Era uma vez um furo sensacional

Por quatro meses trabalhei numa exclusiva e sensacional reportagem. Era a minha primeira para televisão. Quando tinha tudo pronto, só faltando mesclar texto e imagens, anunciei à equipe: -Estou derrubando a reportagem. Parem tudo.

Assim começava a reportagem, com este vídeo de 1,35 minuto

Este vídeo do time da Chapecoense decolando para a tragédia já foi muito visto e revisto no Brasil e no mundo, mas o livro de capa vermelha aberto pelo passageiro sentado no corredor da segunda fileira do avião parece ter passado desapercebido.

Veja de novo: até parece que o leitor, ao ver a câmera, quer é mostrar o livro.

O livro é Endgame, A Chave do Céu, de James Frey e Nils Johnson-Shelton. Segundo de uma trilogia, nele e no anterior, O Chamado, seriam narrados dois desastres aéreos – e um deles por pane seca, falta de combustível.

mauroentrevista

O vice-presidente de Futebol do Chape, Mauro Luiz Stumpf, o Maurinho, é quem lê o livro no original inglês, embora a tradução em português já fosse vendida desde outubro de 2015. Está nas primeiras das 675 páginas. Como no avião da Lamia, apenas decolando. Destino na ficção e na realidade: a queda, por falta de combustível.

Chapecoense

Foi um colega de trabalho na TV Brasil quem, curioso, procurou saber mais sobre o livro de capa vermelha nas mãos do vice-presidente de Futebol do Chape, o Maurinho.

51PejfjeQjL._SR600,315_PIWhiteStrip,BottomLeft,0,35_SCLZZZZZZZ_ À medida que ia lendo, ele se surpreendia cada vez mais. E me procurou para compartilhar: “Cara, o livro é sobre um avião que cai por falta de combustível!”. Tremenda coincidência, ironia do destino, maravilhosa reportagem, a ficção prenunciando a realidade.

Ele tinha um trecho do livro em que cai o avião de Endgame, ou Fim de Jogo — e lembrava: “Era também o último jogo do campeonato para o Chape”.

FRASES NO LIVRO

Estar em um avião e acima do mundo aumenta o senso de profundidade. O mapa se estende em todas as direções, e seus limites são definidos pelo ponto que pisca.

Falta uma hora para o avião (…) começar os procedimentos de pouso (…) Ele dorme profundamente e não faz ideia do que esteja acontecendo. Se soubesse, ficaria tão extasiado (…) Tão arrebatado quanto. Tão ávido pela morte quanto.

(…) dia em que o destino de todos se tornaria tão desolador (…) quando encarariam

a morte olho no olho.

A gente precisava de mais combustível.

Tem alguma coisa errada (…)

Vamos mudar a rota do avião (…) entendeu? (…) tentando manter a calma.

Vamos ter que pousar para reabastecer de novo.

(…) enquanto estiver apenas reagindo ao que se aproxima, vai dar tudo

certo. Então, é para onde estou levando você. Para o Jogo. Para o Endgame.

Para Jogar. Talvez você esteja pronta para desistir, mas eu não estou pronto para Desistir (…)

O que é Endgame?

Jogo do fim dos tempos.

E você está jogando?

Estou.

Em breve, muita gente vai sofrer (…)

O avião dá uma guinada para trás (…) 

(…) quando o avião dá um solavanco e para (…) Ah, meu Deus (…)

(…) derrubou nosso avião quando teve a chance (…)

Um sinal toca, e os cintos se abrem automaticamente. Suas narinas sentem cheiro de fumaça. (…) iriam morrer.

Cai em queda livre, acende, avança em espiral e segue (…)

(…) grita durante toda a queda, então se ouve um som nauseante, e depois silêncio.

(…) fez uma aterrisagem forçada e afundou (…) quando ficou sem combustível.

A explosão viria em questão de segundos.

Eu vi o local da explosão, e não deixa dúvidas. Ninguém sai daquilo andando (…)

A explosão não é das maiores, porém a floresta zumbe com os estilhaços. Tinidos e estrépitos soam do outro lado do pedregulho, enquanto mancais, parafusos, pregos e estilhaços de metal trituram a floresta. Pedaços de casca de árvore, de folhas, de galhos cortados — tudo isso chove.

A explosão dura somente um segundo, então o silêncio volta a se instalar.

O mundo inteiro deve estar vendo TV hoje. O mundo inteiro menos nós, os Jogadores.

the-legend-of-korra-endgame-avatars-1280x718

Os jogadores do livro não jogam futebol. Disputam um jogo de fim do mundo. São descendentes de 12 linhas de ancestrais criados por extraterrestres para habitar a Terra. Quando o Endgame começa eles lutam pela sobrevivência, até que reste só um vivo. O Laboratório Niantic, do Google, fez da trilogia um jogo de realidade expandida. Logo estará nas telas também um filme, produzido pela 20th Century Fox. A editora americana HarperCollins ofereceu um prêmio ao primeiro leitor que decifrasse os enigmas escondidos pelas páginas.

A ficção teria se unido ao real no voo da Lamia com o Chape para Medellin, na Colômbia, em novembro de 2016.

Tentei entrevistar o principal autor de Endgame, James Frey. Conhecia-o por seu livro Um Milhão de Pedacinhos (A Million Little Pieces), que apareceu em 2003 nos Estados Unidos. Recomendado na TV pela influente apresentadora Oprah Winfrey, o livro alcançaria, rapidamente, o primeiro lugar entre os mais vendidos, gênero não ficção. Eram as memórias de um dependente de drogas reduzido a fragmentos.

frey5“Um milhão de mentiras”, denunciou o website The Smoking Gun.  Descobria-se que parte das memórias de Frey não batia com a realidade. Datas de internamento em clínicas, checadas, foram desmentidas. Sua prisão por 87 dias, depois de quase atropelar um guarda, dirigindo sob efeito de crack — puro delírio. Três dos principais jornais americanos, cada qual revelando mais e mais detalhes inventados, obrigaram a editora a mudar a categoria de não ficção para ficção, e ao seu autor admitir, publicamente, ter alterado a própria biografia, para efeito literário. O total de 1.729 leitores pediram, e obtiveram, o dinheiro pago pelo livro de volta.

frey1

Frey (foto acima) negou a entrevista para a TV Brasil. Procurada em Chapecó, a família de Mauro Stumpf não soube dizer nada sobre o livro levado a bordo, edição americana. Em sua página do FaceBook, Maurinho, porém, diz que fala italiano, sem mencionar se lê inglês. A cinegrafista Milene Nunes, que fez as primeiras imagens para o “furo” em gestação, perguntou a um youtuber que resenhou a trilogia se a queda do avião era relevante no enredo do Endgame. Achava coincidência demais.

A resposta que ela recebeu, por e-mail: “Acontece um acidente de avião no primeiro livro, O Chamado, mas não é um acontecimento importante . Muitos acidentes e muitas destruições fazem parte dessa história, nos três livros. Então, acaba sendo só mais um…”

Tentei falar com o tradutor da edição em português. Mas a assessoria de imprensa da editora Intrínseca, no Rio,  propôs que lhe enviasse nossas dúvidas, e uma equipe procuraria respondê-las rapidamente. Mandei a transcrição com que trabalhava havia  quatro meses. O tempo foi passando à espera de uma entrevista com Frey e do envio de um repórter e cinegrafista a Chapecó.

Talvez tenha se perdido ao longo do projeto um detalhe importante, na verdade o principal: a transcrição havia sido montada com pesquisa no PDF de A Chave do Céu, baixada da internet gratuitamente, e a partir de buscas por palavras chaves, como “avião”, “falta de combustível”, “desastre”….  Não me lembro de saber que se tratava de uma montagem com frases pinçadas aqui, ali e acolá no calhamaço de 675 páginas.

Meu associado no projeto escreveu um e-mail:

 “Verifiquei alguns detalhes no livro. Realmente, a história é bem complexa. Conferi com mais tempo alguns trechos e conclui o seguinte:

> A história se passa em vários ambientes, e os jogadores são transportados tanto de avião quanto de helicóptero.

> Sobre falta de combustível: ocorre inicialmente em um avião. (Páginas 199 a 201)

> O que caiu por falta de combustível foi um helicóptero.

Na página 207: “O helicóptero fez uma aterrissagem forçada e afundou no Atlântico, quando ficou sem combustível”. O que cai em espiral é um míssil. Página 410.

De todo modo, abrindo o arquivo PDF do livro e buscando por algumas palavras temos aquelas frases incríveis, que chamam a atenção pela semelhança com o acidente da chapecoense”.

velorio3

A Intrínseca fulminou o nosso furo sensacional de reportagem, localizando cada frase da transcrição e seu sentido completamente diferente. Ainda nos alertou: provavelmente tínhamos uma cópia pirata do livro, não confiável, porque a editora não disponibiliza PDFs grátis na internet. Alguns dos exemplos que nos mandou:

>> Cai em queda livre, acende, avança em espiral e segue (…) – Não tem acidente. É um míssil. 

>> grita durante toda a queda, então se ouve um som nauseante, e depois silêncio – Não tem acidente. É uma luta corpo a corpo. Quem está caindo é uma pessoa. 

 >> Fez uma aterrissagem forçada e afundou (…) quando ficou sem combustível. – Não tem acidente. O personagem saiu do helicóptero.

>> A explosão viria em questão de segundos. – Não tem acidente. A “explosão” se refere a um meteoro. 

Eu vi o local da explosão, e não deixa dúvidas. Ninguém sai daquilo andando (…)A explosão não é das maiores, porém a floresta zumbe com os estilhaços. Tinidos e estrépitos soam do outro lado do pedregulho, enquanto mancais, parafusos, pregos e estilhaços de metal trituram a floresta. Pedaços de casca de árvore, de folhas, de galhos cortados — tudo isso chove. A explosão dura somente um segundo, então o silêncio volta a se instalar. <<Não tem acidente de avião.

22084238Era uma vez um furo sensacional, ou uma barriga inesquecível.

Agradecimentos: 

Milene Nunes,

José Vidal Pola Galé, da TV Brasil, e

Andressa Camargo, Editora Intrínseca.

Feliz ChristHanukkah!

vintage-photo-of-bassam-shakaa-on-wheelchair-b94389b473267b7d9fa41d2f911aff25

Quando terminou a entrevista, o ex-prefeito de Nablus, Bassam Shakaa (foto), pediu para empurrar sua cadeira de rodas até o quintal. Fazia um ano, em junho de 1982, ele perdera as duas pernas na explosão de uma bomba em seu carro, em atentado perpetrado por um terrorista judeu.

No quintal, Shakaa mostrou o túmulo do pai, do avô, avó, do tataravô e outros ascendentes. Então, arrematou:

-Esta terra me pertence, foi sempre de minha família.

Saí da casa de Shakaa e fui falar com o porta-voz militar, que acompanhava um grupo da imprensa internacional em visita à Cisjordânia. Contei-lhe dos túmulos. Quis saber qual o argumento de Israel para reivindicar as terras ocupadas durante a guerra dos Seis Dias, em 1967. Ele apontou para o Sul, para Hebron, a 78 quilômetros dali.

-Lá está a tumba de Abraão – respondeu.

Na Gruta dos Patriarcas, em Hebron, que os muçulmanos chamam de Mesquita de Ibrahim, estão enterrados outros patriarcas e matriarcas de Israel, como Sara, mulher de Abraão; Isaac e Rebeca; e Jacó e Leia. Só falta Rachel, cuja tumba fica à entrada de Bethlehem, ou Belém. Os judeus ortodoxos apresentam como prova de propriedade das terras, que chamam de Judeia e Samaria, o velho testamento.  É a escritura.

Lembrei desse momento nos meus tempos de repórter no Oriente Médio para ilustrar a minha impotência em responder às ferozes reações ante a resolução do Conselho de Segurança da ONU que condenou os assentamentos judeus na Cisjordânia. Não, não tenho respostas. Nunca as tive. Se alguém as tiver, que as apresentem para, quem sabe?, ativar o processo de paz parado. Discutir divisões ideológicas e raciais, para mim, é só blablablá que não leva a nada. Aqui não se trata de ganhar um debate. Foi por aí que o presidente Obama, a quem até admirava, me decepcionou profundamente.

-Por que os EUA se abstiveram de votar?

Em fim de governo, já em transição, o que pretendeu Obama ao incentivar a retomada de uma resolução já adiada por quem a tinha proposto, o Egito? O que Obama fez em oito anos para sentar à mesa de negociações palestinos e israelenses? Quis peitar o próximo presidente Donald Trump? Vingar-se do premiê Nethanyahu, que fez campanha contra o acordo nuclear EUA-Irã diretamente no Congresso americano, jogando-o para escanteio? Não vejo motivo que justifique uma decisão que herdará seu sucessor, dia 20 de janeiro. Um partido que perdeu as eleições não dará andamento no Congresso à mais uma resolução “sem dentes” — aquelas que não exigem implementação.

56438eeb1400006f023ca88b

Pelo contrário, israelenses de direita e religiosos, se os conheço bem, vão reagir, pavlovianamente, ampliando os assentamentos, talvez anexando áreas que estavam com status incerto, à espera de definição através de negociações.  Oficialmente, mesmo durante o shabat, o que é uma raridade, o governo já rejeitou a resolução. Agora, numa escalada, a ONU poderá partir para sanções contra Israel. Mas, e Trump? Os palestinos vão discutir um acordo com os israelenses através de decisões do Conselho de Segurança? Por que não cumpriram a primeira de todas, a da Partilha da Palestina com os judeus, em 1948, e preferiram a guerra? Tantas mortos depois, estão querendo agora o que rejeitaram, com o Hamas, Hezbollah e o Irã riscando do mapa o estado de Israel.

Baixo agora minha própria resolução: não vou entrar mais em discussões apaixonadas sobre israelenses e palestinos. Conheço quase todas as versões e respeito quem as defende. Discutir por discutir é inútil. Quero fatos,  a realidade transformadora, ações que façam avançar a humanidade, não as que nos levem à barbárie de Alepo, da Síria, os jihadistas do Estado Islâmico, refugiados morrendo no mar e atentados repentinos, em qualquer lugar.

Hoje é véspera de Natal e de Hanukká, o ChristHanukkah. Que tenhamos uma trégua, uns dias de paz. A todos, boas festas.

Estarei de volta dia 10/1.

 

Cai Alepo, sobe Trump.

 

al-jazeera

Foto: Business Insider

 

A batalha por Alepo está chegando ao fim, com a vitória da aliança síria-russa-iraniana, mas um novo fator embaça a visão do que está por vir — a guerra no sexto ano e com cerca de 300 mil mortos: é Donald Trump.

captura_de_tela_121216_075606_pmO próximo presidente dos Estados Unidos, ao contrário de Barack Obama, não exige a deposição do presidente sírio, Bashar Assad, e nem vê problemas com a presença militar russa em território sírio. Ele quer acabar com o Estado Islâmico em pontos isolados da Síria e do Iraque.
Até a reconquista de Alepo, nesta segunda-feira 12, os jihadistas do EI não foram alvos prioritários da aviação russa. Nem secundários. Na mira estiveram sempre os rebeles sírios, atacados pesadamente para salvar o governo de Assad. Os americanos voaram seus aviões para fora da Síria, então entregue às milícias xiitas do Líbano, Iraque e Irã.

 

patrialatina

Putin

Fugitivos de Alepo diziam estar saindo do “fim do mundo”, exibidos pela tevê estatal síria. Apenas alguns bolsões do lado oriental da cidade ainda resistiam ao assalto, sem hospitais, combustível e os galpões com trigo. É a maior vitória de Assad em toda a guerra civil. Agora ele não precisa concordar com cessar-fogo e negociações da diplomacia internacional.

A União Europeia continua pedindo apenas o fim dos

the-telegrsaph

Assad

bombardeios aéreos e a proteção dos civis. Depois de impor 230 sanções à Síria, sem nenhum resultado, a chanceler da UE, Federica Mogherini, concluiu que nada mais poderia fazer. Os rebeldes ficaram isolados e, em menos de um mês, foram cercados e vencidos.
Com a eleição de Donald Trump o futuro imediato da Síria não está claro. Assad, para ele, pode continuar presidente, desde que apoie a luta dos Estados Unidos contra o EI e a Al-Qaida, ressurgindo após a morte de Bin Laden.. Mas há um risco: o governo sírio pode cair em poder de grupos islâmicos — o

download

Trump 

temor que levou Barack Obama a se aliar com os rebeldes.
A Arábia Saudita, que apoiava os rebeldes, e Israel, na fronteira dessa incerta Síria, não fecham com Trump. Restam as forças dos curdos sírios e iraquianos e os turcos, que combatem os jihadistas do EI nos vazios dos dois países, mas também estão em guerra entre si. O fim da batalha de Alepo pode ser o início de outra guerra.

Jogo de vida e morte

 

fotos-borboleta-1

 

Arrumava os pertences de meu pai, depois de enterrá-lo. Tinha decidido doar camisas, calças e um terno, tudo tamanho esquisito, porque ele era gordo, mas baixinho. Ia enchendo a única mala que abri sobre a cama, às vezes parando para ler papéis com anotações, documentos pessoais, fotos, contas pagas e a vencer, lista de telefones e recados de quem o procurou. Punha a papelada, picando-a, dentro de um saco plástico. Assustei quando bateram à porta.

A dona da pensão disse que havia um homem na rua perguntando pelo meu pai. Era o bicheiro “responsável” pela área do Catete, no Rio, aonde estávamos.

— Cadê seu Luiz?

— Morreu ontem; foi enterrado hoje. Por quê?

O bicheiro estava mais que espantado — na verdade, assombrado, lívido.

Incomodado com o silêncio demorado, pedi:

— Fala, homem! Sou filho dele, pode falar…

— Bem, o seu Luiz jogou o ano todo num único milhar. Uma vez me contou que era o número da sepultura da esposa dele. Mas não sei… Hoje, deu o milhar. Inteirinho. Na cabeça. Vim aqui saber: por que ele não apostou?

Fiquei eu assombrado também. Meu pai começou no jogo do bicho antes de aprender o português. Fazia pouco tempo que desembarcara no Brasil, fugido do nazismo que crescia na Alemanha. Ele vinha da Bielo-Rússia e minha mãe, de Lod, na Polônia, inconsolável com a morte de seu noivo, formando em Medicina, em um campo de concentração.

— Se não casar comigo, me mato — foi o ultimato de Luzer à Gela, nomes logo abrasileirados para Luiz e Geni. Quando o navio atracou na praça Mauá, no Rio, o casamento já estava acertado. Mas minha mãe jamais superaria a perda do noivo polonês. Suicidou-se anos depois. Nem seus dois filhos já adultos e quatro netos, nem duas internações em clínica psiquiátrica e nem a aposentadoria aonde ela mais gostava de estar, Copacabana, a meio quarteirão do mar, a resgataram do abismo da depressão para a vida. Uma tarde, pediu a meu pai para ir comprar cigarro — e, assim que ficou sozinha, ateou-se fogo, depois de tomar veneno. Queria certeza da morte, sem nenhuma chance de sobrevivência.

jogo-do-bicho-feiraNo bairro Renascença, em Belo Horizonte, meu pai era o terror dos bicheiros, o Rei do Bicho. Ganhava muitas vezes. Qualquer número que lhe chamasse a atenção virava palpite. Acordava de sonhos inspirado, jogo feito. Gostava muito da borboleta, 13. Se visse um cachorro ser atropelado, cravava no 17. Certa vez, quebrou a banca. A notícia correu e o fez famoso entre apostadores, que então lhe pediam sugestões de dezenas, centenas ou de bichos. Se alguém ganhasse com sua ajuda, pagaria-lhe uma porcentagem. “Jogo é jogo” — mandava a a lei. Ele também era invencível no buraco, ou canastra.

Mudamos do Rio porque os irmãos de minha mãe, também refugiados poloneses, estavam aprumando em seus negócios em Belo Horizonte, e estendiam a mão a meu pai, que vendia roupas a prestações principalmente em rendez-vous e na zona, porque “as putas honram o nome, e pagam”. Logo ele abriu uma loja de roupas na Renascença, diante da parada bem movimentada do bonde Ozanã, na rua Jacuí. Depois, atravessou a rua e abriu outra loja, maior, só de móveis. Com a chegada da TV, acoplada às radiolas (rádio + toca-discos), as vendas da Mobiliária Renascença Ltda. dispararam. A primeira filial foi inaugurada no bairro da Graça.

Os bicheiros da Renascença tinham seu quartel-general no final de um comprido e bem estreito corredor, seguido de uma escadaria que dava num emaranhado de salas e quartos. Assim era por causa da polícia. Quando havia uma batida, dificilmente alguém era capturado. Sumiam todos. Às vezes, meu pai me mandava entregar o jogo lá dentro. Só chegava se guiado até a mesa de apostas. Todos nas ruas próximas serviam de alerta precoce aos bicheiros para a presença da “rapa”, a radiopatrulha.

Pedi para ver o milhar que meu pai não ganhou. Confirmei-o com a certidão de óbito da minha mãe, que estava à mão porque a consultara no dia anterior para enterrar meu pai ao lado dela, ou perto, na mesma quadra. Antes de assombrado com a coincidência mágica e inexplicável do milhar do bicho e o da sepultura, unidos pelo meu pai, já estava perturbado por causa de outro fenômeno.

150926165742__85730600_monkey2Quando a dona da pensão no Catete telefonou para avisar que meu pai tinha sido levado de ambulância para uma clínica cardiológica, em Botafogo, “mas que já estava passando bem”, fui de carro de São Paulo ao Rio, sem parar. Peguei a Via Dutra por volta de meia-noite e cheguei com o dia amanhecendo. No caminho senti algo que julguei ser uma premonição, nunca antes vivido. Foi ao cruzar São João do Meriti, na baixada fluminense: frio no estômago, arrepios, calafrio, inquietação — tudo junto. Aí lembrei, ao reconhecer a entrada que leva ao Cemitério Israelita de Vila Rosali: aqui está enterrada Gela-Geni, minha mãe.

Na recepção da clínica em Botafogo percebi algo estranho ao falar o nome do paciente que queria visitar. Estranhei mais ainda quando, em vez de darem o número de um quarto ou a direção da enfermaria ou UTI, levaram-me direto para a sala do chefe dos médicos de plantão. Pior ainda, para completar, o doutor gaguejava.

— Seu pai está bem — ele me tranquilizou, talvez como introdução ao pior. — O paramédico que o examinou diagnosticou que ele estava infartando. Deu-lhe os primeiros socorros, colocou-o na ambulância e o trouxe para cá, onde ele continuou sendo medicado. Só que exames mais acurados, pela manhã, não confirmaram nenhuma cardiopatia. Foi um lamentável erro de diagnóstico. Talvez seu pai estivesse com indigestão, ou algum outro incômodo qualquer. Então, agora, temos que o manter sob observação por 48 horas, porque o que lhe demos para salvá-lo poderá matá-lo. Mas fique tranquilo: vocês não pagarão nada. Assumiremos todas as despesas.

Meu pai estava de bom humor, mesmo conectado a monitores e tomando soro na veia. Até brincou: “Vamos aproveitar que você e seu irmão vão estar aqui para visitar o túmulo da sua mãe. Poderemos ir depois de amanhã, aniversário da morte dela.” A alta foi assinada de véspera. Combinamos que sairíamos da clínica assim que acordássemos, sem pressa. Mas meu irmão não viria mais, com muito trabalho em Belo Horizonte.

Durante a noite, acordei ao sonhar que fazia xixi na calça. Passei a mão para sentir se estava molhado, e nada. Seco, resolvi perguntar a meu pai que bicho daria esse meu sonho. Ao olhar para ele vi-o sufocando, os braços abertos em minha direção. Deu tempo de ampará-lo. O abraço com o corpo abandonado ficou pesado. Entraram médicos e enfermeiras no quarto. Choques, injeções, socos no coração — e no monitor um traço contínuo. Já ia pedir que parassem quando pararam: nada adiantaria mais.

Fomos para o cemitério de Vila Rosali, como previsto. Meu pai, no caixão. E no aniversário da morte de minha mãe — que, a partir de agora, seria o do casal, com um ano de diferença entre eles.

O rabino cantava uma lamentação para mortos, e eu me perguntava: “Foi mesmo premonição o que tive ao passar por aqui, na Dutra?” Uma ventania repentina balançou árvores, levantou pó e apagou velas quando as primeiras pás de terra começaram a cobrir a cova. Meninos que seguiam a cerimônia trepados num muro fugiram dali. O vento em dia quente, sem nuvens, seria uma resposta criptografada do… além? Ou apenas me tornara macabro diante das coincidências?

Esvaziei e limpei o quarto dos últimos tempos do meu pai, paguei à dona da pensão, e saí do Catete para o Ibirapuera, em São Paulo. Passei pela avenida Brasil tão congestionada como horas antes, quando segui o carro funerário para Vila Rosali. Subi a serra das Araras. Sentia alívio por sair, enfim, da Baixada Fluminense, para mim associada à morte de mendigos no rio Guandu, ao tempo do governo Carlos Lacerda, e à alta criminalidade. Já perto de Penedo me lembrei do saco que enchi com a papelada que restou do meu pai, tudo picadinho como confete. Abri-0, e também só um pouco a janela do motorista, e o fui esvaziando devagar, de mão em mão, os papeizinhos sumindo ao vento.

convivencia-entre-caes-e-gatos-1

Epílogo

   Por vários anos saí à caça de bilhetes de loteria com os números das duas sepulturas. Só achei milhares aproximados, que nem reembolso renderam. Agora conheci uma bicheira. Mas não herdei a sorte paterna. Certa vez, faz tempo, um homem me abordou com um bilhete que tinha apenas o primeiro dos cinco algarísimos do milhar diferente dos que tanto procurei. Fui dormir milionário, cantarolando “Acertei no milhar”, do Moreira da Silva. Mas nada… Se desse, eu enlouqueceria.

 

 

Mister Power

downloadAos aflitos, arrasados, desconsolados, deprimidos, escandalizados e chocados com a imprevista vitória do presidente eleito dos EUA, o noviço político Donald Trump, trago um consolo, uma esperança: já vi um país eleger um candidato inesperado, capaz de provocar uma tragédia, e não só sobreviver, como reelegê-lo ao final do mandato.
Estou falando de Menachem Begin, eleito premier de Israel em 1977, o primeiro de direita depois de 30 anos de trabalhistas no poder, e aliado dos partidos religiosos radicais. Foi saudado pelos colonos judeus da Cisjordânia como o Messias que viria salvá-los. E prometia não dar um grão de areia do Sinai em troca da paz com o Egito do presidente Anuar Sadat.
Mas a verdade é que Begin devolveu todo o Sinai, com seus poços de petróleo e mais Yamit, uma cidade nascida à beira-mar. Seus ministros Moshé Dayan e Ariel Sharon, depois, iniciaram o diálogo com a Organização de Libertação da Palestina (OLP), chefiada por Yasser Arafat, retomado mais tarde por Yitzhak Rabin e Shimon Peres. O próprio Sadat reconhecia que, se Begin estivesse na oposição, o acordo de paz não seria aprovado. Ele o derrubaria.
A partir de 20 de janeiro de 2017, Trump terá que cumprir o que prometeu na campanha que tornou a mais agressiva da história americana. Vai nomear um ministro de direita para a vaga aberta na Suprema Corte de Justiça? Mudará a política de imigração dos EUA? Levantará um muro ao longo da fronteira com o México? Como se comportará com mulheres, afro-americanos, hispânicos, judeus e muçulmanos, refugiados e países em guerra nos quais tropas americanas estão envolvidas?
“Se quiseres testar o caráter de um homem, dê-lhe poder” – receitava o 16º presidente dos EUA, Abraham Lincoln. O 45º acaba de ser empoderado. Terá Câmara e Senado a seu favor, mas é um noviço, sem experiência militar e de governo. Jornais preparados para a vitória da candidata democrata Hillary Clinton, prevista pelas pesquisas de opinião pública, amanheceram com manchetes espantadas, ressaltando uma “tragédia americana”, uma “nação dividida”, a próxima “Casa (branca) dos Horrores”, os “Estados Desunidos”, uma “Nação Trump”, um deles pedindo “God save America” e um outro, “Deus perdoe a América”. Houve um, o Red Eye (foto), de Chicago, que saiu com a capa preta, e um aviso típico de computador: “baixando democracia”, como se fosse um aplicativo (foto ao lado).14925501_10153914856161466_2271388668886330192_n
No discurso de vitória da madrugada, Trump mudou o tom hostil que usou na campanha. Mostrou-se magnânimo: “Serei o presidente de todos os americanos”. Ele também confirmou uma de suas promessas: “Os esquecidos homens e mulheres de nosso país agora serão lembrados”. O czar Putin rejubilou-se. Talvez tenha sido o único líder mundial a festejar a escolha dos eleitores americanos. O boliviano Evo Morales disparou: “Nos EUA valem mais as armas que os votos”. Do Irã surgiu um apelo: “Que o acordo nuclear fechado com o presidente Obama seja mantido”. Mas em geral prevalecem a incerteza e o susto, agravados pelo mercado financeiro despencando.
Uma revista americana publicou em outubro um ensaio explorando como seria a Casa Branca de Trump. A primeira medida que ele iria tomar seria desfazer alguma decisão importante do presidente Obama, para marcar presença e gerar forte impacto. A escolha recairia, então, sobre o acordo de mudança do clima de Paris. Mesmo na ficção, Trump não se torna um presidente palatável para os h_morgen_post-750Estados Unidos e o mundo. A realidade só começará a ser revelada em cerca de 70 dias.

 

Shalom, Sharon

web_f061119ey04-e1388919055587

Ariel Sharon:  1928 – 2014

 

Ariel Sharon e Shimon Peres:

ambos sofreram derrame cerebral

e morreram no mesmo hospital,

Sheba, com a diferença de 2 anos.

 Sharon passou 8 anos em coma.

 

ariel-sharon-the-trent-12

Shimon Peres: 1923 – 2016

“Aharai, aharai!” – era o grito de guerra do jovem capitão Ariel Sharon. “Sigam-me, sigam-me!”, gritava, e partia à frente das mais audaciosas e inesperadas batalhas da história militar israelense. Os soldados iam atrás. Iriam onde quer que fosse, avançando sob fogo cerrado. Só recuariam se perdessem dois terços das tropas.

Se hoje o general Sharon gritasse aharai, Israel ainda o seguiria. Mas ele sofreu um maciço ataque de um inimigo invencível, o próprio corpo de 77 anos, gordo, frágil, comandado por nervos de aço. Sem ele, seu país não será mais o mesmo.

Foi na sua Unidade 101, base lendária do moderno Exército israelense, que Sharon teve seu primeiro encontro com a morte. Era a Guerra da Independência, 1948, e sua brigada lutava para conquistar o convento de Latrun, entre Jerusalém e Tel-Aviv. Uma bala jordaniana perfurou-lhe o estômago. Um soldado o carregou para a vida. Até recentemente os dois se encontravam, amigos. Ordens do capitão Arik (leão em hebraico, o seu apelido): não deixar nenhum ferido em campo de batalha, mesmo à custa de mais feridos, ou mortos.

Arik também viveu a morte em família. Margalit, a primeira mulher, morreu num acidente de carro. A irmã dela, Lily, com quem ele se casou depois, morreria de câncer, deixando-o inconsolado. E Gur, um dos filhos, morreu aos 10 anos mexendo numa das armas antigas do pai.

Aharai, aharai (pronuncia-se arrarai) – e a tropa o seguia. Nascido Ariel Scheinermann em 1928, e criado em Kfar Malal, na Palestina sob mandato britânico, aos 14 anos ele já carregava armas, operando em organizações paramilitares clandestinas que defendiam os colonos judeus. Tinha a fama de rebelde, não cumpria ordens, e geralmente as excedia. Excesso: esta sempre foi a marca de Sharon. Para ele, não era “olho por olho”, e sim “dois olhos por um olho”.Talvez por isso também o chamavam de Trator, Elefante e Rei de Israel. Nada o brecava. Uma vez, em 1956, ele levou seus paraquedistas a saltar atrás das linhas egípcias, no passo de Mitla, no Deserto do Sinai, para um furioso ataque em que perdeu dezenas de soldados. Outra vez, penetrou com um comando em território jordaniano para vingar o assassinato de uma israelense e seus dois filhos por terroristas – a Operação Kibia. Uma tragédia: 42 casas de pedra foram dinamitadas, matando seus ocupantes, ao todo 69 pessoas, entre elas muitas crianças.113553

Aquele capitão era tão rebelde que o general Ezer Weizman, pai da Força Aérea israelense, escreveu em suas memórias: “Na guerra, eu o seguirei no meio do fogo e da tormenta, mas a vida política tem valores diferentes.” Tão rebelde que o fundador de Israel, David Ben Gurion, perguntou-lhe: “Arik, você já parou de mentir?” Tão rebelde, que o primeiro-ministro Menachem Beguin, em seu primeiro governo, lhe recusava a promoção a ministro da Defesa, justificando-se: “Sharon é capaz de cercar com tanques o prédio do governo.”

Mas Sharon se tornou ministro da Defesa de Beguin por um único motivo: só ele, então o “rei da colonização” na Cisjordânia e Gaza, ocupados por Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967, seria capaz de retirar os colonos fixados em Yamit, no Sinai devolvido ao Egito em troca do primeiro acordo de paz com um vizinho árabe. Assim como só ele, outra vez, conseguiu retirar, em setembro de 2005, os colonos de Gaza. Ambos os lados o respeitavam e o temiam.

Aharai! A rebeldia de Sharon deu-lhe a completa confiança de seus soldados. Ele os comandou na contraofensiva da guerra de 1973, lançada pelo Egito quando os israelenses se recolhiam ao seu dia religioso mais trágico, o Yom Kippur, o Dia do Perdão. Cumpria sua própria agenda, e não ordens superiores. De repente, lá estava ele, no outro lado do Canal de Suez, cercando todo o 3º Exército egípcio. Negou-lhe água e comida, estrangulando-o enquanto o mundo inteiro protestava. Mas o mundo nunca lhe importou. O mundo, ele dizia, nada fez enquanto Israel era atacado de surpresa, por todos os lados, e sua população estava jejuando e rezando nas sinagogas.

“Quem não é meu amigo, é meu inimigo” – ele não fazia concessões. Ao estourar a guerra no Líbano, em 1982, a marca do excesso de Sharon brilhou. O porta-voz militar israelense deixou de falar com os jornalistas locais ou estrangeiros. Os ministros do núcleo duro do governo Beguin se diziam por fora do que acontecia, desinformados, não consultados. Prevista para chegar só até a 45 km da fronteira Norte de Israel, a invasão do Líbano excedeu, entrando em Beirute e envolvendo a Síria. Sharon perseguiu seu arqui-inimigo Yasser Arafat casa a casa, pulverizando edifícios em que ele passava a noite, até expulsá-lo para a Argélia. E, 20 anos depois, ironia do destino, o primeiro-ministro Sharon e o presidente da Autoridade Palestina, Arafat, se reencontraram para transformar a Cisjordânia numa nova Beirute.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Beguin e Sharon queriam impor uma nova ordem no Líbano. Com tanques e soldados, elegeram o cristão maronita Bashir Gemayel, soterrado em seu QG por uma poderosa bomba às vésperas da posse. As forças cristãs tomaram as ruas para uma vingança, quando Israel era senhor absoluto em Beirute. As milícias falangistas cristãs penetraram nos campos palestinos de Sabra e Chatila e perpetraram um massacre, matando cerca de 800 homens, mulheres e crianças em três dias. Uma comissão de inquérito israelense responsabilizou Sharon “indiretamente” por nada ter feito para impedir ou interromper o massacre. E ele caiu do Ministério da Defesa.

Eu vivi um dos excessos de Sharon. Estava em Beirute quando o cessar-fogo foi obtido pelo diplomata americano Philip Habib, no verão de 1984. Os sinos das igrejas repicavam. Tiros eram disparados para o ar por libaneses eufóricos. Mas… o que vinham fazer naquele momento os aviões israelenses sobre Beirute? Eles cruzaram 220 vezes os céus da cidade. Despejaram 44 mil bombas. O presidente Ronald Reagan chamou Beguin ao telefone e transformou a saudação israelense, shalom (paz), numa ordem.

Esse era Sharon. O general Moshe Dayan só não o levou certa vez à Corte Marcial porque não ficaria bem julgar um oficial por ter feito mais do que o mandado. Normalmente, julgam-se militares que nada fizeram, acovardaram-se, ou fizeram de menos. Fora do governo, só lembrado nas ruas como o “buldôzer”, ele mudou de vida. Tentou ser recebido na Casa Branca. Ignoraram-no. Costurou um acordo secreto com o Líbano. Invalidaram-no imediatamente. Organizou excursões turísticas e políticas às colônias da Cisjordânia e Gaza, quando os EUA as denunciaram como “obstáculos para a paz”. Repudiaram-no. Mas ele voltou. E precisou apenas passear provocativamente pela esplanada do Templo, onde hoje estão as mesquitas de Omar e Al-Aqsa, para provocar uma nova intifada palestina que o reconduziu ao poder, há cinco anos.

2014151223_ariel-sharon020114Os israelenses o elegeram como antídoto ao terrorismo crescente e aos distúrbios permanentes na Cisjordânia e Gaza. Só ele, Arik, para enfrentá-los. Aharai! Dominante, durão, Sharon reduziu a sua própria oposição a fragmentos no Parlamento. Com a estratégia militar de surpreender a todos, mas agora em guerra política, ele abandonou o partido nacionalista de direita Likud, que fundou à revelia de Beguin, e criou o Kadima, ou “Pra Frente”, mais ao centro. Causou um terremoto em Israel. Agora, ele admitia a ideia de desterrar algumas das colônias da Cisjordânia de que tanto antes se orgulhara e defendera. O herói de guerra passou a ser visto também como um herói da paz. E um traidor.

Aharai! O Kadima já era o favorito das eleições de março. Mas o Kadima era Sharon. E Sharon retirou-se para o seu rancho no dia 4 de janeiro de 2006, onde se preparava para uma míni cirurgia no coração na manhã seguinte, quando foi surpreendido pelo seu último e imbatível inimigo, o próprio corpo. Um acidente vascular cerebral (AVC) o derrubou ao chão. Levaram-no de picape para o hospital. Se fosse de helicóptero, lamentaram médicos na época, haveria mais chances de salvá-lo. O general resistiu oito anos até render-se: seus órgãos o abandonaram, um a um.

Um âncora da TV israelense, Yair Lapid, perguntou-lhe numa entrevista pouco antes de sua última batalha chegando agora ao fim: “O que o povo ainda não conhece a seu respeito?” Ele sorriu timidamente, e revelou: “Eu adoro filmes românticos.”

images

Sonhador, Sofredor, Perdedor

 

2349077637

Shimon Peres disfarçado para entrar no Marrocos para uma conversa com o Rei.

Os israelenses foram dormir com Shimon Peres eleito primeiro-ministro e acordaram com Binyamin Nethanyau vitorioso por uma diferença de menos de 1% dos votos. Era 1996. Foi a quarta e última derrota do homem que carregou o estigma de perdedor, sofredor e sonhador por toda a sua vida política. Escrevi este artigo enquanto os votos eram contados e o reproduzo sem atualizá-lo, tal qual foi publicado no Estadão.

 

israeli_general_election__1996_-_wikipedia__the_free_encyclopedia

Jerusalém – O primeiro-ministro Shimon Peres “nasceu para sofrer” — concluiu o analista político Nahum Barnea, no jornal Yedioth Aharonoth, o de maior circulação em Israel. Como a confirmá-lo, ontem ele estava sofrendo. Também o chamam de “perdedor”. Para manter e reforçar a fama, hoje ele poderá perder oficialmente a quinta eleição. Ainda é um “sonhador”. Mas o futuro que ele sonhou para o Oriente Médio talvez não se realize mais.

  “O Oriente Médio está cheio de profecias e sangue”, dizia Peres, o sonhador, antes das eleições. Até previu: “Chegou o tempo em que os profetas vencerão os guerreiros”. Mas a maioria dos israelenses parece ter elegido o pragmatismo.

  Peres “já atravessou muitos sofrimentos na vida”, lembrou o secretário-geral do Partido Trabalhista, Nissim Zvilli. “Mas está bem”. Lá ia ele, encurvado, para seu Volvo blindado, em Ramat Aviv. Pouco dormira durante a noite. Viu pela TV ser aclamado o próximo primeiro-ministro das primeiras eleições diretas em Israel. Depois, inesperadamente, foi até o hospital Tel Hashomer  para um exame em um olho infeccionado. (20 anos depois, aqui ele morreu)

Saiu depois de casa para o Ministério da Defesa. Reuniu os ministros do Partido Trabalhista para lhes pedir uma abstinência total de declarações à imprensa antes que os resultados finais ficassem claros. “Estava calmo”, disse o ministro da Saúde, Ephraim Sneh.

  “Um sofredor”, como diz Barnea, porque agora ele tinha tudo para vencer. “O mundo todo o apoiava”. A lista incluía o presidente Bill Clinton, que “doou a América”. Também o presidente Yasser Arafat, que “doou as transmissões da rádio Voz da Palestina” e ainda colocou à disposição sua segurança contra atos de terror. Os árabes israelenses magoados com os recentes bombardeios no sul do Líbano compareceram em massa às urnas para lhe dar a vitória. “Depois do assassinato de Rabin e com tudo que conseguiu, ele merecia uma clara vitória”. Resta-lhe sofrer, agora, com o resultado final.

  “… Uma questão de destino pessoal”, diz no jornal Haaretz o colunista Amnon Dankner. “Peres é um sofredor de nascença e não há nada que se possa fazer”. Ele vai sempre chegar à fonte, “mas não beberá das águas do sucesso”. Como o mitológico Sísifo: rola a pedra até quase o topo da montanha só para então vê-la despencar.

  1101960610_400Endurecidos por guerras, os israelenses não compartilham dos sonhos do seu Nobel da Paz. E sua carreira política será decidida a partir de hoje pelo voto de 140 mil soldados, pacientes de hospitais, loucos, prisioneiros, diplomatas e funcionários israelenses vivendo no exterior. Por duas vezes ele chegou ao cargo de primeiro-ministro. De 1984 a 86, por um acordo de rotatividade com o Likud. Depois, como herdeiro de Yitzhak Rabin, o rival que o achava “um infatigável homem de intrigas”.

  Ao final do debate com Bibi Netanyahu, no domingo, Shimon Peres pediu aos israelenses, lembrando-se publicamente de Rabin pela primeira vez na campanha eleitoral: “O mensageiro foi morto, não a mensagem – a mensagem para criar uma paz real com segurança real e prosperidade econômica… Não deixemos perder essa mensagem”.

  No último dia de campanha eleitoral, Shimon Peres teve que cancelar todas as aparições públicas depois de receber novas ameaças de morte de radicais judeus, em telefonemas anônimos a jornais em Tel-Aviv. Mas advertiu os eleitores: “Uma coligação da direita poderá… destruir o processo de paz”.

Ps. para a foto: Camuflado, Peres entrou no Marrocos. O rei o convidou, e a seu amigo Yossi Beilin, para o esperarem para o encontro no próprio palácio. Mas o rei demorava a aparecer. Então, Peres sugeriu que dessem uma saída para verem na cidade um espetáculo de balé e voltassem. Consultaram súditos: daria tempo?  Receberam uma resposta real: que  não fossem porque haveria o perigo de que os reconhecessem.

A surpresa da noite! Enquanto Peres e Beilin esperavam, adentraram o salão os bailarinos do espetáculo que pediram para ver. “A montanha veio a Maomé”, concluíram.