Duas bikes por minuto na cidade das lambretas

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Pedaladas de Dilma e

ciclofaixas  de Haddad, resgatei  a visita que fiz

à maior fábrica de bicicletas no

mundo, a Giant, em Taipei  — onde, no entanto,

as lambretas  são unanimidade nas ruas.

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Pedalando no salão de entrada da Giant

No salão de entrada da Giant

Taiwan (2011) — Na cidade das lambretas, Taipei, há uma fábrica de bicicletas gigante – a Giant. Mas é raro ver um ciclista pedalando nas ruas. Câmera em prontidão, não flagrei nenhum para ilustrar este post. Difícil: são 11 milhões de lambretas para 22 milhões de taiwaneses. Não existe frota maior por quilômetro quadrado, em todo o mundo. E, no entanto, na Giant, duas bicicletas são produzidas a cada minuto, num total anual de 5,2 milhões, para abastecer 11.125 revendedores em 80 países.

– Onde estão os ciclistas e as ciclofaixas em Taiwan? – perguntei a Zack Cheng, ‘especialista’ da Giant Manufacturing Co., em Tachia Taichung Hsien, nos arredores de Taipei. “Ah, os taiwaneses saem com suas bikes só nos fins de semana, para lazer”, ele explicou.

A vice-presidente executiva Bonnie Tu contou que tem quatro bikes em casa. Aos 62 anos, ela “rejuvenesce quanto mais pedala”. O presidente e fundador da Giant, King Liu, 76 anos, ainda participa de longas maratonas, às vezes com mais de mil quilômetros. Seu projeto é criar um festival de ciclismo taiwanês tão popular quanto o carnaval no Brasil. Já montou um bike hotel: ao acordar, o ciclista recebe sua companheira limpinha e revisada. E partem ilha afora.

Outra ideia veio de Paris e Nova York (em 2011), aqui batizada de You Bike: são 500 bicicletas disponíveis nas estações de metrô. As promoções, tantas, até se atropelam: Bike Day, Cycling Island, Giant Adventure, sem contar os vários tours da ilha, de um a nove dias, concebidos por idade e sexo dos competidores.

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Levantei com o dedo mindinho uma bike de fibra de carbono no amplo salão de entrada da Giant. Mais leve até que o meu laptop. A profusão de modelos confunde. Para cada grande grupo, como Road Bikes (as mais vendidas), Off Road, Cross, Mountain, Hybrid, Cruiser, BMX e Confort, multiplicam-se os subgrupos. Algumas incluem suspensão dianteira e traseira, outras só à frente; as mais pesadas absorvem melhor os choques em buracos; umas combinam alumínio e carbono; e os chineses, grandes consumidores, preferem as feitas de aço. “Cada uma tem uso específico; o mais importante é saber escolher” – diz Zack Cheng, como se fosse algo fácil, de domínio comum.

Pela linha de montagem passam variados tipos de bike prontas para a embalagem, por uma esteira. Ali já recebem o destino final no mundo, colado na caixa de papelão. Caminhões as esperam num grande pátio. Nem tudo se mostra entre milhares de operários, e nem tudo que se vê pode ser fotografado. Não se trata de censura, apenas segredo industrial.

De todas as competições internacionais que disputa, numa a Giant se mantém imbatível: é a campeã mundial em faturamento entre as bicicleteiras, com o faturamento de US$ 1,3 bilhão, em 2010. Talvez seja também a maior do mundo. Embora a informação apareça em pesquisas a banco de dados na web, ou em inúmeros artigos em jornais e revistas, na Giant, mesmo, há um certo cuidado em confirmá-la. A referência preferida é a renda anual. Não será exagero nenhum colocá-la também na liderança dos produtores de bicicletas de qualidade. Foi ela que introduziu a Cadex 980 C, a primeira bike de fibra de carbono. Também foi ela que revolucionou a bike estradeira com a Compact Road Design. Com a Suspensão Maestro, ela elevou o nível de performance para competições e off-road. As e-bikes, as bicicletas elétricas, na mira do presidente King Liu desde 2005, hoje são populares. O desafio é calibrar sua potência. Os e-ciclistas abusam, os acidentes aumentam e os fabricantes, cobrados, tendem a dar marcha a ré. Afinal, quem quiser força e velocidade compra uma moto, ou uma lambreta.

A fábrica em Taipei

A fábrica em Taipei

“Bicicleta, como carro, tem seus modelos do ano” – explica a vice-presidente Bonnie Tu. As novidades são lançadas em julho e chegam às lojas em setembro. Para ela, no mercado mundial cabem 100 milhões de bikes. Isso porque ainda não pedala uma maioria calculada em 85% da população. “O que fazemos é tentar atrair os sem-bike para a cultura saudável da bike”. Num recente “Café com a Presidenta”, Dilma Rousseff falou em promover a cultura do ciclismo no Brasil, recomendando a prefeitos a abertura de ciclovias seguras para estudantes de escolas públicas. O projeto prevê 100 mil bikes e 100 mil capacetes para 300 municípios.

A Giant começou em Taiwan, em 1972. A partir de 1986, ganhou o mundo. Foi para a Holanda, Estados Unidos, Japão, Canadá, França, Alemanha, Austrália e a República Popular da China (para não confundir com a República da China, ROC, dos taiwaneses). Hoje está com onze fábricas ou montadoras em vários países, e quer mais. Por que não o Brasil? – perguntei a Bonnie Tu. “Temos um importador… Mas o nosso problema é o altíssimo imposto de importação brasileiro”.

Bem informada, ela citou pelo nome as principais marcas concorrentes que desfilam pelas ciclovias aos domingos. E admitiu: “Não entendemos ainda o potencial brasileiro. Só sabemos que se trata de um mercado importante, muito-muito importante”. A Giant tem a esperança de que os impostos possam baixar, mas não cair como no caso recente dos tabletes, para permitir a produção nacional do iPad, da Apple, pela taiwanesa Foxconn (que, afinal. não ocorreu). “Por enquanto, estamos ajudando o nosso representante a construir a marca. Somos muito pacientes”.

No final, montei uma bike de fibra de carbono (foto no alto). Saí à rua e dei voltas pelo jardim da Giant. No ônibus para o centro de Taipei, fiquei atento ao trânsito e ao cenário de lojas, oficinas e estacionamentos. Lambretas, só lambretas… Nenhuma bicicleta! Qualquer turista, com carteira internacional de motorista, pode alugar uma até 50cc e se perder na multidão. Pode ir sem medo: os acidentes são raros (em uma semana, não vi nenhum), ao contrário da mortandade diária entre os motoboys de São Paulo.

Cadê a bike?

Cadê a bike?

O repórter viajou a convite da Taiwan External Trade Development Council, TAITRA.

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