O livro de ouro dos mórmons

O anjo com trombeta é Moroni.

Um novo mórmon a cada 90 segundos, ou 950 por dia, 350 mil por ano, e uma receita anual de US$5,9 bilhões, dão hoje à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias um reino espiritual de 10 milhões de fiéis e um império material de mais de US$30 bilhões, reinvestidos na expansão mundial que só em São Paulo já inclui a construção de 90 novas capelas.

“Estamos construindo casas de Deus para o próximo milênio” – diz via Internet (www.lds.org) o atual “profeta” dos mórmons, Gordon B. Hinckley, presidente da LDS, acrônimo em inglês de Latter-day Saints, ou Santos dos Últimos Dias, como é mais conhecida a igreja mormônica em sua “terra prometida”, Salt Lake City, em Utah, no oeste norte-americano.

A imobiliária paulista Sitehunters recebeu a incumbência de localizar 80 terrenos em São Paulo para a fundação de novas “estacas” (dioceses, atualmente 170 no Brasil); “alas” (paróquias, já 1.320); distritos (54); “ramos” (paróquias distritais, 263); e missões (hoje 23, com 3.700 missionários brasileiros e estrangeiros). O Brasil e o México são os países em que os mórmons mais crescem no mundo, depois dos Estados Unidos.

Os mórmons creem que Jesus Cristo, ao ressuscitar, tenha ido pregar aos indígenas americanos, que seriam uma das tribos de Israel reduzida à apostasia pelas igrejas cristãs do Velho Mundo. Para eles, Deus, em 1820, também restaurou a religião dos “últimos dias”, enviando o anjo Moroni para revelar novas escrituras a um simples menino de 14 anos, Joseph Smith, que morava numa fazenda perto Palmyra, em Nova York.

Templo Mórmon em São Paulo

Templo Mórmon em São Paulo

As revelações, em placas de ouro, escritas em “egípcio reformado” e atualizadas diretamente por Deus, Jesus Cristo, João Batista, São Pedro e São João, são o Livro de Mórmon, impresso por Smith em 1830. Uma de suas últimas revelações é a de que Jesus Cristo voltará à terra para reinar por mil anos. A nova Jerusalém será o Condado de Jackson, no Missouri, onde os LDS, abençoados por um milagre econômico que os colocou acima de empresas como a Nike e a Gap entre as 500 maiores da revista Fortune, já compraram 5.900 hectares de terra.

Capa da revista Time em agosto, vilipendiados quando se organizaram há 167 anos, mas hoje admirados, os mórmons têm 4 senadores, 28 deputados federais e 4 governadores nos Estados Unidos; e um vice-governador no Brasil, o cearense Moroni Torgni (PSDB); 56 mil missionários (3.700 no Brasil), 11.600 capelas e 50 templos em 160 países; 16 estações de rádio e 1 TV, a revista Deseret News, a cadeia de livraria Deseret Books, a Universidade Brigham Young em Utah, com uma extensão em Jerusalém, e a Faculdade Ricks, em Idaho; a maior produção mundial de carne e de amendoim, 50 fazendas, 100 propriedades pelo “Sistema de Bem-Estar”; indústrias de sabão e de enlatados de atum e pêssego em calda; agências de viagem, imobiliárias e companhia de seguro.

O material e o espiritual não brigam entre os Santos dos Últimos Dias. O bispo paulista Vladimir Campione, de 43 anos, até mesmo os corporifica, ganhando a vida (temporal) com uma empresa de marketing.

Estado – Ninguém melhor do que o senhor poderia explicar qual o marketing de tanto sucesso mundial dos mórmons…

Bispo VC – É o marketing boca a boca. Mas o sucesso não está ligado a marketing. O que conta, realmente, é o entendimento de nossa mensagem, tão limpa, tão clara! Não nos consideramos os donos da verdade. Cada qual deve decidir-se por si próprio se entra ou não para a igreja.

Estado – No seu caso, como foi?

Bispo VC – Um amigo me convidou para visitar a igreja numa noite cultural. Os mórmons também se divertem! Um ancião simpático cantava, a voz trêmula. Senti empatia por todo lado. Ninguém gritava: “Aleluia!” Se ouvisse um desses gritos, daria no pé.

Campione ainda participou de uma “reunião sacramental”, o equivalente à missa, mas o vinho substituído por água, que os mórmons não bebem álcool, nem café ou chá preto. Tinha 20 anos. Era católico, não praticante. Seduziu-o não ser forçado a crer, “só a compreender”. Então, concluiu: “Esta é a igreja do politicamente correto” – embora até 1978 os mais baixos escalões em sua hierarquia fossem proibidos aos negros, e a poligamia ter vigorado por 49 anos, a partir de 1831, quando a sancionou o primeiro “profeta” Joseph Smith, sucedido pelo “profeta” Brigham Young (1801-1877), que já teve 17 mulheres e 56 filhos.

“É vedada qualquer discriminação de raça, sexo, cor, origem, condição social e idade”, advertem hoje os Santos dos Últimos Dias em placas visíveis em toda congregação. Aberta aos negros, a igreja conquistou 110 mil fiéis em 24 países africanos. Também alçou aos quadros da direção mundial um negro brasileiro, Helvécio Martins, ex-professor de economia da UFRJ.

A bandeira brasileira está içada entre a capela e o único templo da igreja no Brasil, o primeiro da América do Sul, construído há 19 anos num terreno de 21 mil metros quadrados na avenida Francisco Morato, 2.430, no Caxingui, em São Paulo. “Simboliza nosso respeito ao governo e às leis”, explica o bispo Campione. “Não nos importa o partido que detém o poder”, ele ainda ressalta. “Um fiel pode ser petista, ou psdebista, mas dentro da igreja ninguém faz política, nem usa ou empresta a listagem de nomes e endereços para correio político”.

Os mórmons (“superiormente bons”, em “egípcio reformado”) têm a reputação de incorruptíveis. A central de inteligência dos Estados Unidos (a CIA) e também o FBI, a polícia federal, os cortejam querendo empregá-los. No Brasil dos anões do orçamento, do escândalo dos precatórios, da compra de votos e do “frangogate”, eles enfrentam problemas. Um “habite-se” que pode ser concedido rapidamente, estimulado por propina, leva meses para os Santos dos Últimos Dias. Com despachantes proibidos de subornar, também fica emperrada a liberação de equipamentos importados da igreja matriz em Salt Lake City. “Mas ser mórmon não confere a ninguém um atestado automático de incorruptibilidade”, alerta o bispo Campione. “Não é assim, bambambã: não há perfeitos na igreja”.

Estado – Como é ser incorruptível em meio a tanta corrupção?

Missionário Joshua Carr – Temos que viver no mundo, mas não como o mundo vive…

Estado – Um notório corrupto pode se tornar mórmon?

Carr – São três os princípios básicos da conversão: fé, arrependimento e batismo. Quem passar por estes três estágios, e com sinceridade, não será mais corrupto – mas um mórmon.

Inconfundíveis, esses missionários: cabelo cortado à escovinha, camisa branca de manga curta, gravata e um crachá preto no peito, e a aura de quem “encontrou o caminho na vida”. Confiantes e sorridentes, eles batem de porta em porta como vendedoras de cosméticos da Avon. Andam em dupla, mas não escolhem o parceiro. Têm entre 18 e 26 anos. Servem no mundo, mas não escolhem o país – os homens, por 2 anos; e as mulheres, 18 meses. Não ganham um centavo: são sustentados pela própria família.

O missionário Joshua Carr, de 20 anos, nascido na pecaminosa Las Vegas, está encerrando sua temporada no Brasil. Logo voltará à “terra prometida”, Salt Lake City, para estudar Odontologia. Acabado de chegar de Paradise (Paraíso), na Califórnia, Bryan Reeve, de 19 anos, tem dois anos pela frente. Ambos são fluentes em português, a língua mais falada pelos mórmons depois do inglês e espanhol, ensinada no centro de treinamento de Provo, em Utah, onde há cursos de 41 idiomas.

“O brasileiro é um povo abençoado”, acreditam Carr e Reeve, testemunhas e promotores da taxa explosiva de conversões ao mormonismo. Os pioneiros Santos dos Últimos Dias no Brasil foram imigrantes alemães que chegaram em 1923. Os primeiros missionários de Utah os reforçaram em 1928. A primeira igreja da América do Sul surgiu em Joinville, em Santa Catarina, em 1931. A literatura mormônica começou a ser traduzida para o português em 1938. E o “profeta” Gordon B. Hinckley acabou de declarar, via Internet, que “Campinas (SP) tem grande necessidade de um templo”.

Estado – O que os missionários dizem de tão convincente?

Carr e Reeve – Temos uma técnica: focalizamos áreas em particular. Auto-suficiência, por exemplo. Mostramos como é importante ser independente, estudar, ter emprego. E convidamos todos a visitar a igreja. Quem vier verá o que somos. Mas em nossas capelas não forçamos a evangelização.

Estado – Qual é a mensagem?

   Carr – Uma mensagem forte… muito forte. Mensagem de família e de respeito. Primeiro, fé em Jesus Cristo; segundo, arrependimento; e terceiro, batismo por imersão para remissão dos pecados.

Os Santos dos Últimos Dias não acreditam em pecado original. “Cremos que os homens serão punidos pelos seus próprios pecados e não pela transgressão de Adão”, disse o primeiro profeta, Joseph Smith. A teologia mórmon reconhece “ser a Bíblia a palavra de Deus”, mas acrescenta-lhe o Livro de mórmon, com as novas revelações já feitas ou que ainda serão feitas a “profetas vivos”. Os missionários pregam a honestidade, castidade, benevolência e virtuosidade; a submissão a reis, presidentes, governadores e juizes; e acenam com uma futura “coligação de Israel” e a restauração das Dez Tribos numa Sião no continente americano.

Os pioneiros

Os pioneiros

Não há crucifixos nas capelas. Nem imagem de santos. Os templos são proibidos aos não-iniciados porque usados exclusivamente para rituais sagrados, como o “selamento” (casamento) e a “ordenança para os mortos” (batismo por procuração para a salvação de ancestrais dos fiéis).

Os mórmons não casam “até que a morte os separe”, mas para a eternidade. E como podem salvar antepassados, reuniram o maior acervo genealógico do mundo, com 7 milhões de livros de 300 páginas cada, repletos de registros microfilmados, mesmo de brasileiros, copiados em cartórios, cemitérios e em listas de navios negreiros. Os originais estão guardados numa biblioteca perfurada numa montanha de granito em Salt Lake City, protegidos de explosão nuclear ou do impacto direto de mísseis, com um sistema de refrigeração munido de filtros que vedam não só o pó, mas também a poeira radioativa. Em São Paulo, o arquivo é muito procurado por descendentes de europeus que querem um passaporte da União Européia.

O templo paulista dos Santos dos Últimos Dias só permaneceu aberto à visitação pública entre 5 e 29 de setembro de 1978, quando foi purificado “por recomendação” de Cristo. Construído “para Deus”, ele é “eterno”, todo em mármore, à prova de terremoto, decorado com cortina e carpete antifogo, e equipado com uma infra-estrutura de tratamento de água e ar comandada por computador. Uma agulha de 30 metros banhada a ouro o identifica em meio aos fast-food, postos de gasolina e um shopping-center no Caxingui, ao lado do bairro chique do Morumbi.

Os jardins em volta do templo são bem cuidados. A fonte, funcionando. Árvores dão sombra ao grande estacionamento, todo demarcado. Um oásis de silêncio com 4.925 metros quadrados, num terreno cinco vezes maior. Relatos da época em que 47 mil pessoas o visitaram destacam uma pia batismal sobre 12 bois representando as tribos de Israel. Uma entre 76 salas é a “Celestial”, com lustres e espelhos que refletem “o infinito”. Outra, a das noivas, tem um guarda-roupa com vestidos para o “selamento”. Nos fundos, os prédios da administração e alojamento para peregrinos de todo o Brasil.

Lembra os escritórios de grandes empresas americanas. Computador nas mesas das secretárias diante das salas dos executivos mórmons. Mulheres de saias que terminam nos tênis. Os homens de gravata – e há feições de todo o mundo. Nos cartões de visita, o nome dominante é Jesus Cristo – e, depois, pequeno, por exemplo, Antonio Fernandes, o diretor de Assuntos Públicos dos Santos dos Últimos Dias. A maioria tem e-mail, fax, telefone e celular.

Ex-radialista no Recife, Antonio Fernandes hoje conversa com o “profeta” durante freqüentes teleconferências. Numa quinta-feira de 1990 ele abriu a porta para dois missionários que perguntavam por um vizinho. No domingo já era mais um mórmon. “Assim descobri esta igreja”. Como todos os fiéis, 10% de sua renda bruta anual vão para os Santos dos Últimos Dias. O editor da revista mormônica independente Sunstone, Elbert Peck, contou à Time que a igreja-matriz em Salt Lake City controla cada centavo arrecadado e depositado em bancos. Em 1997, foram US$5,2 bilhões, dos quais US$300 milhões enviados de fora dos Estados Unidos.

Mas Antonio Fernandes também jejua no primeiro domingo de cada mês e dá aos Santos dos Últimos Dias mais o equivalente a duas refeições, R$10. Os mórmons são generosos nos donativos. Construíram galpões para abrigar os sem-teto do terremoto de 1988 na Armênia. Contribuem com hospitais infantis e bancos de alimentos. E doaram US$100 milhões para um centro de câncer da Universidade de Utah. O que os diferencia das outras religiões que coletam dízimo, porém, é a capacidade única de multiplicar o dinheiro. Para a Time, pelo menos US$6 bilhões são investidos diretamente nas próprias empresas agrícolas, imobiliárias, agências de viagem, companhias de seguro e mídia. E os investimentos dão um retorno que excede US$600 milhões.

“A igreja ampara os fiéis desempregados ou que estejam em dificuldade”, diz Antonio Fernandes. Os Santos dos Últimos Dias abriram 97 agências de emprego nos Estados Unidos. Cada mórmon, porém, deve estocar alimentos e água em casa para um ano. Preparam-se, pois Cristo voltará ao fim de um período de muita flagelação. Na Praça do Bem-Estar, em Salt Lake City, estão estocados 9 milhões de quilos de trigo, o suficiente para alimentar uma pequena cidade por seis meses.

“Eu já usei minha dispensa uma vez”, comenta Antonio Fernandes.

Não é por acaso que o “guru da reengenharia da alma”, Stephen Covey, autor do bestseller Os Sete Hábitos das Pessoas Muito Eficazes, é mórmon, nascido em Utah, onde, ao chegar há exatos 150 anos, num êxodo de 2.092 quilômetros, fugindo de assassinos que mataram o “profeta” Joseph Smith a sudoeste de Nauoo, em Illinois, declarou solenemente o segundo “profeta” Brigham Young, como se avistando a Terra Prometida:

“Este é o lugar!”.

E plantou a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, que terá 260 milhões de fiéis em 2080, no Brasil e no mundo, num cálculo feito para a Time pelo sociólogo Rodney Stark, da Universidade de Washington.

Nota:

Artigo publicado em 1997 em O Estado de S. Paulo. Os números não estão atualizados.