Os aiatolás do Peru

A novidade é a notícia, antiga, ser publicada neste domingo, 31 de julho, pela agência do Estado Islâmico (EI), Amaq. A notícia reproduz uma reportagem do jornal pan-árabe Asharq Al-Awsat sobre o avanço do xiismo iraniano no Peru e, de lá, para outros países sul-americanos. Enfim, os aiatolás estão chegando. Numa breve passagem pela Argentina, em 1994, deixaram um saldo de 84 mortosO Irã político e religioso chegou ao Peru, de onde quer se espalhar para outros países da América do Sul.

 

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http://notihoy.com/libanes-detenido-en-peru-reconocio-ser-miembro-de-hezbollah/

O Irã político e religioso chegou ao Peru, de onde quer se espalhar para outros países da América do Sul.

A informação é de Asharq Al-Awsat, 1º jornal pan-árabe impresso em 4 continentes. A reportagem sobre o Peru iranizado foi reproduzida pela agência de notícias do Estado Islâmico, EI.

Por que esta notícia, requentada, foi publicada hoje? pe

Muitos peruanos já se converteram ao xiismo e fundaram uma entidade a que batizaram de Hezbollah Branch in Peru, cópia do libanês. O objetivo declarado é o de importar a revolução iraniana.

A maioria dos convertidos peruanos é da região montanhosa de Abancay. É dali que 20 homens foram levados à Teerã para serem doutrinados em xiismo.

O programa de TV Punto Final, do Peru, mostrou um grupo de jovens peruanos com um sheik xiita reivindicando o direito de propagar o xiismo da mesma forma como é permitido ao cristianismo.

A polícia peruana deteve alguns suspeitos ligados ao Hezbollah libanês quando entravam no Peru. Um especialista em influência iraniana na América Latina, Joseph Humire, diz, citado na reportagem, que o Irã financia o Hezbollah do Peru “com dinheiro de contrabando”.

1iraO “aiatolá” de Caracas, Nicolás Maduro, dá apoio integral à implantação do Hezbollah na América do Sul. O falecido coronel Chávez e o então líder iraniano Ahmanidejah tiveram uma relação intensa, boa parte da qual misteriosa. O Irã é acusado de ter participado diretamente do atentado contra a Associación Mutual Israelita Argentina (AMIA), em 1994, que deixou um total de 85 mortos.

O terror em 102 capas

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O Daily News responsabiliza a poderosa National Rifle Association, que zela pelos direitos de quem quer se armar nos Estados Unidos, pela carnificina na boate gay em Orlando, com 50 mortos e 53 feridos.

“Sem palavras”, o Tampa Bay Times (TBT), da cidade vizinha à tragédia de Orlando, publica uma rosa multicolorida. Na capa do Orlando Sentinel, um editorial para cicatrizar feridas abertas pelo massacre. Os jornais RedEye (Chicago) e Oregonian (Oregon) optaram por frases, como “Diante do ódio e violência, amaremos uns aos outros”, ou apelos à união, em suas capas sem fotos nem manchetes.

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Aqui o panorama da noite do terror em Orlando em 102 capas de jornais dos EUA e do mundo

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Venerado Homem-Bomba

O palestino Ayyash foi um gênio

de bombas do terror detonadas em

Israel. Foi morto pelo serviço secreto

israelense com uma bomba

acionada por controle remoto.

Yahya Ayyash, 22/2/1966 - 5/1/1996.

Yahya Ayyash, 22/2/1966 – 5/1/1996

JERUSALÉM – Do céu surgiram três mulheres vestidas de branco para proteger, o novo grande mito nas colinas bíblicas da Judea e Samaria. Cultuado como “santo” da guerra santa dos radicais palestinos, ele está bombardeando, com pavios humanos, a frágil paz entre Israel e a OLP. É o homem mais caçado na Cisjordânia e em Gaza pelo exército israelense e pela Autoridade Palestina. Já esteve à beira da morte e da prisão, e escapou porque “Deus o ajuda”, como se crê em Rafat, a pequena aldeia onde ele há 29 anos nasceu, entre Nablus e Ramallah.

O nome de guerra de Yihya Ayyash (fala-se Irriá Aiach) é “Mehandess” – “O Engenheiro”, em hebráico e em árabe. Um engenheiro elétrico e químico formado na Universidade Bir Zeit, a Harvard palestina, ao tempo da Intifada, a rebelião na Cisjordânia, e “doutorado” em 1992 com um carro-bomba feito com explosivos de baixa qualidade – a característica assinatura das explosões que mataram 77 pessoas em Israel desde o acordo de paz com a Organização de Libertação da Palestina (OLP), em 1993.

maxresdefault   Quando Israel apagou a luz contra os ataques de mísseis iraquianos, em 1991, só uma casa de Rafat ficou iluminada – a dele. Fez-se luz com um pequeno transformador plugado na bateria de um carro. Ele também se revelou um perito em consertar antigos aparelhos de TV e rádio. E nenhum menino o superava nas atiradeiras. “Era o melhor”, lembram amigos. No que resta hoje do quarto dele, na casa de pedra em Rafat onde ainda moram os pais, Abdel-Latif e Aysha Ayyash, há um caixote em que se misturam livros como “Basic Circuit Theory”, “Electrical Machines and Transformers”, “Martyrs of Islam” e “Secret Resistance”.

No caixote, um retrato de Yihya Ayyash: engenheiro, religioso fervoroso e devoto militante do Ezzedin Al-Qassem, o braço armado do Hamas, grupo de palestinos que está detonando com homens-bomba a negociação entre OLP e Israel para a expansão da autonomia palestina na Cisjordânia, a ser concluída com uma grande festa, em 7 de setembro, na Casa Branca, em Washington. O chanceler israelense Shimon Peres já duvidava da data da festa, no final da semana em que mais um ônibus explodiu, em Jerusalém.

A fama (ou a infâmia) de Ayyash dá aos palestinos “o senso de que eles não estão desamparados”, explica o professor Yifrah Zilberman, da Universidade Hebráica. “Parece-lhes um herói que bate os israelenses em seu próprio jogo”, diz o jornal Maariv, acrescentando: “ele usa o próprio brilho técnico contra um gigante tecnológico armado de bombas nucleares”.

Famoso, porém não único, lembra um especialista em extremismo islâmico, Raphael Israeli: “Se as forças israelenses conseguirem capturá-lo, três outros Engenheiros vão surgir”.

100 mil foram ao enterro

100 mil foram ao enterro

Um discípulo de Ayyash foi preso no sábado passado. Mas a bomba que ele fabricou explodiu, assim mesmo, dois dias depois. O serviço secreto só ligou o autor à obra ao receber autorização de voltar a “sacudir” durante os interrogatórios. O método estava proibido desde a morte de um prisioneiro do Hamas, “sacudido” em abril. As “sacudidelas” mantém o preso acordado, minando suas resistências. “Sacudido”, Abdel Nasser Shaker Issa confessou ainda uma bomba anterior, detonada por um pavio humano em Ramat Gan, em julho. Uma célula inteira de “O Engenheiro” caiu, com mais de 30 pessoas. Na sexta-feira, um comando israelense matou outros dois membros do Hamas durante um tiroteiro em Hebron. Agora, uma polêmica “sacode” Israel: direitos humanos para suspeitos de terrorismo ou direito à vida humana para as vítimas dos atentados?

O jornalista Roni Shaked, autor de um livro sobre o Hamas, acha que só com interrogatórios de prisioneiros Israel poderá alcançar “O Engenheiro”. Os camicases palestinos são diferentes dos terroristas da OLP. Eles não se deixam recrutar como espiões. Vivem numa órbita impenetrável. Não se pode afirmar que “sacudindo” Shaker Issa se evitaria a explosão da bomba em Jerusalém. Mas o governo autorizou mais “sacudidas” em situações em que uma nova explosão pareça iminente. Nos jornais do fim de semana apareceu um pequeno anúncio: “Rabin & Peres/ Peguem um ônibus/ Como todos nós”. Ao prefeito de Jerusalém, Ehud Olmert, do partido Likud, na oposição, um repórter perguntou, refletindo um pânico geral: “Você pegaria um ônibus?” Ele respondeu que ainda vai fazer um passeio de ônibus, na semana que vem. “Mas, em geral, uso meu carro”, explicou.

Os passageiros de ônibus se olham com desconfiança. A polícia quer treinar cães para farejar pavios humanos. Cada nova explosão mina o apoio do governo Rabin para prosseguir as negociações com o líder da OLP, Yasser Arafat. Esta é a vitória de um único homem, “O Engenheiro”. Os israelenses o prenderam uma vez. É a lenda que corre na Cisjordânia. “Os soldados o sequestraram na Universidade Bir Zeit e o levaram para um lugar deserto. Quando iam matá-lo, eis que surgem do céu três mulheres vestidas de branco. Então, elas o protegeram”. Sob proteção divina, Ayyash planejou o seu maior ataque até hoje, o homem-bomba que explodiu dentro de um ônibus no centro de Tel-Aviv, em outubro de 1994, matando 22 pessoas.

maisMilitantes do Hamas dizem que “O Engenheiro” também conta com a proteção de um país árabe, onde agora estaria morando. Seria a Síria, mas o serviço secreto de Israel afirma que ele se esconde em Gaza, com uma jovem esposa e um filho. O pai não o vê entre suas oliveiras em Rafat “há dois anos”. E se lembra com orgulho de uma bomba de água que ele montou: “Até hoje dela não vaza uma gota”. Outros dois filhos, Younis, 20 anos, e Merae, 25, estão presos. Vizinhos o lembram como a um santo: “Ele nunca perdia nenhuma das cinco orações do dia, e começou a jejuar no sagrado mês do Ramadan quando tinha apenas 7 anos, bem antes da idade requerida pelo islamismo”.

A brasileira do terror

Deir Balut

Deir Balut

A brasileira Lamia Maruf saiu da aldeia de Deir Balut,

na Cisjordânia, dirigindo uma kombi alugada com cinco passageiros

— o seu marido, um cunhado com a esposa, e três rapazes de sua família.

Adiante na estrada, um soldado israelense pedia carona.

Foi atendido. Depois, assassinado. A seguir, enterrado numa caverna.

Um detalhe levou à prisão do grupo dois anos depois: Lamia tinha

alugado a kombi com seu passaporte. Ela e o marido pegaram prisão perpétua.

O Brasil pediu a libertação de Lamia, mais tarde concedida.

O marido, Tawfic  Abdallah, foi um dos 477 palestinos libertados em troca

de um soldado israelense sequestrado, Gilad Shalit. Ambos estão no Brasil.

Lamia Maruf

Lamia Maruf

Tel-Aviv, 24/04/1986 — Depois de brincar por 40 minutos com sua filha de 11 meses, no centro de detenção de mulheres de Kishon, perto de Haifa, a brasileira Lamia Maruf Hassan disse à vice-cônsul do Brasil em Israel, Debora Jaeger:

– Diga para todo mundo que sou forte… Que eu não choro, não.

Mas a Sra. Jaeger a viu chorar, em seguida: despedia-se de sua filha, Lubna Patrícia Abdallah, que o deputado Airton Soares (PMDB-SP) levou de volta para o Brasil. Lamia não esperava tê-la naquele sábado de manhã, dia 19, e nem sabe, agora, quando irá revê-la.

– Ficou olhando a filha, demoradamente, no momento da despedida. Assinou um documento para que ela pudesse partir de Israel. Disse-me que estava conformada, entendendo bem a situação. Aí chorou. Estávamos partindo, e ela chorava lembra a vice-cônsul, Debora Jaeger.

Lamia Maruf Hassan, 21 anos, foi presa na aldeia de Deir Balut, na Cisjordânia, no dia 13 de março, com seu marido, Taufik Ibrahim Mohammed, de 31 anos, e mais quatro rapazes e uma mulher, Zohara Said, mãe de três crianças.

O grupo preso, afiliado ao Al-Fatah, a facção majoritária liderada por Yasser Arafat dentro da OLP, “estaria” sendo acusado de rapto e assassinato de um sargento israelense, David Manos, desaparecido desde o dia 6 de novembro de 1984.

“Estaria”, pois nenhuma autoridade israelense quis se precipitar:

– Enquanto os suspeitos não são incriminados formalmente nada se pode falar sobre eles, segundo a lei em Israel, disseram várias fontes que acompanham de perto o caso. O pedido deste repórter para visitar Lamia foi negado oficialmente, e com alguma visível irritação.

Sargento David Manos

Sargento David Manos

Mas alguns fatos já se tornaram conhecidos, transpirando dos serviços de informação e revelados pela advogada de Lamia, uma dedicada e famosa defensora de quase todos os palestinos presos por Israel, Felicia Langer, do Partido Comunista Israelense.

Em 1981, Lamia Maruf Hassan veio visitar a aldeia de sua família, Deir Balut, na Cisjordânia, que Israel ocupa desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967, e a chama pelo nome bíblico de Samaria. Tinha acabado o curso secundário e vinha conhecer seu futuro marido, o primo Taufik. Os dois namoraram até que ela voltou ao Brasil, para continuar o curso colegial, e ele foi lecionar na Líbia,

Casaram-se três anos depois, em 1984. Foram viver numa modesta casa sem água nem luz, em Deir Balut. Lamia falava ainda um árabe rudimentar e era vista, sempre, com um gravador, escutando música brasileira. Chamava a atenção, por ser muito bonita. Um conhecido, palestino, sabendo-a presa, agora, declararia ao jornal israelense Yedioth Aharonot, em 26 de março:

– Quem poderia imaginar que uma moça tão linda assim virasse terrorista?

Lamia logo trocaria o jeans pela galabyia, a túnica das mulheres árabes, e um lenço na cabeça. Estaria grávida de três meses quando assumiu a direção de uma Kombi alugada com seu marido, o cunhado Tachsin e a esposa, Najach, e mais três rapazes de sua família. Ao deparar com um soldado de Israel pedindo carona na estrada, estacionou.

O soldado, sargento post-mortem David Manos, nunca mais reapareceu, depois desse dia, 6/11/1984. Quando as buscas foram encerradas, e seus pais quiseram que elas prosseguissem, com esperanças, o então chefe do Estado Maior do Exército, general Rafael Eitan, sugeriu que talvez Manos estivesse envolvido com drogas, vivendo no submundo da máfia israelense.

Quase um ano depois, e por acaso, a polícia foi descobrir o corpo do sargento David Manos, conduzida pelo grupo a que Lamia pertencia, delatado por um rapaz da própria aldeia Deir Balut, detido para interrogatório no caso de um “crime menor”, e pode então reconstituir o que acontecera com o sargento depois que ele entrou na Kombi da família Abdallah. Pelo que consta, embora sem confirmação de fonte oficial, ele teria sido dominado, levado a um local onde foi assassinado, por estrangulamento, e depois transportado para uma caverna, onde o enterraram. (Outra versão é a de que ele fora levado diretamente para a caverna, amarrado, e depois mantido preso por alguns dias, até ser assassinado).

– Só dirigi o carro, admitiu a própria Lamia. Ela se defendeu:

Não matou nem sabia que alguém queria matar o sargento. Como a irlandesa que, dias atrás, carregou uma mala com explosivos pelo aeroporto de Londres, sem o saber, para embarcar num voo da israelense El-Al.

Ela contou que dirigiu o carro durante uma conversa com a vice-cônsul do Brasil, Debora Jaeger, sem qualquer tipo de pressão. E o repetiu diante da corte militar de Nablus, como o confirma sua própria advogada de defesa, Felicia Langer, que, como as autoridades israelenses, acrescenta: “Mas não posso lhe dar mais detalhes”.

Numa entrevista ao jornal Hadashot, um novo vespertino israelense, o deputado Airton Soares diria: “Se Lamia estiver envolvida no assassinato do soldado David Manos, é somente por influencia da OLP”. E diria mais, ainda: “A detida contou ao secretário do consulado, com quem se encontrou esta semana, que os investigadores tentaram forçá-la, sob ameaças, a confessar que é membro da OLP”. E concluiu, segundo publicaram os repórteres Nadav Haetzni e Ruth Kerny: “Mesmo na época da ditadura no Brasil realizavam-se julgamentos públicos. Aqui, não”.

O deputado Airton Soares veio a Israel para participar do processo que envolve Lamia, como observador, e também para orientar a advogada Felicia Langer. Conseguiu vir (depois de declarar que Israel talvez não lhe concedesse visto, do qual nem precisou, como qualquer outro brasileiro), deixaram-no encontrá-la (depois que ameaçou levar um pedido até o primeiro-ministro Shimon Peres), falou à imprensa israelense sobra a “ditadura” em Israel, e viajou de volta para o Brasil com a filha de Lamia. O irmão Taissir, que veio com ele, teve menos sorte: esperou diante da corte de Nablus uma autorização para vê-la que não lhe foi dada. Lá dentro, sua irmã estava tendo sua prisão preventiva prolongada por mais 35 dias. Não podia ver sequer a própria filha.

Sua advogada Felícia Langer, por um mal entendido, chegaria só meia hora depois. Mas teve acesso ao protocolo da sessão;

– Em qualquer país é assim — justificou um funcionário israelense. – Vá tentar ver ou entrevistar algum terrorista detido em prisão europeia… Depois que for julgado, talvez. Mas, durante o inquérito, nunca. Afinal, Lamia é suspeita de assassinato político… Ela dirigiu um carro em que houve luta e que transportou um corpo. Tem que ser julgada.

Lamia não se queixa mais das condições atuais em que está detida. O momento pior foi quando esteve completamente incomunicável. Chegou a ser ameaçada por uma prisioneira judia em vingança pelo assassinato do sargento David Manos. É o que conta a advogada Felicia Langer, que pode vê-la regularmente, agora, no presídio perto de Haifa.

– Posso ir vê-la quando quiser também – diz a vice-cônsul do Brasil, Débora Jaeger. No último encontro, sábado passado, ela levou de surpresa a sua filha, para uma despedida:

– Ela me disse que tudo o que fez foi por amor ao marido.

“Eu amo ele”, repetia. “Vou esperar por ele”, prometeu. Então, eu lhe perguntei: você faria tudo de novo? “Por amor, faço”, ela respondeu, e me perguntou: “Você sabe o que é o amor? Sabe?

445658 O governo brasileiro quer Lamia livre

Jerusalém – A brasileira Lamia Maruf Hassan achava que ia se livrar da prisão perpétua a pedido do chanceler Luís Felipe Lampreia, o primeiro ministro do Brasil a visitar Israel em 22 anos, nesta semana, num degelo das relações entre os dois países. “Agora ela chora, deprimida” – contou quem esteve com ela, sob a condição de não ser identificado.

Lamia, 30 anos, acusada pelo exército de Israel de ter sequestrado, enforcado e esquartejado o soldado israelense David Manos, junto com o marido palestino Taufic Ibrahim Mohammed, também prisioneiro perpétuo, sustenta ainda hoje, oito anos depois de julgada por um Tribunal Militar, que só participou indiretamente do crime, executado em nome da OLP, hoje negociando em paz a expansão de um regime autônomo na Cisjordânia e Gaza.

“Estava em casa, na cozinha, quando o soldado foi morto” – ela disse ao visitante. “Isso nunca foi questionado”. Promovido a sargento ao morrer, o soldado Manos ficou alguns dias refém da OLP antes de ser executado. Mais de um ano depois, sem pistas, sem corpo, a polícia já afastava a suspeita de atentado contra ele, especulando se não teria sumido com um amigo que vivia na clandestinidade do crime organizado. Mas então um delator da aldeia de Deir Ballut entregou o casal Hassan, a cunhada Zahara e Mustaf Mahmud. Os quatro levaram policiais a uma caverna onde foi desenterrado um esqueleto. Era Manos, confirmou-se. Ao grupo também se acrescentaram duas bombas que não explodiram, plantadas num cinema e num hospital.

Lamia estava grávida de três meses quando dirigia a Kombi em que Manos pegou carona para a morte. A filha Lubna Patricia Abdalla pôde nascer no Brasil, onde hoje, com 9 anos, vive com avós e tios. Uma vez por ano visita a mãe, no presídio de Hasharon, perto de Tel-Aviv. A Embaixada do Brasil pode vê-la a cada duas semanas. Manda-lhe jornais, revistas e livros em português. A imprensa é rechaçada. Autoridades israelenses não entendem por que “tanto interesse nela”, uma “terrorista com as mãos manchadas de sangue”. O chanceler Shimon Peres procurou retira-la do meio das novas relações entre Brasília e Jerusalém, repetindo que ela “violou a lei”, garantindo que “está sendo bem tratada” e prometendo que “poderá sempre receber visitas”. Alguns empresários brasileiros acompanhando o chanceler Lampreia, equipararam-na aos canadenses que sequestraram o empresário Abílio Diniz. “A gente até fica ofendido quando nos pressionam para liberta-los”, lembrou um deles.

Há dois meses, Lamia aderiu à greve de fome dos prisioneiros árabes em Israel. A Embaixada do Brasil tentou passar a visita quinzenal para semanal, sem conseguir. O jejum durou 18 dias. Foi interrompido, então, porque a liderança palestina na prisão ficou satisfeita com a promessa de libertação das prisioneiras, num gesto de boa vontade israelense ao progresso nas negociações com a Autoridade Palestina. Uma lista está nas mãos de negociadores palestinos e israelenses, mas dela não constariam, em princípio, as que são acusadas de “crime de sangue”. A única esperança para Lamia, como sugeriu o ministro da Justiça de Israel, David Libai, ao chanceler Lampreia, “È um gesto político”. Mas ele próprio disse que nada tem a fazer: o processo está na alçada da justiça militar.

“Lamia queria sair da prisão perpétua como brasileira, não pelas ligações com a OLP” – contou a quem a visita. Vive agora numa cela sozinha, por ser a mais antiga. Aprendeu hebraico e inglês, já sabia o árabe e mantêm fluente o português. “Está muito bonita, os cabelos compridos”, lembrou o visitante, a quem deu de presente uma almofada que bordou. Outro presente que fez antes, para outra pessoa, foi uma miniatura da mesquita de Omar, sobre o Monte do Templo, em Jerusalém. Quando sabe que será visitada, “prepara-se: quer parecer bem”. A impressão que deixa “é a de ser muito forte e que procura pensar positivamente”.

Na cela de Lamia há uma TV, um aparelho de som e “tratamento com dignidade: ela nunca foi maltratada”. Numa oportunidade em que teve a chance de pedir algo, optou por um aquecedor, que usa durante o inverno. Antes vestia-se de azul ou preto, as cores do presídio, mas agora pode se vestir à vontade. Ela costura o próprio vestido, borda toalhas e almofadas. Outras presidiárias a procuram para compartilhar os problemas. Ela lhes faz um resumo do que leu – “e lê um livro atrás do outro”. São “aulas”, como contou ao visitante, que convida: “Quem quiser lhe escrever uma carta, só endereça-la ao Presídio Hasharon, em Israel, e ela a receberá”.

JE SUIS AHMED

AHMED, POLICIAL MUÇULMANO, MORREU EM DEFESA DOS "INFIEIS"

AHMED, POLICIAL MUÇULMANO, MORREU EM DEFESA DOS “INFIÉIS”

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A tevê de Israel perguntou a um soldado do batalhão que invadia o Líbano se ele sabia qual era a sua missão. Sem titubear, ele respondeu: “Acabar com as katiushas” — os foguetes russos que choviam sobre o norte de Israel, em 1978, disparados pela OLP. A entrevista prosseguiu: “E onde estão as katiushas?” A resposta, totalmente inesperada: “Em Moscou”.

Ouvi um diálogo parecido na tevê francesa. Perguntado como acabar com o crescente terror jihadista na França, um especialista advertiu: “O que assistimos é só o começo; para que não mais se repita, será preciso pegar quem dá as ordens”. Um segundo silencioso de surpresa, ele arrematou: “E os chefes que dão as ordens estão no Oriente Médio e no Norte da África”.

A França está refém da jihad, ou guerra santa. Um dos irmãos que “vingaram” a “profanação” de Maomé, com 12 mortos no ataque à revista Charlie Hebdo, estava em duas listas dos serviços secretos dos EUA. Por uma delas, não podia embarcar em avião de nenhum aeroporto. Noutra, era um da seleção dos mais perigosos terroristas no momento. Os franceses tinham ambas as listas. Por que os deixaram em liberdade? No caso de um deles, por que o soltaram, depois de prendê-lo?

A França relaxou, permissiva, a ponto de ser paralisada por dois dias da trama que foi ao ápice com dois sequestros simultâneos — uma première em Paris. Foi tolerante ante ataques antissemitas. Não entrou em alerta com o êxodo de judeus franceses para Israel. Fechou os olhos para os extremos dos seus cinco a 10% de cidadãos muçulmanos. Agora, acorda para uma nova realidade. Liberdade, Igualdade e Fraternidade não são para quem aspira impor com violência seus valores ou sua religião a outros povos e credos, um choque de civilizações.

Não por acaso o escritor Michel Houellebeca acaba de lançar o já bestsellerSoumission (Submissão) cujo enredo é a islamização da França, que então contagia todos os outros países da União Europeia. Aliás, ele é a capa da edição ensanguentada de Charlie Hebdo. Mas, atenção, nem todos os muçulmanos são jihadistas — ainda uma minoria. O policial muçulmano francês Ahmed Merabet foi morto protegendo exatamente aquilo que o fanatismo tentou destruir, a liberdade de expressão.

No mesmo dia do ataque ao Charlie Hebdo, uma afiliada da rede CBS, em Maryland, EUA, foi invadida por hackers. Nos monitores da redação surgiu a frase: “Infiéis, o novo ano lhes trará sofrimento”. Assinado: “Cybercalifado” — o grupo de apoio ao Estado Islâmico, Iraque e Síria. Mas não só: o sobrevivente dos irmãos que explodiram uma bomba na linha de chegada da maratona de Boston, em abril de 2014, deverá ser julgado na semana que vem.

Se não vamos a Maomé, Maomé vem a nós. O temor aos jihadistas cresce a cada cabeça degolada diante de uma câmera de tevê, ao vivo. O patrulhamento jihadista aumentou a paranoia nos aeroportos, profere sentenças de morte, ou fatwas, contra “profanadores”, mesmo quem só se arma com um lápis, e destampou da garrafa o gênio do mal que assombrou a França — e que promete mais. Quando aiatolá Khomeini saiu de seu exílio francês para assumir o Irã, um “vento” xiita soprou todo o Oriente Médio, contagiante. Mas arrefeceu com o tempo, limitado aos muçulmanos. Já os jihadistas do Estado Islâmico, no Iraque e na Síria, e também no Iêmen, são vulcões que irrompem sem aviso prévio, e em qualquer lugar em que haja infiéis para justiçar em nome de Alá.

Je suis Ahmed  brown