GOTAS DE SANGUE NO SERINGAL

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XAPURI, 27/02/1997  – Gotas de leite pingam da seringueira ferida. Até estancar vão encher três colheres de sopa – a dose diária. Em um mês de sangradouro, darão 1 quilo e 800 gramas. Cada quilo está valendo R$ 0,60, embora cotado a R$ 1,30. Com uma “estrada de 150 pés”, o seringueiro Manoel Barbosa de Brito faz R$ 13,50 por mês, na selva no fim do Brasil, quase Bolívia, a três horas de barco de Xapuri, no Acre. Seringais abandonados, cidades incham com os miseráveis ex-protetores da floresta em busca de trabalho inexistente. A herança do líder seringueiro Chico Mendes está se exaurindo, como uma seringueira seca, coberta de cicatrizes.

“Não quero flores no meu enterro, pois sei que vão arrancá-las da floresta”, pediu Chico Mendes numa palestra em São Paulo, 17 dias antes de ser assassinado por um tiro de escopeta que lhe abriu 48 perfurações no corpo. Mas flores lilases nasceram em seu túmulo. Arrancados da floresta, os seringueiros do Acre estão hoje em três ônibus a caminho de Brasília. Querem falar com o presidente Fernando Henrique Cardoso. E vão esperá-lo acampados diante do Palácio do Planalto na segunda e terça-feira.

xapuri-acre  O padroeiro de Xapuri lembra uma seringueira ferida. Da estátua de São Sebastião, no porto em que os Rios Acre e Xapuri se encontram, o sangue escorre como látex. Foi por acaso que o seringalista Antero Almeida da Silva encostou-se na estátua para lamuriar-se: “Já produzi num ano 143 toneladas de borracha, mas não ganhei nada.” Aos 57 anos, 31 no seringal, ele não ganhou nem mesmo um sucessor entre os dez filhos. “Nenhum quer ir para lá”, diz, apontando para além da confluência dos rios, onde brincam três botos-rosa. “Lá na mata, o quilo da borracha está a R$ 0,60.” Desembarcada no porto, a borracha pode valer R$ 0,80. “Só em 96 gastei R$ 2 mil com transporte de seringueiros doentes.” Para ele, “não dá para o Brasil competir com a borracha da Ásia”.

Os seringueiros da Amazônia produziram 4 mil toneladas de borracha em 96.

Outras 37 mil toneladas foram extraídas de seringais em Mato Grosso, São Paulo e Bahia. Com uma produção de 41 mil toneladas, o Brasil consome 145 mil toneladas. “E já fomos responsáveis por 100% da produção de borracha no mundo”, lembra o vice-presidente do Conselho Nacional de Seringueiros (CNS), Juarez Leitão dos Santos. A reviravolta é creditada a um inglês, Sir Henry Wickham. Em 1876, ele contrabandeou 70 mil sementes da seringueira Hevea brasiliensis, “a que dá o látex mais puro”. Levadas para a Malásia, Indonésia, Vietnã e Tailândia, hoje produzem borracha que vai custar US$ 2 o quilo, depois de beneficiada. A produção brasileira chega ao beneficiamento por três dólares.

FESTA NO SERINGAL, POR ÂNGELA GOMES

FESTA NO SERINGAL, POR ÂNGELA GOMES

“Todo mundo vem para a Amazônia saquear; ninguém para investir”, reclama Leitão dos Santos, caminhando sobre bolas de borracha defumada de uma praça dedicada aos seringueiros em Rio Branco, a 185 quilômetros de buracos e lama de Xapuri, centro da Reserva Extrativista Chico Mendes, espalhada por sete municípios, com 9.705 quilômetros quadrados. Ele ainda lembra um aspecto social muito importante: comprar da Malásia “é premiar um trabalho sob péssimas condições sociais”, enquanto “o correto seria investir nas 22 mil famílias que sobrevivem do extrativismo só no Acre”.

“Uma espingarda custava 20 quilos de borracha em 1948”, conta Leitão dos Santos. O auge da borracha passou com a Segunda Guerra Mundial. E a “degradação” veio com a borracha sintética. “Hoje não se compra uma espingarda por menos de 400 quilos”, ele acrescenta. Os soldados da borracha de um exército instituído pelo presidente Getúlio Vargas, como alternativa à convocação para a guerra, voltaram endinheirados às suas cidades, a maioria no Ceará. Restam alguns soldados aposentados em Xapuri. Vendem picolé de cupuaçu a R$ 0,10 pelas ruas. “Até o presidente Collor, trocava-se 1 quilo de borracha por 1 de carne, mas desde então viramos miseráveis”, conta Leitão dos Santos.

Alistada no exército da borracha aos 13 anos, em 1943, Lindaura Viana da Silva passou para a “reserva” em 1968. É a dona do Hotel Veneza, o único recomendável de Xapuri, com 20 quartos recendendo a mofo e várias paredes grafitadas por hóspedes, dispensando quadros. Grudada ao lado do seio esquerdo, quase à mostra, uma folha de capeba combate um tumor crescente e dolorido. Ela tem também uma receita caseira para a penúria que corrói a cidade que Chico Mendes tornou famosa mundialmente: “Não corta seringa tem que quebrar castanha.” Mas é o que fazem os seringueiros isolados na floresta. Só que ganham R$ 0,80 por lata com 18 quilos de castanha. Como a borracha, “o preço não compensa”.

seringueiro Numa palafita à margem do igarapé Riozinho, a uma hora por voadeira Rio Xapuri acima, Sebastião Diogo, de 58 anos, vai além: planta milho, arroz e banana.

“Com o seringal não dá nem para comprar sal”, rima e reclama. Por baixo da casa ciscam galinhas, patos e chafurdam leitões. A família pisa na lama descalça. E reza com vizinhos distantes, aos domingos, numa pequena capela levantada nos fundos. Padre Luiz vem num lento barco a motor. Daria um dia de viagem desde Xapuri, remando. A clareira até a floresta torna-se fechada e densa e lembra alguma obra do polonês Frans Krajberg, com árvores derrubadas e troncos calcinados.

Com R$ 13,50 por mês, o seringueiro Manoel Barbosa de Brito, de 58 anos, não poderia viver. Então, ele vai trocando, aos poucos, a borracha por arroz. A caminho do arrozal, ainda “risca” algumas “madeiras”, como diz. Faz um corte diagonal, em 1/3 da circunferência do tronco, e espera sangrar. O látex cai numa latinha que recolherá quando voltar, já anoitecendo. Tem 150 pés, numa “estrada” imaginária, sem ser contínua. Os troncos próximos mostram cicatrizes antigas. São árvores no auge da safra, entre 15 e 30 anos. Um filho de 10 anos, Marivaldo, vai junto “para aprender”. Também já está riscando. O próprio Chico Mendes às vezes o acompanhava. “Éramos muito amigos; vivo hoje, ele não permitiria que os preços caíssem a ponto de nos ameaçar.” Rio Xapuri abaixo, o seringueiro Francisco Roque, de 48 anos, também diz que “está faltando um líder como foi Chico Mendes”. E explica: “O homem sabia apertar os políticos em Brasília.” Mas ele lembra que “já houve tempos piores”, sem que lhe ocorram exemplos. Para safar-se da crise, diversificou a produção.

Tornou-se um modelo apresentado num programa nacional de tevê. No sítio que divide com o irmão e a avó de 80 anos, Judite, tem arroz, milho, banana, castanha, animais e 200 seringueiras. Planta até a palmeira aricuri para as folhas que servem de teto. E os urucuzeiros estão em flor, pontilhando a floresta de vermelho.

Roque vive num oásis dentro do caos, sob a proteção de São Sebastião, que zela em vários quadros do alpendre o mundo líquido de sangue, látex e rio caudaloso e barrento. O extremo oposto está na Sibéria, um bairro de Xapuri em que vivem Joana Batista de Oliveira e seus sete filhos – a família de Pelé, como é conhecido Antônio Marcelino Pereira, um seringueiro que fugiu da floresta para o desemprego na cidade. Ele só aparece aos sábados, vindo de biscates distantes.

“Aqui sofremos mais do que no seringal”, lamenta Joana, gêmeos de dois anos no colo. O quartinho em que dormem amontoados em redes foi dado por um compadre.

“É difícil ter comida.” Os filhos maiores não estudam nem trabalham.

“Estaríamos todos nus se não ganhássemos roupas.” E ela própria está fraquejando: “Comecei a sentir falta de ar e doidice na cabeça.” Crianças chorando, o quarto quente como sauna com o fogão a lenha queimando, ela não perde o humor: “Aqui só está faltando uma tevê.” E ri sozinha.

De Xapuri emana um humor mórbido. Ao lado do cemitério, na entrada da cidade, foi inaugurado um clube de dança batizado de Pé na Cova. Ainda há outros: Pau do Meio, Periquitão, Espoca Chato e Forró do Gavião. Baila-se a partir de quinta-feira até o domingo, todas as noites, como na época áurea do boom da borracha. “Tivemos o melhor carnaval dos últimos tempos”, dizem saudosos foliões. Prefeito há 50 dias, Júlio Barbosa de Aquino, o sucessor de Chico Mendes no Sindicato Rural de Xapuri, tem uma explicação: “Aqui tudo funciona como enfeite de boneca.”

RIO ACRE

RIO ACRE

Queremos Viver

 

No post anterior, morte. Uma semana depois, vida.O casal setuagenário que procura um médico que o mate reencontrou o filho médico distante há cinco anos. Mas não foi uma reconciliação. “O que você quer?”, perguntou-lhe o pai, o publicitário aposentado Murillo Ferreira, enquanto a mãe, Arminda, estava sentada no sofá da sala, onde passa os dias abatida pelo mal de Alzheimer.

   “A reportagem…”, respondeu o médico cujo nome o pai pede para não ser revelado. A reportagem, na capa do Estadão de domingo, “Por favor, queremos morrer”, conta o drama de um casal junto há 53 anos, solitário após uma vida rica em amigos, doente e amargurado pelo abandono do filho médico e de um outro que não dá notícias desde 1982, quando foi morar em Salvador.

   Murillo achou que o filho ia criticá-lo por ter provocado “a reportagem” com uma carta ao Estadão em que defende o “direito de morrer”, atestando: “…é o que queremos, eu e minha mulher”. Acrescenta: “Os nossos corações já estão rateando. Os pulmões, tocando os seus foles. A cabeça, já meio louca, coitada, fazendo o que pode. O corpo trasteja, se fere, fratura, desgasta. As pernas, já não mais tão serviçais, estão cansadas, com mais de 70 anos cada uma. Tudo isso como dói! Dói por dentro, dói por fora. Aliás, a dor é o melhor sinal da vida. Só não dói depois da morte. Por tudo isso é que resolvemos deixar de sentir dor…”

   Mas o filho nada mais falou. Nem Murillo. E nem Arminda. Ela fez várias vezes o sinal da cruz, seu tique nervoso. Ainda ontem vestia a mesma calça e blusa de uma semana atrás, ela que foi uma mulher muito elegante. Viu-se no jornal, mas nada comentou.

   “Ficamos como imbecis, sem diálogo”, comentou Murillo. “Aí meu filho se levantou e foi embora”. Só depois é que ele se lembrou que Arminda toma um remédio que agora requer receita médica. E que o filho talvez poderia dá-la.

   “A reportagem” não sensibilizou só o filho de Murillo. Desencadeou uma avalanche de cartas e telefonemas de solidariedade ao casal, recebidos pelo Estadão. Muitas pessoas estão se oferecendo como companhias, enfermeiras se voluntariam para cuidar de Arminda, asilos e casas de repouso abrem espaço aos dois, médicos se colocam à disposição, religiosos querem dar amparo espiritual, jovens pedem o endereço para levar doces e antigos amigos reaparecem, chocados, propondo “resgatá-los para a vida”. Ao final de seu programa, anteontem à noite, Hebe Camargo criticou os filhos que abandonaram os pais.

   Murillo chorou ao ler a carta do amigo Hugo Maia, publicada ontem no Estadão. “Não consegui terminar”, ele contou. “As lágrimas saíram aos borbotões”. Foi um alívio: “Esvaziou a pressão permanente dentro de mim”. Para um casal que há quatro anos só recebeu em casa a faxineira diária e o repórter, na semana passada, a solidariedade geral emocionou. Arminda não fala, mas está visivelmente mais ativa. “O assunto” (a eutanásia) que a deixa nervosa não é mais a única conversa. Os moradores do prédio bateram à porta para oferecer apoio e esperança. Mas o casal não convidou ninguém para entrar. E não autorizou o Estadão a fornecer o endereço ou o telefone a quem está procurando um contato.

   “Essa homenagem em vida me faz querer morrer mil vezes”, Murillo comentou ontem, com uma ponta de morbidez.

Queremos morrer

Casal pediu ajuda para morrer, em carta a jornal.

Escrevi esta reportagem que foi a que mais repercutiu em meus 45 anos de repórter.

Tanta repercussão, que o casal decidiu viver, uma semana depois.

Hoje, marido e mulher estão mortos.

Morreram de causas naturais, num asilo no interior de São Paulo.

Morte e vida, Gustav Klimt.

Morte e vida, Gustav Klimt.

Casal setuagenário procura médico que o mate sem dor, com uma injeção. “Direito de morrer: é o que queremos, eu e minha mulher” – atesta Murillo B. Ferreira, 75 anos, numa carta ao jornal O Estado de S. Paulo. “Queremos morrer de braços dados, juntos como há 53 anos”, ele confirma ao receber num pequeno apartamento “uma segunda pessoa (o repórter) em quatro anos” – a primeira foi e continua sendo a faxineira diária.

  No meio do sofá de uma sala estreita, no mesmo lugar onde passa as tardes sentada, óculos sobre o Caderno 2 todo dia destacado e dobrado para ser lido “depois”, como o próprio banho “há meses” adiado para “amanhã”, Arminda Ferreira, 73 anos, tem seu tique nervoso, um sinal da cruz, e põe a mão sobre a do marido com um doce sorriso: “Não digo sim nem não”, ela comenta sobre o “Assunto”, como se refere à eutanásia. Está com Alzheimer, a doença que levou a americana Janet Atkins a inaugurar a máquina de suicídio do Dr. Jack Kevorkian, conhecido por Dr. Morte nos Estados Unidos.

  Uma pintura a óleo na parede da sala de estar vazia mostra Arminda quando jovem, em 1952. Era tão bonita que levou Murillo a postar-se diante do colégio Caetano de Campos só para vê-la caminhar até o ponto de ônibus na praça da República. Um dia de 1938 conversaram. “Era só papinho, mas foi, foi e foi”, ele agora lembra. Em cinco anos, ela então formada professora, casaram-se. Foram morar em Perdizes, bairro aonde voltaram agora por coincidência, depois de inúmeros endereços abertos dentro e fora de São Paulo por uma vida muito agitada. Noutra parede há um retrato mais atual, pintado pela própria Arminda: uma floresta de árvores desfolhadas, sobre um fundo amarelo. O outono do casal? Não, pelo menos não era essa a intenção.

  Murillo é um homem muito organizado. Faz a lista dos congelados que vai encomendar para o mês, elabora um cardápio para a semana, dá baixa do que retira do freezer e pode acrescentar às vezes algum comentário sobre sabor e preço, tudo na sua portátil Remington 55. Já organizou a própria cremação. E se gaba de anotar tudo desde 1920. “Mas foi quando você nasceu!”, exclama Arminda. “Pois é: todos os acontecimentos estão registrados”, ele confirma. Até a lista do que mais o irrita, deixando-o “a ponto de explodir”, por causa de um “acúmulo tenebroso”, está datilografada, sobre a mesinha diante do sofá.

  Por exemplo: há dois meses deu um cheque de R$ 240 que o banco debitou

R$740. “Isso me apavora: não entendo um erro assim”. Segundo item da lista de “pesadelos” é um remédio antigo de Arminda que passou de repente a ser vendido só com receita médica. “Fui a um pronto-socorro, expus o problema, e um médico então deu a receita… Mas cobrando R$124”. Outro dia Murillo voltou ao banco e ficou hora e meia na fila esperando a reativação da rede de computadores, em pane. “Demais!”, protesta: “O homem já foi à lua e as máquinas aqui na terra ainda não funcionam!” O IPTU recebido sem a via do contribuinte… “É possível isso?” Com uma trombose na perna esquerda ele teve que sair para fazer um xerox.

  “Estou cercado de bombas de efeito retardado”, pressente Murillo. “Não sei onde nem quando vão estourar”. Arminda faz um sinal da cruz.

  O “B” do sobrenome de Murillo não aparecerá por extenso para não identificar os dois filhos do casal. Um é médico, casado com uma médica, mas distante há cinco anos, embora vivendo em São Paulo. “Nem manda mais telegrama no Dia das Mães”. E não sabe que os pais procuram um médico que os mate, esgotados de viver. “Está de bem com a vida e bem de vida”. O outro não dá notícias desde 1982. “Talvez ainda esteja morando em Salvador”. Seguindo um longo rastro de calote em dívidas deixado pelo filho, e que o pai foi pagando com a venda de imóveis, carro e as coleções de 1500 long-plays e de 3 mil livros, os dois enfim se reencontraram numa “favela” em Itaparica, na Bahia. Combinaram uma reunião familiar. “Então, ele aprontou mais uma atrapalhada, e agora nem sei se continua vivo”.

  Murillo é de Recife. Aos 14 anos, perdeu o pai Luiz Mateus Ferreira num sanatório de Davos, na Suíça. Era arquiteto formado na Alemanha e dirigia a Escola de Belas Artes de Pernambuco. A família visitava parentes na Europa quando a morte a desmembrou. A mãe alemã, quando voltaram ao Brasil, o colocou no internato do colégio Anglo-Brasileiro, no Rio de Janeiro. Em seis anos ela também morreria. “Com 20 anos não tinha mais ninguém”. Teve que se aprumar sozinho. “Queria subir na vida, progredir…” Talvez por isso, agora lamenta, “não tenha dado a devida atenção aos filhos”. Não que deixasse lhes faltar algo: “Tinham tudo e estudaram nos melhores colégios de São Paulo”. Mas restava pouca presença paterna.

  O sonho de Murillo era se tornar médico. Mas ele nem tentou realizá-lo porque teve que trabalhar logo que acabou o ginásio. “Eu me fiz”, orgulha-se. Foi publicitário nas agências Lintas e J. Walther Thompson. Deixou a propaganda quando “Chatô” (Assis Chateaubriand, dono da rede Associados de jornal e TV) o convidou para dirigir a área comercial das rádios Difusora e Farroupilha de Porto Alegre. Depois, por 12 anos, foi diretor comercial da TV Paulista e das rádios Excelsior e Nacional de São Paulo. “Hebe Camargo, Sílvio Santos, Golias…tinha contato com todos”. Mudou de ramo em 1969: tornou-se administrador da caderneta de poupança Delfin, empresa de crédito imobiliário. Aposentado em 1976, ele continuou trabalhando. Passou então pelo Diário do Nordeste, em Fortaleza. “O melhor ano de minha vida, esse de 1982”. Mas Arminda não se deu bem. “Desde 1970 ela já dava sinais de depressão”. Viviam bem. Tinham casa no Sumaré, eram sócios do Pinheiros, viajavam, muitos amigos os cercavam.

  “Dramático é chegar na situação em que estamos hoje”, lamenta Murillo. “Para”, pede Arminda. Mas ele continua: “Hoje não encontro uma pessoa conhecida em São Paulo”. E Arminda repete: “Chega”. Mas o marido insiste: “Impressionante! Como se fôssemos de Marte, uns E.Ts.. Restam-nos as lembranças”. Mas mesmo as lembranças são traiçoeiras. Como a viagem de ônibus entre Miami e Califórnia que fizeram em 1955, agora trazida à tona. Ela: “Ah, os sorvetes!” Ele: “Comemoramos o aniversário dela no Grand Canyon”. Ela: “Nova Orleans era tão bonita!” Ele: “Felizmente aprontamos”. E os dois desembocam rapidamente na tristeza do aqui agora.


Arminda vestia Clodovil. Encomendou-lhe especialmente o longo em que foi fotografada no casamento do filho. “Há cinco anos usa só duas calças e duas blusas”, conta Murillo. Ela fica mexendo nos botões, calada. No guarda-roupa teria múltiplas escolhas, mas sequer o visita, nem por curiosidade. “Se não a forço a trocar-se, ficaria sempre com a mesma roupa”. Sempre muito organizado, ele bolou uma lista com sugestões para a mulher distribuir o tempo, dividindo-o em blocos de dez dias. “Mas ela só fica sentada, dizendo: amanhã, amanhã… Isso me deixa mais doente”. O casal vive da aposentadoria e de “algumas aplicações”. E se rotula “classe média remediada”.

  Murillo conhece dois sintomas típicos da doença de Alzheimer, que provoca uma progressiva degeneração do cérebro: “Tendência ao suicídio ela não tem”, exclui um. Outro, sim: “Banho ela não toma”. Arminda reclama: “Tomo sim!” E ele rebate: “Já não sei mais quanto tempo faz que não ligo o gás do chuveiro para ela”. Seriam “meses”, garante. “Fico possesso”. Então, chega ao principal item da lista do que mais o irrita: “Alzheimer é irreversível e vai só se agravando”.

  A preocupação maior de Murillo é morrer antes de Arminda. Se só ficar doente já será um grande problema: “Ela não sabe nem mais preencher um cheque”. Ensinou-a o símbolo do Real, juntos rascunharam vários cheques, e passado um dia, esqueceu tudo. Uma vez, ele de cama, os dois morando em Guarujá, ela desceu para comprar pão. Não soube voltar. A um quarteirão de casa, e perdida. “Me desespero: era uma professora, hoje está nesse estado”.

Munch

Munch

Arminda desvia os olhos, não encara o marido. Fica catando alguma coisa na blusa. Ela tem duas irmãs. Murillo procurou uma delas, que “mora num apartamento grande”, filhos casados, e lhe perguntou se poderia recebê-la, mesmo provisoriamente, até que arrumasse vaga numa casa de repouso, caso ele morresse de repente. “Comprometia-me a deixar todas as despesas pagas”. Há quatro anos espera uma resposta. “Aí desisti de procurar a outra irmã”. Então concluiu: “Não temos ninguém”. Pior: “Se me acontecer algo, minha mulher entra em parafuso”.

  O pequeno escritório com a Remington e duas gravuras de Aldemir Martins na parede, “presentes do amigo Caio Alcântara Machado”, é o “inferninho” de Murillo. Gostaria de levá-lo para onde fosse. E aí começam os problemas com asilos e casas de repouso há três anos pesquisados. “Não há espaço para um pouco de independência nem gostam de receber casais”. A preferência por avulsos tem uma lógica comercial: “O casal ocupará um quarto por R$1.200 que renderia mais se dividido entre duas ou três pessoas a R$750 cada”. Ele tentou asilar-se pondo anúncio em quatro jornais. Uma oferta que recebeu prometia uma área verde para longos passeios. Na verdade, era uma praça diante da casa, “um depósito de velhos”. Tentou o interior: “Os telefones não atendem”. Encontrou uma exceção no Lar dos Velhinhos de Piracicaba, “uma cidade com 85 anos”. Mas lá não há vagas.

  Quando Arminda teve que operar o útero, em 1992, o “inferninho” e outras exigências acabaram esquecidos. O casal entrou para “um asilo 5 estrelas” da Sociedade Beneficente Alemã, no Butantã, que incluía assistência médica pós-operatória. Logo ganharam o apelido de “Casal 20”, porque mais novos que todos. “Éramos brotinhos em comparação aos outros; por isso, fomos discriminados”, Murillo lembra, hoje arrependido de ter saído após um ano. Sofria com a perda de independência. Queriam ampará-lo, e ele reagia. “Isso desagrada num asilo, e eu não estava preparado”. Aos poucos, porém, foi se convencendo de que até poderia se ajustar, numa nova temporada. A hipertensão, a trombose na perna esquerda e a hérnia inguinal neutralizaram sua compulsão pela liberdade de fazer o que bem quer.

  De 147 casas de repouso em São Paulo só se salva 1%, garante Murillo: “Entrei em lugares que são verdadeiras baias para cavalos, casos de polícia”. Na carta que enviou ao Estadão ele menciona uma reportagem publicada em fevereiro sobre os filões de produtos e serviços que fazem parte do mercado da Terceira Idade. E pergunta: “Neste filão não há asilos?” Ele mesmo tem a resposta: “Não encontrei”. É então que acrescenta: “Daí optamos, eu e minha mulher, para a eutanásia, o direito de morrer. Pensamos muito. Pensamos durante um longo tempo. Não temos dúvida sobre a nossa decisão”.

  Arminda faz um sinal da cruz: “Nem gosto de ouvir falar”. Murillo procura justificá-la: “Conversamos, mas ela não se fixa muito, esquecendo tudo dois minutos depois”. Ainda bem que “vive com ideias fixas”. Todo dia, quando acorda, ela faz tudo sempre igual. Pega um paninho e o passa nos parcos móveis da sala. Depois senta no lugar de sempre no sofá até o entardecer. Vê um pouco de TV antes de dormir. Adormece em 20 minutos. Se o marido sai, fica aflita. Se demora, vai capengando com muita dificuldade para o hall do 15º andar. Quer sempre a porta aberta para poder ficar ali, diante dos elevadores. Ela própria não sabe por quê. Faz três meses que ela esteve “lá fora”, na rua Cayowaá: foi ao cabeleireiro.

  “Estou desesperado, não aguento mais”, desabafa Murillo. Com carinho, ele chama a atenção de Arminda, o olhar perdido. “Vamos embora os dois juntos, e da melhor maneira possível… Sem dor… Uma injeção”. Como se despertasse, ela diz: “Essa prosa me deixa nervosa”. Ele então ameaça: “Se necessário for, tomo uma medida drástica, coisa que não quero”.

  Suicídio? Murillo garante que “método violento está fora”. Até porque “não teria coragem de matar Arminda”. Na carta ao Estadão ele justifica a opção pela eutanásia: “Somos um casal de setuagenários que já perdeu qualquer visão idílica de uma vida futura saudável, tranquila e segura. Não conseguimos afugentar os fantasmas da velhice. Não conseguimos assimilar as mudanças que ocorreram em nossas vidas. Queremos ter o direito de morrer. Os nossos corações já estão rateando. Os pulmões, tocando os seus foles. A cabeça, já meio louca, coitada, fazendo o que pode. O corpo trasteja, se fere, fratura, desgasta. As pernas, já não mais tão serviçais, estão cansadas, com mais de 70 anos cada uma. Tudo isso como doi! Doi por dentro, doi por fora. Aliás, a dor é o melhor sinal da vida. Só não doi depois da morte. Por tudo isso é que resolvemos deixar de sentir dor…”

  Se um médico aceitar o papel do Dr. Morte, Murillo quer um mês para organizar o fim. A cremação já está arranjada. Os bens, também já decidiu, serão doados ao Hospital do Câncer. A dúvida ainda é Arminda. Se não quiser ir junto, ele terá que encontrar alguém que zele por ela até morrer. “Então morrerei tranquilo”. No sofá, a mulher lhe estende a mão. E sorri solidária. Depois afasta a fumaça do cigarro esquecido pelo marido no cinzeiro. E faz um sinal da cruz.

  A despedida já foi escrita. É o final da carta ao Estadão: “Geramos filhos para que perpetuassem, bem ou mal – no nosso caso foi mais para o mal do que para o bem – a nossa passagem, com um nome, memórias, amor ou indiferenças e saudades ou esquecimentos. Tudo absolutamente ilusório. Já fomos fanáticos por ciclos de vitórias e derrotas, de alegrias e prantos, de lutas que começam num grito de choro e terminam num suspiro. O temido último suspiro. Não o tememos mais… A gente vive um sonho de carne e osso, que acaba no acordar que é a morte. Queremos acordar…”

 

Leia também Queremos Viver.  (Houve uma terceira reportagem, com Murillo e Arminda se instalando no asilo que queriam morar, em Piracicaba.)

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(Houve uma terceira reportagem, com Murillo e Arminda se instalando no asilo que queriam morar, em Piracicaba.)