Verdade? Mentira?

No telão, quatro Barack Obama, lado a lado, falam simultaneamente. Aí o gênio Supasorn Suwajanakon pergunta à plateia:

– Qual deles é o verdadeiro?

– Nenhum – ele próprio responde.

Se uma foto vale mil palavras, quantas valeria um vídeo? Na campanha eleitoral para o governo de São Paulo alguém produziu um vídeo em que João Dória aparecia numa cama com várias mulheres. Mas o sultão no harém era tão mal feito que logo desapareceu. 

Barack Obama estrela um outro vídeo em que mostra o momento em que já não é mais ele falando o que está dizendo. Então, adverte:

-Estamos entrando uma era em que nossos inimigos podem fazer qualquer um dizer qualquer coisa em qualquer momento. 

O gênio do Google Brain, com esse nome impronunciável, Supasorn Suwajanakon, teria nascido onde? Parece indiano, país avançado em tecnologia. Hoje, ele é palestrante da Vistec, um novo instituto de pesquisa em Rayong, na Tailândia. Diz que podemos chamá-lo de “Aek”, obrigado. Seria tailandês? Googlei sem tempo, quase estourando o deadline. Depois de percorrer jornais e sites brasileiros e internacionais que falaram dele e exaltaram seu currículo, desisti. Já tinha o bastante para mais um dos motivos do declínio de credibilidade da mídia: as notícias incompletas, descaso com a curiosidade dos leitores, ouvintes ou telespectadores. Quantas vezes na imprensa lemos sobre um jogo de futebol em que falta o essencial: o resultado?

Temos aqui o futuro, o deepfake, e o presente/passado do jornalismo, a falta de informações nas notícias, que colaboram para o estado de desconfiança que paira sobre toda a mídia.

Mas não só.

“Califórnia institui a sharia” (a lei islâmica).

NADA É REAL

“Ex-presidente Bill Clinton se tornou assassino em série”. 

“Michelle Obama está realmente namorando Bruce Springsteen?”

“Fazendeiro de Iowa afirma que Bill Clinton fez sexo com vaca durante Festa da Cocaína”.

Impressionante: seis milhões de pessoas acreditam nestas manchetes do site America’s Last Line of Defense (A última linha de defesa da América), apesar de avisadas, 14 vezes, que “Nada nesta página é real”. Mas para a audiência que lembra a “Velhinha de Taubaté”, do escritor Luís Fernando Veríssimo, tudo é factual. O incrível, repassado, viraliza. E Christopher Blair, 46 anos, embolsa 15 mil dólares em publicidade por mês. Sua ideia original era fazer um site de humor, como a Falha de São Paulo. 

“Não importa o quanto racista, intolerante e ofensivo, ou tão óbvio que seja fake, os visitantes voltam sempre” – disse Blair ao jornal The Washington Post em novembro. Em sua página do Facebook, ele pergunta: “Qual o limite? Há um ponto em que as pessoas, descobrindo que estão comendo lixo, voltarão a realidade?”

Sobre a mesa de Blair há uma frase definidora: “Vivemos numa idiocracia”.

O Post foi ver o outro lado. Encontrou a senhora Shirley Chapian, 76 anos, em Pahrump, Nevada, diante de uma petição para impedir a lei da sharia na Califórnia, “antes que seja tarde”, na tela do computador. Ela clicou: “Like”. Aí surgiu outro pedido: “Compartilhe para ACABAR com a atual invasão de migrantes”. Ela: “Share”.

A senhora Chapian só sabe do mundo através do monitor de seu computador. Viveu na Europa, San Francisco, New York e Miami, foi uma das primeiras mulheres a entrar para a National Organization for Women, onde batalhou pela equiparação aos salários de homens. Parou de assistir os noticiários de TV ao constatar quão distantes ficavam em relação ao que lia online. “Onde estava a notícia de que (o bilionário doador) George Soros foi um nazista assumido?” 

Ela diz que não é do tipo que produz teorias conspiratórias, “mas…”

TRUMP, UM VÍRUS

Quando o presidente Donald Trump tuíta, 56 milhões de seguidores o leem. Ele não precisa da imprensa, a que chama de “Inimigo do Povo”. As notícias que o desmentem ou contradizem são rotuladas de fake-news, duas palavras que não vão bem juntas. Notícia é o relato de um acontecimento real. E Fake, falso. Um exemplo de fake-news mundial foi a informação divulgada pelos Estados Unidos, com apoio do Reino Unido, de que o Iraque de Saddam Hussein tinha um arsenal de armas de destruição de massa, base para a guerra de 2003. Já se passaram 15 anos, e nada: deve ter sido apenas uma miragem no deserto.

O presidente eleito Jair Bolsonaro também tuíta, dispensando a mediação dos meios de comunicação. Proíbe a entrada da TV Brasil, do próprio governo, quando recebe as demais tevês para entrevistas. E anunciou que irá fechá-la. Ameaçou o jornal Folha de S. Paulo com o corte de propaganda oficial. Com os filhos, taxa notícias de fake-news, sem contribuir para que se tornem truth-news. Já o chamam de Trump Tropical, embora tenha recuado de peitar a China e mudar a embaixada brasileira de Tel-Aviv para Jerusalém, seguindo os passos do Trump do Norte.

A revista americana The Atlantic diagnosticou: Trump é um vírus. A mídia, um hospedeiro, que o distribui, causando infecção. Dilema 1: não se pode deixar de noticiar o que diz um presidente. Dilema 2: a 26 mentiras ou falsidades por dia, o presidente já chegou a 5 mil desde que tomou posse. Dilema 3: um vírus sempre mata o hospedeiro. Dilema 4: ainda não há um antivírus efetivo. 

“Crianças mentem dizendo que escovaram dentes; políticos esticam verdades no calor da campanha; repórteres já foram flagrados mentindo; escritores, também; empresas; esposas e, naturalmente, o governo”, escreveu o professor de filosofia da Universidade de New England e autor do livro “Porque Mentimos”, David Livingstone. Mentiras estão cada vez mais tão comuns como a verdade. Monótono ouvir, entre acusados da Lava Jato, que nada sabem, ou que provarão nos autos que estão com a verdade.

A própria mídia contribui também para seu crescente descrédito. Como jornais importantes permitem a publicação de matérias delicadas baseadas em fontes anônimas? Ou fonte alguma? Como um repórter se torna mais importante que a notícia? Por que editores permitem a coleta de dados pela internet? Muita demissão, pelo decréscimo de circulação e êxodo dos anunciantes, sobrecarrega os sobreviventes, pressionados por deadlines cada vez mais apertados. Acabou o ménage à trois entre jornais, publicidade e leitores.

Jornais centenários estão competindo com as notícias circulando velozmente na internet, acessada por bilhões de pessoas. O WhatsApp já passou dos 800 milhões de usuários. Twitter, 300 milhões (estimativa, porque a empresa não divulga números). “Todos se tornaram jornalistas”, proclamou o professor da Universidade de Colúmbia, Clay Shirk, em seu livro Here Comes Everybody. A verdade acabou sufocada por tantos tuiteiros. No Oriente Médio, israelenses e palestinos postam versões opostas, aberta uma outra frente de guerra. Cartas aos jornais incluem spam que exalam ódio. Fotos de cataclismos do cinema surgem como se fossem fotos do novo furacão em Miami. 

SOLUÇÃO À VISTA?

Quem mantiver a credibilidade na Torre de Babel da mídia poderá ter seu futuro assegurado. OK, mas não será tão simples assim. Ser independente é servir ao público, não ao lucro. Exemplos são o ProPublica, americano; El Diario, espanhol; OjoPublico, peruano; Connectas e La Silla Vacia, colombianos; Animal Político, mexicano; e Nexo, brasileiro. Há mais no Brasil, como Mídia Ninja, Jornalistas Livres e Nós, Mulheres da Periferia, mas eles militam para minorias. Atender ao público, não aos anúncios ou grupos, o princípio da sobrevivência,  deverá secar os investimentos no jornalismo tradicional que não migrar para o mundo da multimídia, interatividade e múlti plataforma, exceção aos grandes internacionais – The New York Times, New Yorker, The Economist, The Washington Post e os principais europeus. Várias organizações já existem para a defesa dos independentes.

O jornal desse novo tempo que faz mais sucesso é o holandês De Correspondent, de 2013, com 56 mil leitores que pagam 63 dólares por ano, gerando o suficiente para manter 21 jornalistas fulltime e 75 freelancers. Com a bênção do professor Jay Rosen, da Universidade de Colúmbia, em New York, uma edição norte-americana já está em gestação, com o apoio de 515 mil dólares da Knight Foundation e do Democracy Fund. 

Aclamado “embaixador” do The Correspondent nos Estados Unidos, Jay Rosen explicou o que ele chama de “otimização para a confiança” – o único antidoto para a perda de credibilidade. Nada de anúncios, nem caça-cliques. “Se você não está pagando pelo produto, você é o produto”, diz ele. Não há nenhum grupo a ser atingido ou a satisfazer. Nenhuma informação sobre o assinante vai para terceiros, nem mesmo para alguns serviços usados, como YouTube, Vimeo e Sound Cloud. Liberdade nas 24 horas do ciclo de notícias. Uma importante questão: como tratar o noticiário que está em todos os jornais? A resposta é interessante: “Não o tempo, mas o clima”. Quer dizer que a redação pode ignorar os flashes do dia se focar nos padrões que os produzem. Ninguém cobrará pontos de vista aos editores. Por fim, o fundamental: deverá haver uma rica interação com os leitores — os donos do futuro jornalismo com credibilidade.

http://portalimprensa.com.br/noticias/ultimas_noticias/81418/perdemos+a+credibilidade+2

Lagoa do Barro liga a TV

Foto de Clóvis Ferreira, Estadão Conteúdo, 19/11/1933.
Foto de Clóvis Ferreira, Estadão, 19/11/1983.

Faz 21 anos, em 19 de novembro, que a energia solar chegou a Lagoa do Barro, cidade do Piauí então acessível apenas a carro à gás, com bujão extra para a volta. Quem imaginar que houve corrida, enfim, às geladeiras, pois até aqui tudo apodrecia sob o calor do sertão, está enganado. O povo se reuniu diante da janela da Prefeitura para ver aquilo que muitos já tinham ouvido falar, mas nunca tiveram chance de ver:  a TV.

Hoje, quando texto e foto chegam a um blog na internet, a 510 milhões de quilômetros da Terra e a mais de dez anos de viagem, o robô Philae transmite as primeiras análises da superfície e as fotos de um cometa que pode explicar a origem do universo. 

A caixa preta foi se iluminando de cores até formar imagens e soltar um som que hipnotizaram a plateia de pé ou em lombo de burros. Pronto: acaba de chegar a TV em Lagoa do Barro, uma cidade com 48 anos e 4.819 habitantes isolada a 530 quilômetros ao Sul de Teresina, no Piauí.

  Olhos arregalados diante dos adultos vestidos de crianças do programa “Chaves”, no SBT, o roceiro Joaquim Dias, 50 anos, entra na idade da TV com um desafio: “Agora vamos ver se há mesmo roubalheira em Brasília, como já vieram me contar”. Até agora, explica, só “assistia o rádio, que pega mal”. Para o filho, Toninho, é uma estreia na vida. E ele nem parece perturbado: “Tenho medo, não” – avisa aos amigos. Mas atrapalha-se, talvez nervoso, quando lhe perguntam quantos anos tem. “Nenhum”, responde. O pai o socorre, enquanto o televisor vai sendo ajeitado numa janela da escola José Magalhães Ribeiro, na praça principal, em obras: “Deve estar com 16 anos, porque já pode votar”.

  No ar, a TV em Lagoa do Barro. Mas onde estará Toninho? Sumiu, e ninguém o encontrará mais nesta histórica sexta-feira, 18 de novembro de 1993. Até choveu por meia hora quando não chovia desde março, molhando superficialmente uma das maiores secas do século no Piauí.

  ***

  Foi um verdadeiro programa ao vivo de pré-estreia à magia da TV. O céu amanheceu bem coberto, mas o vento levava embora as nuvens e as esperanças de chuva, como nos últimos dias. Um cenário desolador: açudes secos, cacimbas com resto de água salobra e esverdeada, aguadores em seus jegues pela estradinha poeirenta de 107 quilômetros até São João do Piauí, o gado esquelético vagando em busca do verde, a mata só galhos, crianças só pele e osso, e camaleões disparando pelas paredes de barro vermelho. Então, choveu. Um alívio marcado por cheiro de terra e alegria em Lagoa do Barro. A confusão com um cachaceiro levado à delegacia dissipou-se logo aos primeiros pingos.

  “Cacau está caindo” – comentou Ursino Ribeiro Coelho dentro da drogaria Rainha dos Anjos, a padroeira da cidade. “Tá bonito”, completou Lucinha, por trás do balcão. No Hotel da Neguinha já se avaliava a chuva: “Vinte dessas é que resolvem”. No bar Sertanejo de Cecílio já se previa: “Amanhã vai ter rosa-de-jericó”, uma erva que se abre com a primeira chuva, e que sobrevive à seca enrolada como uma bolinha. Uma poça foi logo promovida a rio. Ela se formou no cruzamento das duas ruas principais. “Todo mundo empacado no rio” – gozou Andralino Martins Rodrigues, ex-operário de uma empreiteira em São Paulo, rindo de quem encharcava os pés ao tentar saltá-la. A enxurrada dos telhados enchia panelas no chão. “Parecia fina, mas deu tanta água”, constatou Abílio Marques da Silva, 79 anos, um pioneiro da cidade. Ele se lembra dos anos em que choveu: “Em 1924 foi bom. Em 1926, ótimo. Depois, só em 1940 e 44. As últimas duas foram em 1960 e 85”. E agradece a Deus pela “chuva que anima”.

  É Abílio quem sabe explicar a origem do nome Lagoa do Barro do Piauí. “Simples”, conta: perto da cidade brotando na caatinga, em 1945, o rio Gameleira fazia uma curva, aproveitada por olarias para o fabrico de telha e tijolo. Mas alguns habitantes folclorizam, a partir do nome de duas vizinhas – a Lagoa de Areia e a Lagoa de Baixo: “Tudo para ver se nasce alguma lagoa de verdade”.

  A primeira casa do povoado foi fincada debaixo de um juazeiro, quase em frente ao bar Sertanejo do Cecílio. Ao se emancipar, em 29 de abril de 1992, já eram mais de 150 casas. “Eu morava há um quilometro, e fui atropelado pelas construções”, lembra Abílio, encerrando a história de Lagoa do Barro. A chuva de hoje, para ele “vasqueira”, rara, será “de grande utilidade para o criatório” – as cabras e bodes que se alimentam da rosa-de-jericó. Já a TV, o outro grande acontecimento do dia, ele compara à uma escola. “Facilitará o aprendizado das crianças. Todo uso dela é uma educação”.

  ***

  As noites de Lagoa do Barro nunca mais serão as mesmas desde que o forasteiro Nelson de Oliveira Jorge chegou com uma filmadora, confundida com binóculo, e trouxe a luz solar para a TV e dez postes de rua, há 15 dias.

  “Luz é uma maravilha; a gente passeia mais favorável”, reconhece Abílio, o pioneiro da cidade que começa agora a ser iluminada. O breu só era defendido mesmo por alguns namorados. A TV foi prioritária, e não a geladeira para guardar vacinas no posto de saúde, ou mais postes, por decisão popular. Mas a prefeita Hildete Oliveira Coelho tem outros “projetos luminosos” para Lagoa do Barro já negociados com Nelson, diretor da Heliodinâmica. A luz deverá chegar, por exemplo, às salas de aula.

  “Vou sair no binóculo?”, pergunta um bêbado. Nelson nem responde porque surgem na rua duas senhoras conhecidas por “Marcianas”, e ele entra em ação com a filmadora. Hoje elas também são chamadas de “Canarinhas” porque se vestiram de amarelo brilhante. Sempre se vestem com as mesmas roupas e cores, e passeiam de mãos dadas. Correm de medo da câmera. Chamadas, devolvem um recado: “Já temos namorados”. Um assessor da Prefeitura tenta convencê-las a entrar no “binóculo”, mas volta comentando: “Cortaram as asas das Canarinhas… Estão bravas”.

  Outras duas senhoras famosas em Lagoa do Barro são as solteiras e octogenárias irmãs Valentina. A mais velha, Mundinha, 84 anos, não se aposentava para não ter que entrar num carro e ir até São João do Piauí para fazer a papelada. Acabou cedendo, na semana passada, tentada por um salário mínimo, mas não revela nenhuma remota pista do que sentiu. Ela pouco fala, atualmente. Olegária, com 80 anos, é mais “moderna”: viu TV uma única vez, em 1978, quando ficou num hospital em tratamento. “E avião, só de muito longe”. As duas passaram a vida na roça em Gameleira de Cima, há 12 quilômetros, e vieram à cidade só para enterrar o irmão, Constantino Aprígio, 78 anos, que “começou a morrer com diarreia e acabou de velhice”. Vão ficar até o dia dos Reis, em 6 de janeiro. Rostos marcados como a terra seca, enrugados, elas sorriem quando se fala em casamento: “Na idade em que estamos não se casa mais”, concordam.

  ***

  Lagoa do Barro não tem cinema. Um padre a visita a cada três meses. Um médico, uma vez por semana. “Aqui se morre de desnutrição”, diz o jovem Dr. Rosemildo de Souza Figueiredo. Os doentes partem da consulta de receita na mão atrás de Lucília, filha de 20 anos da prefeita Hildete e já tesoureira da Prefeitura, com o curso completo de segundo grau. “Ajudamos porque ninguém tem dinheiro para os remédios”, ela explica. Lucinha, na drogaria Rainha dos Anjos, vende mais vitaminas e analgésicos, porque “a maioria das receitas é aviada fora”. A feira vem às sextas de Olicuri, na Bahia, há 60 quilômetros. A porta para o resto do Brasil, São João do Piauí, abre-se para um ônibus semanal, ou carona em peruas movidas ao gás, em duas horas e meia de pé e buracos. Um único telefone serve a todos. Liga-se para o número (086) 487-1377, o posto telefônico na (futura) praça Tancredo Neves, e um funcionário da Prefeitura irá pessoalmente buscar em casa quem estiver sendo chamado. A única diversão era o jogo “Caipira” nas duas mesas de dados na rua principal. Mas agora chegou a TV.

  A TV e a luz dos dez postes são ligadas às 6 da tarde. Os telespectadores apertam-se num corredor diante da janela com o televisor de 23 polegadas. Pelos lados vão estacionando burros e ciclistas como automóveis num cinema ao ar livre. O Aqui Agora e o TJ Brasil, do SBT, reinam na primeira hora. O Jornal Nacional e Fera Ferida, da Globo, encerram a programação de três horas diárias, às 9 da noite, no horário local, um a menos do que em Brasília. A sessão poderá ser prolongada se Lagoa do Barro instalar mais baterias de energia solar, ampliando o sistema que custou Cr$ 1,5 milhão, e inclui uma parabólica que capta 8 canais.

  A estreia da TV, depois da chuva e da feira, na sexta-feira à tarde, atraiu uma multidão. A telespectadora Ana Silva recuperou com as primeiras imagens o tempo em que morava na favela Jardim Silvina, em São Bernardo do Campo. “Até já me vi em televisão falando do desabamento do meu barraco depois de dois dias de dilúvio”, ela conta. Era uma exceção: flagelada da chuva entre flagelados da seca, esnobou o programa Chaves, que “tanto já tinha assistido”. Mas os outros não desgrudavam os olhos da caixa preta iluminada. Alguns meninos na primeira fila chupavam dedos, distraídos e maravilhados.

  A mãe de Ana, também Ana Silva, 48 anos, assistia de camarote a sessão vespertina de TV: estava montada num jumento. Mais tarde andaria 18 quilômetros até o sítio do Magalhães, onde mora. E prometia: “Vou vir sempre ver TV”. Outra telespectadora-montada, Maria do Socorro Dias, estacionou o burro equipado com uma garrafa de cerveja, ao lado de um bebedouro de animais. Chapéu de couro de cangaceiro, Joaquim Dias espremeu-se entre os meninos na fileira da frente, e nem piscou, os olhos arregalados. Estava só, sem o filho Toninho, que escapou à primeira televisão da vida. Emissários que o procuraram voltaram ao “Chaves” derrotados.

  Joaquim será “freguês” dos noticiários. “Quero acompanhar as traquinadas de Brasília”. Com “Marcianas”, “Valentinas” e outros personagens na cidade, muitos dispensam a dose diária de novela. O vice-prefeito Hermínio Ribeiro concorda: “A gente agora vai se informar”. O homem da luz solar, Nelson, alimenta um curioso projeto pessoal de consequências imprevisíveis: mostrar aos habitantes de Lagoa do Barro como eles reagiram à chegada da TV. Está tudo gravado em sua filmadora. Para quem só agora descobre a televisão deve ser espantoso passar direto ao vídeo, e ver-se na tela. “Em Lajes do Piauí, um distrito de Coronel José Dias, já nos receberam como se fôssemos deuses ou ETs”, ele conta. “Ali sequer conheciam o gelo até outubro”.

  O filme de Nelson só não foi rodado na estreia da TV por falta de vídeo. E a câmera quase ficou despedaçada, por pouco não reduzindo a pó as cenas da chegada da TV em Lagoa do Barro, durante uma tomada arriscada em que filmava, deixada no chão, uma perua de faróis acesos se aproximando até cobri-la e derruba-la. A última imagem é a de um grande diferencial à frente, mais baixo do que se esperava, e o inevitável choque.

  O Brasil sem luz

  Mais de 30 milhões de brasileiros vivem como os 4.819 habitantes de Lagoa do Barro, sem luz, distantes da rede elétrica e do que acontece no Brasil. Os eleitores que elegeram o deputado João Alves (PPR-BA) no interior de Presidente Jânio Quadros, no Sul da Bahia, sabem “só por ouvir dizer” que uma CPI da corrupção poderá cassá-lo. Em todo o mundo, por um cálculo da ONU, são 2 bilhões que ainda não chegaram a idade da eletricidade.

  A solução que iluminou Lagoa do Barro estava no que existe de mais abundante e inesgotável no Nordeste: o sol. Ele pode brilhar à noite se durante o dia for captado e armazenado em painéis solares. A “fotossíntese elétrica” é feita por “módulos fotovoltaicos”, compostos por células de silício que produzem eletricidade quando expostas à luz, mesmo em dias nublados. Quanto mais módulos, mais energia. Cada um sistema de 40 watts custa cerca de US$ 500. Mais de 20 mil sistemas já foram instalados no Brasil pela Heliodinâmica, a única empresa nacional que produz células solares.

  A energia solar está nos barcos do navegador Amyr Klink, nas baterias que recarregam os aviões da Taba em aeroportos da Amazônia, na telefonia celular rural, em bombas de água de cacimbas do Nordeste, na iluminação pública do Palácio do Planalto, em cercas eletrificadas de fazendas e até num protótipo de carro solar brasileiro, o The Banana Enterprise. O diretor financeiro da Heliodinâmica, Nelson de Oliveira Jorge, iluminou uma caverna na Serra do Capivari, em São Raimundo Nonato, depois de inaugurar a TV de Lagoa do Barro. Ele próprio enfrenta a escuridão com um novo sistema de energia solar, portátil, já vendido para o exército brasileiro.