Feliz ChristHanukkah!

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Quando terminou a entrevista, o ex-prefeito de Nablus, Bassam Shakaa (foto), pediu para empurrar sua cadeira de rodas até o quintal. Fazia um ano, em junho de 1982, ele perdera as duas pernas na explosão de uma bomba em seu carro, em atentado perpetrado por um terrorista judeu.

No quintal, Shakaa mostrou o túmulo do pai, do avô, avó, do tataravô e outros ascendentes. Então, arrematou:

-Esta terra me pertence, foi sempre de minha família.

Saí da casa de Shakaa e fui falar com o porta-voz militar, que acompanhava um grupo da imprensa internacional em visita à Cisjordânia. Contei-lhe dos túmulos. Quis saber qual o argumento de Israel para reivindicar as terras ocupadas durante a guerra dos Seis Dias, em 1967. Ele apontou para o Sul, para Hebron, a 78 quilômetros dali.

-Lá está a tumba de Abraão – respondeu.

Na Gruta dos Patriarcas, em Hebron, que os muçulmanos chamam de Mesquita de Ibrahim, estão enterrados outros patriarcas e matriarcas de Israel, como Sara, mulher de Abraão; Isaac e Rebeca; e Jacó e Leia. Só falta Rachel, cuja tumba fica à entrada de Bethlehem, ou Belém. Os judeus ortodoxos apresentam como prova de propriedade das terras, que chamam de Judeia e Samaria, o velho testamento.  É a escritura.

Lembrei desse momento nos meus tempos de repórter no Oriente Médio para ilustrar a minha impotência em responder às ferozes reações ante a resolução do Conselho de Segurança da ONU que condenou os assentamentos judeus na Cisjordânia. Não, não tenho respostas. Nunca as tive. Se alguém as tiver, que as apresentem para, quem sabe?, ativar o processo de paz parado. Discutir divisões ideológicas e raciais, para mim, é só blablablá que não leva a nada. Aqui não se trata de ganhar um debate. Foi por aí que o presidente Obama, a quem até admirava, me decepcionou profundamente.

-Por que os EUA se abstiveram de votar?

Em fim de governo, já em transição, o que pretendeu Obama ao incentivar a retomada de uma resolução já adiada por quem a tinha proposto, o Egito? O que Obama fez em oito anos para sentar à mesa de negociações palestinos e israelenses? Quis peitar o próximo presidente Donald Trump? Vingar-se do premiê Nethanyahu, que fez campanha contra o acordo nuclear EUA-Irã diretamente no Congresso americano, jogando-o para escanteio? Não vejo motivo que justifique uma decisão que herdará seu sucessor, dia 20 de janeiro. Um partido que perdeu as eleições não dará andamento no Congresso à mais uma resolução “sem dentes” — aquelas que não exigem implementação.

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Pelo contrário, israelenses de direita e religiosos, se os conheço bem, vão reagir, pavlovianamente, ampliando os assentamentos, talvez anexando áreas que estavam com status incerto, à espera de definição através de negociações.  Oficialmente, mesmo durante o shabat, o que é uma raridade, o governo já rejeitou a resolução. Agora, numa escalada, a ONU poderá partir para sanções contra Israel. Mas, e Trump? Os palestinos vão discutir um acordo com os israelenses através de decisões do Conselho de Segurança? Por que não cumpriram a primeira de todas, a da Partilha da Palestina com os judeus, em 1948, e preferiram a guerra? Tantas mortos depois, estão querendo agora o que rejeitaram, com o Hamas, Hezbollah e o Irã riscando do mapa o estado de Israel.

Baixo agora minha própria resolução: não vou entrar mais em discussões apaixonadas sobre israelenses e palestinos. Conheço quase todas as versões e respeito quem as defende. Discutir por discutir é inútil. Quero fatos,  a realidade transformadora, ações que façam avançar a humanidade, não as que nos levem à barbárie de Alepo, da Síria, os jihadistas do Estado Islâmico, refugiados morrendo no mar e atentados repentinos, em qualquer lugar.

Hoje é véspera de Natal e de Hanukká, o ChristHanukkah. Que tenhamos uma trégua, uns dias de paz. A todos, boas festas.

Estarei de volta dia 10/1.

 

Mister da Silva

Dos brasileiros que conheci na minha

temporada em Israel, Mr. da Silva

foi o único do qual me despedi posto num caixão,

seu corpo despachado para enterro no Brasil.

Ele trabalhava em Jerusalém como

porta-voz da ONU, na Colina do Mau Conselho, onde comprava sem impostos as cervejas e uísques que repartia com os amigos.

Pena: não guardei fotos dele, mas é possível

que ainda as encontre, e então as colocarei aqui.

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Foto: Haaretz.

A ONU, na Colina do Mau Conselho. Foto Haaretz

O porta-voz das forças de paz no Oriente Médio, mister Da Silva, é, sim, brasileiro. No Brasil ele era só uma voz, porém famosa, a primeira que se ouviu transmitindo, direto de Belém, via Aman/Cairo/Londres/NY/Rio, a Missa do Galo do ano da Guerra do Suez, em 1956.

Fernando Jaques foi um popular repórter da Rádio Nacional. Agora, mister da Silva, 62 anos, convocado de sua sala no palácio inglês da Colina do Mau Conselho, em Jerusalém, pelos jornais do mundo todo, é o homem de ligação e informação da ONU na área considerada a mais delicada e a mais explosiva do mundo: o Oriente Médio.

Algumas vezes o tratam como se fosse um francês, o nome grafado assim, nos jornais: monsieur Jacques de Sylva. Como porta-voz da ONU sua missão é viajar pelo mundo. Na bagagem, vai sempre um violão. Levou-o para Karachi, no Paquistão em guerra com a Índia, ao final de 1965 e até 68. Depois, para a Birmânia, que não se dava bem com o secretário-geral e seu chefe, o birmanês U Than, e dali para Lima, no Peru. Afinal chegou ao Oriente Médio, com QG em Jerusalém, e sua jurisdição inclui Beirute/Cairo/Damasco e Aman. Gosta de cantar. E conhece até músicas recentes de Chico Buarque, Caetano Veloso, Elis Regina, Fafá de Belém, as suas preferidas.

Seu carro branco, placa número 5, está ligado permanentemente com a ONU. E em Jerusalém, passeando, pode receber a ordem repentina de se apresentar na sala do comando, onde está o general Enzio Siilasvuo, e então partir para o Sul do Líbano, ou Nova York. Ele nunca sabe. Por isso, deixa sempre uma pequena mala pronta. E o violão.

Mister da Silva já é avô, e sua esposa, atualmente, mora no Rio. Quando veio para Israel, por seis meses, há três anos, já pensava em voltar a trabalhar em rádio, não mais como entrevistado, mas entrevistando, e em português.

Quem o tirou do jornal A Batalha, onde começou como repórter em 1935, e o colocou diante de um microfone, porque gostou de sua voz, foi Galeano Neto. E quem a educou, depois, foram Luís Mendes e Heron Domingues, com quem esteve no Egito para entrevistar o presidente Nasser. Os jogos olímpicos de 1948, os primeiros depois da 2ª Guerra Mundial, em Londres, chegaram com a sua voz, na Av. Rio Branco para a grande torcida que se emocionava com as vitórias da seleção brasileira de basquete. Ficou na Rádio Nacional até se tornar o diretor de sua TV, que inaugurou, em Brasília. Então, a ONU o escutou e o convidou para gravar seus programas em português para o Brasil, Portugal e África, a partir de 1962.

Hoje mister da Silva sai do encontro com Yasser Arafat, o líder da OLP, numa casa de um subúrbio de Beirute, e entra na sala do general Dayan, em Jerusalém. Depois, vai para seu apartamento e toca violão. Se o telefone permitir.

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O “erro” fulminante

O general Enzio Siilasvuo, chefe do Estado-Maior das Forças de Paz das Nações Unidas no Oriente Médio, admitiu que “foi um erro”, o comunicado divulgado por seu porta-voz, o brasileiro Fernando Jaques da Silva, na última segunda-feira, sobre incidentes que ocorriam no Sul do Líbano.

O porta-voz Fernando Jaques da Silva, depois de divulgar o comunicado, sabendo que ia “provocar muito barulho”, como o comentou a mim e também a uma cadeia norte americana de televisão, sofreu um ataque cardíaco fulminante, e seu corpo chega as hoje ao Rio de Janeiro, de Paris, pela Air France, para que sua família o enterre.

O general Enzio Siilasvuo disse mais ainda, durante a transmissão de posse entre o antigo oficial de ligação do exército israelense com a ONU, coronel Simon Levinsohn, amigo de Fernando Jaques da Silva, e o coronel Aharon Levran, seu substituto: “Este comunicado jamais deveria existir”.

O comunicado denunciava a presença de militares israelenses durante uma manifestação de cristãos do sul do Líbano diante do posto de Nakura, na fronteira com Israel. Na confusão criada, dois oficiais libaneses muçulmanos, vindos de Beirute, foram raptados, depois libertados, e um helicóptero destruído, o mesmo que os trouxera até ali. “Espero”, concluiu o general Siilasvuo, “que este incidente seja esquecido nos próximos dias. Não vemos a necessidade de publicar um novo texto, invalidando o anterior”.

O comunicado divulgado na noite de segunda-feira passada pelo Quartel-General da ONU, em Jerusalém, era do conhecimento do general Siilavuo. Antes de divulgá-lo oficialmente, Fernando antecipou: “Alguém vai cair na ONU…” — e contou por que: recebidas as informações de Nakura, através de um porta-voz da Unifil, as forças de emergência no sul do Líbano, ele as levou para o general Siilasvuo, que apenas recomendou, por prudência, que o texto final fosse antes passado para o vice-secretário geral das Nações Unidas, Brian Urquhart, em Nova York”.

O texto final foi então entregue a um general da Unifil, encarregado de contatar Brian nos EUA. Mas a consulta levou tão pouco tempo, 20 minutos, que gerou a suspeita de que “sequer teria sido feita”. E a informação de que “NY esta de acordo” veio acompanhada de uma ordem: “divulgue-se”.

A ONU, o exército israelense, o ministério de Relações Exteriores, a embaixada brasileira e alguns amigos, diplomatas e jornalistas, levaram o corpo de Fernando Jaques da Silva até o aeroporto Ben Gurion, em Tel-Aviv, de onde partiu para o enterro no Brasil. Enquanto uma bandeira das Nações Unidas era enrolada sobre o caixão, o padre Francolino Gonçalves fez uma pequena oração em português.