Os aiatolás do Peru

A novidade é a notícia, antiga, ser publicada neste domingo, 31 de julho, pela agência do Estado Islâmico (EI), Amaq. A notícia reproduz uma reportagem do jornal pan-árabe Asharq Al-Awsat sobre o avanço do xiismo iraniano no Peru e, de lá, para outros países sul-americanos. Enfim, os aiatolás estão chegando. Numa breve passagem pela Argentina, em 1994, deixaram um saldo de 84 mortosO Irã político e religioso chegou ao Peru, de onde quer se espalhar para outros países da América do Sul.

 

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http://notihoy.com/libanes-detenido-en-peru-reconocio-ser-miembro-de-hezbollah/

O Irã político e religioso chegou ao Peru, de onde quer se espalhar para outros países da América do Sul.

A informação é de Asharq Al-Awsat, 1º jornal pan-árabe impresso em 4 continentes. A reportagem sobre o Peru iranizado foi reproduzida pela agência de notícias do Estado Islâmico, EI.

Por que esta notícia, requentada, foi publicada hoje? pe

Muitos peruanos já se converteram ao xiismo e fundaram uma entidade a que batizaram de Hezbollah Branch in Peru, cópia do libanês. O objetivo declarado é o de importar a revolução iraniana.

A maioria dos convertidos peruanos é da região montanhosa de Abancay. É dali que 20 homens foram levados à Teerã para serem doutrinados em xiismo.

O programa de TV Punto Final, do Peru, mostrou um grupo de jovens peruanos com um sheik xiita reivindicando o direito de propagar o xiismo da mesma forma como é permitido ao cristianismo.

A polícia peruana deteve alguns suspeitos ligados ao Hezbollah libanês quando entravam no Peru. Um especialista em influência iraniana na América Latina, Joseph Humire, diz, citado na reportagem, que o Irã financia o Hezbollah do Peru “com dinheiro de contrabando”.

1iraO “aiatolá” de Caracas, Nicolás Maduro, dá apoio integral à implantação do Hezbollah na América do Sul. O falecido coronel Chávez e o então líder iraniano Ahmanidejah tiveram uma relação intensa, boa parte da qual misteriosa. O Irã é acusado de ter participado diretamente do atentado contra a Associación Mutual Israelita Argentina (AMIA), em 1994, que deixou um total de 85 mortos.

Massacre do dia da Bastilha

Promenade_des_AnglaisA Promenade des Anglais é uma avenida larga, só para pedestres, ao lado do Mediterrâneo. Turistas a consideram o melhor passeio em Nice, na Riviera Francesa. Bons cafés, hotéis famosos, algumas praias pagas, pista para bicicleta e paraíso dos skatistas. São sete quilômetros de comprimento. É nela que se dança no carnaval. Ontem, 14 de Julho, Dia da Bastilha, programado um show de fogos de artifício, a Promenade, “Prom“, como a chamam, lotou. Então, às 22h30, um caminhão branco alugado, dirigido por  um tunisino, entrou na avenida dos pedestres e os atropelou durante dois quilômetros, quando foi parado a tiros. Restaram 84 mortos no asfalto. E uma pergunta: quando e onde será o próximo atentado terrorista?

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O massacre do Dia da Bastilha em Nice foi apenas mais um. E o Brasil, com as Olimpíadas, que tome as precauções possíveis. O terror vive de visibilidade e o mundo reunido no Rio, a “cidade maravilhosa”, é uma atração irresistível.

Acontece que o Califado já perdeu 45% de seu território no Iraque e 20%, na Síria, atacado por forças que vão dos Estados Unidos e Rússia a aliados sunitas da Arábia Saudita. Ah, e pela França também: por isso Paris, e agora Nice, já foram alvos preferenciais, mais ainda pela extensa comunidade islâmica francesa à qual não faltam radicais.

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Al-Bafhdadi

O califa Ibrahim Awwad Ibrahim Ali al-Badri al-Samarrai Baghdadi,  nome de guerra Abu Bakr al-Baghdadi, líder do Estado Islâmico (EI), já antecipava, no começo do ano, que produziria “dias escuros” para os países da coligação que o estão atacando. “O que virá será mais devastador e amargo”, ele prometeu.

Uma lista com 1.700 nomes de condenados à morte pelo EI circulou nas últimas semanas, distribuída pelo seu braço virtual, a United Cyber Caliphate. A instrução para islamitas “lobos solitários” que moram nos EUA, França, Bélgica, Espanha, Turquia e outros países foi curta, direta: “Matem todos”. O FBI não é afeito à publicidade. Neste caso, porém, seus agentes procuraram alguns dos listados que moram em Nashville, no Texas. Seriam cidadãos comuns, não políticos ou militares, escolhidos ao acaso para disseminar o medo de que qualquer um pode estar na mira. Vazou que alguns dos alvos são membros da igreja católica e de sinagogas.

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Outro motivo que leva o Califado a se exibir em atentados espetaculares, mesmo que visivelmente desesperados, é o ressurgimento das cinzas da Al Qaeda, que perpetrou o maior atentado terrorista da história, o 11 de Setembro (em 2001), derrubando as torres gêmeas em New York e uma ala do Pentágono, em Washington. Esta semana o filho de Bin Laden apareceu para dizer que vingará a morte do pai.

O EI nasceu no Iraque filho da Al Qaeda, mas os dois grupos não se entenderam e estão rompidos. Incrível: o que os separou foi o grau de brutalidade que cada um desfere em suas vítimas e na população das cidades conquistadas, como se

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Bin Laden

fizesse muita diferença jogar aviões em prédios e decapitar prisioneiros. Por que não matar com tiros em vez de degolar ante câmeras de TV? Um estrategista do terror, Adam Gadahn, nascido nos EUA, aconselhou a Ossama Bin Laden, em carta datada de janeiro de 2011, que renegasse o “filho” iraquiano, porque, do contrário, “sua reputação se degradaria mais e mais”. A ruptura foi formalizada quando o EI estendeu o Califado à Síria, jurisdição que pertencia ao grupo Frente Al Nusra, fiel a Al Qaeda.

Em papéis encontrados no último refúgio de Bin Laden leem-se reflexões como esta: “(…) essa violência indiscriminada desembocou na perda do apoio dos muçulmanos para os muhajedins”. Al Qaeda queria “recuperar a confiança perdida” no mundo islâmico. Isso explica a sua aplicação light das leis da sharia, como permissão para que mulheres vestissem calças e para que todos possam escutar música, mas lá no Yemen. Resumindo, um grupo pretendia refletir a imagem de moderado enquanto o outro mergulhava em banhos de sangue com transmissão ao vivo pela televisão. Para Bagdadi, o espetacular tem um efeito fundamental.

Outras diferenças são de origem. Bin Laden tinha diploma universitário e vinha de família de classe alta saudita. Já um de seus comandantes, o jordaniano Abu Musab al-Zarqawi, que partiu para fundar EI, nasceu na pobreza no reino da Jordânia e cercou-se de criminosos. Foi morto em 2006, no Iraque. A Al Qaeda recrutou combatentes no Afeganistão nos anos 80, enquanto o Califado os atraiu, jovens, iraquianos e sírios crescidos em guerras — e depois abriu-se para uma legião estrangeira de voluntários do mundo todo.

O risco maior, agora, é a paz entre Al Qaeda e EI. Ou uma competição entre eles pelos maiores atentados.

 RASTRO DE SANGUE

No primeiro trimestre de 2016, lançou 891 ataques na Síria e Iraque, matando 2150 pessoas;

Em outubro de 2015, derrubou um avião russo com 220 passageiros, explodindo-o no ar com bomba caseira de 1 quilo de TNT, colocada a bordo no aeroporto de Sharm el-Sheikh, um oásis no deserto do Sinai.

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Bataclan

Em 13 de novembro de 2015, em ataques coordenados em Paris matou 128 pessoas, a maioria se divertindo numa discoteca tradicional, Bataclan.

Em 22 de março de 2016, sacudiu  o aeroporto de Bruxelas, com três explosões. Mortos: 30 pessoas.

Em 12 de junho de 2016, um atirador “lobo solitário” matou 50 pessoas na boate gay Pulse, em Orlando, Estados Unidos.

Em 28 de junho 2016, um ataque suicida matou 44 pessoas e feriu mais de 200 no aeroporto Ataturk, em Istambul, na Turquia.

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Aeroporto Ataturk

Em 1º de julho de 2016, depois de 11 horas de impasse, um grupo afiliado ao EI matou 20 reféns num restaurante em Daca, Bangladesh, a maioria estrangeiros.

Em 7 de julho, um carro bomba matou 281 pessoas no final do jejum de mais um dia do Ramadã, numa área de comércio de Bagdá, Iraque.

Isto os jornais não contam

Amigos meus escreveram o livro  Isto o Jornal não Conta, na capa assinado pelo veterano e ótimo jornalista Fernando Portela. Pego o título emprestado, passo-o para o plural, e conto aqui apenas um entre tantos casos que aconteceram comigo em redações, para além das notícias. Não foi o único, nem o último.

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Consultei a doutora Marie-France Hirigoyen em 1998, quando o sucesso de seu primeiro livro, Assédio Moral, repercutia muito na imprensa francesa. Ela recomendou:

“Reaja ou se demita”.

Reagi. Fui demitido.

Escrevi este artigo que circulou apenas na internet, e por pouco tempo, porque recusado por jornais e revistas. Cortei o nome do personagem porque ele se desculpou anos depois. Mas os estragos ficaram, não têm reparo e mudaram o destino de minha família.

Quando nos conhecemos, num jantar em Nova York, meu novo chefe foi dizendo: “Você é o nosso melhor correspondente”. Mas, num almoço no dia seguinte, com um amigo comum, ele iniciou um perverso processo para me substituir nos Estados Unidos. Conseguiu.

   Quando nos reencontramos em 1998 num novo emprego, ele no Brasil e eu na França, trocamos e-mail: “Nosso homem em Paris!”, ele escreveu. Retribui, deletando o passado que o condenava, e desejando-lhe “sucesso”. Fui demitido.

   Qualquer chefe tem o poder de demitir quem não queira. Mas torturar, não. A dose dupla de tortura de que fui vítima me levou à pesquisa de um fenômeno no mundo do trabalho batizado de bullying (tiranizar), na Inglaterra; mobbing (molestar), nos Estados Unidos; harcèlement moral (assédio moral), na França; e murahachibu (ostracismo social), no Japão. Algumas vítimas se matam. Outras são tratadas com antidepressivos ou tranquilizantes. Muitas pedem demissão e renunciam a direitos de indenização, dando vitória ao bully, ao tirano. E há as que resistem.

   A primeira pessoa a denunciar a tirania nas relações de trabalho foi uma jornalista inglesa, Andrea Adams. Ela escreveu dois documentários para a BBC Rádio 4, de Londres, que provocaram uma enxurrada de cartas de ouvintes. A inesperada repercussão a levou a publicar um livro, Bullying At Work, em 1992. Até alguns dias antes de morrer, com câncer, em 1995, ela fez campanha para tornar o psicoterrorismo no trabalho um delito como o assédio sexual.

   “Ir ao trabalho é como entrar na jaula de um animal imprevisível para enfrentar outra semana de crucificação profissional”, disse Adams em seu último discurso, para sindicalistas, em maio de 1994. Um drama clandestino sofrido por um mínimo de 12 milhões de europeus, segundo uma pesquisa pioneira da Organização Internacional do Trabalho, em 1996, e pela média de 2 milhões de americanos por ano, incluindo assaltos contra taxistas, na estatística de 1998 do Departamento de Justiça dos Estados Unidos. No Japão, uma experiência telefônica, a “bullying hot-line”, atendeu a 1.700 consultas só em um mês. Como o poder de um tirano se mantém pelo medo que cala suas vítimas, impossível medir o fenômeno em escala mundial.

   Há inúmeras formas de tiranizar um empregado. Adams as resumiu em alguns exemplos: marcar tarefas com prazos impossíveis; passar alguém de uma área de responsabilidade para funções triviais; tomar crédito por ideias de outros; ignorar ou excluir um funcionário só se dirigindo a ele através de terceiros; segurar informações; espalhar rumores maliciosos; criticar com persistência; e subestimar esforços. O processo é lento. As agressões, sutis. As reclamações serão interpretadas como choque de egos, atribuídas a uma nova forma de administração, à reorganização, reengenharia, senão rejeitadas. Não há lei que não a do mais forte.

   marie-france-hirigoyenA psiquiatra francesa Marie-France Hirigoyen (foto à esquerda) escreveu o livro Le harcèlement moral (O Assédio Moral): La violence perverse au quotidien (A violência perversa no cotidiano). Os cinco mil exemplares da primeira edição esgotaram-se rapidamente. Outros 60 mil, em seguida. O livro apareceu em português, editado pela Bertrand Brasil, depois de traduzido para 12 idiomas. A revista Le Nouvel Observateur consagrou-lhe uma capa, com o título: “Esses colegas e patrões que o deixam louco”. Os colegas entram no título como cúmplices: temem pelo próprio emprego. Quem for solidário com uma vítima poderá se tornar a próxima.

   Hirigoyen traça o perfil do tirano. É um “narcisista perverso”, que acha o próprio equilíbrio descarregando em outro a dor que não consegue sentir e as contradições internas que se recusa a perceber. Uma sanguessuga: procura fora de si a substância para sua vida. Tem um senso grandioso da própria importância. Vive absorvido em fantasias de sucesso ilimitado e de poder. Pensa ser especial e único. Precisa muito de admiração. Acha que tudo lhe é devido. Inveja os outros. Comporta-se com arrogância. Explora todos nas relações interpessoais. E posa de referência, de padrão do bem, do mal e da verdade.

   -As vítimas são impotentes? Nada podem fazer?

   – Elas têm que aprender a se proteger, a dizer não – respondeu Hirigoyen.

   – Mas, como dizer não?, com o desemprego em alta?

   – Há um momento em que a opção é a saúde mental, ou o emprego. Tenho uma paciente que se demitiu para preservar sua personalidade.

   – A vítima fica só, sem a solidariedade dos colegas — comentei.

   – Solidariedade não existe, é cada um por si.

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    “Aqueles que podem, podem. Os que não podem, tiranizam” – proclama na Internet o Bully OnLine (www.successunlimited.co.uk), criado por Tim Field, autor do Bully in Sight (Tirano na Mira), guia que ensina a prevenir, resistir e combater o assédio moral no trabalho. Ele acrescenta atributos ao mais comum dos tiranos, os que praticam serial bullying, a destruição em série de empregados. É vingativo, quando só, mas inocente, diante de testemunhas. Médico e monstro, como Jekyll & Hyde. Mente compulsiva e convincentemente. E torna-se agressivo, se chamado à responsabilidade.

   O bully também produz uma vítima indireta. É o patrão, que continuará pagando o salário ao empregado que já não está mais podendo funcionar bem. Ele ainda arcará com as consequências de um ambiente de trabalho deteriorado, lembra o professor alemão Heinz Leymann.

   Só existia legislação para proteger as vítimas de assédio moral na Suécia, Alemanha, Itália, Austrália e Estados Unidos, quando escrevi este artigo. A Organização das Nações Unidas (ONU) anexou à Declaração dos princípios fundamentais de justiça uma nova e abrangente definição de vítima. “Vítimas são as pessoas que, individual ou coletivamente, sofreram um dano à sua integridade física ou mental, um sofrimento moral, uma perda material, ou uma ofensa grave a seus direitos fundamentais, como consequência de atos ou de omissões que ainda não constituem violação da legislação penal nacional, mas que representam violações de normas dos direitos do homem reconhecidas internacionalmente”.

   Hirigoyen encoraja vítimas de harcèlement “a virem a público” – para ela uma poderosa forma de levar a Justiça a uma tomada de consciência, como no assédio sexual.

   Por enquanto, as vítimas brasileiras da guerra de nervos no trabalho estão perdidas. Um chefe pode abusar do poder impunemente. Ou o empregado se submete à lenta destruição por golpes mesquinhos e covardes, que acabam acertando toda a sua família, ou vai embora. “O silêncio e o vazio cercam aos poucos a pessoa visada”, diz Hirigoyen. “Às vezes, a solidão é tal que vira rápido um drama”. Mas ela pergunta à “sociedade cega diante desta forma indireta de violência:

   — Não nos tornaremos cúmplices, por indiferença?”

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O assédio do sucesso

A psiquiatra francesa Marie-France Hirigoyen quer se proteger de um tipo inesperado do assédio que denuncia e combate desde 1998, quando escreveu seu livro Assédio Moral – A violência perversa no cotidiano, que vendeu 450 mil exemplares em 27 países.

   “Tudo se tornou assédio moral”, diz a doutora Hirigoyen. “Virou moda”.

   É o assédio do sucesso. A Assembléia Nacional da França votou em 11 de janeiro de 2001 uma emenda que introduz a noção de assédio moral nas leis do trabalho. O projeto de lei 13.288, de 10 de janeiro de 2002, da Câmara Municipal de São Paulo, prevê suspensão, multa e demissão para os chefes tiranos, baseado em estudos da doutora Hirigoyen. Surgiram associações e sites na internet em defesa de empregados acossados. O tema ficou popularizado com capas de revistas e em páginas de jornal.

   O assédio moral passou a ser usado, indevidamente, como sinônimo de estresse, ou para condenar a pressão normal de um chefe para que o subordinado trabalhe mais. Foi por isso que a psiquiatra Hirigoyen escreveu um novo livro, Mal-estar no trabalho – Redefinindo o Assédio Moral, lançado em português pela editora Bertrand Brasil.

   “Não se deve atribuir tudo ao assédio moral”, ela diz. “É preciso distinguir o que é do que não é, mesmo porque, do contrário, não se poderá mais agir para punir ou prevenir. Antes que um caso seja identificado como assédio moral alguém de fora deveria investigá-lo e emitir um parecer, como sugere um projeto de lei belga”.assedio moral é crime

   Agora que fixou limites para o assédio moral, a doutora Hirigoyen vai mudar de assunto: “Não quero me repetir e muita gente está escrevendo livros sobre o tema, com poucas diferenças”. Talvez ocorram mudanças também entre seus pacientes. “Na Europa estão surgindo especialistas, não necessariamente psiquiatras, que tratam de assédio, tanto individual como coletivamente”.

   Será difícil para a doutora Hirigoyen ficar imune ao assédio do assédio moral. “Totalmente, não. Ainda recebo cartas de todas as partes do mundo”. Formada em medicina na França, em 1978, especializou-se em psiquiatria e psicanálise, e depois em vitimologia nos Estados Unidos. Ela também faz conferências. “Numa no México, um homem começou a chorar, reconhecendo: es mi vida, es mi vida… Qualquer que seja o país ou a cultura, o problema é o mesmo, são formas de ataque e sofrimento iguais, só o contexto difere, em função de maior ou menor proteção social. Em alguns lugares, o assédio se desenvolve sutil, escondido. No Brasil a violência no ambiente de trabalho é ostensiva”.

   O Brasil “está muito avançado”, em comparação à Europa e aos Estados Unidos. “Vejo que cada vez mais o mundo do trabalho tende a se individualizar. No fundo, cada pessoa, diante do assédio moral, se encontra só. Por isso a lei é importante: ela permite que o indivíduo ouse reagir”.

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Como reagir

Primeiro da turma de 1975 de Ciência da Computação na Universidade Staffordshire, na Inglaterra, Tim Field especializou-se em assédio moral no trabalho, na prática, ao ser forçado a sair de um emprego, em 1994. Hoje, ele mantém um serviço de aconselhamento por telefone e na internet, escreve livros e dá consultas a empresas e sindicatos. Entre seus clientes ingleses estão vários departamentos de polícia, o correio, o ministério da Defesa e algumas universidades.

   Depois de responder a 3 mil telefonemas e receber 26 mil visitas no seu site da internet, Tim Field chegou aos conselhos básicos para quem quiser reagir a um chefe tirano. Aqui, um resumo dos que se aplicariam às vítimas brasileiras.

* Lembre-se de que um chefe tirano projeta em suas vítimas as próprias fraquezas profissionais e morais. Assim, não as introjete.

* Sentir vergonha, dificuldade, culpa e medo é uma reação normal, mas imprópria se render ao tirano o controle e silêncio de sua vítima.

* Não se pode enfrentar sozinho um chefe tirano. Procure ajuda. Consulte o departamento médico de sua empresa.

* Aprenda o máximo que puder sobre assédio moral no trabalho.

* Supere toda falsa percepção sobre assédio moral, como a de que se trata apenas de uma forma dura de chefiar, ou de reorganização empresarial.

* Anote tudo. Não é um único incidente que conta, mas a regularidade com que acontece, o seu padrão e o conjunto.

* Guarde cópia de cartas, memorandos e e-mails.

* Faça um diário com as reclamações e críticas do chefe tirano. Se puder obtê-las por escrito, tanto melhor. Se as tiver pedido, e não for atendido, registre. A repetida recusa de justificar ou substanciar faltas cobradas pode ser usada como prova de assédio.

* A tiranização no trabalho estressa. Se o médico a diagnosticar, que inclua a causa – as condições no local de trabalho.

* Reclame do assédio moral ao escalão superior. Mas, cuidado: em geral, o tirano é que receberá o apoio de cima.

* Não se deixe levar pela armadilha da saúde mental: os sintomas e efeitos do assédio moral são uma lesão psiquiátrica, não doença mental.

* Uma licença médica deve ser registrada como acidente de trabalho, e a sua causa, a opressão do chefe tirano, denunciada ao empregador.

* Se o chefe tirano fizer suas críticas em público, procure um advogado para adverti-lo, por carta, que ele é passível de processo por difamação e calúnia.

* Considere demitir-se como uma decisão positiva, uma opção entre saúde e emprego.

* Se forçado à demissão, denuncie a causa ao empregador, por escrito, e oriente-se com um advogado antes de assinar qualquer documento.

* Considere tornar público o seu caso.