A guerrilha sai do vulcão

Erupção guerrilheira

no vulcão de El Salvador

O vulcão "expelia" guerrilheiros

O vulcão “expelia” guerrilheiros

Ao pé de um vulcão adormecido, San Salvador vive em ebulição. Uma cidade aterrorizada. O tiro e a bomba podem ferir a qualquer instante. O ruído de um helicóptero é a possibilidade de um fuzilamento. O guerrilheiro pode ser qualquer um, dissimulado na multidão.

Uma cidade de sonâmbulos. Os combates começam, em geral, às duas da madrugada. E se prolongam até o amanhecer. Os guerrilheiros descem a encosta do vulcão, separam-se, e disparam de vários pontos, com seus fuzis AK-47 e lançadores de granadas. O exército responde com tanques, morteiros e a aviação, que dispara foguetes. Ouvem-se grilos e bombas, ao mesmo tempo. De repente, os guerrilheiros desaparecem. O dia começa. Surgem os ônibus, táxis e pessoas, nas ruas. A guerra continua presente, mas os ruídos das bombas já são distantes.

O pânico coletivo começa ao entardecer, todos os dias, por causa do “toque de queda”, de 18 às 5 horas. Um rapaz pensou que nada lhe aconteceria, se apenas atravessasse uma rua, numa corrida entre a sua casa e a de um primo, e foi baleado pelo exército. Outro entrou em coma, sem atendimento para uma intoxicação. E há vários casos de mulheres que pariram sozinhas, em miseráveis barracos das favelas da periferia.

Todos correm para casa, antes das 6 da tarde, engarrafados numa cidade em que a metade dos faróis de trânsito não funciona por falta de energia – um dos principais alvos das sabotagens dos últimos rounds da guerra de 10 anos e cerca de 72 mil mortos. Ninguém quer ficar na rua, por um defeito no carro, falta de gasolina ou trombada. Buzinam. Xingam. Passam por cima de canteiros. Táxi? Táxi? Nenhum para, depois das 5h30. Os ônibus levam passageiros até nos para-choques dianteiros, quase à  frente do motorista. E nos tetos.

O toque de recolher produziu a “pica” – as pickups, que carregam 35 passageiros por 1 cólon cada um, 60 centavos a mais do que os ônibus (cada dólar vale 6,45 colónes). As salvadorenhas só enrubesceriam se ouvissem alguém passar o nome de seu meio de transporte para o masculino. Ai’ teria o mesmo sentido que em português.

Às 6 da tarde as ruas ficam desertas, misteriosas. Foi durante um toque de recolher que um grupo ainda não identificado matou seis jesuítas, e suas duas empregadas, na Universidade Centro-americana. A situação propicia o retorno dos esquadrões da morte que operaram em El Salvador no início da década, ligados a políticos de extrema-direita. Alguns corpos encontrados pela manhã não são de guerrilheiros nem de soldados mortos em combate. São vítimas de uma outra guerra, acertos de conta. Os grupos que monitoram o respeito aos direitos humanos em El Salvador passaram, praticamente, para a clandestinidade. Estrangeiros fugiram do país, sob ameaça de morte.

As explosões coincidem, muitas vezes, com o início do toque de recolher. Sob seu impacto, San Salvador vibra. Pode ser que antes, durante o dia, fiquem abafadas pelo barulho da cidade. De noite, assustam. Os salvadorenhos as escutam junto ao noticiário diário do governo, que repete um slogan que dá a impressão de que a guerrilha foge em debandada para a Nicarágua. “Estamos derrotando os terroristas. E vamos triunfar”. As rádios também participam do esforço de guerra. Divulgam depoimentos de “terroristas arrependidos”. Oferecem um prêmio à delação: 5 mil colónes, ou cerca de 775 dólares, para quem der a pista de algum líder da Frente Farabundo Marti pela Libertação Nacional (FMLN). Há uma tabela com o valor de cada arma capturada e entregue ao Exército: um fuzil soviético AK-47 está valendo 2 mil colónes (cerca de 310 dólares); um fuzil norte-americano M-16, a metade do preço, ou 1 mil colónes – 155 dólares.

“Mantenha-se alerta”, diz um locutor, “e contribua para que estas armas não sejam utilizadas pelo FMLN contra tua própria família”.

Uma outra propaganda: “Agora, os salvadorenhos já conhecemos os enganos discriminados dos assassinos, terroristas, comunistas da FMLN”.

Fora, as explosões, o perigo. Em casa, a televisão e o rádio travando uma guerra total de propaganda contra a rádio clandestina “Venceremos”, da FMLN, pouco captada em San Salvador.

Há exceções, como contou um relações públicas da empresa aérea Taca: a moda, em fins de semana, são as festinhas conhecidas como de “toque a toque”, sem alternativa que não a de varar a madrugada. Os jovens, então, cantam um “trio”, o “De que manera” – o sucesso atual:

“De que manera te olvido

De que manera yo entiero

este carino maldito

que adiario atormenta mi corazon”.

Um hotel no fogo cruzado

Corpos ficam nas ruas. Ordem da FMLN.

Corpos ficam nas ruas. Ordem da FMLN.

O franco-atirador instalou-se numa árvore perto da piscina do hotel Presidente, na encosta do vulcão San Salvador, por onde surgiram outra vez os guerrilheiros para uma nova ofensiva, agora como uma lava escaldante que penetrou em algumas mansões, incendiou a casa de um diplomata e forçou mais de 300 norte-americanos a procurar abrigo na embaixada ou a deixar o país, em dois aviões fretados.

O franco-atirador disparou seu fuzil soviético AK-47. Logo veio a resposta – uma mistura de morteiros, fuzil americano M-16, disparos de tanques, metralhadoras e pistolas. Um empregado do hotel, como se fosse um daqueles homens que identificam passarinhos pelo pio, ia observando: “Isso agora foi o foguete de um helicóptero”. Cada arma tem seu som distinto, e ele conhece todos.

Às duas da manhã de quarta-feira, o tiroteio se tornou generalizado, em volta do hotel Presidente, com 11 hóspedes alemães e eu, mas lugar para 350. Era o começo da segunda ofensiva em 18 dias, que continuava ontem. A maioria dos repórteres estava noutro hotel, o Camino Real, no centro da cidade — como em Beirute eles se concentravam no Commodore, e no Panamá, no Marriott.

Acaba a luz. Os tiros ficam bem próximos. Os helicópteros rodopiam, tentando iluminar o franco-atirador para dezenas de soldados acertar, com todas as suas armas. Mas ele é apenas uma cilada. Enquanto todos ficam à sua caça, outros guerrilheiros tomam posição em vários outros pontos, nos bairros chiques de San Benito e Escalon, a oeste da capital, e também começam a atirar.

O toque de recolher impede que qualquer repórter ouse ir ao front. Mesmo se pudesse, onde o encontraria? Um dos fronts, neste momento, é a árvore nos fundos do hotel, ao lado de um casarão onde dormem alguns funcionários indispensáveis. É possível visualizar vários rostos assustados numa janela. Depois que passam os helicópteros, e numa pausa do tiroteio, escutam-se os ruídos de uma noite tropical: grilos, corujas, e a brisa nas folhas das árvores. O front aproveita para se mover para outro lugar.

“Está feio hoje, hein?” – comenta o maître do restaurante do hotel, acostumado a outras noites parecidas. Há dois dias que se esperava outra “ofensiva final”, e pode até ser que ela esteja começando por aqui. Os veteranos garantem que é só “mais uma provocação”. Os guerrilheiros descem do vulcão, acordam a cidade, e somem antes de clarear. Mas hoje, não. Já clareia, e os tiros continuam, e persistentes.

As fotos em preto e branco são do álbum da guerrilha

As fotos em preto e branco são do álbum da guerrilha

Um porta-voz da embaixada americana calcula que entre 100 a 200 guerrilheiros penetraram em San Benito e Escalon, durante a madrugada. Alguns invadiram três mansões de ricos salvadorenhos, e as transformaram em ninhos de metralhadora e lançadores de granadas, depois de permitirem que seus moradores fossem embora. Uma casa de um diplomata norte-americano pegou fogo. A rádio rebelde, “Venceremos”, explicou que o objetivo da nova ofensiva é o de manter “um cerco constante à capital, o centro nervoso da nação”. A cadeia de rádios do governo, porém, continuou divulgando a deserção de guerrilheiros, a descoberta de novos arsenais, o estouro de vários aparelhos, e o slogan criado depois da primeira ofensiva, em 11 de novembro, que foi concentrada nos bairros pobres da periferia de San Salvador: “Estamos derrotando os terroristas. E vamos triunfar”. Uma fonte militar caracterizou o novo ataque como “um ato de desespero” para forcar o governo do presidente Alfredo Cristiani a reabrir as negociações de paz. (Quando o entrevistei, ele trancou a chave o seu gabinete, “por precaução).

Qualquer pequeno ruído, numa situação assim, fica maior, e tem muita importância. Um “traque” que o identificador de sons de guerra garantiu ser o barulho de alguém armando o gatilho de uma arma não identificada, ali mo breu, provocou a aparição de dois soldados tipo Rambo, fitinhas na cabeça, e com vontade de dar uns tiros.

“Onde, onde?” — eles perguntam. Cada um vai para um lado, e daqui a pouco se ouve um ra-ta-tá.

“M-16” — pontifica o conhecedor.

Tiros em vão, sem alvo e sem resposta. O franco-atirador, depois de criar o caos no hotel, e em toda a região vizinha, fugiu por um muro, e pode ter subido a encosta, na direção da cratera do vulcão. Os focos dos tiros, agora, estão por toda a parte, na região oeste da cidade. O impacto das bombas faz o chão tremer. Nestes momentos, todos temem uma bala perdida, ricocheteada.

Já clareia, e o tiroteio continua. Toca o telefone no hotel Presidente, e um homem que se identifica como porta-voz da Frente Farabundo Marti pela Libertação Nacional diz à telefonista:

“Vamos disparar com a artilharia. Evacuem todos os hóspedes. Aqui é a FMLN”.

A telefonista, apavorada, responde: “Un momentito, señor”. E chama todos que estão no lobby: “Ouçam, ouçam”. O guerrilheiro desliga. A gerente do hotel olha feio para a funcionária que alimentou o pânico entre os hóspedes. Um oficial do exército dá uma ordem:

“Ninguém se retira. Os terroristas não têm artilharia”.

Os guerrilheiros são forçados a subir a encosta do vulcão, com a barreira de fogo criada pelos soldados e helicópteros. Numa rua abaixo do hotel Presidente três corpos de guerrilheiros são arrumados lado a lado por um grupo de soldados. Mais acima, o corpo de uma mulher, acertada por uma bala do fogo cruzado. O cálculo é o de que cerca de 2 mil pessoas tenham morrido desde 11 de novembro, quando começou a fase mais violenta da guerra de 10 anos e 70 mil mortos. Mas a trégua, que traz de volta uma aparência de normalidade à San Salvador, deve durar apenas algumas horas. Logo vai começar o toque de recolher, e as ruas voltarão a ser uma zona de guerra.

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