “Em multidão, são perigosos, mas sozinhos nos convidam até para cafezinhos”. Só agora, com “Bibichicov Netanyahu” (Netanyahuzinho),  “é que há processo de paz”. Pai químico, ele vai estudar engenharia de computação e namora uma russa, embora neste momento, na praia de Ashdod, esteja paquerando uma loura cor de neve da Sibéria. Por que não uma israelense? “Mentalidades muito diferentes”, explica. O ministro Sharansky, trocado por espiões soviéticos depois de preso por nove anos, diz que o êxodo russo alterou o sionismo, que deixou de ser o caldeirão em que todos os diferentes judeus eram misturados. “Temos agora judeus russos, judeus americanos e judeus marroquinos, e queremos suas tradições e conhecimentos: Israel tem que se tornar a pátria de todos os judeus”.
Na pequena Rússia que está dando certo já foi formado o grupo teatral Gesher (Ponte, em hebraico), um sucesso absoluto em Israel já exportado para os Estados Unidos e a Europa. Dos nove israelenses convidados para uma conferência de matemáticos em Berlim, sete eram imigrantes russos. Cidades viraram canteiros de obras com o êxodo, atualmente estabilizado em 150 novos imigrantes cada dia. As medalhas de ouro das Olimpíadas da Língua Russa, em Moscou, foram conquistadas por três russos-israelenses. E em Beersheba, no deserto do Neguev, onde está enterrado David Ben-Gurion, há mais mestres de xadrez do que na própria Rússia.

Ben Gurion e Golda Meir, dois russos que foram primeiro-ministro em Israel.

Ben Gurion e Golda Meir, dois russos que foram primeiro-ministro em Israel.

Pousa mais um avião de russos no aeroporto Ben-Gurion. Agora surge o físico nuclear Marek Kiesler, viúvo de 52 anos, que chama atenção, como as medalhas de Samuelovich, porque carrega uma gaiola coberta com pano. Ele também está fugindo da crise econômica. Mas não quis abandonar Gosho, seu papagaio do Kazaquistão. Os imigrantes russos são como a bonequinha típica russa, a matriosca: aberta, tem outra boneca que se abrirá em outras bonecas, e assim 450 mil vezes mais, por um cálculo da Agência Judaica.

A Rússia de Bnei Ahish

A praça Menachem Beguin com a avenida Yitzhak Rabin, em Bnei Ayish, ao sul de Tel-Aviv, seria um cruzamento político improvável. Povoada de casais de velhinhos que não falam uma palavra de hebraico, só russo, é ainda mais impressionante. No quadro público de avisos, os anúncios são escritos em alfabeto cirílico. No shabat, o descanso religioso que fecha tudo em Jerusalém, a “delicatessen” Arbat está aberta.

Arbat, o calçadão mais famoso de Moscou, aqui é um mercadinho, com arroubo de delicatessen. Vende caviar a 200 shekalim o quilo (R$57), meio litro da vodca Dougan por 35 shekalim (R$10), e também vobla, o peixe salgado parecido ao bacalhau. No balcão, a proprietária Anette Freiberg, que imigrou da Rússia em 1992, com 15 anos, atende a todos em russo. E serve de intérprete entre o gueto russo e israelenses.
Os russos começaram a chegar a Bnei Ayish na leva de Freiberg. Havia então 1500 habitantes, a maioria imigrantes que vieram do Iêmen nos anos 50. Em pouco tempo, ocuparam a cidade: hoje os russos são 2/3 dos 7 mil habitantes. Agora tomarão o poder, elegendo o prefeito nas eleições de novembro. Será Grigory Lifshits, que foi membro do Partido Comunista em Moscou. Entre a minoria iemenita e a maioria russa restou certa tensão. Quando quer xingar, um iemenita diz: “russo!” A réplica, em geral: “árabe!”

Os refuseniks

Brailovsky, Sharansky, Kuznetsov... Foram centenas de refuseniks.

Brailovsky, Sharansky, Kuznetsov… Foram centenas de refuzeniks

Acabou a União Soviética, mas Eduard Kuznetsov mantém-se refusenik – um contestador. Nos anos 70, ele planejou o sequestro de um avião para Israel, com 15 outros dissidentes, mas foi descoberto e preso pela KGB. Ao recobrar a liberdade e o direito de viajar, saindo de um campo de trabalho forçado, continuou contestando pelo microfone da rádio russa Liberdade, montada pelos Estados Unidos em Munique, na Alemanha.

Há mais de 15 anos em Israel, planejou um segundo sequestro – e foi bem-sucedido. Saiu do primeiro jornal russo-israelense, Vremya (Tempo), fundado pelo barão inglês dos jornais, Robert Maxwell, para dirigir Vesti (Notícias), sequestrado quase toda a equipe. Vesti é hoje o quarto jornal mais vendido em Israel, o primeiro em russo, já preparando edições para a Rússia, onde hoje chega com dois dias de atraso, e para as comunidades russas nos Estados Unidos, Europa e Austrália. Está com a tiragem de 60 mil e se gaba de ser independente, embora publique muitos artigos de políticos ligados ao partido Meretz, da esquerda liberal.

Na sua salinha escura do Vesti, em Tel-Aviv, Kuznetsov confirma ser ainda um refusenik. Quando sondado sobre preferências políticas, não cai em nenhuma dissertação. “Não voto por ninguém”, diz secamente. Se está feliz em Israel, para onde quis vir em avião sequestrado? “Ainda não estou pronto para ser israelense”. Os imigrantes russos devem se acrescentar a Israel, não se integrar. Para falar sobre o futuro imediato da Rússia, ele adota um tom funéreo: “A Rússia não pagou ainda pelo passado comunista, e vai correr sangue”.

Putin (foto: Time of Israel)

Putin (foto: Time of Israel)No Kremlin israelenseKremlin, em Israel.

No Kremlin de Jerusalém

(Entrevista com ministro de Imigração e Absorção Yuli Edelstein, 40 anos, fundador do partido Israel Ba’Aliya, em 1960, e assessor por um ano, de 1993 a 94, do então líder da oposição e hoje primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, do Likud. Ele vive numa colônia da Cisjordânia, Alon Shvut, com a mulher e dois filhos. Edelstein é de Chernovitz, na antiga União Soviética, e foi um “Prisioneiro de Sion”, em Moscou, de 1984 a 87, quando imigrou para Israel. Eleito em maio de 1996 para o Parlamento, Netanyahu o nomeou ministro da Absorção um mês depois, em junho. É formado em línguas em Moscou).

— Os russos continuam imigrando para Israel? Qual a situação hoje?
Yuli Edelstein: Os russos continuam chegando. Recebemos no ano passado, da antiga União Soviética, cerca de 54 mil novos imigrantes. Da Rússia mesmo chegaram 15 mil. Hoje, por causa da situação econômica russa, estamos esperando um crescimento na imigração.
— Quantos judeus podem ainda imigrar da ex-União Soviética?
Edelstein: Cerca de mais 1 milhão.
— Israel terá ao todo 2 milhões de russos?
Edelstein: Depende… Não creio que todos quererão vir para Israel. O potencial é grande. Hoje, o candidato a imigrante sabe tudo que o espera antes mesmo de partir. Então, a forma como o absorvemos aqui, ou o estado de nossa economia, influencia muito a decisão de vir ou não.
— O que os potenciais imigrantes sabem de Israel, hoje, é sedutor?
Edelstein: Sim, quando eles têm todas as informações sobre Israel, ficam propensos a imigrar.
— Muita gente tem procurado o consulado de Israel em Moscou para imigrar?
Edelstein: Não estamos falando ainda de massas. Mas há um grande aumento de pessoas buscando informações.
— Já 1/5 da população, como os russos estão mudando Israel?
Edelstein: Eles influenciam muito, e de várias formas. A economia israelense parece hoje muito diferente por causa desta onda imigratória. Esses 15% adicionais da população impulsionaram a nossa economia principalmente por conter um grande número de profissionais altamente qualificados. Tornou possível o desenvolvimento do setor high tech. Mas ainda tem outra influência. Nas cidades em desenvolvimento do deserto do Neguev e da Galileia, uma situação totalmente diferente está criada, pois 25% de sua população são de novos imigrantes. Eles pesam nas decisões sobre educação, esportes e vida cultural. Se você falar com qualquer prefeito de uma dessas cidades, ouvirá o mesmo: tudo está completamente diferente do que era há dez anos.
— E em política? Como os russos influirão nas eleições municipais de novembro?
Edelstein: Teremos (o partido Israel Ba’Aliya) 78 membros de prefeituras, alguns serão vice-prefeitos e em um ou dois lugares elegeremos o prefeito.

(Esta reportagem foi publicada em 1999, na revista Época.)

   

Feliz ano novo, Cuba.

Castillo de los Tres Reyes del Morro (Foto: commons.wikimedia.org/)

Castillo de los Tres Reyes del Morro (Foto: commons.wikimedia.org/)

Dispara o canhão no Castillo de los Tres Reyes del Morro: são 9 horas da noite nas ilhas do socialismo, da dissidência e do turismo no arquipélago de Cuba, cercado por todos os lados pelo mar bravio das profundas transformações na Europa Oriental, na União Soviética e na Nicarágua.

  A ilha do socialismo está se preparando para enfrentar os efeitos tropicais do furacão que abriu os regimes e as economias de seus principais aliados, orgulhosa das conquistas de 31 anos de uma revolução feita sem os tanques do Exército Vermelho soviético. A nova proclamação do venerado comandante Fidel Castro, espalhada em cartazes por toda parte, e repetida ao final dos discursos, dá a dimensão do tremendo desafio diante de Cuba:

  SOCIALISMO O MUERTE!

  A pequena ilha da dissidência ganha cada vez mais habitantes insatisfeitos com a falta crônica de liberdade, alimentos, transportes, habitação e comunicações, sob os ventos europeus da glasnost e da perestroika. Os dissidentes e anônimos descontentes, estimados entre 3 e 10 por cento numa população de 10,5 milhões, vivem o mesmo temor constante da repressão que Cuba sempre condenou nas ditaduras mais violentas da América Latina. O governo admite que existem: “são uns poucos antisociales e contrarevolucionarios”. Um funcionário do governo norte-americano não os considera “uma ameaça” a curto prazo para o presidente Fidel Castro. “Estão desorganizados” – observa um diplomata. “O impossível tornou-se inevitável” – concluiu um dos dissidentes depois da derrota do presidente Daniel Ortega: “é aqui em Havana que está a última peça de dominó que ainda falta cair”.

  Os cubanos conferem o relógio com o disparo diário do canhão do Castillo de los Tres Reyes del Morro – o tradicional “canonazo de las nueve”. E os turistas, a programação da noite. A ilha do turismo é um mundo à parte no arquipélago cubano. Aqui se gasta em dólares. Aqui não falta comida. Aqui há privilégios. Corrupção. Cambistas. Prostitutas. E vive-se uma relativa liberdade: um marinheiro alemão oriental do navio Gerhart Hauptmann entra no bar lotado do famoso restaurante La Bodeguita del Medio, pede rum com hortelã e água mineral, o mojito, e desafia em espanhol:

  -Quando vai cair o muro cubano? -Quando el jefe Fidel fará sua perestroika?

 


O verde mar do Caribe bate na amurada da avenida Malecón, em Havana, sob o reflexo da luz do farol do forte renascentista que gira há mais de cem anos para flagrar os piratas à porta do estreito da Flórida, no golfo do México.

A apenas 145 quilômetros daqui, em Miami, nos Estados Unidos, estão os gusanos, ou vermes – o milhão de cubanos que fugiram desde a revolução em 1959, e que planejam, com muita precipitação, uma grande festa para celebrar a queda de Fidel Castro.

  “No próximo Natal, em Havana” – anunciam os decalques grudados nos vidros dos carros de exilados. A transição para a democracia já ocupa uma comissão de estudos criada pelo governo da Flórida. Na calle Ocho, a principal da “Pequena Havana”, em Miami, há quem aposte que vai comer “um leitão em Cuba até o final do ano”.

  El comandante Fidel Castro, 63, não se dispõe a recuar um milímetro “nem para tomar impulso”: ele está a favor de mudanças – mas de “mudanças revolucionárias, buscando mais Revolução, e para tornar a Revolução mais sólida”, como disse num discurso em que explicou um novo pacote de rectificacion do regime aprovado pelo Comitê Central do Partido Comunista, em 16 de fevereiro. “Que ninguém sonhe que estejamos indo para o capitalismo ou coisa semelhante, à propriedade privada dos meios de produção, ou coisa que o valha (…) Socialismo o muerte! Pátria o muerte! Venceremos!”

               I

  A ilha da dissidência existe oficialmente: “Aqui há presos contrarrevolucionários…não negamos isto. Há pessoas que atentam contra a ordem, e recorrem a práticas violentas. Vão a julgamento. Não creio que sejam muito mais do que várias dezenas” – admite o chefe da Seção Internacional do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba, Jorge Gomez Barata.

  A ilha da dissidência é um labirinto minado. Alguns jornalistas estrangeiros que tentaram um contato direto com seus habitantes já foram expulsos de Cuba, ou ficaram marginalizados. O cubano que se apresenta abertamente como um dissidente pode ser um oportunista querendo apenas um lugar no voo diário para Miami, ou pertencer à polícia política. Alguns são presos, imediatamente, por “espalhar falsas notícias”, como aconteceu a três ativistas de dois grupos de direitos humanos, em 1989. Não há fontes independentes para checar denúncias. O governo não dá informações. Os próprios dissidentes não se conhecem, nem estão organizados num movimento único, e vivem sob a rigorosa vigilância dos Comitês de Defesa da Revolução que existem em cada quarteirão – os CDR.

  Os dissidentes são estimados em 3 a 10 por cento dos 10,5 milhões de habitantes que povoam as 1.600 ilhas do arquipélago de Cuba. Um funcionário do governo os limita a 250 mil eleitores que não votaram a Constituição de 1976. Mas outras fontes, extraoficiais, estimam que eles possam alcançar até um pouco mais de 1 milhão. A verdade, aqui, é um tabu. Quem tenta penetrar o terreno proibido da ilha da dissidência, em Havana, comete um crime ideológico, como se de Cuba só seja permitido fazer louvação, num eco de sua imprensa triunfalista. Um repórter da rádio estatal da Tchecoslováquia, Michal Cermak, foi expulso, em 11 de janeiro, depois de comparar o atual momento cubano à “calmaria antes da tempestade” que desabou sobre o comunismo na Europa do Leste.

  Uma das últimas explosões no labirinto minado da ilha da dissidência ocorreu no dia 22 de fevereiro, quando um jovem de 20 anos subiu num ringue, no segundo round de uma luta pelo campeonato mundial de boxe amador, no Coliseu da Cidade dos Esportes de Havana, e gritou:

  “Abaixo Fidel Castro. Basta de tirania”.

  A Tele-Rebelde transmitia a luta ao vivo, mas o câmera não focalizou o raro comício-relâmpago, assistido por um público de duas mil pessoas. A luta nem chegou a ser interrompida. Os telespectadores só puderam ouvir gritos confusos, enquanto uma multidão alcançou o dissidente, vestido com uma camisa marrom claro, e só não o linchou porque a polícia chegou antes. “Ele quis testar se a insatisfação está generalizada” – interpretou um observador cubano. “De repente, quem sabe?, dá certo, e o protesto esteja só à espera de um primeiro grito…

  Abajo Fidel Castro! – gritou um outro dissidente nas ruas do Cerro, no dia seguinte ao comício-relâmpago no campeonato de boxe. Foi perseguido e preso. “Louco”, diagnosticou um policial. Abajo Fidel! – apareceu escrito num lençol branco que tremulou por alguns poucos minutos, debaixo de uma forte chuva, no Palácio dos Matrimônios, no Vedado, ao lado do hotel Habana Libre.  

     Um nome na

         Ilha

     da dissidência

    

  O dentista Sebastian Arcos Bergnes, 58 anos, é um dissidente conhecido em Havana. Ele assusta quem o visita ao avisar: “Você foi filmado quando entrou na minha casa. Aqui na frente funciona o CDR do meu quarteirão. É onde mora um coronel aposentado. De qualquer forma, o motorista do táxi que o trouxe também vai denunciá-lo, com toda a certeza”. Sempre que dá alguma entrevista telefônica, internacional, ele perde temporariamente a linha, já tão difícil em toda Cuba. “Um castigo”, comenta.

  Sebastián quer, nada menos, que um plebiscito para que os cubanos digam si ou no a uma abertura democrática. E iniciou uma campanha em maio de 1989, “o ano da esperança”, com uma carta ao secretário geral da ONU, Javier Perez de Cuellar:

  “Não existe nenhuma intenção de ofender nem humilhar politicamente os atuais dirigentes cubanos no poder, mas somente que se leve em conta a opinião nacional” – ele escreveu na carta que assina como um dos quatro vice-presidentes do Comitê Pró-Direitos Humanos de Cuba, que é ilegal. “Se atualmente até o mundo comunista se mostra positivamente ativo nesta época de mudanças para a plena democracia, nada justifica uma posição petrificada de estancamento em Cuba”.

  A campanha pelo Plebiscito Nacional nasceu “do anseio de milhares de compatriotas que puderam entrar em contato com o Comitê Cubano Pró-Direitos Humanos, apesar da repressão imperante”, diz Sebastián. Enquanto espera uma resposta, ele se dedica a recolher e a tabular as denúncias que recebe de “uma vasta” rede de informantes.

  “Somos só a ponta do iceberg. Uns 50. Estamos divididos em setores – um jurídico, um apenas para presos, um médico, um de imprensa, e outros para cultura, educação, religião, estudantil, trabalhista e camponês. Assinamos comunicados. Aparecemos. Mas a grande maioria de nossos membros é anônima. São gente do povo, donas de casa, vítimas de violações” – conta Sebastián, que então apresenta, com orgulho, o seu último trabalho – a tabela de 1989, feita à mão:

  Assassinatos e desaparecimentos: 24.

  “Na verdade, são 8, mais 16 de anos anteriores só reportados em 89” – ele explica.

  Fuzilados: 4.

  “Foram os militares condenados à morte por tráfico de drogas no julgamento feito por um tribunal militar especial, em 13 de julho. Entre os executados estava o general de divisão Arnaldo Ochoa Sanchez” – lembra Sebastian. O registro dos fuzilamentos “decididos pela Justiça de um país soberano, e com ampla cobertura da imprensa mundial”, como comentou um diplomata que viu o relatório, “é uma bobagem”. Mas Sebastián argumenta que os acusados não puderam se defender, e que o Tribunal Supremo Popular “cometeu várias violações jurídicas”.

  Ferimentos, tratamento cruel ou degradante: 571 casos.

  Um exemplo é a carta de um preso comum, Osmar Ruiz Despagne, que denuncia espancamentos da polícia no presídio Combinado del Este. Há celas sem teto em que os presos “ficam embaixo da urina dos guardas”, conta Adela Bahamonde, baseada no relato de um irmão preso. “Só incluímos no relatório as denúncias por escrito, e assinadas”, diz Sebastián, que as recebe através de uma “rede invisível” de informantes. “Todas procedem”, ele garante quase ofendido com alguma dúvida.     

  Detencões ilegais: 182.

  Os três casos mais conhecidos são o do presidente da Comissão Cubana de Direitos Humanos e de Reconciliação Nacional, Elizardo Sanchez, e dos militantes Hiram Abi Cobas e Hubert Jerez Marino, detidos depois que deram declarações à imprensa estrangeira.

  Julgamentos arbitrários: 94.

  Perseguição política: 204.

  Entre os 320 “documentos” que Sebastián enviou para a Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, em Genebra, em fevereiro, há um desenho em que “o preso politico mais antigo do mundo”, Mario Chanes de Armas, com 28 anos de cadeia, mostra a área em que ficou no presidio Combinado del Este, em setembro. “Uma solitária”, diz um dissidente, “e foi nela que completou 63 anos, em 25 de outubro. O crime que cometeu foi o de rebelar-se contra a ditadura de Castro, depois que os dois lutaram juntos no ataque ao quartel Moncada, em 1953, e no desembarque do iate Gramna, em 1956”.

  Perseguição religiosa: 74.

  O relatório traz uma carta assinada por Esther Maria Serrano Diaz, que reclama de perseguições contra os membros da seita Testemunhas de Jeová desde 1959, o ano da revolução de Fidel Castro que derrubou o governo direitista de Fulgêncio Batista.

  Proibição de sair do país: 151.

     Violações trabalhistas, sociais e culturais: 282.

     Outras: 57.

  Um funcionário do governo que aceitou comentar a situação dos direitos humanos em Cuba, Jorge Gomez Barata, chefe da Seção Internacional do Comitê Central do Partido Comunista, nega as denúncias:

  “Tivemos, aqui, em 1987, uma enquete feita por uma delegação internacional, convidada pelo nosso governo. O seu informe foi examinado na assembleia da Comissão de Direitos Humanos de 1988. A conclusão: não se constatou a ocorrência de violações de direitos humanos em Cuba. Mais de duas mil pessoas foram entrevistadas pela delegação: 90 por cento dos casos eram relativos a problemas de imigração. Gente que queria imigrar, e se defrontava com alguma dificuldade. A propaganda norte-americana fez crer que algumas destas pessoas que se entrevistaram com a delegação sofreram repressão das autoridades cubanas. Este tipo de coisa não existe em nosso país. Nenhuma delas foi reprimida por ter entrado em contato com os delegados da comissão de direitos humanos, a não ser que tenha cometido outro tipo de delito”.

  Sebastian comenta: “É preciso ter uma forte vocação de mártir para se opor ao governo cubano”. Ele próprio entrou para a oposição “por necessidade”, quando um irmão, Gustavo Arcos Bergnes, que participou do ataque ao quartel Moncada com o comandante Fidel Castro, em 26 de julho de 1953, foi preso em 1966.

  “Meu irmão era embaixador de Cuba na Bélgica desde 1959. Numa visita a Havana, em 1965, ele criticou, entre amigos, e não publicamente, o caudilhismo de Fidel, a repressão e a discriminação contra alguns opositores. Ficou preso por três anos, até 69, num primeiro período, e de 81 a 88, outra vez. Eu estava nas forças armadas. Era capitão da Marinha. Saí em defesa de Gustavo. Falei com Raul Castro, o ministro da Defesa. E com vários outros ministros. Só Fidel não me recebeu. Protestava contra a injustiça que se estava cometendo contra meu irmão. Fui posto na rua, e passei um ano trabalhando no campo”.

  Sebastián, formado em Odontologia, em 1955, voltou à Universidade de Havana como professor, a convite de velhos amigos. Mas a insistência com que prosseguiu a campanha pelo irmão o levou também à prisão, entre 1981 e 86. “Perdi o emprego. Se fosse um outro sistema, procuraria um novo trabalho na iniciativa privada. Em Cuba, porém, o único empregador é o Estado. Fiquei marginalizado. Meu filho foi expulso do segundo ano do curso de Biologia. É ele quem sustenta a casa, hoje, com seu salário de 128 pesos por mês” – que são cerca de 166 dólares, com cada dólar valendo 75 centavos no câmbio oficial, ou 4 a 7 pesos, no mercado negro. “Isto não dá para vivermos…e tenho que pedir dinheiro a parentes”.

  As reformas que Sebastián propõe para Cuba se limitariam, “num primeiro estágio”, ao respeito aos direitos humanos e à liberdade de reunião, religião e de opinião. “Só depois é que faríamos uma consulta popular, um plebiscito, para saber se o povo deseja uma abertura democrática no país. Aqui se fala em nome do povo mas não o consultam” – ele diz. A luta do próprio Comitê pró-Direitos Humanos não progride: está na ilegalidade desde que foi criado, em 1976, e nenhuma das três cartas pedindo autorização para funcionar, enviadas em 1987 e 88, sequer mereceram uma resposta do ministério da Justiça.

  Os filhos

  da revolucão

    

Aos 88, Fidel é fotografado por Lula. Foto: Ricardo Stuckert/ PR (24/02/2010)

Aos 88, Fidel é fotografado por Lula. Foto: Ricardo Stuckert/ PR (24/02/2010)

  Enquanto falava, cochichando, o jovem dissidente olhava nervosamente para os lados, no meio da multidão reunida nas escadarias da Universidade de Havana para uma manifestação em homenagem ao líder sul-africano Nelson Mandela.

  Uma frase do herói da independência cubana, Jose Marti, estava reproduzida numa faixa, no ponto marcado para o encontro: “Una ideia desde el fundo de una cueva puede mas que un ejercito”.

  O presidente da Federação dos Estudantes Universitários, Felipe Perez, gritava da tribuna: “Os racistas sul-africanos quiseram enterrar um homem, e criaram um símbolo…” O dissidente, 22 anos, filho de um membro do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba que lutou ao lado de Fidel Castro, em Sierra Maestra, aproveitava para denunciar, protegido pelas palmas:

  -Dois estudantes foram presos porque pediram a criação de um partido político…

  Perez prosseguiu: “Quiseram matar uma ideia, e criaram milhões de pessoas que a defenderam.”

  -Eram do curso de matemática…Seus nomes: Jorge Quintana e Carlos Ortega – acrescentou o dissidente.

  “Quiseram ganhar pela força, e perderam diante da força do exemplo, do coração e das ideias de Nelson Mandela, do povo da África do Sul e do Congresso Nacional Africano…”

  O dissidente explica: “Queremos reformas, queremos liberdades”. Um panfleto com as duas reivindicações, e “Abaixo Fidel“, circulou em dezembro entre os universitários pouco antes da prisão de Quintana e Ortega, e de um outro estudante que foi expulso. “Podem ter sido produzidos pela própria polícia para nos incriminar” – ele diz. Um outro panfleto circulou entre a imprensa estrangeira, assinado pela presidente do ilegal Partido dos Direitos Humanos, a poetisa Tania Diaz Castro, pedindo a realização de eleições livres por voto secreto e direto, sem “aspirar ao poder nem a cargos públicos, mas apenas ao retorno do pais ao estado de direito”.

  Agora começa a falar o representante do Congresso Nacional Africano em Cuba, Kingsley Xuma. Mas ele só lê o princípio do seu discurso. A tradutora, que o alternava, dispara na leitura, e volta a abrir-lhe um espaço apenas no final, para o “Viva Fidel, Viva a Revolução“, que ele grita em espanhol. O dissidente fica mais relaxado, embora um guarda da Policia Nacional Revolucionária tenha se postado por uns minutos à sua frente, de costas, com um pequeno transmissor ligado.

  “A insatisfação é grande entre os universitários…”

  -Vocês estão se organizando?

  “Não. Nem sabemos, realmente, quantos somos. Não temos como avaliar. A metade da população de Cuba nasceu depois da revolução. Não está tão motivada como a geração mais velha para defender os princípios revolucionários. Muitos querem sair do país. Estou entre eles. É mentira que não possamos viajar apenas porque Cuba não tenha divisas. Quando terminei minha bolsa na Tchecoslováquia fui convidado a ir para um país árabe, sem despesa alguma, tudo pago, e não deixaram”.

  -Vocês não gostam de Fidel?

  “Quase todos o admiramos, e muito. Achei até muito estranho aquele panfleto contra Fidel. Sei de muitos que são contra o socialismo, porém fideles. Só que o momento dele já passou”.

  Um outro estudante da ilha da dissidência, filho também da revolução, confessa: “Eu e meus amigos sentimos que está faltando alguma coisa. Sabemos dos benefícios do regime: crescemos dentro do sistema cubano de educação e saúde, que é muito bom, inigualável na América Latina. Mas estamos cansados dessa conversa de que devemos abrir mão de muitas coisas, em nome do básico indispensável para o país. Nada muda. Nossa situação não melhora. Fidel já abriu o jogo: vale tudo, menos uma contrarrevolução. Este é o assunto do dia entre os universitários. Nossos amigos que voltam de bolsas na Europa do Leste, e ficam confusos aqui em Cuba, falam da experiência de abertura de que participaram. Queremos a nossa glasnost”.

  Os universitários protestam contra o método “escalafon” – a tabela pela qual as melhores notas não significam, necessariamente, o primeiro lugar. “A média final vai depender de quantas vezes você participou de reuniões da juventude revolucionária, ou da Federação dos Estudantes, e com que frequência cada um se voluntariou a trabalhos coletivos”. Outro foco de insatisfação estudantil ganhou certa expressão no primeiro curso de publicidade iniciado recentemente em Cuba. Quando a professora pediu que os alunos imaginassem uma estadia no balneário de Varadero, a 144 quilômetros de Havana, quase foi vaiada.

    “A prioridade é para o turista. A gente está se transformando em cidadãos de segunda categoria em nosso próprio país. Entendemos que o turismo renda divisas, mas por que devemos ser tratados pior do que o estrangeiro?” – pergunta uma estudante, para quem o comandante Fidel Castro está se tornando “um paizão velho”, e o seu socialismo, “bom só na teoria”.

    1990: ano de

    “no venta” e de

    “con su mismo”.

    O garçom serve o filé ao turista como uma preciosidade. “É muito difícil comprar carne de boi” – lamenta uma dona de casa.

    “Temos uma cota de carne aqui no restaurante” – diz o garçom, pouco à vontade por ser consultado. “Ela aparece no nosso prato uma vez por semana”.

   Uma libreta de compras garante uma cesta básica mínima para cada família, desde a revolução em 1959. Numa casa com cinco pessoas, por exemplo, os cupons de racionamento dão direito a 1 quilo de feijão, 4,5 de açúcar, 4,5 de arroz por mês, 1 quilo de gordura, banha ou manteiga, e mais, semanalmente, a um pacote de 900 gramas de café, e o equivalente a uma coxa de galinha por pessoa, ou 120 gramas de carne de boi, ou porco, ou cavalo.

    A libreta não assegura, porém, a existência do produto. Há filas para obtê-lo. É preciso estar numa rede de amigos que se comunicam para saber que a cebola, sumida há seis meses, acabou de chegar às prateleiras. E outra boa estratégia, num mercadito, será a de decidir, rapidamente, em qual das filas valerá mais a pena investir. O prazer de uma cerveja poderá custar o pão.

  “A gente passa o dia na fila” – diz uma compañera que não dá seu nome, evidentemente, e mesmo assim ainda resiste  a falar. “As conversas com estrangeiros são desencorajadas, e podem significar a perda de um emprego” – como explicou o dissidente Sebastián Arcos Bergnes.

    “Outro dia me acordaram dizendo que tinha chegado o desodorante. Há tempos ele não aparecia. Aí entrei na fila. Mas eram apenas 15, e acabaram” – acrescenta a compañera. “Economizamos pasta de dente, porque é uma só por mês, e somos 5. Álcool não se encontra de forma alguma. Queijo? Nem pensar. A batata inglesa surge a cada três meses. E festejamos quando há cerveja – mas ela acaba num instante”.

   A compañera lamenta que não pode convidar ninguém para comer em sua casa. Às vezes, nem para um cafezinho. A não ser, é claro, que passe a fazer compras por la libre, fora do sistema de racionamento – legal, porém bem mais caro. É só fazer as contas com ela, convertendo cada peso a 1,30 dólar. Com um salário na faixa de 150 pesos, ou cerca de 195 dólares, a média geral, ela gasta 48 pesos, ou cerca de 63 dólares, com a cesta básica, mais 14 pesos com a prestação da casa, 11 com o galão de gás trimestral, 5 com a conta telefônica sem ligações internacionais, que custam 4 dólares por minuto para o Brasil, e mais as despesas com roupa, 10 centavos cada passagem de ônibus urbano, ou 25 centavos até uma boa praia, 10 centavos o jornal diário, e 1 peso o cinema. “Não dá nem para terminar o mês” – conclui, porque alguns dos produtos acabarão antes da próxima visita à bodega. Ninguém passa fome em Cuba. Mas o prato forte, para muitas pessoas, é a frustração.

    Olhe o que estou comendo” – mostrou um estudante, em Havana. Era arroz, ervilha e feijão. Num dia da semana virá um pouco de carne. “De manhã, tomei café com biscoito”, ele se queixa.

    Por la libre um quilo de carne custa entre 8 a 10 pesos. A cerveja pula de 60 centavos para 1 e 1,20 peso. A gasolina, a 1,25 o litro, vai para 2. O cubano pode ser preso se comprar lagosta, a 15 dólares cada nas diplotiendas, os mercados para os estrangeiros, onde só se aceita o dólar. É a exportação delas que assegura o litro de leite diário a todas as crianças de Cuba – a 25 centavos na libreta, e a 1, no livre.

    As frutas frescas e os vegetais são mais acessíveis nas áreas de produção, no interior. A escassez nas grandes cidades pode ser atribuída a problemas de estocagem, distribuição e transporte. As duas reformas agrárias instituídas a partir de 1959 nacionalizaram 80 por cento das terras, e o restante ficou nas mãos de 70 mil pequenos produtores independentes e cooperativas agrícolas. A experiencia dos “mercados camponeses”, que consistiu na liberação de preços e na venda direta ao consumidor, em 1980, foi abandonada, quando parecia estar dando alguns primeiros resultados, porque representava um perigo em potencial: “O método capitalista produz bandidos, ladrões e pessoas que ficam ricas à custa de outros” – diz el jefe, Fidel Castro.

    De tanto ouvir “no hay”, o cubano concluiu, com humor, que a culpa deve ser do ano, no venta, com a esperança de que a Soviética não se mantenha por toda a década. Alguns até teorizam sobre uma novo marxismo – o con su mismo, que é o isolamento em que Cuba pode ficar com a crise do socialismo no Leste Europeu e na União Soviética.                         I

Nosso porto em Mariel. Foto: Ismael Francisco/ Cubadebate

Nosso porto em Mariel. Foto: Ismael Francisco/ Cubadebate

   El comandante en jefe quer que todo o mundo saiba: “Aqui no trópico, nesta ilha caribenha, as coisas são diferentes”.

    A ilha do socialismo não vai um milímetro para trás “nem para tomar impulso”, promete el comandante Fidel Alejandro Castro Ruz. A única direção é ”para frente!”

    Aos que acreditam que a revolução cubana está chegando ao final, aos 31 anos, cercada por todos os lados pela crise do comunismo, el comandante garante: “Que se afunde, primeiro, a ilha no mar”. E adverte que Cuba será um vespeiro com milhares de frentes de combate, se atacada. “Temos bandeiras muito sagradas a defender, e as defenderemos até as ultimas consequências”.

   O verbo render “foi há muito tempo apagado do dicionário cubano” – disse Fidel Castro, em 20 de fevereiro, durante o discurso em que explicou um novo impulso ao processo de rectificacion de erros da revolução, iniciado em fevereiro de 1986, “quando em nenhum partido do campo socialista se falava em restruturação”.

   El comandante não está propondo nenhuma reforma que conduza ao multipartidarismo. Pelo contrário: ele deixou claro que a profunda revisão, a ser completada até a reunião do Comitê Central do Partido Comunista, no primeiro semestre de 1991, não foi iniciada para questionar os princípios marxistas-leninistas, nem para produzir alguma forma de democracia fora do sistema de partido único. O objetivo é o de dar nova vida à revolução cubana.

   “O jefe declara que quer aprender com os erros que o Partido Comunista cometeu na Europa”, ironizou um cubano depois de analisar o pacote de rectificacion, anunciado tão repentinamente, num fim de semana, como se fosse mais um aumento de pão, ou ovos. “E isto quer dizer: aprender a como não perder o poder” – ele concluiu.

    Um diplomata em Havana afirma que “chegou a hora da verdade”, e observa que el comandante começou, inclusive, “a demarcar o terreno de luta”, ao prometer o aperfeiçoamento do Partido único, com a rectificacion e algumas “mudanças revolucionárias” que tornem “a Revolução ainda mais sólida”. Mas ele pergunta: “Como Fidel Castro vai conduzir seu projeto nacional sem os subsídios do bloco comunista?” A ajuda econômica soviética é de 4,5 bilhões de dólares por ano, ou 12 milhões de dólares por dia, e pode não ser mais mantida integralmente a partir de 1991. Uma das saídas de Cuba passa por uma maior integração latino-americana. E outra, por Washington, com a normalização das relações que encerraria o rígido bloqueio comercial imposto há’ mais de 30 anos.

    

    A paz com os

    EUA e’ uma

    fantasia? “No”.

    Os novos heróis cubanos são os 11 tripulantes do navio mercante Hermann que resistiram com canivetes, chave de fenda e machados à uma inspeção antidroga da guarda costeira dos Estados Unidos, em águas internacionais do golfo de Yucatã, em 30 de janeiro, quando transportavam uma carga de cromo para Tampico, no México. A bandeira que defenderam, panamenha, já está exposta no Museu da Revolução. Cada um deles vai receber a mais alta condecoração nacional pela bravura e pelo comportamento comunista exemplar demonstrados diante da “pirataria ianque”. Uma impressionante multidão em Havana os recebeu diante da missão de interesses norte-americanos em Cuba, na avenida Malecon, à beira-mar, onde um cartaz antigo  anuncia: “Señores imperialistas, no les tenemos absolutamente ningun miedo”.

    Fidel Castro, a barba já quase toda branca, estava lá para promover “a heroica lição dada ao Império”. Alguns dias depois ele diria num discurso à Assembleia Nacional: “Quem pensam que somos nós? Que pensam da historia de nossa pátria e do que é capaz o nosso povo? Acho que os que estavam no Hermann o demonstraram. Aqueles homens sem armas, sem armas!, e que não se importavam se havia um ou 20 guarda-costas, ou se por trás dos guarda-costas estava o porta-aviões, diziam: Aqui não entram, e se acabou. Este país é um gigantesco Hermann, mas com ferros, com ferros suficientes para nos defendermos”.

  Este gigantesco Hermann, no entanto, apesar da aparente prontidão para uma guerra sempre iminente, poderia navegar nas águas pacíficas de uma nova relação comercial entre Estados Unidos e Cuba. Fantasia?

    “No”, diz o chefe da Seção Internacional do Comitê Central do Partido Comunista, Jorge Gomez Barata, 43 anos. “Se o governo norte-americano mudar sua política para Cuba estaremos prontos para uma normalização”.

    “É o que Cuba mais deseja” – assegura um embaixador do Grula – o grupo latino-americano em Havana. Basta apenas um gesto dos Estados Unidos: por fim à “politica de capitulação”, inaceitável e humilhante para Cuba.

    O diretor do Departamento de América Latina e do Caribe do Ministério das Relações Exteriores, Lazaro Cabezas, lembra que o próprio jefe já declarou: “Normalização de relações com os Estados Unidos si, mas sem condições de nenhuma classe. Afinal, foram eles que adotaram a política do garrote com Cuba…” 

A invasão do Panamá, o caso do navio Hermann, as transmissões da rádio Jose Marti, em Washington, e o atual plano de enviar sinais de televisão para competir com os dois canais da ilha do socialismo, a Cubavision e a Tele-Rebelde, dão aos cubanos a impressão de que o presidente George Bush pretende ser ainda mais provocador do que o ex-presidente Ronald Reagan.    

  “A política me ensinou”, diz o compañero Barata, sem bater a porta à mínima esperança, “que uma situação de crise pode terminar em guerra ou em paz”. Ele comenta que “um clima de normalização com os Estados Unidos está no melhor interesse da revolução cubana”, e no da atual diplomacia soviética, mas protesta: “Antes de falarmos de um acordo, temos que perguntar o que há para resolver?”

    -E o que há?

     “Um caminho para o entendimento passa por uma transformação na política norte-americana. A União Soviética aspira a uma distensão nas relações entre Estados Unidos e Cuba. A diplomacia soviética trabalha nesta direção. E isto poderia significar uma contribuição na medida em que a União Soviética seja capaz de pressionar os Estados Unidos a também afrouxar as tensões com Cuba”.

Foto: The Presidential Press and Information Office (11/07/2014)

Foto: The Presidential Press and Information Office (11/07/2014)

    “Nao somos

    os mendigos do

    terceiro mundo”

   Os cubanos, hoje, realçam a diferença histórica que os distancia dos europeus orientais, com base num discurso que el comandante pronunciou em 7 de dezembro: “Cuba não é um país onde o comunismo chegou por trás de vitoriosas divisões do Exército Vermelho”. O que vale para a Polônia, Alemanha Oriental, Tchecoslováquia, Bulgária e Romênia, não se aplica à ilha do socialismo.

   “Temos mais diferenças do que semelhanças”, diz Barata. “Posso afirmar, com toda a franqueza, que quando a revolução cubana triunfou, não conhecíamos um único russo, nem um só alemão oriental, nenhum húngaro. Não tínhamos relação com o comunismo internacional. Nossa revolução foi um fenômeno autóctone, desvinculado dos processos pelos quais o socialismo conquistou o poder na Europa Oriental. Nossos dirigentes não foram impostos, nem selecionados pela militância de algum partido, e não chegaram em cima de tanques. Não temos um passado stalinista. E é preciso lembrar que aqui estamos no terceiro mundo. Um cubano não tem razões para se sentir insatisfeito com o que alcançou com o socialismo”.

   O compañero Barata ouviu o líder sindical Lech Walesa dizer que o comunismo converteu os polacos nos mendigos da Europa. “Nós não somos os mendigos do terceiro mundo”, ele reage, com certo orgulho. Outros compañeros do Comitê Central do PC cubano repetem, com pequenas variações, o argumento apresentado pelo onipresente jefe Fidel Castro:

     “A terrível verdade é que em países da América Latina há milhões e milhões de crianças abandonadas nas ruas, sem pais e sem famílias; um analfabetismo tremendo, onde nem a metade, nem às vezes 40 por cento dos jovens, chegam ao sexto grau ou terminam a escola primária; prostituição, fome, desnutrição e insalubridade. Fala-se do capitalismo desenvolvido da Europa, mas o que temos que ver é o capitalismo subdesenvolvido do Terceiro Mundo. Isto é o que temos que ver: o que se passa aí não acontece aqui, em absoluto”.

    

   Perigo à vista

   na ilha: um

   naufrágio  econômico.

Foto: site.adital.com.br

Foto: site.adital.com.br

O cubano chegou a admirar o início das profundas transformações na União Soviética e no Leste Europeu. “Mas na medida em que o processo foi degenerando, acompanhado de ações violentas, francos retrocessos, nossas percepções mudaram”, conta o compañero Barata.

   “Os europeus orientais vão despertar num pesadelo”, acrescenta. “Estão vivendo uma ilusão – a ilusão de que o Ocidente os receberá de braços abertos, e cederá seus capitais, a sua tecnologia. Duplo engano. Foram enganados por um socialismo que não era genuíno. E estão enganados ao procurar no capitalismo a solução para seus problemas”.

   O compañero Barata ficou escandalizado com o conselho que deu aos poloneses um emissário do Fundo Monetário Internacional, FMI, “sem mover um músculo do rosto” – o de que fosse desempregado 1 milhão de trabalhadores. “Isto significa, na estrutura da família polonesa, que 6 a 8 milhões de pessoas ficarão sem recursos para viver. Claro que aí não está a solução do problema de um povo. Ninguém deve se gabar de que ocorreu algum progresso. Nós que vivemos no terceiro mundo, e que sabemos, de verdade, em que condições o ocidente transfere seu capital e sua tecnologia, podemos dizer: essa gente está vivendo uma grande ilusão”.

  É por isso que Cuba só tem uma opção: Socialismo o muerte! “Estamos ratificando uma decisão de não retroceder”, explica Barata. “Para nós não existe o caminho de volta ao capitalismo”.

    À frente, o caminho é incerto. Cuba precisa de uma reserva de 1.2 bilhão de dólares por ano, no mínimo, para manter a sua economia no nível mais baixo de desempenho. E precisa, também, das importações da União Soviética e dos países da Europa do Leste, que respondem por 85 por cento de seu comércio. O Produto Nacional Bruto é ainda o mesmo de antes da revolução, em 1958, com uma diferença – a população cresceu em 3,5 milhões de habitantes. Os cubanos estão entre os mais pobres da América Latina em renda per capita, mas entre os de nível de vida melhor, ao mesmo tempo, porque contam com assistência medica e educação gratuitos, e roupa e comida subsidiados. A mortalidade infantil caiu para 11 por 1000 crianças, um das 20 mais baixas do mundo, e a expectativa de vida passou a ser de 74 anos.

   “Não temos ninguém pedindo esmola nas ruas, ninguém morrendo de fome” – orgulha-se qualquer cubano. Mas os cofres de Cuba estão sangrando perigosamente. Os lucros com a revenda do excesso de petróleo que recebia da União Soviética caíram de 574 milhões de dólares, em 1985, para a metade, em 1986, e zeraram, em 1989. Ao que tudo indica, não haverá mais excessos, e só mesmo o suficiente para o consumo interno. O preço do “óleo branco”, o açúcar, principal produto cubano, também pode perder a proteção soviética contra a desvalorização no mercado internacional. E aí estão em jogo 4 milhões de toneladas por ano.

    “Até quando os soviéticos trocarão um trator por 20, 50 sacas de açúcar?” – pergunta um diplomata latino-americano em Havana. A resposta é um mistério do último encontro entre el comandante Fidel Castro e o presidente Mikhail Gorbachev, há um ano, em Havana.

    “Cuba assinou os acordos de intercâmbios comerciais para 1990, e com vantagens” – assegura o compañero Barata, dissipando qualquer previsão de problemas imediatos. A falta de trigo que deixou os cubanos sem pão, no último semestre, foi provocada por uma restruturação da frota mercante soviética. Em Moscou, porém, um assessor do Comitê Central, Andrei Kortunov, reclamou, por escrito: “não é segredo que compramos o açúcar cubano por um preço quatro vezes acima da média mundial”. A tendência para uma economia de mercado, sem preços preferenciais, que contagiou como um vírus os países do conselho de assistência econômica do bloco comunista, o Comecon, só afetou Cuba superficialmente, por enquanto.

    “Não há uma vacina contra o vírus Gorbachev” – lamentou um empresario holandês com grandes negócios agrícolas com Cuba. Ele torce para que os cubanos sobrevivam ao vendaval econômico que está se armando no horizonte. Um membro do Politburo Soviético, Yuri Maslyukov, já insinuou que el comandante Fidel Castro poderá ter que pagar agora os 10 bilhões de dólares que deve à Moscou. Mas, como?, se ele suspendeu desde 1986 os pagamentos da dívida de 7 bilhões de dólares com os países industrializados, e não recebe mais novos créditos.

    Um dos produtos cubanos que justifica a ajuda soviética de pouco mais de 1 dólar diário para cada um dos 10,5 milhões de cubanos, a maior entre os países do Terceiro Mundo, é estratégico. A ilha do socialismo serve de base para submarinos e aviões soviéticos; de posto de observação de toda a costa norte e sul-americana do Atlântico; e de radiação de influência entre os países não-alinhados. Com uma característica peculiar: el comandante nunca foi uma marionete do Kremlin. Divergiu em 62, durante a crise dos mísseis. E agora segue uma direção oposta à descentralização da economia e à glasnost.

     “Esta noção de que Cuba é um pais subsidiado pela União Soviética”, comenta o compañero Barata, “impede que se compreenda que as relações comerciais são um caminho de ida e volta. Mandamos 4 bilhões de dólares anuais para Moscou. E 4 milhões de toneladas de açúcar. A metade dos cítricos que os soviéticos consomem. Níquel. E medicamentos. Temos cerca de 200 produtos de exportação. A União Soviética não pode cortar suas relações comerciais com Cuba. Como arranjaria dinheiro para comprar o açúcar no mercado internacional?” – ele pergunta, lembrando que o preço cubano é preferencial, mas pago na base de troca de mercadorias. “Nossa economia, uma economia agrícola, está sadia. Veja o caso da economia brasileira. Custa muito caro colocar automóveis e computadores no mercado, principalmente porque existe a competição dos Estados Unidos, do Japão e dos outros países desenvolvidos. Nos não estamos neste nível de competição. Nem produzimos produtos prescindíveis”.

    Convite para

   uma nova relação

    com o Brasil    

    

    “Há muitas coisas em comum entre Cuba e Brasil, principalmente o povo, a cultura” – diz o compañero Barata. “E isto cria uma base muito propícia para um entendimento entre nossos dois países.”

   As relações entre o Brasil e Cuba, restauradas em junho de 1986, “ainda estão por construir”, ele acrescenta. “Não digo reconstruir, conscientemente, porque o episódio do rompimento não pode ser atribuído à vontade de nenhum dos dois países – e, sim, com certeza, à pressões externas, porque foi um fenômeno generalizado na América Latina.”

    Um cálculo brasileiro, otimista, era o de que as relações comerciais com Cuba chegariam a 200 milhões de dólares por ano. “Romantismo”, comenta um diplomata que veio abrir a nova Embaixada. Cuba importa pneus, uma pequena quantidade de carros, óleo de cozinha, lâmina de barbear, frangos, soja e até mesmo goiabada, que também produz. A lista, agora, vai incluir ônibus, e poderá ainda crescer muito mais com os produtos que normalmente eram comprados da organização comercial dos países do bloco comunista, o Comecon, que decidiu abandonar as operações tipo escambo, ou troca de mercadorias, em favor de acordos baseados em valores de moedas ocidentais.

    “Temos que encontrar os mecanismos de complementação de nossas economias que possibilitem uma comercialização muito mais fluida, e relações de todos os tipos” – pede o compañero Barata, que também responde pelo Departamento de Orientação Revolucionária do Comitê Central do Partido Comunista cubano. “As economias latino-americanas se complementam pouco”, ele acrescenta: “Não podemos vender açúcar a quem produz açúcar. Nem café. Mas o nível de desenvolvimento tecnológico do Brasil, e o que o Brasil representa como um mercado, abre um precedente muito importante. Estamos trocando, atualmente, um dos produtos de nossa indústria farmacêutica – a vacina para a meningite. Podemos evoluir para um maior intercâmbio de tecnologias. Será, então, um caso único. Em geral, este tipo de intercâmbio ocorre do Norte para o Sul, e poucas vezes entre dois países do Sul, subdesenvolvidos”.

     -O que Cuba espera do governo Fernando Collor?

    O diretor do Departamento de América Latina e do Caribe do Ministério das Relações Exteriores, Lazaro Cabezas, lembrou que o Congresso brasileiro será o mesmo até outubro, e comentou: “Queremos estar bem com qualquer governo brasileiro”. Depois, acrescentou: “Especialmente na esfera econômica e comercial, importante para nossos dois países”.

     O companero Cabezas é a favor de uma verdadeira integração latino-americana sem exclusão política ou ideológica, e com respeito à autodeterminação e independência de cada país. “Essa politica tem sido uma constante, e posso dizer mais: ela não está ligada aos acontecimentos na Europa do Leste”.

     O impacto econômico da perestroika levou el comandante a procurar outras alternativas, e não só na América Latina. Ele já assinou um acordo comercial de 500 milhões de dólares com a China. E até deve visitá-la ainda este ano. Ele também resolveu investir, maciçamente, na área de turismo – uma fonte de frustrações na ilha do socialismo, porque cria uma classe privilegiada, um mundo à parte onde não existem filas, os táxis não são los incapturables, e há de tudo nas diplotiendas.

    

    No se derrumba

    la Revolución como

    un merengue

   Cuba pode se tornar “um parque de diversões capitalista” – prevê o professor Ron Chepesiuk, do Winthrop College, na Carolina do Sul, que passou uma longa temporada na ilha do socialismo. Os 250 mil turistas de 1987 serão 350 mil este ano, e 1 milhão, em 1992, rendendo entre 500 a 700 milhões de dólares por ano. Os brasileiros estão chegando a uma média de 500 por mês.

   Alguns diplomatas comentam, brincando, que Fidel Castro é também o único “chefe da oposição” cubana. O seu investimento turístico, ironicamente, poderá abalar a própria Revolução – algo que nem o bloqueio americano não conseguiu.

    El comandante se indigna com quem acredita “que pode vir aqui colher mangas baixinhas”, e que 31 anos de lutas vão se desmanchar como se fossem um suspiro, um merengue. “A unidade do povo…isto é o mais sagrado, a arma número um da Revolução”.

    Um par de sapatos, comprado sem a caderneta de racionamento, por la libre, custa até 120 pesos, ou cerca de 156 dólares, quase o salário médio da população, que é de 150 pesos. O cobiçado aparelho colorido de TV, onde passam as populares novelas brasileiras, sai por 2 mil pesos, como uma geladeira. E um carro, 5 mil pesos, ou 6.500 dólares. O cubano não tem o direito de sair do país, a não ser em alguns casos especiais. E disputa espaços no turismo interno, numa invencível competição com os estrangeiros que pagam em dólar. Donas de casa reclamam. Muitos jovens protestam. E os contestadores estão ficando cada vez mais ousados, ao surgir em público gritando: Abajo Fidel! O povo está unido?

    “Temos gente insatisfeita” – responde o compañero Barata. “Algumas expectativas de consumo não são satisfeitas. E nosso governo não pode destinar quantidades de dinheiro para que turistas cubanos saiam a conhecer o mundo. Mas  existe um clima de compreensão. Sabe-se claramente que o país não pode avançar no mesmo ritmo em todas as frentes. Asseguramos a educação em todos os níveis, em todos os graus. Formamos 20 mil médicos por ano. Há 25 mil estudantes matriculados em cursos superiores de tecnologia. Nossa saúde publica é de primeira categoria, e inclui transplantes até do coração. O emprego está garantido a todos. Temos um seguro social altíssimo, com 10 por cento da população aposentada. Um país com opções para habitação, com um alto nível de subsídio aos produtos básicos… Assim investimos os nossos recursos. É preciso fazer algum sacrifício. Não se pode ter tudo”.

     A ilha do socialismo parece inabalável. Uma mini-superpotência. El comandante decidiu nadar contra a corrente que flui da Europa do Leste. Ao reunir o Comitê Central do Partido, em 16 de fevereiro, a sua palavra de ordem estava escrita numa faixa: “Neste momento, nosso e do mundo, temos que ensinar o que é um comunista”. O processo de rectificacion não mudará basicamente nada. “Manteremos, irremovível, o princípio de partido único, que não nos veio de Lenin, mas de Marti, quando fundou o Partido Revolucionário para a independência de Cuba”, ele explicou à Assembleia Nacional do Poder Popular. E recomendou: “Não iremos privatizar nada; ao contrario, temos que socializar progressivamente”. O plenário repetiu com ele, como se dissesse amém: Venceremos!

                       

    Uma turista húngara sugere que os cubanos devem “se matar já'”, diante da única opção oferecida pelo comandante Fidel Castro: Socialismo o muerte!

    Govrik e o namorado, Peter, ficaram encantados com Cuba, como a maioria dos turistas, depois de 20 dias de férias. Mas estão embarcando no Aeroflot para Berlim, no aeroporto Jose Marti, irritados porque não puderam pagar um último anejo, o rum de mais de sete anos, com o “certificado” – a moeda cubana dos turistas da Europa do Leste. A garçonete insistiu: só dólares.

    A ilha do turismo e a ilha do socialismo se chocam constantemente. “Os cubanos estão com raiva da gente” – conclui Govrik, 23 anos, estudante de economia internacional. “Deve ser porque saímos do lugar, e eles não. Ganhamos liberdade, e eles ainda não. Além do mais, paramos de exportar ônibus para Cuba”.

    Govrik e Peter queriam festejar a partida, que quase perdiam, porque não encontraram um guagua – ônibus, que se pronuncia uaua – para voltar do “paraíso” de Varadero, um balneário a 144 quilômetros de Havana. No final conseguiram capturar um de los incapturables, os táxis que cobram em pesos, com a condição de que pagassem em dólares. Agora, o brinde – ao longo voo de volta, e aos dias ensolarados de Cuba. E a constatação de que em Cuba, onde a gorjeta já foi proibida e era ofensiva, o suborno começa a resolver problemas.

     O soviético Alexandr, um visitante veterano da ilha do socialismo que viaja em missões oficiais de intercâmbio agrícola, lamenta ouvir casos em que os cubanos aparecem como “qualquer imperialista corrupto”. Ele diz que se entristece muito ao confirmar “uma perda da pureza revolucionária”. 

    -Câmbio? – murmura o jovem que acerta o passo com o turista, nas ruas de Havana.

    -Puros? – ele insiste, oferecendo charutos.

    -Mulatas?

     Um psicanalista brasileiro ia trocar 1 dólar por 6 pesos, quando no oficial cada 1 peso vale 75 centavos de dólar, e o cambista arrancou-lhe a nota da mão, e saiu correndo. Um comunista italiano hospedado no hotel Habana Libre, ex-Hilton, só descobriu ter caído num golpe ao tirar o bolo de dinheiro do bolso: eram duas notas de 20, com o retrato de Camilo Cienfuegos, e o resto, papel de revista.

    “O cambista pediu que não contasse o dinheiro na rua para não chamar a atenção” – ele lembra, entre envergonhado e amargurado, depois de trocar 100 dólares por 40 pesos. Nem reclamar pode: o câmbio negro é punido em Cuba, e ele está com el comandante Fidel Castro, torcendo com fervor pela resistência na ilha do socialismo, porque “as transformações na Europa não passam de um retrocesso”. Ele pediu a dois jornalistas que o ouviram: “Por favor, não falem mal de Cuba. Este país não merece”.

    Um brasileiro que veio tratar o filho, no “turismo do vitiligo”, que é uma afecção cutânea que produz áreas despigmentadas pelo corpo, perdeu todo o dinheiro num assalto, e teve que dormir na Embaixada do Brasil até conseguir um voo de volta para São Paulo, via Panamá. Alexandr, o soviético, diagnostica sintomas de “um câncer” na sociedade cubana. O único tratamento possível, como recomenda, é “abertura, democratização”. Ele não tem dúvidas de que Cuba seguirá esta receita: “Apenas uma questão de tempo” – assegura, olhando para os lados para ver se alguém o escutou, num tique típico na ilha da dissidência.

    O alemão Werner se prepara para ver as ondas arrebentando com forca no parapeito da avenida Malecón, num dia de vento Norte: “No quiero câmbio, ni puros, ni mulatas” – ele repete, como se estivesse treinando para o assédio inevitável, assim que pisar o mundo real de Havana. Mesmo que troque dólar com vantagens, como irá gastá-lo? O mundo em que vive o turista não aceita pesos. O jornaleiro, sim. Mas o jornal Granma custa 10 centavos. O cafezinho, servido em quiosques, outros 10 centavos. O famoso sorvete na Copellia, entre 0,50 e 1,50 pesos. O cinema, 1 peso. E pode-se tomar rum com água mineral, folha de hortelã e açúcar, o mojito, no bar do restaurante Bodeguita del Medio, famoso pelas visitas do escritor Ernest Hemingway. O garçom, porém, vai atender, primeiro, quem pagar com “divisas”. O peso também compra livros – livros entre 1 e 5 pesos que são disputados quando chegam nas prateleiras, e que esgotam rapidamente. Se o turista quiser trocar mais de 20 dólares, ao desembarcar no aeroporto Jose Marti, com certeza vai ouvir: “mas para que, compañero?” Quando sair, só poderá destrocar o máximo de 10 dólares, se tiver o comprovante do cambio oficial.

     O dólar abre as portas dos restaurantes onde os cubanos fazem fila. Garante as melhores mesas nos cabarés, que são uma mania em Havana, onde funcionam mais de 300. Com ele, anda-se de turistaxi, sempre disponível diante dos principais hotéis. E compra-se no “palácio da comida”, uma diplotienda frequentada por residentes estrangeiros, no hotel Triton, e que tem os produtos básicos em falta nos mercaditos do pais.

    Os dois mundos convivem e colidem. O garçom serve um filé como uma preciosidade. Ele próprio dirá que só come carne uma vez por semana, “se tanto”. Mas quem tem um amigo no campo acaba descobrindo um circuito clandestino para se abastecer de carne de porco ou de galinha. O estrangeiro compra uma garrafa do melhor anejo por 4 dólares. O cubano, por 20 a 30 pesos. Charutos? So’ os de segunda ou terceira categoria. Os melhores, puros, estão nas diplotiendas, inacessíveis. A ilha do turismo tende a crescer. Há mais 5 mil quartos de hotéis em construção. E um ambicioso projeto para transformar as praias de Cayo Coco num porto de cruzeiros turísticos e de iates.

    Muitos cubanos observam, constrangidos, as obras dos novos paraísos capitalistas. “Precisamos é de mais casas e de mais guagua” – critica um deles, com o cuidado de não ser ouvido na fila do cinema Yara. Um funcionário da Cubatur, que não quis dar o nome, defende a estratégia: “Temos ofertas garantidas de turismo que logo vao amortizar o investimento. Estamos apostando no certo”. Uma previsão é a de que 350 mil turistas visitarão Havana até o final do ano, 100 mil a mais do que em 1987, e que gastem uns 200 milhões de dólares. A meta de 1 milhão de turistas está fixada para 1992, com um retorno estimado entre 500 e 700 milhões de dólares.

     Os turistas são aconselhados a ter muita paciência, ou ardor revolucionário, quando chegam à Cuba. O funcionário da alfandega poderá sair para o banheiro, e demorar. Ou ser extremamente minucioso, especialmente com os poucos cubanos que voltam de viagem. Abre envelopes. Lê até as cartas, se estiver muito desconfiado. Os problemas no hotel são resolvidos, geralmente, com muita lentidão, enquanto circulam memorandos pela infraestrutura burocrática, que está procurando adaptar-se aos novos tempos e tornar-se mais eficiente, “mais capitalista” – como definiu uma recepcionista.

     Com tempo, dois dias, uma banheira é desentupida. A privada ganha uma tábua. E troca-se a televisão sem imagens por uma com imagens, mas sem som. Opção do dia dos namorados: ver “A escrava Isaura”, ou ouvir um show de Roberto Carlos? Agora, o telefone, esse parece não ter solução, embora um técnico português de uma companhia canadense, que passou um mês avaliando como Cuba falará com o mundo em 1991, durante os jogos pan-americanos, garanta: “Vamos conseguir. Se depender de nós, faremos uma ligação com um satélite, e pronto: Cuba entra na era do DDI”.

    O técnico, porém, não sabe se Cuba quer “tanta comunicação”, e como decidiu contar por que, pediu a proteção do anonimato: “Acho que há um problema político”, ele confidenciou. “O governo cubano talvez não queira perder o controle das ligações internacionais. Imagine todo mundo discando direto daqui para Miami?” Uma ligação para Havana, atualmente, requer muita paciência e determinação. Pode levar uma noite inteira, e nem sair. Vários funcionários da embaixada do Brasil foram convocados no sábado, 17 de fevereiro, para um trabalho extra, provocado por um comunicado do Comitê Central do Partido Comunista que anunciou um pacote de rectificaciones para o aperfeiçoamento da “democracia socialista”. Mas não puderam telefonar nem mandar telex para o Itamaraty.

     “Não tivemos linha” – explicou um diplomata.

     “A linha caiu varias vezes até que conseguisse passar uns parágrafos” – contou um correspondente estrangeiro em Havana.

     O problema não é apenas o de linhas antigas, com 50 anos. Uma funcionária da telefônica, em novembro de 88, tocou fogo numa estação, silenciando 60 mil telefones – os que começam por 6 ou 61, incluindo o da Embaixada Britânica. “Foi por causa de uma briga com o namorado”, diz-se em Havana. A incendiária está presa, condenada a 12 anos de cadeia. As outras linhas, naturalmente, sofreram uma sobrecarga. Quando se tira o telefone do gancho já se escuta o ruido de ocupado. Não se aflija: disque assim mesmo que pode dar certo. Ao som de algo se partindo, anime-se: a ligação será completada. Há vezes em que se disca, e não acontece nada, um silêncio total. E outras em que se escuta, nitidamente, alguém desligando – será um censor?

    “Tudo aqui é muito difícil” – comenta um diplomata enquanto abre, em 24 de fevereiro, o cartão de feliz Natal despachado em 24 de dezembro, no Rio de Janeiro.

    Havana parou no tempo. Quase todos os seus carros são americanos que começaram a rodar antes da Revolução, em 1959, e já passaram por inúmeras retificas e adaptações. Algumas mansões antigas, na cidade velha, fundada em 1515, viraram verdadeiros cortiços. Outras estão sendo restauradas, com a ajuda da Unesco. Mas a cidade é uma das poucas capitais latino-americanas sem favelas. E sem mendigos. E pode ser confundida com uma superpotência com a leitura de sua imprensa triunfalista, que badala muito os congressos que abrem todas as semanas, com títulos pomposos como “Informática-90”, “XII Festival de Rádio”, “Pedagogia-90”, “Primeiro Encontro Iberoamericano de Historias em Quadrinho”, e “Cristianismo, Socialismo e Marxismo”. Um deles, o de “Psicologia Marxista e Psicanalise”, reuniu um grande numero de brasileiros e foi encerrado, sem Freud nem Marx, com um comunicado contra a teleagresion que os Estados Unidos deverão cometer se levar adiante o projeto de uma TV para Cuba – a TV Marti. Um psicologo brasileiro comentou: “Vim mais para turismo. Tentei falar com os psicólogos cubanos sobre a situação politica, mas eles se mostram muito fechados”. Numa excursão à Bahia dos Porcos, perto de Cienfuegos, ele viu uma passeata.

     “Contra Fidel?” – perguntou, preparando a câmera. Era a favor. Muitos cubanos que criticam o socialismo são leais ao jefe Fidel. “Conhecemos o que era Cuba sob Fulgêncio Batista”, diz um ex-marinheiro, hoje motorista de um turistaxi Lada, soviético. Ele critica “esses jovens opositores” como se as reformas que reclamam fossem uma moda passageira. E pergunta, desafiador: “Nos Estados Unidos não há também um só partido no poder? Hein? O que me diz disso?” Um técnico em refrigeração lembra que andava descalço, aos 15 anos, e que hoje todos estão calçados.

     “Vivi os dois regimes. Antes, aqui, havia uns poucos ricos. Agora, somos todos iguais. Todos podemos estudar. Temos médicos e hospitais. Este não é um sistema para produzir milionários. Para mim, o socialismo deixou de ser um fantasma – virou o único meio de vida” – ele diz.

     El comandante Fidel Castro parece onipresente em Havana, como a salsa e a rumba. Ele vai a todos os lugares para resolver pessoalmente os problemas que considera prioritários. Cuida até de uma melhor distribuição de guaguas pela cidade. Surge no meio de uma míni brigada de voluntários, numa obra, ou numa manifestação, de repente. “Veja Fidel: não tem nada para ele; só para o povo” – comenta um voluntario no trabalho de recapeamento das ruas do Vedado, onde estão os grandes hotéis. Havana é uma cidade muito bonita. As mangueiras estão florescendo nesta época do ano. Grupos de velhos fazem ginástica nos parques, todas os dias. As melhores praias estão ao Leste, como El Megano, Santa Maria del Mar e Bacuranao. A música faz parte da paisagem. Os concertos nas Casas de la Trova são gratuitos. E há shows de rumba e salsa pelas ruas, nos sábados de descanso, dois por mês.

     O jornalista Joaquin Rivery, responsável pela área do cone Sul do jornal oficial do PC de Cuba, Granma, diz que el comandante conta também com um evidente apoio juvenil. Uma prova seria a grande participação de jovens nas últimas das várias manifestações em Cuba – a festa de aniversario do herói da independência, Jose Marti, que “foi um espetáculo incrível”, e a homenagem aos tripulantes do navio mercante atacado pela guarda-costeira norte-americana, que lotou um longo trecho da avenida Malecón.

    Rivery vai ao Brasil para cobrir a posse do presidente Fernando Collor de Mello. Ele foi correspondente em Moscou por 4 anos, e esteve na China e na Polônia, nos anos 80. “Aqui só existe liberdade de imprensa revolucionária”, explica. Isto quer dizer que o Granma, o Trabajadores e o Juventud Rebelde não são publicados para atacar a Revolução. Suas manchetes também não refletem, necessariamente, o que de mais importante acontece no mundo. Pode ser o otimismo com a safra, uma novidade científica e até o dia dos namorados, que rendeu muita cobertura em todos os jornais.

      “Aqui não há glasnost, nem vai haver glasnost – assegura Rivery. O que é bom para a União Soviética não é obrigatoriamente bom para Cuba”.

     Uma das perguntas que se faz ao jornalista estrangeiro que pede credenciais para trabalhar em Cuba reflete um dos fascínios cubanos: “Você já escreveu um livro?” O escritor Miguel Mejides, vice-presidente da União Nacional de Escritores e Artistas, explica:

     “Em 1958, um ano antes da Revolução, tínhamos muitos analfabetos, cerca de 38 por cento de uma população de 6 milhões de habitantes. A campanha de alfabetização começou em 1961, quando o escritor Alejo Carpentier criou a editora nacional.  Aprendi a ler com 12 anos. O primeiro grande livro de leitura maciça, em Cuba, foi Dom Quixote, de Cervantes. A partir daí o livro passou a chegar a todas as casas, e a representar prestigio. Não acho que lemos tudo que deveríamos ler. Mas estamos bem superiores ao restante da América Latina”.

     Os prêmios literários da Casa de las Américas são considerados importantes. A brasileira Anita Leocádia Prestes ganhou um dos prêmios deste ano para ensaios, com A Coluna Prestes. O livro Fidel y La Religion, de Frei Betto, dificilmente será encontrado, atualmente, como os de Jorge Amado, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, esgotados rapidamente. Na Feira Internacional do Livro, em Havana, em fevereiro, foram apresentados 3 mil novos títulos, a maioria estrangeiros. Mejides, 40 anos, está escrevendo seu quarto livro – uma novela em que o personagem principal é um cantor cubano de rock, “gordo, frustrado e careca”, que passa para rumba e cha-cha-cha quando viaja ao exterior, “e vive à procura da infância, da adolescência”.

     Cuba só pode pagar direitos autorais em pesos. Uma exceção foi aberta para um escritor norte-americano que Mejides não identifica. “Pagamos com charutos. Uma caixa de charutos”. Outros recebem com uma estadia em Cuba.

     Há um turista que muitos cubanos detestam: é o gusano, ou lagartixa, ou verme, o cubano que vive no exílio, nos Estados Unidos. Ele chega a Havana com passaporte norte-americano, dólares, e compra nas diplotiendas o que seus parentes, vivendo em Cuba, não podem comprar: ventiladores, TV a cores, rum, puros e até comida. Exibe-se como alguém bem sucedido. Alguns já misturam palavras em inglês ao espanhol.

      A fartura do café da manhã no Habana Libre impressiona alguns turistas. Quantos deles não abrem a bolsa debaixo da mesa e deixam cair bananas, bolos e ovos cozidos para economizar o almoço? Assim pagam 3,50 dólares por duas refeições. Os cubanos não podem subir nos elevadores do hotel se não tiverem um cartão de identificação como todos os hóspedes. Na piscina, no segundo andar, o topless acabou de chegar, e e’ uma fonte de curiosidade e perturbação. O saguão de entrada está constantemente cheio. Uma babel, onde se misturam comunistas e imperialistas. El comandante Fidel Castro costumava dormir no 23 andar, abaixo do restaurante Sierra Maestra. Aqui também reabriu a Embaixada do Brasil, em 25 de junho de 1986. Nos últimos dias começaram a chegar novos repórteres franceses, belgas, japoneses, ingleses e espanhóis que estavam na Nicarágua, acompanhando as eleições que derrotaram o presidente Daniel Ortega, e que deixaram a ilha do socialismo ainda mais isolada.

    “Vieram para o derumbe” – ironizou um funcionário do ministério das Relações Exteriores. “Vão desistir de tanto esperar”. Só na “pequena Havana”, em Miami, entre os exilados cubanos, o derumbe parece iminente. Alguns já preparam as malas esperando voltar até antes do Natal. “Cuba não é Granada, nem o Panamá'” – advertem os cubanos. Eles acabaram de concluir um exercício de prontidão nacional, e estão preparados para defender o socialismo. Um cartaz por Havana os compara ao David, na luta contra Golias.

    A pedrinha tem uma forma que lembra a ilha de Cuba, e veio diretamente do muro de Berlim para a mesa de um cubano de Miami, Jorge Mas Canosa, considerado forte candidato à eventual sucessão do comandante en jefe Fidel Castro (não mais, a morte o levou antes, em 1997). Está numa moldura, com uma dedicatória assinada pelo deputado norte-americano pela Flórida, Lawrence J. Smith:

     “Talvez o muro em torno de Cuba seja o próximo a cair”.

     Canosa, 49 anos, preside a Fundação Nacional Cubano Americana, e atribui “aos amigos”, com um sorriso, a fama crescente de que será o próximo líder de Cuba. Ele não esconde que até já trabalha na transição, com uma equipe que inclui o economista Milton Friedman, mas motivado apenas “por um desejo de participar”.

    Na “pequena Havana” de Miami, Canosa observa, cada dia mais animado, os sinais de que el comandante Fidel Castro está caindo na ilha isolada pelo colapso do comunismo, pela derrota do aliado Daniel Ortega, na Nicarágua, e pelo fim das relações de conveniência com o general Manuel Antonio Noriega, do Panamá, que era uma das saídas ao bloqueio econômico de mais de 30 anos imposto pelos Estados Unidos.

     Os sinais captados por Canosa são “concretos”, como ele diz: “Estamos recebendo dois a três desertores do governo de Cuba por dia. Isso não se produzia antes, há’ um ano. Isto é muito importante. Algumas vezes passam dois dias sem que apareçam. Mas, então, chegam 10 de uma vez só”.

     -Chegam como? Barcos?

     “Não”, responde Canosa. “Pedem asilo no Canadá, na Espanha, Bélgica, Inglaterra, Equador…São funcionários do governo cubano que desertam enquanto cumpriam alguma viagem oficial. Tem acontecido mesmo em países comunistas. É um sintoma de que há uma séria crise em Cuba”.

-Algum deles está aqui, em Miami?

     “Neste momento, não”.    

    Outros sinais observados por Canosa: “Vários funcionários cubanos estão pedindo entrevistas secretas com frequência. Isto é inédito. Examino com cuidado a decisão de dá-las ou não, porque posso cair em alguma armadilha preparada pelo governo de Cuba. Aí já não se trata mais de um desertor. Gente que quer apenas um contato”.

    -E o que pretendem?

     “Estão procurando romper o isolamento em que se encontram, achar uma saída. Querem democracia, abertura, mudanças. Isto é muito delicado. Não posso falar a respeito porque ponho ainda mais em perigo a vida de pessoas que já estão se arriscando muito. Não são emissários de Fidel nem Raul Castro. Buscam algum tipo de conexão com gente que os ajude a produzir uma forte pressão interna para promover o inicio de um processo de democratização em Cuba”.

     Canosa também é o presidente da empreiteira Church & Tower of Flórida, com contatos no Brasil. Ele veio para os Estados Unidos no primeiro ano da revolução de Fidel Castro, em 1960. Era estudante de Direito, e não pode terminar o curso. Seus três filhos, nascidos americanos, e a esposa cubana, só esperam o momento de embarcar para uma nova vida em Cuba. As fotos em seu escritório o mostram com o ex-presidente Ronald Reagan e com o presidente George Bush.

    “Devo ao meu pais, que amo profundamente, o resto da minha vida” – ele diz. “Quero ajudar na reconstrução moral, espiritual e econômica do meu povo. Quero dar uma contribuição importante, seja numa instituição cívica, ou na vida pública”.

    A previsão de Canosa parece largamente compartilhada entre o milhão de exilados cubanos que vivem na Flórida: “É muito difícil prever uma data, mas não há dúvidas de que Castro não poderá’ resistir ao impacto das mudanças. Uma questão de tempo… Ele se colocou num curso de colisão com a própria União Soviética. E não está em condições de entender-se com os Estados Unidos. Na realidade, Castro entrou em choque com os dois polos políticos do mundo, e não vai sobreviver”.

     Castro es el próximo, “Castro é o próximo”, repete-se na Calle 8, a principal da “pequena Havana”, em Miami. No cafe’ Versailles, um ponto de reunião de exilados cubanos, o guarda de segurança Eusebio Hernandez aposta com um amigo: “Vou comer um leitão em Cuba, no final do ano”. O advogado Rafael Penalver fala mesmo numa “renascença cubana”. E para o ex-prisioneiro politico Ed Lopez Castillo, 66 anos, será um alívio:

    “Fiquei preso 13 anos porque denunciei o uso imoral da embaixada de Cuba na Tchecoslováquia. Ela tinha se convertido num prostíbulo. Eu estava começando a carreira diplomática, como primeiro secretario, em 1965. Escrevi um relatório de 44 paginas, e fui acusado de diversionismo ideológico, um inimigo da Revolução. Agora, este governo está por cair. A queda é iminente. Voltarei para Cuba com prazer”.

     Castillo, antes, vai à Caracas, na Venezuela, para reunir-se à esposa e filha, que não encontra há 10 anos. Chegou a Miami em 1989, com o ex-prisioneiro Ramon Guin Diaz, um plantado, um preso que resiste aos programas de reabilitação “mesmo sob tortura”, e que foi condenado a 22 anos por uma tentativa de assassinato contra Fidel Castro. “Puseram-nos num pequeno avião, e disseram que voaríamos para a Flórida. Tivemos medo de que iam, na verdade, nos assassinar. Até agora não sabemos a que devemos o voo especial para o exilio”.

     A excitação entre os exilados aumentou quando o governador da Flórida, Bob Martinez, anunciou a criação da Comissão Cuba Livre para examinar que efeitos norte-americanos poderá ter a queda de Fidel Castro. O prefeito de Miami, Xavier Suarez, que partiu de Cuba ainda criança, recomendou à policia que se prepare com antecedência para uma grande comemoração. O jornalista cubano-americano Sergio Lopez-Miro, que escreve uma coluna semanal para o Miami Herald, lamenta a precipitação oficial:

     “O governador criou essa ridícula comissão para estudar os efeitos de uma suposta queda iminente de Castro, mas talvez ele deva examinar os efeitos da histeria provocada na  comunidade”.

    Muitos exilados procuraram advogados para saber qual o procedimento legal para a recuperação de casas e terras desapropriadas pela revolução de 1959, que derrubou a ditadura de Fulgêncio Batista. Outros já se preparam para abrir negócios em Cuba.

     O empresário Canosa também é o presidente da Comissão Cuba Livre, e explica: “Achamos que devem vir de Cuba tantos cubanos quanto partirem da Flórida, porque o trabalho aqui, nos Estados Unidos, será igualmente importante. Faremos lobby em prol de um mercado livre entre os dois países, para que Havana e Miami se tornem cidades irmãs, e para unirmos, também, as universidades de Harvard e de Cuba, num primeiro momento”.

     Um dos objetivos da Comissão Cuba Livre é o de estudar o período de transição, apos Castro. E Canosa se anima: “Desde papel sanitário a automóveis e computadores serão embarcados do porto de Miami. A Flórida vai conhecer um período de grande prosperidade, na minha opinião. Afinal, estará se abrindo um mercado de quase 11 milhões de habitantes. A sociedade cubana quer se converter numa sociedade de consumo, e tem recursos. Cuba não é uma ilha pobre. Ao contrário: a mais rica do Caribe, e talvez de toda a América Central”.

     Canosa estava em seu Mercedes-Benz, à caminho da Fundação Nacional Cubano Americana, quando o telefone tocou. Uma repórter do jornal USA Today queria sua reação à noticia de que no Congresso, em Washington, alguns senadores e deputados acabavam de criar uma Junta pela Liberdade de Cuba. O que o Senado pode fazer para apressar a queda de Fidel Castro? – ela perguntou.

    “Esta Junta tomará a iniciativa, brevemente, de criar uma legislação capaz de dar o golpe final à tirania” – ele começou a responder, e acrescentou, como se já soubesse do plano: “Uma das primeiras medidas será a de apertar o bloqueio econômico contra Cuba, com a proibição de que companhias americanas no exterior vendam a intermediários cubanos”.

     Canosa seria confirmado, no dia seguinte, pelo presidente do comitê de Relações Exteriores da Câmara, o deputado democrata Dante Fascell, que revelou já ter pedido ao Departamento de Estado um relatório sobre o comércio de Cuba com subsidiárias norte-americanas, estimado em 300 milhões de dólares. “Fidel está maduro para cair, e acho que isto vai acontecer antes do que muita gente espera”, disse outro deputado, Larry Smith, um democrata de Hollywood. Foi uma nova festa para a “pequena Havana”, em Miami. “Se fizermos o nosso trabalho, Castro não estará no poder em 12 meses, contados desde hoje” – prometeu o senador republicano Phil Gramm, do Texas, em 1 de marco.

     O senador democrata da Flórida, Bob Graham, pediu, em nome da Junta: “Que o povo de Cuba possa votar como o povo polonês votou, como o povo do Panamá votou, como o povo da Nicarágua votou”. O deputado republicano Porter Gross, um dos observadores da eleição nicaraguense, acrescentou: “Quando o povo pode escolher, escolhe certo, como acabamos de ver”.

     Canosa ainda deu uma entrevista para uma rádio de Miami antes de estacionar diante da Fundação Nacional Cubano Americana. “O sistema de Cuba não está desenhado para sobreviver no meio ambiente atual”, ele comentou. “Cuba foi planejada para viver no meio ambiente comunista, com os subsídios e a assistência da União Soviética.” El comandante Fidel Castro não teria nem a alternativa de uma reaproximação com os Estados Unidos, como acreditam alguns membros do Comitê Central do Partido Comunista, em Havana.

     “A presença cubano-americana nos Estados Unidos impede que Castro engane os americanos”, diz Canosa. “Enquanto os irmãos Castro estiverem no poder”, e ele aí inclui Raul, o ministro da Defesa, “não há a menor chance para uma reconciliação com o governo americano. Simples: a Casa Branca não vai reconhecer uma ditadura que assassinou milhares de cubanos, que viola os direitos humanos, e que fornece armas à guerrilha em El Salvador”.

   Os cubanos os chamam de gusanos, vermes ou lagartixas. Mas Canosa, com orgulho, diz: “Somos uma força politica nos Estados Unidos. E afetamos a politica interna de Cuba. O exilio é responsável pela rádio Marti, pela televisão Marti, pelo fortalecimento do embargo contra Cuba, pelas denúncias de violações dos direitos humanos por Fidel Castro, e pela nomeação do escritor cubano Armando Valladares como embaixador dos Estados Unidos nas Nações Unidas, em Genebra”.

     -Como será o próximo governo de Cuba?

     “A lei do pêndulo vai funcionar”, responde Canosa. “Cuba vai passar de uma economia centralizada, de um regime ditatorial, para uma absoluta democracia, e uma economia de mercado. Já temos uma serie de sugestões preparadas, como a lei que deverá vigorar durante o período de transicão, e as primeiras medidas econômicas. O professor Milton Friedman nos ajudou. Não temos que inventar nada. Se você quer comprar o melhor carro, sabe qual e’. A economia de mercado livre é a única que funciona. A reconstrução econômica de Cuba será de tal magnitude, de tal prosperidade, que servirá de exemplo para toda a América Latina. Nos faremos de Cuba, em três anos, um dos países mais prósperos do Hemisfério Ocidental”.

     -A Fundação vai divulgar os planos para a transição?

     “Oportunamente”, corta Canosa.

     A Fundação Nacional Cubano Americana funciona como um governo no exilio, dispondo de uma verba de 5 milhões de dólares. Uma frase de Abraham Lincoln decora as paredes de seus escritórios: “Quem nega liberdade a outros não merece tê-la”. Uma outra decoração é a primeira página em que apareceu o general Noriega numa foto de presidiário. Só que, reparando bem, vê-se o rosto de Fidel Castro, sob o título: “US prisioner # 41586”.

     Um funcionário explica: “Aqui resolvemos todos os problemas, desde o de um desertor importante, na Polônia, até o de uma velhinha que caiu na rua, em Miami. Nunca aspiramos a ser um governo no exílio. Só que com o tempo viramos a organização mais importante na luta contra Castro, e somos hoje a oposição cubana”.

     Leopoldo Rivero talvez seja o cubano com o projeto mais mórbido entre todos os exilados. Ele quer receber o corpo de Fidel Castro. “Vou arrancar seus fios de barba, um a um. Depois, o cremarei”. A cremação é uma das especialidades da Funerária Rivero de Coral Gables, no coração da “pequena Havana”, e dos subúrbios de Wastchester e Hialeah. O prestigio de Rivero nasceu em Cuba, onde ele já era do ramo. “A revolução confiscou tudo que pertencia à minha família, e aí parti para os Estados Unidos”. Hoje ele está indignado diante do corpo de um menino de 15 anos, “um novo mártir do exilio”.

     Ricardo Gregorio Perez, que vai receber um enterro patriótico e grátis da Funerária Rivero, morreu de desidratação ao ser recolhido pela guarda-costeira norte-americana, quando já se aproximava das costas da Flórida. Vinha numa balsa feita com espuma sintética junto com o cunhado Ernesto Jesus Pena, de 23 anos, que sobreviveu e ficou detido no centro Krome, em Miami. A travessia dos 145 quilômetros do golfo do México foi feita por 40 refugiados, em janeiro, e por 391, durante 1989. Não se sabe quantos mais a tentaram, e naufragaram.

     “Vou enrolar este muchacho numa bandeira cubana”, diz  Rivero, em sua funerária, num tratamento igual ao que dispensou aos 27 corpos recolhidos de um barco que partiu do  porto de Mariel, em Havana, que marcou o êxodo de 125 mil cubanos em 1980.

     “A juventude é que está saindo agora de Cuba” – observa Jorge Lobo, 28 anos, depois de uma visita de solidariedade ao corpo do muchacho na funerária Rivero. Ele acabou de chegar de Havana. Ao pedir o visto, há 3 anos, foi expulso da universidade e perdeu o emprego no Comitê Estatal de Estatísticas. Trabalha agora servindo água e pão aos que se sentam para comer no restaurante Versailles. “Sinto-me quase em casa, aqui na Calle 8”, ele diz, mas preferia viver em Havana, onde ficou sua família. Aqui, tomando café, alguns exilados planejam invasões, o assassinato de Fidel e atentados. Os planos “não saem do terreno da fantasia”, garantem os líderes comunitários.

     “Para que?” – pergunta o professor Ricardo Bofill Pages, famoso no exilio cubano. “A guerra das ideias, no mundo de hoje, é muito mais importante do que a guerra com as balas de chumbo”. As transmissões da Rádio Marti, em Washington, são a principal arma contra el comandante Fidel Castro. “A história de Cuba”, ele afirma, “vai se dividir em antes e depois da Rádio Marti”.

     Bofill, formado em marxismo-leninismo em Moscou, fundou o primeiro Comitê Cubano Pró-Direitos Humanos, em Havana, em 1976, e ainda o preside, desde Miami. “Fiquei mais de 13 anos preso em 30 diferentes prisões de Cuba. Não há um milimetro do meu corpo que não tenha levado porrada. E mataram meu pai com um soco, em 1980” – ele conta com uma carga de violência inesperada para quem prega uma guerra de ideias.

     Dispara: “Meu pai tinha 71 anos quando o mataram numa rua de Havana. Um paradoxo: meu pai, um trabalhador, um combatente espanhol contra o fascismo, um revolucionário que se mudou para Cuba, morto na rua, durante as manifestações de repúdio ao êxodo de Mariel. Eu estava preso por ter sugerido uma renovação no Partido Comunista. Veja só: meu pai assassinado, e eu preso, numa suposta república socialista – nós, militantes comunistas!”

     E dispara mais: “Em que terminaram nossos ideais? As ideias de Prestes? Terminaram em Noriega. No bandoleiro que governa a Etiópia. Roubaram nossa ideia. Que diabo tem que ver Fidel Castro com os trabalhadores? Ele nunca trabalhou em sua vida”. E dispara: “Amigo mio, este governo que está em Cuba não tem nada que ver com os trabalhadores, com os pobres, com os negros. É uma oligarquia. Fala em nome do marxismo apenas para manter o poder…”

     Bofill transborda de ódio, armado com a Rádio Marti. As transmissões não violam a soberania cubana? “Isto é uma tremenda falsidade”, ele diz. A própria Rádio Havana transmite insurreição e desestabilização desde 1960. Um dos direitos universais mais sagrado é o da liberdade de informação e comunicação. O governo soviético levantou as restrições à Rádio Europa Livre e à Rádio Liberdade”.

     Nada mais contrastante do que o motorista de táxi que leva um passageiro ao aeroporto Jose Marti, em Havana, e fala com paixão revolucionaria do comandante en jefe Fidel, e o motorista de táxi do aeroporto de Miami, um exilado cubano que quer a pena de morte para o tirano Fidel. Um participa das brigadas voluntárias para construir a ilha do socialismo. E o outro contribui com dinheiro para fortalecer a ilha da dissidência.

    

     Viagem entre

     dois mundos

     Os passageiros do voo 8606 já estão impacientes, em pé, diante da porta de embarque, e ainda falta mais de hora e meia para a partida.

     A maioria dos passageiros tem mais de 65 anos. Apertam-se em filas que formaram por conta própria, visivelmente assustados. Esperaram meses pelo visto de saída, e agora temem algum imprevisto. Não carregam sacolas com presentes. E vestem-se com roupas simples, novas, ou cuidadosamente engomadas.

     O avião da companhia norte-americana Eastern acabou de pousar no aeroporto internacional Jose Marti, em Cuba. O voo 8606 não existe em nenhum guia turístico. Liga Havana e Miami, de segunda a sábado, “a partir de 11 horas da noite”. São só 40 minutos, e duas realidades tão diferentes! 

     Uma condição para a viagem é ter mais de 65 anos, e algum parente nos Estados Unidos que mande um convite por escrito, acompanhado dos 300 dólares para o bilhete de ida e volta. O visto dá direito a apenas 20 dias, improrrogáveis. Diplomatas e alguns estrangeiros são aceitos como passageiros, desde que haja espaço. O jato tem 149 lugares disputados diariamente, e levanta voo sob os auspícios da comunidade cubana, que o freta da Eastern para o transporte de ex-prisioneiros políticos, e a reunião de familiares.

     O camponês Geraldo, 68 anos, recebeu a autorização para embarcar, três meses depois que a pediu, em outubro de 1989, mas então estava em plena colheita de arroz. “Como poderia sair?” – ele pergunta, como se pedisse desculpas. Ele vai ver o filho, em Miami. No momento, quer muito ir ao banheiro, mas não sairá da fila que inventou com outros compañeros, pondo em pratica uma recomendação do próprio comandante Fidel Castro: “para trás nem para tomar impulso; só para frente!”

     Os cubanos são fervorosos comunistas, antes do embarque. Defendem o limite de 20 dias no exterior, “decidido pelo governo cubano para permitir o rodízio entre todos que queiram visitar a família”. Justificam as filas que enfrentaram: “afinal, somos um caso especial, e não podemos ter todas as atenções”. Uma senhora que se diz chamar Miriam, sem muita convicção, é um caso especialíssimo: viaja para conhecer o neto, mas não vê a filha desde que a mandou, com três anos, para fora de Cuba, depois da Revolução de 1959. Todos olham a pista através da porta de vidro, e os guaguas/ônibus que levam os passageiros até os aviões, e os relógios:

     “Será que há algum problema?” – pergunta Victor. Ele sugere que um passageiro estrangeiro pergunte ao guarda, porque a um cubano não pegará bem mostrar-se ansioso. As aeromoças da Eastern fazem compras. Um pacote de charutos, uma garrafa de rum, o último cassete de Pablo Milanes – “Proposiciones”. Os únicos jovens no voo são os dois lutadores porto-riquenhos que vieram a Havana para o Campeonato de Boxe Amador, e o técnico e a empresária que os acompanham. Foi quando um deles lutava que um dissidente subiu ao ringue, e gritou: Abajo Fidel! Basta de tirania! “Nem percebi os gritos, só a confusão que se armou”, ele lembra.

    Os passageiros são chamados às 11h40, mas já estão todos espremidos contra o vidro do portão A, que é apenas entreaberto para um embarque a conta-gotas. Cada passaporte cubano, já examinado à entrada do aeroporto, no balcão do voo 8606 e no guichê da imigração, passa por uma nova e rápida fiscalização. O funil se desfaz aos poucos, enquanto as guaguas lotados partem para o Eastern, vigiado por alguns policiais dentro de uma rádio-patrulha.

     A aeromoça pede: “Al fondo, compañeros”. Muitos dos compañeros entram pela primeira vez num avião. A maioria precisa de ajuda, principalmente para fechar o cinto. A corrida pela pista traz um sorriso à Miriam, voando no avião ianque para o mundo capitalista. Pergunta as horas, e não ouve a resposta. Daí a pouco pergunta de novo, preocupada: “Sera’ que minha filha ainda estará me esperando, com tanto atraso?”. As duas conseguiram combinar o reencontro pelo telefone. O voo dura 40 minutos, sem cafezinho, nada – so’ a correção dos cartões de desembarque, um por um, pelas tres aeromoças cubano-americanas.

     O avião toca a pista, sem aplausos. Os passageiros vão cruzando o aeroporto de Miami mostrando uns para os outros o carpete, a quantidade de telefones públicos, e – como entrar aqui? – a esteira rolante, que provoca risos. Um agente da imigração puxa da fila cada um dos passageiros, e o coloca plantado diante da linha amarela dos guichês de fiscalização, enquanto tenta falar espanhol: “stay aca'”. Todos se reúnem outra vez na saída da alfândega. Tanta é a confusão armada pelos que esperam os passageiros, com invasão dos cordões de isolamento, que a polícia decidiu: só abre a porta quando a calma for restabelecida.

    A multidão se contem por um instante. E quando aparecem os primeiros passageiros, descontrola-se outra vez. Abraços emocionados. Lágrimas. Aplausos. Gritos. Faixas. Flores.

 

Foto: gocuba.ca

Foto: gocuba.ca