Censura e guerra: XXXXXXXXXXX

Meu texto, no telex, de repente truncava. Repetia, truncava de novo. Ia tentando até que um teletipista da Reuters/Tel-Aviv avisou que me chamavam ao telefone. Era o censor militar. Não podia transmitir meu artigo. Surpresa: nele apenas dizia que, como o tempo tinha melhorado, Israel poderia atacar o Líbano a qualquer momento. Nada mais. Fui ao Censor Militar, ali perto, e combinei que era preciso avisar o jornal que faltaria, porque me esperavam com espaço aberto. Concordaram, desde que me ativesse a um breve aviso. Respeitei, só que acrescentei, no final do recado, que passaria a noite lendo Camões, cujos poemas, nessa época, entravam no que era censurado no Estadão. A invasão ao Líbano tinha começado enquanto tentei transmitir meu artigo. “Nosso correspondente censurado em Israel”, publicou o jornal em sua primeira página.

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Robert Capa/Magnum

 

“Na guerra, a verdade é a primeira vitima” — disseram Ésquilo, o dramaturgo grego, e oBqnoKJJCYAAk48E senador norte-americano Hiram Johnson, em 1917, entre outros a que se atribuem a mesmíssima repetida frase. Para alguns correspondentes de guerra reunidos em Jerusalém, a primeira vítima, porém, tem sido a liberdade de imprensa.

No seminário que examinou os meios de comunicação e as guerras no Líbano, no Iraque e Iran e no Atlântico Sul (Malvinas), promovido pela Universidade Hebraica de Jerusalém, falaram (em 4/3/1983), três correspondentes de três diferentes guerras para um auditório de outros veteranos de guerras, cientistas sociais, políticos, diplomatas, estudantes de jornalismo e até encarregados pela censura militar em Israel.

David Shipler, do The New York Times, concentrou-se na guerra do Líbano com a experiência de quem cobriu a guerra no Vietnã, entre 1973-75. Entre 1975-79 foi correspondente em Moscou, e desde 1979 está em Jerusalém.

“Nenhuma guerra é simples”, afirmou Shipler abrindo o seu depoimento, “e a do Líbano excedeu… Em complexidade: aqui temos OLP, sírios, xiitas ao sul, sunitas ao norte, maronitas, drusos libaneses, drusos israelenses, judeus, árabes da Cisjordânia, árabes de Israel, cristãos poderosos, palestinos pobres…e cada um com sua preocupação específica. É uma imensa tarefa, que pode ter três grandes divisões – militar, política e humana”.

Depois de detalhar, em termos profissionais, as três principais áreas de trabalho, Shipler explicou porque, desde Israel, decidiu cobrir a guerra da perspectiva política, deixando a militar para a sucursal de Beirute:

-Simples; eu tinha censor militar, e o Times, outro correspondente em Beirute. Era melhor que uma reportagem tivesse origem onde não existisse censura.

Shípler, como vários outros correspondentes estrangeiros em Israel, tentava alcançar os locais em que se desenvolviam as ações militares, mas ficou imobilizado a primeira semana inteira da guerra. E revelou o seu mais estranho problema com a censura que todos sofríamos, e o denunciávamos na abertura de nossos artigos:

-Liguei para Timor Goksel, porta-voz das forças de paz da ONU, no sul do Líbano, e ele me passou um retrato completo de quanto armamento e tropas Israel estava concentrando para a invasão. O censor de Israel cortou. Foi a primeira vez que vi censurarem as Nações Unidas, e falando de um outro país. A censura foi muito rigorosa no começo, mas a partir da segunda semana, relaxou. As informações que obtínhamos em Jerusalém, de fontes militares, estavam atrasadas 24 a 36 horas em relação às divulgadas pelas rádios libanesas.

Quando entrou no Líbano, foi com escolta:censorship

-Gente interessante era escalada para escoltar a imprensa. Não me sentia vigiado, nem sentia meus entrevistados libaneses intimidados. Não podia ir aonde quisesse. Campos de refugiados, por exemplo. A explicação era a de que “terroristas estavam ainda operando lá”, e mesmo que me responsabilizasse pela minha vida, não me conduziam.

-Nem sempre foi assim: tivemos muito mais liberdade de ação no front israelense – discordou um freelancer norte-americano, Josué Muravchik, que desfiou uma lista de vinte minutos de “erros da grande imprensa no tratamento da guerra no Líbano”. Borns cobriu a guerra de 1973 em Israel, e a de Chipre, em 1974. Trabalha para a televisão belga, e tentou cobrir a guerra entre Iraque e Irã, cujos números dos comunicados iniciais esgotavam a quantidade de aviões, de tanques e de soldados que ambos os lados alegavam possuir.

-Foi a experiência mais frustrante que já tive. Fui antes para Amã, na Jordânia, e depois para Bagdá. Levei dois dias para convencer um diplomata belga a me hospedar, livrando-me assim da perseguição da censura oficial. Mas me encontraram. Disseram-me: todos os jornalistas estão naquele hotel, e você tem que reunir-se a eles.

No hotel da imprensa, na primeira noite, ele tentou ir à rua, dar uma volta. “Onde você vai? – perguntou-me um soldado iraquiano. “Por aí…”. Senti-me humilhado. O soldado dizia: dentro do hotel você tem seus amigos, teletipos, bar, restaurantes…não está bom? Toda manhã, aparecia um oficial, e todos brigavam para conseguir um passe de ida ao front, ao campo de batalha. Parecia um paxá escolhendo suas escravas. Um dia, levou-me, com outros dois jornalistas. Chegamos a Basra, e ele ordenou: “Vocês têm dez minutos”. E esta foi minha experiência na guerra Iraque-Irã. Voltei para Amã. Voei para Bruxelas. Tinha um filme com barulhos de tiros, e alguns navios, em Basra.

Já Michael Nicholson, da Itn inglesa, veterano de 14 guerras, foi patriota para o navio de guerra inglês Hermes, em direção às Falkland/Malvinas.

“Claro que apoiava a partida da Marinha Real Britânica. Mas meu apoio não me impediu que me tornasse um crítico feroz de como a guerra foi manipulada”.

Nicholson contou que, “para entrar a bordo, recebi um livrinho, este (e o mostrou)… Diz aqui: regulamentos para correspondentes acompanhando uma força operacional. Data: 1958. O livreto tinha sido impresso depois da campanha do Suez. Seus dois princípios básicos e contraditórios: 1 – a essência do sucesso na guerra é o segredo, 2 -a essência do sucesso em jornalismo é a publicidade. E tentava conciliar o irreconciliável, recomendando “cooperação mútua”. É isto: o governo tinha certeza do papel que deveríamos desempenhar”.

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Nick Ut/AP, Vietnã, prêmio Pulitzer de 1973

O resultado, para Nicholson, é que “a guerra das Falkland foi a pior para repórteres desde a guerra da Crimeia”. Mas acrescenta: em termos de televisão. Em 1854, um correspondente numa expedição inglesa levou 20 dias para despachar seu material. Em 1982, “foram necessários 23 dias para ser transmitido meu vídeo sobre o cessar-fogo em Port Stanley”.

Nicholson explica: “Estávamos a três milhas da primeira estacão de satélite. E cobriam esta distância, diariamente, vários barcos de suprimentos. Havia ainda satélites militares e um americano, que a ABC, NBS e NBC, as cadeias americanas, tentaram nos passar, via Pentágono, mas o governo inglês não aceitou. Meu editor foi reclamar oficialmente. Sabem o que ele disse a primeiro-ministro?

-Os filmes de Nicholson têm relevância histórica. Como os pergaminhos do Mar Morto…

Os filmes dos correspondentes no Atlântico Sul não sofriam censura imediata, nem os seus comentários, mas também não chegavam a Londres. A tevê “parecia um filtro nacional. Vermelho, cor de sangue, tinha que ser evitado, e era o que se derramava cruelmente nesta guerra”. Nicholson fala que o governo inglês sentia “a síndrome da guerra do Vietnã, tolhendo a imprensa das informações, no momento em que ocorriam. Esqueceu-se, porém, de que o problema era o Vietcongue, e não a tevê CBS…”

Para Nicholson, a guerra foi reduzida a transmissões de sua voz, ilustrada por artistas em Londres, já que imagens não chegavam. “As ilustrações não eram ruins. Mas estamos na idade eletrônica, dos satélites, e me senti impotente”.

O líder do Partido Trabalhista, Shimon Peres, num almoço que interrompeu o debate sobre os três depoimentos de três situações de guerras em partes diferentes do mundo, defendeu a liberdade de imprensa, prometendo transformá-la, se formar um governo, num quarto poder institucional. Criticou “alguma limitação” na imprensa israelense. E aí começaram protestos. E também um outro debate, porém interno, e de Israel.

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Eddie Adams/AP, 1968, Saigon

Fala o censor (sem censura)

O chefe do serviço de censura militar de Israel, general Yitzhak Shani, acha “essencial” a imprensa, em tempo de guerra.

Dita por um censor, a declaração parece contraditória. Mas o general Shani parece inclinado a desafios quando se reúne com jornalistas para uma conversa como essa, no seminário sobre a imprensa e as guerras, em Jerusalém.

Zeev Hefetz, ex-diretor dos serviços de imprensa do governo israelense, apresentou-o como “o mal”, e o general Shani sorriu, mexendo em volumoso bigode. “Mal necessário”? – perguntou aos correspondentes de guerra reunidos no hotel Hilton. E falou da censura “normal” dos regimes totalitários. Falou da censura por intimidação – jornalistas ameaçados de morte, ou assassinados, no Oriente Médio, nas Américas latina e central. E da censura por restrição ao acesso repórteres impedidos de acompanhar a rebelião em Meca, ou as batalhas do Afeganistão, no Iran, no Iraque, nas Malvinas. Nesta lista, Zeev omitiu o Líbano. Para ele, aqui só houve restrição nos 15 primeiros dias da guerra.

-Exceto no Vietnã, houve censura nas duas grandes guerras mundiais, na da Argélia, em todas as guerras de Israel.

E concluiu: “é um mal necessário”. Antes de passar a palavra ao general Shani, o chefe da censura, lembrou: “a censura é anacrônica, em Israel, em tempos de paz”.

O general Shani provavelmente considera também “essencial” a imprensa, em tempos de paz. Mas não o disse. Seu tema era a guerra. E a censura, neste contexto, é uma arma. Uma arma que surpreendeu o exército da Síria.

Sem censura, as declarações do general Shani:

-Na minha opinião (ele chamou-se rindo de “o rei do mal”, completando a apresentação de Zeev Hefetz), a proeza da censura, nesta ultima guerra, foi a de surpreender os sírios. Primeiro, porque evitamos que fossem publicadas as notícias da mobilização de nossos reservistas, dias antes de a guerra começar.

(Olhando para os correspondentes, Shani prosseguiu)

-A maioria de vocês sabia. A maioria submeteu artigos. Não os aprovamos. Segundo: o intenso movimento da nossa artilharia e blindados para o norte, pela rodovia da costa. Qualquer criança via o que se passava. Novamente, vocês sabiam, vocês tentaram enviar noticias, e não puderam. Terceiro: quais eram as intenções do exército e que decisões de guerra tinha adotado o governo? Não sei, agora, se todos vocês sabiam. Quem soube, nada pode mandar. E quarto: depois da formal proclamação de guerra, vetamos a publicação da real dimensão da operação, de detalhes de planos e do avanço das tropas. Isto surpreendeu os sírios.

O general Shani sublinhou: “não interferimos em nenhum momento no debate pró ou contra a guerra. Nem somos contra jornalistas…E queremos ser leves: trabalhamos no horário da imprensa. Achamos também que o público tem o direito de saber. Só interferimos com as informações que poderão alcançar o serviço de inteligência do inimigo, ou que prejudicarão a segurança do estado”.

O general Shani tem outra frase contraditória. Diz: “ser uma real democracia, como o é Israel, e ter censura, parece conflitante, difícil de entender”. Ele explica que a base legal da censura em Israel vem de regulações de emergência do tempo britânico na Palestina. E prevê a proibição de “matérias que poderão prejudicar a defesa de Israel, a segurança publica, ou a ordem publica”. Por um acordo entre as forças armadas e os editores dos jornais israelenses, o único objetivo do censor é o de evitar a publicação de informações sobre segurança que podem ser úteis ao inimigo.

Não há censor político – acrescenta o “rei do mal”. E mesmo a censura militar pode ser contestada. Desde 1949, há 180 casos de contestação legal – da imprensa contra a censura, e vice-versa.

Um outro general também falou na reunião que encerrou o seminário da imprensa e a guerra, realizado no pais das guerras, por promoção da universidade hebraica de Jerusalém. O general Yacoov Even é o chefe dos porta-vozes militares. Quer dizer: ele é a voz, divulgada e amplificada por vários assessores. Um outro “rei do mal”.

-Mal como um rifle, ou uma penicilina. Tudo depende do uso que se faz. Em tese, sou o inimigo do censor. Eu tenho um maravilhoso exército para mostrar, mas ele… ele quer esconde-lo. Mas sou eu o responsável pela falta de acesso tão crítica nesta guerra. Injustamente criticada.

O general Even lembrou que o maior inimigo desta guerra, o líder da OLP, Yasser Arafat, que chamou apenas de Arafat, recebia informações através de rádio e jornais, em seu QG de Beirute.

-Não era, por exemplo, como um país, a Inglaterra, que tem redes de espionagem, sofisticados radares, aviões… Então, espalhei uma certa neblina. Estratégica neblina, não estúpida. Por cinco dias, não explicamos o que se passava. E atingimos totalmente o nosso objetivo militar contra a OLP. Isso não quer dizer que a informação não era dada. Em Israel, sabia-se quase tudo. Câmeras estavam com as tropas. Depois, abri as fronteiras aos repórteres, no quinto dia.     Centenas entraram inicialmente; depois, milhares.

O general Even não quis entrar na discussão dos números de mortos que começou logo no primeiro cessar-fogo da guerra. “Era o irmão do Arafat quem dava os números do outro lado. Eles eram fascinantes, de um ponto de vista jornalístico. Fornecemos os números que tínhamos, e nossa preocupação, sempre, foi a de não perder a credibilidade com a imprensa. Mas ele frustrou-se: o acesso dado à imprensa, no Líbano, foi um bumerangue. “Atacavam-nos com artigos distorcidos, mentiras, inocência, fotografias selecionadas…”

4587-1Even tem “três sonhos”: o de que não haverá uma nova guerra; e se houver outra, que o exercito de Israel esteja muito bem preparado e equipado; e, por fim, que a imprensa seja “decente” na cobertura.

Um correspondente de guerra inglês fez o elogio da censura, durante uns 20 minutos. Achou-a necessária, para a democracia da Inglaterra. Um colombiano, observador no seminário, falou de raptos de jornalistas, a imprensa pressionada pelo governo, pela oposição, pela guerrilha, e quis saber, de censores, especialistas em comunicação, e outros jornalistas: “o que fazer?” a professora Dina Goren, do curso de comunicações da universidade de Tel-Aviv, disse-lhe francamente: “não tenho uma resposta”, e o tema não foi elaborado, por outros, porque o tempo se esgotava, dando apenas para novas duas perguntas. Um repórter perguntou:

-Mas se há censura militar, por que se proíbe o acesso?

Resposta do general Shani:

-Porque Israel não pode confiar no autocontrole ou na integridade de dezenas de repórteres estrangeiros. O jornalista estrangeiro é estrangeiro. Sua obrigação é para com seus leitores. Então, basta que ele pegue um avião, vá a Chipre e de lá envie seu artigo para o seu jornal.

A última pergunta foi sobre se os telefones dos correspondentes são escutados, como há pouco tempo revelado.

– O censor interfere na ligação se estiver sendo transmitida uma informação militar não submetida antes à censura. Mas isto não é novo para você…- respondeu o general Shani, provocando risos.

– Certamente não é respondeu o repórter. – Mas perguntava-lhe sobre ligações locais…

– Não há censura em ligações locais – insistiu o general Shani.

– Não perguntei se censuram, perguntei se vocês escutam…

-Não.

 

 

 

 

Último encontro com Arafat

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Não encontrei mais o líder Arafat combatente,

nem o bravo que apertou a mão de

Yitzhak Rabin na Casa Branca, em 1993. 

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Ao partir para tratamento na França, onde morreu em 11/11/2004

GAZA, 3/8/1995 – O Nobel da Paz Yasser Arafat perdeu a auréola do combatente. Estava pálido, agasalhado com um colete de manga comprida sob o sol do deserto, e despido da mística e do revólver que sempre o armaram, quando recebeu para almoço uma delegação brasileira que veio oferecer ajuda para a construção da Palestina, assim honrando o próprio nome de guerra dele – Abu Amar, Pai Construtor.

“Era mais fácil guerrear” – resumiu um veterano de guerras da OLP, guarda-costas de Abu Amar. Mais fácil quando Arafat era “casado com a revolução”, e não com uma mulher. Quando não tinha endereço fixo, como o que ele próprio chama de “prisão”, em Gaza. Quando era um revolucionário; não um “moderado”. Enquanto posava com o chanceler Luís Felipe Lampreia para a TV Palestina e alguns fotógrafos, perguntei:

– Presidente, o que o senhor espera do Brasil?

Arafat, 66 anos, também chamado de “O Velho”, carinhosamente, parecia que nem ia responder, quando então começou: “Não podemos esquecer o forte apoio que recebemos de Brasília”. Falava baixinho. (A última vez que foz uma pergunta a Abu Amar, na Beirute destroçada sob o cerco de Israel em agosto de 1982, ele vibrava, carregado de energia, mesmo que estivesse no porto prestes a zarpar no navio Atlântida, rumo à Palestina perdida, o exílio em Tunis, longe do Oriente Médio.)

“O povo do Brasil, os partidos, o presidente, todos, em todas as circunstâncias, nos ajudaram” – acrescentou Arafat, o tradicional keffiah preto e branco na cabeça. “Ajudaram no passado, no presente e ajudarão, sem dúvida, no futuro”. Outro repórter perguntou se ele estava contando com a ajuda da grande comunidade árabe brasileira. “Estamos atrás do apoio de todos os brasileiros, e não só dos palestinos que vivem no Brasil”.

coffin372ready   Só olhar em volta para constatar o quanto o Pai Construtor está precisando de ajuda para construir. Ela é tão vital para a paz que até o chanceler israelense Shimon Peres faz campanha mundial para promovê-la. Antes da delegação brasileira estiveram com o presidente Arafat alguns rabinos de Nova York. Há dois anos a cena seria uma miragem no deserto. Mas ali estava agora o grupo de keffiahs e quipás, diante da imprensa, prometendo “lutar pela paz”. A paz não tem um preço definido. Com 50 quilômetros de comprimento superpovoados por cerca de 1 milhão de habitantes, 60% desempregados, 60% refugiados, celeiro do radicalismo islâmico, Gaza depende de água, energia e trabalho de Israel. Significa “Tesouro”, em árabe. Os israelenses a chamam de Aza, ou Forte. Aqui, Sansão perdeu a força, foi preso e morreu. … uma das cidades mais antigas do mundo, no meio da estrada entre o Egito e Assíria.

O embaixador Pedro Paulo Pinto Assumpção vai ficar em Israel para chefiar “a missão interdisciplinar exploratória” oferecida pelo chanceler Lampreia ao Pai Construtor. “Virão técnicos dos ministérios da Agricultura e Saúde, da Embrapa, do Fundo Nacional da Saúde e da Agência Brasileira de Cooperarão”, ele explicou. “Vamos explorar as áreas em que poderemos cooperar”. O pacote de ajuda foi inicialmente montado com base num estudo do Banco Mundial. As reuniões estão marcadas para Ramallah e Gaza.

“Este é um lugar de futuro”, acredita Assumpção, que está deixando a chefia do Departamento de Oriente Próximo no Itamaraty para assumir a embaixada do Brasil em Tel-Aviv. Há um boom visível de obras por toda parte. Ao lado do quartel do presidente Arafat, diante do Mediterrâneo, o governo holandês dá a sua contribuição, levantando prédios. O motorista Akrim, “Generoso” em árabe, não viu ainda nenhum futuro: com 15 filhos e 24 irmãos, ele diz que sem trabalho em Israel “não há o que comer”. Quase todo o orçamento da Autoridade Palestina é esvaziado para pagar 14 mil ex-guerrilheiros, agora divididos em oito diferentes forças, numa grande mistura de uniformes. Muitos ficam sentados num salão em que circula a brisa do mar, tomando chá, café e esperando as ordens de Abu Amar. São simpáticos e alegres. Também perderam a auréola de revolucionários.

O presidente Arafat ofereceu charutinhos de carne, húmus, franguinho a milanesa e água mineral egípcia aos amigos brasileiros. Foi convidado por carta do presidente Fernando Henrique Cardoso a visitar o Brasil. E indicou que vai, em outubro, aproveitando uma visita já programada para a América Latina. O chanceler Lampreia prometeu a imprensa internacional, ao sair de Gaza: “Vamos cooperar com a Autoridade Palestina em tudo que pudermos”. Abu Amar o levou até o carro.

petite_188424-3-13Arafat a bordo do Atlantis,

zarpando do Líbano para o exílio,

em 1982. Fui ao porto para a

sua despedida de Beirute.

Leia em http://wp.me/p5l96l-ci

 

Segredinho do Brasil em Israel

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O segredinho diplomático que esqueci por 34 anos pode agora ser revelado. Nem é tão importante assim, mas revelador das relações “envergonhadas” ou embaraçosas entre o Brasil e Israel. Senti-me desobrigado com a confidencialidade ao ler nas memórias do embaixador brasileiro em Tel-Aviv, Vasco Mariz, o relato do que me pediu, em segredo, em 1982, em sua casa de Herzilya.02VascoMarizBastidoresDiplom

Preocupado, o embaixador Mariz, renomado musicólogo, contou que o decano dos embaixadores em Israel, o americano Samuel Lewis, estava voltando para os Estados Unidos, chamado para assumir o posto de assistente direto do secretário do Departamento de Estado, Alexander Haig.

“Então, serei eu o decano. Já pensou?” – ele perguntou.

O decano é convidado permanente a todas as recepções oficiais do governo, faz discursos e ganha muita visibilidade. Aí o problema: ser destaque em Israel não era do interesse do Itamaraty e exporia o Brasil ante seus amigos árabes.

“Já pensou o Brasil fazendo as honras ao primeiro-ministro sul-africano Pieter Willem Botha, um símbolo do apartheid?”

O que o embaixador Mariz queria era uma notícia de que ele deveria ser o próximo decano em Israel. Assim foi publicado. O Itamaraty agiu mais que rapidamente, trazendo-o de volta ao Brasil. Amigos como Moshe Dayan, Yitzhak Rabin e jornalistas israelenses lamentaram a partida. O ex-chanceler Abba Eban soube dessa saída à francesa e a deplorou em um livro.

Foi, literalmente, uma saída à francesa. Da mesma forma como o americano Lewis informou a Mariz do decanato que lhe caberia, Mariz ligou para o embaixador francês Marc Bonnefous, o terceiro da lista dos mais antigos.

“Vou falar hoje mesmo com Paris” — disse-lhe Marc, alarmado.

A fila andou para o quarto potencial decano, o embaixador da Suíça. Já ao telefone com Mariz, ele afirmou: “Impossível! Os interesses bancários suíços vão exigir que saía também”. Com o quinto embaixador, o da África do Sul, não houve problema algum. Ao contrário, ele até ficou contente, porque as relações entre os dois países iam muito bem.

O Brasil sempre se manteve low profile nas relações com Israel. Não mais, desde Oswaldo Aranha, que presidiu a Assembleia Geral da ONU que votou a partilha da Palestina, em 1947, um brasileiro teve algum protagonismo entre os israelenses. A não ser cantores. Em suas memórias, o embaixador Mariz não conta que pediu a notícia no jornal, que era de verdade uma notícia, não um favor, mas que falou diretamente com o chanceler Saraiva Guerreiro.

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https://rabinovicimoises.com/2015/09/22/confronto-israelense-via-brasil

O Globo pediu um novo texto sobre o “segredinho” e ei-lo, publicado.

Nada melhorou na relação Brasil-Israel

Importante era não incomodar o mundo árabe, especialmente o Iraque de Saddam Hussein, ótimo comprador de armas e de serviços de nossas empreiteiras

POR MOISÉS RABINOVICI

 

O Brasil escapou de assumir o protagonismo do mundo diplomático em Israel chamando de volta a Brasília o seu embaixador em Tel-Aviv, Vasco Mariz. Faz 34 anos — e tudo permanece igual ou piorando nas relações entre os dois países, agravadas hoje pela nomeação de um novo embaixador israelense, Dani Dayan, congelada pelo governo brasileiro.

(Aviso: guardei por 34 anos este “segredinho” para preservar quem o engendrou, oIMG_1228 próprio Vasco Mariz, transferido para o Peru pouco depois de publicado que ele, tornando-se o decano dos embaixadores em Israel, daria ao Brasil uma visibilidade comprometedora ante os países árabes, então prioridade para o Itamaraty. Foi ele quem o revelou primeiro no livro “Nos bastidores da diplomacia”, as suas memórias de 50 anos a serviço do Itamaraty, publicado em 2013 pela Fundação Alexandre de Gusmão, ligada ao Ministério de Relações Exteriores).

Vasco Mariz fará 95 anos no próximo dia 22. É autor de mais de 65 livros, renomado musicólogo, historiador, articulista em vários jornais. Sem ter rodado como embaixador do Brasil o circuito Elizabeth Arden (Nova York, Londres, Paris, Roma e Madri), colecionou encontros com 54 chefes de Estado. Não fazia ideia do que ele queria quando me convidou para visitá-lo em sua casa de Herzlya, ao norte de Tel-Aviv. Mas o encontrei preocupado. O embaixador americano e decano em Israel, Samuel Lewis (1930-2014), voltaria em um mês para os EUA, chamado para assumir o posto de assistente direto do secretário do Departamento de Estado, Alexander Haig. “Então, serei eu o decano. Já pensou?”, ele perguntou.

O Brasil já não vendia mais carros nem ônibus para Israel. Resistia até mesmo à ajuda gratuita para florescer o Nordeste brasileiro, a exemplo do deserto do Neguev. Importante era não incomodar o mundo árabe, especialmente o Iraque de Saddam Hussein, ótimo comprador de armas e de serviços de nossas empreiteiras. Havia muitos operários de Minas trabalhando “nas Arábias”.

“Como reagirá o Itamaraty se o seu embaixador em Tel-Aviv, por exemplo, tiver que fazer as honras ao primeiro-ministro sul-africano P. W. Botha, símbolo do apartheid, num almoço com o primeiro-ministro Menachem Begin?”, ele exemplificou, com o pior cenário possível.

O que o embaixador Mariz queria era uma notícia de que ele deveria ser o próximo decano em Israel. Assim foi publicado. O Itamaraty agiu mais que rapidamente, trazendo-o de volta ao Brasil. Amigos como Moshe Dayan, Yitzhak Rabin, os presidentes Yitzhak Navon e Efraim Katzir, Shimon Peres e vários jornalistas israelenses lamentaram a partida. O ex-chanceler Abba Eban descobriu a razão dessa saída à francesa e a deplorou em um livro, dois anos depois.

Foi, literalmente, uma saída à francesa. Da mesma forma como o americano Lewis informou a Mariz do decanato que lhe caberia, Mariz ligou para o embaixador francês Marc Bonnefous, o próximo da lista dos mais antigos.

“Mas eu também não posso ser decano aqui em Israel!”, reagiu monsieur Marc, alarmado. “Imagine o que dirão os países muçulmanos nos quais a França tem interesses tão grandes! Vou falar hoje mesmo com Paris.”

A fila andou para o terceiro potencial decano, o embaixador da Suíça. Já ao telefone com Mariz, ele afirmou: “Impossível! Os interesses bancários suíços vão exigir que eu saia também”. Com o quinto embaixador, o da África do Sul, não houve problema algum. Pelo contrário, ele até ficou muito honrado porque as relações entre os dois países iam tão bem que até envolviam mistérios nucleares.

Um ano antes, o então chanceler Azeredo da Silveira, sob o governo Geisel, tinha criado uma crise com Israel para convocar o embaixador Vasco Mariz para consultas em Brasília. Era uma intriga: um jornal brasileiro publicara que as denúncias sobre envio de urânio brasileiro para o Iraque — publicadas no “The Guardian” por seu correspondente no Brasil, e republicadas no “Estadão” — tinham por fonte o Mossad, o serviço secreto israelense.

O Itamaraty tentara convocar o embaixador brasileiro em Israel antes, mas não o conseguira porque ele já estava no Brasil, em férias, ou em Chipre, embaixada que acumulava. Agora, Vasco Mariz acabava de voltar de novas férias. E partiu rapidamente, sob o lamento público do primeiro-ministro Menachem Begin: “O que aconteceu entre nossos dois países foi um engano completo”. Ou “um gesto para o Iraque”, como concluiu a imprensa israelense. O “gesto” durou apenas uma semana.

O Brasil sempre manteve perfil baixo, quase oculto, nas relações com Israel. A exceção foi com Oswaldo Aranha, aliado de Getúlio Vargas e embaixador que presidiu a Assembleia Geral da ONU que votou a partilha da Palestina, em 1947. Ele é nome de uma praça em Jerusalém e de três ruas em Tel-Aviv, Ramat Gan e Beersheva. Em suas memórias, o embaixador Vasco Mariz não conta que “soprou” a notícia de seu decanato à imprensa, mas que falou diretamente com o chanceler Saraiva Guerreiro. Nem poderia, porque estaria “furando” o Itamaraty. Ao correspondente, ficou a impressão de tê-lo demitido.

Moisés Rabinovici é jornalista e foi correspondente em Israel

 

 

Gôndolas do Jardim Pantanal

O Jardim Pantanal foi inundado de novo no início deste ano de 2016. Faz 37 anos a cena se repete. Mas em 1977, quando fui a uma das enchentes mandado pelo Estadão, encontrei um pouco mais de poesia do que nas notícias que leio agora. As pranchas de navegação, tetos de Kombi desmanchada, eram chamadas de “gôndolas”, como em Veneza. E a rua da enchente principal, Rua da Praia.

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Foto: notícias.r7.com

Gôndolas fazem a travessia das mulheres que vão trabalhar e os homens ficam para vigiar as casas A gôndola atraca no cais improvisado diante do Mercadinho Macau para o desembarque dos passageiros. O aposentado Luís Oliveira Silva observa o movimento na Rua da Praia. Ele é um ilhéu nato: migrou de Macau, ilha no Rio Grande do Norte, para o Jardim Pantanal, na zona leste de São Paulo, onde passa ilhado a temporada de enchentes.
A retirante pioneira de Macau foi Maria de Oliveira Lemos, irmã de Luís. Ela chegou ao Jardim Pantanal em 1991, prosperou e hoje mora num bairro próximo, “enxuto”, convenientemente chamado de Bom Sucesso. O exemplo atraiu muitos outros macauenses. Só de sua família vieram 21 pessoas.
pantanal_1266610375“Cuidado com o tubarão!”, grita o alagoano Expedito Nunes da Silva para os passageiros de duas gôndolas navegando pela Rua Pinha do Brejo, a Rua da Praia.
Cada viagem custa R$ 0,50. O serviço começa às 5 horas, ainda escuro, e termina no breu, às 20 horas. O movimento maior é o de empregadas que trabalham em casas de bairros distantes, também chamados de Jardim, como o Pantanal. Já garantem a volta, deixando-a paga. Raros são os homens que usam as gôndolas.
“Se saímos de casa, carregam tudo”, diz Carioca, no cais da Associação dos Moradores do Jardim Pantanal. Daqui ele vigia sua casa, que está metade submersa do outro lado da rua. O apelido denota que Aroldo Luís de Souza é “acostumado à praia”. Mas ele lembra uma diferença: “No Rio, a gente vai para a praia; aqui, a gente acorda na água”.
Dia de sol no Jardim Pantanal, Carioca pôs o boné com o apelo eleitoral da campanha do prefeito Celso Pitta: “Não deixe São Paulo parar.” Desempregado, 63 anos, ele se refugiou no “porto” da Associação dos Moradores, onde dorme com outros hóspedes atento à luz de seu quarto que ficou acesa. Seriam só dez braçadas, se quisesse nadar. “Mas a água dá coceira.” Foi só uma hora de chuva, há uma semana. Num instante, a várzea do Rio Tietê ficou coberta por uma onda de 1 metro. Carioca mediu: “Em seis dias, a água baixou apenas 3 centímetros.” Quando secar, serão dias de lama. Terá início a temporada de desinfecção. As casas passarão por um banho de cloro. Diques de cimento em portas crescerão contra a próxima e inevitável enchente. Ninguém fala em mudança.
Pescaria – “Um terreno num lugar seco pode custar mais de R$ 10 mil”, explica o pedreiro alagoano Pedro Gabriel da Silva. Na várzea do Jardim Pantanal não custava nada no tempo da invasão, em 1990. E tudo foi ocupado, apesar de ilegal, apesar do perigo. Surgiram assim 15 bairros com cerca de 10 mil famílias. “Nem porco vive num lugar desses”, diz Gabriel. Mas ele está hoje com mulher, cinco filhos, dois netos e dois cachorros no teto de sua terceira casa levantada em três anos.
Da laje da casa de Gabriel, Wagner da Luz, de 10 anos, lança a linha para pescar cascudos no quintal do desempregado José Lima, outro retirante do Rio Grande do Norte. O irmão menor toma conta da lata com o primeiro peixinho do dia. Com escadas, pedaços de madeira e pedras vão se armando pontes e ligações entre as casas.

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Foto: catracalivre.com.br

A mulher de José Lima partiu de gôndola às 5 horas. Por ironia, trabalha numa fábrica de chuveiros. Por ironia ainda maior, o marido é um especialista em vedação, mas está desempregado. Orgulhoso, ele mostra os diques que ampliou nas portas da sala e da cozinha. A água bate nos diques em ondas quando as barcas passam na Rua da Praia.
Sereia – A filha Cileide da Silva Araújo, de 10 anos, brinca com uma sereia na cama de casal. “É a Daniela”, apresenta. Apertada, a sereia canta. O irmão Rafael, de 4 anos, brinca de casinha. Quando se cansam, vêem desenhos na TV. A cama virou playground. Outra irmã, Elisângela, de 15 anos, cuida da casa.
Os canais da Veneza varzeana cheiram a esgoto. São águas do poluído Tietê acrescidas de lixo local e animais mortos, agora estancadas. As gôndolas de madeira fazem água por aberturas no casco, mas filtram a sujeira. As balsas de carcaça de carros roubados, sobra de desmanches, vão rente à água, sem nenhuma proteção. A área em que vivem os ilhéus de Macau conta com três barcos em operação. No Pantanal-1 trafegam as balsas.
Os remadores entram na água para manobras difíceis, ou quando encalham. Não parecem importar-se com o cheiro, a cor e a ameaça de leptospirose, uma infecção provocada principalmente pela urina de ratos. Para poupar R$ 0,50 da passagem, o pernambucano Josildo Ferreira de Souza sai de casa só de calção, vestindo-se para o trabalho num bar. Põe a roupa seca sem banhar-se.
Muita criança sai para caçar sapinhos em meio à imundície. Num dos melhores pontos de pesca, boiava na quinta-feira o plástico que cobriu sob o sol, até chegar o rabecão, o corpo de Oswaldo Almeida Silva, de 27 anos, afogado na primeira vaga da enchente, na tarde do sábado, quando foi comprar cigarro.
O pedreiro Francisco Rodrigues da Fonseca, atualmente gondoleiro, suspendeu todos os móveis de sua casa. A geladeira está sobre uma mesa, erguida com tijolos. O fogão ganhou uma paliçada. Da casa exala cheiro de mofo. A gôndola navega sobre cercas, passa sobre o alicerce de uma nova casa sendo levantada, cruza dois cachorrinhos numa casinha suspensa, ao nível dos vasos de um jardim, e ganha “o mar”, na Rua da Praia.

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Foto: Joel Silva/Folhapress

A próxima gôndola de Francisco Rodrigues “será muito melhor”. A atual já estava pronta no domingo, nas primeiras horas da enchente. Em Mossoró, no Rio Grande do Norte, onde nasceu, trabalhou tirando areia de rio. Daí “ter experiência”, gaba-se. Ele transporta dois passageiros em cada viagem. Por ele, levaria três.
Mais frágil ainda é a gôndola do menino Gilberto Mendes, de 14 anos. Parece de brinquedo. Mesmo assim, ela levou uma equipe de TV, balançando ameaçadoramente a qualquer movimento brusco.
O balseiro Djalma Batista da Silva, baiano de Itagibá, opera do outro lado do Jardim Pantanal, navegando sobre um campo de futebol e entre a fiaparia das gambiarras que roubam energia elétrica para a maioria das casas. Com sua carcaça de perua, ele tirou 70 pessoas da enchente, ainda debaixo do temporal.
É o único que não pede dinheiro. Aceita o que lhe dão. “Com tudo o que aconteceu, agradeço a Deus por ter onde morar”, diz. E pergunta: “Não fosse aqui, aonde iríamos morar?” O Mercadinho Macau é um porto entre a Rua Cachoeira do Itaguaçabu, que começa no seco, e a Associação dos Moradores do Jardim Pantanal, no final da Rua da Praia. Passou uma semana acessível apenas a gôndolas, ou a banhistas animados por um conhaque. A porta está protegida por um dique de 80 centímetros. O dono, Luís Oliveira Silva, é um veterano. “Em 1995, fiquei 17 dias dentro da água”, conta. “E mais três dias, em 1996.” Um dos pioneiros macauenses, Oliveira Silva lembra que o nome Pantanal foi escolhido porque “havia aqui muita mata medonha de tabu”, erva que dá em águas rasas e paradas, com raízes presas na lama. Por dez anos, ele teve vários empregos em São Paulo até “receber uns trocados” e aposentar-se. Abriu a venda “para ir vivendo”. Tornou-se hoje algo como “cônsul” da ilha de Macau na várzea do Tietê.
O que atrai os ilhéus de Macau não é a vida no Jardim Pantanal, mas o sonho de repetir a trajetória de sucesso da pioneira Maria de Oliveira Lemos e do irmão Luís, que a seguiu. Ele explica: “Macau, terra do sal, usa hoje mais máquinas do que empregados.” Só não tem vindo mais macauenses “por falta de dinheiro”.
Da parte de sua mulher, Maria do Socorro, já migraram seis irmãs. Uma filha, Geisa, de 28 anos, casou- se com um eletricista também do Rio Grande do Norte.
Estão com um bebê, morando nos fundos do mercadinho, porque “a água chegou ao colchão do berço”.
Uma freguesa chega ao “consulado” de Macau e é cearense, Dinha Norberto. Em compensação, o marido Marco Antônio, que ela conheceu no Jardim Pantanal, pertence à comunidade. O “cônsul” não sabe quantos seriam. “Uns cem?”, pergunta. Olhando em volta, brinca: “Só a Xuxa, a cadelinha de 9 anos, não é macauense.” No bairro, há cerca de 2,5 mil famílias.

 

 

 

Reino do terror em Israel

Grupo de jovens colonos

planejava derrubar o governo israelense,

expulsar árabes e restaurar

a monarquia dos tempos

dos reis Saul, David e Salomão

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Bebê queimado na casa incendiada em Duma

Jovens de 13 a 24 anos, judeus, presos pelo serviço secreto israelense depois de um atentado na aldeia árabe de Duma em que morreram uma criança de 18 meses e seus pais, em julho de 2015, pertenciam ao desconhecido grupo Revolta, fundado para derrubar o governo de Israel e restabelecer uma monarquia como ao tempo bíblico dos reis Saul, David e Salomão.

Alguns dos “revoltados” foram indiciados na manhã deste primeiro domingo de 2016, inclusive o autor confesso do incêndio criminoso que matou a família Dawabsheh para vingar o assassinato de um colono judeu, Malachi Rosenfeld, um mês antes, em Duma, perto de Nablus. Desde novembro, 23 de cerca de 40 afiliados ao Revolta foram presos. O Shin Bet, serviço secreto interno israelense, foi muito pressionado por críticas nas duas pontas de sua investigação: os detidos denunciaram terem sido torturados, no que foram amplificados por seus pais, e os palestinos reclamaram da “mão leve” quando os suspeitos são judeus.

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Amiram Ben-Uliel (facebook)

O principal indiciado neste domingo foi Amiram Ben-Uliel, de 21 anos, o“revoltado” que atirou duas bombas caseiras em duas casas de Duma, uma delas vazia, e escreveu em seus muros “Vida longa ao rei Messias” e “Vingança”. Um menor de idade que o acompanharia no atentado não compareceu ao ponto marcado. O fogo provocado pela bomba jogada pela janela da casa dos Dawabsheh carbonizou o bebê de 18 meses, Ali. Seus pais, Sa’ad e Raham, não resistiram às queimaduras depois de algum tempo internados em Israel. Um irmão, Ahmed, 4 anos, sobreviveu, mas muito queimado, ainda sob tratamento.

Mesmo ausente do atentado, o menor do “Revolta” foi indiciado como “acessório” ao triplo assassinato. Outros três menores e dois jovens serão julgados por incêndios a um depósito de cereais em Akraba e a um táxi em Yasuf, na Cisjordânia. O grupo se preparava também para atacar Israel, um estado sem direito a existir até a vinda do Messias. Seus militantes moram nas redondezas de Shiloh, uma das primeiras colônias criadas na Samaria durante o governo de Menachem Beguin, empossado em 1977. A ideologia que os une lembra muito o rabino Kahane, que pregava a expulsão de todos os árabes da Terra Prometida e acabou assassinado em Nova York. O seu sobrinho foi um dos primeiros detidos pelo Shin Bet.

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Reis David, Salomão e Rehoboam

O “Revolta”, fundado em 2013, pretendia levantar o terceiro templo de Jerusalém no lugar em que hoje estão as mesquitas de Al Aksa e Omar, sobre o Muro das Lamentações. Só esta meta teria o potencial de levantar todo o mundo muçulmano contra Israel. Como os “revoltados” não reconhecem o estado israelense, não se sentiam obrigados a respeitar as suas leis. Entre os documentos apreendidos pelo Shin Bet sobressai um manifesto escrito em forma de mandamentos:

. Destruir tudo primeiro, e depois reconstruir.

. Um rei deve ser coroado depois de derrubado o governo.

. Sob a atual administração estrangeira, devemos criar células em cada colônia, topo de montanha, cidade e yeshiva (seminário judaico), cada um com 3 a 5 membros que decidirão como agir.

. As células começarão com pequenas operações. Entre elas, não haverá contato.

. Não fale, não investigue e nem faça enquetes.

. Não haverá espaço para gentio, particularmente árabes que vivam dentro das fronteiras do estado, e se eles não partirem será permitido matá-los indiscriminadamente – mulheres, homens e crianças.

. O sangue dos não judeus será sempre mais barato (inferior?) ao sangue dos judeus.

O Shin Bet não conseguiu identificar um padrão de hierarquia dentro do “Revolta” ou mesmo células criadas e organizadas por uma outra autoridade. O grupo dispensava autorização, coordenação e sincronização para ataques como o de Duma, que acabou por revelá-lo, mas não destruí-lo, pois nem todos estão presos. Prova de que algumas células estão ativas são as ameaças contra as famílias dos agentes secretos.

O primeiro-ministro Yitzhak Rabin foi assassinado por um fanático que professava as mesmas ideias do “Revolta”, menos a restauração do reinado de Israel, embora o local do atentado tenha sido a praça que então era chamada de os Reis de Israel. A monarquia dos judeus acabou quando o reino de Judá ou Judeia foi conquistado pelo império babilônico, em 586 A.C..

Veja também: terrorismo judeu.

 

Miragem de paz em Jericó

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Vista de Jericó do Monte da Tentação

Jericó (setembro de 1978) – A festa foi já uma comemoração pelo nascimento de um estado palestino: “Biladi, Biladi”, cantava a multidão embandeirada com as cores verde, branca, vermelho e preta, antes proibidas por Israel. Biladi é “nosso país, nossa terra”. E a canção continuava:

“Quero dar a você, biladi, todo meu amor e meus sentimentos”.

trombetas

O fundo era de tambores na cidade que Josué derrubou com trombetas de chifre de carneiro. Jericó, “Perfumado”, a mais antiga do mundo, Cidade das Palmeiras na bíblia hebraica, festejou a miragem de ser a primeira oficialmente de um futuro estado Palestino, com um dia de carnaval. Caminhões abriam espaço numa multidão delirante como se fossem trios elétricos baianos. Bandas juvenis marchavam. Recebia-se a imprensa, na entrada da praça principal, com a saudação:

“Bem-vindo ao meu país”.

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A população de Jericó ficou tão feliz com a perspectiva de paz que já arranjou nada menos que cinco casas oficiais para “o presidente Yasser Arafat”. Alguns mais emocionados no conseguiram manter-se parados, mesmo dançando, e subiram e desceram com seus carros enfeitados de bandeiras e retratos de Arafat a estrada de Jerusalém. Uma façanha: ela sobe de 250 metros abaixo do nível do mar para 820 metros acima em apenas 20 minutos. Vai-se do lugar mais baixo do mundo para a maior altitude espiritual da Terra Santa, do sufoco de um oásis para o frescor do Monte das Oliveiras. Não encontraram obstáculos pelo caminho. E buzinaram muito em Jerusalém. A polícia os olhou à distância. No final do dia, israelenses contagiados içaram também suas bandeiras na cidade. E a paz de Washington se refletiu pela primeira vez realmente entre israelenses e palestinos.

 

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Rosa de Jericó

Uma bandeira palestina já tremulava em Jerusalém desde o começo da tarde, na casa do negociador Faissal Husseini, a Oriental House. Depois foi aparecendo nos carros, e no final do dia já fazia parte do cenário. Os retratos de Arafat também se multiplicaram. Mesmo o inacreditável podia ser ontem fotografado: soldados israelenses posando diante de bandeiras palestinas. Não houve choques. A polícia até desviou o trânsito para dar passagem a uma passeata iniciada diante da Porta de Damasco, na velha Jerusalém. E de cima de um prédio em Jericó outros soldados fotografavam a alegria da multidão dançando na praça.

Nem um mero rádio de pilha foi produzido para que o povo acompanhasse o aperto de mãos entre Rabin e Arafat, transmitido ao vivo pela TV israelense. Às 5 horas em ponto, um orador subiu num palanque, e puxou o “Biladi, Biladi”. A assinatura dos primeiros acordos só ocorreu 45 minutos depois, mas ali ninguém ficou sabendo. “Todos meus sonhos estão aqui”, disse Amim Shooman.

O orador incendiava a festa com notícias quentes. Ele gritou, por exemplo, que “o presidente Arafat” ia pedir ao primeiro-ministro Rabin, na Casa Branca, a libertação de todos os prisioneiros palestinos. Depois, ele prometeu uma mensagem do próprio Arafat para dentro de uma hora. O termômetro subiu mais no oásis. Algumas vezes ele gritou anúncios tipo: “Gaza está com Arafat”. Ou “toda a Cisjordânia festeja”.

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Jericó (foto: http://www.taringa.net)

O estudante Ihab Dawich, com 18Eanos, nunca viveu em Jericó sob o domínio de um país árabe, só israelense. “Estou muito feliz”, ele contou. Uma criança, pelo microfone, lembrou aos outros jovens da festa como Israel ocupou a Cisjordânia em 1967, durante a Guerra dos Seis Dias. Não havia animosidade contra Israel.

Ao ser sobrevoada por um helicóptero israelense, com fotógrafos, a multidão mostrou o V da vitória e levantou bandeiras. Só não precisava nevar. Mas os militantes do Fatah, o movimento de Arafat dentro da OLP, acharam que alguma neve faria bonito. Do alto de um prédio foram despejadas gotas de sabão que lambuzaram lentes de televisão e cabelos dos repórteres, levadas para o lado por um ventilador, e não para baixo. Em Campinas e Foz do Iguaçu, cidades irmãs de Jericó, não houve comemorações.