Israel, Rússia.

Os russos invadem Israel

O veterano de guerra russo Vimer Bariz Samuelovich pôs suas três medalhas de bravura no peito, e fugiu. Rendido à crise econômica na Rússia, ele voou 2.117 km de Kiev até a “outra Rússia prosperando por ser o destino do êxodo de 850 mil russos desde 1987 – o início do fim do império soviético. Um pioneiro russo de Plonsk, David Gruen, mudou de nome ao chegar, em 1906, e o aeroporto foi batizado em sua homenagem: David Ben-Gurion. O cartaz em caracteres cirílicos dá “boas-vindas ao lar”. Os funcionários da imigração falam russo. A música de fundo é russa. As moças do café grátis são russas. O jornal, russo. E os israelenses riem da piada: “o hebraico está rapidamente se tornando a segunda língua em Israel”.

   Uma das medalhas de Samuelovich é a General Jukov. As outras são das duas guerras mundiais. Mas num país de milhares de heróis de 50 anos de guerras, elas apenas simbolizam a principal característica dos imigrantes das 15 ex-repúblicas soviéticas, todos recebidos como “russos”: o sentimento de superioridade. O sovietólogo Amnon Sela parodia os russos: “Nós temos uma grande e rica cultura, e vocês, nenhuma”. Eles não se submetem, como os imigrantes etíopes ou marroquinos; impõem-se. Também não se integram; conquistam direitos. “E por que deveríamos nos integrar?” – pergunta um antigo dissidente soviético, Eduard Kuznetsov, hoje editor do jornal russo mais popular de Israel, Vesti (Notícias). “Se somos muitos podemos lutar para manter nossa própria cultura”.

   Aos 73 anos, Samuelovich ostenta suas medalhas na sala do aeroporto lotada com 500 russos. Todos esperam ser chamados para dentro das 15 baias onde terão os nomes digitados num banco de dados, receberão uma carteira de identidade, seis meses de assistência médica gratuita e ajuda imediata em dinheiro, mais um carnê para uma retirada mensal em banco que ainda inclui benefícios para o primeiro ano em Israel. Para cada família de quatro pessoas, US$ 540 na hora e o equivalente a US$ 10 mil em 12 meses. Aos aposentados, aposentadoria. Aos doentes, hospitalização. Para todos, cursos intensivos de hebraico. A única condição para imigrar é a de ser judeu. Mas “exceto por algumas frases em iídiche, a maior parte dos judeus russos não conhece nada da vida judaica, nada do judaísmo e nem é sionista”, diz uma funcionária do Ministério do Trabalho, Nitza Zvi. “Seus filhos, porém, não serão diferentes dos nossos”, ela acrescenta.

   Como as medalhas de Samuelovich, muitos exibem colares com grandes estrelas de David, o entrelaçado de dois triângulos com seis pontas, o símbolo judaico. Tão à mostra, provocam suspeitas, ao invés de dirimi-las. Um jovem russo morto num recente atentado palestino em Jerusalém não pôde ser enterrado como judeu, por decisão do Rabinato. Um quarto dos russos israelenses não seria considerado judeu pela Lei Judaica: “judeu é todo aquele nascido de mãe judia”. A Organizatsiya, a máfia russa que já abriu filial em Israel, consegue “cobertura judaica” para quem quiser imigrar. Assim exportava gângsteres para Nova York ao tempo em que as portas da União Soviética estavam fechadas à imigração. E hoje envia prostitutas para as ruas de Tel-Aviv, ou “mensageiros” com malas de dinheiro ilegal para ser depositado no seguro sistema bancário israelense.

O visto para sair da União Soviética

O visto para sair da União Soviética

Samuelovich era gerente de loja, em Kiev. “Lá estava muito duro viver”, reclama. “Não tinha mais dinheiro”. A sua experiência de soldado deixou de ser compatível com as guerras sofisticadas travadas por Israel. Nem a idade permitiria um voluntariado. Então, o que vai fazer? Ele espera saber a resposta depois que aprender hebraico. O filho que imigrou há três anos dá aulas de educação física e poderá ajudá-lo. De condecorado à dependente, ele não perde a pose: estufa o peito, e tilintam as medalhas.

   Houve tempo, no início da década de 90, que o imigrante russo que não descesse do avião com um violino, então era médico. No hospital de Barzilai, perto de Ashkelon, a maioria da equipe é russa, mesmo os chefes de cirurgia e da área de oncologia. Estudantes de medicina russos trocam de carreira para evitar o mercado congestionado de Israel. Uma orquestra, a Andaluza, orgulho dos judeus expulsos de Portugal e Espanha em 1492 e 1496, os sefardins, já está tomada por russos. A diretora do conservatório de Ashdod, Hanita Zvevner, tem num caderno os nomes de 60 professores russos esperando vaga. “Não há alunos para todos!” Do dilúvio de oito mil imigrantes violinistas e pianistas, três mil foram empregados. Quando a Filarmônica de Israel apresentou “1812”, de Peter Ilyich Tchaikovsky, na praça Rabin, em Tel-Aviv, o público falava russo. Em 1989, menos do que 700 mil espectadores foram a concertos em Israel. Mas em 1994, com a chegada de 500 mil russos, o público passou a ser de 1,1 milhão.

   O flautista e saxofonista Vladimir Devorskin chegou de Moscou há três meses. Está tocando no calçadão de Jerusalém. Decepcionado? Vai voltar? “Yeltsin bandit, bandit”, xinga. Se tocasse numa rua russa, a Organizatsiya apareceria para cobrar pedágio. “Pelo menos aqui a máfia não assumiu o controle”. O organista Ariel, também moscovita, está conformado em viver de esmolas. Fez uma dupla com Devorskin para tocar algo brasileiro em homenagem ao repórter. E atacou “La cucaracha”… Ao lado, Ida Guershkah, de 72 anos, não toca nem canta: oferece antigas canções em iídiche num velho gravador quase sem som. Mas se diz feliz: “Tenho assistência médica de graça sempre que preciso”. E recebe “um dinheirinho” do governo.

   Os russos estão russificando Israel. Já são um quinto dos 5,9 milhões de israelenses. E continuam a chegar ao fluxo médio de 150 por dia, 5 mil por mês. A fábrica de chips da Intel em Haifa, que só tinha um único russo em 1983, agora tem 150. E o pioneiro, Mikhail Kagan, é hoje o chefe do departamento de microprocessadores. Com 600 mil eleitores, os russos decidiram a queda de Yitzhak Shamir, do Likud, em 1992, e elegeram Binyamin Netanyahu, do Likud, em 1996, rejeitando um aprendiz público de russo, o trabalhista e Nobel da Paz Shimon Peres. O partido Israel Ba’Aliya já fez os ministros Anatoly Sharansky (Indústria e Comércio) e Yuli Edelstein (Imigração e Absorção). E tem sete deputados. Os judeus russos são de direita. Minoria na antiga União Soviética, eles não se identificam com a outra minoria do Oriente Médio, os palestinos. O editor do Novosti Nidli (Notícias da Semana), Dmitri Ladizhinsky, justifica assim uma opinião geral russa sobre a troca de territórios ocupados pela paz: a ex-União Soviética, 28 mil vezes maior do que Israel, não devolveu ao Japão as ilhas Kural, tomadas na Segunda Guerra Mundial, agora 1% do território russo. “Então, é difícil entender por que os israelenses deveriam devolver mais de 10% de seu país – e para inimigos”.

   O soldado Nicolai tem uma visão mais próxima dos palestinos, por servir na Cisjordânia. “Em multidão, são perigosos, mas sozinhos nos convidam até para cafezinhos”. Só agora, com Bibichicov Netanyahu (Netanyahuzinho), é que há processo de paz”. Pai químico, ele vai estudar engenharia de computação e namora uma russa, embora neste momento, na praia de Ashdod, esteja paquerando uma loura cor de neve da Sibéria. Por que não uma israelense? “Mentalidades muito diferentes”, diz. O ministro Sharansky, trocado por espiões soviéticos depois de preso por nove anos, diz que o êxodo russo alterou o sionismo, que deixou de ser o caldeirão em que todos os diferentes judeus eram misturados. “Temos agora judeus russos, judeus americanos e judeus marroquinos, e queremos suas tradições e conhecimentos: Israel tem que se tornar a pátria de todos os judeus”.

Como as medalhas de Samuelovich, muitos exibem colares com grandes estrelas de David, o entrelaçado de dois triângulos com seis pontas, símbolo judaico. Tão à mostra, induz suspeitas, ao invés de dirimi-las. Um jovem russo morto num recente atentado palestino em Jerusalém não pôde ser enterrado como judeu, por decisão do rabinato. Um quarto dos russos israelenses não seriam considerados judeus pela Lei Judaica: “judeu é todo aquele nascido de mãe judia”. A Organizatsiya, a máfia russa que já abriu filial em Israel, consegue “cobertura judaica” para quem quiser imigrar. Assim exportava gângsteres para Nova York ao tempo em que as portas da União Soviética estavam fechadas à imigração. E hoje envia prostitutas para as ruas de Tel-Aviv, ou “mensageiros” com malas de dinheiro ilegal para ser depositado no seguro e curioso sistema bancário israelense.
Samuelovich era gerente de loja, em Kiev. “Lá, estava muito duro viver”, reclama. “Não tinha mais dinheiro”. A sua experiência de soldado deixou de ser compatível com as guerras sofisticadas travadas por Israel. Nem a idade permitiria um voluntariado. Então, o que vai fazer? Ele espera saber a resposta depois que aprender hebraico. O filho que imigrou há três anos dá aulas de educação física e poderá ajudá-lo. De condecorado à dependente, ele não perde a pose: estufa o peito, e tilintam as medalhas.
Houve um tempo, no início da década de 90, que o imigrante russo que não descesse do avião com um violino, então era médico. No hospital de Barzilai, perto de Ashkelon, a maioria da equipe é russa, mesmo os chefes de cirurgia e da área de oncologia. Estudantes de medicina russos trocam de carreira para evitar o mercado congestionado de Israel. Uma orquestra, a Andaluza, orgulho dos judeus expulsos de Portugal e Espanha em 1492 e 1496, os sefardins, está tomada por russos. A diretora do conservatório de Ashdod, Hanita Zvevner, tem num caderno os nomes de 60 professores russos esperando vaga. “Não há alunos para todos!” Do dilúvio de oito mil imigrantes violinistas e pianistas, três mil foram empregados. Quando a Filarmônica de Israel apresentou “1812”, de Peter Ilyich Tchaikovsky, na praça Rabin, em Tel-Aviv, o público falava russo. Em 1989, menos do que 700 mil espectadores foram a concertos em Israel. Mas em 1994, com a chegada de 500 mil russos, o público passou a ser de 1,1 milhão.
O flautista e saxofonista Vladimir Devorskin chegou de Moscou há três meses. Está tocando no calçadão de Jerusalém. Decepcionado? Vai voltar? “Yeltsin bandit, bandit”, xinga. Se tocasse numa rua russa, a Organizatsiya apareceria para cobrar pedágio. “Pelo menos aqui a máfia não assumiu o controle”. O organista Ariel, também moscovita, está conformado em viver de esmolas. Fez uma dupla com Devorskin para tocar algo brasileiro em homenagem ao repórter. E atacou “La cucaracha”… Ao lado, Ida Guershkah, de 72 anos, não toca nem canta: oferece antigas canções em iídiche num velho gravador quase sem som. Mas se diz feliz: “Tenho assistência médica de graça sempre que preciso”. E recebe “um dinheirinho” do governo.
Os russos estão russificando Israel. Já são um quinto dos 5,9 milhões de israelenses. E continuam a chegar ao fluxo médio de 150 por dia, 5 mil por mês. A fábrica de chips da Intel em Haifa, que só tinha um único russo em 1983, agora tem 150. E o pioneiro, Mikhail Kagan, é hoje o chefe do departamento de microprocessadores. Com 600 mil eleitores, os russos decidiram a queda de Yitzhak Shamir, do Likud, em 1992, e elegeram Binyamin Netanyahu, do Likud, em 1996, rejeitando um aprendiz público de russo, o trabalhista e Nobel da Paz Shimon Peres. O partido Israel Ba’Aliya já fez os ministros Anatoly Sharansky (Indústria e Comércio) e Yuli Edelstein (Imigração e Absorção). E tem sete deputados. Os judeus russos são de direita. Minoria na antiga União Soviética, eles não se identificam com a outra minoria do Oriente Médio, os palestinos. O editor do Novosti Nidli (Notícias da Semana), Dmitri Ladizhinsky, justifica assim uma opinião geral russa sobre a troca de territórios ocupados pela paz: a ex-União Soviética, 28 mil vezes maior do que Israel, não devolveu ao Japão as ilhas Kural, tomadas na Segunda Guerra Mundial, agora 1% do território russo. “Então, é difícil entender por que os israelenses deveriam devolver mais de 10% de seu país – e para inimigos”.
O soldado Nicolai tem uma visão mais próxima dos palestinos, por servir na Cisjordânia. “Em multidão, são perigosos, mas sozinhos nos convidam até para cafezinhos”. Só agora, com “Bibichicov Netanyahu” (Netanyahuzinho),  “é que há processo de paz”. Pai químico, ele vai estudar engenharia de computação e namora uma russa, embora neste momento, na praia de Ashdod, esteja paquerando uma loura cor de neve da Sibéria. Por que não uma israelense? “Mentalidades muito diferentes”, explica. O ministro Sharansky, trocado por espiões soviéticos depois de preso por nove anos, diz que o êxodo russo alterou o sionismo, que deixou de ser o caldeirão em que todos os diferentes judeus eram misturados. “Temos agora judeus russos, judeus americanos e judeus marroquinos, e queremos suas tradições e conhecimentos: Israel tem que se tornar a pátria de todos os judeus”.
Na pequena Rússia que está dando certo já foi formado o grupo teatral Gesher (Ponte, em hebraico), um sucesso absoluto em Israel já exportado para os Estados Unidos e a Europa. Dos nove israelenses convidados para uma conferência de matemáticos em Berlim, sete eram imigrantes russos. Cidades viraram canteiros de obras com o êxodo, atualmente estabilizado em 150 novos imigrantes cada dia. As medalhas de ouro das Olimpíadas da Língua Russa, em Moscou, foram conquistadas por três russos-israelenses. E em Beersheba, no deserto do Neguev, onde está enterrado David Ben-Gurion, há mais mestres de xadrez do que na própria Rússia.

Ben Gurion e Golda Meir, dois russos que foram primeiro-ministro em Israel.

Ben Gurion e Golda Meir, dois russos que foram primeiro-ministro em Israel.

Pousa mais um avião de russos no aeroporto Ben-Gurion. Agora surge o físico nuclear Marek Kiesler, viúvo de 52 anos, que chama atenção, como as medalhas de Samuelovich, porque carrega uma gaiola coberta com pano. Ele também está fugindo da crise econômica. Mas não quis abandonar Gosho, seu papagaio do Kazaquistão. Os imigrantes russos são como a bonequinha típica russa, a matriosca: aberta, tem outra boneca que se abrirá em outras bonecas, e assim 450 mil vezes mais, por um cálculo da Agência Judaica.

A Rússia de Bnei Ahish

A praça Menachem Beguin com a avenida Yitzhak Rabin, em Bnei Ayish, ao sul de Tel-Aviv, seria um cruzamento político improvável. Povoada de casais de velhinhos que não falam uma palavra de hebraico, só russo, é ainda mais impressionante. No quadro público de avisos, os anúncios são escritos em alfabeto cirílico. No shabat, o descanso religioso que fecha tudo em Jerusalém, a “delicatessen” Arbat está aberta.

Arbat, o calçadão mais famoso de Moscou, aqui é um mercadinho, com arroubo de delicatessen. Vende caviar a 200 shekalim o quilo (R$57), meio litro da vodca Dougan por 35 shekalim (R$10), e também vobla, o peixe salgado parecido ao bacalhau. No balcão, a proprietária Anette Freiberg, que imigrou da Rússia em 1992, com 15 anos, atende a todos em russo. E serve de intérprete entre o gueto russo e israelenses.
Os russos começaram a chegar a Bnei Ayish na leva de Freiberg. Havia então 1500 habitantes, a maioria imigrantes que vieram do Iêmen nos anos 50. Em pouco tempo, ocuparam a cidade: hoje os russos são 2/3 dos 7 mil habitantes. Agora tomarão o poder, elegendo o prefeito nas eleições de novembro. Será Grigory Lifshits, que foi membro do Partido Comunista em Moscou. Entre a minoria iemenita e a maioria russa restou certa tensão. Quando quer xingar, um iemenita diz: “russo!” A réplica, em geral: “árabe!”

Os refuseniks

Brailovsky, Sharansky, Kuznetsov... Foram centenas de refuseniks.

Brailovsky, Sharansky, Kuznetsov… Foram centenas de refuzeniks

Acabou a União Soviética, mas Eduard Kuznetsov mantém-se refusenik – um contestador. Nos anos 70, ele planejou o sequestro de um avião para Israel, com 15 outros dissidentes, mas foi descoberto e preso pela KGB. Ao recobrar a liberdade e o direito de viajar, saindo de um campo de trabalho forçado, continuou contestando pelo microfone da rádio russa Liberdade, montada pelos Estados Unidos em Munique, na Alemanha.

Há mais de 15 anos em Israel, planejou um segundo sequestro – e foi bem-sucedido. Saiu do primeiro jornal russo-israelense, Vremya (Tempo), fundado pelo barão inglês dos jornais, Robert Maxwell, para dirigir Vesti (Notícias), sequestrado quase toda a equipe. Vesti é hoje o quarto jornal mais vendido em Israel, o primeiro em russo, já preparando edições para a Rússia, onde hoje chega com dois dias de atraso, e para as comunidades russas nos Estados Unidos, Europa e Austrália. Está com a tiragem de 60 mil e se gaba de ser independente, embora publique muitos artigos de políticos ligados ao partido Meretz, da esquerda liberal.

Na sua salinha escura do Vesti, em Tel-Aviv, Kuznetsov confirma ser ainda um refusenik. Quando sondado sobre preferências políticas, não cai em nenhuma dissertação. “Não voto por ninguém”, diz secamente. Se está feliz em Israel, para onde quis vir em avião sequestrado? “Ainda não estou pronto para ser israelense”. Os imigrantes russos devem se acrescentar a Israel, não se integrar. Para falar sobre o futuro imediato da Rússia, ele adota um tom funéreo: “A Rússia não pagou ainda pelo passado comunista, e vai correr sangue”.

Putin (foto: Time of Israel)

Putin (foto: Time of Israel)No Kremlin israelenseKremlin, em Israel.

No Kremlin de Jerusalém

(Entrevista com ministro de Imigração e Absorção Yuli Edelstein, 40 anos, fundador do partido Israel Ba’Aliya, em 1960, e assessor por um ano, de 1993 a 94, do então líder da oposição e hoje primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, do Likud. Ele vive numa colônia da Cisjordânia, Alon Shvut, com a mulher e dois filhos. Edelstein é de Chernovitz, na antiga União Soviética, e foi um “Prisioneiro de Sion”, em Moscou, de 1984 a 87, quando imigrou para Israel. Eleito em maio de 1996 para o Parlamento, Netanyahu o nomeou ministro da Absorção um mês depois, em junho. É formado em línguas em Moscou).

— Os russos continuam imigrando para Israel? Qual a situação hoje?
Yuli Edelstein: Os russos continuam chegando. Recebemos no ano passado, da antiga União Soviética, cerca de 54 mil novos imigrantes. Da Rússia mesmo chegaram 15 mil. Hoje, por causa da situação econômica russa, estamos esperando um crescimento na imigração.
— Quantos judeus podem ainda imigrar da ex-União Soviética?
Edelstein: Cerca de mais 1 milhão.
— Israel terá ao todo 2 milhões de russos?
Edelstein: Depende… Não creio que todos quererão vir para Israel. O potencial é grande. Hoje, o candidato a imigrante sabe tudo que o espera antes mesmo de partir. Então, a forma como o absorvemos aqui, ou o estado de nossa economia, influencia muito a decisão de vir ou não.
— O que os potenciais imigrantes sabem de Israel, hoje, é sedutor?
Edelstein: Sim, quando eles têm todas as informações sobre Israel, ficam propensos a imigrar.
— Muita gente tem procurado o consulado de Israel em Moscou para imigrar?
Edelstein: Não estamos falando ainda de massas. Mas há um grande aumento de pessoas buscando informações.
— Já 1/5 da população, como os russos estão mudando Israel?
Edelstein: Eles influenciam muito, e de várias formas. A economia israelense parece hoje muito diferente por causa desta onda imigratória. Esses 15% adicionais da população impulsionaram a nossa economia principalmente por conter um grande número de profissionais altamente qualificados. Tornou possível o desenvolvimento do setor high tech. Mas ainda tem outra influência. Nas cidades em desenvolvimento do deserto do Neguev e da Galileia, uma situação totalmente diferente está criada, pois 25% de sua população são de novos imigrantes. Eles pesam nas decisões sobre educação, esportes e vida cultural. Se você falar com qualquer prefeito de uma dessas cidades, ouvirá o mesmo: tudo está completamente diferente do que era há dez anos.
— E em política? Como os russos influirão nas eleições municipais de novembro?
Edelstein: Teremos (o partido Israel Ba’Aliya) 78 membros de prefeituras, alguns serão vice-prefeitos e em um ou dois lugares elegeremos o prefeito.

(Esta reportagem foi publicada em 1999, na revista Época.)

   

Lembranças da União Soviética

Marx, Engels, Lenin, Stalin.

Marx, Engels, Lenin, Stalin.

Ia sequestrar um avião na antiga União Soviética, em 1970; foi preso antes e condenado à morte por “alta traição”; a sentença caiu para 15 anos de prisão ante protestos mundiais;  trocado por dois espiões da KGB presos nos EUA, o dissidente Edward Kuznetsov voou para Israel. Aí o entrevistei.

Kuznetsov

Kuznetsov

 Эдуард Кузнецов

Os rebeldes prisioneiros políticos soviéticos gravam numa das mãos o seu protesto ao risco de mais oito a 15 anos extras de prisão. Por sua tatuagem, um pequeno círculo azul, reconheci Edward Kuznetsov num lotado restaurante de Tel-Aviv: ex-condenado à morte, frágil, magro, doente e careca, ele estava mudado, dois anos depois de sua inesperada libertação, obtida pelos Estados Unidos em troca de dois espiões da KGB.

Estado: – Você está quase irreconhecível!
Kuznetsov: – Pois é, fui “conservado” durante 16 anos…
Estado: – E como anda se sentindo, tirado da “conserva”?
Kuznetsov: – Cada noite eu escapo da prisão. As pessoas que encontro durante o dia comumente reaparecem nos meus pesadelos. Talvez eu o veja, de madrugada… Serei assim, até morrer.
Estado: – E seu tratamento hipnótico não o ajuda?
Kuznetsov: – Sim, mas minhas experiências foram muito traumatizantes. Ainda repercutem.
Estado: – Mas você parece estar ótimo, fisicamente…
Kuznetsov: – Nem tanto. Tenho alguns sérios problemas com meu  estômag. Isto é normal: 90% dos prisioneiros soviéticos são assim.

Estado: – Por quê?

Kuznetsov: – A primeira palavra no vocabulário dos “prisioneiros de ideias” da União Soviética é “pão”. A fome é a mais letal de todas as armas, se usada com método e eficiência. Seu efeito, horrível. Durante a segunda guerra mundial, os prisioneiros dos campos de concentração nazistas recebiam 2.500 calorias por dia. Na Rússia de hoje, um prisioneiro de campo de trabalhos forçados recebe, por lei, somente 2.050. No final, a quantia é muito menor.
Edward Kuznetsov, 42 anos (em 1981, quando nos encontramos), não quis almoçar. Pediu café com leite, que bebia devagar, um gole a cada novo cigarro Kent. Seu primeiro “sintoma” de revolta contra o regime soviético ocorreu-lhe aos 12 anos: “aconteceu-me de pensar alto e diferente dos outros alunos, na escola. Castigaram-me. Desde então fui confrontado a duas possibilidades: a de me tornar um leal delator, ou a de me envolver, até o fim, na oposição”.
Aos 17 anos, em 1956, durante a rebelião Húngara, Edward Kuznetsov passou a criticar abertamente a União Soviética. No seu primeiro encontro com a KGB, um oficial lhe perguntou: “Você não sabe que o nosso país está rodeado de inimigos?” Depois, ameaçou: “Se você não se contiver, acabará na prisão”.
Ao entrar para a universidade, Kuznetsov foi logo convocado para o exército. Puseram-no na “primeira divisão”, o departamento de espionagem, encarregado de ler as cartas enviadas aos soldados na Ucrânia. Recusou a missão. Então, foi transferido para uma área remota, que cuidava de pavimentação de estradas.
De volta ao curso de Filosofia, na universidade, formou um pequeno grupo que comparava a teoria marxista-leninista com a sua realização na vida prática, “encontrando pouca semelhança”. E daí surgiram inúmeros adeptos. E isto já era um movimento”.
Kuznetsov começou a ser constantemente vigiado, chamado para interrogatórios, ou detido: “A perseguição se tornou parte inseparável da minha vida, típica a qualquer um que não estivesse OK com o regime”. Aos sábados e domingos ele ia à praça Mayakovsky organizar manifestações que consistiam de leitura de poemas. “No dia 15 de outubro de 1961, a KGB veio ao meu apartamento e me levou para o presídio de Lubyanka. Eu não seria solto senão em 1968”. Mas por pouco tempo.
Estado: – Aonde você estava?
Kuznetsov: – Estados Unidos e Canadá, fazendo conferências sobre a União Soviética, movimentos dissidentes, movimentos internacionais de direitos humanos, a questão judaica. Falava de diferentes coisas.
Estado: – Nestes últimos dois anos, você falou e escreveu muito, encantado por estar livre. Lembro-me que comparou a liberdade ao ar: “o homem só se torna verdadeiramente consciente de quanto ele é indispensável, perdendo-o por alguns instantes”. Ou, ainda, que “liberdade é a consciência de que existem direitos humanos, de que se está protegido do abuso e da violência”.
Kuznetsov: – Estou criando um movimento, aqui em Israel, para lidar com problemas de imigração e integração de imigrantes. É a isto que me dedico, principalmente.
Estado: – Um partido de imigrantes?
Kuznetsov: – Mais ou menos… Estes problemas não são levados ao Parlamento. Então, sinto que tenho algo a fazer. Não pretendo tornar-me um político profissional, mas, apenas, evitar uma futura catástrofe.
Estado: – Quantos vocês já são?
Kuznetsov: – Uns 200 mil, contando somente os que imigraram da União Soviética. A maioria, consultada, dispôs-se a formar uma lista independente.
Estado: “Deputado Kuznetsov!” Com 200 mil, vocês poderão eleger mais de um representante no Knesset (o parlamento israelense)
Kuznetsov: – Sim, pelo menos uns três.
Estado: – E você será um deles?
Kuznetsov: – Não sei ainda. No momento final, vamos decidir. Talvez, se ninguém se dispuser, aí, então, eu vou. Mas, por princípio, não quero. Sou um franco-atirador, e quero continuar assim, livre, sem compromissos de estar todos os dias num escritório. Liberdade: você sabe o quanto isto é importante para mim.
Estado: – Você pensa em se filiar a algum partido? Aqui, em Israel, existe o partido comunista, o Rakah.
Kuznetsov, depois de uma gargalhada: Não, não. É impossível encontrar comunistas mesmo na Rússia. Eles estão no Ocidente. Você não acredita? Olha, em 1970 houve a festa do centenário de Lenine. Houve muito barulho por isso, em Moscou. Lançou-se um luxuoso livro oficial, reunindo declarações atribuídas a ele, mas muitas delas, porém, por um grande engano, eram de um dos seus mais famosos inimigos. Ninguém lê Lenine, a não ser nos Estados Unidos. Foi um grande escândalo. Toda a edição do livro foi destruída. A maioria dos imigrantes russos é radicalmente anticomunista. Aqui, nosso movimento tem recebido certa ajuda do “Rafi” (o partido criado pelo fundador de Israel, David Ben Gurion, ao afastar-se dos trabalhistas). Estamos juntos com ele para as eleições na Histadruth (a central sindical israelense). Queremos conquistar alguns cargos. Depois, veremos: ou nos juntamos de novo ao “Rafi”, ou concorremos independentes por algumas cadeiras no Parlamento. Já temos dinheiro, estamos unificados e fortes: resta-nos decidir qual a direção final.
Estado: E fora a campanha politica?
Kuznetsov: Eu trabalho como um louco pelos meus amigos que ainda estão na prisão. Você sabe: 12 de nós fomos sentenciados no “processo de Leningrado”. E três continuam presos. Eles não são judeus. Assim, estão numa verdadeira perigosa situação. Por quê? Por que ao libertarem Mendelevich, há pouco tempo, o último judeu envolvido na tentativa de sequestro de um avião, criaram a situação propícia para este tipo de propaganda: “vejam o que dá estar com os judeus”. Eles serão punidos exemplarmente. E o antissemitismo crescerá.

Bandeira União Soviética

Deixando a prisão, em 1968, Edward Kuznetsov começou a trabalhar como motorista de caminhão. “Meu pai era judeu, mais minha mãe, não. E como ele morreu quando eu tinha dois anos, eu nada aprendi da religião e cultura judaicas. Fui aprender nos campos de trabalhos forçados por onde passei”. O que o atraiu ao judaísmo, porém, foi a sua decepção com os movimentos de liberação. “Cheguei à conclusão de que a Rússia é um país destinado pela história a viver sob regimes totalitários, desde Ivan, o terrível, a Brejnev. Democracia e Rússia não combinam. Não há forças capazes de democratizar a União Soviética. Opositores intelectuais nada podem alterar. O sionismo me pareceu a única solução para escapar. Como judeu, seria um afortunado: teria esperanças de chegar um dia a Israel”. A abertura das fronteiras, para os judeus, significaria alguma chance de liberdade também para os outros.

Estado: – Você já se tornou judeu?
Kuznetsov: – Sempre fui, desde que nasci…
Estado: – Acho que você não entendeu a pergunta (pela lei judaica, judeu é todo aquele nascido de mãe judia).
Kuznetsov: – Sim, eu sei, desculpe.
Estado: – Você iniciou um processo de conversão, ao chegar a Israel… e para que, então?
Kuznetsov: – Comecei minha atividade na Rússia como democrata. Só quando estive no campo de trabalhos forçados, de 61 a 68, é que decidi que minha posição deveria ser judaica. A maioria dos judeus soviéticos começa a entender que são judeus não por um impulso interior, mas por causa dos vizinhos, que lhes gritam: “morte aos judeus”. O judaísmo se alimenta da hostilidade. Por isso, os judeus que escapam da União Soviética vão, na verdade, para os Estados Unidos, ao desembarcarem no aeroporto de Viena. Sua segunda fuga é do judaísmo.
Edward Kuznetsov conseguiu um emprego de estatístico no hospital psiquiátrico de Riga, Látvia. E aí liderou um grupo que se propunha a sequestrar um avião para Finlândia, mas que acabou preso antes do embarque, no aeroporto.
Estado: – Como a KGB os descobriu antes?
Kuznetsov: – Na Rússia é quase impossível fazer qualquer coisa secreta. Todos somos vigiados. E nosso grupo contava com 16 pessoas, o que é muito. Se o objetivo for o de escapar, será preciso agir só, ou com uma outra pessoa, no máximo. Mais: eu, o Yuri Fioderov e o Alexei Murzhenko éramos, já nesta época, bastante controlados pela KGB, como ex-prisioneiros políticos.
Estado: – Sabiam, então, que seriam presos?
Kuznetsov: – Exatamente. Víamos os agentes nos seguindo o tempo todo. A nossa preocupação não era a de fugir da União Soviética, que o considerávamos impossível, mas a de promover uma ação escandalosa que denunciasse o problema de imigração na União Soviética. Greve de fome? Não, tinha que ser algo bem maior. E eu, pelo menos, estava consciente de que voltaria para a prisão, sem alcançar o Ocidente.
Estado: – Vocês conseguiram até um piloto, Mark Dymshitz.
Kuznetsov: – Sim, tínhamos preparado tudo. Mas eu adverti o grupo: acabaremos presos só porque nos reunimos. Então, que nos prendam no aeroporto e não em nossas casas. Apenas seis atingimos o aeroporto. Ninguém soube dos outros, também presos, mas de nós, sim. A KGB nos expôs como bandidos. Assim entramos no jogo da détente.
Estado: – Para onde vocês foram levados?
Kuznetsov: Para a central da KGB, em Leningrado. Ali permanecemos incomunicáveis durante seis meses, submetidos a interrogatórios diários. A acusação? Traição, agitação antissoviética, propaganda e uso indevido de grande propriedade pública — ou seja, o avião.
Estado: – Condenaram-no à morte. Por que não executaram a sentença?
Kuznetsov: – Uma situação muito estranha. (O ex-presidente) Nixon chamou Brejnev pelo telefone direto. Depois dele, 17 países ocidentais iniciaram uma grande campanha pela nossa libertação. Até Franco, por causa de três bascos sentenciados à morte, interveio. E a soma de tudo isso, desses importantes apelos, nos ajudou. Eu fui condenado à morte por sete dias. Minha pena foi comutada para 15 anos em campos de trabalhos forçados.
Depois do “Processo de Leningrado”, para ele “uma comédia”, Edward Kuznetsov foi levado para Mordóvia, a 500 quilômetros de Moscou, entre tártaros e bashkirs, e posto numa cela de 3×5 metros, junto a outros 15 prisioneiros. Por muitas vezes o confinaram em solitárias, punindo-o por greves de fome, ou por “atividades antissoviéticas”. Preso, escreveu seu primeiro livro, “Diário de um Condenado à Morte”, enviado para o Ocidente em pequenas folhas de papel higiênico, ou nos maços de cigarro que podia receber.
Estado: – Como você conseguiu contrabandear os originais do seu livro?
Kuznetsov: – Talvez eu registre uma patente, e só então o revele. Mas é claro que não o farei: há outros usando o mesmo sistema. A KGB nunca pensou que fosse possível escrever livros e enviá-los para fora do país. Por isso, sempre declaram que “o texto é da CIA”. Todos os dias me revistavam, sem esquecer nenhum dos orifícios do corpo. Depois, repetiam: “é impossível”. Mas eu fiz. E até alcancei, por isso, um status especial. Eu lhes dizia francamente: continuarei escrevendo, aconteça o que acontecer. Mas se vocês me revistarem com mais brutalidade, escreverei o dobro. Eles sabiam que cumpriria a ameaça. Nos últimos três anos deixaram-me vivendo mais facilmente. O meu segundo livro apareceu em Israel, há pouco tempo. E já comecei o terceiro.
Estado: – O que representou o Processo de Leningrado para o movimento de imigração na União Soviética?
Kuznetsov: – De 1948 ate 1970, antes do nosso julgamento, apenas sete mil pessoas tinham deixado a Rússia. Depois, 300 mil. A KGB nos odeia por isso. Um coronel me disse, abertamente, em 1973: “Se soubéssemos que acabaria assim, teríamos lhe dado permissão para imigrar”.
Estado: – Você se refere ao fracassado sequestro?
Kuznetsov: – Sim, sim. Eles podiam conhecer os planos, mas não imaginavam suas consequências. Cometeram dois erros: um, minimizando a reação dos judeus nos Estados Unidos, e outro, concluindo que a nossa prisão aterrorizaria os judeus da Rússia. No entanto, ocorreu o contrário.
Estado: – Você disse, há pouco, que “entramos no jogo da detende”, ao serem presos. Como?
Kuznetsov: – Tornamo-nos um tipo de moeda. Basta olhar as estatísticas. (em 1971, 13 mil judeus deixaram a União Soviética. Com a assinatura dos acordos Salt (Strategic Arms Limitation Talks – Acordo de Limitação de Armamentos Estratégicos, em 1972), este número cresceu para 32 mil, depois para 35 mil, em 1973. Aí veio a emenda Jackson-Vanik, proibindo o comércio com a União Soviética a menos que os judeus pudessem imigrar livremente. O fluxo declinou para 21 mil em 1974, 13 mil em 1975, 14 mil em 1976 e 17 mil em 1977. Com os progressos do Salt II, a imigração atingiu 29 mil em 1978, chegando ao recorde de 51 mil em 1979). Coincidência?
Estado: – Então, o Processo de Leningrado foi uma bênção para os judeus. Mas apenas para eles?
Kuznetsov: – Não. Depois, 15 mil alemães receberam vistos de saída. Êxodo secreto, sem escândalo. Nos últimos cinco meses deixaram a União Soviética mais armênios do que judeus. Também silenciosamente. É muito conveniente às autoridades russas expor apenas o problema da imigração judaica, supostamente apolítica, nacionalista.
Estado: – Você disse, numa entrevista, que os prisioneiros políticos soviéticos têm uma crença: a de que “o Kremlin nos prende, mas o ocidente nos libera”. Como você acha que isto pode ser feito?
Kuznetsov: – Não é uma simples questão e não há uma simples resposta. A ajuda do Ocidente não é apenas muito valiosa, mas única. Não existe outra esperança. Seria melhor se ela fosse mais forte. Se você analisa o comportamento das autoridades soviéticas, verá que apreciam as atitudes de força. A Rússia respeita apenas quem se mostra durão.
Estado: – Então o presidente Reagan veio a calhar?
Kuznetsov: – Já o percebemos pelas reações de Moscou. Pedem a ele um encontro, mas ele não está nada apressado. A posição de força, isoladamente, não se constitui um ideal, para mim. Acredito em compromissos. No contexto soviético, no entanto, pode se tornar a única linguagem compreensível. Depois da administração Carter, fraca, chegou o tempo de se tratar duramente a União Soviética.
Estado: – O que ocorrerá com a Polônia?
Kuznetsov: – Entenda: não há limites morais para a Rússia. O que conta, agora, para o Kremlin, é a reação do Ocidente. São absolutamente pragmáticos. Se imaginam uma reação violenta, talvez hesitem. Os soviéticos não baseiam sua política no vácuo. Estou seguro de que os russos invadirão a Polônia. O mundo reagirá durante dois meses, e pronto.
Estado: – Você está desiludido com o Ocidente?
Kuznetsov: – Antes um pouco de ser solto, um oficial da KGB me disse: “fique quieto o máximo possível, lembrando-se que algumas vezes os inimigos da União Soviética morrem lá fora”. Mas está é uma outra história. Na verdade, eu não tinha nenhuma ilusão sobre o mundo em geral, e sobre Israel, em particular. Aqui, neste país, eu encontrei o que eu esperava. Afinal, o que se pode esperar de tantos judeus reunidos num só pais?
Estado: – Como israelense, agora, qual a sua posição sobre problema palestino?
Kuznetsov: – Ah-ah… Ok: eu penso que é muito complicado, mas não tão difícil de resolver como o problema telefônico, em Israel. Quem sabe a solução encontrada por outros povos sirva também para nós? Durante a guerra com o Japão, todos os japoneses que viviam nos Estados Unidos foram postos em campos de concentração. Quem acredita nisso hoje? O Québec francês, no Canadá, quer separar-se. Isto não representa perigo algum para a segurança, por lá. Os bascos não são uma questão de segurança para a Espanha. Por que, aqui, todo mundo se mete?
Estado: – Esta é uma região muito delicada.
Kuznetsov: – Ah, ninguém gostará mais de Israel se dermos possibilidade aos palestinos de iniciarem uma guerra contra nós, num estado vizinho, satélite da Rússia. Devemos ser justos com os nossos maiores inimigos. Estou certo de que o problema seria menor se a União Soviética não estivesse tão implicada… Para ela, melhor mesmo é esta situação sem paz. Só na instabilidade é que poderá ampliar a sua influência aqui, no Oriente Médio.
Estado: – Você visitaria a União Soviética, se convidado?
Kuznetsov: – Não usaria esta possibilidade. Talvez me prendessem de novo. Difícil saber: minha situação jurídica está complicada porque porque minha pena não foi comutada. Deprivaram-me da nacionalidade russa, e foi tudo.
Estado: – Como você soube que seria solto?
Kuznetsov: – No avião, antes de voar para Nova Iorque. Soube que não iria para a China porque, antes da decolagem, dois emissários da embaixada americana em Moscou vieram explicara tudo. Mesmo assim, temi: “talvez eles não sejam americanos, mas agentes da KGB”. Só nos Estados Unidos é que soube ter sido trocado por dois espiões soviéticos condenados a 50 anos de prisão. E mais recentemente, em Madrid, deram-me mais um detalhe: alguns computadores entraram também no negócio.
Com Edward Kuznetsov foram libertados também Mark Dymshitz (que seria o piloto do sequestro); Valentyn Moroz, símbolo da resistência Ucraniana; Georgi Vins, líder batista; e o escritor Alexander Ginzburg que, durante seu julgamento, ao lhe perguntarem qual era sua naturalidade, respondeu simplesmente: “prisioneiro”. Encontraram-se no aeroporto Sheremetyevo, de Moscou, para o voo da liberdade, o de número 315 da Aeroflot.
Estado: – Além de careca, sua roupa chamava a atenção.
Kuznetsov: – Era um terno de inverno polonês, camisa checa, sapatos búlgaros. Em pleno verão. Foi mais um engano da KGB…
Estado: – E o que você fez com esta roupa?
Kuznetsov: – Guardei. Usei-a num filme feito em Israel… e vou usá-la ainda mais, pois recebi convites para outros filmes, um americano e outro, alemão.
Estado: – Seus amigos de prisão souberam que você foi libertado?
Kuznetsov: – Oficialmente, até hoje, ninguém sabe na Rússia. Os jornais de lá não deram uma linha sequer. Mas as rádios estrangeiras, sim. Agora, está difícil capta-las, por causa da situação polonesa. Conta-se que um agente da KGB perguntou a suspeito:
– Você ouviu as rádios estrangeiras hoje?
– Sim – ele respondeu.
– E você contou a seus amigos o que ouviu?
– Sim.
– E o que foi que você contou?
– zzzzzzzzzzzzzzz
Estado: – O que você vai fazer agora?
Kuznetsov: – Vou ate Nazaré falar a 600 russos em nome do nosso movimento. Antes, passarei um filme sobre o Processo de Leningrado, com Geraldine Chaplin. Depois, vou me reunir a Sylva, minha mulher, e a minha filha.