Eliane Brum

Correspondente

de guerra.

Na Amazônia.

Este texto foi originalmente publicado na Revista Imprensa

A repórter Eliane Brum mostra de sua janela o rio Xingu, lá longe, correndo azul onde acaba o verde da floresta. Entre os dois, observador e observado, há algo em comum: a renovação constante, apesar de represados pela hidrelétrica de Belo Monte e pelo olhar condicionado do curso da vida. Mas há momentos em que ambas as comportas se abrem.

Eliane Brum aprendeu a se desprender de si própria para ver e ouvir com total atenção e isenção, como se fosse uma página em branco a ser marcada. “Sou uma escutadeira e olhadeira” —orgulha-se. Mais que uma ferramenta de trabalho de jornalista, é também uma postura de vida. Aqui pode estar uma explicação para sua produção original, única e em permanente mutação que já lhe rendeu 70 prêmios internacionais e nacionais, entre os mais cobiçados por jornalistas. E agora, ela lançou o seu nono livro, “Banzeiro Òkòtó (pronuncia-se com ^ nos ós), Uma Viagem à Amazônia Centro do Mundo”.

Brinquei com Eliane, em nossa primeira conversa virtual, que sabia qual era o verdadeiro segredo de seu sucesso: é que ela passou a infância bebendo água de sua cidade natal gaúcha, Ijuí, que em guarani quer dizer “Águas Divinas”. Só podia ser isso, um milagre. Ela riu. 

Eu a vi em mais de 30 entrevistas ao vivo pelo lançamento do seu novo livro. Mesmo às perguntas muito repetidas ela respondeu pacientemente,sem se incomodar, com visível laringite, audível tosse e uma coceira insistente nas costas — são os mosquitos lembrando que na Amazônia todos têm um corpo. 

Durante nossa teleconversa, surgiu um dos dois gatos, o Capitu, ou Capetu; um galo cantou várias vezes perdido em fusos horários; os três cachorros latiram muito, e o barulho de uma motosserra reinou no ar: “Você está desmatando?”, provoquei. Kkkk. Não: ela está preparando a casa em que vai viver com o marido britânico Jonathan Watts, que chega em dezembro para ficar 11 meses, em licença do jornal The Guardian, para escrever um livro. “Comprei madeira de demolição. Qualquer outra, aqui, é da floresta, mesmo que certificada, e não a uso”. Um gole no chimarrão, e ela diz: “Vou lhe mostrar a vista da janela”.

Lá longe, o Xingu…

“Sou uma escutadeira e olhadeira” 

Lá longe no tempo, Eliane, aos cinco anos, viu o pai, Argemiro Jacob Brum, ser “humilhado” pelo prefeito de Ijuí. Primeiro da família a ser alfabetizado, ele se tornou professor de Português, História, Geografia e Contabilidade, e um dos fundadores, em 1957, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FAFI), a pioneira do noroeste do Rio Grande do Sul, em 1985 reconhecida como universidade pelo Ministério da Educação. Foi “a primeira da Nova República”. Uma escola rural estava ligada à FAFI, ao tempo da ditadura. O prefeito das “Águas Divinas”, Emídio Odósio Perondi, da Arena, taxou-a de “subversiva”, porque seguia o método Paulo Freire e ainda respeitava o calendário das colheitas, e a passou para o poder municipal administrar.

“Foi a primeira vez que vi meu pai humilhado”, contou Eliane em sua maratona de entrevistas pelo lançamento de Banzeiro Òkòtó. “Pensei que tinha que fazer alguma coisa, que não podia permitir que meu pai fosse humilhado. Decidi então por fogo na Prefeitura”.

Naquela noite, Eliane não dormiu. Antes que alguém acordasse, lá foi ela para o outro lado da praça de sua casa, onde os pais a proibiam de ir. Ali ficava a Prefeitura. Um, dois, todos os fósforos, nenhum acendeu o incêndio. Ela voltou frustrada do seu “ímpeto revolucionário”, mas também aliviada. “Meu irmão depois me explicou que no cimento não dava”.

Foi aí que a primeira chama do jornalismo começou a queimar Eliane. “Descobri que jornalismo é o meu jeito de não pôr fogo no mundo. Que escrevo para não matar e morrer.” Aos oito anos, ela matou uma baratinha. Só se aliviou da culpa escrevendo “A autobiografia de uma barata”, o seu primeiro texto, guardado ainda hoje num caderno de capa vermelha. E de novo constatou: “Sempre digo que escrevo para não matar e para não morrer”. Aos nove anos, Eliane cometeu a sua primeira poesia, “muito ruim”, numa manhã de chuva supermelancólica. “Aquilo me mostrou que escrever era um ato de vida, um ato de fazer viver, de poder estar viva e de lutar pela vida e por tudo aquilo que é vivo. Essa experiência com a palavra pariu a mulher que eu sou hoje”.

A infância “foi um terror” para Eliane. “Escrevia para não cortar os pulsos. E ia deixando os pedaços de papel pela casa, como uma espécie de pistas que meu pai ia recolhendo. Aí, um dia, ele veio com a notícia de que ia publicar. Eu fiquei toda orgulhosa. Ao mesmo tempo, me senti nua. Depois disso parei de escrever por uns tempos, por causa desta exposição das minhas vísceras. Só voltei na adolescência. Parei quando fui mãe. E voltei quando virei repórter”.

Eliane foi mãe de Maíra aos 15 anos. “Fui uma adolescente bem terrível”, lembrou. Tantas constatações de que seria jornalista na vida, e ela acabou prestando vestibular para Biologia. Ia se inscrever também para Informática, na PUC, quando soube, na fila, que tinha muita matemática. Aí entrou para jornalismo. E fez História também.

Ainda estudante, ela escreveu uma reportagem sobre as filas que todos enfrentamos durante a vida. E aí, sem filas, ei-la catapultada para estagiar na redação do jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Só saiu de lá onze anos depois, convidada para a revista Época, onde ficou outros dez.

Muito do que se tornou Eliane não deve ser atribuído apenas às Águas Divinas. O pai, Argemiro, foi fundamental. Alfabetizado por uma professora negra, Luzia de Figueiredo Neves, a quem a família Brum deixa uma flor no túmulo todos os anos, ele não só se tornou “professor emérito” do Rio Grande do Sul, em 1992, e um dos fundadores e diretor da Universidade de Ijuí, a Unijuí, como também escreveu 40 livros, entre eles “O Desenvolvimento Econômico Brasileiro” (Vozes), reeditado 30 vezes. Morreu de AVC, aos 86 anos, em 2016.

“Quando minha família me pediu um obituário, tive de imediato uma queimação no estômago. Antes de meu pai cessar de respirar, eu me despedi dele. No final da tarde de 4 de agosto, logo depois de assistir ao jogo Brasil X África do Sul, ele teve o primeiro AVC. No hospital teve o segundo, e entrou em coma. Morreria menos de 24 horas depois. Assim, quando me despedi dele, talvez ele já não me ouvisse. Mas eu me despedi, e agradeci a ele por ter me dado a palavra. Meu pai me deu a palavra de tantas formas diferentes. E quando ele morreu senti que as palavras silenciaram em mim. Se as palavras sempre haviam sido insuficientes para dar conta da vida, como dariam conta daquela morte?”

No obituário, Eliane lembrou como Vanyr Burtet, a mãe, viu o pai quando tinha 13 anos, e decidiu: “Este vai ser meu”. E foi mesmo. “Começaram a namorar quando ela tinha 15 anos, depois que ela mandou um ‘correio elegante’ sutil como uma pedrada: ‘Se meu amor for correspondido, serei a mulher mais feliz do mundo’. E foi. Esta data é conhecida lá em casa como ‘o dia do tijolaço’. Estavam há 65 anos juntos e ainda comemoravam todas as efemérides de seu romance. No aniversário ‘de conhecimento’, a mãe ganhava rosas. O banco de praça onde namoravam foi transferido para o museu. Enquanto existiu um certo poste, o visitavam periodicamente para rememorações. Andavam de mãos dadas e dormiam de conchinha, vencendo por amor as dores na coluna.”

Outra morte que mexeu profundamente com Eliane foi a de Ailce Oliveira Souza, uma merendeira de escola, em julho de 2008. “Me arrebentou”, ela disse numa entrevista. Era uma reportagem para a Época. Por 115 dias ela acompanhou a morte se aproximando, e chegar. “O que Ailce me deu é algo para sempre. E algo raro: ela confiou em mim a ponto de me deixar testemunhar o fim de sua vida e contar uma história que ela jamais leria”. Sobre a morte de Marielle Franco, assassinada em 2018, no Rio, ela pergunta diariamente pelas redes sociais, logo ao acordar: “Quem mandou matar Marielle? E por quê?”

Ailce Oliveira Souza: 115 dias até a morte.

A melhor reportagem, para Eliane, é sempre a última. Mas se ela tiver que destacar alguma outra além dos últimos dias de Ailce, escolherá a marcha da Coluna Prestes, que refez em 44 dias, em 1993. Por 25 mil quilômetros ela entrevistou uma centena de pessoas que lhe deram uma versão até então desconhecida, a do “povo do caminho”, ou “o avesso da lenda” — não a de rebeldes, nem a de governistas. É marca dela: tirar da mesmice o singular, o novo do já conhecido. O Zero Hora soube aproveitar esse potencial de sua repórter: deu-lhe um espaço onde ela pôde contar os “meus desacontecimentos”, aos sábados. As crônicas foram reunidas no livro “A Vida que ninguém vê” (Arquipélago, 2006). E quando ela foi embora do jornal, não houve quem a substituísse.

Outro traço de Eliane é o de seguir em frente, sem se acomodar ao que já fez. Da palavra impressa, pulou para o cinema. Ela co-dirigiu três dos quatro documentários que fez: “Uma História Severina”, de 2005, premiado 17 vezes, no Brasil e exterior, e mais “Gretchen Filme Estrada”,”Laerte-se” e “Eu+1: uma jornada de saúde mental na Amazônia”. Pulou também para a palavra falada, convidada a dar palestras na Itália; em Madri; no PEN World Voices Festival, em Nova York; em dois eventos criados pelo escritor Salman Rushdie; uma série em Frankfurt, Munique e Giessen, na Alemanha; na Universidade da Flórida, em Miami; na de Dartmouth, em New Hampshire, e em Harvard, onde falou sobre “A Amazônia e a criação de futuro”.

Eliane decidiu ser freelancer, chefe dela mesma, dona dos prazos e tamanhos de seus textos, em 2010, e três anos depois começou a escrever colunas para o jornal espanhol El Pais. Mas foi em 2017 que tomou uma das decisões mais fundamentais de sua vida: a de mudar-se para o centro do mundo — para ela, Altamira, o front da destruição da maior floresta tropical do planeta. Repórter tem que estar onde está a notícia. E nada mais importante, hoje, que o colapso do clima. Ela já tinha ido a Amazônia várias vezes como enviada especial a partir de 1998, quando escreveu sobre a rodovia Transamazônica para o Zero Hora. Agora, seria como uma correspondente de guerra, e de sua trincheira avistaria o Brasil e o mundo.

Foto de Lilo Clareto

“Escolhi habitar o centro do mundo”, ela explicou. “Há anos defendo, junto com outros, a necessidade de deslocar o conceito do que é centro e do que é periferia. Num planeta em colapso climático, os centros são os enclaves naturais de vida, como oceanos e florestas tropicais, aqueles cuja sobrevivência é essencial para barrar nossa própria extinção num planeta que superaquece. É também nesses centros que estão as pessoas que por milhares de anos conviveram com a natureza sem destruí-la, sendo natureza elas também. Como jornalista, eu queria estar no centro do mundo e contar o planeta desde o centro.” Ela também é militante ativa em movimentos sociais. Foi uma das fundadoras, e participa ativamente, do Liberte, o Futuro e do Amazônia Centro do Mundo — uma parte global, com ativistas de diferentes países, cientistas, pensadores, indígenas, quilombolas, ribeirinhos etc., e outra local, no Médio Xingu, que junta diferentes organizações e pessoas avulsas. Mas ela não atua em nenhuma organização formal, porque aí seria complicado conciliar com o jornalismo.

Não é que Eliane pula de uma missão a outra assim de repente. Ela vai se preparando, maturando a estratégia, e tem que sentir uma comichão dentro do corpo, um “incômodo”. Ela me disse que “as melhores mudanças na minha vida vieram pelo incômodo”. Hoje, talvez, a palavra mais apropriada seja banzeiro, o redemunho de “brabeza” que a atraiu no rio Xingu e que agora carrega em suas entranhas. Ela também está se “reflorestando”, identificada com a floresta. E amazonizando-se. O vocabulário denota o grau de empatia entre ela e o seu admirável mundo novo. Em contrapartida, ela vai observando que verbos como duvidar, comparar, confrontar ou testar estão sendo trocados por acreditar. “As pessoas passaram a ler a realidade da mesma forma que leem a Bíblia”, ela escreveu ao comentar o Nobel da Paz de 2021 concedido a dois jornalistas. “Destruir a linguagem é tática para ganhar o poder”, concluiu. A crise da imprensa seria sequela do rompimento da palavra, agravado pelo negacionismo. Quem acredita em Bolsonaro? Quem acreditou em Trump? A quantas mentiras gravíssimas já demos ouvidos? 

Eliane estava andando com a psicanalista e amiga Ilana Katz por Altamira, em 2016, quando lhe disse, “sem saber de onde vinha aquela voz”: “Vou me mudar para Altamira”. E lá veio ela, de mala e cuia de chimarrão. Quem largou tudo para segui-la foi seu parceiro fotógrafo Lilo Clareto, que “se encantou em onça” ao morrer de Covid-19, em abril. 

Lilo, o que “se encantou em onça”.

Banzeiro Òkòtó tem uma dedicatória a Lilo e traz uma galeria de suas fotos da Amazônia. Eliane responsabiliza Bolsonaro, diretamente, pela morte dele e de grande parte dos mais de 600 mil mortos, por causa do negacionismo que equiparou a pandemia a uma “gripezinha”, ofereceu cloroquina como antídoto, pregou a desobediência ao distanciamento social, à máscara e ao confinamento, e ainda espalhou que a vacina provocava Aids. Ela defende que Bolsonaro seja julgado por extermínio, na população geral, e por genocídio, no caso dos indígenas, especialmente pela pesquisa realizada em mais de três mil normas federais, cuja conclusão é de que o presidente e seu governo executaram um plano de disseminação do vírus para obter imunidade de rebanho.

Além de se reflorestar, Eliane também se tornou a voz da Amazônia gritando “socorro!” O desmatamento (recordista em outubro), incêndios, grileiros, garimpeiros, a hidrelétrica de Belo Monte (a licença por renovar) e a mineradora canadense Belo Sun, que projeta a maior mina de ouro a céu aberto do mundo, na Volta do Xingu, estão levando a Amazônia ao ponto de não retorno. É “o minuto antes da meia-noite” — declarou o primeiro-ministro britânico Boris Johnson na abertura da recente COP26, em Glasgow, para governantes de 197 países. “Estamos cavando nossas próprias covas” — arrematou o secretário-geral da ONU, o português António Guterres. 

Banzeiro Òkòtó “é um chamado à maior luta da trajetória de nossa espécie na única casa-planeta que temos, uma luta contra a autoextinção que só poderá ser vencida se formos capazes de nos tornarmos outro tipo de gente…”

Quando teleconversamos, Eliane vestia uma blusa com fotos da pintora mexicana Frida Kahlo. As duas se parecem, inspiradas na natureza e no questionamento de gênero, classe, raça e identidade, uma com traços, outra com palavras. Disse-lhe que temia por sua vida, afrontando tantos poderes, grileiros e garimpeiros, em defesa de povos-floresta, quilombolas, ribeirinhos e refugiados de Belo Monte, hoje miseráveis na periferia de Altamira. Lembrei de Chico Mendes e Dorothy Stang, ambos assassinados. Ficou em silêncio por um momento, depois concordou: “Eu sei que corro risco. Mas também sei que o meu risco é infinitamente menor do que de todas essas lideranças que estão com seus corpos na linha de frente na floresta”. O tempo mais perigoso do ano está começando agora na Amazônia: o Ministério Público Federal, Defensorias (da União e do Estado) e as ONGs vão se esvaziando pelo recesso do Natal e ano novo. Para quem está marcado para morrer, a alternativa é procurar refúgio, porque a bandidagem corre solta. Os grileiros chegaram ao poder. Estão nas prefeituras. Estão no executivo. Seus crimes foram legalizados.

Numa entrevista ao vivo, o jornalista Breno Altman, do Ópera Mundi,perguntou se a emergência social não seria maior que a climática. Para Eliane “não há nada superior à emergência climática. Ela não está acima, ou abaixo de nada. Atravessa tudo. Jornalista, hoje, é um jornalista climático, ou não é jornalista”. E dá o exemplo da grande imigração em massa de refugiados climáticos. O refugiado dirá que está fugindo da fome ou da violência. Mas, se questionado um pouco mais, vai explicar que o clima mudou, veio a seca — e com ela a fome e a violência. Uma frase da sueca Greta Thunberg volta-lhe sempre à memória: “Nossa casa está pegando fogo”. E nós? “Nós ficamos sentados no sofá”. O veterano jornalista Ricardo Kotscho considera Eliane “a melhor repórter do Brasil, embora escreva num jornal espanhol, El Pais”. E acrescenta: “De lá, do meio da selva amazônica, ela consegue enxergar melhor do que nós o que está acontecendo no país…”

Pergunte-se a Eliane o que, afinal, é òkòtó, e ela prefere que a resposta seja encontrada no livro. Com meu espaço no fim, pulo para a última pergunta que fiz a Eliane: se ela, como as outras vezes em que estava perto de uma mudança, não estaria sentindo agora um “incômodo”, o banzeiro a puxando para um novo desconhecido. Ela respondeu “não”, porque “estou longe de completar meu processo de reflorestamento e tenho um monte de planos. Estou só no início”.


Livros de Eliane Brum

Rosental, Rosentelex, Rosentalcom.

(Este perfil de Rosental Calmon Alves foi publicado na revista Imprensa de set/out 2021)

O "Grande Guru", segundo o jornal El Pais.

Do “Rosental, repórter policial de O Jornal”, ao “Rosentelex” e atual “Rosentalcom”, o professor Rosental Calmon Alves deixou um rasto de inovações fundamentais para o jornalismo — e não só o brasileiro. Lá está ele, via zoom, em sua casa em Austin, no Texas, bebericando uma taça de Malbec rosé argentino, depois de um dia de trabalho no Knight Center for Journalism in the Americas. “Está um calor danado”, ele comenta.

(Aviso: somos amigos, mas não nos víamos há muitos anos.)

O jornal espanhol El País descreveu Rosental: “Grande teórico do jornalismo na web, grande guru ibero-americano do advento da internet, homem adiantado a seu tempo”. Que o Guru releve que o publiquemos em papel, primeiro, e na internet, depois. Deveria ser o contrário. Ainda não cometemos o “midiacídio”, palavra que ele inventou, no longínquo 1999, para prescrever que só a morte do sistema de fazer jornalismo da Era Industrial abriria as portas para o novo mundo do jornalismo da Era Digital. “Somos a geração da transição.”

O Guru também receita surpreender os leitores. Tento agora, com uma informação pouco conhecida: Rosental Calmon Alves ia ser padre, frequentou seminário jesuíta. Abandonou-o, mas continua católico aos 69 anos. A religião importa, porque “todo mundo tem que ter um norte na vida.” Outra recomendação do Guru: dialogar com os leitores, que não são mais passivos, e contar como é o trabalho para produzir um artigo. Então, conto que Rosental me deu muito trabalho. Tentei entrevistá-lo por duas horas, mas pulularam lembranças de coberturas em que nos encontramos, rivais em jornais concorrentes: voamos com P.C. Farias de Bangcoc para SP; estivemos na crise que levou à invasão americana no Panamá; em El Salvador; em reuniões do FMI e Banco Mundial; no primeiro lançamento de um ônibus espacial após o desastre da Challenger, e o dia a dia em Washington na época da moratória brasileira, encontros Reagan-Gorbachev, a queda do Muro de Berlim, eleições americanas… Digna de nota dessa época foi a declaração do nosso embaixador nos EUA, Marcílio Marques Moreira, ao saber que o Rosental não tinha morrido no Bateau Mouche, no réveillon de 1988: “Muito desagradável ter sido dado como morto”. Ele passava o réveillon navegando defronte a Copacabana, mas em outro barco.

O que mais define Rosental é o adjetivo primeiro. Ele foi o primeiro brasileiro a receber uma bolsa de estudos da Fundação Nieman, da Universidade de Harvard, em 1987. Em 1991, ele criou o primeiro serviço de notícias em tempo real do Brasil — uma parceria entre o Jornal do Brasil e a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. Quatro anos depois, 1995, foi o primeiro a pôr na internet um jornal brasileiro, o JB online, um dos pioneiros na América Latina. Em 1997, deu o primeiro curso de jornalismo online na Universidade do Texas, em Austin. Depois, em 1999, idealizou e organizou o Simpósio Internacional de Jornalismo Online (ISOJ, em inglês), uma conferência anual que organiza até hoje. Com um financiamento de dois milhões de dólares da Knight Foundation, em 2002, ele estabeleceu o Knight Center for Journalism in the Americas. E aí vieram, com sua ajuda determinante, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), o Fórum de Jornalismo da Argentina (FOPEA), do Paraguai (FOPEP) e várias outras similares (a mais recente, a Ajor, Associação de Jornalismo Digital, que reúne dezenas de startups jornalísticas no Brasil, fundada em maio de 2021). E em 2012, ele formatou o primeiro programa de curso aberto online massivo (MOOC, em inglês), único no mundo especializado em jornalismo, pelo qual já passaram 250 mil estudantes de 200 países até agosto deste ano. Claro que, diante disso tudo, Rosental entrou para o Hall of Fame da Associação Nacional de Jornalistas Hispânicos, em 2018.

O início da trajetória que o levou até à taça de Malbec rosé, às vezes branco, do nosso reencontro, foi o ano de 1968, quando ele tinha 16 anos. Já dava os primeiros sinais de pioneirismo: ia fundar uma Associação Estudantil de Imprensa, não fosse detido antes, com alguns companheiros. A ditadura estava no auge. Era “O Ano Que Não Terminou”, descrito por Zuenir Ventura em livro. Rosental estagiou na redação de O Jornal, no Rio, e logo se mudou para Vitória, em 1969, onde morou com o irmão e outras cinco pessoas, entre elas Gerson Camata, senador que seria assassinado 49 anos depois, aos 77 anos.

“Como Camata acordava cedo para fazer um programa de rádio às 7 horas, eu comecei a ir com ele e me ofereci para trabalhar de graça”. Dias depois, numa barbearia, Rosental conheceu o jornalista capixaba Rubinho Gomes, que o convidou: “Apareça lá nO Diário”. Mais que aparecer, deve ter sido uma aparição: terno, gravata, um enorme gravador pré-cassete Philips à mão

“Comecei como repórter e me pagavam 100 cruzeiros em vales semanais (o salário-mínimo era de CR$ 150,00), e sem carteira assinada.” Ele já tinha recebido, antes, o primeiro dinheiro como jornalista, dez cruzeiros, com a venda de uma entrevista com o diretor do Serviço de Proteção ao Índio, “O que há com nossos índios”. Queria guardar a nota com a foto de Getúlio Vargas como lembrança. Mas a gastou no bar Britz, o preferido dos jornalistas de Vitória, na época.

Rosental também teve sorte em sua ascensão. Em busca de um disco-voador, em Marataízes, com um grupo d’O Diário, que afinal não passava de um balão meteorológico, ele encontrou Carlos Imperial, conhecido produtor artístico. “Pedi uma entrevista e ele me convidou para ficar na casa dele, porque estava dando uma festa que tinha, entre os convidados, o tricampeão mundial Tostão, saído de uma operação em Houston”. Outro exemplo de sorte, anos depois, em 1996: só um brasileiro deve ter visto na revista The Economist o anúncio classificado de um concurso na Universidade do Texas. Foi ele. O resto dependeu, é claro, de competência: disputou com 200 candidatos e conquistou a cátedra John S. e James L. Knight. “O segundo presidente daqui gostava muito dessa história. Numa festa de Natal, ele me pediu: -Conta aí como você veio parar aqui…” O próprio Rosental considera “sorte muito grande” ter sido convidado para dar aula na Universidade Federal Fluminense, aos 21 anos. “Eu era mais jovem que meus 55 alunos”. Um ano depois, acumulou o cargo de professor na Universidade Gama Filho. E ele ainda estudava jornalismo.

Rosental zanzou pelas rádios Tupi e Nacional, ao voltar de Vitória para o Rio, até que se fixou no Jornal do Brasil, o seu sonho desde sempre, em 1973 e até 1995, com uma interrupção de um ano em que foi editor-assistente da revista Veja.  A carreira de correspondente internacional começou em 1979, quando foi fazer freelance para a IstoÉ e o Jornal do Brasil em Madri, mas o JB o contratou como correspondente em Buenos Aires, em seguida para o México e as guerras da América Central — e, depois de um segundo período em Buenos Aires e um ano em Harvard, finalmente, o JB o mandou para Washington. Nessa época os colegas correspondentes já o conheciam como Rosentelex, pela facilidade com que dedilhava seus textos no telex, plugado com a redação, enquanto a maioria dos repórteres datilografava nos quartos de hotéis e depois entregava os originais no correio, ou em agências de notícias, ou os lia por telefone para cabines em seus jornais, soletrando palavras.

“Em 1988, eu tive meu momento Aha!” — lembra Rosentelex na transição para Rosentalcom. Foi num seminário do MIT Media Lab em que aprendeu o que estava por vir com a revolução digital. O mundo começou a mudar. E Rosental foi com ele, com a audácia de sempre se atirar nos alvos de sua intuição. É aprender fazendo. Ele cita o poeta andaluz don Antonio Machado Ruiz: “Caminante no hay camino, se hace camino al andar”.

Hoje, jornal de papel ele só lê um, regularmente: o New York Times de domingo. Para se manter informado, bastam-lhe as newsletters, “um grande fenômeno”. Elas superam “um dos grandes problemas do jornalismo online — o saco sem fundo de um fluxo interminável”. Do Brasil ele lê o Meio, lançado pelo jornalista Pedro Dória, que elogia muito; e o Poder Drive e o Poder360, do jornalista Fernando Rodrigues, a quem ele mandou uma mensagem cinco minutos depois de saber que a Folha de S. Paulo o havia demitido: “Foi a mão de Deus”, escreveu. É que “ele estava totalmente equipado para criar a um site para cobertura de Brasília similar a um de sucesso nos EUA, o Político. “E ele fez melhor do que eu faria”, em termos estratégicos, ao lançar primeiro uma newsletter paga e depois o site aberto. No seu cardápio matinal, Rosentalcom inclui ainda a Nexo, “muito boa também”. No final da tarde em Austin, já noite no Brasil, ele assiste o Jornal Nacional, pela Globo Internacional: “Eu acho que o (William) Bonner tem feito um trabalho excelente”.

Quando foi para os EUA, Rosental prometeu à mulher, Cláudia, que não ficariam mais do que quatro anos. Os quatro filhos do casal se tornaram adultos, se formaram em universidades americanas, e 25 anos se passaram. Ele vai completar 70 anos em dezembro. Tem “tenure”, ou estabilidade, o que lhe dá mais vantagem que os ministros do STF: não pode ser demitido e a universidade não lhe fixa prazo algum para se aposentar. “Um professor daqui, hoje com 99 anos e ainda na ativa, ganhou o Prêmio Nobel em 2019, aos 97. Ele criou a bateria que permitiu a popularização dos celulares e recentemente criou a bateria que permitirá a popularização dos carros elétricos. O professor John Foster Dulles, que o Elio Gaspari chama de O Primeiro Brasilianista, morreu aos 95 anos de idade, quando preparava as aulas para mais um semestre na nossa universidade”.

Rosental é um workaholic,um trabalhador compulsivo. Poderia trabalhar sete meses e meio por ano, indo à universidade duas vezes por semana. Mas não: ele se dedica muito mais, e até se cria funções extras. Uma delas é o Knight Center, que ele diz ser um labor of love — um trabalho de amor, “uma forma de ajudar meus colegas jornalistas na transição digital”. Outro é participação em projetos jornalísticos, como o Texas Tribune, jornal digital sem fins lucrativos, e que se tornou um grande sucesso. “Faz anos que vou a conferências de jornalismo mundo afora e ouço o Texas Tribune ser citado como um exemplo a seguir”. Ele ainda faz parte de 15 Conselhos Administrativos e Conselhos Consultivos importantes, entre eles o American Journalism Project, Nieman Foundation, na Universidade de Harvard, e o Conselho Reitor da fundação criada por Gabriel Garcia Marquez, que dá os Prêmios Gabo de Jornalismo. É também o presidente do conselho da Universidade de Columbia, que concede o Maria Moors Cabot, o prêmio de jornalismo internacional mais antigo do mundo.

O repórter Rosentelex foi sempre furão. Agora, ele dá furos no universo acadêmico, onde se coloca como um “repórter infiltrado”. Chamam-no de “doutor”, e ele corrige: “Não sou do doctorland, mas do journalismland”, um “evangelizador digital”. Ele começou a ensinar jornalismo online quando tinha que explicar aos alunos, primeiro, o que era internet. Hoje, todos são “jornalistas” — tuiteiros, blogueiros, youtubers , publicam no Facebook, no Instagram e participam de infindáveis listas no WhatsApp, e daí o naufrágio numa perigosa cacofonia, um ecossistema fértil para fakenews e formação de tribos virtuais, um fenômeno que em inglês tem um nome, homophily, “a tendência a se relacionar apenas com pessoas que pensam como você”. É a infodemia, a infoxicação. Por essa confusão toda, Bolsonaro tem uma live toda quinta-feira, e o presidente de El Salvador, candidato a ditador, diz que o jornalismo não precisa existir mais. Donald Trump tinha 80 milhões de seguidores no Twitter, 30 milhões no Facebook e 20 milhões no Instagram. A vacina para essa nova pandemia é a alfabetização jornalística, a explicação, para a população, qual a diferença entre jornalismo e o que parece ser jornalismo. Rosentalcom inverteu a frase “meios de massa” para “massa de meios”. De um sistema mídia-cêntrico para outro, “eu-cêntrico”. A pós-cacofonia poderá até valorizar o trabalho jornalístico, realçando a busca da verdade e baseado em princípios éticos e deontológicos, como está demonstrando a cobertura da Covid-19 em alguns jornais: “O jornalismo está salvando vidas”.

O jornal impresso se tornou subproduto do digital, mas muitos estão afundando devido à ruptura de seus modelos de negócio.

Exceção dos três grandes jornais dos EUA: o New York Times, com a maior redação de sua história, 1.700 jornalistas, e 8 milhões de assinantes em sua plataforma digital; e o Washington Post e o Wall Street Journal, que bombam com o paywall, uma porta que se abre aos que pagam assinatura.

“Mas os paywalls não são uma solução mágica que serve para todos”, avisa Rosentalcom. “Podem, sim, ser parte da solução”. Cerca de 2 mil jornais fecharam nos últimos 15 anos, nos EUA, principalmente os locais. Mas brotam, atualmente, por toda parte, novos modelos de empresas jornalísticas nativas digitais, incluindo muitas sem fins lucrativos. Como membro do Conselho de Diretores do American Journalism Project, Rosental participa de um esforço de 50 milhões de dólares para ajudar jornalistas a criar jornalismo local sem fins de lucro. “É muito simples. Você forma uma organização jornalística como se fosse uma empresa, só que ela não tem donos para receber eventuais lucros. Se gastarmos menos do que faturamos, chamamos o que sobra de superávit e, em vez de usá-lo para distribuir dividendos aos acionistas, o reinvestimos na operação ou formamos um fundo de reserva para os períodos de vacas magras”.

Para Rosental, “entramos numa outra Era Gutenberg e estamos num momento de ruptura e de transição. Não dá mais para continuar fazendo jornais do mesmo jeito”. Ele receitou, numa

entrevista recente: “Precisamos, todos, fazer uma urgente autocrítica. E a primeira reflexão nos leva a depor as armas da arrogância e assumir a batalha da humildade. A comunicação, na família, nas relações sociais e no jornalismo, não é mais vertical. O diálogo é uma realidade cultural. Os oráculos morreram. É preciso ouvir o leitor. Com respeito. Com interesse real, não como simples jogada do marketing. O leitor não pode ser tratado como um intruso.”

Ao leitor informo, seguindo a recomendação de Rosentalcom, que o fim, aqui, é determinado pelo espaço. Fim.

Verdade? Mentira?

No telão, quatro Barack Obama, lado a lado, falam simultaneamente. Aí o gênio Supasorn Suwajanakon pergunta à plateia:

– Qual deles é o verdadeiro?

– Nenhum – ele próprio responde.

Se uma foto vale mil palavras, quantas valeria um vídeo? Na campanha eleitoral para o governo de São Paulo alguém produziu um vídeo em que João Dória aparecia numa cama com várias mulheres. Mas o sultão no harém era tão mal feito que logo desapareceu. 

Barack Obama estrela um outro vídeo em que mostra o momento em que já não é mais ele falando o que está dizendo. Então, adverte:

-Estamos entrando uma era em que nossos inimigos podem fazer qualquer um dizer qualquer coisa em qualquer momento. 

O gênio do Google Brain, com esse nome impronunciável, Supasorn Suwajanakon, teria nascido onde? Parece indiano, país avançado em tecnologia. Hoje, ele é palestrante da Vistec, um novo instituto de pesquisa em Rayong, na Tailândia. Diz que podemos chamá-lo de “Aek”, obrigado. Seria tailandês? Googlei sem tempo, quase estourando o deadline. Depois de percorrer jornais e sites brasileiros e internacionais que falaram dele e exaltaram seu currículo, desisti. Já tinha o bastante para mais um dos motivos do declínio de credibilidade da mídia: as notícias incompletas, descaso com a curiosidade dos leitores, ouvintes ou telespectadores. Quantas vezes na imprensa lemos sobre um jogo de futebol em que falta o essencial: o resultado?

Temos aqui o futuro, o deepfake, e o presente/passado do jornalismo, a falta de informações nas notícias, que colaboram para o estado de desconfiança que paira sobre toda a mídia.

Mas não só.

“Califórnia institui a sharia” (a lei islâmica).

NADA É REAL

“Ex-presidente Bill Clinton se tornou assassino em série”. 

“Michelle Obama está realmente namorando Bruce Springsteen?”

“Fazendeiro de Iowa afirma que Bill Clinton fez sexo com vaca durante Festa da Cocaína”.

Impressionante: seis milhões de pessoas acreditam nestas manchetes do site America’s Last Line of Defense (A última linha de defesa da América), apesar de avisadas, 14 vezes, que “Nada nesta página é real”. Mas para a audiência que lembra a “Velhinha de Taubaté”, do escritor Luís Fernando Veríssimo, tudo é factual. O incrível, repassado, viraliza. E Christopher Blair, 46 anos, embolsa 15 mil dólares em publicidade por mês. Sua ideia original era fazer um site de humor, como a Falha de São Paulo. 

“Não importa o quanto racista, intolerante e ofensivo, ou tão óbvio que seja fake, os visitantes voltam sempre” – disse Blair ao jornal The Washington Post em novembro. Em sua página do Facebook, ele pergunta: “Qual o limite? Há um ponto em que as pessoas, descobrindo que estão comendo lixo, voltarão a realidade?”

Sobre a mesa de Blair há uma frase definidora: “Vivemos numa idiocracia”.

O Post foi ver o outro lado. Encontrou a senhora Shirley Chapian, 76 anos, em Pahrump, Nevada, diante de uma petição para impedir a lei da sharia na Califórnia, “antes que seja tarde”, na tela do computador. Ela clicou: “Like”. Aí surgiu outro pedido: “Compartilhe para ACABAR com a atual invasão de migrantes”. Ela: “Share”.

A senhora Chapian só sabe do mundo através do monitor de seu computador. Viveu na Europa, San Francisco, New York e Miami, foi uma das primeiras mulheres a entrar para a National Organization for Women, onde batalhou pela equiparação aos salários de homens. Parou de assistir os noticiários de TV ao constatar quão distantes ficavam em relação ao que lia online. “Onde estava a notícia de que (o bilionário doador) George Soros foi um nazista assumido?” 

Ela diz que não é do tipo que produz teorias conspiratórias, “mas…”

TRUMP, UM VÍRUS

Quando o presidente Donald Trump tuíta, 56 milhões de seguidores o leem. Ele não precisa da imprensa, a que chama de “Inimigo do Povo”. As notícias que o desmentem ou contradizem são rotuladas de fake-news, duas palavras que não vão bem juntas. Notícia é o relato de um acontecimento real. E Fake, falso. Um exemplo de fake-news mundial foi a informação divulgada pelos Estados Unidos, com apoio do Reino Unido, de que o Iraque de Saddam Hussein tinha um arsenal de armas de destruição de massa, base para a guerra de 2003. Já se passaram 15 anos, e nada: deve ter sido apenas uma miragem no deserto.

O presidente eleito Jair Bolsonaro também tuíta, dispensando a mediação dos meios de comunicação. Proíbe a entrada da TV Brasil, do próprio governo, quando recebe as demais tevês para entrevistas. E anunciou que irá fechá-la. Ameaçou o jornal Folha de S. Paulo com o corte de propaganda oficial. Com os filhos, taxa notícias de fake-news, sem contribuir para que se tornem truth-news. Já o chamam de Trump Tropical, embora tenha recuado de peitar a China e mudar a embaixada brasileira de Tel-Aviv para Jerusalém, seguindo os passos do Trump do Norte.

A revista americana The Atlantic diagnosticou: Trump é um vírus. A mídia, um hospedeiro, que o distribui, causando infecção. Dilema 1: não se pode deixar de noticiar o que diz um presidente. Dilema 2: a 26 mentiras ou falsidades por dia, o presidente já chegou a 5 mil desde que tomou posse. Dilema 3: um vírus sempre mata o hospedeiro. Dilema 4: ainda não há um antivírus efetivo. 

“Crianças mentem dizendo que escovaram dentes; políticos esticam verdades no calor da campanha; repórteres já foram flagrados mentindo; escritores, também; empresas; esposas e, naturalmente, o governo”, escreveu o professor de filosofia da Universidade de New England e autor do livro “Porque Mentimos”, David Livingstone. Mentiras estão cada vez mais tão comuns como a verdade. Monótono ouvir, entre acusados da Lava Jato, que nada sabem, ou que provarão nos autos que estão com a verdade.

A própria mídia contribui também para seu crescente descrédito. Como jornais importantes permitem a publicação de matérias delicadas baseadas em fontes anônimas? Ou fonte alguma? Como um repórter se torna mais importante que a notícia? Por que editores permitem a coleta de dados pela internet? Muita demissão, pelo decréscimo de circulação e êxodo dos anunciantes, sobrecarrega os sobreviventes, pressionados por deadlines cada vez mais apertados. Acabou o ménage à trois entre jornais, publicidade e leitores.

Jornais centenários estão competindo com as notícias circulando velozmente na internet, acessada por bilhões de pessoas. O WhatsApp já passou dos 800 milhões de usuários. Twitter, 300 milhões (estimativa, porque a empresa não divulga números). “Todos se tornaram jornalistas”, proclamou o professor da Universidade de Colúmbia, Clay Shirk, em seu livro Here Comes Everybody. A verdade acabou sufocada por tantos tuiteiros. No Oriente Médio, israelenses e palestinos postam versões opostas, aberta uma outra frente de guerra. Cartas aos jornais incluem spam que exalam ódio. Fotos de cataclismos do cinema surgem como se fossem fotos do novo furacão em Miami. 

SOLUÇÃO À VISTA?

Quem mantiver a credibilidade na Torre de Babel da mídia poderá ter seu futuro assegurado. OK, mas não será tão simples assim. Ser independente é servir ao público, não ao lucro. Exemplos são o ProPublica, americano; El Diario, espanhol; OjoPublico, peruano; Connectas e La Silla Vacia, colombianos; Animal Político, mexicano; e Nexo, brasileiro. Há mais no Brasil, como Mídia Ninja, Jornalistas Livres e Nós, Mulheres da Periferia, mas eles militam para minorias. Atender ao público, não aos anúncios ou grupos, o princípio da sobrevivência,  deverá secar os investimentos no jornalismo tradicional que não migrar para o mundo da multimídia, interatividade e múlti plataforma, exceção aos grandes internacionais – The New York Times, New Yorker, The Economist, The Washington Post e os principais europeus. Várias organizações já existem para a defesa dos independentes.

O jornal desse novo tempo que faz mais sucesso é o holandês De Correspondent, de 2013, com 56 mil leitores que pagam 63 dólares por ano, gerando o suficiente para manter 21 jornalistas fulltime e 75 freelancers. Com a bênção do professor Jay Rosen, da Universidade de Colúmbia, em New York, uma edição norte-americana já está em gestação, com o apoio de 515 mil dólares da Knight Foundation e do Democracy Fund. 

Aclamado “embaixador” do The Correspondent nos Estados Unidos, Jay Rosen explicou o que ele chama de “otimização para a confiança” – o único antidoto para a perda de credibilidade. Nada de anúncios, nem caça-cliques. “Se você não está pagando pelo produto, você é o produto”, diz ele. Não há nenhum grupo a ser atingido ou a satisfazer. Nenhuma informação sobre o assinante vai para terceiros, nem mesmo para alguns serviços usados, como YouTube, Vimeo e Sound Cloud. Liberdade nas 24 horas do ciclo de notícias. Uma importante questão: como tratar o noticiário que está em todos os jornais? A resposta é interessante: “Não o tempo, mas o clima”. Quer dizer que a redação pode ignorar os flashes do dia se focar nos padrões que os produzem. Ninguém cobrará pontos de vista aos editores. Por fim, o fundamental: deverá haver uma rica interação com os leitores — os donos do futuro jornalismo com credibilidade.

http://portalimprensa.com.br/noticias/ultimas_noticias/81418/perdemos+a+credibilidade+2

Galeria

Todas as capas do Presidente

 

Este slideshow necessita de JavaScript.

 

No The Wall Street Journal, o casal Bolsonaro, desfilando de Rolls Royce, foi a foto do alto da primeira página. No El Observador, uruguaio, a foto do presidente agitando a bandeira do Brasil no Parlatório virou pôster, com o título: Entre el miedo y la esperanza. La Repubblica, italiano, texto-legenda para o desfile em carro aberto: Bolsonaro no trono. E Trump celebra. Em Portugal, o destaque era esperado. No Público: A ultradireita chegou ao Planalto. E no Jornal de Notícias: Vamos unir o povo. No The New York Times é preciso procurar o Brazil na capa. Mas lá está ele, no pé da página, uma notinha com foto. Já no The Washington Post, com uma foto 3×4 de Bolsonaro, é a manchete: Populista toma o leme no Brasil. Manchete também do La Nacion, de los hermanos argentinos: Bolsonaro prometió orden, combatir la corrupción y liberar a Brasil del socialismo. No Clarín, Bolsonaro roda a bandeira: vai liberar a Brasil de la corrupción y el yugo ideológico. O Financial Times, com Bolsonaro fazendo continência, e Michelle acenando, lembra que o presidente prometeu lutar contra a corrupção. É a foto central do espanhol El País: Bolsonaro jura el cargo: Brasil y Dios por encima de todo. O ADN, paraguaio, lembra que o Brasil está agora MÁS CERCA DE EE.UU E ISRAEL. A surpresa é israelense. Nada na capa do Haaretz. E no Jerusalem Post tem sim a foto pequena de Netanyahu e Bolsonaro, mas o título é sobre o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, garantindo que a retirada dos Estados Unidos da Síria, não trará consequências para Israel. Os jornais de Cuba, Venezuela e Nicarágua, países convidados desconvidados, não deram nada em suas capas.

 

 

Um Muro no Natal Americano

Trump “Noel” paralisou o governo americano, parcialmente, nesta véspera de Natal, porque não ganhou o muro na fronteira com o México que tanto quer há dois anos. 

Mais de 420 mil funcionários públicos federais vão trabalhar sem receber e nove departamentos fecharam ao primeiro minuto deste sábado 22, entre eles o de Segurança Interna, Justiça, Interior, Transporte, Comércio e de Relações Exteriores. Parques nacionais e a Estátua da Liberdade estão fechados e não serão abertos nem nos feriados de fim de ano, se o impasse entre Casa Branca e Congresso perdurar.  Também não há emissão de passaportes.  

Wall street amargou a perda de mais 415 pontos na sexta-feira e a Nasdaq, 20% , no fim da semana considerada histórica e decisiva para a administração Trump. 

O chefe do Pentágono, general Jim Mattis, apelidado de “Cachorro Louco”, renunciou na quinta-feira, depois  de anunciada o que nem ele sabia: a retirada dos dois mil soldados americanos da Síria, expondo parceiros curdos a ataques da Turquia, que os consideram terroristas, e permitindo a expansão iraniana em território sírio.  

Na carta em que entrega o cargo em fevereiro, o general Mattis induz à conclusão de que Trump não age em função do interesse nacional, mas pessoal. O exemplo logo lembrado pela imprensa foi o da Trump Tower que ele planejava levantar em Moscou, semelhante à de New York, mas que precisava do aval do presidente russo Vladimir Putin, a quem daria, em troca, uma das milionárias suítes. Seria apenas um negócio, não fosse o incorporador um candidato à Presidência dos Estados Unidos que nada contou aos eleitores em toda a longa campanha eleitoral, e era obrigado a fazê-lo por lei. 

“Ele traiu a América”,  deu um jornal. 

Para a abrupta retirada da Síria, que surpreendeu os aliados americanos no Oriente Médio, lembra-se que a decisão foi anunciada após uma conversa telefônica com o presidente turco Recep Erdogan, que ameaça com revelações sobre  a execução do jornalista Jamal Khashoggi, em Istambul, o príncipe herdeiro saudita Bin Salman, tido por mandante e blindado pela Casa Branca.  

O muro na fronteira seria pago pelo México, quando anunciado nos comícios eleitorais. Mas agora, véspera em que a Câmara terá maioria Democrata, a partir de 3 de janeiro, a conta passou para os contribuintes — e mais: ou os 5 bilhões de dólares para iniciar a obra estivessem no orçamento provisório para que o governo funcione até  8 de fevereiro, ou Trump não o assinaria, provocando, como afinal provocou, o fechamento parcial do governo. Os Republicanos bem que tentaram pôr o muro de passa-moleque na legislação de financiamento quebra-galho do governo. Mas aí encontraram um muro intransponível dos Democratas.  

O presidente chegou a dizer que teria orgulho em assumir a responsabilidade por parar o país. Porém, ele não demorou a culpar os Democratas. Num dos milhares de tuítes disparados sobre o imbróglio, alguém perguntou: “Que tal fechar o governo e não abrir nunca mais?” O senador Charles Schumer (D-New York) assegurou a Trump ao falar no Senado: “Você não vai ter seu muro. Não o terá hoje, nem na semana que vem e muito menos em janeiro, quando os Democratas tomarão conta da Câmara”.

Paz e Neve em Jericó

o-caminho-de-saida-de-jerico

Jericó – A festa foi já uma comemoração pelo nascimento de um estado palestino: Biladi, Biladi, cantava a multidão embandeirada com as cores verde, branca, vermelho e preta, a bandeira palestina antes proibida por Israel. Biladi, “nosso país, nossa terra”, continuava a canção: “Quero dar a você, Biladi, todo meu amor e meus sentimentos”.

  O fundo era de tambores na cidade que Josué derrubou com trombetas de chifre de carneiro. trombetasJericó, a mais antiga do mundo, e a primeira oficialmente de uma futura Palestina, teve seu dia de carnaval. Caminhões abriam espaço numa multidão delirante como se fossem trios elétricos baianos. Bandas juvenis marchavam. Recebia-se a imprensa, na entrada da praça principal, com a saudação:

  “Benvindo ao meu país”.

  A população de Jericó ficou tão feliz com a perspectiva de paz que já arranjou nada menos que cinco casas oficiais para “o presidente Yasser Arafat”. Alguns mais emocionados não conseguiram manter-se parados, mesmo dançando, e subiram e desceram com seus carros enfeitados de bandeiras e retratos de Arafat a estrada para Jerusalém.

   Uma façanha: a estrada vai de 250 metros abaixo do nível do mar para 820 metros acima em apenas 20 minutos. Sobe-se do lugar mais baixo do mundo para a maior altitude espiritual da Terra Santa, do sufoco de um oásis para o frescor do Monte das Oliveiras. Não encontraram obstáculos pelo caminho. E buzinaram muito em Jerusalém. A polícia os olhou à distância. No final do dia, israelenses contagiados içaram também suas bandeiras na cidade. E a paz de Washington se refletiu pela primeira vez realmente entre israelenses e palestinos.

  Uma bandeira palestina já tremulava em Jerusalém desde o começo da tarde, na casa do negociador Faissal Husseini, a Oriental House. Depois outras foram aparecendo nos carros, e no final do dia eram o cenário. Os retratos de Arafat também se multiplicaram. Mesmo o inacreditável podia ser ontem fotografado: soldados israelenses posando diante de bandeiras palestinas. Não houve choques. A polícia até desviou o trânsito para dar passagem a uma passeata iniciada diante da Porta de Damasco, na velha Jerusalém. E de cima de um prédio em Jericó outros soldados fotografavam a alegria da multidão dançando na praça.

clinton_15913

Na Casa Branca

  Nenhum telão foi produzido para que o povo acompanhasse o aperto de mãos entre Rabin e Arafat, transmitido ao vivo pela TV israelense. Às 5 horas em ponto, um orador subiu num palanque, e puxou o “Biladi, Biladi”. A assinatura dos primeiros acordos só ocorreu 45 minutos depois, mas ali ninguém ficou sabendo. “Todos meus sonhos estão aqui”, disse Amim Shooman.

  O orador incendiava a festa com notícias quentes. Ele gritou, por exemplo, que “o presidente Arafat” ia pedir ao primeiro-ministro Rabin, na Casa Branca, a libertação de todos os prisioneiros palestinos. Depois, ele prometeu uma mensagem do próprio Arafat para dentro de uma hora. O termômetro subiu mais no oásis, onde as tâmaras e o suco de laranja são inesquecíveis. Vez em quando, ele fazia um anúncio, tipo “Gaza está com Arafat”, ou “toda a Cisjordânia festeja”.

  O estudante Ihab Dawich, com 18 anos, nunca viveu em Jericó sob o domínio de um país árabe, só israelense. “Estou muito feliz”, ele contou. Uma criança, pelo microfone, lembrou aos outros jovens da festa como Israel ocupou a Cisjordânia em 1967, durante a Guerra dos Seis Dias. Não havia animosidade contra Israel.

   Ao ser sobrevoada por um helicóptero israelense, com fotógrafos, a multidão mostrou o V da vitória e levantou bandeiras. Só não precisava nevar. Mas os militantes do Fatah, o movimento de Arafat dentro da OLP, acharam que ficaria bonito, se nevasse. Então, do alto de um prédio foram despejadas gotas de sabão que lambuzaram lentes de televisão e cabelos dos repórteres, levadas para o lado por um ventilador, e não para baixo. A paz será como essa neve no deserto?

nobel - operamundi

Os três Nobel da Paz (foto Operamundi)

As novas Repúblicas das Bananas, segundo Trump.

Cuba, Colômbia e México receberam recados ameaçadores do presidente Donald Trump e de seu secretário de Estado Marco Rubio: eles podem ser os próximos a sofrer intervenção direta dos EUA, depois da Venezuela.

“Se vivesse em Havana e fizesse parte do Governo, estaria preocupado”, disse Rubio, filho de refugiados de Cuba e ex-senador republicano pela Flórida. “Cuba é uma nação em crise, em grave crise, e queremos ajudar o povo”.

A ameaça ao presidente da Colômbia, Gustavo Petro, foi feita pelo próprio presidente Trump: “Tome cuidado…” E também: “Fique de olho”. Motivo: “Os laboratórios colombianos de cocaína”.

Quanto ao México, será necessário “fazer alguma coisa”. Trump acha que são os carteis de droga que que governam o país e não a presidente e “amiga” Claudia Sheinbaum, “uma boa mulher” que já rejeitou vários pedidos de intervenção do exercito dos EUA contra os narcotraficantes mexicanos.

A reatualização da Doutrina Monroe, de 1823, cujo lema era “A América para os americanos”, e com o presidente Trump passa a ser “A América para os Estados Unidos”, traz de volta o mote de “República das Bananas”, não no sentido original de países instáveis e dependentes de um único produto sob controle estrangeiro, mas designando a perda de soberania e a vulnerabilidade de nações sob pressão direta e ameaça de intervenção norte-americana.

O governo Trump indicou que pretende reafirmar e aplicar a sua versão da Doutrina Monroe para restaurar suas prioridades na América Latina, considerada um espaço para suas estratégias de segurança. A Venezuela foi a primeira cobaia.

Por coincidência, a captura de Nicolás Maduro ocorreu no aniversário de 36 anos da captura de Manuel Noriega, que era o presidente do Panamá, país do qual Trump, desde que reassumiu a Casa Branca, em janeiro de 2025, repete que quer de volta o canal, que liga o Atlântico ao Pacífico. Construído e administrado pelos EUA, e inaugurado em 1914, o Canal do Panamá foi transferido para o controle panamenho em 31 de dezembro de 1999.

A diferença com a Venezuela é que no Panamá havia, e ainda há, uma base com tropas americanas. O “Cara de Pinha”, como Noriega era chamado popularmente, trabalhou para a CIA algum tempo e acabou se rendendo, e não sequestrado, depois de dias de rock a todo volume de potentes alto-falantes para que não conseguisse dormir dentro da Embaixada do Vaticano, onde tinha se refugiado. Morreu em prisão domiciliar com câncer no cérebro, em 2017.

Na casa de Noriega foi encontrado um saco com pó branco logo classificado como cocaína. Eu estava lá, impressionado diante de um altar montado por pais e mães de santo importados do Brasil “Cara de Pinha” era um místico. Também cultuava espíritos e ancestrais com a religião Vodu, popular no Caribe. A “cocaína” usada para confirmar que ele traficava drogas, descobriu-se depois, era tamale, uma massa cozida em folha de bananeira para rituais de vodu.

Em abril de 2025, o Arquivo Nacional de Segurança dos EUA abriu as atas secretas das reuniões de um Grupo Especial e do Conselho Consultivo Presidencial de Inteligência Estrangeira (PFIAB), durante as presidências de John Kennedy e Lyndon B. Johnson, nas décadas de 50 e 60, revelando a grande extensão do intervencionismo americano em vários países, entre eles o Brasil, Chile, Guiana Britânia, Haiti, Cuba, Itália e Congo.

Sobre o Brasil: “[A CIA] está realizando uma ação secreta no movimento trabalhista e a CIA acredita que o controle comunista pode ser enfraquecido”, disse Richard Helms, Vice-Diretor de Planos da CIA, em briefing ao PFIAB, em 10 de setembro de 1963.

Sobre o Chile: “as próximas eleições presidenciais no dia 13 de setembro são vistas com séria preocupação” (Richard Helms ao PFIAB, em 5 de junho de 1964), alertando que “Os chilenos de política constitucional aceitariam um comunista eleito regularmente como presidente e não tomariam medidas de golpe para tirá-lo do cargo”. A CIA forneceu 750 mil dólares em março de 1964, e 1,25 milhão de dólares em maio, para a campanha do Eduardo Frei, do Partido Democrata Cristão, que governou o chile entre 1964 e 1970.

Sobre o Haiti: “todos preocupados com o projeto concordam que Duvalier deve ser removido de uma maneira ou de outra” (Coronel J.C. King, chefe da CIA para operações do Hemisfério Ocidental).

Sobre uma mudança de estratégia em relação a Cuba: “de ataques externos para operações internas de sabotagem” (resumo do briefing de Richard Helms ao PFIAB). A CIA, revelou-se, possuía em Cuba 108 agentes secretos ativos que realizavam dez operações “negras” por mês contra dissidentes.

A Operação Condor, na década de 1970, foi uma aliança secreta entre as ditaduras militares da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, para reprimir opositores políticos e movimentos de esquerda, com apoio da CIA e do governo americano. Agentes de segurança de um país atuavam em outros, tinham permissão para sequestrar, prender, torturas e assassinar. O objetivo era a erradicar qualquer forma de “subversão”, mesmo as dissidências não violentas de esquerda e centro-esquerda. A Operação Condor deixou muitos desaparecidos políticos e foi responsável pelo assassinato do ex-chanceler chileno Orlando Letelier, em Washington, em 1976.

(Foto: Big Media/Divulgação)

A Doutrina Monroe pode ser considerada a primeira intervenção americana no hemisfério sul. Ela foi promulgada em 1823 para impedir que países europeus interviessem nas nações recém-independentes das Américas, que os EUA queriam em sua órbita de influência.

Em nome dela, os EUA anexaram cerca de 50% do território mexicano, na guerra entre os dois países entre 1846-48. Cinquenta anos depois, em 1898, ocuparam Cuba e Porto Rico. Em 1903, apoiaram a separação do Panamá da Colômbia, e assumiram o controle do Canal do Panamá. De 1906 a 1909, voltaram a Cuba, com soldados. Entre 1912 e 1933 surgiu o nome Repúblicas das Bananas, quando os EUA garantiram governos aliados na Nicaragua e Honduras, entre 1915 a 1934; dominaram o Haiti, de 1916 a 1924; e invadiram a República Dominicana, para proteger os interesses de empresas como a United Fruit e a Standard Oil. Em 1954, promoveram com a CIA um golpe contra o presidente da Guatemala, Juan Jacobo Árbens Guzmán. Em 1961, fracassaram ao invadir a Baía dos Porcos, em Cuba, e em 1962 bloquearam a ilha, endurecendo o embargo comercial. Em 1964, apoiaram o golpe contra João Goulart no Brasil. E em 1973, estiveram por trás do golpe que derrubou Salvador Allende, no Chile. De 1975 a 1980, promoveram a Operação Condor. Em 1983, invadiram Granada para derrubar o governo marxista.

A Doutrina Monroe, na América Central, levou os EUA a apoiar os Contras na Nicarágua, a financiar o governo de El Salvador contra a guerrilha do grupo Farabundo Marti, a capturar Noriega no Panamá, a apoiar uma tentativa de golpe contra Hugo Chávez na Venezuela, a dar um golpe contra Manuel Zelaya, em Honduras, e a reconhecer Juan Guaidó, em 2019, como presidente interino da Venezuela.

Em 3 de janeiro de 2026, uma nova era da Doutrina Monroe foi iniciada, sob o presidente Trump, que agora já ameaça próximas intervenções contra Cuba, Colômbia e México.

REMÉDIOS MORTAIS

A receita perigosa e acidental que levou Lô Borges e muita gente boa no Brasil, nos EUA e no mundo todo.

O que Lô Borges teria em comum com Michael Jackson, Prince, Whitney Houston, Marilyn Monroe e Judy Garland? Todos morreram por intoxicação medicamentosa.
E qual a diferença entre eles? Os medicamentos da intoxicação de Lô Borges não foram revelados até agora, nem se sabe se foram prescritos por algum médico, ou se ele se automedicava.
Michael Jackson morreu, em 2009, por intoxicação aguda da mistura do anestésico Propofol (Diprivan) e benzodiazepínicos (Xanax, Rivotril, Valium e Ativan). Seu médico pessoal foi condenado por homicídio culposo.
O ator e músico Heath Ledger misturou Oxidona, Hidrocodona, Diazepan, Alprazolam e Dexilamina. Morreu intoxicado em 2008.
Prince morreu de overdose acidental de Fentanil, tomado em pílulas falsificadas de analgésicos, em 2016.
A cantora Whitney Houston afogou-se, acidentalmente, sob efeito de uma mistura de substâncias psicoativas, entre elas cocaína e sedativos, em 2012.

Marilyn Monroe (em 1962) e Judy Garland (em 1969) morreram intoxicadas por barbitúricos, como Nembutal e Hidrato de Cloral. Nessa década de 60, a dose terapêutica de Gardenal, por exemplo, era próxima da dose letal, explica o doutor Ronaldo Laranjeira, médico psiquiatra com especialização em dependência química, professor titular de Psiquiatria na UNIFESP e coordenador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas na Escola Paulista de Medicina. Para ele, é muito importante que se faça um alerta às perigosas misturas de drogas e álcool que podem matar.


Os barbitúricos foram substituídos pelos benzodiazepínicos, dos quais o mais vendido, no Brasil, é o Rivotril. Misturado ao álcool, ele se torna responsável pela maior parte das mortalidades, sem falar que também provoca quedas que matam a população idosa.
“O Rivotril é mais vendido do que Dipirona (analgésico para alívio da dor e antitérmico), muito popular no Brasil” – comentou o dr. Laranjeira.
Aos benzodiazepínicos, seguiram-se as chamadas drogas “Z” , de Zolpidem, como o Stilnox e o PATZ, uma versão que se absorve sob a língua, mais rápida, e que pode dar mais problemas, por deixar quem o toma em um estado de semi consciência perigoso para falar com outros, ou escrever mensagens no WhatsApp. Misturadas ao álcool e a benzodiazepínicos podem provocar quedas, trombadas no trânsito, ou parada respiratória.
Nos EUA, cerca de 36 milhões de adultos, com mais de 65 anos, caem a cada ano, o que resulta em três milhões de atendimentos de emergência. Entre os beneficiários do Medicare que tomaram algum benzodiazepínico, 0,9% tiveram um evento de queda com lesão em 30 dias. Entre 1970 e 2015, 220 personalidades americanas, algumas mais outras menos conhecidas, morreram por intoxicação medicamentosa.
Só em Goiás, entre 2020 e 2024, morreram 2.604 pessoas por “comportamentos causados pelo uso de substâncias psicoativas (dependência química) e intoxicação (acidental e intencional por medicamentos e drogas ilícitas)”, pelos dados do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM). Em quatro anos, o aumento saltou 70%.
A Sociedade Brasileira de Clínica Médica informou que mais de 14 mil pessoas foram internadas por intoxicação medicamentosa no Brasil, em 2022 — um aumento de 18% comparado ao ano anterior. Mas 1,7 milhão procuraram atendimento médico por reação adversa ou interação entre remédios. A ata da Comissão de Assuntos Sociais do Senado Federal, de 15 de maio de 2024, informa o registro de 20 mil casos de intoxicação medicamentosa no Brasil, com 50 óbitos.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), cerca de 10,2% da população adulta brasileira já receberam diagnóstico médico de depressão. “Mas os antidepressivos são relativamente seguros, porque não têm efeito calmante ou sedativo, nem são fontes de intoxicação”, diz o doutor Ronaldo Laranjeira.
Um levantamento da Funcional Health Tech junto a mais de 2,5 milhões de beneficiários brasileiros indicou que, entre adultos de 29 a 58 anos, o uso de antidepressivos cresceu 12,4% no período de junho/2023–maio/2024 para junho/2024–maio/2025. No mesmo levantamento, o uso de ansiolíticos apresentou queda de 10,6% no mesmo intervalo.
Uma pesquisa da Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ) em parceria com o Datafolha sugeriu que cerca de 89% dos brasileiros com mais de 16 anos disseram que já se automedicaram — ou seja, tomam remédios por conta própria, sem orientação médica.
Em outra fonte, um levantamento mais recente apontou que 28% dos consumidores responderam que “tomam remédios sem orientação” quando têm sintomas leves. No entanto, essas cifras se referem à automedicação em geral (analgésicos, antigripais, etc.) — não necessariamente a medicamentos controlados ou de tarja preta.

Elis, Cazuza, Rita Lee


A MPB tem outros casos anteriores a Lô Borges:
Cazuza morreu em 1990, de complicações da AIDS, associadas ao uso pesado de ansiolíticos e analgésicos.
O baterista Régis Tadeu Filho, o “P.A.” do RPM, morreu, em 2015, por overdose acidental de remédios para dor e sono, disseram seus familiares.
Chico Science, em 1997, bateu o carro num poste, depois de fechado. Ele tomava ansiolíticos e soníferos, o que levantou a hipótese de reflexos reduzidos, nunca confirmado oficialmente.
Maysa Matarazzo, 1977, morreu de intoxicação medicamentosa por overdose de barbitúricos.
Itamar Assumpção, 2003. Morreu de complicações de um câncer, mas usava doses altas de analgésicos e tranquilizantes e teve uma intoxicação medicamentosa parcial durante o tratamento.
Rita Lee teve várias internações ligadas a uso excessivo de calmantes e álcool nos anos 1980, depois tratadas como dependência química.
Elis Regina morreu em 1982 por parada cardiorrespiratória causada pela combinação de álcool e cocaína, mas havia também uso de medicamentos; é considerada intoxicação mista (não só medicamentosa).
Lô Borges foi internado em 17 de outubro com “intoxicação medicamentosa”. Ele não estava em tratamento psiquiátrico. Nem tinha diagnóstico de depressão. Em entrevista à União Brasileira de Compositores ele declarou: “Na época do Clube da Esquina (década de 60), tomei LSD e fumei maconha”. Mas, em seguida, ele acrescentou: “Não tenho mais tesão nem idade para usar drogas”. O doutor Laranjeira lamenta: “Muita gente está morrendo no pico da vida, sem a dignidade que merecia”.

REVELADO O PLANO DOS EUA PARA A PAZ EM GAZA

Eis o plano de 21 pontos para acabar com a guerra em Gaza que o presidente Donald Trump elaborou com oito países árabes e vai apresentar ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu nessa segunda-feira.
O plano foi obtido pelo jornal Times of Israel que certificou sua autenticidade com duas fontes diferentes. Nele há pontos que devem desagradar a Israel, ao Hamas e a Autoridade Palestina. Mas não há plano possível que agrade a todos.
Os 21 pontos foram traduzidos por IA porque extensos e para que possam ser conhecidos imediatamente.


PLANO DE 21 PONTOS
O conteúdo do plano foi parafraseado a pedido das fontes que o forneceram.
 1.⁠ ⁠Gaza será uma zona desradicalizada, livre de terrorismo e não representará uma ameaça aos seus vizinhos.
 2.⁠ ⁠Gaza será reconstruída para o benefício de seu povo.
 3.⁠ ⁠Se ambos os lados concordarem com a proposta, a guerra terminará imediatamente, com as forças israelenses interrompendo todas as operações e se retirando gradualmente da Faixa de Gaza.
 4.⁠ ⁠Dentro de 48 horas após Israel aceitar publicamente o acordo, todos os reféns vivos e mortos serão devolvidos.
 5.⁠ ⁠Assim que os reféns forem devolvidos, Israel libertará centenas de prisioneiros de segurança palestinos que cumprem penas de prisão perpétua e mais de 1.000 moradores de Gaza presos desde o início da guerra, juntamente com os corpos de centenas de palestinos.
 6.⁠ ⁠Assim que os reféns forem devolvidos, os membros do Hamas que se comprometerem com a coexistência pacífica receberão anistia, enquanto os membros que desejarem deixar a Faixa de Gaza receberão passagem segura para os países receptores.
 7.⁠ ⁠Uma vez alcançado esse acordo, a ajuda chegará à Faixa a taxas não inferiores às metas estabelecidas no acordo de reféns de janeiro de 2025, que incluía 600 caminhões de ajuda por dia, juntamente com a reabilitação de infraestrutura crítica e a entrada de equipamentos para remoção de escombros.
 8.⁠ ⁠A ajuda será distribuída — sem interferência de nenhum dos lados — pelas Nações Unidas e pelo Crescente Vermelho, juntamente com outras organizações internacionais não associadas a Israel ou ao Hamas.
(O texto desta cláusula parece intencionalmente vago e aparentemente deixa uma abertura para a operação contínua da Fundação Humanitária de Gaza, já que tecnicamente é uma organização americana, mesmo tendo sido uma criação de israelenses ligados ao governo e criada para se adequar à condução da guerra pelo governo israelense.)
 9.⁠ ⁠Gaza será governada por um governo temporário e transitório de tecnocratas palestinos, responsáveis por fornecer serviços diários à população da Faixa de Gaza. O comitê será supervisionado por um novo organismo internacional estabelecido pelos EUA em consulta com parceiros árabes e europeus. Ele estabelecerá uma estrutura para o financiamento da reconstrução de Gaza até que a Autoridade Palestina conclua seu programa de reformas.
(Esta é a primeira menção do plano dos EUA à Autoridade Palestina, sediada em Ramallah. Israel descartou a autoridade como potencial governante de Gaza, rejeitando assim o que se tornou a chave para recrutar assistência árabe na gestão pós-guerra da Faixa, visto que a comunidade internacional considera a unificação da Cisjordânia e de Gaza sob um único órgão de governo reformado como essencial para a estabilidade e a paz a longo prazo. A aparente decisão de reservar o papel da AP para uma data posterior não especificada provavelmente será difícil para Ramallah engolir, mas também tem influência limitada nessas discussões.)
10.⁠ ⁠Um plano econômico será criado para reconstruir Gaza por meio da convocação de especialistas com experiência na construção de cidades modernas no Oriente Médio e por meio da consideração de planos existentes que visam atrair investimentos e criar empregos.
11.⁠ ⁠Será estabelecida uma zona econômica, com tarifas reduzidas e taxas de acesso a serem negociadas pelos países participantes.
12.⁠ ⁠Ninguém será forçado a deixar Gaza, mas aqueles que optarem por sair poderão retornar. Além disso, os moradores de Gaza serão incentivados a permanecer na Faixa de Gaza e terão a oportunidade de construir um futuro melhor lá.
13.⁠ ⁠O Hamas não terá qualquer papel na governança de Gaza. Haverá o compromisso de destruir e interromper a construção de qualquer infraestrutura militar ofensiva, incluindo túneis. Os novos líderes de Gaza se comprometerão com a coexistência pacífica com seus vizinhos.
14.⁠ ⁠Uma garantia de segurança será fornecida pelos parceiros regionais para garantir que o Hamas e outras facções de Gaza cumpram suas obrigações e que Gaza deixe de representar uma ameaça a Israel ou ao seu próprio povo.
15.⁠ ⁠Os EUA trabalharão com parceiros árabes e outros parceiros internacionais para desenvolver uma força internacional temporária de estabilização , que será imediatamente enviada a Gaza para supervisionar a segurança na Faixa de Gaza. A força desenvolverá e treinará uma força policial palestina, que servirá como um órgão de segurança interna de longo prazo.
16.⁠ ⁠Israel não ocupará nem anexará Gaza, e as IDF entregarão gradualmente o território que ocupam atualmente, à medida que as forças de segurança substitutas estabelecerem o controle e a estabilidade na Faixa.
17.⁠ ⁠Se o Hamas atrasar ou rejeitar esta proposta, os pontos acima prosseguirão em áreas livres de terrorismo, que as IDF entregarão gradualmente à força internacional de estabilização.
(Esta é a primeira menção à possibilidade de que o acordo possa ser implementado pelo menos parcialmente, mesmo que o Hamas não concorde.)
18.⁠ ⁠Israel concorda em não realizar futuros ataques no Catar. Os EUA e a comunidade internacional reconhecem o importante papel mediador de Doha no conflito de Gaza.
19.⁠ ⁠Será estabelecido um processo para desradicalizar a população. Isso incluirá um diálogo inter-religioso com o objetivo de mudar mentalidades e narrativas em Israel e Gaza.
20.⁠ ⁠Quando a reconstrução de Gaza tiver avançado e o programa de reforma da AP tiver sido implementado, as condições poderão estar reunidas para um caminho confiável para a criação de um Estado palestino, que é reconhecido como a aspiração do povo palestino.
(A cláusula não fornece detalhes sobre o programa de reforma palestina e não é definitiva sobre quando o caminho para a criação de um estado pode ser estabelecido.)
21.⁠ ⁠Os EUA estabelecerão um diálogo entre Israel e os palestinos para chegar a um acordo sobre um horizonte político para a coexistência pacífica.

Palestina, Gaza e Ucrânia nos 80 anos da Assembleia Geral

A Palestina vai ser reconhecida pela França, Grã-Bretanha, Austrália e Canadá, aumentando para 146 os países que já a reconhecem, nesta segunda-feira, véspera da Assembleia Anual de 80 anos da ONU, chamada de Copa do Mundo da Diplomacia.
Mas o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, não estará presente ao histórico reconhecimento da Palestina, promovido pela França e Arábia Saudita, porque teve o visto negado para desembarcar em Nova York, por alegada questão de segurança nacional. Ele poderá discursar por vídeo-conferência.
Na lista de países que reconhecem a Palestina faltam dois fundamentais para que ela passe do papel à existência: Israel e Estados Unidos.

A gestação de dois estados na Palestina, um israelense e outro palestino, começou em 29 de novembro de 1947, com a Resolução 181, aprovada por 33 votos a 13, e 10 abstenções, pela Assembleia Geral da ONU. Mas o parto já dura 75 anos, sem previsão para o nascimento da Al Quds, a Sagrada, como os palestinos a batizaram.
Israel está chegando ao segundo ano de guerra em Gaza, depois de invadido por milhares de palestinos que deixaram 1.200 mortos de 40 nacionalidades, inclusive brasileiros, e 250 reféns, 20 dos quais que ainda podem estar vivos. Do lado palestino, morreram cerca de 65 mil pessoas, entre civis e combatentes, mulheres e crianças, segundo o Ministério da Saúde do Hamas.
O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu diz que nunca haverá um estado palestino. E a cada dia que passa o território da Palestina fica menor, ocupado por colonos com permissão de construir novas casas nas “terras que lhes foram dadas por Deus”, as bíblicas Judeia e Samaria, hoje Cisjordânia, conquistada na Guerra de Seis Dias, em 1967.
Para os Estados Unidos, e principalmente para o presidente Donald Trump, um reconhecimento da Palestina não vale nada, se não negociado entre Israel e a Autoridade Palestina. O secretário de Estado Marco Rubio considera um encorajamento ao Hamas a iniciativa da França e da Arábia Saudita desta segunda-feira, sob o nome de Declaração de Nova York”.


O Departamento de Estado retardou o visto da delegação brasileira, que tradicionalmente abre as assembleias anuais da ONU. O primeiro discurso dos 80 anos será do presidente Lula. E o segundo, do presidente Trump.
Na Seção 11 do acordo de 16 páginas entre a ONU e EUA, de 1947, está escrito: “as autoridades federais, estaduais ou locais dos Estados Unidos não imporão quaisquer impedimentos ao trânsito de ou para o distrito da sede.”
Em 1988, porém, o líder da OLP, Yasser Arafat, foi barrado, mas liberado nos anos seguintes. Os vistos para delegações da Rússia, Irã, China e Venezuela demoram, mas saem. As rejeições são raras. Em 2014, o visto para um embaixador iraniano foi negado porque ele teria participado do cerco à embaixada estadunidense de Teerã, em 1979.
Para os participantes da Assembleia Geral que não sejam bem-vindos aos EUA há uma restrição: eles não podem se afastar de um raio de 22 quilômetros da sede da ONU.
A Assembleia Geral, a partir de terça-feira, deverá ser dominada pelas guerras em Gaza, na Ucrânia e no Sudão. Mas o tema geral escolhido é “Melhor juntos: 80 anos e mais para paz, desenvolvimento e direitos humanos” — em contraposição ao unilateralismo do America First, de Trump, que tirou os EUA da OMS, da UNESCO, do Conselho de Direitos Humanos e do acordo do clima de Paris, que este ano fará sua reunião no Pará.

Mortes e acordos entre Israel-Síria-Jordânia e Libano.

Foto do exército de Israel, hoje, na Ponte Allenby

Um jordaniano que dirigia um caminhão carregado com ajuda humanitária para Gaza estacionou para inspeção israelense na Ponte Allenby, perto de Jericó, na Cisjordânia. Tinha um revólver. E o disparou até ele não funcionar, engasgado com uma bala. Então, sacou uma faca e matou duas pessoas, uma de 60 e outra de cerca de 20 anos. Foi morto. A passagem entre Jordânia e Israel foi fechada.

(Em Gaza, quase ao mesmo tempo, um comandante e três oficiais foram mortos ao passarem sobre uma mina improvisada.)
Ano passado, nessa mesma ponte Allenby, três israelenses morreram baleados, também por um motorista de caminhão jordaniano de alimentos para Gaza.
Algumas horas depois do atentado desta quinta-feira, o ministro de Assuntos Estratégicos, Ron Dermer, confidente do premiê Benjamin Netanyahu, sugeriu que o Vale do Jordão pode ser anexado sem maiores consequências, se for uma reação ao reconhecimento do estado da Palestina, na semana que vem, na Assembleia Geral da ONU, em Nova York. A expectativa sobre a reação dos Emirados Árabes Unidos foi reduzida a uma retirada de seu embaixador de Tel-Aviv, não mais uma ruptura.


O ministro Dermer esteve negociando um pacto de convivência entre Síria e Israel, em Londres, onde também se encontrou com o secretário de Estado Marco Rubio, que esteve em Jerusalém e Doha, no Catar, há poucos dias. Não foi a primeira vez que ele propôs a anexação de parte da Cisjordânia, mas a que tem mais chance de ocorrer, antecipada pelo próprio premiê Netanyahu e exigida, praticamente, por seus aliados da extrema-direita na coligação governamental.
O presidente sírio Ahmed al-Sharaa revelou-se otimista com as negociações com o ministro Dermer, nesta quinta-feira, prevendo um acordo para “os próximos dias”. Para ele, o pacto é necessário para acabar com as incursões aéreas e terrestres do vizinho israelense. Mas não está claro como foi ou será resolvido o impasse sobre as Colinas do Golã, anexadas por Israel depois de conquistadas, na Guerra dos Seis Dias (1967).
Em Londres, o primeiro-ministro Keir Starmer e Trump concordaram em discordar sobre o reconhecimento da Palestina, durante uma entrevista coletiva, nesta quinta-feira. O Reino Unido iria se antecipar à França, anunciando-o antes. Mas a recepção real ao presidente dos EUA o dissuadiu.
Ao afirmar que “o Hamas não deve ser parte de nenhum futuro governo na Palestina”, o que não impedirá o seu reconhecimento, Starmer recebeu um tapinha nas costas de um Trump satisfeito, e que declarou: “Discordo do primeiro-ministro (sobre reconhecer a Palestina) … É um nossos poucos desacordos.” Ele acrescentou que os reféns cativos do Hamas devem ser libertados imediatamente: “Não um, não dois ou ‘vamos lhe dar dois amanhã’. Temos que receber os reféns imediatamente. É isso que o povo de Israel quer. E queremos que a guerra acabe, e ela vai acabar”.


Israel distribuiu panfletos no sul do Líbano, na manhã desta quinta-feira (foto acima): “Aviso urgente”, alertou em árabe. “As IDF (Forças de Defesa de Israel) atacarão a infraestrutura militar pertencente ao terroristas Hezbollah em todo o sul do Líbano, para combater suas tentativas proibidas de reconstruir suas atividades”. Num mapa, foram indicados os edifícios que seriam atacados em Kafr Tibnit e Dubna, recomendando a seus moradores a permanecer a uma distância de 500 metros.

Um fim de semana trágico paira sobre Israel

(Venice) La distruzione del tempio di Gerusalemme -Francesco Hayez – gallerie Accademia Venice

Ao pôr do sol de sábado terá início o dia destinado à tragédia para os judeus de Israel e do mundo. É o Tishá B’Av, o 9 Av, no calendário lunar hebraico.

Ao longo de séculos, o 9 Av marcou a destruição dos dois templos de Jerusalém, em 586 a.C. e 70 d.C.; a matança de meio milhão de judeus pelos romanos na cidade de Betar, em 135 d.C.; a expulsão dos judeus da Inglaterra (1290), da França (1306) e da Espanha (1942); o início da Primeira Guerra Mundial (1941) e as deportações do Gueto de Varsóvia para o campo de extermínio nazista de Treblinka (1942).

Que nova tragédia pode acontecer no 9 Av deste ano, além da já trágica guerra em Gaza, que chega ao seu 666º dia no sábado?

O professor de História e escritor Yuval Noah Harari previu a destruição metafórica do “terceiro templo” se o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu continuar no poder em Israel. Foi quando ele discursou para manifestantes contra o governo:

“Basta Bibi! (o apelido de Netanyahu). Vocês não estão destruindo apenas o Estado de Israel, mas todo o povo judeu (…) Todas as comunidades judaicas, de Nova York a Sidney, terão de decidir se se mantém fiéis aos valores de ‘amarás o teu próximo como a ti mesmo’, ou se se alinham com o novo judaísmo negro que está sendo criado, o judaísmo dos incendiários de Huwara” (cidade palestina, em Nablus, na Cisjordânia, atacada por colonos judeus, em 2023.)

Então, Harari concluiu: “Não dá para esperar por Tishá B’Av e pela destruição do Templo. A hora de parar o governo Netanyahu é agora”.

A primeira da série de tragédias em 9 Av é contada no Livro de Números, capítulos 13 e 14. O povo de Israel estava acampado à entrada da Terra Prometida, por volta de 1.500 a.C., à espera do relato dos 12 espiões enviados por Moisés para explorar Canaã. Só dois dos espiões, Josué e Calebe, trouxeram um relato positivo. Os outros dez viram habitantes gigantes em cidades fortificadas, o que gerou pânico e descrença. Os israelitas choraram. E então, segundo um texto rabínico, Deus falou:

“Vocês choraram diante de mim sem motivo, eu fixarei para vocês (este dia com um dia de) choro para as gerações”. Era um 9 Av. E os judeus, punidos, peregrinaram pelo deserto durante 40 anos, até o fim da geração que duvidou de Deus.

O profeta Jeremias atribuiu a destruição do Primeiro Templo pelos babilônios aos “pecados do rei, dos líderes da nação e do povo de Judá, bem como à falta de arrependimento”. Por uma interpretação moderna, o Segundo Templo caiu por ações de extremistas, que “nunca veem ou querem ver as consequências de suas ações”. Outra causa para as catástrofes de 9 Av é que “a História não ocorre por acaso; os acontecimentos — mesmo os terríveis — são parte de um plano divino, e têm um significado espiritual”.

As tragédias coincidentes num mesmo dia ao longo do tempo são reais, registradas em documentos históricos, descobertas arqueológicas e relatos cronológicos. A História analisa causas políticas, econômicas e sociais, mas não faz um juízo religioso. As visões histórica e teológica podem se complementar, para muitos estudiosos.

Em 9 Av, 1941, o comandante Heinrich Himmler recebeu a aprovação do Partido Nazista para a Solução Final, que marcou o início do Holocausto. Em 10 Av de 1994, uma bomba explodiu no centro comunitário judaico da AMIA, em Buenos Aires, matando 85 pessoas. Em 1995, o premiê Yitzhak Rabin foi assassinado por um fanático judeu de extrema direita. E em 9 Av de 2005 Israel se retirou de Gaza, abrindo o caminho para a vitória do Hamas em 2006 e a expulsão da Autoridade Palestina (AP) para Ramallah, na Cisjordânia.

Agora, em 2025, o povo judeu está vivendo várias causas para a produção de uma nova catástrofe em Tishá B’Av. O pensador israelense-americano, Doron Weber, fez uma lista em que destaca que o governo de Benjamin Netanyahu minou a coesão militar de Israel; abalou a sua economia; rompeu o tecido social; deu liberdade a colonos judeus para atacar palestinos na Cisjordânia; prejudicou as relações com os EUA e alienou os judeus da diáspora, que estão sofrendo uma onda antissemita no mundo todo. Israel, hoje, é um vilão internacional, um pária, isolado de seus amigos e aliados.

A observância do Tishá B’Av é tão rigorosa, para os judeus, quanto o Yom Kippur, o Dia do Perdão. O jejum começa ao pôr do sol do sábado, e deve ser mantido por 25 horas. Não se pode tomar banho, passar cremes ou óleos no corpo, usar sapatos de couro, ter relações sexuais, trabalhar, cumprimentar pessoas e dar presentes. Nas sinagogas, lê-se o Livro de Lamentações e lembra-se a destruição dos dois templos de Jerusalém, dos quais resta o Muro das Lamentações. Os oito dias que antecedem o 9 Av são de luto, não se come carne nem se toma vinho, não se usa roupa nova e nem se participa de festas.

O Tishá B’Av poderá se tornar um dia alegre, se o Terceiro Templo for construído. No lugar dele, porém, estão hoje as mesquitas de Al-Aksa e do Domo da Rocha, de onde Maomé subiu aos céus num cavalo alado. Jerusalém, ou Al Quds (A Santa, para os muçulmanos), é a cidade disputada para capital por israelenses e palestinos.

No Oriente Médio, Estado e Religião se embaralham. Em muitos países árabes, o islamismo serve como base moral, política e estrutura legal. Em Israel, “um Estado judeu e democrático”, os partidos religiosos têm uma influência muito grande em decisões políticas. Atualmente, dois ministros ultra religiosos e radicais de direita ameaçam derrubar a coligação que sustenta o premiê Netanyahu, que está com um único voto de maioria no Parlamento, se ele aceitar o fim da guerra sem exterminar o Hamas e criar colônias judaicas em Gaza.

Entre religiosos judeus circula os versículos 51-55, do livro de Números, capítulo 33, em que Deus diz a Moisés:

“Quando vocês atravessarem o Jordão para entrar em Canaã, expulsem da frente de vocês todos os habitantes da terra. Destruam todas as imagens esculpidas e todos os ídolos fundidos e derrubem todos os santuários locais deles. Tomem posse da terra e instalem se nela, pois eu dei a vocês a terra para que dela tomem posse. Distribuam a terra por sorteio, de acordo com os seus clãs. Aos clãs maiores, vocês darão uma herança maior; aos menores, uma herança menor. Cada clã receberá a terra que lhe cair por sorte. Distribuam na entre as tribos dos seus antepassados. Se, contudo, vocês não expulsarem os habitantes da terra, aqueles que vocês permitirem ficar se tornarão farpas nos seus olhos e espinhos nas suas costas. Eles causarão problemas para vocês na terra em que vocês irão morar.”

Que o Tisha B’Av de 2025 (ou 5785, no calendário hebraico) passe sem novas tragédias.

Catargate

Copa do Mundo

e guerra em Gaza

se encontram no

CATARGATE

Quem poderia imaginar que a defesa da Copa de 2022, no Catar, tenha sido elaborada no gabinete do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, em Jerusalém? Só hoje as revelações estão aparecendo, num processo chamado Catargate.
Israel e o Catar são, tecnicamente, países inimigos. Mas, depois da invasão do Hamas em 7 de outubro de 2023, delegações israelenses vão à Doha negociar a libertação de reféns e o cessar-fogo em Gaza, com mais egípcios e americanos.


Nesta segunda-feira, Netanyahu prestou esclarecimento no processo do Catargate. Dois de seus assessores tiveram a detenção estendida por mais dois dias.
Antes de procurar quem poderia mudar a imagem do Catar para a Copa do Mundo, o líder catariano, Xeque Tamim bin Hamad Al-Thani, já tinha ligações com israelenses. Ele mandava milhões de dólares de ajuda para Gaza, desviados para o Hamas. Era uma estratégia de Netanyahu: fortalecer o Hamas, que propagava a destruição de Israel, e desprezar a Autoridade Palestina, em Ramallah, na Cisjordânia ocupada, que concordava com uma solução de dois estados.
A campanha online secreta pró-Catar foi investigada a fundo pelo jornal israelense Haaretz. Dois assessores do gabinete do primeiro-ministro, Yonatan Urich e Srulik Einhorn, donos da empresa Perception, criaram vinte perfis falsos em redes sociais (avatares), websites e blogs, para combater o histórico catariano de infrator de direitos humanos (6.500 trabalhadores teriam morrido na construção dos estádios para Copa) e desestabilizador no Oriente Médio, além de protetor do grupo terrorista Hamas.
O objetivo, segundo o Haaretz, era “lavar a imagem do Qatar” e “mudar o discurso sobre o emirado. O nome do projeto: Lighthouse (Farol). A empresa israelense Koios, que se diz focada em prevenção de fraude e investigação financeira online, executou a campanha. O email de um homem ligado à inteligência militar israelense, Idan Shance, registrou o site de notícias falsas, Worldwide & Business News, que oferecia empregos a “trabalhadores de língua alemã”, pois a torcida na Alemanha era considerada um público-alvo.

O Emir do Catar e o premier de Israel, Netanyahu.


À medida que o jornal Haaretz contatava empresas criadas para o Projeto Farol, elas simplesmente desapareciam. Yonatan Urich e Eli Feldstein foram detidos e interrogados pela polícia sob a suspeita de contato com um agente estrangeiro, fraude, lavagem de dinheiro e suborno. O pagamento do Catar para a campanha era transferido por um lobista do governo catariano para Israel. O primeiro-ministro Netanyahu foi informado de uma transferência de 4 milhões de dólares para o braço militar do Hamas. O dinheiro vivo, para evitar rastreamento, começou a entrar em Gaza desde 2018.
O Catar nega todas as informações reunidas por Israel. O primeiro-ministro Netanyahu desmente a sua participação, enquanto responde a três processos por corrupção na Corte de Tel Aviv. Ele disse ontem que seus dois assessores, Yonatan Urich e Eli Feldstein, que estão presos, “são reféns acusados num processo politicamente motivado”. Ele acrescentou que “a única razão das investigações é a de evitar a demissão do chefe do Shin Bet”, Ronen Bar, que foi suspensa pela Suprema Corte de Justiça. O substituto indicado anteontem, general Eli Sharvit, foi defenestrado ontem.

GUERRA EN GAZA

IMPASSE:
HAMAS QUER LIBERTAR 5 REFÉNS.
ISRAEL QUER 11.

O Hamas aceita libertar cinco reféns vivos em troca de uma trégua de 50 dias. Israel quer que sejam libertados 11. O Egito está tentando um meio termo entre as duas propostas. Mas a guerra continua, porque o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, acredita que, sob fogo, as negociações ficam mais eficazes.
É o que declarou Netanyahu no início de uma reunião dominical de seu gabinete: “A pressão militar está funcionando”. E ele acrescentou que vê “rachaduras” na posição do Hamas.
Assim será o fim da guerra que entra no 7º mês com mais de 50 mil mortos, na visão de Netanyahu: “O Hamas vai depor suas armas. Seus líderes terão permissão para deixar Gaza. Nós cuidaremos da segurança geral e permitiremos a implementação do plano Trump” — o plano de imigração voluntária”, que antes foi concebido como uma Riviera no Oriente Médio, com a deportação da população palestina para países árabes.
Um dos negociadores do Hamas, Khalil al-Hayya, disse, neste sábado: “Não queremos nada de novo. Queremos respeitar o que foi assinado, o que os fiadores garantiram e que a comunidade internacional aprovou”. Ele se referiu ao que constava no primeiro acordo de cessar-fogo, prevendo que num segundo tempo Israel se retiraria de Gaza e todos os reféns, 24 vivos e 35 mortos, seriam devolvidos. Israel cumpriu a primeira parte mas não a segunda, porque seu objetivo sempre foi de só encerrar a guerra com o extermínio ou a rendição do Hamas.
Khalil al-Hayya, no entanto, sabe que não existe mais a opção do acordo de três fases assinado em janeiro. Por isso, ele disse que a nova proposta egípcia foi aceita pelo Hamas. No primeiro e último encontro inédito com um emissário da Casa Branca, em Doha, no Catar, a liderança palestina havia concordado em libertar o soldado israelense-americano refém, Edan Alexander. Mas o negociador dos EUA, Steve Witkoff, rejeitou o acordo, porque sua simples existência enfureceu Netanyahu, que se nega a dialogar com uma organização que considera terrorista.
Nem o Hamas e nem Israel divulgaram as propostas de cessar-fogo que receberam dos mediadores egípcios e catarianos. A imprensa no Oriente Médio cita a oferta de libertação de cinco reféns e a contraproposta de libertar 11, como o impasse atual. Netanyahu aproveitou a reunião de seu gabinete para se vangloriar de estar “comprometido em trazer de volta os reféns”, ao contrário do que dizem as famílias dos reféns e a oposição. Foi mais além, dizendo que o que funciona é a combinação de pressão militar e diplomática, “e não todas as reivindicações e slogans vazios que ouço nos estúdios (de TV) dos especialistas”.
Sobre o Líbano, advertiu: “Ele tem que garantir que nenhum ataque contra Israel saía de seu território”. Ao presidente e amigo Donald Trump ele agradeceu os ataques contra os Houthis, no Iêmen, que continuam disparando mísseis balísticos contra Israel, mandando milhares de israelenses para abrigos antiaéreos.
O Hamas começou neste fim de semana a se vingar de palestinos que marcharam, na semana passada, pela primeira vez, pedindo paz, em Gaza. As notícias, publicadas em jornais deste domingo, dão conta de que seis manifestantes foram executados, mas só identificam um deles, Odai al-Rubai, 22, que convocou alguns dos protestos.

Guerra em Gaza

Gaza vista do espaço (Foto Nasa)

Israel e Hamas discutem novo cessar-fogo

As negociações para um novo cessar-fogo em Gaza, dadas como mortas, estão emitindo alguns sinais de vida no Egito e no Catar. Israelenses e palestinos reagiram, positivamente, a um primeiro esforço diplomático de ressuscitação.

O Egito diagnosticou “indicações” esperançosas por parte de Israel, que rompeu o cessar-fogo e não o quis estender por mais 42 dias, como previa o acordo original de janeiro.

No Catar, uma fonte palestina declarou à Agência France Presse: “Uma reunião começou esta noite (quinta-feira) entre mediadores egípcios e uma delegação do Hamas para solidificar um cessar-fogo”.

Uma proposta à mesa incluiria a libertação de cinco reféns israelenses por semana, trocados por prisioneiros palestinos. Há 59 reféns cativos do Hamas, dos quais 24 estariam vivos. Aí seriam 12 semanas de cessar-fogo.

Antes, porém, um soldado refém israelense, com cidadania americana, Edan Alexander, deverá ser libertado para que o presidente Donald Trump proclame, desde Washington, a retomada das negociações. Um enviado da Casa Branca já tinha obtido a sua libertação, em negociações diretas e inéditas com o Hamas, em Doha, invalidadas porque os EUA não podem manter contatos diretos com uma organização listada como “terrorista” pelo seu Departamento de Estado.

A sobrevida do novo cessar-fogo, se obtido, não deve durar se Israel não flexibilizar sua posição de que a guerra só acabará com a derrota total do Hamas. Por outro lado, o Hamas exige a retirada israelense de toda a Faixa de Gaza. Um meio termo poderá ser o exílio da liderança palestina em algum país árabe, como aconteceu com o líder da OLP, Yasser Arafat, no Líbano, em 1983, quando ele partiu para a Tunísia num navio de nome emblemático para a Palestina: era o Atlântida, nome da ilha perdida, descrita por Platão no século IV a.C..

Ataque em hospital causou incêndio em Gaza REUTERS/Hussam Al-Masri

O que retirou o cessar-fogo moribundo do leito de morte? A pressão sobre o Hamas cresceu, sob fogo pesado de Israel. Tudo indica que, ao se retirar de Gaza, menos do Corredor Filadélfia, os soldados israelenses plantaram espionagem digital em vários pontos estratégicos. Explica-se, assim, como vários chefes palestinos foram assassinados em poucos dias. A frota de caminhonetes brancas, vistas na invasão de 7 de outubro e nas cerimônias de libertação de reféns, foi totalmente destruída pela aviação e por drones.

Uma das principais razões que devolve o Hamas à mesa de negociações é o protesto dos palestinos de Gaza, cansados de guerra, as casas destruídas, usados como escudos de proteção de combatentes escondidos em túneis. Quilômetros de túneis no subsolo de Gaza, e nenhum abrigo antiaéreo sobre a areia do deserto. O Hamas disse que os protestos inéditos, iniciados há três dias, eram contra guerra. Mas a multidão gritou: “Fora, Hamas; Fora, Hamas”, além de bordões contra Israel.

E o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu? O que o leva a aceitar um novo cessar-fogo? As famílias dos reféns, com milhares de israelenses as apoiando, não parou de se manifestar em Israel, na ONU, na Casa Branca, desde 2023. A sua casa oficial, na rua Gaza, em Jerusalém, vive sitiada por protestos. Ao romper o cessar-fogo, o partido da direita ultranacionalista, Poder Judeu, voltou à coligação do governo, reforçando-o com uma robusta maioria de votos para aprovar o orçamento deste ano, que, se rejeitado, o derrubaria.

Netanyahu tem problemas pela frente, como o Catargate, os milhões de dólares do Catar que transitaram em malas pelo seu gabinete, para o Hamas e para, ao menos, um porta-voz do governo, próximo do primeiro-ministro, que trabalhou a imagem de país amigo de organizações terroristas, em que trabalhadores escravos estavam morrendo, as mulheres sofriam opressão e repressão, para o país que sediou a Copa do Mundo de 2022, agora um mediador da paz e com relações diplomáticas com o mundo todo.

Netanyahu também é réu em três processos de corrupção e está afastando a Comissão de Inquérito independente que vai investigar as falhas que levaram à invasão do Hamas, em outubro de 2023, o quanto pode, porque, certamente, ele será um dos responsabilizados, como o foi a primeira-ministra Golda Meir depois da Guerra do Yom Kippur, em 1973. Netanyahu agora se dedica às demissões do chefe da espionagem interna, o Shin Bet, e a procuradora-geral, que podem lhe trazer complicações. Esta semana, ele passou pelo Parlamento um projeto que dá ao executivo o direito de escolher os futuros juízes. Antes, ele precisava da guerra para se manter no poder; agora, ele tem que libertar os reféns, para acalmar as manifestações em Israel, onde 60% dos eleitores não votariam nele numa próxima eleição.

Guerra em Gaza

Êxodo e protesto contra o Hamas. Em Gaza.

Foto do jornal Yedioth Aharonot
(Foto publicada pelo jornal Yedioth Aharonot)

Mais de 35 mil palestinos já foram embora de Gaza para um outro país, por vontade própria, desde o início da guerra em 2023, e 200 outros, doentes, devem partir para os Emirados Árabes Unidos nesta quinta-feira do aeroporto Ramon, a 18 quilômetros ao Norte de Eilat. Segundo Israel, há milhares de gazenses dispostos a partir nas próximas semanas.
Centenas de gazenses sobreviventes da guerra, que matou quase 51 mil mulheres, crianças, idosos, jovens civis e 20 mil combatentes, iniciaram um movimento inédito na terça-feira, repetido nesta quarta-feira ao meio-dia: marcharam pelas ruínas de Beit Lahia e Beit Hanoun, no norte de Gaza, protestando contra o Hamas. Nos cartazes, bordões como “O sangue de nossas crianças não é barato”, ou “Pare a guerra imediatamente”.
O movimento de palestinos contra o Hamas, que inclui protestos contra Israel, foi batizado de “Intifada do Norte” – e intifada, em árabe, pode ser traduzido por resistência, embora usado também como “agitar” ou “sacudir”. Contra Israel já houve duas intifadas, ou rebeliões. O Hamas, que sempre reprimiu protestos, não impediu as duas manifestações até agora.
O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, está insuflando a Intifada do Norte. Ele disse aos gazenses, ontem, que a única maneira de pôr fim à guerra é a remoção do Hamas e a libertação dos reféns ainda em Gaza, que seriam 59, dos quais 24 estariam mortos. “Aprendam com os moradores de Beit Lahiya”, ele sugeriu, ameaçando novas operações das forças israelenses que vão requerer a evacuação de mais território. “Os planos estão prontos e aprovados”, ameaçou. No final, acusou a liderança “corrupta” e “assassina” de viver em segurança, com suas famílias, dentro de túneis ou hospedados em hotéis de luxo.
Os manifestantes gritavam ontem “Fora, Hamas”, diante do Hospital da Indonésia, e um e outro, por vezes, perguntava para cinegrafistas, como se fossem da rede catariana Al Jazeera, por que não cobriam os protestos, acusando-0s de fidelidade ao Hamas. Os manifestantes prometem estender as manifestações para os bairros com forte presença do Hamas, como a praça Saraya, o campo de refugiados de Jabaliya e a praça Bani Suheila, em Khan Yunis.


A liderança do Hamas acusou Israel de instigar os protestos – e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu respondeu, em Jerusalém: “Os protestos são a prova de que nossa política está dando resultados”. O êxodo palestino, pretendido em larga escala pelo presidente Donald Trump, está acontecendo a conta-gotas, espontaneamente. Mesmo assim, há notícias, não confirmadas, de que enviados americanos e israelenses andam pelo Sudão e Somália em busca de espaço para abrigar o maior número possível de gazenses.
O palestino que quiser partir, e não estiver doente, nem ter dupla nacionalidade, deve fazer o pedido à polícia israelense. Há uma fila de milhares em exame. A pesquisa de antecedentes é rigorosa para impedir a fuga de combatentes do Hamas. As portas de saída são a Ponte Allemby e o posto de fronteira com a Jordânia, Kerem Shalom, ou o Aeroporto Ramon, perto de Eilat.