No meio do caminho tinha Petra

2013-06-22 09.04.26pedra

Memória esculpida em pedra rosa-vermelha, Petra assombra. É o testemunho petrificado de um povo que perambula pelo deserto da Terra Santa há mais de 2 mil anos.

populac3a7c3a3o-de-beduinos-do-desertoEl Badwi — estepe, começo e beduíno em árabe, esse povo “tem o ar, os ventos, o sol, a luz, os espaços abertos e um imenso vazio” – como dizia o arqueólogo, militar, espião e escritor inglês Thomas Edward Lawrence (1888-1935), o lendário Lawrence da Arábia do livro Os Sete Pilares da Sabedoria.

Os nabateus, primeiros beduínos, vagavam em caravanas das dunas do sul da Arábia até o Mediterrâneo, no século IV a.C., respeitando os mandamentos expostos ao profeta bíblico Jeremias (35:7): “Não edificareis casa, não fareis sementeiras, não plantareis nem possuireis vinha alguma; mas habitareis em tendas todos os vossos dias, para que vivais muitos dias sobre a terra, em que viveis peregrinando”.

Não passavam de 10 mil, os nabateus; porém, “superavam em riqueza a outros árabes”, conta Diodorus Siculus, historiador da era do imperador Augusto. Descendiam de Nabayot, filho maior de Ismael e neto de Abraão. Em Petra (do grego petros, pedra), ou Batra (pedra, em árabe), encontraram água, ainda na fonte que o patriarca Moisés fez brotar de um pedregulho, ao cruzar o deserto conduzindo os judeus da escravidão no Egito à liberdade em Canaã, a Terra Prometida.nabateus

Labirinto de penhascos estratégico na rota das caravanas de especiarias (ouro, prata, mirra, púrpura fenícia, madeira e seda) que unia a Síria ao Mar Vermelho, e a Índia ao Oriente Médio, Petra tinha também a vantagem de ser uma fortaleza natural imbatível, blindada contra invasores. Com água e segurança, os nabateus foram abandonando a vida nômade. Fundaram um império: no século 1 a.C., sob o reinado de Aretas III, a Arábia Pétrea já se estendia de Damasco à Salah, na Arábia Saudita, com 30 mil habitantes.

Petra ficou conhecida como “Rainha do Deserto”, um reino que abrange a fortaleza de Massada, onde 967 judeus preferiram o suicídio à rendição aos romanos em 70 a.C., e as grutas de Qumram, local em que os essênios guardavam os recentemente descobertos Pergaminhos do Mar Morto – duas maravilhas no mesmo cenário lunar do deserto bíblico de Edom. A cidade teve poder, glória e independência até o ano 106, quando o Império Romano a anexou, sob o governo de Trajano (98 a 117). Posta de fora da rota das caravanas dos “navios do deserto”, os camelos, caiu no esquecimento. Um longo esquecimento.

2013-06-22 08.37.52Do esplendor de Petra restam hoje um trecho de rua pavimentada, uma porta monumental, um teatro romano para quatro mil pessoas, uma colunata, um mercado e mais de 750 tumbas, incluindo a de al-Deir, a melhor conservada, talvez a do último rei nabateu, Rabel II, com 45 metros de largura por 42 de altura. A cor dominante tem matizes vermelhos, marrom, amarelo e violeta. As pedras parecem estar pegando fogo com o passado. A rocha dentro dos mausoléus, formatada pela erosão da água e do vento, mostra os efeitos de um caleidoscópio.

“Quem me conduzirá à cidade fortificada? Quem me guiará até Edom?” (Salmos 60:9)

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A estrada para Petra, a 70 quilômetros ao Sul do Mar Morto, vai serpenteando um árido planalto até descer a um pequeno vale. De repente, numa curva da “siq”, uma estreita garganta de um quilômetro que se aprofunda até a 100 metros, surgem, magníficas, talhadas na rocha, as colunas de Khazneh Firaoun — o Tesouro do Faraó. Os beduínos ainda hoje as fazem de tiro ao alvo, já muito perfuradas, pretendendo que o ouro que contenham escorra pelos buracos, segundo uma lenda. Mas enquanto esperam, alugam camelos ou charretes para os turistas que não conseguem caminhar de volta a pé, sob sol abrasador. Uma branca mesquita marca o local em que foi enterrado Aaron, o irmão de Moisés.

Só uma pequena parte de Petra emergiu em décadas de escavações. Não há pressa. Arqueólogos querem antes conter a erosão que ameaça monumentos desenterrados. Um plano implicaria no restauro do sistema de canais de irrigação dos nabateus, visíveis pelo caminho até o Tesouro do Faraó. Aproveitando até a última gota de água, acumulada em reservatórios, eles plantavam jardins e alimentavam fontes. A paisagem era diferente, e a terra, melhor, não essa aridez atual. Florescia mesmo um bosque de carvalhos. Uma igreja bizantina com mosaicos do século V brotou ultimamente em pesquisas de um grupo americano. Também foi exumada uma mulher com 180 moedas, provavelmente soterrada durante um terremoto no ano de 363.

2013-06-22 08.53.50Amonitas, amorreus, moabitas e edomitas também deixaram rastro bíblico nos reinos de Edom, Gilead e Moab, a moderna Jordânia, conquistada pelos egípcios, assírios, babilônios, persas e romanos. Os árabes só chegariam entre 633 e 636, com o islamismo. Cristãos cruzados assumiram o poder na Idade Média. Otomanos governaram de 1517 até 1918, o fim da primeira guerra mundial. Os ingleses mandatários designaram as terras a oeste do rio Jordão como Palestina, e à leste, Transjordânia, então entregues à administração do príncipe Abdullah ibn Hussein, filho do governante hashemita de Meca e irmão de Faiçal, destronado da Síria pela França. Ele se coroou rei ao proclamar a independência em 1946 — e foi assassinado em 1951, em Jerusalém. Em dois anos, outro estado independente se formaria ao lado da Jordânia: Israel.

Petra renasceu em 1812, redescoberta pelo suíço Johann Ludwig Burckhardt (1784-1817), que aprendeu árabe, treinou longas caminhadas e se disfarçou de sheik, sob o pseudônimo de Ibrahim Ben Abdalla, desconfiado de que não iria fundo no deserto se parecesse viajante ocidental. Levava uma cabra para sacrificar na tumba de Aaron. Um dia, ele dobrou a curva da “siq”, e ali estava Petra. Seguiram-se outros viajantes. E novas expedições científicas.

2013-06-22 09.57.27Hoje os turistas desembarcam em Aman, a 262 quilômetros ao Norte, a ex-Rabbath-Ammon bíblica e ex-Philadelphia greco-romano, “cidade branca” de um milhão de habitantes com as ruínas do templo de Hércules, a capital do reino hashemita, onde a família Hussein bin Talal reina há mais de 50 anos. Visitam Jerash, a “Pompeia do Oriente”, a mais bem preservada das dez cidades romanas do século I a.C. que formam uma confederação, Decápolis, povoada desde a Idade do Bronze, há 5 mil anos. Das ruínas de Umm Qais, a antiga Gadara, avistam-se todo o vale do rio Jordão, o Mar da Galileia e as colinas do Golã, com os picos nevados do Monte Hermon. O mapa da Palestina e da Terra Santa no século VI é “a” preciosidade da “Cidade dos Mosaicos”, Madaba, ao lado do Monte Nebo, onde o profeta Moisés teria morrido e sido enterrado.

Petra foi para a tela de cinema com “Indiana Jones e a Última Cruzada”; foi transformada em miragem por Hollywood. É um pedregulho que foi sendo esculpido pelos nabateus e pelo tempo. Nas ruas de areia e pedra, há muitas pedras para escalar ou soltas pelo meio do caminho.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra.

(Carlos Drummond de Andrade)

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O mundo se lembra de Lawrence da Arábia libertando árabes, montado num camelo. Lawrence Thomas Edward da Arábia morreu montado numa motocicleta, em Dorset, na Inglaterra, em maio de 1935.

Os dois eram um só: o aventureiro britânico, militar e escritor, que nasceu em 1888, ano da Lei Áurea no Brasil, e que em 1910, com 22 anos, já havia se formado pela Universidade de Oxford e estava embarcando numa expedição arqueológica do Museu Britânico à cidade hitita de Carchemish, hoje Karkamis, na Turquia. Que aprendeu árabe no deserto do Sinai. Que trabalhou para o Serviço de Inteligência Militar da Inglaterra no Cairo ao eclodir a primeira Guerra Mundial, em 1914. Que foi enviado para o Hejaz, a moderna Arábia Saudita, com um grupo de socorro ao príncipe Faiçal, que se tornaria rei do Iraque.

Lawrence lutou entre os árabes na rebelião contra o governo turco. Era um conselheiro militar. Unificou as forças armadas árabes para conduzi-las à vitória contra os turcos. Em 1918, com Faiçal, entrou em triunfo em Damasco, à frente do exército britânico. Foi participar da Conferência de Paz de Paris, em 1919, mas voltou sem a independência. De 1921 a 22 ficou na divisão de Oriente Médio do governo inglês, em Londres. Mas por pouco tempo, porque decidiu renunciar para se alistar na Royal Air Force, sob o pseudônimo de J. H. Ross. Não queria aparecer, porque já era muito popular. Em 1923, ele passou para a divisão blindada. Em 1925, retornou à força aérea de “Her Majesty” por dez anos.

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No último dia do décimo ano, em 1935, Lawrence foi dar uma volta sem sua motocicleta em Dorset. Apareceram dois ciclistas à frente. Desviou, mas a manobra o derrubou e ele bateu com o crânio no chão. Seis dias depois, sem ter recobrado a consciência, foi enterrado. O neurologista que cuidou dele começou então uma campanha para que todos os motociclistas passassem a usar capacetes.

Lawrence deixou uma obra escrita. Um dos livros, Sete Pilares da Sabedoria, de 1926, é uma coletânea de suas aventuras no mundo árabe. Outro é uma condensação, Revolta no Deserto, lançado um ano depois. Como personagem de filme, deu a sir David Lean, diretor de cinema inglês, um segundo Oscar em Hollywood.

Niède Guidon

Niède Guidon, Serra da Capivara, Piauí (foto www.saoraimundo.com)

Niède Guidon, Serra da Capivara, Piauí (foto http://www.saoraimundo.com)

A dama das cavernas na caatinga do Piauí, Niède Guidon, arqueóloga paulista, desenterrou um Brasil de 70 mil anos que está revolucionando a pré-história das Américas. Mas agora ela só quer encontrar certo homo sapiens sapiens de apenas 238 anos, Wolfgang Amadeus Mozart, e não consegue descobrir nenhum rastro dele em São Raimundo Nonato, a 435 km ao Sul de Teresina.

  “Estou doente de não poder ouvir a Flauta Mágica” (de Mozart) – lamenta Guidon: “Chega a doer…” Perfumes ela tem: usa Diorissimo, até nas cavernas. Há vinho francês na adega. Lá fora a caatinga virou um jardim, tanto que choveu aplacando uma das maiores secas do sáculo: “É uma beleza que não se esgota” – maravilha-se. A seus pés brincam os três inseparáveis cachorrinhos Schnauzer, alemães. Ela vive um momento de glória: seu trabalho de 23 anos está conquistando o reconhecimento científico mundial e até o interesse do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em Washington.

  Só falta ópera, e nem mesmo o homo sapiens vivo a substitui. “De vez em quando a gente fica sozinha na vida, não é? Depois, já cheguei a uma idade em que essas coisas…” Guidon, 61 anos e solteira, ou “sábia” que pretende “permanecer sábia até a morte”, vai agora introduzir um sistema de vídeo com telão aonde muitos descendentes dos primeiros brasileiros estão só agora descobrindo a TV

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(divulgapiaui.com.br)

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O (próprio) passado não é importante para a arqueóloga que recuou o tempo dos primeiros homens na américa de 20 para 70 mil anos. Ela resiste em escavá-lo. Mas faz um “Resumo da ópera” pessoal: a paulista de Jaú formou-se em História Natural na USP, foi professora em escolas de pequenas cidades de interior, a mãe morreu quando tinha seis anos e o pai está com 90 anos, aposentado como fiscal de rendas do estado. Mais uma escavada, e revela:

  “Tive um problema. Éramos três professoras morando sozinhas. Também dirigíamos carro. E não íamos a missa aos domingos. Eu ainda tinha que falar de evolução em algumas aulas. Alunos perguntavam: mas, e Adão e Eva? Aí denunciaram que estávamos ensinando filosofia ateia e pregando amor livre. A Secretaria da Educação abriu um inquérito. Fomos absolvidas de qualquer erro, mas condenadas a partir por falta de clima para permanecer. Então nos comissionaram no Museu do Ipiranga, com vaga, na época, apenas no departamento de arqueologia”.

  Outra cavucada, e Guidon acrescenta: “Aí me perguntei o que era arqueologia. E descobri que não sabia a resposta. Fui ao diretor do museu para dizer que não poderia trabalhar, a menos que aprendesse. Só existiam cursos nos Estados Unidos, na Inglaterra ou na França”. Ela apostou na terra do avô, francês. E ganhou uma bolsa para a Sorbonne. Viveu Paris de 1961 a 62. E o Brasil do golpe militar de 1964, quando de novo a denunciaram, como subversiva. “Tinha ideias socialistas. Mas não fui uma socialista de carteirinha. E nem fiz política estudantil”. Mesmo assim a demitiram. Ela então voltou a ser professora e estreou no comércio até que uma tia relacionada aos militares aconselhou: “Suma”. E ela sumiu mesmo. Continua “sumida”, o lado franco mais pesado que o brasileiro, professora na Escola de altos Estudos em Ciências Sociais, com intervalos em que se transforma na dama das cavernas da Serra da Capivara, no sertão do Piauí, sob o patrocínio oficial da França e apoio da Itália.

  Madame Guidon não apagou em Paris a lembrança dos “bordados de pedra” que viu em 1963 nas fotos levadas ao Museu do Ipiranga pelo então (e atual) prefeito de São Raimundo Nonato, Gaspar Dias. “Era uma arte diferente de tudo aquilo que existia na literatura”, ela lembra. Tentou ver de perto, mas não passou de Petrolina, à beira do rio São Francisco, em Pernambuco, barrada por uma ponte caída. Conseguiu, sete anos depois, ao final de uma expedição franco-brasileira a tribos indígenas em Goiás: “Levamos uma semana rodando de jipe por um areão infernal”. Mas foi um vernissage pré-histórico. “Ah, vi que os desenhos eram de um gênero ainda desconhecido no Brasil. Catei cacos de cerâmica. E tirei fotos”. A França, interessada, logo liberou verbas para uma missão, em 1975, depois repetida em 1978. Hoje já são mais de 400 galerias, com um acervo de 25 mil cenas coloridas de sexo, dança, caça, animais, guerra, colheita e jogos, pintadas entre 17 e 12 mil anos, numa extraordinária paisagem esculpida pela erosão.

imagem015  O trabalho de desvendar a coleção de arte pré-histórica do Piauí foi passado há 13 anos a uma antropóloga francesa, Anne-Marie Pessis. Ela se adaptou à caatinga sem abandonar o perfume Rive Gauche. Alguns desenhos são de homens com pênis gigantes – “talvez símbolos de poder, como um cocar”. Já as mulheres têm a vagina representada fora do corpo, portátil. E há figuras sem sexo definido. As cenas variam do beijo ao sexo grupal. Nada por acaso: os primeiros artistas brasileiros dão aos especialistas a clara intenção de “registrar, marcar o cotidiano”. Guidon escreveu o livro Peintures Prehistoriques du Brèsil, publicado na França, em 1991, mas acabou se dedicando totalmente à chefia de uma pesquisa global, que incluiu zoólogos, geólogos e botânicos. O Brasil começou a coparticipar via Conselho Nacional de Pesquisas (antigo CNPq), o governo do Piauí, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), e os institutos de Desenvolvimento Florestal (IBDF) e o de Meio ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Um projeto de proteger os 130 mil hectares da Serra da Capivara com um Parque Nacional, anunciado em 1979, só nasceu depois de uma difícil gestação de nove anos, dando tempo a devastação de algumas áreas de caatinga virgem, primária, e a chegada dos grafiteiros. A ONU logo o batizou de Patrimônio da Humanidade.

  As comunidades vizinhas ao Parque Nacional entraram nos planos de Guidon. “Partimos do princípio de que preservação da natureza é um luxo que só existe quando se tem o suficiente para sobreviver. Quem está com fome vai caçar mesmo”. Ela se tornou “mãe” para 600 crianças: deu-lhes três escolas, três refeições por dia, chuveiro com água em plena seca, e postos de saúde. E um “pai” para os sertanejos sucessores dos índios Pimenteiras e Jaicós: ensinou-lhes a ler e escrever, a escavar e peneirar os tesouros arqueológicos sob seus pés, e os preparou para o turismo e a apicultura. Ê uma “cabra-macho”, dizem de madame Guidon, 1,5 metro de altura, porque ela pilota trator, escala íngremes paredões, sobreviveu ao ataque de abelhas que a furaram com 200 picadas, trabalha direto de 4 da madrugada às 10 da noite enfrentando pedreiros, posseiros, prefeitos e até preconceitos científicos ao desbravar a pré-história do continente americano.

(www.saoraimundo.com)

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  Um telefonema de Paris localizou Guidon em Teresina, num dia de 1981. “Temos duas datações de 25 mil anos”, ela ouviu diretamente do laboratório. E respondeu: “Não, vocês misturaram as amostras. Não pode ser: na américa do Sul não tem nada dessa idade. Impossível”. O chefe entrou na linha: “Por isso estou telefonando. Quero que amplie as escavações. O carvão que você nos mandou tem 25 mil anos”. A sondagem aprofundou oito metros. E cada metro representou um salto de 10 mil anos. “A datação mais antiga que já temos é de 48.700 anos”, ela conta. “E ainda há material mais abaixo que ultrapassa o limite de medição do Carbono-14. Estamos aplicando outras tecnologias. Mas podemos calcular que os primeiros homens chegaram há 70 mil anos na Pedra Furada”.

  Chovia muito no sertão há 22 mil anos. “Era uma imensa quantidade de água” – e Guidon aponta para um vale ressequido, acrescentando: “Ali corria um caudaloso rio”. Antes, há 70 milhões de anos, as ondas do mar vinham bater por aqui. Grandes animais rondavam até 10 mil anos atrás a Pedra Furada – esse buraco de 15 metros de diâmetro num paredão com mais de 60 metros de altura, o cartão postal da Serra da Capivara que os franco-sertanejos apelidaram de Arco do Triunfo. Manadas de mastodontes e de superlhamas dominavam a paisagem. Os bichos-preguiça chegavam a ter oito metros de altura. E dos tigres dente-de-sabre restou uma preciosa mandíbula que disputa com um pedaço de crânio fossilizado, a cerâmica de 8.960 anos e um machado de pedra polida de 9.200 anos, o lugar de honra no Museu do Homem Americano, recém-fundado em São Raimundo Nonato.

  Um exame de fezes fossilizadas (coprólitos) do homo sapiens sapiens abala a tese de que os descobridores pré-históricos da América vieram da Ásia por um tapete gelado formado no Estreito de Behring. Elementar, como explica Guidon: “detectou-se a presença do Ancilóstomo, o verme do amarelão. Ê um parasita de clima quente. Ele não resistiria ao frio do Polo Norte. Até hoje não o encontraram na Ásia nem nos Estados Unidos. E ele existe na África e no Mediterrâneo. A tribo que chegou ao Piauí veio por um caminho quente”. Mas ela não rejeita nenhuma hipótese, e acrescenta outras: viagens por mar, através das ilhas aleutas, ou pelo Atlântico. Falta-lhe uma ossada para uma conclusão científica. O esqueleto mais antigo desenterrado na Serra da Capivara tem dez mil anos. A acidez da areia de clima tropical úmido corroeu os mortos pré-históricos.

  A dama das cavernas vai logo voltar à rotina de madame em Paris. “Importante”, diz Guidon: “Este trabalho não é meu. Sozinha não o teria feito nunca. Agora chegou o momento de ir me retirando aos poucos”. Ela tem que reassumir em dezembro seu posto na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais. Precisa trabalhar: “Gasto o que ganho, porque o que a gente leva do mundo é o que viveu de bonito”. Para Cloet, Dachta e Mimo, os três cachorrinhos, já assegurou uma herança em dólares para que “vivam como sempre viveram”. Como antes, então, virá a São Raimundo Nonato só durante as férias, para continuar as escavações na Toca do Caldeirão do Rodrigues, iniciadas pelo arqueólogo italiano Fabio Parenti, 36 anos, autor de uma tese de doutoramento que formalizou para a comunidade científica as datações mais antigas da Serra da Capivara. Espera aterrissar num aeroporto já dentro da cidade, e não mais há 300 quilômetros, em Petrolina. Ela também quer encontrar um Parque Nacional funcionando como uma Disneylândia da pré-história. Está deixando pronto o projeto, com espetáculos de luz e som, grutas iluminadas por energia solar, hotel cinco estrelas, plataformas para mergulhos de asa-delta, cânions para escalar, anfiteatros naturais e guias formados. No antigo quartel da PM em que vive, ela começou a transferir a administração da Fundação Museu do Homem Americano (Fundham) para uma profissional contratada. E já escuta ao longe a Flauta Mágica.