A aldeia brasileira no Líbano

by Celkadri - Licensed under Public Domain via Wikipedia

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Al Bireh, Líbano central (12/07/1982) — A paisagem que se avista desta aldeia escondida num dos picos de uma cordilheira é tão impressionante quanto perigosa: abaixo, o verde vale de Bekaa, com seus caminhos minados, plantações de cerejas, tanques movendo-se camuflados e um céu muito claro, sem nuvens – os trovões esporádicos são disparos de canhões.

Surpreendente, nesta aldeia que esteve ao centro de uma das maiores batalhas aéreas do mundo, envolvendo mais de cem aviões sírios e israelenses, em 9/6/1982, é a informação de um de seus 1.300 habitantes:

-Aqui, todos falamos português e “arabês”.

Cinco mil habitantes de Al Bireh vivem hoje no Brasil. E 300 brasileiros estão aqui, no fogo cruzado de uma guerra que não entendem.

-Somos gente da roça, sabe? – explica um deles.

No dia “daquela chuva de bombas” morreu um brasileiro, o Sr. Ali Bacha, que viveu 22 anos entre o Paraná e São Paulo. Uma de suas filhas, Fátima, lembra:

-Meu pai tinha bronquite. E o ar daqui faria muito bem a ele, aconselhou um médico de São Paulo. Lá, ele vivia sufocando de ataques… Então, viemos. Como passou a não sentir mais nada, reuniu a família, resolvendo: vamos ficar aqui…

No dia “daquela chuva de bombas”, quando Israel atacou as baterias de mísseis soviéticos Sam-6 instaladas no vale de Bekaa, o Sr. Ali Bacha foi respirar na varanda de sua casa. Seu filho, Mohamed, e uma prima, Kessem, australiana, sentaram-se ao lado. Na varanda, sobre o penhasco, um privilegiado mirante, caiu uma bomba.

Mohamed, 20 anos, brasileiro, foi ferido na perna direita, “o osso saindo para fora”. Estilhaços queimaram vários pontos do corpo de Kessem. E o Sr. Ali Bacha morreu.

Os brasileiros de Al Bireh não entendem a guerra:

-Só pode entender isto quem tem “cabeça grande” – diz um deles.

Não a entende, também, o aiatolá da aldeia, oficialmente conhecido como o Sheik de Ipanema. Na verdade, ele pouco fala, apenas sorri, com seus 110 anos – “o ar daqui é milagroso”, comenta Fátima apontando para o líder muçulmano, a barba comprida e branca. “Se você o chamar de velho, ele sai brigando”.

Na noite “daquela chuva de bombas”, um tenente sírio surgiu, também ferido, ao pé da montanha de Al Bireh. Entrou num carro, o de um primo de Mohamed. Os brasileiros, querendo tratar de seus feridos, pediram socorro aos israelenses, já dominando grande parte do vale de Bekaa

Mas o sírio, vendo os israelenses próximos, abandonou o carro, e tentou alcançar uma casa, exatamente a casa para onde tinha sido levado Mohamed, à espera de uma ambulância.

-Ele não conseguia mais andar, e aí deitou na frente da casa. Pegaram ele; estava uniformizado. Aí falamos para os israelenses: tem mais um ferido lá dentro.

Era Mohamed, levado então para o mesmo helicóptero em que seria transportado o tenente sírio, e os dois foram deixados, como agora se diz em Al Bireh, “no hospital policial”.

Três semanas depois, Kessem, a tia ferida de Mohamed, dava notícias, recuperando-se num hospital de Jerusalém, Hadassah. E o primeiro-ministro de Israel, Menachem Beguin, dava outras notícias, no parlamento: entre os prisioneiros de guerra, “há um brasileiro”.

Era Mohamed, preso com o tenente sírio.

-Mohamed, prisioneiro de guerra? – Perguntava a “gente da roça” de Al Bireh.

Muitas casas foram abandonadas. (Celkadri. Licensed under Public Domain via Wikipedia -

Muitas casas foram abandonadas. (Celkadri. Licensed under Public Domain via Wikipedia –

-Não, ele é dono de loja – diz sua irmã, Fátima, enquanto sua mãe, Bacha, balança a cabeça, confirmando-o:

-Ele nem conhecia o sírio…

Do lado israelense, a confusão cresceria quando um primo de Mohamed, ferido nos olhos, surgiria no mesmo “hospital policial”, portador, e com certo orgulho, de um documento provando ser ele um trabalhador – só que trabalhara no Iraque, outro país em guerra com Israel.

-Trabalhava no Iraque em “interpretação” de brasileiro para o árabe — explica um irmão de Mohamed.

-Como assim? – Pergunto.

-Sim, tem uma carteirinha que diz que ele é da “agência”, no Iraque.

-Mas que “agência” é esta?

-Chama Mendes Júnior, de Belo Horizonte.

Para brasileiros de Al Bireh, nada mais natural. Mas para israelenses, um brasileiro ferido com um sírio e que tem um primo vindo da “agência”, no Iraque, no meio de uma guerra, nada mais duvidoso. A embaixada do Brasil não pode obter nenhuma informação oficial do misterioso prisioneiro de guerra brasileiro, durante um mês. Mas ontem, sinal de que exaustivas investigações começam a esclarecer o que ocorreu, já será possível visitá-lo, como anunciou um funcionário do Ministério das Relações Exteriores, em Jerusalém.

Mohamed transformou-se no “herói” da guerra, em Al Bireh.

— Você viu ele? – pergunta-se a quem chega de Israel, como se fosse natural saber dele, entre os nove mil prisioneiros de guerra.

-Acho que ele vai chegar hoje – diz uma de suas irmãs, esperançosa.

Quando cheguei a Al Bireh, no domingo, e perguntei por brasileiros, já falava com um deles. E sendo também brasileiro, uma multidão me cercou, todos falando ao mesmo tempo, oferecendo café, chá, doces, almoço, e pedindo noticias dele, Mohamed. Quando um começava a se lembrar da guerra, a roda de crianças, homens e mulheres acrescentava detalhes, o Sheik de Ipanema sempre sorrindo, calado.

A guerra foi “aquela chuva de bombas: tanques, aviões, metralhadoras, todas as armas…”

-Enquanto “chovia”, o que vocês faziam?

-Íamos todos para o esconderijo.

-Que esconderijo?

-Junto com as vacas.

O estábulo fica embaixo da casa de pedras do Sr. Ali Bacha, que morreu na varanda. É um porão, com entrada independente, na descida do penhasco.

-Ontem (sábado) fomos para lá de novo – diz Fátima, sorridente.

Por que?

-Virgem Maria: ontem houve mais tiroteio. Caiu uma bombona aqui perto. Estávamos ouvindo a tia Kessem contar como foi tratada no hospital de Israel, e veio a bomba. A gente saiu correndo pro esconderijo. Minha tia queria voltar para o hospital. Dizia: não aguento mais…

-Quem atirava?

-Num sabemos…

-O que vocês acham dessa guerra?

-Ai, credo! Deveria ter um entendimento entre eles, pois tá morrendo muita gente que não tem nada que ver…

-Aqui, quantos morreram?

-Oito, e tivemos quatro “ferimentos”.

-Onde caiu a “bombona” de ontem? Ela veio de avião?

Um rapaz responde – o que trabalhava na “agência” do Iraque:

-De avião caíram as luminosas, aquelas que clareiam tudo. A bombona caiu aqui perto, e acho que foi de canhão.

-E quem disparou?

-Os sírios – e ao ouvir esta resposta, a viúva Bacha faz “pssssss”: — Não acuse ninguém, é perigoso”.

-Se eu soubesse que tinha mais guerra, não voltava para cá – comenta Kessem, o braço engessado, as duas pernas enfaixadas, exibindo um diploma de cidadania australiana.

-Você vai voltar para a Austrália?

-Não, se puder, vou para Israel.

Neste momento, ao mesmo tempo, muitos perguntam como é possível viajar para Israel.

Mohamed, o “prisioneiro de guerra”, contam em Al Bireh, já queria voltar para o Brasil desde que escutou as primeiras bombas, “muito tempo atrás”. Aqui, ele tinha uma loja de roupas feitas, sem nome, e que incendiou, atingida por uma bomba.

-Queimaram 20 mil dólares de roupas – conta o primo da “agência do Iraque”.

Depois, ele pergunta: – Mohamed vai receber indenização?

-De quem?

-Num sei… Israel não paga?

-E por que não os sírios?

-Não tem nada que os sírios não levaram daqui do Líbano. Ninguém podia ter um Mercedes ou Peugeot, que eles queriam. Levaram um Volvo de três mil dólares… Levaram uma geladeira.

Fátima acrescenta: -levaram minha máquina de costura.

E um outro completa:

-Olha, eles são “trombadinhas”.

-E os palestinos… Eles andavam por aqui?

A casa ao lado da família Bacha era o quartel-general da OLP em Al Bireh – mais um motivo para as suspeitas contra Mohamed.

-Eles entravam e saíam dela armados. Às vezes, pegavam alguém, davam “um pau”, e soltavam mais tarde. Se um outro apanhou, não vou fazer a mesma coisa, e apanhar também.

-Mas por que batiam?

-Não queriam pagar o aluguel da casa que tomaram na marra. Depois, mexiam com as moças. Eu não deixava minha irmã sair, porque se mexessem com ela, eu não aguentaria e iria tirar satisfações, e então me batiam.

-E os israelenses?

-Não conhecemos ainda. Chegaram agora. Quando subiram a montanha, pusemos bandeiras brancas em nossas casas. E cumprimentamos todos. Estão nos dando água, mas queremos que restabeleçam a luz… Não pudemos ver a copa do mundo: é verdade que o Brasil perdeu? Vai nos faltar comida, em mais dez dias. Precisamos do telefone para avisar nossa colônia no Brasil para nos mandar ajuda. E pedir que o banco de Shtoura abra de novo, para que possamos tirar dinheiro.

Trovões em Al Bireh. Vai chover?

-Não, estão em exercício — responde um oficial israelense.

Lá embaixo, na direção de Beirute, um caminhão com crianças saltaria sobre uma mina antitanque síria. Seis mortos. O grupo ia colher cerejas no vale de Bekaa, que do chão mostra outra paisagem: dezenas de tanques sírios destruídos, casas derrubadas, movimentação de tropas, “aquela chuva de bombas” que pode recomeçar a qualquer momento. Al Bireh está a três quilômetros da frente de combates.

A TRIBO PERDIDA

Casa de família falasha, na Etiópia (foto: www.mikewallach)

Casa de família falasha, na Etiópia (foto: http://www.mikewallach)

Os judeus

negros

de Israel

(Jerusalém, 22/11/1982) — Como muitos outros judeus religiosos, rezava diante do Muro das Lamentações, em Jerusalém, sexta-feira passada, preparando-se para o Shabat começando ao por do sol. A única diferença: sua cor, negra.

Não, ele não era um dos controvertidos negros norte-americanos que se converteram ao judaísmo, célebres pelos nostálgicos blues que tocam pela noite, em Dimona, no deserto do Neguev.

Miss Israel 2013, Yityish Aynaw, a Titi.

Miss Israel 2013, Yityish Aynaw, a Titi.

É um falasha. Um dos 1300 falashas que vivem em Israel, na cidade bíblica dos Sete Poços, Beersheva. Outros 28 mil falashas estão sobrevivendo à fome, à perseguição e à tortura ao redor do lago Tana, uma das duas maiores fontes do rio Nilo, ao sul de Gondar, na Etiópia. Ainda há mais 2500 falashas em campos de refugiados do Sudão, da Somália e do Djibuti.

Falasha é uma palavra de um antigo dialeto etíope, o Ge’ez, que significa exilado, ou estrangeiro. A tribo dos falashas seria a Dan, a que se perdeu de Israel. Quando descobertos, na Etiópia, em 1867, praticavam a circuncisão e observavam as principais festas judaicas.

O falasha rezando diante do muro das lamentações, em Jerusalém, não quis dizer seu nome. Ofereceu um pseudônimo, um nome comum israelense, para não por em perigo sua família vivendo na província de Gondar, na Etiópia. Para ele, não há duvida: “Somos descendentes de Menelik, o filho da rainha de Sabá e do rei Salomão. Jacó e os patriarcas eram todos negros…”

O imperador Hailé Selassié teria sido o último dos “613 Leões de Judá”, a linha imperial fundada por Menelik. Era um amigo de Israel, mas se opunha a que os falashas imigrassem de seu país, explicando:

“Todas as tribos da Etiópia são como os dedos de uma única mão. Se eu deixo partir uma tribo, será como amputar um dedo”.

Coroação da Miss Titi

Coroação da Miss Titi

Selassié foi deposto em 1975, num golpe pró-soviético. E em 1978, o novo líder etíope, Mengistu Haile Mariam, rompia relações com Israel, aproveitando a oportunidade dada pelo então chanceler Moshe Dayan ao confirmar, num discurso em Genebra, em termos genéricos, as denúncias da Somália: os israelenses estavam participando dos combates contra os eritreus, no deserto de Ogaden.

Em 1981, um estudante israelense em Toronto, no Canadá, voltaria ao assunto, explicando que Israel ajudava a Etiópia em troca da liberdade para os falashas. A ajuda envolvia o fornecimento de armas. Sua intenção era a de denunciar a política secreta desencadeada pelo governo Beguin para salvar os falashas. Ele defendia a prática de denunciar publicamente as atrocidades cometidas pelo major Melaku, o governador da província de Gondar, chamado de “o irmão de Hitler” nas associações criadas em defesa dos falashas nos Estados Unidos, no Canadá e em Israel.

-Eu não acredito em diplomacia silenciosa – diz o falasha em Jerusalém, pois meu povo está morrendo.

Os falashas foram reconhecidos como judeus, em Israel, em 1972, pelo grão-rabino Ovadia Yosef. Seis anos depois, outro grão-rabino, Shlomo Goren, o confirmou. E os dois decidiram que os descendentes da tribo perdida de Dan deveriam passar por uma cerimônia de reconversão, a que chamaram de “renovação da aliança”.

O governo israelense ficou entre os dois rabinos, decidindo, em 1975, que os falashas se beneficiariam da “lei do retorno”, como qualquer outro judeu no mundo, e uma “operação-êxodo” foi montada.

Um médico de Israel chegou a ir a Gondar, discretamente, seguido depois pela primeira esposa de Moshe Dayan, Ruth, e de um ex-ministro de Transportes. Espantaram-se ao encontrar uma sinagoga voltada para Jerusalém, vários livros em hebraico, e bíblias em Ge’ez. Os visitantes não supunham tamanha religiosidade entre os falashas.

-Um deles, vindo a Israel, tornou-se rabino – conta o falasha no Muro das Lamentações , que lembra mais um hippie dos anos 60, o cabelo ao estilo de Djavan.

hamiticunion.proboards.com

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Mulu Dese, outro falasha que veio para Israel, voltou para a tribo, em Gondar. Era “um enviado”. Prepararia os outros para a fuga, depois que a imigração legal tornou-se impossível sob o governo de Mengistu Haile Mariam. Foi preso: “agente sionista”.

As últimas notícias de Mulu Dese datam de 1975, e o caracterizam como um subversivo descuidado: reúnia líderes da tribo em sua casa para acompanhar a guerra do Yom Kippur através da rádio israelense, em hebraico.

O jornalista israelense Louis Rapoport foi uma das últimas pessoas a se encontrar com Mulu Dese, sua esposa Esther e seus três filhos.

“Ele tinha perdido toda a fé na ajuda dos israelenses e dos judeus do mundo: -eles não querem ouvir nossas advertências – protestava”.

Rapoport esteve em Gondar pouco antes que as visitas fossem oficialmente proibidas pelo governo etíope. Para ele, “falashas não sofrem um holocausto, mas as escolas da tribo foram fechadas, ocorrem muitas prisões e as torturas são “terríveis”. Para o major Melaku, eles são espiões sionistas, agentes da CIA, e inclusive os teria advertido: “ninguém virá salvar vocês, judeus sujos…”

Segundo a comunidade falasha em Israel, de três a cinco mil membros da tribo morreram nos últimos meses de fome, de doenças. E pressionando por providências israelenses, seus líderes, em Beersheba, no deserto do Neguev, fizeram greve de fome, só interrompida ao receberem garantias de que “o governo Beguin está fazendo tudo o que pode”, dadas pelo chefe do departamento de imigração da Agência Judaica, Raphael Kotlowitz.

Um falasha que andou 14 dias para fugir de Gondar, e foi resgatado por Israel, agora viaja pelo mundo, apelando por assistência à sua tribo. É conhecido por um pseudônimo, Nahum Ben-Yosef, e defende, ao contrário do governo Beguin, uma estratégia agressiva contra a Etiópia.

Nahum conseguiu colocar as associações americanas e canadense pelos judeus Etíopes em guerra aberta contra Israel. O biólogo norte-americano Graenum Berger chegou a acusar o governo israelense de racismo contra os falashas – esquecendo-se, porém, dos Etíopes e dos “black Hebrews”, os negros convertidos de Dimona.

Racismo?

-Isto não é verdade – diz o falasha, em Jerusalém, argumentando que não se sente mais um exilado, um estrangeiro, desde que chegou a Israel, há oito anos. Sente-se integrado como um israelense, fala hebraico fluente, está noivo de uma sabra e é industriário.

Uma proclamação pública seria feita em Nova York, em defesa dos falashas, mas Israel conseguiu impedi-la, alegando que ela provocaria mais repressão, em Gondar. Um funcionário do governo explicou, em Jerusalém, o paradoxo diante do qual se encontra:

-Se revelarmos os esforços que estão sendo feitos pelos falahsas ameaçamos nosso trabalho.

Desfile de plumas em Beirute

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O dia em que

os bersaglieri

chegaram

para a guerra

Plumas castanhas nos capacetes brancos, e lenços violetas enrolados no pescoço — Beirute nunca viu tamanho luxo militar desfilando por suas ruas já indiferentes aos vários exércitos que a ocupam. São os Bersaglieri, os soldados italianos que chegaram anteontem, mas só ontem puderam desembarcar, sob os olhares espantados dos marines norte-americanos, da legião estrangeira da França, israelenses, libaneses, sírios e palestinos.

— Vieram para um baile? – gritou um “GI” norte-americano, enquanto instalava uma caixa de comunicações perto dos silos do porto de Beirute.

De cima de um tanque, também branco, um Bersaglieri respondeu:

— Sei que isso aí é uma bomba, mas explode depois que a gente passar, bem?

Os italianos trouxeram o bom humor à Beirute, apagando mesmo o sucesso do último desfile militar, o de anteontem, feito pelo próprio exercito Libanês, saindo pela primeira vez às ruas, organizados, em grandes contingentes, depois de quase oito anos de guerra.

O coronel Mastico, camisa e bermuda brancos, olhava, com prazer, seu exército de plumas desembarcando do “Buona Speranza” e do “Caorle”, ancorados no porto de Beirute com um grande atraso.

— Este lenço violeta… É moda? — perguntou uma jornalista polaca.

— Não…é o símbolo desta nossa missão — explicou, sério, o coronel Mastico. — Cada missão tem uma cor…Você vê este botão rosa aqui? (no meio do lenço violeta, ele mostrou um botão rosa, quase invisível). É para dividir os grupos.

A jornalista polaca, entre os italianos, causou alguma sensação. E grupos de soldados pediam para fotografar-se com ela. Outros, ainda a bordo, gritavam para ela. Bombas explodiam à distância, comemorando a despedida da OLP.

ber4Um outro jornalista perguntou ao coronel Mastico se suas tropas tinham instruções especiais para capturar membros da Brigada Vermelha que foram surpreendidos em Beirute quando Israel a cercou. Ele o pegou pelo braço, levou-o um pouco para fora do grupo de imprensa e de outros oficiais, e quis saber:

— É verdade? Tem célula da brigada aí dentro — e apontou para além das trincheiras de containers, Beirute oeste. De uma janela, longe, viam-se papeis picados caindo.

— Parece que sim. Mas como os palestinos começaram a retirar-se com kefyas (o pano envolvendo parte do rosto e a cabeça), não se sabe se ainda estão aqui, ou se já partiram para o Yemen, ou para Síria…

Quando a tropa de Bersaglieris deixou o porto, percorrendo a cidade em direção ao aeroporto internacional, que se encarregará de controlar, alguns beirutenses saiam de seus carros, para vê-la. E a maioria achava engraçado.

Dentro do porto, num jipe, observando os marines com seus fuzis M-16, e um equipamento ultrassofisticado, um coronel libanês comentou:

— Estamos nos preparando para entrar em Beirute oeste. E entraremos, muito possivelmente, neste fim de semana.

Um pouco mais além, no edifício destruído da alfândega, no teto, escondido entre escombros, um soldado israelense observava por binóculo os papeis picados caindo para além dos contêineres que marcam a fronteira, neste setor. Agitado, comunicava a novidade para seu comando. E por que? “Não havia ninguém ali, há muitos dias”.

Beirute fervilhava, ontem, de calor e agitação. Diante da galeria Semaane, e na passagem do museu, formavam-se filas quilométricas de carros com mudanças sobre os tetos, a maioria aos pedaços, perfurada por balas. Eram os libaneses voltando para o setor oeste, de onde fugiram durante as várias fases da guerra.

Seguindo a coluna deste êxodo ao avesso, descobria-se um medo geral de não reencontrar a casa de pé, ou o que tinha ficado dentro. A fila não andava, congestionada desde os postos de checagem de documentos. Crianças brincavam atirando com seus revólveres de espoleta ao som das bombas, ontem mais uma vez ininterrupto. Poucos adultos falavam francês ou inglês – só o árabe. A volta às suas casas foi decidida depois que chegaram os marines, especialmente. E reforçada pela televisão libanesa, mostrando os Sírios carregando 30 caminhões com fogões, geladeiras, malas…depois, o exercito libanês garante que os protegerá de possíveis vinganças

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Tawfik, que mora perto da comiche Mazra, e que trabalhava na embaixada do Marrocos, fugiu para Aley, durante os bombardeios. Continuava vendo-os, porém a salvo, do alto das colinas que cercam a cidade.

— Não sei se tenho ainda a minha casa, nem meu emprego — ele explicou. — Volto para ver. Tendo a casa, fico.

Mais que falar, os libaneses muçulmanos que voltam têm dúvidas, como traduziu Tawfik, diante de um grupo que o rodeou, expressando-se em árabe — e fazendo surgir “café Libanês”, como o café turco é chamado em Beirute. “Bachir Gemayel vai trazer a paz para nós?” – era a principal questão.

A esperança está no ar: a Gendarmerie, parte do exército libanês, já tenta controlar o caótico trânsito de Beirute — e guardas já são vistos nos principais cruzamentos, apitando. A luz voltou à noite, nas grandes avenidas, as corniches, embora parcial. Bandeiras do Líbano surgem por toda a parte. Os israelenses desapareceram do centro, reagrupando-se pela periferia. Tratores removem escombros. Pequenos aviões pousam no aeroporto internacional. O embaixador da Arábia Saudita, general Ali Shaer, já estaria de volta, mas sem confirmação oficial. Surpresa, porém, é que os telefones estejam funcionando, entre o oeste e o leste. Até charges voltaram a ser publicadas nos jornais. No “Le Reveil”, ontem, na última página, via-se um libanês todo ferido, enfaixado, fazendo uma chamada: o soldado americano, presente, o francês, presente, e o italiano? – ele pergunta. O soldado italiano está desembarcando correndo de seu barco, atrasado. São os Bersaglieris, o luxo de ontem. Debaixo da mesa de chamada, tremendo, pequeno, vê-se um soldado sírio.

berOs sírios começam a se retirar hoje, pela galeria Semaane, em direção de Damasco — uma partida já duas vezes adiada, por motivos de segurança, os falangistas concentrando-se em pontos no caminho. Ontem, partiram 697 palestinos para o Yemen do Norte, por navio, e também 190 feridos, para Grécia, acompanhados do doutor Arafat, o irmão de Yasser Arafat.

O jornal da OLP já fechou — todos os redatores partindo para o exílio. O conselheiro de Yasser Arafat, Hani Al Hassan, também partiu anteontem, para a Tunísia. O rumor nesta misteriosa Beirute era o de que o próprio Arafat já teria ido embora, entre os 4.371 palestinos que saíram. Ele foi provocado pelo anúncio de Saeb Salam, ex-primeiro ministro que serviu de contato entre o embaixador Philip Habib e a OLP, de que os dois já tinham se despedido. Mas houve um desmentido — uma entrevista com Arafat divulgada ontem pela BBC, sem indicar data.

O tenente-coronel Robert Johnson, dos marines, protagonizou o primeiro contato formal entre os Estados Unidos e a OLP, embora ele o minimize: foi pedir para que a bombástica celebração cotidiana seja encerrada, “um contato técnico”, como o qualificou. Não o atenderam: os tiros para o ar prosseguiram durante todo o dia.

Os legionários franceses, penetrando mais em Beirute oeste, ocuparam o setor do cassino, destruído completamente. Aqui, há 60 anos, um general francês, Gouraud, proclamou a independência do grande Líbano. A independência está próxima: até o próximo dois de setembro, Beirute oeste será reunificada ao leste, e assim, aberta, deverá permanecer. Até 23 de setembro, as forças multinacionais devem se retirar. Depois, sairão também os israelenses e os sírios, que ocupam outras regiões do país. Então, o presidente Bachir Gemayel assumirá o poder, com enviado americano Philip Habib se entregando, atualmente, á tarefa de unificar as várias facções políticas num governo estável. Quem conhece muito bem o Líbano, como o correspondente de “O Estado”, Issa Goraieb, não ousa arriscar um palpite para o futuro.

— Aqui, nada é previsível — ele lamentava, deprimido com a presença de tantas forças estrangeiras em Beirute.

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Tiro em Londres. Guerra total no Líbano.

Inimigos mortais, depois parceiros em busca da paz (Foto: CBS)
Inimigos mortais, depois parceiros em busca da paz. (Foto: CBS 
Shlomo Argov

Shlomo Argov

O embaixador israelense em Londres,

Shlomo Argov, é baleado na cabeça por

terroristas palestinos. Era o que o general Ariel

Sharon esperava para caçar Arafat

e expulsá-lo do Líbano.

Vieram pelo mar Mediterrâneo, envolvendo-se de ar térmico contra mísseis infravermelhos, e lançaram o ataque mais devastador sofrido por Beirute desde o último bombardeio de 24 de julho do ano passado (1981). Em sete ondas sucessivas, das 15h15 às 18h15, os aviões israelenses despejaram bombas sobre objetivos pré-selecionados da OLP, atingindo-os com impactos diretos, e provocando incêndios, grandes explosões – “um pânico indescritível”, como narraram as rádios libanesas. A represália de Israel ao atentado contra o seu embaixador em Londres prosseguia ainda de noite, com a artilharia de longo alcance disparando contra baterias de foguetes Katiushas, no sul do Líbano.

“Não há mais cessar-fogo”, explicou o porta-voz do primeiro-ministro Menachem Béguin. “Aqui, não cairá mais Katiushas”, prometia o ministro Yacoov Meridor, na alta Galileia, confortando a população dentro dos abrigos antiaéreos, depois que uma salva de 20 foguetes matou um homem ao volante de seu carro, ferindo outras quatro pessoas, no começo da noite.

— O exército cumprirá esta promessa – ainda acrescentou o ministro Meridor. Outras fontes do governo, durante o dia, falavam em “exterminar a OLP”, ou em “dar o golpe final contra os terroristas no Líbano”. E se assim for, o cálculo de 30 mortos e de 120 feridos, provisório, na noite de ontem, pode ser apenas um trágico começo de uma guerra total, o ministro da Defesa anunciando que “não vamos entrar numa nova guerra de desgaste”.

Através de seus próprios serviços de informações, Israel já tinha concluído, pela manhã de ontem, que seu embaixador em Londres fora atacado, durante a madrugada, por terroristas árabes. Shlomo Argov, há três anos na Inglaterra, foi baleado, na cabeça, com uma pistola de nove milímetros, polonesa, quando se retirava de um jantar diplomático, no hotel Dorchester, em Park Lane, e encontra-se em estado crítico, no Hospital Nacional.

Para algumas fontes israelenses, Londres teria sido escolhida para o atentado “por parecer um terreno propício, depois da divulgação, sistemática, pelo governo britânico, de que Israel vinha fornecendo armamento à Argentina, clandestinamente” (era o início da Guerra das Malvinas). Haveria, na Inglaterra, assim, um clima anti-israelense, e por isso lá ocorreu o atentado, e não na Itália ou na Alemanha Federal, como era antecipado em Israel, com agentes infiltrados no mundo da guerrilha palestina na Europa.

Prevendo um atentado que marcaria os 15 anos da Guerra dos Seis Dias, exatamente hoje, diversas fontes israelenses passaram as duas últimas semanas advertindo publicamente a OLP: “o cessar fogo”, rompido duas vezes desde julho do ano passado, “envolve também todas as instituições judaicas no exterior, e não apenas a fronteira, no sul do Líbano”.

Após o atentado da madrugada de ontem, nenhum membro do governo de Israel repetiu qualquer ameaça. Este silêncio, raro, provocou o alerta máximo para a OLP, em todo o Líbano. Nas ruas, os israelenses, escutando “o céu carregado”, bombardeiros rompendo a barreira do som, previam, de uma forma geral:

— Vai ser um terrível golpe…

Caças israelenses a caminho do Líbano. photo credit: Thibaud Saintin via photopin cc

Caças israelenses a caminho do Líbano. photo credit: Thibaud Saintin via photopin cc

Antes que Londres revelasse a nacionalidade dos passaportes dos suspeitos presos, entre eles dois jordanianos, um iraniano e um sírio, o porta-voz do Ministério do Exterior, Avi Pazner, já anunciava:

— Não há dúvida de que terroristas árabes são os responsáveis.

Pazner acrescentaria, também, que “todas as organizações terroristas árabes tem seus QGs no Líbano”, indicando o objetivo de uma iminente represália israelense, e ainda revelaria, concluindo, que todas as representações israelenses no exterior já haviam recebido ordens para redobrar a segurança contra “uma nova onda de atentados”. Há dois meses, o segundo secretário da embaixada de Israel em Paris, Yacoov Bar-Simantov, foi assassinado, com um tiro na cabeça. Há dois anos, no mesmo centro londrino, em Park Lane, morreu uma aeromoça da El-Al, num ataque ao ônibus que transportava a tripulação israelense. Em 17/04/1971, o cônsul de Israel em Istambul, Ephraim El-Rom, apareceu morto, após ser sequestrado. Em 13/11/79, o embaixador em Lisboa, Ephraim Elder, foi baleado na perna. Recentemente, dois escritórios israelenses, um em Roma e outro em Paris, também foram atacados.

Saindo de uma reunião do governo de que nada filtrou, o chanceler Shamir apenas diria, “chocado”:

— Árabes terroristas…

Os aviões partiram, mesmo que o Shabat estivesse para começar. A última vez que atacaram em Beirute, em julho do ano passado, deixaram o trágico saldo de 180 mortos. As primeiras bombas caíram perto da concorrida rua Jaloul, visando a tribuna do estádio de futebol transformada em depósito de armas e munição da OLP. Depois, sucessivamente, em ondas que se repetiam a cada meia hora, bombardearam um centro de treinamento do El-Fath, ou “o Relâmpago”, de Yasser Arafat; a base da “Força 17”, que é um grupo especial dentro da OLP; e a entrada que leva ao aeroporto internacional, guardada por palestinos e por soldados sírios da “força de dissuasão árabe”. Segundo o porta-voz militar, em Jerusalém, os aviões “encontraram pouco fogo antiaéreo” – mas ele não revelou que aparelhos estavam sendo usados na operação. A aviação Síria não apareceu sob os céus de Beirute, como nos últimos dois raids aéreos israelenses.

Os campos de Sabra e Chatila também foram acertados – e, pela primeira vez, também a casa de Yasser Arafat, em Bahane, ao sul da cidade, mas ele estava na Arábia Saudita, tentando uma mediação para uma outra guerra, a do Iraque – Iran.

A OLP desmentiu qualquer responsabilidade no atentado em Londres, condenando-o, mas para Israel “a OLP não tem credibilidade, nem para desmentidos”. Só duas horas depois de iniciado o ataque, o porta-voz militar, em Jerusalém, o confirmou, publicando um comunicado oficial:

“Após o ataque criminoso contra o embaixador de Israel em Londres, Shlomo Argov, e após múltiplas violações do cessar-fogo de julho de 1981, o governo deu ordens ao exército de atacar objetivos terroristas no Líbano”.

Um ministro, Yitzhak Modai, explicando então o ataque, declarou: “O preço da nossa moderação tornou-se muito alto. Isto não podia continuar…”.

Beirute em chamas (photo credit: JiPs☆STiCk via photopin cc)

Beirute em chamas (photo credit: JiPs☆STiCk via photopin cc)

O secretário de Estado norte-americano, Alexander Haig, defendeu a represália israelense, dizendo que “Israel mostra ao mundo que ataques terroristas não ficarão impunes”. Mas o Departamento de Estado, em Washington, expressava “uma profunda preocupação com a nova onda de violência”, à véspera da quinta visita de seu diplomata Philip Habib, que obteve o último cessar-fogo, agora inexistente. Ele chega na segunda-feira, a Beirute, enviado pelo presidente Ronald Reagan. Os Estados Unidos consideram que “o cessar-fogo ainda é valido, embora frágil”. A Inglaterra e a ONU foram os primeiros a enviar notas de condenação ao atentado em Londres ao primeiro-ministro Menachem Béguin.

Reagindo ao ataque à Beirute, as baterias de foguetes Katiushas, no sul do Líbano, abriram fogo contra aldeias israelenses da alta Galileia. Os aviões reapareceram, bombardeando uma área entre o porto de Sidon e Nabatyie, ao mesmo tempo em que entrava em ação a artilharia de longo alcance.

O duelo, na fronteira, prosseguia na noite de ontem, toda a população da Galileia dentro dos abrigos antiaéreos. Um diplomata via um grande perigo neste duelo, “embora a represália israelense já tenha sido desproporcional ao atentado”. Lembrava-se que as tropas de Israel estão reforçadas na fronteira, ao norte, desde a anexação do Golan Sírio, “e elas podem avançar, invadindo o Líbano para destruir as rampas de lançamento de foguetes”.

JE SUIS AHMED

AHMED, POLICIAL MUÇULMANO, MORREU EM DEFESA DOS "INFIEIS"

AHMED, POLICIAL MUÇULMANO, MORREU EM DEFESA DOS “INFIÉIS”

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A tevê de Israel perguntou a um soldado do batalhão que invadia o Líbano se ele sabia qual era a sua missão. Sem titubear, ele respondeu: “Acabar com as katiushas” — os foguetes russos que choviam sobre o norte de Israel, em 1978, disparados pela OLP. A entrevista prosseguiu: “E onde estão as katiushas?” A resposta, totalmente inesperada: “Em Moscou”.

Ouvi um diálogo parecido na tevê francesa. Perguntado como acabar com o crescente terror jihadista na França, um especialista advertiu: “O que assistimos é só o começo; para que não mais se repita, será preciso pegar quem dá as ordens”. Um segundo silencioso de surpresa, ele arrematou: “E os chefes que dão as ordens estão no Oriente Médio e no Norte da África”.

A França está refém da jihad, ou guerra santa. Um dos irmãos que “vingaram” a “profanação” de Maomé, com 12 mortos no ataque à revista Charlie Hebdo, estava em duas listas dos serviços secretos dos EUA. Por uma delas, não podia embarcar em avião de nenhum aeroporto. Noutra, era um da seleção dos mais perigosos terroristas no momento. Os franceses tinham ambas as listas. Por que os deixaram em liberdade? No caso de um deles, por que o soltaram, depois de prendê-lo?

A França relaxou, permissiva, a ponto de ser paralisada por dois dias da trama que foi ao ápice com dois sequestros simultâneos — uma première em Paris. Foi tolerante ante ataques antissemitas. Não entrou em alerta com o êxodo de judeus franceses para Israel. Fechou os olhos para os extremos dos seus cinco a 10% de cidadãos muçulmanos. Agora, acorda para uma nova realidade. Liberdade, Igualdade e Fraternidade não são para quem aspira impor com violência seus valores ou sua religião a outros povos e credos, um choque de civilizações.

Não por acaso o escritor Michel Houellebeca acaba de lançar o já bestsellerSoumission (Submissão) cujo enredo é a islamização da França, que então contagia todos os outros países da União Europeia. Aliás, ele é a capa da edição ensanguentada de Charlie Hebdo. Mas, atenção, nem todos os muçulmanos são jihadistas — ainda uma minoria. O policial muçulmano francês Ahmed Merabet foi morto protegendo exatamente aquilo que o fanatismo tentou destruir, a liberdade de expressão.

No mesmo dia do ataque ao Charlie Hebdo, uma afiliada da rede CBS, em Maryland, EUA, foi invadida por hackers. Nos monitores da redação surgiu a frase: “Infiéis, o novo ano lhes trará sofrimento”. Assinado: “Cybercalifado” — o grupo de apoio ao Estado Islâmico, Iraque e Síria. Mas não só: o sobrevivente dos irmãos que explodiram uma bomba na linha de chegada da maratona de Boston, em abril de 2014, deverá ser julgado na semana que vem.

Se não vamos a Maomé, Maomé vem a nós. O temor aos jihadistas cresce a cada cabeça degolada diante de uma câmera de tevê, ao vivo. O patrulhamento jihadista aumentou a paranoia nos aeroportos, profere sentenças de morte, ou fatwas, contra “profanadores”, mesmo quem só se arma com um lápis, e destampou da garrafa o gênio do mal que assombrou a França — e que promete mais. Quando aiatolá Khomeini saiu de seu exílio francês para assumir o Irã, um “vento” xiita soprou todo o Oriente Médio, contagiante. Mas arrefeceu com o tempo, limitado aos muçulmanos. Já os jihadistas do Estado Islâmico, no Iraque e na Síria, e também no Iêmen, são vulcões que irrompem sem aviso prévio, e em qualquer lugar em que haja infiéis para justiçar em nome de Alá.

Je suis Ahmed  brown

Estou comprando crack


2015-01-05 00.09.36

O fotógrafo Luiz Prado fotografava do alto de um prédio. Na foto acima, pago.

Abaixo, recebo a pedra de crack. Era uma reportagem sobre a Cracolândia,

então novidade em São Paulo. Quando ia embora, a craqueira gritou para mim:

– Ei, vamos fumar juntos?


2015-01-05 00.10.46

Crack em brasa no cachimbo, tragada profunda, relampejam os olhos e… abracadabra: “Sou outra pessoa” – diz Adriana Rodrigues de Souza. É a vez de Gabiru. Isqueiro no fornilho, dá uma cachimbada, prende a fumaça até tossir e… Shazam! “Agora fica mais fácil aguentar o dia” – ele explica, aliviado. Outro pedacinho de crack sobre as cinzas completa a rodada. Micróbio aspira e… tuiinnnn: fissura aplacada.

  Nem cinco minutos depois, Adriana quer de novo ser outra pessoa, Gabiru sente que vai “saindo do ar”, Micróbio afunda na “nóia” – a paranoia. Os três estão na rua Conselheiro Bebias, no centro de São Paulo, contagiados pela epidemia de crack. Imundos, maltrapilhos, confundem-se com o lixo no escuro da noite. Já perderam o amor-próprio, a esperança e a memória. Trocam-se por uma pedra de crack. Perderam-se de tanto barato instantâneo.

   “Cada pedra é uma pessoa” – conta Adriana, 20 anos. “E todas falam comigo”. Mas ela ainda não entendeu “o que as pessoas estão querendo dizer”, mesmo fumando-as, todos os dias e noites, há mais de quatro anos. A próxima dose será sempre uma nova promessa de revelação. Miragem enfumaçada: “Sinto que as pessoas me puxam…”

   Gabiru, 19 anos, “está numa boa”. Quando acha que deve comer, fuma maconha: “Abre o apetite”. Para se desligar, então dormir, ele toma álcool. Assim se cuida. Por suas mãos rolam “umas 80 pedras por dia”. Algumas o mantém “24 horas no ar”. Outras, vende. Ele as chama de “Kuwait”, porque inventadas nos Estados Unidos. “Tô nessa porque quero”, garante. Micróbio, arredio, não fala nem a idade. Irrequieto, ansioso, de pé o tempo todo, só acalma pipando o cachimbo.

  Uma garota de oito anos se enrosca numa sobra do cobertor de Adriana. Fuma tabaco com a compulsão de um adulto. O quarteto se une por algumas coincidências: nenhum sabe de pais ou família, todos são “diplomados” pela Febem e vivem nas ruas. Pressentem o crack como cães, o cio. O mundo vai da estação da Luz até a avenida São João. Há quem cruze a fronteira, chegando à praça da República. Misturam-se às prostitutas e mendigos. Brilhou um isqueiro à noite, ali estão eles. De dia sentam-se no meio-fio, ou se esticam sob o sol para dormir.

  De uma janela para a rua Conselheiro Nébias, no quarteirão próximo da rua Aurora, avista-se uma mulher de vestido preto e branco. Chama a atenção tentando se enfiar entre um carro estacionado e a calçada. Quando consegue, acende o cachimbo. Dia claro, lojas abertas, até a polícia está em ação na esquina, descobrindo que Micróbio é Rodrigo, menor de idade que traz na mão esquerda, tatuada, uma temerária confissão: a caveira com um punhal, marca de quem já matou policial. O soldado Araújo examina a tatuagem. Do outro lado, a mulher se levanta, na fugaz curtição do crack, e encosta na parede de um supermercado, escorregando até sentar-se, as pernas abertas.

  “Não matei ninguém, não” – Micróbio puxa a mão. “Foi na Febem que me tatuaram, mas vou apagar”. Agora o soldado Araújo procura picadas nos braços, enquanto vai perguntando: “Rodrigo de quê?” Cada resposta é um novo sobrenome. Outro soldado os transmite por walkie-talkie. Abordada por um homem, engravatado, a mulher se levanta, cruza a blitz, e logo está de volta. Óbvia transação: vê-se a troca de uma nota por algo invisível, tão pequeno, mas logo enfiado no bolso da calça. E lá vai ela de volta entre o carro e o meio-fio queimar “a comissão”.

  Micróbio olha desconfiado para o repórter. “Foi você”, está na ponta da língua. De noite, Gabiru teria se enganado, agora foram todos dedurados. A imprensa por testemunha, o estudante Marcos Perusi dá um passo adiante, e acusa o soldado Araújo: “Você chamou o suspeito de bobo”. E se apresenta: “Sou da Comissão de Direitos Humanos”.

  -Seus documentos – pede o soldado, surpreendido. “Xinguei ele de bobo?”, pergunta. “Você o insultou”, insiste Perusi, que prova fazer pós-graduação na USP. “Este menino (R.A.M) é ladrão de toca-fitas”, ouve-se pelo walkie-talkie. Limpo, sem drogas nem picadas, Micróbio foi substituído pela Comissão de Direitos Humanos no interesse das Rondas Ostensivas com Apoio de Motociclistas (Rocam). Não sendo bobo mesmo, ele cai fora rapidinho. Do outro lado da rua, o repórter decide testar o mercado de crack a céu aberto.

  -Tem pedra? – pergunta à mulher de preto e branco.

  -Você é da polícia? – desconfia. Tranquilizada, impõe a comissão: “Metade para mim”. Uma pedra, R$10,00. Pega a nota, manda esperar e sobe a rua até um grupo de garotos. Uma perua da polícia chega junto. Descem militares armados. Mas lá vem ela voltando. Cochicha ao passar: “Vem comigo”. Não que temesse ser escutada; com a pedrinha de crack escondida na boca, mal podia falar. Entrega feita, ela diz se chamar Márcia, e convida: “Se deixar eu fumar com você faço o que quiser”. Por enquanto, tem uma nova fornada para o cachimbo. Então se espreme entre um carro e a guia. O mundo vai passando em volta. Com uma aparente alucinação, surrealista: um cavalo sem cavaleiro  surge galopando, perseguido por um policial montado e uma radiopatrulha. Capturam-no na rua Brigadeiro Tobias, já perto do Denarc, o Departamento de Narcóticos, vencido o rush do trânsito na avenida Casper Líbero.

  Um sintoma da epidemia de crack é a violência. Ali está um homem caído no chão. As pessoas que o rodeiam parecem estar drogadas. Olhar esbugalhado, um rapaz abre a porta de um “táxi” que parou – o carro de reportagem do Estadão, camuflado. “Coloca ele aí” – ordena. Esquina de ruas dos Gusmões e Protestantes, quatro da tarde, o motorista Evandro só exige que testemunhas o acompanhem. Ele não quer chegar no Pronto-socorro com um corpo perfurado por cinco tiros, e nada a declarar ao plantão policial. A multidão se impacienta, balançando o carro como se fosse virá-lo. Todos gritam. “Ai minha cabeça: parece uma panela de pressão” – reclama a mulher que tem o respeito geral.

  O Tático Móvel desce a rua a toda, sirene ligada. Dois soldados vestem luvas enquanto perguntam: -O que aconteceu? Silêncio. Um vê sangue, então pergunta: -Quem atirou? Silêncio. Fica irritadíssimo, diz uns palavrões e se dirige a todos: “Agora ninguém sabe p…. nenhuma! Ninguém viu nada. Que se …..” Partem com o corpo sem nome, sem testemunhas, sem nada para o boletim de ocorrências além de local e hora. “Foi uma menina”, revela a ex-panela de pressão, agora aliviada. “Chegou no homem e disparou cinco vezes”. Depois, saiu andando, e ninguém a deteve nem pela curiosidade de saber: -Por que? “Aqui todos sabem”, explica um policial que chegou para investigar. “É droga, com certeza”. Ele não tira a mão do gatilho do revólver, no coldre. “Fuma-se crack no meio da rua”. Só procurar pelo chão: no meio do lixo, há maricas – os cachimbos improvisados, feitos de rosca de lâmpadas ou tampa de vidro de esmalte. As garrafinhas do saudável Yakult também servem. Sem nunca ter passado do cigarro, ele adivinha pelo que já viu: “O efeito deve ser muito forte, muito mais do que o da cocaína pura”.

  Viúva duas vezes, a “Pantera Negra”, ou “Jaboticaba”, ou “Yolanda”, esclarece: “Aqui é uma rua, ali é outra”. Tem lógica, como acrescenta: “O ponto de drogas está ali; aqui ficamos nós”. Não que sejam incompatíveis. Mas o que acontece do outro lado da rua está além de uma fronteira virtual. “Não sou nenhuma santa” – e ela mostra o gesso do braço direito lotado de assinaturas de novos pretendentes. A terceira viuvez? Ela dá uma gargalhada. Uma amiga ao lado parece desconhecer fronteiras. Alucinada, murmura incongruências na calçada dominada pela prostituição. Alguém a chama de “Maria das Pedras”.

  A prostituta cobra R$35,00. Anuncia: “Faço o que posso”. O craqueiro pede R$15,00 mas deixa por R$10,00. Também faz propaganda: “Esta é turbinada”. Quem experimentou, nega. O efeito da pedrinha começa em 15 segundos, dá um pico em cinco minutos, tuiiinnnn, e decai até desaparecer no máximo de 15 minutos. Uma droga fast-food. Fica o vazio que só será preenchido por novas baforadas. Fuma-se para fumar mais, e mais, e mais. O crack é assim, insaciável. Ao estreante, enjoa. Mas produz uma sensação de potência e euforia. A cachimbada equivale ao “Shazam!” que dá poderes ao super-herói das histórias em quadrinhos. Ao abracadabra das metamorfoses mágicas. Em seis semanas de uso, vicia. Com mais tempo, provoca hipertensão, taquicardia, paranoia. E pode levar ao suicídio.

   “Ah, nem sei o que faria sem as pedras” – diz uma craqueira de 17 anos num “ponto” ao lado do tradicional Bar do Leo, na rua Aurora. “Loucura: estou nessa desde os 13 anos”. Uma vez, no barato, ela enxergou cobras avançando poste abaixo. Também já entrou em pânico, gritando sem controle. Desistiu de namorar: “Não tenho nenhum prazer sexual”. Mas ela topa qualquer programa, não importa com quem, por uma pedrinha. “Não estou nem aí para Aids”. Nem para a família: “Esqueci quem são meus pais”.

  A divisão entre consumidor e traficante se embaralha no fast-food do crack. Adriana vendia mais do que fumava. “Aí a Ivonete morreu, de cachimbo na mão, e um tiro no peito”. Era a fornecedora. Agora ela fuma a comissão do que vende. “Pintou freguês, vou buscar”. A memória começa a capengar. Já não se lembra mais de uma irmã. Gabiru a chama de “Gorda”. Maldade: ela parece ter o peso normal, nem tão franzina como os outros craqueiros.

  -O que você come?

  Ela abre a mão para mostrar uma pedra. Come crack.

  -Sede não tem?

  Ela aponta para o esgoto escorrendo para um bueiro.

  -Trabalha? “Cato lixo”, responde. Adriana se gaba de que “pode parar quando quiser”. Gabiru, ex-gráfico, também se mostra convencido: “Eu me controlo, ainda sou dono de mim mesmo”. Então, fumarão mais um pouco hoje, amanhã, depois. Micróbio nem fala mais, só espera a chama de um isqueiro. Já regrediu tanto que o apelido, de outros tempos, lhe faz justiça.

Foto: MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL (21/01/2013)

Foto: MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL (21/01/2013)

 Os pilotos do casarão Santos Dumont

  Reféns do crack, os 400 moradores do “casarão de Santos-Dumont”, no bairro de Campos Elísios, caberiam dentro de um Jumbo voando na rota de um desastre já anunciado por um oficial de Justiça há uma semana: o despejo, em mais 40 dias. Numa escadaria do cortiço, um grupo de craqueiros tenta decolar pipando um cachimbo. Voo baixo, cego, raspando a lama e o lixo.

  “A batalha aqui é grande: os drogueiros são de 30 a 40; a gente disposta a lutar, só dez” – conta um dos moradores. “Mas se nos despejarem não acabarão com a droga”, ele aposta.

  O casarão em que morou Alberto Santos-Dumont, na esquina das alamedas Nothman e Cleveland, deverá agora ser esvaziado e restaurado. Há 12 anos foi tentado o primeiro despejo. Mas 52 famílias despejadas antes de dois cortiços no bairro de Santa Cecília o invadiram. A situação mudou com a chegada dos craqueiros. “Infiltraram-se entre as pessoas de bem”, reclamam moradores que nasceram no cortiço, rompendo um silêncio imposto sob a ameaça de navalha. Uma avó que denunciou ao Estado que a propuseram tornar-se “um avião”, entregando drogas, recebeu a advertência de que poderá “sangrar”.

  À noite, quem tem que passar a pé diante do casarão, corre. O motorista que der duas voltas no quarteirão, revelando algum interesse, será abordado: quer crack? Mas “Salsicha” não está para conversas, só negócios. “Tô numa boa não”, ele avisa. “Desbaratina”, ordena. Uma mulher confessa que se casou “só para sair deste inferno”. Mas ela volta para visitar a mãe. E protesta contra a ordem de despejo: “Como aqui as portas são abertas para todos, não podemos impedir quem quer que seja de entrar. Já entrou ladrão fugindo da polícia. Já chegou para morrer ferido em tiroteios na rua. Aqui há craqueiros como nas ruas centrais da cidade. Todos os lugares têm viciados”.

  As 120 famílias, com 176 crianças, incontáveis cachorros e gatos, foram surpreendidos em março com a chegada dos “Rambos”. Eram policiais bem armados que revistaram todos os cubículos do cortiço. Pela primeira vez a comunidade do Casarão de Santos-Dumont percebeu que tinha se tornado refém dos craqueiros. E que o provável resgate será o despejo final, que o Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, a Unificação de Centros de Cortiços, a Pastoral da Moradia e a vereadora petista Aldaiza Sposite estão tentando evitar.

  “Botar a população na rua?” – espanta-se a coligação anti-despejo. “A rua já está cheia…” Uma moradora protesta: “Tem muita família boa e trabalhadora aqui dentro que não deve pagar pelo que fazem uns poucos”. A comunidade também sofre diretamente: “Os craqueiros te quebram os canos, arrancam fios de luz, compram briga”. O anexo do casarão já está contagiado pela epidemia de crack. Completamente alucinado, um homem perambula entre crianças. “O crack me dá alegria”, apregoa. “Troquei pela cachaça, que me perturbava”. Um encarregado da limpeza, diante de um monte de lixo, propõe, mas ninguém o escuta: “Por R$2,00 limpo todo o quintal”.

CREDENCIAIS, POR FAVOR – II

Aqui está a segunda rodada de credenciais que colecionei enquanto correspondente.Nem todas foram para abrir passagem para guerras. Com uma delas segui a vitória de Guga em Roland Garros, na França. Beleza! Outra me levou pela Copa dos Estados Unidos até a vitória da seleção brasileira contra a Itália. Com outra, ainda, fui até a derrota do Brasil para os franceses, em Paris — e ao voltar à feira ao lado de onde morei, perto da Torre Eiffel, alguns anos depois, tive que ouvir o padeiro ainda me lembrar: “les bleus…” Tudo bem: ganhei algumas madeleines pelos desaforos. A primeira rodada das credenciais pode ser vista clicando neste link.

A principal credencial: a placa visível no meu carro para rodar em Gaza, Líbano e Israel.

A principal credencial: a placa visível no meu carro para rodar em Gaza, Líbano e Israel.

Ah, Roland Garros...

Ah, Roland Garros…

Encontro de chefes de Estado na Bahia.

Encontro de chefes de Estado na Bahia.

Esta vale  pela graça: virei "Rabinovia", e a revista para a qual trabalhava, Epola Magazine.

Esta vale pela graça: virei “Rabinovia”, e a revista para a qual trabalhava, Epola Magazine.

Copa do Mundo nos EUA

Copa do Mundo nos EUA

Eco 92, Rio.

Eco 92, Rio.

2015-01-04 23.57.40

Convenção Democrata em Atlanta, EUA

Mike Tyson & Foreman, duas grandes lutas.

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Encontro Gorbachov e Ronald Reagan

Encontro Gorbachov e Ronald Reagan

Panamá, na invasão americana que derrubou Noriega.

Panamá, na invasão americana que derrubou Noriega.

Carteira do Líbano, durante a guerra de 1982-84

Carteira do Líbano, durante a guerra de 1982-84