A brasileira do terror

Deir Balut

Deir Balut

A brasileira Lamia Maruf saiu da aldeia de Deir Balut,

na Cisjordânia, dirigindo uma kombi alugada com cinco passageiros

— o seu marido, um cunhado com a esposa, e três rapazes de sua família.

Adiante na estrada, um soldado israelense pedia carona.

Foi atendido. Depois, assassinado. A seguir, enterrado numa caverna.

Um detalhe levou à prisão do grupo dois anos depois: Lamia tinha

alugado a kombi com seu passaporte. Ela e o marido pegaram prisão perpétua.

O Brasil pediu a libertação de Lamia, mais tarde concedida.

O marido, Tawfic  Abdallah, foi um dos 477 palestinos libertados em troca

de um soldado israelense sequestrado, Gilad Shalit. Ambos estão no Brasil.

Lamia Maruf

Lamia Maruf

Tel-Aviv, 24/04/1986 — Depois de brincar por 40 minutos com sua filha de 11 meses, no centro de detenção de mulheres de Kishon, perto de Haifa, a brasileira Lamia Maruf Hassan disse à vice-cônsul do Brasil em Israel, Debora Jaeger:

– Diga para todo mundo que sou forte… Que eu não choro, não.

Mas a Sra. Jaeger a viu chorar, em seguida: despedia-se de sua filha, Lubna Patrícia Abdallah, que o deputado Airton Soares (PMDB-SP) levou de volta para o Brasil. Lamia não esperava tê-la naquele sábado de manhã, dia 19, e nem sabe, agora, quando irá revê-la.

– Ficou olhando a filha, demoradamente, no momento da despedida. Assinou um documento para que ela pudesse partir de Israel. Disse-me que estava conformada, entendendo bem a situação. Aí chorou. Estávamos partindo, e ela chorava lembra a vice-cônsul, Debora Jaeger.

Lamia Maruf Hassan, 21 anos, foi presa na aldeia de Deir Balut, na Cisjordânia, no dia 13 de março, com seu marido, Taufik Ibrahim Mohammed, de 31 anos, e mais quatro rapazes e uma mulher, Zohara Said, mãe de três crianças.

O grupo preso, afiliado ao Al-Fatah, a facção majoritária liderada por Yasser Arafat dentro da OLP, “estaria” sendo acusado de rapto e assassinato de um sargento israelense, David Manos, desaparecido desde o dia 6 de novembro de 1984.

“Estaria”, pois nenhuma autoridade israelense quis se precipitar:

– Enquanto os suspeitos não são incriminados formalmente nada se pode falar sobre eles, segundo a lei em Israel, disseram várias fontes que acompanham de perto o caso. O pedido deste repórter para visitar Lamia foi negado oficialmente, e com alguma visível irritação.

Sargento David Manos

Sargento David Manos

Mas alguns fatos já se tornaram conhecidos, transpirando dos serviços de informação e revelados pela advogada de Lamia, uma dedicada e famosa defensora de quase todos os palestinos presos por Israel, Felicia Langer, do Partido Comunista Israelense.

Em 1981, Lamia Maruf Hassan veio visitar a aldeia de sua família, Deir Balut, na Cisjordânia, que Israel ocupa desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967, e a chama pelo nome bíblico de Samaria. Tinha acabado o curso secundário e vinha conhecer seu futuro marido, o primo Taufik. Os dois namoraram até que ela voltou ao Brasil, para continuar o curso colegial, e ele foi lecionar na Líbia,

Casaram-se três anos depois, em 1984. Foram viver numa modesta casa sem água nem luz, em Deir Balut. Lamia falava ainda um árabe rudimentar e era vista, sempre, com um gravador, escutando música brasileira. Chamava a atenção, por ser muito bonita. Um conhecido, palestino, sabendo-a presa, agora, declararia ao jornal israelense Yedioth Aharonot, em 26 de março:

– Quem poderia imaginar que uma moça tão linda assim virasse terrorista?

Lamia logo trocaria o jeans pela galabyia, a túnica das mulheres árabes, e um lenço na cabeça. Estaria grávida de três meses quando assumiu a direção de uma Kombi alugada com seu marido, o cunhado Tachsin e a esposa, Najach, e mais três rapazes de sua família. Ao deparar com um soldado de Israel pedindo carona na estrada, estacionou.

O soldado, sargento post-mortem David Manos, nunca mais reapareceu, depois desse dia, 6/11/1984. Quando as buscas foram encerradas, e seus pais quiseram que elas prosseguissem, com esperanças, o então chefe do Estado Maior do Exército, general Rafael Eitan, sugeriu que talvez Manos estivesse envolvido com drogas, vivendo no submundo da máfia israelense.

Quase um ano depois, e por acaso, a polícia foi descobrir o corpo do sargento David Manos, conduzida pelo grupo a que Lamia pertencia, delatado por um rapaz da própria aldeia Deir Balut, detido para interrogatório no caso de um “crime menor”, e pode então reconstituir o que acontecera com o sargento depois que ele entrou na Kombi da família Abdallah. Pelo que consta, embora sem confirmação de fonte oficial, ele teria sido dominado, levado a um local onde foi assassinado, por estrangulamento, e depois transportado para uma caverna, onde o enterraram. (Outra versão é a de que ele fora levado diretamente para a caverna, amarrado, e depois mantido preso por alguns dias, até ser assassinado).

– Só dirigi o carro, admitiu a própria Lamia. Ela se defendeu:

Não matou nem sabia que alguém queria matar o sargento. Como a irlandesa que, dias atrás, carregou uma mala com explosivos pelo aeroporto de Londres, sem o saber, para embarcar num voo da israelense El-Al.

Ela contou que dirigiu o carro durante uma conversa com a vice-cônsul do Brasil, Debora Jaeger, sem qualquer tipo de pressão. E o repetiu diante da corte militar de Nablus, como o confirma sua própria advogada de defesa, Felicia Langer, que, como as autoridades israelenses, acrescenta: “Mas não posso lhe dar mais detalhes”.

Numa entrevista ao jornal Hadashot, um novo vespertino israelense, o deputado Airton Soares diria: “Se Lamia estiver envolvida no assassinato do soldado David Manos, é somente por influencia da OLP”. E diria mais, ainda: “A detida contou ao secretário do consulado, com quem se encontrou esta semana, que os investigadores tentaram forçá-la, sob ameaças, a confessar que é membro da OLP”. E concluiu, segundo publicaram os repórteres Nadav Haetzni e Ruth Kerny: “Mesmo na época da ditadura no Brasil realizavam-se julgamentos públicos. Aqui, não”.

O deputado Airton Soares veio a Israel para participar do processo que envolve Lamia, como observador, e também para orientar a advogada Felicia Langer. Conseguiu vir (depois de declarar que Israel talvez não lhe concedesse visto, do qual nem precisou, como qualquer outro brasileiro), deixaram-no encontrá-la (depois que ameaçou levar um pedido até o primeiro-ministro Shimon Peres), falou à imprensa israelense sobra a “ditadura” em Israel, e viajou de volta para o Brasil com a filha de Lamia. O irmão Taissir, que veio com ele, teve menos sorte: esperou diante da corte de Nablus uma autorização para vê-la que não lhe foi dada. Lá dentro, sua irmã estava tendo sua prisão preventiva prolongada por mais 35 dias. Não podia ver sequer a própria filha.

Sua advogada Felícia Langer, por um mal entendido, chegaria só meia hora depois. Mas teve acesso ao protocolo da sessão;

– Em qualquer país é assim — justificou um funcionário israelense. – Vá tentar ver ou entrevistar algum terrorista detido em prisão europeia… Depois que for julgado, talvez. Mas, durante o inquérito, nunca. Afinal, Lamia é suspeita de assassinato político… Ela dirigiu um carro em que houve luta e que transportou um corpo. Tem que ser julgada.

Lamia não se queixa mais das condições atuais em que está detida. O momento pior foi quando esteve completamente incomunicável. Chegou a ser ameaçada por uma prisioneira judia em vingança pelo assassinato do sargento David Manos. É o que conta a advogada Felicia Langer, que pode vê-la regularmente, agora, no presídio perto de Haifa.

– Posso ir vê-la quando quiser também – diz a vice-cônsul do Brasil, Débora Jaeger. No último encontro, sábado passado, ela levou de surpresa a sua filha, para uma despedida:

– Ela me disse que tudo o que fez foi por amor ao marido.

“Eu amo ele”, repetia. “Vou esperar por ele”, prometeu. Então, eu lhe perguntei: você faria tudo de novo? “Por amor, faço”, ela respondeu, e me perguntou: “Você sabe o que é o amor? Sabe?

445658 O governo brasileiro quer Lamia livre

Jerusalém – A brasileira Lamia Maruf Hassan achava que ia se livrar da prisão perpétua a pedido do chanceler Luís Felipe Lampreia, o primeiro ministro do Brasil a visitar Israel em 22 anos, nesta semana, num degelo das relações entre os dois países. “Agora ela chora, deprimida” – contou quem esteve com ela, sob a condição de não ser identificado.

Lamia, 30 anos, acusada pelo exército de Israel de ter sequestrado, enforcado e esquartejado o soldado israelense David Manos, junto com o marido palestino Taufic Ibrahim Mohammed, também prisioneiro perpétuo, sustenta ainda hoje, oito anos depois de julgada por um Tribunal Militar, que só participou indiretamente do crime, executado em nome da OLP, hoje negociando em paz a expansão de um regime autônomo na Cisjordânia e Gaza.

“Estava em casa, na cozinha, quando o soldado foi morto” – ela disse ao visitante. “Isso nunca foi questionado”. Promovido a sargento ao morrer, o soldado Manos ficou alguns dias refém da OLP antes de ser executado. Mais de um ano depois, sem pistas, sem corpo, a polícia já afastava a suspeita de atentado contra ele, especulando se não teria sumido com um amigo que vivia na clandestinidade do crime organizado. Mas então um delator da aldeia de Deir Ballut entregou o casal Hassan, a cunhada Zahara e Mustaf Mahmud. Os quatro levaram policiais a uma caverna onde foi desenterrado um esqueleto. Era Manos, confirmou-se. Ao grupo também se acrescentaram duas bombas que não explodiram, plantadas num cinema e num hospital.

Lamia estava grávida de três meses quando dirigia a Kombi em que Manos pegou carona para a morte. A filha Lubna Patricia Abdalla pôde nascer no Brasil, onde hoje, com 9 anos, vive com avós e tios. Uma vez por ano visita a mãe, no presídio de Hasharon, perto de Tel-Aviv. A Embaixada do Brasil pode vê-la a cada duas semanas. Manda-lhe jornais, revistas e livros em português. A imprensa é rechaçada. Autoridades israelenses não entendem por que “tanto interesse nela”, uma “terrorista com as mãos manchadas de sangue”. O chanceler Shimon Peres procurou retira-la do meio das novas relações entre Brasília e Jerusalém, repetindo que ela “violou a lei”, garantindo que “está sendo bem tratada” e prometendo que “poderá sempre receber visitas”. Alguns empresários brasileiros acompanhando o chanceler Lampreia, equipararam-na aos canadenses que sequestraram o empresário Abílio Diniz. “A gente até fica ofendido quando nos pressionam para liberta-los”, lembrou um deles.

Há dois meses, Lamia aderiu à greve de fome dos prisioneiros árabes em Israel. A Embaixada do Brasil tentou passar a visita quinzenal para semanal, sem conseguir. O jejum durou 18 dias. Foi interrompido, então, porque a liderança palestina na prisão ficou satisfeita com a promessa de libertação das prisioneiras, num gesto de boa vontade israelense ao progresso nas negociações com a Autoridade Palestina. Uma lista está nas mãos de negociadores palestinos e israelenses, mas dela não constariam, em princípio, as que são acusadas de “crime de sangue”. A única esperança para Lamia, como sugeriu o ministro da Justiça de Israel, David Libai, ao chanceler Lampreia, “È um gesto político”. Mas ele próprio disse que nada tem a fazer: o processo está na alçada da justiça militar.

“Lamia queria sair da prisão perpétua como brasileira, não pelas ligações com a OLP” – contou a quem a visita. Vive agora numa cela sozinha, por ser a mais antiga. Aprendeu hebraico e inglês, já sabia o árabe e mantêm fluente o português. “Está muito bonita, os cabelos compridos”, lembrou o visitante, a quem deu de presente uma almofada que bordou. Outro presente que fez antes, para outra pessoa, foi uma miniatura da mesquita de Omar, sobre o Monte do Templo, em Jerusalém. Quando sabe que será visitada, “prepara-se: quer parecer bem”. A impressão que deixa “é a de ser muito forte e que procura pensar positivamente”.

Na cela de Lamia há uma TV, um aparelho de som e “tratamento com dignidade: ela nunca foi maltratada”. Numa oportunidade em que teve a chance de pedir algo, optou por um aquecedor, que usa durante o inverno. Antes vestia-se de azul ou preto, as cores do presídio, mas agora pode se vestir à vontade. Ela costura o próprio vestido, borda toalhas e almofadas. Outras presidiárias a procuram para compartilhar os problemas. Ela lhes faz um resumo do que leu – “e lê um livro atrás do outro”. São “aulas”, como contou ao visitante, que convida: “Quem quiser lhe escrever uma carta, só endereça-la ao Presídio Hasharon, em Israel, e ela a receberá”.

Mister da Silva

Dos brasileiros que conheci na minha

temporada em Israel, Mr. da Silva

foi o único do qual me despedi posto num caixão,

seu corpo despachado para enterro no Brasil.

Ele trabalhava em Jerusalém como

porta-voz da ONU, na Colina do Mau Conselho, onde comprava sem impostos as cervejas e uísques que repartia com os amigos.

Pena: não guardei fotos dele, mas é possível

que ainda as encontre, e então as colocarei aqui.

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Foto: Haaretz.

A ONU, na Colina do Mau Conselho. Foto Haaretz

O porta-voz das forças de paz no Oriente Médio, mister Da Silva, é, sim, brasileiro. No Brasil ele era só uma voz, porém famosa, a primeira que se ouviu transmitindo, direto de Belém, via Aman/Cairo/Londres/NY/Rio, a Missa do Galo do ano da Guerra do Suez, em 1956.

Fernando Jaques foi um popular repórter da Rádio Nacional. Agora, mister da Silva, 62 anos, convocado de sua sala no palácio inglês da Colina do Mau Conselho, em Jerusalém, pelos jornais do mundo todo, é o homem de ligação e informação da ONU na área considerada a mais delicada e a mais explosiva do mundo: o Oriente Médio.

Algumas vezes o tratam como se fosse um francês, o nome grafado assim, nos jornais: monsieur Jacques de Sylva. Como porta-voz da ONU sua missão é viajar pelo mundo. Na bagagem, vai sempre um violão. Levou-o para Karachi, no Paquistão em guerra com a Índia, ao final de 1965 e até 68. Depois, para a Birmânia, que não se dava bem com o secretário-geral e seu chefe, o birmanês U Than, e dali para Lima, no Peru. Afinal chegou ao Oriente Médio, com QG em Jerusalém, e sua jurisdição inclui Beirute/Cairo/Damasco e Aman. Gosta de cantar. E conhece até músicas recentes de Chico Buarque, Caetano Veloso, Elis Regina, Fafá de Belém, as suas preferidas.

Seu carro branco, placa número 5, está ligado permanentemente com a ONU. E em Jerusalém, passeando, pode receber a ordem repentina de se apresentar na sala do comando, onde está o general Enzio Siilasvuo, e então partir para o Sul do Líbano, ou Nova York. Ele nunca sabe. Por isso, deixa sempre uma pequena mala pronta. E o violão.

Mister da Silva já é avô, e sua esposa, atualmente, mora no Rio. Quando veio para Israel, por seis meses, há três anos, já pensava em voltar a trabalhar em rádio, não mais como entrevistado, mas entrevistando, e em português.

Quem o tirou do jornal A Batalha, onde começou como repórter em 1935, e o colocou diante de um microfone, porque gostou de sua voz, foi Galeano Neto. E quem a educou, depois, foram Luís Mendes e Heron Domingues, com quem esteve no Egito para entrevistar o presidente Nasser. Os jogos olímpicos de 1948, os primeiros depois da 2ª Guerra Mundial, em Londres, chegaram com a sua voz, na Av. Rio Branco para a grande torcida que se emocionava com as vitórias da seleção brasileira de basquete. Ficou na Rádio Nacional até se tornar o diretor de sua TV, que inaugurou, em Brasília. Então, a ONU o escutou e o convidou para gravar seus programas em português para o Brasil, Portugal e África, a partir de 1962.

Hoje mister da Silva sai do encontro com Yasser Arafat, o líder da OLP, numa casa de um subúrbio de Beirute, e entra na sala do general Dayan, em Jerusalém. Depois, vai para seu apartamento e toca violão. Se o telefone permitir.

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O “erro” fulminante

O general Enzio Siilasvuo, chefe do Estado-Maior das Forças de Paz das Nações Unidas no Oriente Médio, admitiu que “foi um erro”, o comunicado divulgado por seu porta-voz, o brasileiro Fernando Jaques da Silva, na última segunda-feira, sobre incidentes que ocorriam no Sul do Líbano.

O porta-voz Fernando Jaques da Silva, depois de divulgar o comunicado, sabendo que ia “provocar muito barulho”, como o comentou a mim e também a uma cadeia norte americana de televisão, sofreu um ataque cardíaco fulminante, e seu corpo chega as hoje ao Rio de Janeiro, de Paris, pela Air France, para que sua família o enterre.

O general Enzio Siilasvuo disse mais ainda, durante a transmissão de posse entre o antigo oficial de ligação do exército israelense com a ONU, coronel Simon Levinsohn, amigo de Fernando Jaques da Silva, e o coronel Aharon Levran, seu substituto: “Este comunicado jamais deveria existir”.

O comunicado denunciava a presença de militares israelenses durante uma manifestação de cristãos do sul do Líbano diante do posto de Nakura, na fronteira com Israel. Na confusão criada, dois oficiais libaneses muçulmanos, vindos de Beirute, foram raptados, depois libertados, e um helicóptero destruído, o mesmo que os trouxera até ali. “Espero”, concluiu o general Siilasvuo, “que este incidente seja esquecido nos próximos dias. Não vemos a necessidade de publicar um novo texto, invalidando o anterior”.

O comunicado divulgado na noite de segunda-feira passada pelo Quartel-General da ONU, em Jerusalém, era do conhecimento do general Siilavuo. Antes de divulgá-lo oficialmente, Fernando antecipou: “Alguém vai cair na ONU…” — e contou por que: recebidas as informações de Nakura, através de um porta-voz da Unifil, as forças de emergência no sul do Líbano, ele as levou para o general Siilasvuo, que apenas recomendou, por prudência, que o texto final fosse antes passado para o vice-secretário geral das Nações Unidas, Brian Urquhart, em Nova York”.

O texto final foi então entregue a um general da Unifil, encarregado de contatar Brian nos EUA. Mas a consulta levou tão pouco tempo, 20 minutos, que gerou a suspeita de que “sequer teria sido feita”. E a informação de que “NY esta de acordo” veio acompanhada de uma ordem: “divulgue-se”.

A ONU, o exército israelense, o ministério de Relações Exteriores, a embaixada brasileira e alguns amigos, diplomatas e jornalistas, levaram o corpo de Fernando Jaques da Silva até o aeroporto Ben Gurion, em Tel-Aviv, de onde partiu para o enterro no Brasil. Enquanto uma bandeira das Nações Unidas era enrolada sobre o caixão, o padre Francolino Gonçalves fez uma pequena oração em português.

Gilberto Gil “brazilai”

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Hebraico para brasileiro, Brazilai é

uma série de artigos sobre brasileiros em Israel.

São cantores, prisioneiro de guerra,

porta-voz da ONU, agenciadora de bebês para adoção,

políticos em visita e até uma mulher que se uniu a um grupo

terrorista para matar um soldado israelense.

A série começa aqui com Gilberto Gil.

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Tel-Aviv, 2/8/1982 — Quem diria que num pequeno país em guerra, Israel, onde cada habitante tem pelo menos um parente ou um amigo na linha de frente dos combates, 150 mil pessoas se reuniriam para ouvir e dançar musica brasileira?

Pergunte-se a Gilberto Gil.

-Incrível, né? – ele comentou, surpreso, ao partir de Israel para Londres. Sua empresaria israelense, a uruguaia Lilian Schutz, a mesma que trouxe Gal Costa pouco tempo atrás, antes da guerra eclodir no Líbano, assegura que “Gil chorava ao caminhar para o avião”.

Pergunte-se também ao Repolho, um dos bateristas que veio com a banda de Gil, considerado “sensacional” pelos críticos de música de Israel, e ele responderá:

-Pô, meu…

Gil deu três concertos pagos, os teatros de Cesárea, Jerusalém e Tel-Aviv completamente lotados, mais um livre, na concha acústica de um grande parque em que se apresentou Zubin Mehta. Fora os espetáculos, ele deu longas entrevistas ao vivo às rádios e uma pela televisão.

Nos10 dias em que passou em Israel, que define como “um país tropical”, ele tratou de ensinar a mitologia brasileira, e palavras estranhas como candomblé, macumba, Oxalá, Yemanjá, Xangô e Oxossi acabaram se tornando populares.

O primeiro show de Gil foi no teatro construído por Heródoto, em Cesárea, há 2200 anos. A audiência era majoritariamente brasileira, saudosa, gritando os nomes das canções que queria ouvir. Um grupo exibia uma faixa: “Curitiba o saúda”.

Tão logo Gil apareceu, com a camiseta amarela da seleção brasileira, houve a primeira tentativa de invasão do palco. Muito à vontade, em inglês fluente, ele falou ao público sobre os problemas de segurança no mundo, deixando implícitas suas criticas à guerra de Israel no Líbano, e prometendo “um carnaval para o fim do espetáculo”. Mesmo assim, ocorreriam algumas cenas de violência, a policia reprimindo duramente os impacientes que já queriam dançar.

Flora, a mulher de Gil, misturou-se ao público, dançando, e muitas vezes Lilian Schutz, a empresaria, teve que avisar à policia:

– Calma, ela é a mulher do cantor…

O show livre de Gil, patrocinado pela prefeitura de Tel-Aviv e por um banco israelense, só seria anunciado após encerrados os espetáculos pagos. Depois de Cesárea, Gil contataria, então, o público israelense, em Jerusalém. Ele repetiria, porém, a mesma recepção dada pelos brasileiros que vivem em Israel, tentando dançar apesar da polícia, muito rigorosa.

Quando chegou ao terceiro show pago, Gil já se sentia á vontade para dizer ao público: “vou cantar uma música de sucesso na rádio israelense…”

E ouvia um coro repetindo: “sarara, sarara…”

A camisa da seleção brasileira já tinha desaparecido. Agora, os músicos apareciam com camisetas locais, Coca-Cola escrito em hebraico, ou “eu amo Nova York, mas minha casa é em Jerusalém”, ou, ainda, uma que traz um jogo de palavras: “Israel Isreal”. Emocionado com a recepção, Gil propunha à sua empresária Lilian um festival de música brasileira, tcom Rita Lee, Caetano, Milton, Maria Bethânia e uma grande banda. Mas, por enquanto, até o fim deste ano, deverão vir o balé do Recife e Nazaré Pereira, Gal Costa estando prevista para o começo do verão do ano que vem.

O último concerto de Gil foi para as primeiras páginas de todos os jornais locais, com fotos abertas das 150 mil pessoas reunidas no parque Hayarkon. A televisão também mostrou a multidão imediatamente após as imagens da guerra, que atingiu uma violência sem precedentes no domingo.

Gil brincava: “foi um maravilhoso sábado no parque”, e Domingo no Parque foi uma das canções que ele incluiu no show. “Aquele abraço”, outra, teve seu momento brasileiro explicado para a multidão, e “Luar”, em homenagem á lua quase cheia, ao lado da concha acústica. Gil estava todo de branco transparente  — “e olha: eu vibrava com a energia do público”, primeiro sentado na grama, depois forçando os cordões de isolamento da polícia e de um reforço chamado às pressas do batalhão de guardas da fronteira.

O prefeito de Tel-Aviv, Shlomo Lahat, que com Gal Costa dançava “sangue, suor e cerveja”, estava diante da concha acústica, vendo a multidão reunida apesar da guerra, “coisa que eu não imaginava”, disposto, agora, “a dar toda força a música brasileira em Israel”. E nem é preciso tanto esforço, pois os israelenses criaram um mercado para a venda de discos do Brasil em Tel-Aviv ou Jerusalém, e as últimas músicas são normalmente apresentadas na rádio, com tradução. A morte de um Vinicius ou Elis, por exemplo, renderam várias homenagens póstumas em programas especiais.

Ao final do concerto livre de Gil, que ameaçava não terminar, a multidão gritando “mais um”, a polícia o resgatou, pondo-o numa perua que partiu a toda velocidade. Mas no lugar em que o deixou, não distante, havia uma fila de jornalistas israelenses o esperando — nunca nenhum cantor reuniu tanta gente em Israel, e muito menos em tempo de guerra.

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Gil na imprensa israelense

Tel-Aviv, 20/7/1982 — Gilberto Gil apareceu em sua entrevista coletiva vestido como os israelenses: sandália, calção e uma camiseta com o nome de Stevie Wonder. Mas, ao contrário dos israelenses, está contra a guerra no Líbano:

-Não gostei disso, Israel bombardeando Beirute…

Havia muitos jornalistas esperando-o, no Hotel Plaza. Antes de evitar o lugar de honra ao centro de uma comprida mesa, indo sentar-se junto aos repórteres, Gil falava da guerra a correspondentes brasileiros, enquanto uma empresária pedia aos israelenses que evitassem perguntas políticas.

Mas foi inevitável. Um repórter, lembrando que artistas americanos vieram a Israel distrair os soldados nas frentes de combate, logo perguntou:

-Você cantaria para os soldados?

Gil sorriu, e respondeu, num inglês fluente:

-Olha, não tenho a menor intenção.

-Você não tem medo da guerra? — outra pergunta.

-Medo físico, não.

-Você não levou em consideração a guerra, antes de vir?

-Não, desde que os empresários não suspenderam os espetáculos… Aí, Gil fez os jornalistas israelenses sorrirem:

-A guerra aqui não tem nada de novo. Israel está em guerra há muitos anos.

Dizia-se em Israel, antes de Gil chegar, que “foi uma luta de quase um ano conseguir contratá-lo”. Mas Gil desmentiu, revelando que há nove anos ele tenta vir a Israel, “que quero conhecer”, só o fazendo agora porque “o momento é propício, a música brasileira sendo muito divulgada entres os israelenses”.

Perguntaram-lhe se a derrota do Brasil afetou seu trabalho, e Gilberto Gil, vangloriando-se como “goleiro”, contou que gravava duas faixas do último disco antes do jogo Brasil e Itália, interrompendo para assisti-lo. Depois, não se sentia bem para continuar gravando, “mas tive que prosseguir, e ao chegar em casa, chorei”. Até hoje, ele continuou contando, “tenho pesadelos à noite: vejo Falcão…vejo Paulo Rossi…”

Gilberto Gil quer visitar “pelo menos dois kibutzim”, em Israel, e tem um programa cheio: hoje, ele dará uma entrevista ao vivo à rádio militar, no mesmo programa de Eli Israeli, um apaixonado pela música brasileira que popularizou Gal Costa no país, tendo por prefixo o “Trem das Onze”.

-Você soube do sucesso de Gal aqui? – Perguntou uma repórter.

-Sim, ela me contou…

-Espera fazer o mesmo sucesso?

-Olha, eu só tenho medo de cantar no sul da Bahia… se me aprovam por lá, o resto do mundo é fácil. Não estou sendo modesto, não: show é negocio. Não poderia estar aqui se não houvesse aviões e não cantaria, se não houvesse eletricidade. Eu sou apenas uma peça em tudo isto.

Depois da entrevista à rádio militar, Gilberto Gil participar de um outro programa em outra rádio e de um show ao vivo pela televisão. No sábado, no anfiteatro romano de Cesárea, será a sua primeira apresentação, os ingressos já todos vendidos, seguida de um carnaval no Country Club da cidade, promovido pela embaixada do Brasil. Na terça e na quinta-feira, na próxima semana, Gil dará mais dois concertos, um em Jerusalém e outro em Tel-Aviv.

Em sua entrevista, Gil falou também de sua própria música, desenvolvendo uma longa explicação para então concluir:

– Eu faço música negra.

Um jornalista perguntou sobre rock, jazz e ritmos românticos, para estabelecer uma referência para os israelenses, e ele aceitou que “pode-se encontrar de tudo em minha música”, e até mensagens políticas, incluindo-se entre Chico Buarque, Caetano, Milton Nascimento e Bob Dylan – embora, para ele, “Dylan seja muito discursivo”. E explicou “o toque de minha música”:

– Sarara, por exemplo. Quem sabe o que é isso em Nice, em Montreux, em qualquer país da Europa. Ninguém. Mas todo mundo repete. E isto pode ocorrer aqui também.

– Alho terapia?

Gil ficou rindo, copo de suco de laranja à mão, enquanto os jornalistas ganhavam champanha:

– Nada disso. No Brasil, maximalizam tudo. São umas pílulas de alho, e é tudo. Criam muitas histórias…