No meio do caminho tinha Petra

2013-06-22 09.04.26pedra

Memória esculpida em pedra rosa-vermelha, Petra assombra. É o testemunho petrificado de um povo que perambula pelo deserto da Terra Santa há mais de 2 mil anos.

populac3a7c3a3o-de-beduinos-do-desertoEl Badwi — estepe, começo e beduíno em árabe, esse povo “tem o ar, os ventos, o sol, a luz, os espaços abertos e um imenso vazio” – como dizia o arqueólogo, militar, espião e escritor inglês Thomas Edward Lawrence (1888-1935), o lendário Lawrence da Arábia do livro Os Sete Pilares da Sabedoria.

Os nabateus, primeiros beduínos, vagavam em caravanas das dunas do sul da Arábia até o Mediterrâneo, no século IV a.C., respeitando os mandamentos expostos ao profeta bíblico Jeremias (35:7): “Não edificareis casa, não fareis sementeiras, não plantareis nem possuireis vinha alguma; mas habitareis em tendas todos os vossos dias, para que vivais muitos dias sobre a terra, em que viveis peregrinando”.

Não passavam de 10 mil, os nabateus; porém, “superavam em riqueza a outros árabes”, conta Diodorus Siculus, historiador da era do imperador Augusto. Descendiam de Nabayot, filho maior de Ismael e neto de Abraão. Em Petra (do grego petros, pedra), ou Batra (pedra, em árabe), encontraram água, ainda na fonte que o patriarca Moisés fez brotar de um pedregulho, ao cruzar o deserto conduzindo os judeus da escravidão no Egito à liberdade em Canaã, a Terra Prometida.nabateus

Labirinto de penhascos estratégico na rota das caravanas de especiarias (ouro, prata, mirra, púrpura fenícia, madeira e seda) que unia a Síria ao Mar Vermelho, e a Índia ao Oriente Médio, Petra tinha também a vantagem de ser uma fortaleza natural imbatível, blindada contra invasores. Com água e segurança, os nabateus foram abandonando a vida nômade. Fundaram um império: no século 1 a.C., sob o reinado de Aretas III, a Arábia Pétrea já se estendia de Damasco à Salah, na Arábia Saudita, com 30 mil habitantes.

Petra ficou conhecida como “Rainha do Deserto”, um reino que abrange a fortaleza de Massada, onde 967 judeus preferiram o suicídio à rendição aos romanos em 70 a.C., e as grutas de Qumram, local em que os essênios guardavam os recentemente descobertos Pergaminhos do Mar Morto – duas maravilhas no mesmo cenário lunar do deserto bíblico de Edom. A cidade teve poder, glória e independência até o ano 106, quando o Império Romano a anexou, sob o governo de Trajano (98 a 117). Posta de fora da rota das caravanas dos “navios do deserto”, os camelos, caiu no esquecimento. Um longo esquecimento.

2013-06-22 08.37.52Do esplendor de Petra restam hoje um trecho de rua pavimentada, uma porta monumental, um teatro romano para quatro mil pessoas, uma colunata, um mercado e mais de 750 tumbas, incluindo a de al-Deir, a melhor conservada, talvez a do último rei nabateu, Rabel II, com 45 metros de largura por 42 de altura. A cor dominante tem matizes vermelhos, marrom, amarelo e violeta. As pedras parecem estar pegando fogo com o passado. A rocha dentro dos mausoléus, formatada pela erosão da água e do vento, mostra os efeitos de um caleidoscópio.

“Quem me conduzirá à cidade fortificada? Quem me guiará até Edom?” (Salmos 60:9)

2013-06-22 09.03.21

A estrada para Petra, a 70 quilômetros ao Sul do Mar Morto, vai serpenteando um árido planalto até descer a um pequeno vale. De repente, numa curva da “siq”, uma estreita garganta de um quilômetro que se aprofunda até a 100 metros, surgem, magníficas, talhadas na rocha, as colunas de Khazneh Firaoun — o Tesouro do Faraó. Os beduínos ainda hoje as fazem de tiro ao alvo, já muito perfuradas, pretendendo que o ouro que contenham escorra pelos buracos, segundo uma lenda. Mas enquanto esperam, alugam camelos ou charretes para os turistas que não conseguem caminhar de volta a pé, sob sol abrasador. Uma branca mesquita marca o local em que foi enterrado Aaron, o irmão de Moisés.

Só uma pequena parte de Petra emergiu em décadas de escavações. Não há pressa. Arqueólogos querem antes conter a erosão que ameaça monumentos desenterrados. Um plano implicaria no restauro do sistema de canais de irrigação dos nabateus, visíveis pelo caminho até o Tesouro do Faraó. Aproveitando até a última gota de água, acumulada em reservatórios, eles plantavam jardins e alimentavam fontes. A paisagem era diferente, e a terra, melhor, não essa aridez atual. Florescia mesmo um bosque de carvalhos. Uma igreja bizantina com mosaicos do século V brotou ultimamente em pesquisas de um grupo americano. Também foi exumada uma mulher com 180 moedas, provavelmente soterrada durante um terremoto no ano de 363.

2013-06-22 08.53.50Amonitas, amorreus, moabitas e edomitas também deixaram rastro bíblico nos reinos de Edom, Gilead e Moab, a moderna Jordânia, conquistada pelos egípcios, assírios, babilônios, persas e romanos. Os árabes só chegariam entre 633 e 636, com o islamismo. Cristãos cruzados assumiram o poder na Idade Média. Otomanos governaram de 1517 até 1918, o fim da primeira guerra mundial. Os ingleses mandatários designaram as terras a oeste do rio Jordão como Palestina, e à leste, Transjordânia, então entregues à administração do príncipe Abdullah ibn Hussein, filho do governante hashemita de Meca e irmão de Faiçal, destronado da Síria pela França. Ele se coroou rei ao proclamar a independência em 1946 — e foi assassinado em 1951, em Jerusalém. Em dois anos, outro estado independente se formaria ao lado da Jordânia: Israel.

Petra renasceu em 1812, redescoberta pelo suíço Johann Ludwig Burckhardt (1784-1817), que aprendeu árabe, treinou longas caminhadas e se disfarçou de sheik, sob o pseudônimo de Ibrahim Ben Abdalla, desconfiado de que não iria fundo no deserto se parecesse viajante ocidental. Levava uma cabra para sacrificar na tumba de Aaron. Um dia, ele dobrou a curva da “siq”, e ali estava Petra. Seguiram-se outros viajantes. E novas expedições científicas.

2013-06-22 09.57.27Hoje os turistas desembarcam em Aman, a 262 quilômetros ao Norte, a ex-Rabbath-Ammon bíblica e ex-Philadelphia greco-romano, “cidade branca” de um milhão de habitantes com as ruínas do templo de Hércules, a capital do reino hashemita, onde a família Hussein bin Talal reina há mais de 50 anos. Visitam Jerash, a “Pompeia do Oriente”, a mais bem preservada das dez cidades romanas do século I a.C. que formam uma confederação, Decápolis, povoada desde a Idade do Bronze, há 5 mil anos. Das ruínas de Umm Qais, a antiga Gadara, avistam-se todo o vale do rio Jordão, o Mar da Galileia e as colinas do Golã, com os picos nevados do Monte Hermon. O mapa da Palestina e da Terra Santa no século VI é “a” preciosidade da “Cidade dos Mosaicos”, Madaba, ao lado do Monte Nebo, onde o profeta Moisés teria morrido e sido enterrado.

Petra foi para a tela de cinema com “Indiana Jones e a Última Cruzada”; foi transformada em miragem por Hollywood. É um pedregulho que foi sendo esculpido pelos nabateus e pelo tempo. Nas ruas de areia e pedra, há muitas pedras para escalar ou soltas pelo meio do caminho.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra.

(Carlos Drummond de Andrade)

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O mundo se lembra de Lawrence da Arábia libertando árabes, montado num camelo. Lawrence Thomas Edward da Arábia morreu montado numa motocicleta, em Dorset, na Inglaterra, em maio de 1935.

Os dois eram um só: o aventureiro britânico, militar e escritor, que nasceu em 1888, ano da Lei Áurea no Brasil, e que em 1910, com 22 anos, já havia se formado pela Universidade de Oxford e estava embarcando numa expedição arqueológica do Museu Britânico à cidade hitita de Carchemish, hoje Karkamis, na Turquia. Que aprendeu árabe no deserto do Sinai. Que trabalhou para o Serviço de Inteligência Militar da Inglaterra no Cairo ao eclodir a primeira Guerra Mundial, em 1914. Que foi enviado para o Hejaz, a moderna Arábia Saudita, com um grupo de socorro ao príncipe Faiçal, que se tornaria rei do Iraque.

Lawrence lutou entre os árabes na rebelião contra o governo turco. Era um conselheiro militar. Unificou as forças armadas árabes para conduzi-las à vitória contra os turcos. Em 1918, com Faiçal, entrou em triunfo em Damasco, à frente do exército britânico. Foi participar da Conferência de Paz de Paris, em 1919, mas voltou sem a independência. De 1921 a 22 ficou na divisão de Oriente Médio do governo inglês, em Londres. Mas por pouco tempo, porque decidiu renunciar para se alistar na Royal Air Force, sob o pseudônimo de J. H. Ross. Não queria aparecer, porque já era muito popular. Em 1923, ele passou para a divisão blindada. Em 1925, retornou à força aérea de “Her Majesty” por dez anos.

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No último dia do décimo ano, em 1935, Lawrence foi dar uma volta sem sua motocicleta em Dorset. Apareceram dois ciclistas à frente. Desviou, mas a manobra o derrubou e ele bateu com o crânio no chão. Seis dias depois, sem ter recobrado a consciência, foi enterrado. O neurologista que cuidou dele começou então uma campanha para que todos os motociclistas passassem a usar capacetes.

Lawrence deixou uma obra escrita. Um dos livros, Sete Pilares da Sabedoria, de 1926, é uma coletânea de suas aventuras no mundo árabe. Outro é uma condensação, Revolta no Deserto, lançado um ano depois. Como personagem de filme, deu a sir David Lean, diretor de cinema inglês, um segundo Oscar em Hollywood.

Hong Kong 8888

Skyline em Victoria Harbour

Skyline em Victoria Harbour

Ao final de quatro dias passados em cenários cinematográficos de assassínios, sequestros, atentados terroristas, tráfico de drogas, prostituição, espionagem, tiroteios e guerra de gangues, o repórter encontrou sobre sua cama no Hotel Langhman um bilhetinho: “Responda, por favor: o que mais o impressionou em Hong Kong?”

O repórter respondeu, sem titubear: A SEGURANÇA!!

Ilha poderosa, como Manhattan; financeira, como Wall Street; turística, como Paris; lotada, como a 25 de Março em São Paulo; com chiques e famosos sem guarda costas nas ruas; Rolls-Royces no trânsito; um vasto Porto Cheiroso (a tradução de Hong Kong); mas… nenhum trombadinha. Nenhum!

  Crime, em Hong Kong, é ficção. Só nas telas de cinema. Victoria Harbour, a vista mais espetacular da cidade banhada a néon, foi o cenário de 007 Contra o Homem com a Pistola de Ouro, com grande elenco dizimado por James Bond. No SoHo estão os pontos de traficantes do filme Chungking Express. Do arranha-céu mais alto da cidade e 5º do mundo, Lara Croft salta para Caçadores de Tumbas II. Sequestros e atentados começam já no aeroporto Chek Lap Kok em Hora do Rush II. A prostituição se espalha em O Mundo de Suzie Wong e Adeus Minha Concubina, do cineasta Leslie Cheung, que se atirou do 24º andar do Mandarin Oriental Hotel. O endereço de tiroteios e gangues é a Pottinger Street, escolhida para Infernal Affairs – Infiltrados. E o encontro do Ocidente com o Oriente ficou há 54 anos marcado pela lacrimosa história de amor entre um jornalista americano e uma médica chinesa, A Love Is A Many Splendored Thing, ou Suplício de uma Saudade, filmado em Repulse Bay.

  Não é por acaso que muito turista desbrava a ilha com a sensação de que já viu o filme. Hong Kong é cinematográfica. Uma de suas novas atrações, a Avenida das Estrelas, em Tsimshatsui, celebra os 20 mais famosos do cinema chinês, como Jackie Chan e Bruce Lee, numa réplica de 440 metros do Calçadão da Fama, em Hollywood. Legiões de chineses do continente invadem a cena diariamente: são uma cultura milenar se deslumbrando com o mundo livre e altamente tecnológico em seu próprio outro país. O encontro do comunismo com o capitalismo; do aroma de incenso e da flor nacional, a bauhínia, a origem do nome Porto Cheiroso, com a multidão de celular no ouvido ou no olho, sob o fog que persiste apesar do fim do mandato britânico de 99 anos.

  Os ingleses partiram em 1º de julho de 1997. Conquistaram Hong Kong, com outras 235 ilhas, em duas Guerras do Ópio (1839-42 e 1856-60) impostas aos chineses, e a devolveram sob condição de que, por 50 anos, até 2047, ela será administrada pela China sob a fórmula “um só país, dois sistemas” – uma ilha de economia de mercado num oceano comunista, refletindo a ambiguidade do Yin e do Yang. Hambúrgueres e carrões são vendidos na China continental, mas o jornal New York Times, não – só em Hong Kong.

  Foi mesmo o que previram os hong-kongoneses – ou hong-kongers, em inglês: os negócios precedem a política. Tanto que o debate político desde a reintegração se limitou a questões tipo galinhas e poluição. Um anticlímax para o resto do mundo, que temia um assalto imediato à liberdade individual. Na Região Administrativa Especial da China, agora o prenome oficial de Hong Kong (SAR, na sigla oficial), os jornais estão sob censura invisível, mas a internet é livre, ainda, e as livrarias vendem até mesmo livros anunciando que está chegando o colapso da China, como The Coming Collapse of China, de Gordon Chang.

Chão de estrelas

Chão de estrelas

HK ou LA?

HK ou LA?

  AS ESTRELAS no Calçadão da Fama são ofuscadas pelo hotel das mil e uma estrelas, The Peninsula, por duas vezes “o melhor do mundo” dos guias Zagat, Travel & Leisure e Condé Nast Traveler. Alguns jornalistas brasileiros, convidados pelo grupo The Leading Hotels of the World, foram recebidos com champanhe na suíte de US$ 5.065 a noite, recentemente ocupada por Tom Cruise.

Avista-se Hong Kong brilhando dourada até da suntuosa banheira. Do balcão, por telescópio. Ou do quarto, deitado na cama. O prédio do Banco da China sobe ao céu com uma série de triângulos que culminam num prisma, mudando inteiramente de cor a cada momento. Toda noite, de 8h às 8h18, 18 dos prédios espetaculares no horizonte exibem A Symphony of Lights, com explosões de roxo, verde, vermelho e amarelo, flashes brancos e fogos de artifício (o chinês gosta tanto do 8, soando como a palavra “prosperidade”, que marcaram suas Olimpíadas para 8/8/2008, com início as 8h). Tradicionais sampans e balsas zarpam com turistas para um espetáculo a mais, as luzes do skyline efervescente refletidas nas águas do Victoria Harbour. Liga-se do celular para um número, e ouve-se a sinfonia que as acompanha. Rádios e um portal na internet também a transmitem.

  O chá das 5h no lobby do Peninsula é lendário. A sopa de barbatana de tubarão, no restaurante Spring Moon, alguns andares acima, um requinte. Mas há um programa duvidoso no exuberante bar Félix, no topo do hotel: fazer xixi sobre Hong Kong. Foi ideia do arquiteto Philippe Starck. É a impressão que dá aos homens sem vertigem mirando telhados, ruas e pedestres lá embaixo, embora um vidro sirva de escudo quase invisível e um canalete leve o rio de emoções para o esgoto. As mulheres fazem fila para entrar nos intervalos em que o banheiro fica vazio. Mas não podem “curtir” o programa. Só imaginá-lo.

  Todos os pontos de vista são cartões-postais em Hong Kong. Mas qual o mais arrebatador? Eis a questão! Hors-concours é a travessia de balsa entre a ilha de Hong Kong e a península de Kowloon. “Espetacular”, “soberbo” – ouve-se a bordo. O preço é incrivelmente ridículo, como em todo transporte público local: 2,20 dólares hong-kongoneses, menos de R$ 1, para um lugar na primeira classe no segundo andar do Star Ferry, que zarpa a cada 10 minutos, entre 6h30 e 23h30.

A visão do alto dos 373 metros do Victoria Peak, no meio da ilha, também é fantástica. Sobe-se em sete minutos num bondinho existente desde 1888, por R$ 10,30. Lá em cima, uma atração extra: um rickshaw para fotos. Mas, atenção: o chinês sorridente sentado ao lado cobra cada clique. E dá uma quádrupla resposta para tudo e todos, em inglês, levantando e baixando a cabeça: “ok, ok, ok, ok”. A deslumbrante arquitetura dos prédios desponta de qualquer ângulo. Vendedores de relógios e souvenires montam bancas pelas passagens estratégicas. Você os encontrará em todos os pontos turísticos.

O show das 8h

O show das 8h

YES, YES, YES, YES: Hong Kong vai ter uma Disneylândia a partir de 12 de setembro. Mickey, Pato Donald, Pluto, Margarida e Minie, personagens geralmente encontrados no prato dos chineses, serão mais um teste à ocidentalização da China. Por prudência, o Reino Mágico se submeteu à mágica chinesa do feng shui para atrair harmonia e boa sorte. É famoso e muito fotografado o exemplo de um grande prédio levantado perto de Stanley, um subúrbio ao sul de Hong Kong, que só vendeu todos seus apartamentos depois de reformado segundo o feng (vento) shui (água). Elementar: o construtor tinha esquecido de abrir uma passagem para o dragão. Aquele enorme buraco no meio do prédio resolveu todo problema.

A Disney ainda promete cardápio chinês na sua versão para Hong Kong. Os chineses comem tudo que tenha pernas, exceto móveis. Tudo que nada, menos submarino. E tudo que voa e não seja um avião. Se tem caloria, engolem. Os turistas que não comem nada cortado acima do pescoço e abaixo da cintura se deliciam com “o toque do coração”, ou dim sum. São bolinhos de carne, peixe ou vegetais, refogados ou cozidos no vapor, servidos no café da manhã, almoço, jantar, ceia, brunch e na hora do chá. O jornalista R. W. Apple Jr., do New York Times, encontrou o nirvana do dim sum em Hong Kong. Uma porção de bolinho de ninho de passarinho, rara iguaria, sai por R$ 24. Os populares podem ser comprados na rua e em fast foods. Entre os mais de 10 mil restaurantes da cidade, vale a pena visitar o Jumbo, “o maior flutuante do mundo”, em Aberdeen. Aqui você escolhe o peixe, o camarão e a lagosta vivos em tanques, depois os recebe prontos à mesa. Será que os chineses precisam mesmo de uma Disneylândia?

Hong Kong também é o nirvana do consumo. A última máquina fotográfica digital a US$ 399 no free shop de Guarulhos sai por US$ 299 nas lojas da Nathan Road, antes de qualquer barganha. Há shoppings só de computadores, gadgets, filmadoras, celulares e MP3. As peças com invisíveis defeitos de grifes multinacionais são desovadas por ninharia em bancas montadas nos túneis do metrô. Ternos sob medida ficam prontos em 12 horas. Há mercados só para seda, jade, artesanato, relógios, souvenires e pássaros… O preferido dos turistas é o de Stanley. Algumas lojas fecham às 23 horas.

Hong Kong recende a religião, incenso e superstição. São mais de 600 templos budistas, taoistas e confucionistas – oásis fora do tempo e da agitação dos 6,8 milhões habitantes e mais cerca de 1,5 milhão de turistas/mês. Entra-se no mosteiro Chi Lin, cercado de prédios e trânsito, e todo o burburinho cessa de repente. O lago de lótus em flor, fontes de água, jardins meticulosamente cuidados, monges meditando — e chega-se naturalmente à saída, onde um presente espera o visitante: um mantra gravado. No templo Sik Sik Yuen Wong Tai Sin, ao contrário, reina o fervor das oferendas, o balançar de varetas para prever o futuro e a espessa névoa de incenso diante do altar de Confúcio. Fica-se defumado para o resto do dia. À beira do mar, pela ilha afora, surgem minitemplos.

OS NÚMEROS são a obsessão dos chineses. O celular 133 3333 3333 foi leiloado, recentemente, por US$ 215 mil. O seu comprador não o atendeu quando chamado por jornalistas que queriam entrevistá-lo. É que o 3 dá sorte, embora também represente conflito. O 2, azar, mas pronuncia-se como a palavra “fácil”. O 4, amor, sexo, conhecimento, e também, principalmente, soa como morte. Então, fuja do 24, que forma “morte fácil”. 5: desgraça. 6: dinheiro. 7: comunicação, espiritualidade. 8: prosperidade (a combinação 28 é ótima, “dinheiro fácil”. 9: sucesso no futuro. O 1 não tem um significado específico. Em 174, por exemplo, forma um tsunami: “todos morrendo juntos”. No feng shui os números valem cada um por si, enquanto na numerologia eles são somados e reduzidos a um dígito. Uma distração chinesa é ficar interpretando as placas de carros e os números de casas e edifícios pela ilha. Todos evitam o 4. A Disney até adiou sua estreia na China, marcada originalmente para 2004, porque antecipou que “não seria um ano bom”.

O repórter voltou bastante influenciado pelos números de Hong Kong. E é por isso que ele está esperando dar 18h18 para colocar o ponto final nesta sua reportagem, que tem 18 parágrafos e vai completar o total de 8.888 caracteres, sem contar os espaços, exatamente neste ponto final, bem aqui.

Ah, Jerusalém!

Foto: Jerusalem.com

Foto: Jerusalem.com

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As pedras da fundação do mundo brilham douradas sob o sol, e prateadas ao luar. Dão cor e identidade a Jerusalém. Testemunharam a criação do primeiro homem, a morte e a ressurreição de Jesus, a vida de cidadãos ilustres como Abraão, Isaac e David, e a cavalgada de Maomé aos céus. Ê o que contam a Bíblia, o Talmude e o Alcorão, os guias oficiais da Terra Santa.

Pedras três vezes consagradas. Os judeus as veneram no Muro das Lamentações. Os muçulmanos cultuam o rochedo rachado pelo impulso da ascensão de Maomé, na Mesquita de Omar. E os católicos as seguem pela Via Dolorosa. Na paisagem bíblica, surgem empilhadas, equilibradas, formando cercas. Os arqueólogos as reviram. Judeus ortodoxos e palestinos as atiram, como armas. Turistas as visitam. São muralhas, minaretes, sinagogas, igrejas e mesquitas.
Pedras de calcário dolomita que reergueram 25 jerusaléns destruídas em 25 séculos de guerras entre judeus, gregos, romanos, cristãos e muçulmanos. Pedras da discórdia ainda hoje. Yerushalaim, em hebraico, É a “Cidade da Paz” – e tanto ódio provoca! Em árabe, Al Kuds, “A Santa” – e sempre tão cruel. A Bíblia (Zacarias, 8:3) chama Jerusalém de a “Cidade da Verdade” – ela que está minada por contradições Étnicas e religiosas. Cidade do “Verbo” – não do diálogo. Cidade dos Espelhos” do escritor israelense Amos Elon – “espelhos que são metáforas que a verdade de cada religião atribui a cidade que reflete seu passado e seu presente”.

Dez medidas de beleza foram
  conferidas ao mundo; nove
  foram tomadas por Jerusalém,
  e uma pelo resto do mundo.
  (Talmude)

A alma de Jerusalém está cercada por 4,5 quilômetros de muralhas reconstruídas em 1537 pelo sultão Suleiman, o Magnífico, no traçado romano original do século II. Pode-se dar a volta por cima delas em quatro horas. Dentro, apenas um quilômetro quadrado. Ê o bastante para conter séculos de história das três grandes religiões monoteístas. O judaísmo imperou de 1003 a.C. até o ano 70 d.C., e depois se intercalaram o cristianismo (de 300 a 638 e de 1099 a 1187) e o islamismo (de 638 a 1099 e de 1187 a 1917). Hoje convivem Alá, Jeová e Jesus. E o ar “É saturado com orações e sonhos” como o ar poluído sobre as cidades industriais. “Difícil respirar” – comenta o poeta israelense Yehuda Amichai.
A alma de Jerusalém tem oito portas. As quatro principais se abrem como uma rosa-dos-ventos. A imponente Porta de Jafa era a saída para o porto, à Oeste. Ê a mais movimentada. A Porta de Damasco abre-se para a cidade de à e para a Síria, ao Norte. Por ela entra-se no bairro muçulmano. A Porta dos Leões aponta para o Leste, para Jericó. E a Porta de Sião está na direção de Hebron, ao Sul. Uma porta ainda se tornará a mais importante do mundo, se nela for mesmo bater o Messias tão esperado pelos judeus. Os árabes a fecharam há séculos para impedir a visita. Chama-se Porta Dourada, ou “Porta da Compaixão”. A Porta Nova foi furada em 1887 para dar acesso direto ao bairro cristão. Por uma “porta de serviço”, a Porta do Esterco, penetra-se no monte Moriah, que muitos consideram o local mais carregado de energia espiritual do planeta.

Aqui, segundo o Gêneses, Deus criou o primeiro homem. E Abraão sacrificaria o filho Isaac, não fosse a intervenção de um anjo. Ainda aqui o rei Salomão construiu o Templo de um império que se estendia do Eufrates ao Egito, em 1043 a.C., e do qual resta só a muralha ocidental, conhecida como Muro das Lamentações. As frestas entre as pedras adoradas estão cimentadas de papeizinhos com pedidos de fiéis. Também já É possível enviar por fax uma mensagem para Deus, graças a um novo serviço inaugurado pela companhia de telecomunicações israelense. A ligação para Deus, em Jerusalém, “É local”. A mesquita dourada de Omar, com o rochedo de Maomé, e a de Al Aksa, que marcou a visita histórica do presidente egípcio Anuar Sadat a Israel, estão praticamente por cima do muro. Não apenas uma cidade dentro da outra, mas uma sobre as outras, como mostram as escavações ali ao lado, na cidadela de David. Os muçulmanos deram o terceiro lugar religioso do Islão para Al Kuds, “A Santa”, depois de Meca e Medina, na Arábia Saudita. Atrás do monte Moriah, logo À esquerda, está o Santo Sepulcro, repartido entre seis diferentes seitas cristãs. A soma das três religiões, num espaço tão pequeno, cria uma espiritualidade quase palpável.
Judeus de quipás balançam-se fervorosamente diante do Muro, muçulmanos de kafias e descalços curvam-se na direção de Meca, e cristãos tocam a terra que enterrou Jesus, ao som do chofar, do canto do muezim nas minaretes e dos sinos no Santo Sepulcro, num cenário de Velho Testamento. Ver Jerusalém, e enlouquecer: muitos peregrinos acabam internados como mais um João Batista, outro Messias. Em cinco dias ganham alta, e voltam À realidade.

Se eu me esquecer de ti, oh Jerusalém,
  esqueça-se a minha dextra da sua destreza.
  Apegue-se a minha língua ao paladar,
  se não me lembrar de ti,
  se não preferir Jerusalém à minha maior alegria.
  (Salmos)

Nem todas as pessoas passeiam nas ruas da Cidade Velha de Jerusalém dialogando com Deus, como diz o escritor Amos Elon. Há muitas que se concentram no shekel, a moeda dos tempos bíblicos que circula ainda hoje em Israel. O shuk, o mercado árabe, vive engarrafado de gente. A multidão é um caleidoscópio. Passam rabinos com seus grandes chapéus e trancinhas, os árabes de kafia e gelabiah, turistas com mochilas e filmadoras, franciscanos, coptas, drusos e armênios, e soldados com metralhadoras. Os mercadores ficam À porta de suas lojas convidando quem passe pelas ruelas para um negócio, que às vezes acaba numa disputada barganha. Vendem tapetes feitos à mão, vestidos beduínos, bijuterias, jogos de café típicos, caixinhas de madrepérola e bugigangas. Alguns sentam-se em tamboretes, contemplativos, chupando o narguilé, a máquina de fumar, e permanecem assim durante horas.

E folgarei em Jerusalém,
  e exultarei no meu povo;
  e nunca mais se ouvirá nela 
                                       voz de choro nem voz de clamor                                 .   
Reconstrução da antiga Jerusalem. (Foto:  commons.wikimedia.org)

Reconstrução da antiga Jerusalem. (Foto:
commons.wikimedia.org)

  E edificarão casas, e as habitarão;
  e plantarão vinhas
  e comerão o seu fruto.    
  (Isaías)

Fora das muralhas, Jerusalém espalha-se pelos montes Herzl, Scopus e das Oliveiras. Uma cidade contrastante, moderna, construída com a mesma pedra dourada. O antigo e o novo foram reunificados com a Guerra dos Seis Dias, em 1967, depois de 20 anos divididos por uma linha de cessar-fogo com a Jordânia, estabelecida pelas Nações Unidas. O Muro das Lamentações e o museu dos mártires do holocausto nazista, Yad Vashem, marcos do judaísmo, integraram-se na capital contestada de Israel. Os palestinos querem Al Kuds, a Cidade Velha, como a capital de uma futura Palestina. O Vaticano propõe torna-la um patrimônio sagrado comum às três grandes religiões monoteístas. E os judeus de todo o mundo repetem nas festas de Pessach, a Páscoa, que coincide com a primavera: “No ano que vem em Yerushalaim”. A unificação tornou-se lei constitucional, aprovada pela Knesset, o Parlamento, em 30 de julho de 1980. Mas um novo destino para Jerusalém foi selado com o aperto de mãos entre o primeiro-ministro Yitzhak Rabin e o líder da OLP, Yasser Arafat.