Hiroshima na cabeça

O brasileiro com a

bomba no corpo

O brasileiro Nelson Nishimura vive com a bomba de Hiroshima “grudada no corpo”. E com lembranças do apocalipse gravadas na alma.

  A ponta da bomba já não está mais tão saliente para que o pente tropece ao alisar o cabelo de Nishimura. Foi cortada em julho de 1989, no Hospital do Câncer de São Paulo, após uma dolorida convivência de 34 anos. Mas era como a ponta de um iceberg. Outros fragmentos continuam enterrados dentro de sua cabeça – estilhaços de vidro espetados pela pioneira explosão.

  “Trago a bomba grudada comigo” – ele diz, aos 66 anos.

  Contra as lembranças não há bisturi. Elas o levam todo 6 de agosto ao gigantesco cemitério de Vila Formosa. Hoje, 50 anos da bomba, lá estará ele, ajoelhado diante de um cruzeiro, em meio a um mar de cruzes. A mulher acenderá as oito velas de um pacote. E ela, Iasuko, também vai rezar: nasceu há 64 anos em Hiroshima, e sobreviveu à sua destruição em 1945.

  A chama e os mortos de Vila Formosa são um altar perfeito para o casal “hibakusha” – exposto à bomba, em japonês. Pois o começo do cataclismo foi um clarão, um relâmpago, o fogo que despregou a pele dos corpos, a fumaça que formou um sinistro cogumelo no futuro do planeta. E o final, um holocausto: 140 mil mortos numa cidade em que viviam 350 mil habitantes.

  “Daqui homenageamos Hiroshima” – disseram Nelson e Iasuko Nishimura contemplando a chama e os mortos em Vila Formosa, na quarta-feira passada.

  Talvez haja outros brasileiros hibakushas. Os Nishimura já ouviram falar de uma brasileira, entre os 158 sobreviventes da bomba registrados na Associação das Vítimas da Bomba Atômica no Brasil. Muitos hibakushas não se revelam, temendo o estigma que persegue os expostos à radiação, e que se reproduz até nas novas gerações. Nelson e Iasuko tiveram filhos, e netos, e um bisneto. Mas nenhum com “a bomba grudada”, ou a mínima sequela.

  Os pais de Nelson imigraram para o Brasil com os primeiros japoneses, há 87 anos. Vieram “ganhar dinheiro”, trabalhando nas plantações de café de São Paulo. O casal Fujikiti e Way teve oito filhos. Ele, o “caçura”, partiu com quatro dos irmãos para Hiroshima, aos 4 anos, na contramão dos imigrantes. E tinha 16 anos quando viu o “pikka” (relâmpago) e escutou o “don” (estrondo) – o “pikkadon”, ou a bomba atômica. Estava nos estaleiros da Mitsubishi, onde era marceneiro. O chefe o mandara sair dos reparos no casco de um navio para buscar pilhas de lanterna no almoxarifado.

  “No caminho soou o alarme de mais um ataque aéreo” – lembra Nishimura. Pródiga manhã de segunda-feira, com alarmes às 7h09, às 7h31, e agora outra vez. “Pensei: isso está errado”. Mas ele ainda pediu as pilhas, antes que “tudo clareasse”, num relâmpago. Olhou o relógio: 8h13 – não 8h16m08s, como marcado para a História. “Marquei o momento exato”, ainda hoje garante. Diante do intenso clarão, perguntou-se: “Que será?” Só havia uma explicação: “Estourou uma bomba”. A fumaça logo obscureceu o almoxarifado. “Subi num guindaste para ver o que tinha acontecido”. E o que viu jamais esquecerá: “Hiroshima tinha acabado”.

 Nishimura “não sentiu nada”. Mas sangrava. O sangue “estava que nem mingau”, represado nas costas, pela camisa. Ele achava que não poderia se permitir a perda de tanto sangue, quando à volta surgiam frangalhos humanos, mutilados, gente já sem pele clamando por água e socorro. Então, bebeu o próprio sangue. Cacos de vidro tinham penetrado em sua cabeça, no violento vácuo da explosão. Mas ele nada sentia; apenas sangrava. E dava “graças a Deus por estar vivo”.

  O estaleiro da Mitsubishi ficava a 2,5 quilômetros do hospital Shima, o epicentro da explosão de Garotinho, o ponto central de Hiroshima. Assim os americanos batizaram a primeira bomba atômica a explodir: Little Boy. Lançada de 10 mil metros de altura por uma fortaleza voadora, o B-29 Enola Gay, detonou a 617 metros do solo, matando imediatamente quem se encontrava num raio de meio quilômetro. “Não tinha mais prédios”, viu Nishimura. Ele procurou ajudar. Não havia muito o que fazer. A maioria dos médicos era cinzas, sob o impacto direto de Garotinho. Restava-lhe repartir o que sobrara de “okayu”, uma canja rala de arroz, mas sem arroz. Ele não chegou a se molhar na chuva preta que a tantos aterrorizava porque parecia uma chuva proposital de óleo aonde logo seria jogado um fósforo aceso, ou uma bomba incendiária, para queimar o Japão.

  Yasuko viu a chuva preta cair a 16 quilômetros de Hiroshima. Teve mais sorte do que outros 7.800 estudantes convocados para ajudar no alargamento das ruas do centro da cidade, preparando-o para o prolongamento da guerra. Ficara na escola. Estava no pátio quando os vidros se quebraram de uma só vez, repercutindo a distante explosão. “Se tivesse entrado para a sala de aula, morreria” – ela ainda acha. “Cinco minutos depois, caiu a chuva preta”. Molhando, caminhando, chegou em casa. De uma irmã enfermeira nada ficou: “foi desintegrada”.

   Nishimura também procurou a família. Durante a semana, trabalhando, vivia no alojamento da Mitsubishi. A tragédia e o próprio desespero o empurravam sobre cadáveres em busca do pai e irmãos. As ruas estavam cobertas de mortos e escombros. Moribundos vagavam deformados, irreconhecíveis. Ele ajudava como podia. Alguns o paravam suplicando que se tornasse portador de uma mecha de cabelo, um pedaço de pano ou uma última palavra a parentes de outras cidades – o correio da morte. Anotou muitos endereços, recolheu últimas lembranças e desincumbiu-se como pôde. Mas vivia também a morte de um irmão. “Primeiro, ficou careca; depois lhe nasceram fios dourados, e em cinco meses morreu, estragado pela bomba”.

Crew of the B-29 "Enola Gay"

O ódio aos Estados Unidos contagiou Nishimura. Hoje, não mais. “Era tempo de guerra”, justifica. “Muitos morreram…” E a propaganda oficial martelava: “O Japão não pode perder a guerra”. Disso tudo ele se libertou. Menos da bomba. Numa noite de 1985, acordando como num pesadelo, “sentiu um caroço crescendo na cabeça”. Sabia dos cacos de vidro que o penetraram – e concluiu: “Devem estar saindo”. O pente tropeçava nas pontas que emergiam, como plantas. Amiga de bairro em Hiroshima, amante nos anos de dor, esposa oficial desde que vieram morar no Brasil, em 1955, Yasuko acendeu a luz na casinha de quarto, sala e cozinha. E “viu uma bolinha”. Apertada, ela jorrou sangue e “um líquido amarelo”, talvez pus.

  “Pensei”, conta Nishimura: “saiu o vidro da bomba atômica”. Mas no mesmo lugar, mais tarde, depois do café da manhã, nascia outra “bolinha”. Espremeram-na também, e nada de vidro. A cada caroço esvaziado surgia outro. Mesmo assim ele foi pintar carros em sua oficina de Vila Carrão. As bolinhas se multiplicaram entre 6 e 8 horas da manhã. Então, ele começou a tremer. Sentiu-se tão mal que pediu ajuda a amigos para encontrar um médico que entendesse de erupções nucleares numa cabeça cravada de vidros fragmentados pela bomba de Hiroshima. Ficou febril. O pescoço inchou.

  “Aí senti tristeza: escapei, mas a bomba anda comigo, grudada”. O que o magoava era saber que os hibakushas do Japão tinham um tratamento especializado garantido. Ele só o ganhou do governo japonês em 1994. Passou 15 dias fazendo check-up em Hiroshima. Saiu “aprovado”, mas sem tempo de rever o estaleiro onde entrou na era nuclear. Ainda está com vidro na cabeça. Só a ponta foi cortada em 1989, no Hospital do Câncer. Ele deveria voltar para tirar os pontos. Mas passou antes no barbeiro Martins para cortar o cabelo. Os pontos ficaram no pente.

(Nelson e Yasuka estão enterrados em Vila Formosa)

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