Shalom, Sharon

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Ariel Sharon:  1928 – 2014

 

Ariel Sharon e Shimon Peres:

ambos sofreram derrame cerebral

e morreram no mesmo hospital,

Sheba, com a diferença de 2 anos.

 Sharon passou 8 anos em coma.

 

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Shimon Peres: 1923 – 2016

“Aharai, aharai!” – era o grito de guerra do jovem capitão Ariel Sharon. “Sigam-me, sigam-me!”, gritava, e partia à frente das mais audaciosas e inesperadas batalhas da história militar israelense. Os soldados iam atrás. Iriam onde quer que fosse, avançando sob fogo cerrado. Só recuariam se perdessem dois terços das tropas.

Se hoje o general Sharon gritasse aharai, Israel ainda o seguiria. Mas ele sofreu um maciço ataque de um inimigo invencível, o próprio corpo de 77 anos, gordo, frágil, comandado por nervos de aço. Sem ele, seu país não será mais o mesmo.

Foi na sua Unidade 101, base lendária do moderno Exército israelense, que Sharon teve seu primeiro encontro com a morte. Era a Guerra da Independência, 1948, e sua brigada lutava para conquistar o convento de Latrun, entre Jerusalém e Tel-Aviv. Uma bala jordaniana perfurou-lhe o estômago. Um soldado o carregou para a vida. Até recentemente os dois se encontravam, amigos. Ordens do capitão Arik (leão em hebraico, o seu apelido): não deixar nenhum ferido em campo de batalha, mesmo à custa de mais feridos, ou mortos.

Arik também viveu a morte em família. Margalit, a primeira mulher, morreu num acidente de carro. A irmã dela, Lily, com quem ele se casou depois, morreria de câncer, deixando-o inconsolado. E Gur, um dos filhos, morreu aos 10 anos mexendo numa das armas antigas do pai.

Aharai, aharai (pronuncia-se arrarai) – e a tropa o seguia. Nascido Ariel Scheinermann em 1928, e criado em Kfar Malal, na Palestina sob mandato britânico, aos 14 anos ele já carregava armas, operando em organizações paramilitares clandestinas que defendiam os colonos judeus. Tinha a fama de rebelde, não cumpria ordens, e geralmente as excedia. Excesso: esta sempre foi a marca de Sharon. Para ele, não era “olho por olho”, e sim “dois olhos por um olho”.Talvez por isso também o chamavam de Trator, Elefante e Rei de Israel. Nada o brecava. Uma vez, em 1956, ele levou seus paraquedistas a saltar atrás das linhas egípcias, no passo de Mitla, no Deserto do Sinai, para um furioso ataque em que perdeu dezenas de soldados. Outra vez, penetrou com um comando em território jordaniano para vingar o assassinato de uma israelense e seus dois filhos por terroristas – a Operação Kibia. Uma tragédia: 42 casas de pedra foram dinamitadas, matando seus ocupantes, ao todo 69 pessoas, entre elas muitas crianças.113553

Aquele capitão era tão rebelde que o general Ezer Weizman, pai da Força Aérea israelense, escreveu em suas memórias: “Na guerra, eu o seguirei no meio do fogo e da tormenta, mas a vida política tem valores diferentes.” Tão rebelde que o fundador de Israel, David Ben Gurion, perguntou-lhe: “Arik, você já parou de mentir?” Tão rebelde, que o primeiro-ministro Menachem Beguin, em seu primeiro governo, lhe recusava a promoção a ministro da Defesa, justificando-se: “Sharon é capaz de cercar com tanques o prédio do governo.”

Mas Sharon se tornou ministro da Defesa de Beguin por um único motivo: só ele, então o “rei da colonização” na Cisjordânia e Gaza, ocupados por Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967, seria capaz de retirar os colonos fixados em Yamit, no Sinai devolvido ao Egito em troca do primeiro acordo de paz com um vizinho árabe. Assim como só ele, outra vez, conseguiu retirar, em setembro de 2005, os colonos de Gaza. Ambos os lados o respeitavam e o temiam.

Aharai! A rebeldia de Sharon deu-lhe a completa confiança de seus soldados. Ele os comandou na contraofensiva da guerra de 1973, lançada pelo Egito quando os israelenses se recolhiam ao seu dia religioso mais trágico, o Yom Kippur, o Dia do Perdão. Cumpria sua própria agenda, e não ordens superiores. De repente, lá estava ele, no outro lado do Canal de Suez, cercando todo o 3º Exército egípcio. Negou-lhe água e comida, estrangulando-o enquanto o mundo inteiro protestava. Mas o mundo nunca lhe importou. O mundo, ele dizia, nada fez enquanto Israel era atacado de surpresa, por todos os lados, e sua população estava jejuando e rezando nas sinagogas.

“Quem não é meu amigo, é meu inimigo” – ele não fazia concessões. Ao estourar a guerra no Líbano, em 1982, a marca do excesso de Sharon brilhou. O porta-voz militar israelense deixou de falar com os jornalistas locais ou estrangeiros. Os ministros do núcleo duro do governo Beguin se diziam por fora do que acontecia, desinformados, não consultados. Prevista para chegar só até a 45 km da fronteira Norte de Israel, a invasão do Líbano excedeu, entrando em Beirute e envolvendo a Síria. Sharon perseguiu seu arqui-inimigo Yasser Arafat casa a casa, pulverizando edifícios em que ele passava a noite, até expulsá-lo para a Argélia. E, 20 anos depois, ironia do destino, o primeiro-ministro Sharon e o presidente da Autoridade Palestina, Arafat, se reencontraram para transformar a Cisjordânia numa nova Beirute.

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Beguin e Sharon queriam impor uma nova ordem no Líbano. Com tanques e soldados, elegeram o cristão maronita Bashir Gemayel, soterrado em seu QG por uma poderosa bomba às vésperas da posse. As forças cristãs tomaram as ruas para uma vingança, quando Israel era senhor absoluto em Beirute. As milícias falangistas cristãs penetraram nos campos palestinos de Sabra e Chatila e perpetraram um massacre, matando cerca de 800 homens, mulheres e crianças em três dias. Uma comissão de inquérito israelense responsabilizou Sharon “indiretamente” por nada ter feito para impedir ou interromper o massacre. E ele caiu do Ministério da Defesa.

Eu vivi um dos excessos de Sharon. Estava em Beirute quando o cessar-fogo foi obtido pelo diplomata americano Philip Habib, no verão de 1984. Os sinos das igrejas repicavam. Tiros eram disparados para o ar por libaneses eufóricos. Mas… o que vinham fazer naquele momento os aviões israelenses sobre Beirute? Eles cruzaram 220 vezes os céus da cidade. Despejaram 44 mil bombas. O presidente Ronald Reagan chamou Beguin ao telefone e transformou a saudação israelense, shalom (paz), numa ordem.

Esse era Sharon. O general Moshe Dayan só não o levou certa vez à Corte Marcial porque não ficaria bem julgar um oficial por ter feito mais do que o mandado. Normalmente, julgam-se militares que nada fizeram, acovardaram-se, ou fizeram de menos. Fora do governo, só lembrado nas ruas como o “buldôzer”, ele mudou de vida. Tentou ser recebido na Casa Branca. Ignoraram-no. Costurou um acordo secreto com o Líbano. Invalidaram-no imediatamente. Organizou excursões turísticas e políticas às colônias da Cisjordânia e Gaza, quando os EUA as denunciaram como “obstáculos para a paz”. Repudiaram-no. Mas ele voltou. E precisou apenas passear provocativamente pela esplanada do Templo, onde hoje estão as mesquitas de Omar e Al-Aqsa, para provocar uma nova intifada palestina que o reconduziu ao poder, há cinco anos.

2014151223_ariel-sharon020114Os israelenses o elegeram como antídoto ao terrorismo crescente e aos distúrbios permanentes na Cisjordânia e Gaza. Só ele, Arik, para enfrentá-los. Aharai! Dominante, durão, Sharon reduziu a sua própria oposição a fragmentos no Parlamento. Com a estratégia militar de surpreender a todos, mas agora em guerra política, ele abandonou o partido nacionalista de direita Likud, que fundou à revelia de Beguin, e criou o Kadima, ou “Pra Frente”, mais ao centro. Causou um terremoto em Israel. Agora, ele admitia a ideia de desterrar algumas das colônias da Cisjordânia de que tanto antes se orgulhara e defendera. O herói de guerra passou a ser visto também como um herói da paz. E um traidor.

Aharai! O Kadima já era o favorito das eleições de março. Mas o Kadima era Sharon. E Sharon retirou-se para o seu rancho no dia 4 de janeiro de 2006, onde se preparava para uma míni cirurgia no coração na manhã seguinte, quando foi surpreendido pelo seu último e imbatível inimigo, o próprio corpo. Um acidente vascular cerebral (AVC) o derrubou ao chão. Levaram-no de picape para o hospital. Se fosse de helicóptero, lamentaram médicos na época, haveria mais chances de salvá-lo. O general resistiu oito anos até render-se: seus órgãos o abandonaram, um a um.

Um âncora da TV israelense, Yair Lapid, perguntou-lhe numa entrevista pouco antes de sua última batalha chegando agora ao fim: “O que o povo ainda não conhece a seu respeito?” Ele sorriu timidamente, e revelou: “Eu adoro filmes românticos.”

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Os aiatolás do Peru

A novidade é a notícia, antiga, ser publicada neste domingo, 31 de julho, pela agência do Estado Islâmico (EI), Amaq. A notícia reproduz uma reportagem do jornal pan-árabe Asharq Al-Awsat sobre o avanço do xiismo iraniano no Peru e, de lá, para outros países sul-americanos. Enfim, os aiatolás estão chegando. Numa breve passagem pela Argentina, em 1994, deixaram um saldo de 84 mortosO Irã político e religioso chegou ao Peru, de onde quer se espalhar para outros países da América do Sul.

 

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http://notihoy.com/libanes-detenido-en-peru-reconocio-ser-miembro-de-hezbollah/

O Irã político e religioso chegou ao Peru, de onde quer se espalhar para outros países da América do Sul.

A informação é de Asharq Al-Awsat, 1º jornal pan-árabe impresso em 4 continentes. A reportagem sobre o Peru iranizado foi reproduzida pela agência de notícias do Estado Islâmico, EI.

Por que esta notícia, requentada, foi publicada hoje? pe

Muitos peruanos já se converteram ao xiismo e fundaram uma entidade a que batizaram de Hezbollah Branch in Peru, cópia do libanês. O objetivo declarado é o de importar a revolução iraniana.

A maioria dos convertidos peruanos é da região montanhosa de Abancay. É dali que 20 homens foram levados à Teerã para serem doutrinados em xiismo.

O programa de TV Punto Final, do Peru, mostrou um grupo de jovens peruanos com um sheik xiita reivindicando o direito de propagar o xiismo da mesma forma como é permitido ao cristianismo.

A polícia peruana deteve alguns suspeitos ligados ao Hezbollah libanês quando entravam no Peru. Um especialista em influência iraniana na América Latina, Joseph Humire, diz, citado na reportagem, que o Irã financia o Hezbollah do Peru “com dinheiro de contrabando”.

1iraO “aiatolá” de Caracas, Nicolás Maduro, dá apoio integral à implantação do Hezbollah na América do Sul. O falecido coronel Chávez e o então líder iraniano Ahmanidejah tiveram uma relação intensa, boa parte da qual misteriosa. O Irã é acusado de ter participado diretamente do atentado contra a Associación Mutual Israelita Argentina (AMIA), em 1994, que deixou um total de 85 mortos.

Os dias em que não morri

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Foto Creative Commons

Por duas vezes, na guerra do Líbano, vivi a morte bem de perto. Mas sobrevivi e estou aqui, agora, relembrando. Nada heroico. Apenas o dia a dia de um correspondente.

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Moussa Sadr

 

Saí correndo de Beirute atrás de um telex ao norte de Israel. Estava sem contato com a redação do jornal, em SP, desde que uma bomba destruíra, três horas antes, o gerador do hotel Commodore, onde ficávamos os repórteres que cobriam a guerra no Líbano. Sabotagem ou coincidência, sempre que o noticiário do dia era desfavorável à OLP, buuuum!, acabava a luz — e adeus transmissão de filmes, fotos e textos.

Peguei a estrada do litoral, deformada pelas sapatas dos tanques no asfalto amolecido pelo sol. Os correspondentes de tevês iam até Damasco, mais perto. Mas eu, barbudo, com carro com placa israelense e nome judeu, não seria bem recebido pelos sírios. Perto da veneranda cidade de Tyre, fundada em 2750 a.C., entrei num desvio sem mais asfalto, uma reta poeirenta com poucas casas do lado direito. Avistei uma multidão em passeata. Era muita gente, segurando cartazes e gritando.

E aí? Que fazer? Dar meia-volta, fugir? Isto já faria de mim uma presa, ou alvo de tiros. Ficar? Prisão certa, ou linchamento imediato. Não poderia acelerar contra a multidão… Então, travei portas e vidros automáticos, à espera.

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Israel no sul do Líbano, foto Creative Commons

A turba vinha furiosa. Reconheci a foto que muitos brandiam. Era o imã Moussa Sadr, líder xiita do sul do Líbano, nascido na cidade sagrada de Qom, no Irã.

A multidão engolfou meu carro, que balançou, balançou, mas ninguém tentou abrir a porta. Cegos de ódio, nem me notaram. Eu tremia. De repente, vi a frente livre. Saí devagar, depois acelerei fundo. Alguns quilômetros adiante, no asfalto de novo, parei para comprar água e saber o que estava acontecendo. Ouvi: Moussa Sadr havia desaparecido desde que seu avião fez escala em Trípoli, na Líbia, a caminho de Roma. Certos de que ele fora assassinado, seus súditos exigiam a cabeça do coronel Muamar Kadafi. O mistério não foi desfeito até hoje.

No mesmo Citroën esportivo branco, com placa do país invasor, me perdi uma noite em Beirute. Não existiam GPS, Waze e nem celular. Um sinal indicara que tinha entrado na “terra de ninguém”, uma zona neutra separando os inimigos. Como sair dali? E, dependendo da saída, quem encontraria?

Rodei a 20 km/h até ler uma placa em francês, Café du Brésil. Só podia ser um sinal para mim. O problema era um monte de terra, talvez uma trincheira abandonada, bloqueando o caminho. Mas fui! Acelerei, saltei ao bater na barreira, e pousei diante de alguns soldados que apontavam os fuzis para mim. Talvez não tenham atirado por causa da placa israelense. Ou deveriam, por isso mesmo: poderia ser um camicase com carro roubado. Pegaram meus papéis e foram checar com o serviço de imprensa, em Jerusalém, se eu era mesmo repórter credenciado. E a guerra continuou por mais cinco meses.

 

Censura e guerra: XXXXXXXXXXX

Meu texto, no telex, de repente truncava. Repetia, truncava de novo. Ia tentando até que um teletipista da Reuters/Tel-Aviv avisou que me chamavam ao telefone. Era o censor militar. Não podia transmitir meu artigo. Surpresa: nele apenas dizia que, como o tempo tinha melhorado, Israel poderia atacar o Líbano a qualquer momento. Nada mais. Fui ao Censor Militar, ali perto, e combinei que era preciso avisar o jornal que faltaria, porque me esperavam com espaço aberto. Concordaram, desde que me ativesse a um breve aviso. Respeitei, só que acrescentei, no final do recado, que passaria a noite lendo Camões, cujos poemas, nessa época, entravam no que era censurado no Estadão. A invasão ao Líbano tinha começado enquanto tentei transmitir meu artigo. “Nosso correspondente censurado em Israel”, publicou o jornal em sua primeira página.

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Robert Capa/Magnum

 

“Na guerra, a verdade é a primeira vitima” — disseram Ésquilo, o dramaturgo grego, e oBqnoKJJCYAAk48E senador norte-americano Hiram Johnson, em 1917, entre outros a que se atribuem a mesmíssima repetida frase. Para alguns correspondentes de guerra reunidos em Jerusalém, a primeira vítima, porém, tem sido a liberdade de imprensa.

No seminário que examinou os meios de comunicação e as guerras no Líbano, no Iraque e Iran e no Atlântico Sul (Malvinas), promovido pela Universidade Hebraica de Jerusalém, falaram (em 4/3/1983), três correspondentes de três diferentes guerras para um auditório de outros veteranos de guerras, cientistas sociais, políticos, diplomatas, estudantes de jornalismo e até encarregados pela censura militar em Israel.

David Shipler, do The New York Times, concentrou-se na guerra do Líbano com a experiência de quem cobriu a guerra no Vietnã, entre 1973-75. Entre 1975-79 foi correspondente em Moscou, e desde 1979 está em Jerusalém.

“Nenhuma guerra é simples”, afirmou Shipler abrindo o seu depoimento, “e a do Líbano excedeu… Em complexidade: aqui temos OLP, sírios, xiitas ao sul, sunitas ao norte, maronitas, drusos libaneses, drusos israelenses, judeus, árabes da Cisjordânia, árabes de Israel, cristãos poderosos, palestinos pobres…e cada um com sua preocupação específica. É uma imensa tarefa, que pode ter três grandes divisões – militar, política e humana”.

Depois de detalhar, em termos profissionais, as três principais áreas de trabalho, Shipler explicou porque, desde Israel, decidiu cobrir a guerra da perspectiva política, deixando a militar para a sucursal de Beirute:

-Simples; eu tinha censor militar, e o Times, outro correspondente em Beirute. Era melhor que uma reportagem tivesse origem onde não existisse censura.

Shípler, como vários outros correspondentes estrangeiros em Israel, tentava alcançar os locais em que se desenvolviam as ações militares, mas ficou imobilizado a primeira semana inteira da guerra. E revelou o seu mais estranho problema com a censura que todos sofríamos, e o denunciávamos na abertura de nossos artigos:

-Liguei para Timor Goksel, porta-voz das forças de paz da ONU, no sul do Líbano, e ele me passou um retrato completo de quanto armamento e tropas Israel estava concentrando para a invasão. O censor de Israel cortou. Foi a primeira vez que vi censurarem as Nações Unidas, e falando de um outro país. A censura foi muito rigorosa no começo, mas a partir da segunda semana, relaxou. As informações que obtínhamos em Jerusalém, de fontes militares, estavam atrasadas 24 a 36 horas em relação às divulgadas pelas rádios libanesas.

Quando entrou no Líbano, foi com escolta:censorship

-Gente interessante era escalada para escoltar a imprensa. Não me sentia vigiado, nem sentia meus entrevistados libaneses intimidados. Não podia ir aonde quisesse. Campos de refugiados, por exemplo. A explicação era a de que “terroristas estavam ainda operando lá”, e mesmo que me responsabilizasse pela minha vida, não me conduziam.

-Nem sempre foi assim: tivemos muito mais liberdade de ação no front israelense – discordou um freelancer norte-americano, Josué Muravchik, que desfiou uma lista de vinte minutos de “erros da grande imprensa no tratamento da guerra no Líbano”. Borns cobriu a guerra de 1973 em Israel, e a de Chipre, em 1974. Trabalha para a televisão belga, e tentou cobrir a guerra entre Iraque e Irã, cujos números dos comunicados iniciais esgotavam a quantidade de aviões, de tanques e de soldados que ambos os lados alegavam possuir.

-Foi a experiência mais frustrante que já tive. Fui antes para Amã, na Jordânia, e depois para Bagdá. Levei dois dias para convencer um diplomata belga a me hospedar, livrando-me assim da perseguição da censura oficial. Mas me encontraram. Disseram-me: todos os jornalistas estão naquele hotel, e você tem que reunir-se a eles.

No hotel da imprensa, na primeira noite, ele tentou ir à rua, dar uma volta. “Onde você vai? – perguntou-me um soldado iraquiano. “Por aí…”. Senti-me humilhado. O soldado dizia: dentro do hotel você tem seus amigos, teletipos, bar, restaurantes…não está bom? Toda manhã, aparecia um oficial, e todos brigavam para conseguir um passe de ida ao front, ao campo de batalha. Parecia um paxá escolhendo suas escravas. Um dia, levou-me, com outros dois jornalistas. Chegamos a Basra, e ele ordenou: “Vocês têm dez minutos”. E esta foi minha experiência na guerra Iraque-Irã. Voltei para Amã. Voei para Bruxelas. Tinha um filme com barulhos de tiros, e alguns navios, em Basra.

Já Michael Nicholson, da Itn inglesa, veterano de 14 guerras, foi patriota para o navio de guerra inglês Hermes, em direção às Falkland/Malvinas.

“Claro que apoiava a partida da Marinha Real Britânica. Mas meu apoio não me impediu que me tornasse um crítico feroz de como a guerra foi manipulada”.

Nicholson contou que, “para entrar a bordo, recebi um livrinho, este (e o mostrou)… Diz aqui: regulamentos para correspondentes acompanhando uma força operacional. Data: 1958. O livreto tinha sido impresso depois da campanha do Suez. Seus dois princípios básicos e contraditórios: 1 – a essência do sucesso na guerra é o segredo, 2 -a essência do sucesso em jornalismo é a publicidade. E tentava conciliar o irreconciliável, recomendando “cooperação mútua”. É isto: o governo tinha certeza do papel que deveríamos desempenhar”.

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Nick Ut/AP, Vietnã, prêmio Pulitzer de 1973

O resultado, para Nicholson, é que “a guerra das Falkland foi a pior para repórteres desde a guerra da Crimeia”. Mas acrescenta: em termos de televisão. Em 1854, um correspondente numa expedição inglesa levou 20 dias para despachar seu material. Em 1982, “foram necessários 23 dias para ser transmitido meu vídeo sobre o cessar-fogo em Port Stanley”.

Nicholson explica: “Estávamos a três milhas da primeira estacão de satélite. E cobriam esta distância, diariamente, vários barcos de suprimentos. Havia ainda satélites militares e um americano, que a ABC, NBS e NBC, as cadeias americanas, tentaram nos passar, via Pentágono, mas o governo inglês não aceitou. Meu editor foi reclamar oficialmente. Sabem o que ele disse a primeiro-ministro?

-Os filmes de Nicholson têm relevância histórica. Como os pergaminhos do Mar Morto…

Os filmes dos correspondentes no Atlântico Sul não sofriam censura imediata, nem os seus comentários, mas também não chegavam a Londres. A tevê “parecia um filtro nacional. Vermelho, cor de sangue, tinha que ser evitado, e era o que se derramava cruelmente nesta guerra”. Nicholson fala que o governo inglês sentia “a síndrome da guerra do Vietnã, tolhendo a imprensa das informações, no momento em que ocorriam. Esqueceu-se, porém, de que o problema era o Vietcongue, e não a tevê CBS…”

Para Nicholson, a guerra foi reduzida a transmissões de sua voz, ilustrada por artistas em Londres, já que imagens não chegavam. “As ilustrações não eram ruins. Mas estamos na idade eletrônica, dos satélites, e me senti impotente”.

O líder do Partido Trabalhista, Shimon Peres, num almoço que interrompeu o debate sobre os três depoimentos de três situações de guerras em partes diferentes do mundo, defendeu a liberdade de imprensa, prometendo transformá-la, se formar um governo, num quarto poder institucional. Criticou “alguma limitação” na imprensa israelense. E aí começaram protestos. E também um outro debate, porém interno, e de Israel.

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Eddie Adams/AP, 1968, Saigon

Fala o censor (sem censura)

O chefe do serviço de censura militar de Israel, general Yitzhak Shani, acha “essencial” a imprensa, em tempo de guerra.

Dita por um censor, a declaração parece contraditória. Mas o general Shani parece inclinado a desafios quando se reúne com jornalistas para uma conversa como essa, no seminário sobre a imprensa e as guerras, em Jerusalém.

Zeev Hefetz, ex-diretor dos serviços de imprensa do governo israelense, apresentou-o como “o mal”, e o general Shani sorriu, mexendo em volumoso bigode. “Mal necessário”? – perguntou aos correspondentes de guerra reunidos no hotel Hilton. E falou da censura “normal” dos regimes totalitários. Falou da censura por intimidação – jornalistas ameaçados de morte, ou assassinados, no Oriente Médio, nas Américas latina e central. E da censura por restrição ao acesso repórteres impedidos de acompanhar a rebelião em Meca, ou as batalhas do Afeganistão, no Iran, no Iraque, nas Malvinas. Nesta lista, Zeev omitiu o Líbano. Para ele, aqui só houve restrição nos 15 primeiros dias da guerra.

-Exceto no Vietnã, houve censura nas duas grandes guerras mundiais, na da Argélia, em todas as guerras de Israel.

E concluiu: “é um mal necessário”. Antes de passar a palavra ao general Shani, o chefe da censura, lembrou: “a censura é anacrônica, em Israel, em tempos de paz”.

O general Shani provavelmente considera também “essencial” a imprensa, em tempos de paz. Mas não o disse. Seu tema era a guerra. E a censura, neste contexto, é uma arma. Uma arma que surpreendeu o exército da Síria.

Sem censura, as declarações do general Shani:

-Na minha opinião (ele chamou-se rindo de “o rei do mal”, completando a apresentação de Zeev Hefetz), a proeza da censura, nesta ultima guerra, foi a de surpreender os sírios. Primeiro, porque evitamos que fossem publicadas as notícias da mobilização de nossos reservistas, dias antes de a guerra começar.

(Olhando para os correspondentes, Shani prosseguiu)

-A maioria de vocês sabia. A maioria submeteu artigos. Não os aprovamos. Segundo: o intenso movimento da nossa artilharia e blindados para o norte, pela rodovia da costa. Qualquer criança via o que se passava. Novamente, vocês sabiam, vocês tentaram enviar noticias, e não puderam. Terceiro: quais eram as intenções do exército e que decisões de guerra tinha adotado o governo? Não sei, agora, se todos vocês sabiam. Quem soube, nada pode mandar. E quarto: depois da formal proclamação de guerra, vetamos a publicação da real dimensão da operação, de detalhes de planos e do avanço das tropas. Isto surpreendeu os sírios.

O general Shani sublinhou: “não interferimos em nenhum momento no debate pró ou contra a guerra. Nem somos contra jornalistas…E queremos ser leves: trabalhamos no horário da imprensa. Achamos também que o público tem o direito de saber. Só interferimos com as informações que poderão alcançar o serviço de inteligência do inimigo, ou que prejudicarão a segurança do estado”.

O general Shani tem outra frase contraditória. Diz: “ser uma real democracia, como o é Israel, e ter censura, parece conflitante, difícil de entender”. Ele explica que a base legal da censura em Israel vem de regulações de emergência do tempo britânico na Palestina. E prevê a proibição de “matérias que poderão prejudicar a defesa de Israel, a segurança publica, ou a ordem publica”. Por um acordo entre as forças armadas e os editores dos jornais israelenses, o único objetivo do censor é o de evitar a publicação de informações sobre segurança que podem ser úteis ao inimigo.

Não há censor político – acrescenta o “rei do mal”. E mesmo a censura militar pode ser contestada. Desde 1949, há 180 casos de contestação legal – da imprensa contra a censura, e vice-versa.

Um outro general também falou na reunião que encerrou o seminário da imprensa e a guerra, realizado no pais das guerras, por promoção da universidade hebraica de Jerusalém. O general Yacoov Even é o chefe dos porta-vozes militares. Quer dizer: ele é a voz, divulgada e amplificada por vários assessores. Um outro “rei do mal”.

-Mal como um rifle, ou uma penicilina. Tudo depende do uso que se faz. Em tese, sou o inimigo do censor. Eu tenho um maravilhoso exército para mostrar, mas ele… ele quer esconde-lo. Mas sou eu o responsável pela falta de acesso tão crítica nesta guerra. Injustamente criticada.

O general Even lembrou que o maior inimigo desta guerra, o líder da OLP, Yasser Arafat, que chamou apenas de Arafat, recebia informações através de rádio e jornais, em seu QG de Beirute.

-Não era, por exemplo, como um país, a Inglaterra, que tem redes de espionagem, sofisticados radares, aviões… Então, espalhei uma certa neblina. Estratégica neblina, não estúpida. Por cinco dias, não explicamos o que se passava. E atingimos totalmente o nosso objetivo militar contra a OLP. Isso não quer dizer que a informação não era dada. Em Israel, sabia-se quase tudo. Câmeras estavam com as tropas. Depois, abri as fronteiras aos repórteres, no quinto dia.     Centenas entraram inicialmente; depois, milhares.

O general Even não quis entrar na discussão dos números de mortos que começou logo no primeiro cessar-fogo da guerra. “Era o irmão do Arafat quem dava os números do outro lado. Eles eram fascinantes, de um ponto de vista jornalístico. Fornecemos os números que tínhamos, e nossa preocupação, sempre, foi a de não perder a credibilidade com a imprensa. Mas ele frustrou-se: o acesso dado à imprensa, no Líbano, foi um bumerangue. “Atacavam-nos com artigos distorcidos, mentiras, inocência, fotografias selecionadas…”

4587-1Even tem “três sonhos”: o de que não haverá uma nova guerra; e se houver outra, que o exercito de Israel esteja muito bem preparado e equipado; e, por fim, que a imprensa seja “decente” na cobertura.

Um correspondente de guerra inglês fez o elogio da censura, durante uns 20 minutos. Achou-a necessária, para a democracia da Inglaterra. Um colombiano, observador no seminário, falou de raptos de jornalistas, a imprensa pressionada pelo governo, pela oposição, pela guerrilha, e quis saber, de censores, especialistas em comunicação, e outros jornalistas: “o que fazer?” a professora Dina Goren, do curso de comunicações da universidade de Tel-Aviv, disse-lhe francamente: “não tenho uma resposta”, e o tema não foi elaborado, por outros, porque o tempo se esgotava, dando apenas para novas duas perguntas. Um repórter perguntou:

-Mas se há censura militar, por que se proíbe o acesso?

Resposta do general Shani:

-Porque Israel não pode confiar no autocontrole ou na integridade de dezenas de repórteres estrangeiros. O jornalista estrangeiro é estrangeiro. Sua obrigação é para com seus leitores. Então, basta que ele pegue um avião, vá a Chipre e de lá envie seu artigo para o seu jornal.

A última pergunta foi sobre se os telefones dos correspondentes são escutados, como há pouco tempo revelado.

– O censor interfere na ligação se estiver sendo transmitida uma informação militar não submetida antes à censura. Mas isto não é novo para você…- respondeu o general Shani, provocando risos.

– Certamente não é respondeu o repórter. – Mas perguntava-lhe sobre ligações locais…

– Não há censura em ligações locais – insistiu o general Shani.

– Não perguntei se censuram, perguntei se vocês escutam…

-Não.

 

 

 

 

ETERNAS POLACAS

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A rosa não se compara

A essa judia rara 

Criada no meu país

Rosa de amor sem espinhos

Diz que são meus seus carinhos

E eu sou um homem feliz

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“JUDIA RARA”, DE MOREIRA DA SILVA, QUE VIVEU COM UMA POLACA.

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As polacas estão ressuscitando. Párias em vida, abandonadas por 30 anos no gueto em que se enterraram judias, em Cubatão, elas começam a renascer dos túmulos restaurados até junho pela Sociedade Cemitério Israelita de São Paulo, já personagens de quatro livros; estrelas de três projetos teatrais; tema de monografia, tese e conferências; e fantasmas atormentando a comunidade judaica brasileira, dividida entre apenas reconhecê-las, ou enfim aceitá-las, ou enterrá-las para sempre.

As polacas do “povo da Bíblia” estavam confinadas ao Deuteronômio: “Não haverá dentre as filhas de Israel quem se prostitua no serviço do templo, nem dentre os filhos de Israel haverá quem o faça” (23:17). Elas agora parecem ressurgir em outro momento bíblico: “Toma a harpa, rodeia a cidade, ó prostituta, entregue ao esquecimento; toca bem, canta muitos cânticos, para que haja memória de ti” (Isaías 23:16).
Certidão – Um “aluvião de Messalinas” invadiu o Rio de Janeiro em 1872. “A horda de judias russas, alemãs e austríacas começou a aparecer na roda cortesã, nos teatros de última classe, nas ruas mais concorridas, mulheres de ademanes desembaraçados, rostos formosos, trajando com luxo e levando presa no olhar a atenção dos transeuntes que as observavam”, como registrou Os Cáftens, um folheto de Clímaco dos Reis, considerado pelo diretor do Museu Histórico em 1955, Gustavo Barroso, “a certidão de nascimento” da prostituição de porta aberta inaugurada pelas “famosas polacas”.

tresElas “paravam nas esquinas, nos corredores e jardins dos teatros, em toda parte e, com uma desenvoltura até então desconhecida, distribuíam bilhetes com seus nomes e moradias…” O Estado de 25 de julho de 1879, então A Província de São Paulo, publicou a notícia de que “duas alegres raparigas deliberaram dar algumas voltas na cidade em um elegante carrinho particular de passeio, tirado por um cavallo, e guiado por uma dellas, de nacionalidade russa, ao que ouvimos contar, e entendida naquellas façanhas hyppicas”.
Uma verdadeira “scena”, como acrescentou: “Assim fizeram, percorrendo galhardamente algumas ruas da cidade com grande espanto dos basbaques em geral, e dos urbanos em particular.” Nas ruas da Liberdade (“ironias do acaso!”), as duas foram presas e levadas ao chefe da polícia, que as libertou “provando que aqui no Brazil, como na Rússia, é permitido à mulher guiar um carro particular”.

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Foto de Sílvio Luiz    

Os “biombos-alcouces” e “casinhas-bordéis” proliferaram rapidamente no começo do século no Rio e em São Paulo. “Neles, há um só quarto, uma só prostituta e um pequeno pátio, onde os homens que esperam formam fila”, descreveu o jornalista Robert Neumann, autor de um livro de investigação sobre o tráfico de brancas, 23 Mulheres, publicado no Brasil em 1941.

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Foto: www.scoopnest.com/

“Abre-se a porta e aparece a mulher, vestindo camisa de cores berrantes”, ele continua. “O freguês que foi despachado passa sem lhe dizer palavra; e o próximo entra, a porta se fecha.” Atônito, conclui: “Tão incrível é o número de fregueses recebidos num único dia que, antes de o revelar, necessário se faz dizer que ele foi confirmado pelas autoridades, pela sociedade judaica de socorros Ezras Noshim e pelos investigadores da Liga das Nações.” Historiadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Margareth Rago “morreu de medo” ao penetrar no mundo misterioso das polacas e de seus rufiões para o livro Os Prazeres da Noite: Prostituição e Códigos da Sexualidade Feminina em São Paulo, 1890-1930(Paz e Terra, 1991). “Fui assustada por gente da comunidade judaica que não queria desenterrar o assunto.” Perguntavam-lhe:
“Mas por que você quer mexer com isso?” Ao saber agora das obras de restauro no cemitério de Cubatão, ela se mostra curiosa e irônica: “Redenção?” Rago foi muito além da “geografia do prazer” no submundo de São Paulo. Seguindo o rastro deixado há 50 anos no livro Le Chemin (O Caminho) de Buenos Aires, pelo poeta e famoso repórter Albert Londres, queimado como um arquivo num suspeito incêndio de um navio em 1932, ela identifica no Brasil os tentáculos dos poderosos “maquereaux”, os gigolôs franceses, e dos “polaks”, traficantes de judias das aldeias pobres do Leste Europeu.

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Jacob do Bandolim: filho da polaca Taquel Pick

Máfias – Quando perseguidos na Argentina, os rufiones refugiavam-se nas filiais paulista ou carioca, onde mantinham até “escolas de prostituição”. As máfias francesa e polaca importariam para a América do Sul cerca de 1.200 mulheres por ano, embarcadas nos portos de Gênova, Marselha, Anvers e Hamburgo.
Mas “é praticamente impossível estimar a quantidade de prostitutas que vieram traficadas da Europa”, conclui Rago. Como “também dificilmente saberemos quantas vieram por vontade própria, ou iludidas com promessas de casamento e perspectivas estimulantes de enriquecimento”. Nos bordéis distinguiam-se as estrangeiras, “embora as raras estatísticas disponíveis registrem uma porcentagem superior de brasileiras”. Madame O, de 80 anos, testemunhou a belle époque paulista como costureira francesa. E nunca encontrava brasileiras nos bordéis.

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“Por quê?”, perguntou-lhe Rago, numa entrevista em 1989. “Porque elas não eram disso no meu tempo”, respondeu. “Quando cheguei ao Brasil, não havia mulheres (brasileiras) não… tudo francesas e polacas, muitas.” Na música de João Bosco e Aldir Blanc, O Mestre-Sala dos Mares, de 1974, as mulatas já se tornam majoritárias:
…Foi saudado no porto Pelas mocinhas francesas Jovens polacas E por batalhões de mulatas. Está no Gênese (38:24): “Passados quase três meses, disseram a Judá: ‘Tamar, tua nora, se prostituiu e eis que está grávida da sua prostituição. Então disse Judá: ‘Tirai-a para fora, e seja ela queimada.” Está em Levítico (21:9): “E se a filha dum sacerdote se profanar, tornando-se prostituta, profana a seu pai; no fogo será queimada.” Os judeus brasileiros não queimaram as “curves” (prostitutas, em iídiche) de Santos, do Rio e de São Paulo. Mas lhes reservaram, “impuras”, o mesmo chão dos suicidas que ousam findar a vida dada, e então só tirada por Deus: junto aos muros dos cemitérios. “Die linke”, esquerdistas, marginalizadas, ou “as outras”, na tradução do jornalista Alberto Dines, as “curves” abriram seus próprios cemitérios, rezaram em sinagogas próprias e congregaram-se em sociedades de assistência mútua. Viveram e morreram judias. Mais do que esquecidas, expiaram. Abolidas, perpetuaram-se. Eternas polacas.

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A aldeia brasileira no Líbano

by Celkadri - Licensed under Public Domain via Wikipedia

by Celkadri – Licensed under Public Domain via Wikipedia

Al Bireh, Líbano central (12/07/1982) — A paisagem que se avista desta aldeia escondida num dos picos de uma cordilheira é tão impressionante quanto perigosa: abaixo, o verde vale de Bekaa, com seus caminhos minados, plantações de cerejas, tanques movendo-se camuflados e um céu muito claro, sem nuvens – os trovões esporádicos são disparos de canhões.

Surpreendente, nesta aldeia que esteve ao centro de uma das maiores batalhas aéreas do mundo, envolvendo mais de cem aviões sírios e israelenses, em 9/6/1982, é a informação de um de seus 1.300 habitantes:

-Aqui, todos falamos português e “arabês”.

Cinco mil habitantes de Al Bireh vivem hoje no Brasil. E 300 brasileiros estão aqui, no fogo cruzado de uma guerra que não entendem.

-Somos gente da roça, sabe? – explica um deles.

No dia “daquela chuva de bombas” morreu um brasileiro, o Sr. Ali Bacha, que viveu 22 anos entre o Paraná e São Paulo. Uma de suas filhas, Fátima, lembra:

-Meu pai tinha bronquite. E o ar daqui faria muito bem a ele, aconselhou um médico de São Paulo. Lá, ele vivia sufocando de ataques… Então, viemos. Como passou a não sentir mais nada, reuniu a família, resolvendo: vamos ficar aqui…

No dia “daquela chuva de bombas”, quando Israel atacou as baterias de mísseis soviéticos Sam-6 instaladas no vale de Bekaa, o Sr. Ali Bacha foi respirar na varanda de sua casa. Seu filho, Mohamed, e uma prima, Kessem, australiana, sentaram-se ao lado. Na varanda, sobre o penhasco, um privilegiado mirante, caiu uma bomba.

Mohamed, 20 anos, brasileiro, foi ferido na perna direita, “o osso saindo para fora”. Estilhaços queimaram vários pontos do corpo de Kessem. E o Sr. Ali Bacha morreu.

Os brasileiros de Al Bireh não entendem a guerra:

-Só pode entender isto quem tem “cabeça grande” – diz um deles.

Não a entende, também, o aiatolá da aldeia, oficialmente conhecido como o Sheik de Ipanema. Na verdade, ele pouco fala, apenas sorri, com seus 110 anos – “o ar daqui é milagroso”, comenta Fátima apontando para o líder muçulmano, a barba comprida e branca. “Se você o chamar de velho, ele sai brigando”.

Na noite “daquela chuva de bombas”, um tenente sírio surgiu, também ferido, ao pé da montanha de Al Bireh. Entrou num carro, o de um primo de Mohamed. Os brasileiros, querendo tratar de seus feridos, pediram socorro aos israelenses, já dominando grande parte do vale de Bekaa

Mas o sírio, vendo os israelenses próximos, abandonou o carro, e tentou alcançar uma casa, exatamente a casa para onde tinha sido levado Mohamed, à espera de uma ambulância.

-Ele não conseguia mais andar, e aí deitou na frente da casa. Pegaram ele; estava uniformizado. Aí falamos para os israelenses: tem mais um ferido lá dentro.

Era Mohamed, levado então para o mesmo helicóptero em que seria transportado o tenente sírio, e os dois foram deixados, como agora se diz em Al Bireh, “no hospital policial”.

Três semanas depois, Kessem, a tia ferida de Mohamed, dava notícias, recuperando-se num hospital de Jerusalém, Hadassah. E o primeiro-ministro de Israel, Menachem Beguin, dava outras notícias, no parlamento: entre os prisioneiros de guerra, “há um brasileiro”.

Era Mohamed, preso com o tenente sírio.

-Mohamed, prisioneiro de guerra? – Perguntava a “gente da roça” de Al Bireh.

Muitas casas foram abandonadas. (Celkadri. Licensed under Public Domain via Wikipedia -

Muitas casas foram abandonadas. (Celkadri. Licensed under Public Domain via Wikipedia –

-Não, ele é dono de loja – diz sua irmã, Fátima, enquanto sua mãe, Bacha, balança a cabeça, confirmando-o:

-Ele nem conhecia o sírio…

Do lado israelense, a confusão cresceria quando um primo de Mohamed, ferido nos olhos, surgiria no mesmo “hospital policial”, portador, e com certo orgulho, de um documento provando ser ele um trabalhador – só que trabalhara no Iraque, outro país em guerra com Israel.

-Trabalhava no Iraque em “interpretação” de brasileiro para o árabe — explica um irmão de Mohamed.

-Como assim? – Pergunto.

-Sim, tem uma carteirinha que diz que ele é da “agência”, no Iraque.

-Mas que “agência” é esta?

-Chama Mendes Júnior, de Belo Horizonte.

Para brasileiros de Al Bireh, nada mais natural. Mas para israelenses, um brasileiro ferido com um sírio e que tem um primo vindo da “agência”, no Iraque, no meio de uma guerra, nada mais duvidoso. A embaixada do Brasil não pode obter nenhuma informação oficial do misterioso prisioneiro de guerra brasileiro, durante um mês. Mas ontem, sinal de que exaustivas investigações começam a esclarecer o que ocorreu, já será possível visitá-lo, como anunciou um funcionário do Ministério das Relações Exteriores, em Jerusalém.

Mohamed transformou-se no “herói” da guerra, em Al Bireh.

— Você viu ele? – pergunta-se a quem chega de Israel, como se fosse natural saber dele, entre os nove mil prisioneiros de guerra.

-Acho que ele vai chegar hoje – diz uma de suas irmãs, esperançosa.

Quando cheguei a Al Bireh, no domingo, e perguntei por brasileiros, já falava com um deles. E sendo também brasileiro, uma multidão me cercou, todos falando ao mesmo tempo, oferecendo café, chá, doces, almoço, e pedindo noticias dele, Mohamed. Quando um começava a se lembrar da guerra, a roda de crianças, homens e mulheres acrescentava detalhes, o Sheik de Ipanema sempre sorrindo, calado.

A guerra foi “aquela chuva de bombas: tanques, aviões, metralhadoras, todas as armas…”

-Enquanto “chovia”, o que vocês faziam?

-Íamos todos para o esconderijo.

-Que esconderijo?

-Junto com as vacas.

O estábulo fica embaixo da casa de pedras do Sr. Ali Bacha, que morreu na varanda. É um porão, com entrada independente, na descida do penhasco.

-Ontem (sábado) fomos para lá de novo – diz Fátima, sorridente.

Por que?

-Virgem Maria: ontem houve mais tiroteio. Caiu uma bombona aqui perto. Estávamos ouvindo a tia Kessem contar como foi tratada no hospital de Israel, e veio a bomba. A gente saiu correndo pro esconderijo. Minha tia queria voltar para o hospital. Dizia: não aguento mais…

-Quem atirava?

-Num sabemos…

-O que vocês acham dessa guerra?

-Ai, credo! Deveria ter um entendimento entre eles, pois tá morrendo muita gente que não tem nada que ver…

-Aqui, quantos morreram?

-Oito, e tivemos quatro “ferimentos”.

-Onde caiu a “bombona” de ontem? Ela veio de avião?

Um rapaz responde – o que trabalhava na “agência” do Iraque:

-De avião caíram as luminosas, aquelas que clareiam tudo. A bombona caiu aqui perto, e acho que foi de canhão.

-E quem disparou?

-Os sírios – e ao ouvir esta resposta, a viúva Bacha faz “pssssss”: — Não acuse ninguém, é perigoso”.

-Se eu soubesse que tinha mais guerra, não voltava para cá – comenta Kessem, o braço engessado, as duas pernas enfaixadas, exibindo um diploma de cidadania australiana.

-Você vai voltar para a Austrália?

-Não, se puder, vou para Israel.

Neste momento, ao mesmo tempo, muitos perguntam como é possível viajar para Israel.

Mohamed, o “prisioneiro de guerra”, contam em Al Bireh, já queria voltar para o Brasil desde que escutou as primeiras bombas, “muito tempo atrás”. Aqui, ele tinha uma loja de roupas feitas, sem nome, e que incendiou, atingida por uma bomba.

-Queimaram 20 mil dólares de roupas – conta o primo da “agência do Iraque”.

Depois, ele pergunta: – Mohamed vai receber indenização?

-De quem?

-Num sei… Israel não paga?

-E por que não os sírios?

-Não tem nada que os sírios não levaram daqui do Líbano. Ninguém podia ter um Mercedes ou Peugeot, que eles queriam. Levaram um Volvo de três mil dólares… Levaram uma geladeira.

Fátima acrescenta: -levaram minha máquina de costura.

E um outro completa:

-Olha, eles são “trombadinhas”.

-E os palestinos… Eles andavam por aqui?

A casa ao lado da família Bacha era o quartel-general da OLP em Al Bireh – mais um motivo para as suspeitas contra Mohamed.

-Eles entravam e saíam dela armados. Às vezes, pegavam alguém, davam “um pau”, e soltavam mais tarde. Se um outro apanhou, não vou fazer a mesma coisa, e apanhar também.

-Mas por que batiam?

-Não queriam pagar o aluguel da casa que tomaram na marra. Depois, mexiam com as moças. Eu não deixava minha irmã sair, porque se mexessem com ela, eu não aguentaria e iria tirar satisfações, e então me batiam.

-E os israelenses?

-Não conhecemos ainda. Chegaram agora. Quando subiram a montanha, pusemos bandeiras brancas em nossas casas. E cumprimentamos todos. Estão nos dando água, mas queremos que restabeleçam a luz… Não pudemos ver a copa do mundo: é verdade que o Brasil perdeu? Vai nos faltar comida, em mais dez dias. Precisamos do telefone para avisar nossa colônia no Brasil para nos mandar ajuda. E pedir que o banco de Shtoura abra de novo, para que possamos tirar dinheiro.

Trovões em Al Bireh. Vai chover?

-Não, estão em exercício — responde um oficial israelense.

Lá embaixo, na direção de Beirute, um caminhão com crianças saltaria sobre uma mina antitanque síria. Seis mortos. O grupo ia colher cerejas no vale de Bekaa, que do chão mostra outra paisagem: dezenas de tanques sírios destruídos, casas derrubadas, movimentação de tropas, “aquela chuva de bombas” que pode recomeçar a qualquer momento. Al Bireh está a três quilômetros da frente de combates.

Tiro em Londres. Guerra total no Líbano.

Inimigos mortais, depois parceiros em busca da paz (Foto: CBS)
Inimigos mortais, depois parceiros em busca da paz. (Foto: CBS 
Shlomo Argov

Shlomo Argov

O embaixador israelense em Londres,

Shlomo Argov, é baleado na cabeça por

terroristas palestinos. Era o que o general Ariel

Sharon esperava para caçar Arafat

e expulsá-lo do Líbano.

Vieram pelo mar Mediterrâneo, envolvendo-se de ar térmico contra mísseis infravermelhos, e lançaram o ataque mais devastador sofrido por Beirute desde o último bombardeio de 24 de julho do ano passado (1981). Em sete ondas sucessivas, das 15h15 às 18h15, os aviões israelenses despejaram bombas sobre objetivos pré-selecionados da OLP, atingindo-os com impactos diretos, e provocando incêndios, grandes explosões – “um pânico indescritível”, como narraram as rádios libanesas. A represália de Israel ao atentado contra o seu embaixador em Londres prosseguia ainda de noite, com a artilharia de longo alcance disparando contra baterias de foguetes Katiushas, no sul do Líbano.

“Não há mais cessar-fogo”, explicou o porta-voz do primeiro-ministro Menachem Béguin. “Aqui, não cairá mais Katiushas”, prometia o ministro Yacoov Meridor, na alta Galileia, confortando a população dentro dos abrigos antiaéreos, depois que uma salva de 20 foguetes matou um homem ao volante de seu carro, ferindo outras quatro pessoas, no começo da noite.

— O exército cumprirá esta promessa – ainda acrescentou o ministro Meridor. Outras fontes do governo, durante o dia, falavam em “exterminar a OLP”, ou em “dar o golpe final contra os terroristas no Líbano”. E se assim for, o cálculo de 30 mortos e de 120 feridos, provisório, na noite de ontem, pode ser apenas um trágico começo de uma guerra total, o ministro da Defesa anunciando que “não vamos entrar numa nova guerra de desgaste”.

Através de seus próprios serviços de informações, Israel já tinha concluído, pela manhã de ontem, que seu embaixador em Londres fora atacado, durante a madrugada, por terroristas árabes. Shlomo Argov, há três anos na Inglaterra, foi baleado, na cabeça, com uma pistola de nove milímetros, polonesa, quando se retirava de um jantar diplomático, no hotel Dorchester, em Park Lane, e encontra-se em estado crítico, no Hospital Nacional.

Para algumas fontes israelenses, Londres teria sido escolhida para o atentado “por parecer um terreno propício, depois da divulgação, sistemática, pelo governo britânico, de que Israel vinha fornecendo armamento à Argentina, clandestinamente” (era o início da Guerra das Malvinas). Haveria, na Inglaterra, assim, um clima anti-israelense, e por isso lá ocorreu o atentado, e não na Itália ou na Alemanha Federal, como era antecipado em Israel, com agentes infiltrados no mundo da guerrilha palestina na Europa.

Prevendo um atentado que marcaria os 15 anos da Guerra dos Seis Dias, exatamente hoje, diversas fontes israelenses passaram as duas últimas semanas advertindo publicamente a OLP: “o cessar fogo”, rompido duas vezes desde julho do ano passado, “envolve também todas as instituições judaicas no exterior, e não apenas a fronteira, no sul do Líbano”.

Após o atentado da madrugada de ontem, nenhum membro do governo de Israel repetiu qualquer ameaça. Este silêncio, raro, provocou o alerta máximo para a OLP, em todo o Líbano. Nas ruas, os israelenses, escutando “o céu carregado”, bombardeiros rompendo a barreira do som, previam, de uma forma geral:

— Vai ser um terrível golpe…

Caças israelenses a caminho do Líbano. photo credit: Thibaud Saintin via photopin cc

Caças israelenses a caminho do Líbano. photo credit: Thibaud Saintin via photopin cc

Antes que Londres revelasse a nacionalidade dos passaportes dos suspeitos presos, entre eles dois jordanianos, um iraniano e um sírio, o porta-voz do Ministério do Exterior, Avi Pazner, já anunciava:

— Não há dúvida de que terroristas árabes são os responsáveis.

Pazner acrescentaria, também, que “todas as organizações terroristas árabes tem seus QGs no Líbano”, indicando o objetivo de uma iminente represália israelense, e ainda revelaria, concluindo, que todas as representações israelenses no exterior já haviam recebido ordens para redobrar a segurança contra “uma nova onda de atentados”. Há dois meses, o segundo secretário da embaixada de Israel em Paris, Yacoov Bar-Simantov, foi assassinado, com um tiro na cabeça. Há dois anos, no mesmo centro londrino, em Park Lane, morreu uma aeromoça da El-Al, num ataque ao ônibus que transportava a tripulação israelense. Em 17/04/1971, o cônsul de Israel em Istambul, Ephraim El-Rom, apareceu morto, após ser sequestrado. Em 13/11/79, o embaixador em Lisboa, Ephraim Elder, foi baleado na perna. Recentemente, dois escritórios israelenses, um em Roma e outro em Paris, também foram atacados.

Saindo de uma reunião do governo de que nada filtrou, o chanceler Shamir apenas diria, “chocado”:

— Árabes terroristas…

Os aviões partiram, mesmo que o Shabat estivesse para começar. A última vez que atacaram em Beirute, em julho do ano passado, deixaram o trágico saldo de 180 mortos. As primeiras bombas caíram perto da concorrida rua Jaloul, visando a tribuna do estádio de futebol transformada em depósito de armas e munição da OLP. Depois, sucessivamente, em ondas que se repetiam a cada meia hora, bombardearam um centro de treinamento do El-Fath, ou “o Relâmpago”, de Yasser Arafat; a base da “Força 17”, que é um grupo especial dentro da OLP; e a entrada que leva ao aeroporto internacional, guardada por palestinos e por soldados sírios da “força de dissuasão árabe”. Segundo o porta-voz militar, em Jerusalém, os aviões “encontraram pouco fogo antiaéreo” – mas ele não revelou que aparelhos estavam sendo usados na operação. A aviação Síria não apareceu sob os céus de Beirute, como nos últimos dois raids aéreos israelenses.

Os campos de Sabra e Chatila também foram acertados – e, pela primeira vez, também a casa de Yasser Arafat, em Bahane, ao sul da cidade, mas ele estava na Arábia Saudita, tentando uma mediação para uma outra guerra, a do Iraque – Iran.

A OLP desmentiu qualquer responsabilidade no atentado em Londres, condenando-o, mas para Israel “a OLP não tem credibilidade, nem para desmentidos”. Só duas horas depois de iniciado o ataque, o porta-voz militar, em Jerusalém, o confirmou, publicando um comunicado oficial:

“Após o ataque criminoso contra o embaixador de Israel em Londres, Shlomo Argov, e após múltiplas violações do cessar-fogo de julho de 1981, o governo deu ordens ao exército de atacar objetivos terroristas no Líbano”.

Um ministro, Yitzhak Modai, explicando então o ataque, declarou: “O preço da nossa moderação tornou-se muito alto. Isto não podia continuar…”.

Beirute em chamas (photo credit: JiPs☆STiCk via photopin cc)

Beirute em chamas (photo credit: JiPs☆STiCk via photopin cc)

O secretário de Estado norte-americano, Alexander Haig, defendeu a represália israelense, dizendo que “Israel mostra ao mundo que ataques terroristas não ficarão impunes”. Mas o Departamento de Estado, em Washington, expressava “uma profunda preocupação com a nova onda de violência”, à véspera da quinta visita de seu diplomata Philip Habib, que obteve o último cessar-fogo, agora inexistente. Ele chega na segunda-feira, a Beirute, enviado pelo presidente Ronald Reagan. Os Estados Unidos consideram que “o cessar-fogo ainda é valido, embora frágil”. A Inglaterra e a ONU foram os primeiros a enviar notas de condenação ao atentado em Londres ao primeiro-ministro Menachem Béguin.

Reagindo ao ataque à Beirute, as baterias de foguetes Katiushas, no sul do Líbano, abriram fogo contra aldeias israelenses da alta Galileia. Os aviões reapareceram, bombardeando uma área entre o porto de Sidon e Nabatyie, ao mesmo tempo em que entrava em ação a artilharia de longo alcance.

O duelo, na fronteira, prosseguia na noite de ontem, toda a população da Galileia dentro dos abrigos antiaéreos. Um diplomata via um grande perigo neste duelo, “embora a represália israelense já tenha sido desproporcional ao atentado”. Lembrava-se que as tropas de Israel estão reforçadas na fronteira, ao norte, desde a anexação do Golan Sírio, “e elas podem avançar, invadindo o Líbano para destruir as rampas de lançamento de foguetes”.