Verdade? Mentira?

No telão, quatro Barack Obama, lado a lado, falam simultaneamente. Aí o gênio Supasorn Suwajanakon pergunta à plateia:

– Qual deles é o verdadeiro?

– Nenhum – ele próprio responde.

Se uma foto vale mil palavras, quantas valeria um vídeo? Na campanha eleitoral para o governo de São Paulo alguém produziu um vídeo em que João Dória aparecia numa cama com várias mulheres. Mas o sultão no harém era tão mal feito que logo desapareceu. 

Barack Obama estrela um outro vídeo em que mostra o momento em que já não é mais ele falando o que está dizendo. Então, adverte:

-Estamos entrando uma era em que nossos inimigos podem fazer qualquer um dizer qualquer coisa em qualquer momento. 

O gênio do Google Brain, com esse nome impronunciável, Supasorn Suwajanakon, teria nascido onde? Parece indiano, país avançado em tecnologia. Hoje, ele é palestrante da Vistec, um novo instituto de pesquisa em Rayong, na Tailândia. Diz que podemos chamá-lo de “Aek”, obrigado. Seria tailandês? Googlei sem tempo, quase estourando o deadline. Depois de percorrer jornais e sites brasileiros e internacionais que falaram dele e exaltaram seu currículo, desisti. Já tinha o bastante para mais um dos motivos do declínio de credibilidade da mídia: as notícias incompletas, descaso com a curiosidade dos leitores, ouvintes ou telespectadores. Quantas vezes na imprensa lemos sobre um jogo de futebol em que falta o essencial: o resultado?

Temos aqui o futuro, o deepfake, e o presente/passado do jornalismo, a falta de informações nas notícias, que colaboram para o estado de desconfiança que paira sobre toda a mídia.

Mas não só.

“Califórnia institui a sharia” (a lei islâmica).

NADA É REAL

“Ex-presidente Bill Clinton se tornou assassino em série”. 

“Michelle Obama está realmente namorando Bruce Springsteen?”

“Fazendeiro de Iowa afirma que Bill Clinton fez sexo com vaca durante Festa da Cocaína”.

Impressionante: seis milhões de pessoas acreditam nestas manchetes do site America’s Last Line of Defense (A última linha de defesa da América), apesar de avisadas, 14 vezes, que “Nada nesta página é real”. Mas para a audiência que lembra a “Velhinha de Taubaté”, do escritor Luís Fernando Veríssimo, tudo é factual. O incrível, repassado, viraliza. E Christopher Blair, 46 anos, embolsa 15 mil dólares em publicidade por mês. Sua ideia original era fazer um site de humor, como a Falha de São Paulo. 

“Não importa o quanto racista, intolerante e ofensivo, ou tão óbvio que seja fake, os visitantes voltam sempre” – disse Blair ao jornal The Washington Post em novembro. Em sua página do Facebook, ele pergunta: “Qual o limite? Há um ponto em que as pessoas, descobrindo que estão comendo lixo, voltarão a realidade?”

Sobre a mesa de Blair há uma frase definidora: “Vivemos numa idiocracia”.

O Post foi ver o outro lado. Encontrou a senhora Shirley Chapian, 76 anos, em Pahrump, Nevada, diante de uma petição para impedir a lei da sharia na Califórnia, “antes que seja tarde”, na tela do computador. Ela clicou: “Like”. Aí surgiu outro pedido: “Compartilhe para ACABAR com a atual invasão de migrantes”. Ela: “Share”.

A senhora Chapian só sabe do mundo através do monitor de seu computador. Viveu na Europa, San Francisco, New York e Miami, foi uma das primeiras mulheres a entrar para a National Organization for Women, onde batalhou pela equiparação aos salários de homens. Parou de assistir os noticiários de TV ao constatar quão distantes ficavam em relação ao que lia online. “Onde estava a notícia de que (o bilionário doador) George Soros foi um nazista assumido?” 

Ela diz que não é do tipo que produz teorias conspiratórias, “mas…”

TRUMP, UM VÍRUS

Quando o presidente Donald Trump tuíta, 56 milhões de seguidores o leem. Ele não precisa da imprensa, a que chama de “Inimigo do Povo”. As notícias que o desmentem ou contradizem são rotuladas de fake-news, duas palavras que não vão bem juntas. Notícia é o relato de um acontecimento real. E Fake, falso. Um exemplo de fake-news mundial foi a informação divulgada pelos Estados Unidos, com apoio do Reino Unido, de que o Iraque de Saddam Hussein tinha um arsenal de armas de destruição de massa, base para a guerra de 2003. Já se passaram 15 anos, e nada: deve ter sido apenas uma miragem no deserto.

O presidente eleito Jair Bolsonaro também tuíta, dispensando a mediação dos meios de comunicação. Proíbe a entrada da TV Brasil, do próprio governo, quando recebe as demais tevês para entrevistas. E anunciou que irá fechá-la. Ameaçou o jornal Folha de S. Paulo com o corte de propaganda oficial. Com os filhos, taxa notícias de fake-news, sem contribuir para que se tornem truth-news. Já o chamam de Trump Tropical, embora tenha recuado de peitar a China e mudar a embaixada brasileira de Tel-Aviv para Jerusalém, seguindo os passos do Trump do Norte.

A revista americana The Atlantic diagnosticou: Trump é um vírus. A mídia, um hospedeiro, que o distribui, causando infecção. Dilema 1: não se pode deixar de noticiar o que diz um presidente. Dilema 2: a 26 mentiras ou falsidades por dia, o presidente já chegou a 5 mil desde que tomou posse. Dilema 3: um vírus sempre mata o hospedeiro. Dilema 4: ainda não há um antivírus efetivo. 

“Crianças mentem dizendo que escovaram dentes; políticos esticam verdades no calor da campanha; repórteres já foram flagrados mentindo; escritores, também; empresas; esposas e, naturalmente, o governo”, escreveu o professor de filosofia da Universidade de New England e autor do livro “Porque Mentimos”, David Livingstone. Mentiras estão cada vez mais tão comuns como a verdade. Monótono ouvir, entre acusados da Lava Jato, que nada sabem, ou que provarão nos autos que estão com a verdade.

A própria mídia contribui também para seu crescente descrédito. Como jornais importantes permitem a publicação de matérias delicadas baseadas em fontes anônimas? Ou fonte alguma? Como um repórter se torna mais importante que a notícia? Por que editores permitem a coleta de dados pela internet? Muita demissão, pelo decréscimo de circulação e êxodo dos anunciantes, sobrecarrega os sobreviventes, pressionados por deadlines cada vez mais apertados. Acabou o ménage à trois entre jornais, publicidade e leitores.

Jornais centenários estão competindo com as notícias circulando velozmente na internet, acessada por bilhões de pessoas. O WhatsApp já passou dos 800 milhões de usuários. Twitter, 300 milhões (estimativa, porque a empresa não divulga números). “Todos se tornaram jornalistas”, proclamou o professor da Universidade de Colúmbia, Clay Shirk, em seu livro Here Comes Everybody. A verdade acabou sufocada por tantos tuiteiros. No Oriente Médio, israelenses e palestinos postam versões opostas, aberta uma outra frente de guerra. Cartas aos jornais incluem spam que exalam ódio. Fotos de cataclismos do cinema surgem como se fossem fotos do novo furacão em Miami. 

SOLUÇÃO À VISTA?

Quem mantiver a credibilidade na Torre de Babel da mídia poderá ter seu futuro assegurado. OK, mas não será tão simples assim. Ser independente é servir ao público, não ao lucro. Exemplos são o ProPublica, americano; El Diario, espanhol; OjoPublico, peruano; Connectas e La Silla Vacia, colombianos; Animal Político, mexicano; e Nexo, brasileiro. Há mais no Brasil, como Mídia Ninja, Jornalistas Livres e Nós, Mulheres da Periferia, mas eles militam para minorias. Atender ao público, não aos anúncios ou grupos, o princípio da sobrevivência,  deverá secar os investimentos no jornalismo tradicional que não migrar para o mundo da multimídia, interatividade e múlti plataforma, exceção aos grandes internacionais – The New York Times, New Yorker, The Economist, The Washington Post e os principais europeus. Várias organizações já existem para a defesa dos independentes.

O jornal desse novo tempo que faz mais sucesso é o holandês De Correspondent, de 2013, com 56 mil leitores que pagam 63 dólares por ano, gerando o suficiente para manter 21 jornalistas fulltime e 75 freelancers. Com a bênção do professor Jay Rosen, da Universidade de Colúmbia, em New York, uma edição norte-americana já está em gestação, com o apoio de 515 mil dólares da Knight Foundation e do Democracy Fund. 

Aclamado “embaixador” do The Correspondent nos Estados Unidos, Jay Rosen explicou o que ele chama de “otimização para a confiança” – o único antidoto para a perda de credibilidade. Nada de anúncios, nem caça-cliques. “Se você não está pagando pelo produto, você é o produto”, diz ele. Não há nenhum grupo a ser atingido ou a satisfazer. Nenhuma informação sobre o assinante vai para terceiros, nem mesmo para alguns serviços usados, como YouTube, Vimeo e Sound Cloud. Liberdade nas 24 horas do ciclo de notícias. Uma importante questão: como tratar o noticiário que está em todos os jornais? A resposta é interessante: “Não o tempo, mas o clima”. Quer dizer que a redação pode ignorar os flashes do dia se focar nos padrões que os produzem. Ninguém cobrará pontos de vista aos editores. Por fim, o fundamental: deverá haver uma rica interação com os leitores — os donos do futuro jornalismo com credibilidade.

http://portalimprensa.com.br/noticias/ultimas_noticias/81418/perdemos+a+credibilidade+2

Galeria

Todas as capas do Presidente

 

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No The Wall Street Journal, o casal Bolsonaro, desfilando de Rolls Royce, foi a foto do alto da primeira página. No El Observador, uruguaio, a foto do presidente agitando a bandeira do Brasil no Parlatório virou pôster, com o título: Entre el miedo y la esperanza. La Repubblica, italiano, texto-legenda para o desfile em carro aberto: Bolsonaro no trono. E Trump celebra. Em Portugal, o destaque era esperado. No Público: A ultradireita chegou ao Planalto. E no Jornal de Notícias: Vamos unir o povo. No The New York Times é preciso procurar o Brazil na capa. Mas lá está ele, no pé da página, uma notinha com foto. Já no The Washington Post, com uma foto 3×4 de Bolsonaro, é a manchete: Populista toma o leme no Brasil. Manchete também do La Nacion, de los hermanos argentinos: Bolsonaro prometió orden, combatir la corrupción y liberar a Brasil del socialismo. No Clarín, Bolsonaro roda a bandeira: vai liberar a Brasil de la corrupción y el yugo ideológico. O Financial Times, com Bolsonaro fazendo continência, e Michelle acenando, lembra que o presidente prometeu lutar contra a corrupção. É a foto central do espanhol El País: Bolsonaro jura el cargo: Brasil y Dios por encima de todo. O ADN, paraguaio, lembra que o Brasil está agora MÁS CERCA DE EE.UU E ISRAEL. A surpresa é israelense. Nada na capa do Haaretz. E no Jerusalem Post tem sim a foto pequena de Netanyahu e Bolsonaro, mas o título é sobre o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, garantindo que a retirada dos Estados Unidos da Síria, não trará consequências para Israel. Os jornais de Cuba, Venezuela e Nicarágua, países convidados desconvidados, não deram nada em suas capas.

 

 

Um Muro no Natal Americano

Trump “Noel” paralisou o governo americano, parcialmente, nesta véspera de Natal, porque não ganhou o muro na fronteira com o México que tanto quer há dois anos. 

Mais de 420 mil funcionários públicos federais vão trabalhar sem receber e nove departamentos fecharam ao primeiro minuto deste sábado 22, entre eles o de Segurança Interna, Justiça, Interior, Transporte, Comércio e de Relações Exteriores. Parques nacionais e a Estátua da Liberdade estão fechados e não serão abertos nem nos feriados de fim de ano, se o impasse entre Casa Branca e Congresso perdurar.  Também não há emissão de passaportes.  

Wall street amargou a perda de mais 415 pontos na sexta-feira e a Nasdaq, 20% , no fim da semana considerada histórica e decisiva para a administração Trump. 

O chefe do Pentágono, general Jim Mattis, apelidado de “Cachorro Louco”, renunciou na quinta-feira, depois  de anunciada o que nem ele sabia: a retirada dos dois mil soldados americanos da Síria, expondo parceiros curdos a ataques da Turquia, que os consideram terroristas, e permitindo a expansão iraniana em território sírio.  

Na carta em que entrega o cargo em fevereiro, o general Mattis induz à conclusão de que Trump não age em função do interesse nacional, mas pessoal. O exemplo logo lembrado pela imprensa foi o da Trump Tower que ele planejava levantar em Moscou, semelhante à de New York, mas que precisava do aval do presidente russo Vladimir Putin, a quem daria, em troca, uma das milionárias suítes. Seria apenas um negócio, não fosse o incorporador um candidato à Presidência dos Estados Unidos que nada contou aos eleitores em toda a longa campanha eleitoral, e era obrigado a fazê-lo por lei. 

“Ele traiu a América”,  deu um jornal. 

Para a abrupta retirada da Síria, que surpreendeu os aliados americanos no Oriente Médio, lembra-se que a decisão foi anunciada após uma conversa telefônica com o presidente turco Recep Erdogan, que ameaça com revelações sobre  a execução do jornalista Jamal Khashoggi, em Istambul, o príncipe herdeiro saudita Bin Salman, tido por mandante e blindado pela Casa Branca.  

O muro na fronteira seria pago pelo México, quando anunciado nos comícios eleitorais. Mas agora, véspera em que a Câmara terá maioria Democrata, a partir de 3 de janeiro, a conta passou para os contribuintes — e mais: ou os 5 bilhões de dólares para iniciar a obra estivessem no orçamento provisório para que o governo funcione até  8 de fevereiro, ou Trump não o assinaria, provocando, como afinal provocou, o fechamento parcial do governo. Os Republicanos bem que tentaram pôr o muro de passa-moleque na legislação de financiamento quebra-galho do governo. Mas aí encontraram um muro intransponível dos Democratas.  

O presidente chegou a dizer que teria orgulho em assumir a responsabilidade por parar o país. Porém, ele não demorou a culpar os Democratas. Num dos milhares de tuítes disparados sobre o imbróglio, alguém perguntou: “Que tal fechar o governo e não abrir nunca mais?” O senador Charles Schumer (D-New York) assegurou a Trump ao falar no Senado: “Você não vai ter seu muro. Não o terá hoje, nem na semana que vem e muito menos em janeiro, quando os Democratas tomarão conta da Câmara”.

Vou embora do Facebook

Estou suspenso por seis dias do Facebook. Fui “punido” porque postei um álbum de fotos preciosas com habitantes dos mais remotos rincões do planeta. Alguns são índios. Esta coleção de culturas remotas é de um fotógrafo italiano que a expôs em museus e galerias.

O problema para o Facebook são os índios. Deveriam estar vestidos. Censurado, reclamei. Recebi um pedido de desculpas no final do dia. Ao acordar, porém, estava de novo proibido de postar por seis dias. Reclamei de novo. Outro pedido de desculpas, seguido do aviso de que continuava cumprindo a pena do Facebook.

Foto do fotógrafo italiano Mattia Passarini

Não é a primeira vez que me censuram. Houve outra quando postei um novo livro sobre Salvador Dali. Então, decidi: basta. Lamento pelos cinco mil amigos que fiz postando informações sobre atualidade no mundo, design, capas criativas de jornais e revistas internacionais, curiosidades ou depoimentos pessoais. Mudo para este blog, que já mantenho desde que decidi tirar do baú os textos de que mais gosto entre a cobertura que fiz como correspondente em Israel, Estados Unidos e França, e ainda como enviado especial a locais de conflitos, furacões, eleições e tragédias.

Mas quero acrescentar que o Facebook, que se dá ao direito de censurar, está sendo de novo acusado, justamente hoje, de ter compartilhado o meu, o seu, o nosso perfil, multiplicado por milhões de usuários em todo o mundo. Isso pode? É crime! A privacidade exposta sem autorização é muito mais grave que a foto de uma índia seminua em Papua Guiné. Neste ano de 2018 já no fim, cada mês, e em alguns meses, cada semana, o Facebook foi denunciado por abrir seus arquivos a empresas gigantes de tecnologia. O fundador e CEO Mark Zuckerberg está gastando bilhões tentando corrigir as falhas flagradas. Caiu a publicidade. Caíram as ações em 35%. Respeitados e célebres executivos estão abandonando bruscamente o Facebook e as empresas que a orbitam, como Instagram, Oculus e WhatsApp.

Ao todo, 30 milhões de contas do Facebook tiveram a privacidade violada. Mas quem paga o pato somos nós, o baixo clero, com nossos inocentes posts que exibem alguma nudez. Lembro a censura que veio com o golpe de 1964 no Brasil. Um dia recebemos a instrução de que poderíamos publicar apenas um dos seios de uma mulher desnuda, pulando o carnaval ou desfilando numa escola de samba. O Facebook está evoluindo para o retrocesso.

Paz e Neve em Jericó

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Jericó – A festa foi já uma comemoração pelo nascimento de um estado palestino: Biladi, Biladi, cantava a multidão embandeirada com as cores verde, branca, vermelho e preta, a bandeira palestina antes proibida por Israel. Biladi, “nosso país, nossa terra”, continuava a canção: “Quero dar a você, Biladi, todo meu amor e meus sentimentos”.

  O fundo era de tambores na cidade que Josué derrubou com trombetas de chifre de carneiro. trombetasJericó, a mais antiga do mundo, e a primeira oficialmente de uma futura Palestina, teve seu dia de carnaval. Caminhões abriam espaço numa multidão delirante como se fossem trios elétricos baianos. Bandas juvenis marchavam. Recebia-se a imprensa, na entrada da praça principal, com a saudação:

  “Benvindo ao meu país”.

  A população de Jericó ficou tão feliz com a perspectiva de paz que já arranjou nada menos que cinco casas oficiais para “o presidente Yasser Arafat”. Alguns mais emocionados não conseguiram manter-se parados, mesmo dançando, e subiram e desceram com seus carros enfeitados de bandeiras e retratos de Arafat a estrada para Jerusalém.

   Uma façanha: a estrada vai de 250 metros abaixo do nível do mar para 820 metros acima em apenas 20 minutos. Sobe-se do lugar mais baixo do mundo para a maior altitude espiritual da Terra Santa, do sufoco de um oásis para o frescor do Monte das Oliveiras. Não encontraram obstáculos pelo caminho. E buzinaram muito em Jerusalém. A polícia os olhou à distância. No final do dia, israelenses contagiados içaram também suas bandeiras na cidade. E a paz de Washington se refletiu pela primeira vez realmente entre israelenses e palestinos.

  Uma bandeira palestina já tremulava em Jerusalém desde o começo da tarde, na casa do negociador Faissal Husseini, a Oriental House. Depois outras foram aparecendo nos carros, e no final do dia eram o cenário. Os retratos de Arafat também se multiplicaram. Mesmo o inacreditável podia ser ontem fotografado: soldados israelenses posando diante de bandeiras palestinas. Não houve choques. A polícia até desviou o trânsito para dar passagem a uma passeata iniciada diante da Porta de Damasco, na velha Jerusalém. E de cima de um prédio em Jericó outros soldados fotografavam a alegria da multidão dançando na praça.

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Na Casa Branca

  Nenhum telão foi produzido para que o povo acompanhasse o aperto de mãos entre Rabin e Arafat, transmitido ao vivo pela TV israelense. Às 5 horas em ponto, um orador subiu num palanque, e puxou o “Biladi, Biladi”. A assinatura dos primeiros acordos só ocorreu 45 minutos depois, mas ali ninguém ficou sabendo. “Todos meus sonhos estão aqui”, disse Amim Shooman.

  O orador incendiava a festa com notícias quentes. Ele gritou, por exemplo, que “o presidente Arafat” ia pedir ao primeiro-ministro Rabin, na Casa Branca, a libertação de todos os prisioneiros palestinos. Depois, ele prometeu uma mensagem do próprio Arafat para dentro de uma hora. O termômetro subiu mais no oásis, onde as tâmaras e o suco de laranja são inesquecíveis. Vez em quando, ele fazia um anúncio, tipo “Gaza está com Arafat”, ou “toda a Cisjordânia festeja”.

  O estudante Ihab Dawich, com 18 anos, nunca viveu em Jericó sob o domínio de um país árabe, só israelense. “Estou muito feliz”, ele contou. Uma criança, pelo microfone, lembrou aos outros jovens da festa como Israel ocupou a Cisjordânia em 1967, durante a Guerra dos Seis Dias. Não havia animosidade contra Israel.

   Ao ser sobrevoada por um helicóptero israelense, com fotógrafos, a multidão mostrou o V da vitória e levantou bandeiras. Só não precisava nevar. Mas os militantes do Fatah, o movimento de Arafat dentro da OLP, acharam que ficaria bonito, se nevasse. Então, do alto de um prédio foram despejadas gotas de sabão que lambuzaram lentes de televisão e cabelos dos repórteres, levadas para o lado por um ventilador, e não para baixo. A paz será como essa neve no deserto?

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Os três Nobel da Paz (foto Operamundi)

Duelo na Venezuela

Um duelo de concertos pela Venezuela está começando daqui a pouco, ao meio-dia da Brasília, na ponte Tienditas, que tem um pedaço colombiano e outro venezuelano.

Organizado pelo bilionário britânico Richard Branson, o Live Aid Venezuela tem a promessa de ser transmitido para o mundo com o objetivo de arrecadar 100 milhões de dólares em 60 dias.

O show de Maduro ganhou este título: “Tire as mãos da Venezuela”. Deve durar dois dias, seguidos de dois feriados—e, então, pelo carnaval antecipado por decreto. Os venezuelanos querem mais folia que alimentos e remédios, entende o governo.

O co-fundador da banda Pink Floyd, Roger Waters, atacou o Live Aid, por “não ter nada a ver com ajuda humanitária (…) com os venezuelanos, com democracia, com liberdade—mas, sim, apenas com Bronson”. Para Waters tudo vai bem na Venezuela, e lá nem ditadura existe.

Para Maduro, o Live Aid é um complô de Trump para invadir o país, enquanto que, para seu vice-presidente, as 300 toneladas de ajuda são veneno cancerígeno para a população.

O show de Bronson, inspirado no de Bangladesh e da Etiópia, contra a fome, contava até a estreia com 32 artistas, entre latinos, americanos e um dj sueco, mas nenhuma celebridade. Ele explica que aceitou um apelo de Guaido, o presidente interino já reconhecido por cerca de 50 nações, para ajudar a Venezuela a sair do impasse. Os artistas do show de Maduro serão todos venezuelanos.

Quem vencerá o duelo dos concertos?  Depende: se a ajuda humanitária entrar sábado no país, que está com as fronteiras aéreas, terrestres e marítimas fechadas, vitória de Bronson. O  colombiano Bruno Ocampo, empresário parceiro do Live Aide, garante que já tem pronta a logística para cruzar a fronteira, mas que não pode ainda revelá-la para “não comprometer os esforços feitos”.

O duelo só não levou em conta um detalhe: o fuso horário. A Colombia está uma hora adiante da Venezuela, duas horas de Brasília.

Estado da Desunião

O presidente Trump deve apelar à união nacional em seu discurso desta noite sobre o Estado da União – ele que é acusado de desunir os americanos. Será o “estado da desunião”, publicou um jornal.

Alguns repórteres tiveram acesso ao rascunho do discurso. O parágrafo que mais chama a atenção diz:

Juntos poderemos romper décadas de impasse político”, e segue propondo “pontes sobre antigas divisões, cicatrização de velhas feridas, construção de novas coalizões, e ainda a iniciativa deforjar novas soluções e de destravar a extraordinária promessa do futuro da América”.

Da revista The New Yorker

Para ganhar aplausos, Trump vai se comprometer a reduzir preços de drogas à venda sob receita médica, uma reivindicação bipartidária. Ele deverá falar de sua ofensiva contra Maduro, da Venezuela; das relações comerciais com a China; de seu próximo encontro com Kim Jong Un, da Coreia do Norte; e a retirada de tropas americanas das guerras na Síria e no Afeganistão, mas sem dar trégua ao terror do estado islâmico.

Suspensa no ar ficará a decisão de declarar emergência nacional para viabilizar a construção de um muro na fronteira mexicana.

Dois ex-empregados ilegais do clube de golfe de Trump, na Flórida, foram convidados pelos democratas – um deles já legalizado. Também foi reservado um assento para um sobrevivente de matanças perpetradas por atiradores solitários. É a pressão de militantes pelo controle de armas.

O Congresso terá três dias, até a sexta-feira, para preparar uma proposta de orçamento para a assinatura de Trump. O prazo se esgota dia 15. Como o dinheiro para o muro não será incluído, o governo americano está ameaçado de nova paralisia, depois da que vigorou da véspera de Natal até 27 de janeiro, um recorde de 35 dias.

Bolsonaro a conta-gotas

O presidente Bolsonaro deu uma entrevista ao jornal The Washington Post, em Davos, na Suíça. Quando li o primeiro parágrafo, resolvi transformá-la em tuítes, principalmente porque não vi entrevista dele para a imprensa brasileira, exclusiva ou coletiva. Para ir mais rápido cortei formalidades, deixando Lula e Dilma onde havia “ex-presidente” e nomes completos, por exemplo, e fiz atalhos traduzindo o sentido mais que palavra por palavra de cada frase. Ao estourar o limite de um tuíte, cortava o que já é conhecido no Brasil. Só assim consegui resumir o que provavelmente os jornais nacionais darão melhor amanhã. À medida que fui tuitando, tomei um susto: a entrevista era grande e não só alguns poucos parágrafos. Aí vai:

BOLSONARO-1

-Você admira Trump? – perguntou a Bolsonaro a repórter Lally Weymouth, do The Washington Post.

Sim, admiro porque ele está tentando tornar a América grande de novo. Nós também queremos um grande Brasil (…)

BOLSONARO 2

POST: Você acha que a mudança de regime na Venezuela é uma boa ideia? O que o Brasil pode fazer para que isso aconteça?

-Sempre fomos contra o regime Maduro, especialmente considerando que teve laços estreitos com os governos Lula e Dilma, como com Cuba.

BOLSONARO -3

POST: Como isso pode acontecer? (a mudança na Venezuela)

-É preciso, claro, remover Maduro do poder. Acontece que ele tem 70 mil cubanos do seu lado. Então, não será fácil.

BOLSONARO -4

POST: Você está disposto a usar tropas brasileiras?

-Não vamos embarcar o Brasil numa intervenção militar. Não temos uma história de resolver problemas com intervenção militar.

BOLOSONARO – 5 e 6 (um engano na numeração da sequência)

POST: Ao mesmo tempo, a Venezuela é uma tragédia humanitária…

-Brasil deu boas vindas e acomodou refugiados da Venezuela. Nós os realocamos e os assistimos. Chegamos ao nosso limite (…)

BOLSONARO -7

POST: Você acha que fez a diferença para Maduro?

– Acredito, sim. Nosso serviço de inteligência captou um alto nível de insatisfação entre militares na Venezuela (…) Não há mais coesão como antes.

BOLSONARO – 8

POST – Nos EUA muitos não gostaram de seus comentários sobre mulheres e a comunidade LGBT (a repórter prossegue com o azul e rosa de Damares).

-Tenho sido acusado de atacar mulheres, negros, gays, índios. Se isso fosse verdade, teria ganhado a eleição?

BOLSONARO 9

POST: Como você pôde dizer que ter uma filha foi um momento de fraqueza?

-Isso foi apenas brincadeira. É muito comum responder assim no Brasil.

BOLSONARO – 10

POST (a repórter insiste em que ele deve dizer algo mais sobre a pergunta feita)

Eu já expressei minha visão a respeito.

BOLSONARO 11

POST: Você disse que seria melhor ter um filho que se droga do que um filho gay. Em retrospecto, você acha que deve ser presidente de todos os brasileiros e esquecer essas declarações?

– Esta é uma novidade para mim. Nunca a ouvi antes.

BOLSONARO 12

POST: Isso foi publicado…-

– Você realmente acredita em mídia impressa? Você realmente acredita nela cegamente?

POST: Sim, eu cresci com mídia impressa.

BOLSONARO 13

– Eu não estou duvidando de sua mídia. No Brasil, eles são todos iguais – os jornais,

POST: Você pode assegurar que as mulheres e a comunidade LGTB terão um lugar no seu Brasil?

-Eu amo mulheres

BOLSONARO 14

POST: E você pode reassegurar que a comunidade LGBT tem lugar no seu Brasil?

-Todos têm lugar no nosso Brasil. Quero que sejam muito felizes. Mas eu não permitirei que crianças de 6 anos sejam expostas a conteúdo homossexual nas escolas.

BOLSONARO 15

POST: Qual o seu compromisso com a democracia? (A repórter lembra o tempo da ditadura, que ele elogia).

-Os militares salvaram o Brasil.

BOLSONARO 16

POST: Os militares salvaram o Brasil?

Os militares salvaram o Brasil de uma potencial ditadura em 1964.

POST – E quanto a você, Presidente? Você tem compromisso com a democracia hoje no Brasil?

-Nós vamos fortalecer a democracia a todo custo

BOLSONARO 17

Continuando do post anterior:

-Dilma Rousseff teve vários terroristas no governo dela, e ninguém disse nada. Lula e Dilma adoravam Fidel e elogiavam Kim Jong-un. São eles que falavam sobre democracia no Brasil. Eu represento liberdade e democracia.

BOLSONARO 18

…Nossas forças armadas garantem o que estou declarando a você.

POST: Nos EUA, temos uma grande força armada e uma grande democracia. Podemos ter os dois.

-As forças armadas garantem a democracia.

BOLSONARO 19

POST: O que seu governo fará para combater a corrupção?

-O ministro Moro tem disponíveis todas as ferramentas para seguir a trilha do dinheiro. Corruptos não terão mais vida fácil no Brasil.

BOLSONARO 20

POST: Tenho que lhe perguntar sobre seu filho, Flávio. Foi informado que ele contratou várias pessoas ligadas a gangues…

-Isso não é uma questão para o governo federal, nem de sua conta. Mas vou dar meu ponto de vista…

BOLSONARO 21

(O presidente continua)

-Em grande parte, o sobrenome, Bolsonaro, é a razão por tanta visibilidade. O que disseram contra ele são acusações politicas de gente que quer criticar meu governo (…) Se alguma prova aparecer contra meu filho, ele será punido.

A entrevista ao Washington Post prossegue com reforma da previdência, a facada na campanha eleitoral, a cirurgião na segunda-feira,