El Condor Pasa

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Nunca tinha estado na Amazônia montanhosa, do lado do Peru e Equador.
Fui à Cordillera del Condor na última erupção da longa guerra por retificação de fronteira entre peruanos e equatorianos iniciada em 1821.
Em troca de independência da Grã-Colômbia, o Equador pagou com territórios da bacia amazônica suas dívidas com credores britânicos. Mas o Peru protestou: eram dele as terras.
Os dois países brigaram desde 1932, com períodos de não-paz mas sem-guerra, até 1995 – o último grande enfrentamento.
Foi quando conheci a Amazônia do Condor. O céu era dos aviões de combate e a floresta, de soldados. Tiros, bombas — e aquela paisagem majestosa mas muito úmida, quente, uma sauna sob constante bombardeio de mosquitos.
Em 1998, a paz entre Equador e Peru foi assinada no Rio, sob os auspícios do Brasil e
testemunho de outros países vizinhos. Em 1999, implementada.

mapa Ecuador-peru-land-claims-01CONDOR, Equador — Depois do bombardeio aéreo, nem os mosquitos da floresta voltaram a atacar. Silenciam os pássaros, espantados pelo ruído já distante dos helicópteros. Cenário grandioso na Amazônia que começa a se apagar sob a neblina do entardecer, a 1.800 metros de altura. Abaixo estende-se o vale do rio Cenepa, afluente sangrento da guerra entre Equador e Peru.

Os “azuis” saem das trincheiras dentro da mata. Olham para o horizonte buscando os helicópteros “vermelhos”, peruanos. Vão se reunindo na cozinha do acampamento, entre galinhas ciscando e cães sonolentos. Ouvem, nítido, o motor de um avião. Todos correm. Escalam ribanceira, jogam-se no mato. “Azul!”, grita o capitão Victor Burneo. Só um susto.

O jantar está quase pronto: sopa de carne, arroz e café.

No último bombardeio “vermelho”, dois aviões subsônicos despejaram três bombas de 250 quilos. O impacto abriu crateras como as dos vulcões ao redor de Quito. Árvores com troncos grossos jazem com as raízes arrancadas. O capitão Burneo fica pequeno no fundo do buraco de quatro metros por oito de diâmetro. Uma explosão abriu uma fonte regurgitante, que molha a terra revolvida. Os vidros dos dois casarões do quartel Centinela del Condor estão em pedaços. E a bandeira amarelo-azul-vermelha tremula provocante no ponto mais visível da cordilheira. Os peruanos não a miram, nem ao destacamento: descobriram que são alvos vazios. Bombardeiam a floresta, onde os “macacos” do Equador passam o tempo escondidos.

“Apenas nos defendemos”, explica o capitão Burneo. Contra um ataque de paraquedistas, fincaram lanças no chão. Contra uma escalada “vermelha”, armaram espantalhos com fuzis de mentira. Tampas de latas numa cerca dão o alarme nas infiltrações. Caminhões-ônibus que circulam ao pé do Condor, os “superboeing”, exibem a foto tradicional do mestre de guerrilha Che Guevara. A guerra, na Amazônia montanhosa, recortada de penhascos, “pode durar anos, sem vencedor”, garante um soldado. Só os aviões o assustam. “Mas há que superar o medo”, ele repete como se estivesse lendo a ordem escrita numa parede do Centinela del Condor: “Estar fisicamente preparado, mentalmente forte, tecnicamente superior, moralmente sadio”.

O capitão Burneo não faz uma frase de efeito ao dizer que vai mostrar o “teatro de operações”. Ele tem uma vista privilegiada da guerra. As bases do Peru em Soldado Vargas, Destacamento Nuevo e Soldado Pastor estão abaixo margeando o rio Cenepa. As bases equatorianas mais bombardeadas são visíveis ao Norte: Tiwintza, Sur, Cueva Los Tayos, Coangos e La Montanita.

“Nenhum de nossos fortes caiu”, garante o capitão Burneo. “As notícias de recuo equatoriano são propaganda de guerra do Peru. Resistimos, e vamos continuar resistindo”.

Peruanos, heróis do Cenepa. www-heroesdelcenepa-com-ec.jpg

Equatorianos, “heróis do Cenepa”. www-heroesdelcenepa-com-ec.jpg

Condor Mirador está a 50 quilômetros de Gualaquiza, na província de Morona Santiago, a uma hora de voo de Quito, ou quase 20 horas em ônibus. Os aviões peruanos a alcançam em dois minutos, decolando da fronteira. Os helicópteros surgem em ondas a cada oito minutos. Surpreenderam na quinta-feira, disparando em plena uma da tarde, sem a neblina e a noite com que até agora se protegeram. Mas as rajadas não acertaram nenhum “azul”. As incursões dos aviões

O exército equatoriano está reformando a estrada de terra que sobe o Condor, depois do rio Zamora, atravessado numa balsa camuflada com ramos de árvores da floresta. O front peruano, em Tumbes, na costa do Pacífico, não é assim tão acessível. Os soldados são substituídos por helicópteros. Na sexta-feira, muita munição era despachada para o alto. Os reforços para o fim de semana incluíam dezenas de caixas de morteiros. Um caminhão lança-mísseis saiu três vezes do quartel de Gualaquiza, mas voltou armado. As famílias dos soldados, de plantão na entrada, ficaram preocupadas.

“Meu irmão foi para o Cenepa”, diz uma mulher. “Estou aqui querendo notícias”. Pais, filhos e vizinhos do quartel passam o dia na “Sala de Espera”, acompanhando o movimento dos helicópteros e caminhões. Um índio Shuar, Angel Yunan, que tem dois filhos sargentos e dois sobrinhos soldados, mostra-se orgulhoso aos repórteres: “Os peruanos sempre roubaram nosso território. Mas desta vez, não vamos deixar”, ele diz.

Os soldados que vão partir para o front ouvem o sermão de um sargento sobre os “inimigos peruanos”. Algumas frases saem com quatro insultos seguidos. Todos se preparam para um batismo de fogo. Há pouco, no bar El Barquito, muitos brincaram de guerra, num videogame. Só recrutas que acabaram de passar por um treinamento especial. Cada um ganha um saquinho de chiples – banana e batata fritas, misturadas a pedaços de carne. O prefeito de Azogues, Segundo Germano, acaba de descarregar latas de atum, mas elas não são distribuídas. O depósito do quartel se enche de dólares enviados de todo o Equador.

Os piuins e borrachudos da Amazônia do Condor são o sancudo e o arenilla. Os repelentes sumiram das farmácias de Quito, requisitados no front. Coincidência ou não, com a guerra eles estão em trégua. A floresta também mudou. Feriu-se com picadas. Desnudou-se com as explosões. Encheu-se de soldados. Coloriu-se com bandeiras. Mas mais estranho é o total silêncio que reina depois dos bombardeios. Os habitantes da floresta parecem resignados. Em Chuchumbleza, pequeno povoado entre Gualaquiza e a Cordilheira do Condor, comboios militares cruzam o rio em que crianças brincam sem escolas, a vida alterada com a guerra. Os caminhões “superboeing” lotam nas viagens para o quartel, os passageiros amarelos de pó. Os casebres pelo caminho parecem vazios.

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A partir de Chuchumbleza já se avista a Cordilheira do Condor, majestosa no meio de duas serras menores. A estrada vai margeando o rio Zamora, que se une ao Santiago, depois ao Maraon, e chega ao Brasil com o nome de Amazonas. O Cenepa corre entre eles, centro da nova guerra pela demarcação dos últimos 78 dos 1.600 quilômetros da fronteira entre Equador e o Peru. Os “vermelhos” lutam pelo direito territorial adquirido com o Protocolo do Rio de Janeiro, assinado há 53 anos. Os “azuis” reivindicam um direito histórico e a “inexecutabilidade” do acordo, “anulado” pela descoberta do rio Cenepa em 1947. Mais: os equatorianos contam ter perdido 60,89% de seu território desde 1915 – um total de 428.217 quilômetros, ou quatro vezes o tamanho de Portugal e 20 o de Israel. Só o Peru já teria engolido 248.217 quilômetros – denuncia o historiador Jorge Villacrès Moscoso. A Colômbia, 180 mil, com o tratado Muòz Vernaza-Suárez, em 1916.

“Não vamos perder novos territórios”, repetem as pessoas mais simples ao longo da estrada para a Cordilheira do Condor. Mas a guerra se aproxima lentamente mais do Equador do que do Peru. Uma bomba já foi descoberta na ponte de Padmi, na província de Morona-Santiago. A polícia desconfia de um “infiltrado”. Um grupo de paraquedistas peruanos já pulou perto de Tiwintza, na retaguarda dos destacamentos de Cueva de los Tayos, Base Sur e Coangos. “Tudo indica que pularão de novo”, adverte um oficial. Muitos reforços foram despachados para Huaquillas/Águas Verdes, na fronteira do Pacífico entre os dois países, como se uma invasão peruana fosse iminente. E Gualaquiza, “A “Pérola da Amazônia”, está virando uma cidade fantasma.

Je suis Enéas

Muito antes do “Je suis Charlie” tornar-se viral e incorporar outros nomes,

existiu o médico Enéas Carneiro, candidato a presidente no Brasil.

Ele dizia “Meu nome é Enéas”, e pronto: esgotado seu tempo de propaganda na TV.

Desde 6 de maio, há oito anos, seu bordão passou a ser:

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São Paulo, 1998 – Proclamava-se o próximo presidente do Brasil, sem ser um dos dois favoritos nas pesquisas de opinião pública, e assegurava: “Não estamos loucos, nem delirando”. Tornou-se coletivo: “Nosso nome é Enéas”. E começou a marcar entrevistas para o dia 1º de janeiro, na rampa do Palácio do Planalto.

“Delirantes-falsos-mentirosos-fabricados” são os 4,4 pontos porcentuais das intenções de votos que o colocaram em quarto lugar na corrida presidencial, acima dos ex-governadores Leonel Brizola (4,1 pp) e Esperidião Amim (1,9 pp), e ameaçando Orestes Quércia (5,5 pp) – “esses senhores extremamente mal dotados pela natureza”, como diz. Mas ele se nega a comemorar já uma vitória para o minúsculo Partido da Reedificação da Ordem Nacional (Prona).

O Dr. Enéas, médico de 55 anos, sabe-se o “próximo presidente” porque obteve uma prova de que o Prona não constou de uma pesquisa do Ibope em Porto Alegre. Ele tem uma “testemunha espontânea”, com denúncia registrada em cartório, e ficou indignado: “Como acreditar em pesquisa se o nome da gente não está incluído? Quem quiser confira, em qualquer esquina, de qualquer cidade: oito, nove ou dez em cada cem pessoas apertam a nossa mão e admitem que estão do meu lado”. Essas estatísticas “não são verdadeiras, lamentavelmente, e visam mostrar ao nosso eleitor que não adianta votar em nós, que não temos chance. A maior finalidade delas é colocar uma pedra de uma tonelada em cima da nossa candidatura”.

O “próximo presidente” Enéas Ferreira Carneiro está convencido de que já se elegeria no primeiro turno se dispusesse de três minutos na TV, ao invés de 1,15 minutos. “É convicção nossa, face ao que a gente vê nas ruas. Não estamos todos loucos. Não é possível que estejamos todos em pleno delírio. Somos médicos, engenheiros, advogados – homens de todas as profissões. O que vemos é bem diferente do que mostram as pesquisas”. Mas tudo bem que só seja confirmado presidente no segundo turno. Como ele já explicou à nação: “Só eu tenho as condições necessárias para exercer a Presidência da República, porque sou desligado do sistema que tem tentáculos em toda a parte, um verdadeiro tumor com as suas metástases”. Políticos profissionais, para ele, “são uns pascácios”, ou tolos.

Enéas e Clodovil

Enéas e Clodovil

SEM MAQUIAGEM – O Dr. Enéas orgulha-se de ser pontual. “Em 20 anos de aulas nunca atrasei um minuto. Nunca! Às 21h30 de quinta-feira, como tinha marcado, ele entrou na TV Record, em SP, para uma entrevista ao programa 25ª Hora. As poucas tietes de plantão o reconheceram, mas não se aproximaram. Caçavam duplas caipiras. Barbudo, careca, pequeno e muito magro dentro de um terno jaquetão azul-escuro, exalando pressa como se ainda só tivesse 17 segundos para pronunciar “Meu Nome É Enéas”, seu slogan de 1989, ele dava a impressão de que explodiria à menor provocação. Engano. Dócil, atento a um relógio que tirou do bolso para o tampo da pasta 007, onde guardava uma camisa, ele até surpreendeu: “Pergunte o que quiser, e lhe responderei com a minha franqueza”.

Estado – Essa rigidez com os horários, sua proposta de “orrrrrdem”, o discurso como uma metralhadora… não é por isso que o estão tomando por fascista?

Enéas – Não existe uma grande nação no mundo sem essa rigidez. É preciso que exista.

Estado – Fidel Castro também é rígido…

Enéas – Sim, só que ele exagera, com pena de morte e outros coisas de que discordo. Veja o exemplo da Copa do Mundo: ali houve ordem! Imagine um professor que diz aos alunos: começamos às 19h30, paramos às 21h, recomeçamos às 21h20, e terminaremos às 22h40. Só sai da aula quem estiver passando mal. Quando um aluno quer falar de política, eu o corto: “Por favor, doutor, aqui estamos falando de Medicina”. Imagine ser sempre assim, chova ou faça sol. É bom poder dizer isso. E imagine dar esse exemplo à nação, essa vontade de acertar. Apresentamos nosso projeto, e prometemos: vamos cumpri-lo. Ter horário, ter orrrdem, fazer as coisas funcionarem, é ser ditador?

Estado – Já o chamaram até de palhaço!

Enéas – Não consigo olhar para a imprensa de modo imparcial. Ela não traduz a realidade dos fatos. A Veja me chamou de palhaço. Ora, eu dou aulas para médicos há 20 anos. Tenho mil alunos por ano estudando comigo. Um jornalista que se diz cientista político escreveu aleivosias a meu respeito. Não procuro a imprensa. Se um repórter é elegante comigo, recebe o mesmo tratamento. Mas quando já me procura com ar de mofa, ironia, eu o trato devidamente. Já me perguntaram se sou exótico ou fascista. Aliás, nem foi uma pergunta, mas uma afirmação. Fiquei irritado. Exaltei-me. Sem tempo, não retruquei. Aí concluíram que era fascista. Isso é uma distorção. Querer que o Brasil seja livre, querer que nossas riquezas sejam nossas, que tenhamos um lugar ao sol, como todas as outras nações, isso é ser fascista, meu Deus? Se for, que nos chamem de fascista, tudo bem.

Orrrrdem. Respeito. Os dois assessores do Dr. Enéas o admiram. Fotos, só durante o tempo combinado. Nada de o flash disparar de surpresa e flagrá-lo espontâneo, talvez coçando o nariz. Diante de um cafezinho, pausa. Maquiagem para ir ao ar? De jeito algum: “Quero só lavar o rosto com água” – ele se defende, como se ameaçado.

O LIGEIRINHO – O Dr. Enéas estava lendo num jornal que na eleição de 1989 os candidatos teriam a TV à disposição. “Era carnaval, e isso me marcou”, ele lembra. “Nunca tinha participado de nenhuma reunião política. Mas já vinha discutindo em casa essa angústia que qualquer pessoa que não esteja comprometida sente no Brasil, essa falta de esperança, essa tristeza infinita do homem comum”. Então, sua terceira mulher, a promotora de auditoria militar Adriana Lorandi Ferreira Carneiro, o desafiou:

-Por que você não faz alguma coisa?

-O quê?

-Sei lá, candidate-se a presidente da República.

E aí está. O ex-militar e cardiologista que anulava o voto desde 1960, quando o presidente Jânio Quadros o decepcionou, mergulhava na política “por profunda indignação”. A professora Clarisse Fecury, diretora da Escola 24 de Janeiro, no segundo distrito de Rio Branco, onde Enéas nasceu, já o conhecia por “falar ligeirinho”. E o Brasil o comprovaria em 1989: em 17 segundos, ele conseguia pronunciar 56 palavras.

O pai era barbeiro. E morreu quando ele tinha nove anos. “Passei uma época muito difícil, trabalhando para ajudar minha mãe”. Tornou-se sargento, aos 19 anos, para estudar Medicina. E foi primeiro lugar num vestibular disputado por 755 candidatos na Faculdade Fluminense de Medicina. Ao sair do Exército, em 1965, tinha um currículo com cinco mil anestesias. Hoje, com 38 itens, acumula diplomas em cardiologia e física, aulas de português, taquigrafia e conferências. Da vida pessoal conta apenas o objetivo. Tem três filhas, cada uma com uma mulher, e todas muito discretas. Mora num apartamento próprio de 140 mil dólares em Laranjeiras. Seus vizinhos pouco o encontram no edifício. Às vezes paga com atraso o condomínio. E tem um Escort 1987.

“Quando me meti em política não foi para me tornar como o candidato do PT, que diz: venci. Venceu em quê? Fazendo greve? Qual foi a atividade em que este senhor se distinguiu na vida a não ser fazendo greve? Ao que saiba, ele não trabalha há 15 anos. Por que não estudou, se fala tanto em educação? Por que não se preparou para se tornar Presidente da República. Ele está preparado para perder, como já aconteceu. É o adversário ideal para o candidato do sistema. Fraco, fraco na argumentação. Uma beleza… para ser esmagado”.

Com a bomba atômica o Brasil se faria respeitar no mundo

Com a bomba atômica o Brasil se faria respeitar no mundo

    O BRASIL DE ENÉAS – Seria contra a invasão do Haiti: “Condenamos a intervenção de um país em outro”. Protestaria contra o bloqueio a Cuba: “Deixemos que cada país resolva seus problemas”. Diria às grandes potências: “Deixem-nos em paz. Deixem a nossa Amazônia em paz. Vamos parar com essa história de dar uma terra enorme, maior do que Portugal, para meia dúzia de índios. Vamos acabar com esta história de internacionalização. A economia internacionalizada quer dizer, em outras palavras: nações subdesenvolvidas de joelhos”.

         Enéas, o presidente, “faria do Brasil um país forte”, para evitar um Kuwait tropical. “Quando falo em reorganizar as forças armadas, a imprensa grita: absurdo! Dizem que estou ressuscitando assombrações porque meu candidato a vice-presidente é um almirante respeitadíssimo, o almirante Gama e Silva. Mas por que o Kuwait foi invadido? Por que não tinha poder de dissuasão…”

O Brasil de Enéas “deixará de ser um país extrator, e se tornará transformador”. Vai se impor ao mundo como “nação soberana”. Todas as riquezas minerais pertencerão a um monopólio estatal. Antes de assumir o poder, porém, o “próximo presidente” já lamenta: “É a este grito nacionalista que estão dando o nome de fascismo”. Ele preconiza um estado técnico, forte e intervencionista. E como médico, num partido formado por médicos, proibiria o aborto. “Não aceitamos nenhuma forma de interrupção da vida. E somos contra a eutanásia e a pena de morte”. E a favor da obrigatoriedade do hino nacional nas escolas, que passam a ter primário e ginásio.

O “presidente” Enéas rebatizará o Real. Voltará o Cruzeiro. “O real nada tem de real, é uma farsa, um plano maquiavelicamente tramado para dar certo temporariamente. Mas o cruzeiro, não”. Para intervir “em monopólios e oligopólios, prender quem desrespeitar controle de preços e reduzir as taxas de juros ao nível do mercado internacional”, o Brasil viverá sob um Estado de Emergência Econômica.

Estado – Mas os eleitores não estão aprovando e votando no Plano Real? Não os assustará um Estado de Emergência Econômica?

Enéas – Qualquer migalha que se dê ao homem simples o fará feliz. Quem vivia com uma inflação de 50% ao mês, e de repente, mesmo ganhando a miséria de 65 reais, vê que o dinheiro está estável, suspira de alívio. Essas pessoas têm um imperativo categórico, usando a linguagem de Kant, o grande filósofo alemão: comer. Para elas, pão na mesa é o fundamental. Ficam satisfeitas quando constatam que o dinheiro vale o mesmo que há quatro dias. Compreensível, natural… Mas o Sr. percebe que isso é uma farsa, que daqui a pouco isso vai explodir outra vez. Essas pessoas são tão simples que não sabem o que significa Estado de Emergência Econômica. Mas sentem uma profunda sinceridade quando falo. São atingidas não pela razão fria, mas pela emoção. E aí somos todos iguais: o servente que limpa o chão e o astrofísico. Ambos amam, odeiam, têm esperanças.

O “presidente” Enéas está convencido de que “o único lugar em que se pode endireitar o Brasil é na Presidência, de cima para baixo”. Por isso vai para lá.

NOSSO NOME É ENÉAS – “O governo, os meios de comunicação e os institutos de pesquisa mentem, mentem de modo sórdido” – diagnostica o Dr. Enéas. “Este tripé forma um grande poder. Poder terrível. Maligno. E asfiiiiiixia a população. O povo sequer pode ser informado. Quando alguém, e somos um exemplo, se levanta, emerge, querendo apenas servir, então não presta, torna-se um perigo, um ditador, fascista. Em 1989 o epíteto era Cacareco – um indivíduo que não tem projeto. E agora que temos um projeto, somos um perigo. Meu Deus, não entendo mais nada. Realmente, não entendo”.

Estado – Quem está dizendo “Nosso nome é Enéas”? Quem são seus eleitores?

Enéas – São pessoas lúcidas, que não aguentam mais essa onda de desordem que aí está, que perceberam que vem sendo manejadas, conduzidas qual uma manada de búfalos para o precipício, e que observam ir-se estiolando tudo que presta na nação, os valores cívicos sendo eliminados, destruídos, famílias esquartejadas diante de telas de TV inundadas por imagem de sexo quase explícito no horário nobre… Meu eleitor são essas pessoas, a grande maioria da população. Por isso repito: se tivesse três minutos, bastava isso, não haveria necessidade de segundo turno.

O presidente Itamar Franco deverá deixar o cargo com um nível de popularidade estimado em 83%, um recorde hemisférico. Talvez faça seu sucessor, é o “Presidente do Real e do Tetra”. Mas Enéas, que se acredita o “próximo presidente”, afirma que ele deveria, na verdade, “se envergonhar”. E explica: “Vergonha de não ter apresentado um projeto para o Brasil, vergonha da tristeza que contagia todas as pessoas e vergonha dos índices de mau estar social”.

A deputada federal Regina Gordilho, única do Prona, vê o Dr. Enéas mais do que um fenômeno. “Ele é o nosso salvador”, ela diz.

Safári em Ruanda

Aqui a caça é o caçador

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Fui com o fotógrafo Vidal Cavalcanti para Ruanda, no final de 1986, quando milhares de refugiados hutus (foto) voltavam de países vizinhos depois do genocídio de mais de 800 mil tútsis, em 1984.  

Sem hotel, restou-nos um quarto de  prostíbulo, num bairro em que também viviam muçulmanos — e umas e outros se odiavam.

Toda noite voltávamos derrotados pelo telefone da praça central de Kigali, através do qual tentávamos passar fotos para São Paulo. Mas a ligação tinha um taxímetro embutido, um tique-taque tão forte que derrubava as transmissões.

Uma foto finalmente passada custava uns 600 dólares. Na hora de pagar, sentávamos no chão com a lista da série das notas de 100 dólares que não eram aceitas, porque falsas, para conferir com as nossas. Algumas cédulas eram recusadas por causa do ano que estampavam, coincidente com derrame dólares falsos na África.

Uma multidão de ruandeses nos assistia de olhos arregalados. O povo sem comer e nós gastando uma fortuna por um telefonema em que nada falávamos. Foco de prostitutas, muçulmanos e loucos por dinheiro, fechávamos a porta do nosso quarto e a protegíamos com móveis e malas, empilhados. Dormíamos no mofo.

Nosso intérprete, Tarzã, estava morrendo de Aids. Dormia o tempo todo no carro. Mal se mantinha de pé. Quando um soldado ameaçou cortar a cabeça do Vidal, que desobedeceu a ordem de não fotografar um já degolado, carreguei-o para fora do carro. Vitória: ele conseguiu que fossemos apenas presos, com as cabeças no lugar.

A ordem, estranhíssima, era seguir o jipe da polícia, sem nenhuma escolta. Ele ia rápido; nós, lentamente. Quando a distância ficou grande, entramos por uma estrada lateral e desaparecemos, até hoje. Eu comia ração da ONU. Vidal topava qualquer comida posta no prato dele com a mão do garçon. Seria macaco? A própria Chita? Cobra? Galinha? Ou o gorila famoso da Montanha dos Gorilas? Não importava: ele mandava vir mais.

Chegamos a Paris e fomos salivando direto para um restaurante. Vidal comeu ostras, filé au poivre, tirou fotos proibidas das pessoas sem lhes pedir permissão, e tomamos algum vinho. Separamo-nos, porque eu iria para uma maratona de texto, e Vidal tinha que passar fotos. Acordei com o telefone tocando.

Vidal estava passando muito mal com a comida refinada de Paris. Seu estômago era feito para os chefs ruandeses.

Eis aqui parte do nosso trabalho. Não o tenho completo. Perdi-o entre os vários computadores trocados desde 1996.

Soubemos da morte de Tarzã pouco tempo depois.

tutsis estadaoKigali, Ruanda, novembro de 1996 – O massacre continua em Ruanda. Agora morrem os sobreviventes que podem identificar os genocidas de 1994, ou que reclamam a posse de bens confiscados. Num relatório, A Prova Assassinada, baseado em investigações da Organização African Rights, casos de assassinatos, intimidação, pilhagem, estupro e tortura estão colecionados como provas de que o genocídio prossegue ainda hoje — um novo tempo de reconciliação batizado de pós-genocídio.

O ex-prefeito da área rural de Kigali, François Karera, contesta o uso do termo genocídio para definir a morte de cerca de 1 milhão da minoria tútsi pela maioria hutu em Ruanda, entre 7 e 30 de abril de 1994. Para ele ainda “restam muitos sobreviventes”. O relatório da African Rights conclui que “o número de pessoas a abater é muito modesto”. Alerta: “Na cadência atual dos novos ataques, não será necessário muito tempo para acabar com aqueles que restaram”.

O retorno de milhares de hutus que se refugiaram há 2,5 anos no Zaire, na Tanzânia e Burundi, por medo de represálias pelo massacre, amplia o risco de mais violência em Ruanda. Estão voltando para suas casas, agora ocupadas por sobreviventes tútsis. Muitos são denunciados como genocidas. Mais de 86 mil suspeitos já superlotam as prisões à espera de julgamento, sem data para começar. Antes do genocídio, havia cerca de oito milhões de ruandeses. Os hutus formavam a maioria de 85%, mantida mesmo com o exílio de 1,6 milhões refugiados. Os tútsis eram 14%. E perderam mais de 1 milhão. No povoado de Gatari viviam 12.263 tútsis antes de abril de 1994. Restam agora apenas 21.

O governo de Ruanda é hoje dominado por tútsis que pregam a reconciliação étnica e zelam para que os hutus voltando do exílio não sofram retaliações nem percam as propriedades que abandonaram. Uma frágil trégua. Todo sábado há enterros de ossadas que afloram em jardins ou plantações. A matança ainda está tão presente quanto os refugiados que acabaram de voltar em silenciosa procissão dos campos do Zaire, onde eram reféns dos radicais hutus do grupo Interahamwe, que planejou o genocídio. Mata-se por vingança e queima de arquivo. Suspeitos presos morrem como moscas, ao ritmo de 60 por mês.

“Dois anos depois, os extremistas genocidas continuam ativos, perseguindo e massacrando sobreviventes do genocídio” — denuncia a organização African Rights, que é dedicada exclusivamente aos direitos humanos, conflitos, fome e reconstrução civil na África. “Testemunhas hutus, que não podem ser caladas pela intimidação, também são assassinadas sem piedade”.

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Hèlene Mukangenzi foi degolada na noite de Natal de 1995. Morava sozinha em Kanserege, na área industrial de Kigali, depois de ter perdido praticamente toda a família em 1994. Era “uma mulher boa”, lembra o jardineiro Justin Ruhezamihigo: tinha emprestado dinheiro a uma sobrevivente que vivia com um militar, Epimaque, que a sequestrou durante o massacre — um caso de amor entre vítima e algoz. Ainda hospedaria o casal em sua casa, ao vê-lo na rua, despejado de Kicukiro. Quando os dois partiram para tentar a vida em outra cidade, Butare, ela notou o sumiço de uma máquina de costura. Aí começou a se condenar à morte.

Aos 26 anos, trabalhando com as freiras Pallotines, Hèlene foi recuperar a máquina de costura. Trouxe-a de volta, mas com a ameaça de Epimaque: “Nos próximos dias você verá…” Na noite de Natal, os vizinhos acharam que ela estivesse rezando, e não gritando. Ninguém a socorreu. O amigo jardineiro a encontrou degolada e violentada, ao lado da cama.

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Os irmãos Spèciose, Hyacinthe e Pierre voltaram ao povoado de Musumba, de onde fugiram quando os pais foram assassinados, em 1994. E reconheceram os prováveis assassinos, que se apoderaram de propriedades da família. Foram à polícia denunciá-los. Um dos suspeitos era o presidente regional dos radicais do Interahamwe, Frederik Harerimana, atualmente preso em Cyangugu, e o filho de Rose Ndimubanzi, conhecido por Jean.

O agricultor Fidele Nambajimana conta que os três irmãos — duas mulheres de 32 e 34 anos, e um rapaz, de 24 anos – passaram a dormir fora de casa, com medo de uma vingança noturna. Ela não tardou: seis homens armados de fuzis os atacaram. Mataram até a empregada Pie Ntampaka.

“A gente se pergunta quando os genocidas vão parar de arruinar nossas vidas”, protesta Fidele, também sobrevivente de 1994. “Os genocidas não suportam nos ver respirando… e o único arrependimento que parecem sentir é o de não terem terminado a tarefa”. Os pesquisadores do African Rights ainda descobriram que a execução dos três irmãos foi apressada para evitar que um homem, Eugene Namohoro, fosse obrigado a lhes entregar um porco roubado.

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O corpo mutilado de Benjamin Gatete foi um recado a todos que ousam identificar quem participou do genocídio. A mãe, Ancilla Mukangwije, de 72 anos, que o diga: já tinha perdido o marido e um filho de 25 anos, e agora o caçula, com 21 anos.

Benjamin estava ocupando uma loja em Kabuye que pertencera a Oscar Murwanashyaka, um soldado das FAR, as Forças Armadas Ruandesas ao tempo do massacre, agora substituídas pelo RPA, o Exército Patriótico Ruandês.

“Todos meus bens foram pilhados pela família de Oscar”, lembra Ancilla. Quando Benjamin resolveu reclamar, Oscar ficou sabendo no Zaire, onde as milícias ruandesas faziam reféns os refugiados hutus. “Entraram pelo teto da casa e cortaram meu filho em pedaços, roubaram tudo que podiam e o que não levaram, destruíram”. Ela própria fugiu para perto do campo militar de Karangiro, em Cyimbogo, para se sentir mais segura.

Uma vizinha de Benjamin ouviu gritos na noite do assassinato: “Kingura” (-Abra!). Depois viu o corpo retalhado: “Cortaram-lhe o tornozelo, uma parte da barriga da perna e a carne da coxa para mostrar aos assassinos no Zaire que cumpriram a missão”. Deixaram o que sobrou diante da porta. Nu.

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Caçado por extremistas hutus em 1994, Ephrem Namuhoranye conseguiu escapar. Mas dois de seus filhos morreram. No começo de 1996, refazendo a vida em Kigenge, perto de Gisuma, deparou com genocidas de seu povoado. E os denunciou. Eles foram presos, mas rapidamente libertados.

A 21h30 de 15 de março bateram na casa de Ephrem. Do grupo, alguém tentava se passar por um policial amigo, pedindo para abrir a porta, porém sua voz era pouco convincente. Sem retorno, arrombaram-na. “Eles fizeram meu pai sair para a rua a pancadas”, conta a filha Marie Gorette Murehatate, de 17 anos. “Atiraram diretamente em seu peito, e depois abriram-lhe a garganta”. Entraram de novo em casa para matar a mãe. “Atiraram nela e disseram ao vê-la caída no chão: missão cumprida”. Não estava morta: ainda hoje agoniza no hospital de Gihundwe, em Kamembe.

diferenças1O relatório A Prova Assassinada é pródigo em violências colecionadas no período pós-genocídio. Um orfanato foi atacado a granadas em janeiro de 1995. “Eram sobreviventes do genocídio, perseguidos por pesadelos, mutilados emocionais. Uma das crianças morreu e outras 25 ficaram feridas. Na cidade de Kibuye, à beira do belo lago Kivu, todas as terras pertencentes a tútsis passaram para hutus. O prefeito Abel Furere explicou à população que qualquer tútsi vivo seria uma potencial queixa de reintegração de posse. Sobraram poucos sobreviventes. De 252 mil, só oito mil escaparam.

Um tútsi que ganhou um processo de reintegração de posse, Anthere Munyandamutsa, foi executado por dois pistoleiros quando voltava para casa de uma reunião de sobreviventes.

“Somos perseguidos porque tivemos a coragem de voltar, reclamar nossas casas, reconstruir nossa vida e testemunhar contra os genocidas”, diz Israel Rwemarika, que perdeu a mulher, sete filhos e 123 familiares no povoado de Bisesero, em Kibuye. A Organização African Rights denuncia que “genocidas exercem controle direto sobre o aparato judiciário em Gikongoro e Cyangugu”. Mais: avalia que “os sobreviventes estão numa situação de extrema precariedade, e sua impotência os incita à desesperança”.

O policial Fulgence Kabego, de 27 anos, diz que sabe por que sobreviveu. “Ficamos vivos para enlouquecer: fomos exterminados, reduzidos à pobreza e agora nos tratam como loucos”. O hutu Winniphrida Nyandwi não só acusa genocidas como tem uma filha casada com um tútsi. “Virei um problema”. Já foi espancado várias vezes. Agora, toda a família é perseguida. Em Kaduha, os sobreviventes dizem: “Até a nossa fé em Deus esta abalada”.

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Foto: burgos4patqas

Foto: burgos4patqas

GISENYI – Famintos, esfarrapados, imundos e exaustos, 152 refugiados hutus cruzaram ontem a fronteira do Zaire com Ruanda, na vanguarda de milhares de outros que já partiram do extremo sul para o norte do lago Kivu, no Parque Nacional dos Vulcões, o habitat dos gorilas das montanhas.

O lado ruandês do lago Kivu, oferecido a turistas como “Suíça da África”, serviu apenas de escala rápida para a nova leva de refugiados. O balneário de vegetação luxuriante e hotéis europeus, colorido de flores e pássaros, está ocupado por jornalistas que acompanham há 12 dias “a marcha para a vida” de cerca de 1 milhão de hutus que estão voltando para Ruanda, depois de um exílio de dois anos no Zaire, Tanzânia e Burundi, onde se protegeram da certa vingança pelo massacre da minoria tútsi, agora no poder.

Os refugiados acamparam em Busogo, um centro de trânsito na aldeia de Mukingo, a 150 quilômetros ao Norte de Kigali. Sob o sol frio, os vulcões encobertos por neblina, muitos aproveitaram a água potável disponível para banhos improvisados. Várias crianças lavavam outras, mulheres ensaboavam os cabelos e os homens cuidavam do fogo, ou ficavam dentro de duas enormes cabanas de lona.

As costas curvadas, retas como tampo de mesas, mães banhavam também seus bebês nascidos no exílio do Zaire. Equilibrando-os assim, elas os secam e os vestem. Depois os enrolam num pano, e pronto: podem até esquecer deles, que ficam de pernas e mãos respaldadas, olhando para os lados, brincando com o cabelo sobre a nuca ou dormindo, só sendo retirados para mamar. Cada mulher parece ter um filho em gestação, outro nas costas e vários outros em volta. A maioria está sem o marido, morto por doença ou pinçado numa triagem do exército tútsi, que caça suspeitos de participação no massacre de 1994. Seriam mais de 150 mil o que chamam em francês de “genocidiários”, e as prisões já guardam mais de 70 mil à espera de julgamento.

taringa.net

f5Os refugiados que se renovaram como lava dos vulcões inativos na fronteira de Uganda, Zaire e Ruanda são agricultores de chá em Kibuye, para onde seriam levados, ontem mesmo, em alguns caminhões do Alto Comissariado das Nações Unidas. Era o que queriam, depois de 250 quilômetros a pé. Um líder natural do grupo, Kazoviyo Alexis, de 40 anos, disse em francês que “todos têm medo de não encontrar mais as terras que deixaram”. O tradutor do dialeto kinyarwanda que contratei, Moranguira Ahmad, só chamado de Tarzã desde que a própria mãe o apelidou ao nascer, sondou muitos homens do grupo, e explicou: “Mesmo que encontrem as terras com outros, vão esperar em paz que os ocupantes se retirem, em duas semanas, como determinou o governo”.

No campo de Busogo os refugiados comeram “biscoitos energéticos” e “ração de emergência” enviados pela União Europeia. Tiveram muita sorte: pouco depois que partiram, desabou uma chuva torrencial, com ventos que trouxeram ao chão a copa dos eucaliptos. Apesar do aguaceiro, a estrada ficou, como sempre, cheia de pedestres, em ambos os lados, como se fosse uma rua. A única rua, pois as aldeias estão a beira da estrada, sem acostamento. Carros e caminhões devem negociar a passagem. Camelôs montaram banca oferecendo sal, açúcar, batatas e tomates. Vez ou outra, alguém estende nas mãos uma galinha, ou ovos embrulhados em folha de bananeira.

A chegada de novos refugiados vai requerer uma expansão do programa de ajuda alimentar das Nações Unidas. Num comunicado distribuído em Kigali, uma porta-voz da Organização do Fundo Alimentar (FAO), Michele Quintaglie, advertiu que a situação poderá ficar “crítica” em alguns meses. Por enquanto, a ONU e várias ONGs estão alimentando mais de 250 mil refugiados já reintegrados em Gisenyi, Ruhengeri, as áreas rural e urbana de Kigali, Byumba e Gitarama.

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aveluz.com   KIGALI – O batalhão de soldados oferecido pelo Brasil ficou reduzido a um único brasileiro em Ruanda. Só ele, porém, está comandando 40 médicos e enfermeiros internacionais numa batalha contra epidemias que matam dez em cada 10 mil refugiados por dia. Mas o médico gaúcho Carlos Wandscheer não é enviado do governo brasileiro. Desde 1981, ele enfrenta crises mundiais pelo grupo Mèdecins du Monde, financiado pela União Europeia e alguns filantropos.

Até no Brasil já trabalhou, pelo Médicos do Mundo, o Dr. Wandscheer, de 48 anos. E por três vezes. Em 1983, ele estava embrenhado em Roraima para vacinar índios ianomâmis. Em 1987, em Fortaleza, foi implantar o Posto de Saúde Pirambu. E em 1988, no Xingu, formou agentes de saúde. Não é por acaso que teve sete malárias.

O Dr. Wandscheer tem um fino e curto rabo-de-cavalo. Um cabeleireiro em Ruanda aparou-lhe o cabelo nos lados e em cima, mas não tocou atrás. Tinha uma razão mística: um corte na nuca o colocaria em perigo – ele mesmo, não o médico. “Que podia fazer?”, ainda hoje se pergunta. Em Paris, onde mora, foi ao salão de sempre tosar o misticismo, mas mesmo o costumeiro barbeiro se recusou a pôr em perigo o companheiro africano.

O Mèdecins du Monde é uma cisão política do mais popular Mèdecins sans Frontières, ou Médicos sem Fronteiras (MSF). O grupo se formou para socorrer o “boat people” vietnamita, os refugiados que se lançavam ao mar em 1980. “Alguns médicos queriam socorrê-los, e o MSF, não; então, criamos um novo grupo”, explica o Dr. Wandscheer, gaúcho de Cruz Alta.

O Rio Grande do Sul lhe serve para ilustrar a dimensão do problema em Ruanda. “Imagine se fôssemos 30 milhões de gaúchos”, diz. Se fossem, os gaúchos teriam a mesma densidade populacional dos ruandeses, a maior da África. Ruanda é menos do que 1/3 do Rio Grande do Sul, com 26.338 quilômetros quadrados, e oito milhões de habitantes. Com uma agravante: está no meio do Zaire (a Oeste) e de Uganda (a Leste), o ponto de choque entre as influências dos colonos ingleses e franceses.

“O zairense é um latino, e o ugandense, britânico, que quer tudo certinho”, explica o Dr. Wandscheer. “Os hutus ruandeses identificaram-se com a França, que os tútsis acusaram e acusam de querer dividir o país para reinar.” O governo tútsi, no poder desde o massacre hutu de 1994, não está aceitando franceses na força multinacional humanitária, mesmo que a recuse agora por julgá-la não mais necessária, com os refugiados voltando do Zaire.

O Dr. Wandscheer tinha um amigo no Ministério da Saúde de Ruanda que se viu obrigado a fugir para não ser morto. “Era um hutu, durante o governo hutu, mas foi acusado de ter sangue tútsi por um homem que queria seu cargo”. Daí ele chegou a uma conclusão generalizante do massacre de tútsis por hutus. “Para mim, foi uma manipulação política”. Ele lembra que a rádio oficial martelava diariamente o mesmo refrão para os ouvintes: “tútsis são o diabo”. Quando a morte do presidente Juvenal Habyarimana, na queda de seu avião Mystère, em abril de 1994, detonou o massacre, “muita gente aproveitou o ensejo para matar inimigos pessoais”.

“Houve casos em que hutus esconderam amigos tútsis, mas matavam outros tútsis para que não se tornassem suspeitos de colaboracionismo”, conta o Dr. Wandscheer. Os números em que ele acredita também são diferentes dos normalmente aceitos, “mais realistas”. Entre os mortos do massacre e de epidemias, cerca de 600 mil, e os refugiados seriam 900 mil – e não 1 milhão, para ambos. “Acho que 10% da população morreram no massacre, e 2 a 3% mais, nos campos de refugiados e nos deslocamentos de um lugar a outro”.

O Dr. Wandscheer vai manter por mais um mês em Ruanda a equipe do Mèdecins du Monde, que está ajudando nos hospitais. O alerta à explosão de uma nova epidemia de cólera foi dado pela Organização Mundial da Saúde, depois de confirmados dois casos entre os refugiados que voltaram do Zaire. Na última epidemia, em 1994, chegaram a morrer cinco mil pessoas por dia, num total de 30 mil. Agora morreriam, por cálculos de ONGs humanitárias, 12.500 por dia, ou um milhão até o Natal. Outra estimativa, feita pelo grupo Médicos sem Fronteiras, é a de que a mortalidade poderá atingir até dez em cada dez mil pessoas, por dia, provocada por desidratação e diarreia.

A situação política preocupa o Dr. Wandscheer. “A reconciliação entre tútsis e hutus será um processo muito difícil, mas não impossível”. Um dos maiores problemas, para ele, “são as casas e terras abandonadas pelos hutus e agora ocupadas por tútsis”. Pobre Ruanda: o governo não tem condições de abrigar quem ficar desalojado. E vai provavelmente ser inundado por uma avalanche de denúncias contra hutus cujo crime será só o de reivindicar a posse de uma propriedade. Bastará que quatro testemunhas denunciem um ex-refugiado como “genocidiário” para que o prendam.

O Dr. Wandscheer tem fôlego para o pior. Seu batismo de fogo foi no Afeganistão, em 1981. Acabava então de deixar a pesquisa em medicina molecular, em Paris, para se tonar um médico do mundo. Depois esteve na Nicarágua, em 1982. Na guerra em Moçambique, em 1984-85, e no Togo, em 1993.

O dia em que cheguei à frente do campeão Ben Johnson

foto: thestar-com-my.jpg

foto: thestar-com-my.jpg

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Testarossa da Ferrari. O de Ben Johnson era preto.

Testarossa da Ferrari. O de Ben Johnson era preto.

O homem mais veloz do mundo, Ben Johnson, entrou em sua Ferrari e fugiu da imprensa. Fui atrás com meu Ford alugado. E acabei à frente dele.

A notícia da disputa foi publicada no Estadão, mas minha vitória, a parte mais saborosa do texto, acabou cortada.

Quando entramos na via expressa, e Ben Johnson acelerou, perdi-o de vista. Mas fui em frente por mais uns 30 minutos, pegando num desvio que imaginava ser um retorno para Toronto.

A uns poucos quilômetros apenas, olha ele lá. Ben Johnson, parado pela polícia rodoviária, por excesso de velocidade. Fui chegando devagar, e o ultrapassei por uns metros, garantindo-me o pódio, vitória!, mas saí do carro para ainda tentar, enfim, a entrevista que ele negava a toda a imprensa.

Fui caminhando na direção de Ben Johnson, que ia em outra direção, gritando, muito irritado. A TV CBC, que também o encontrou e já o filmava com os guardas rodoviários, era o seu alvo. Ele partiu para cima do câmera, e o empurrou, xingou; depois caminhou em minha direção, e eu fui dando uns passos para trás, até que me virei, corri e entrei no carro, trancando a porta por dentro.

Ben Johnson esmurrou o vidro do meu Tempest até desistir. Foi para sua Ferrari Testarossa preta, às vezes se voltando para a equipe da CBC e para mim, ameaçador. Acelerou e sumiu.

benNão tinha visto o texto impresso (acima) até agora, quando resolvi resgatá-lo. Por isso publico uma cópia escaneada, não o original. Ele foi cortado, alterado. Será que a redação não acreditou que eu tivesse vencido a corrida com Bem Johnson, ainda que em sentido figurado? Manteve-se a corrida, não o resultado, que acho que dava alguma graça à notícia. Não vou saber mais o que aconteceu.

Não foi a primeira nem a última vez que mexidas em meus textos me incomodam. Perdi um furo mundial por incompreensão de alguém na redação do jornal. Acertos são bem-vindos. Mas cortes que mutilam, não. Pode ser também que eu esteja e estivesse errado, e que o colorido à matéria do Ben Johnson não passasse de uma bobagem.

De qualquer forma, guardo a boa lembrança de ter ultrapassado um dia uma Ferrari Testarossa, com um Ford, e o seu motorista mais veloz do mundo, Ben Johnson.

Veja também o furo mundial que não foi publicado, aqui

Kissinger: “O Estadão vive me atacando”.

Henry Kissinger fala do novo livro com seu biógrafo, Niall Ferguson, de Harvard, na Universidade de Yale.

Kissinger fala do último livro com seu biógrafo, Niall Ferguson, de Harvard, na Universidade de Yale.

Brinca-se que dois presidentes dos EUA serviram a Henry Kissinger em

seus dois mandatos como Secretário de Estado. Tão poderoso, fiquei

intimidado quando o rabino Henry Sobel, seu amigo, nos apresentou.

Tinha tudo para ser um encontro rápido, chato e formal.

Mas aí ele inventou a reclamação: “O Estadão  vive me atacando”.

O Prêmio Nobel Kissinger lançou um livro em setembro, World Order,

em que postula que o mundo só conheceu até hoje uma “ordem regional”,

nunca mundial. Lendo-o, lembrei-me do nosso encontro, sobre o qual

escrevi um artigo para o Estadão, aqui reproduzido.

(Foto: Finnegan Schick).

Jerusalém, 29/06/1983 — Quando lhe falaram que o Estadão estava ao lado dele, podendo escutar a conversa, Henry Kissinger reagiu como se o lesse obrigatoriamente todos os dias, logo ao acordar:

-Está sempre me atacando – disse alto o Prêmio Nobel e duas vezes secretário de Estado dos EUA no saguão do King David Hotel.

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Por um momento, até Nancy, sua esposa, olhou-o espantada. Depois, ele riu – estava brincando. As brincadeiras de Kissinger, visitando Israel, produziriam longas gargalhadas, um pouco mais tarde, durante um jantar na Universidade de Jerusalém.

Ele lembrou como o seduziram a comparecer ao jantar, e descreveu as táticas israelenses de negociações que considerou perigosas, porque podem culminar em “exaustão nervosa”. O reitor Simcha Dinitz, que no final o convenceu a fazer “algumas observações sobre seu amigo Navon” (o então presidente de Israel, Yitzhak Navon), apresentou-o como “o único secretário de Estado norte-americano ao qual serviram dois presidentes dos Estados Unidos”.

Kissinger fez “algumas observações” sobre o ex-presidente Navon, e “alguns comentários” sobre Golda Meir, lembrando que geralmente ele só fala após “quatro discursos de introdução, três discursos com observações iniciais, três outros com comentários e uma apresentação”, depois de um dia em que dá uma entrevista coletiva à imprensa e aparece em dois programas de televisão.

“O sobrinho levado de Golda”, como ele próprio, mister K, se definiu, deixou o humor por um momento para elogiar a iniciativa do presidente Navon em apoiar a criação de uma comissão de inquérito sobre o massacre de Sabra e Shatila, em Beirute, em 1982. “Restaurou a dignidade do povo judeu” — comentou. E receitou, com a voz rouca, pousada, enquanto sua esposa Nancy acendia um cigarro depois do outro, que “Israel encontrará seu caminho para a paz com justiça”, e que “com gente como Navon não se envolverá em nenhum tipo de extremismo”.

Kissinger veio a Israel a convite da Universidade de Jerusalém, mas fez também uma conferência na universidade de Tel-Aviv. Todo o mundo político israelense aproveitou a estadia dele para uma troca de ideias. Ao primeiro-ministro Menachem Beguin advertiu que a lua-de-mel entre Washington e Jerusalém pode voltar logo à fase de quase divórcio. O chanceler Yitzhak Shamir, depois de vê-lo, mostrou-se mais otimista com a possibilidade de uma retirada Síria do Líbano – já que Kissinger foi o negociador que conseguiu o famoso desengajamento de forças entre sírios e israelenses, no Golan.

Kissinger também esteve com os líderes da oposição trabalhista. Foi quando se despedia de Yithzak Rabin, no saguão do King David Hotel, que surgiu a conversa sobre o Estadão. Um amigo dele, o rabino Henry Sobel, apresentou-me como seu correspondente em Israel, provocando a reação imediata, porém simpática, de representar-se como uma vítima do jornal. Trocamos algumas palavras até ele sair com Nancy e seu filho David, de 23 anos, comentando:

-O Estado… Claro que conheço O Estado…

Galeria: Digesto Econômico.

19Ao postar esta capa da Digesto com a garota

que não deu a mão ao presidente Figueiredo, acendi

a curiosidade de amigos do Facebook, Linkedin e Google+:

“Que revista é essa?”.

Estou postando algumas capas da Digesto que resgatei,

mas ainda faltam muitas outras a serem acrescentadas.

Passe por aqui de vez e quando, a partir de amanhã,

para ver a galeria  completa ou se completando.

A revista Digesto Econômico morreu aos 64 anos, junto com o octogenário jornal Diário do Comércio, por uma decisão da Associação Comercial de São Paulo, seu publisher. O último número foi suspenso na gráfica, pronto para rodar. A Digesto teve um passado de glória, com articulistas influentes no mundo da economia, academia e política, e por seu papel durante a Revolução Constitucionalista de 1932. As últimas edições bimensais focaram os temas da atualidade, com análises e reportagens aprofundadas, e um dossiê completo para pautar os candidatos à Presidência na campanha de 2010 (só Dilma Rousseff não compareceu ao debate em que o receberia). Havia três anos a Digesto elegia os melhores dos maiores da economia nacional, em parceria com a Fundação Getúlio Vargas e Boa Vista Serviços.


Este é um dos últimos expedientes da revista Digesto.

A capa era um rodízio entre os artistas Max e Paulo Zielberman.

E o layout ficava com Lino Fernandes, nas férias de Evana Sutilo.

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No fim do caminho de São Tiago

Foto: santiagoturismo.

Foto: santiagoturismo

Noite brasileira na Galiza

(desconvidado: Gilberto Gil)

pensandomagro.net

Santiago de Compostela, “mágico” 25/7/2004 — A mágica paulocoelhiana piscou no Correo Gallego on-line às 21 horas do Brasil: “Se obró el milagro del Apóstol, y la lluvia cesó poco antes del comienzo del espectáculo pirotécnico”, em homenagem ao Dia Nacional de Galiza .

A “milagrosa” estiagem permitiu a “apoteosis de fuego, agua y luz” na Plaza de Obradoiro, acompanhada por 15 mil pessoas diante da Catedral romana-gótica-barroca de 933 anos, o terceiro destino dos peregrinos cristãos no mundo, depois de Roma e Jerusalém. A concha-símbolo do Caminho de Santiago surgiu no céu, projetada a laser verde, azul e vermelho, ao som de música celta.

O cantor e então ministro da Cultura Gilberto Gil não compareceu à festa. No que fez muito bem, depois de ter irritado os galegos insistindo em falar castelhano durante seu show, seis dias antes, 19 de julho. Foi ainda além: recriminou o nacionalismo galego! “Temos que ser mais internacionais”, ensinou aos (ex?) fãs. “Además estamos en tierras de España!”, acrescentou ao povo separatista que estuda espanhol como língua estrangeira, obteve o domínio exclusivo “cat” (de Cataluña) na Internet, e não o nacional “es” (España), e já tentou até formar uma seleção galega de futebol. Os romanos o chamavam de gallaeci, ou celta, há quase três mil anos. É visível na paisagem ou nas descobertas arqueológicas: a Galiza está mais para a Irlanda e a Escócia do que para Madri e Barcelona. E foi assim que a “noche brasileira” do 25 de julho ficou a cargo de Toquinho e Maria Creuza.

Galega é como o presidente Lula chama a sua mulher, Marisa Letícia da Silva. Também atende por Galego o primeiro-cão, um labrador presenteado pelo governador da Bahia, Jaques Wagner. O pai de Fidel Castro era galego, como o ditador generalíssimo Francisco Franco, que mergulhou a Espanha numa “Longa Noite de Pedra”, fascista, entre 1939 e 75. No Aurélio, galego também significa estrangeiro, com alguns usos depreciativos. Os galegos dizem que sua Galiza foi “o primeiro país da Europa”. E que em sua ponta ocidental, extremo europeu, onde cresceu o povoado de Finisterra, abre-se a porta para o fim do mundo, ou para “El más Allá”, ou a Costa da Morte, onde o sol se põe naufragando no oceano Atlântico.

São 2,8 milhões de orgulhosos nacionalistas galegos na Comunidade Autônoma da Espanha, formada pelas quatro províncias de La Coruña, Lugo, Ourense e Pontevedra – e brinca-se que haveria ainda uma quinta, Buenos Aires, na Argentina, que já ostentou o título de “a maior cidade galega” do mundo. O português nasceu na Galiza (e não Galicia, região entre o leste da Ucrânia e o sul da Polônia), quando o norte de Portugal e o noroeste da Espanha faziam parte do reino asturiano-leonês, no século XII. Falava-se então o que hoje se descreve como galaico-português. Dom Afonso Henriques emancipou o seu futuro reino ao derrotar tropas de Leon e de mouros, em 1139. A separação, o tempo e influências específicas diferenciaram o idioma comum. Mas galegos, portugueses e brasileiros se entendem muito bem. O que mais chama a atenção é o X no lugar de J ou G: Xeito (jeito), Xeneral, Belxica, Xornal, Xilberto Xil, 25 de Xullo…

Foto: briga-galiza.info

Foto: briga-galiza.info

O hino galego está colorido de verde em suas três primeiras estrofes: “¿Que din os rumorosos/na costa verdecente,/ao raio transparente/do prácido luar?//¿Que din as altas copas/de escuro arume arpado/co seu ben compasado/monótono fungar?//Do teu verdor cinguido/e de benignos astros,/confín dos verdes castros/e valeroso chan,/non des a esquecemento/da inxuria o rudo encono;/desperta do teu sono/fogar de Breogán.” A Galiza é a “España Verde”. Luxuriante. Úmida: como chove! Os caminhos de Santiago para as montanhas ao leste, ou para as chairas (planícies) e rias (estuários) ao centro-norte, são marcados por pequenos e remotos pueblos e suas casas de pedra com balcões, muitos minifúndios produtivos, lindas estradinhas e trilhas, praias de areia, refúgios para o pernoite de peregrinos, bosques de pinho, eucalipto e castanheiras, o ar carregado de misticismo e lendas à la Paulo Coelho, agora nome de rua em Santiago, e um sem fim de tira-gostos locais para infindos tipos de vinhos.

Este cenário tem sido mais explorado pelos próprios espanhóis, 70% dos turistas, e os portugueses vizinhos, mas bem poucos brasileiros, atraídos mais a ler com o pé o Diário de um Mago, em 1,1 milhões de passos pelo Caminho Francês, ou visitar Madri, Barcelona e Ibiza. Uma pena, pois tudo na Galiza é tão perto, tão acessível, tão gostoso…

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Por exemplo, Pontevedra. Está a meia hora de carro de Santiago de Compostela. Dizem que Cristóvão Colombo nasceu aqui. Dizem que aqui também foi construído um de seus navios, o Santa Maria, lançado ao mar com o nome de La Gallega. Outro dos mitos ganhou uma praça, a bela Praça Teucro. Era o filho de Telamon e Hermione, e meio-irmão de Ajax, que partiu sem destino rumo à oeste depois de se tornar herói na Guerra de Troia. E acabou fundando a cidade, ainda hoje quase toda de granito, o centro histórico com a reputação de ser o mais bem conservado da Espanha. Só para ver a tradicional feirinha se armar lá toda manhã já vale o passeio. As igrejas de Santa Maria la Mayor e La Peregrina, ambas do século XVI, são decoradas com conchas – a prova, para o peregrino, desde a Idade Média, de que chegou à cidade santa do apóstolo Tiago. Hoje, bastam 100 quilômetros a pé ou 200 km em bicicleta para fazer jus a um diploma em latim, o Compostela.

As lendas, regadas a vinho e tapas, ficam ainda mais saborosas e verossímeis. Acredita-se até na que se conta sobre o abade San Ero, do mosteiro de Amenteira, pertinho de Pontevedra, em Combarro. Passeando, há 900 anos, ele parou em êxtase com os trinados e chilreios dos passarinhos. E perdeu-se em devaneios. Só voltou a si e ao lar 300 anos depois, certo de que só tinham se passado alguns minutinhos. Não é à toa que a mascote da Galiza seja “la meiga”, a maga com poderes de bruxa mas também de vidente e curandeiro. Você pode até não acreditar, pero que las hay, las hay! Ou como se diz em galego: “no me creo en las meigas prou haber hai-nas”. Elas estão expostas nas lojas para turistas, nos carrinhos de ambulantes e nas tabernas pelos caminhos dos peregrinos.

Foto: pertraviagens.wordpress

Foto: pertraviagens.wordpress

Cuidado com as meigas-chuchonas, que chupam o sangue de criancinhas. Ou a Lobismuller, a meiga nascida na Sexta-feira Santa. Elas são muitas, e cada uma guarda um poder distinto. Diante delas só existe uma defesa, o Desconxuro, e é bom decorá-lo antes de chegar à Galiza: “¡San Silvestre, Meigas fora!” O âmbar é um amuleto contra venenos ou encantamentos. Atrás de portas, para proteção à casa, pendura-se uma ferradura de cavalo, ou espora de galo e rabo de lobo.

A mãe de todas as lendas cerca o próprio São Tiago, às vezes identificado como o Maior; outras, o Menor, e também o Justo. Filho de Zebedeu e Salomé, ele pescava no lago Genesaret com o irmão João Evangelista quando Jesus o chamou. Foi um dos primeiros discípulos. Em sua Epístola, pontificou: “A fé sem obras está morta”. Como a palavra vazia, sem prática: a um faminto, nomes num cardápio não bastam; dar-lhe comida é o que resolve. Quando os apóstolos saíram pelo mundo a pregar os evangelhos, a Santiago coube a Gallaecia, na Hispania. Navegou pelo Mediterrâneo e bordeou a costa de Portugal. Pode ter desembarcado em Tarragona, de onde caminhou por uma via romana até a atual La Coruña.

Foto: andanhos.blogs.sapo.pt

Foto: andanhos.blogs.sapo.pt

Um dia, a Virgem Maria apareceu a São Tiago (ilustração ao lado) sobre um pilar em Caesaraugusta – hoje uma coluna venerada na Basílica de Nuestra Señora del Pilar, em Saragoza, capital do Aragon. O milagre da aparição deu o sinal para ele voltar rápido à Jerusalém. Maria queria reunir os apóstolos para, então, morrer. Mas era o ano 42 ou 44 d.C., quando o rei da Judea, Herodes Agripa I, perseguia cristãos, a maioria já dispersa pela Fenícia, Antioquia e Chipre, para prendê-los, depois matá-los. E o Apóstolo Tiago, um dos primeiros presos, foi degolado. Seu corpo teria sido levado por seus discípulos de volta para Galiza, num estranho barco de pedra. E lá o enterraram em Iria Flavia, hoje Padrón.

Passaram-se 800 anos até surgir o ermitão Paio. Ele viu luzes sobre o bosque de Libredón. Ou, por outra versão, numa noite estrelada, ele seguiu um brilho na mata. Seria uma estrela que pousou? Um Ovni? Não, não, na verdade ele fora atraído por uma irresistível linha de energia sob a Via Láctea. Ou nada disso: só fogo-fátuo, tão comum em cemitérios… O bispo galego Teodomiro fez o que pregava o Apóstolo Tiago: agiu sem se perder em palavras e mais palavras. Mandou escavar o local. Eis então que aflorou um esqueleto com a cabeça debaixo do braço, em meio a vestígios de uma capela da era romana. A arqueologia só comprova mesmo que Compostela (para alguns, cemitério; para outros, campo estrelado) vinha de uma longa tradição de enterros: dali foram retiradas tumbas cristãs, suevas (povo germânico que ocupou a Galiza entre 411 e 585), visigóticas e muçulmanas. O rei de Astúrias, Alfonso II, o Casto, pôs, literalmente, uma pedra gigantesca sobre todas as dúvidas e teorias: ergueu a imponente Catedral de Santiago de Compostela.

A peregrinação podia ressuscitar o corpo e restaurar o espírito dos pioneiros peregrinos, mas não os livrava do forte cheiro de suor que exalavam dentro da Catedral. Foi então que um “gênio” na Idade Média inventou um antídoto já politicamente correto, e atração até hoje: o botafumeiro. É um gigantesco incensório de prata, que voa sobre as cabeças da multidão de um lado ao outro da nave, puxado por cordas, como um sino pesado, por quatro padres em cada ponta. Vai deixando nuvens de fumaça, que baixam como um desodorante coletivo. Consta que caiu lá do alto duas vezes. Hoje, só o balançam em ocasiões especiais. Mas, também, agora, os peregrinos costumam comemorar o fim do caminho, primeiro, com um bom banho.

Foto: touristeyes.es

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Foto: pt.wikipedia.org1

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São 200 mil peregrinos por ano. Multiplicaram-se depois que o papa João Paulo II visitou Compostela, em 1982, e O Diário de um Mago tornou-se um best-seller mundial, em 1987. Pela “popularização” do Caminho de Santiago, Paulo Coelho virou rua na cidade. E ele foi lá inaugurá-la, em julho. Agradecido, lembrou versos do poeta sevilhano Antonio Machado: “Caminhante, não há caminho; faz-se caminho ao andar”. (Caminante, no hay camino,/se hace camino al andar./Todo pasa y todo queda,/pero lo nuestro es pasar,/pasar haciendo caminos,/caminos sobre la mar.)

Entra-se na Catedral pelo Pórtico da Glória. Na verdade, para-se. Não dá para cruzá-lo sem admirar seu triplo arco esculpido em 20 anos por Mestre Mateo. Pronto em 1188, sofreu exposto ao sol, ao relento e ao gesso de uma cópia encomendada pelo governo inglês, em 1866. Bem no centro, um Cristo de tamanho desproporcional mostra as mãos e os pés feridos, rodeado por São João, São Mateus, São Lucas e São Marcos. Oito anjos seguram instrumentos musicais. Os guias misturam línguas com as descrições de cada um dos inúmeros detalhes para os turistas. E nessa Babel há um gesto comum: todos tocam a palma da mão no autorretrato do artista, ao pé de uma coluna. É para absorver o seu talento. Comigo não funcionou.

Que não se pense em Compostela apenas como um grande mosteiro rescindindo ao incenso do botafumeiro. Nada disso: as noites fervem por suas vielas. Bob Dylan e David Bowie não a visitaram para rezar. Aqui vivem 30 mil universitários. De certa forma, lembra Ouro Preto, em Minas. Nela há um belo parque, um centro comercial que ostenta até uma filial do famoso El Corte Inglês, bons hotéis e ótimos restaurantes. E dela partem outros caminhos de Santiago para destinos pagãos Galiza afora, todos bem próximos, para pequenos passeios de meio-dia.

Na marina de Baiona está ancorada uma réplica da caravela Pinta, no lugar em que a original, com Cristovão Colombo no comando, jogou âncora em 1º de março de 1493, depois de descobrir a América. É um museu flutuante, com cenário que inclui até o boneco de um índio brasileiro, no porão. A placidez da baía em volta esconde o campo de batalha que ardeu durante séculos. Muitos povos tentaram possuir a linda Baiona. E sua história oficial orgulhosamente registra a repulsa ao pirata inglês Francis Drake, posto a singrar em fuga por Don Diego de Acuña, o conde de Gondomar.

Por uma galinha viva, em Cambados, São Benito deleta verrugas. Qualquer verruga. Só não faz a biópsia. Mas não se iluda: a maioria dos turistas não vem até aqui atrás de uma plástica milagrosa. São atraídos por uma preciosa herança dos monges de Cluny do século XII, o Alba-Riño, o “branco do Reno” – o vinho branco galego Albariño. O produzido em Portugal, com as mesmas uvas, tem o mesmo nome, Alvarinho. Nesta região de Rias Baixas, em que o litoral é bastante recortado e o mar, raso, paisagem de mangues mais comparada aos fiordes escandinavos, cada casa tem uma parreira. E todas enviam sua colheita para cerca de 200 bodegas. A maior delas, a Martin Códax, centraliza a produção de 285 pequenos fornecedores, e fica aberta à visitação e à degustação gratuitas. A cada tonel uma grata, gratíssima surpresa, de aroma intenso. Tim-tim. E aproveite: os bafômetros estão há mais de 10 mil quilômetros. Ah! São Benito, o exterminador de verrugas, também aceita cordeiro ou ovos em troca de seu trabalho – a negociação deve ser feita diretamente na igreja da praça de Fefiñans, que até mesmo os sem-verruga precisam conhecer.

O último relatório mundial de consumo de drogas das Nações Unidas conferiu o título de “capital europeia da cocaína” à cidadezinha de Miranda de Ebro, na rota Jacobea por onde pode ter passado o padroeiro da Espanha, São Tiago, ao chegar de Jerusalém. Já não é mais Galiza, porém perto, na Comunidade Autônoma de Castilla y León. Algum engano, provavelmente. Pelas contas do jornal inglês The Guardian, cada mil dos seus 40 mil habitantes aspiraram 97 carreiras por dia para conquistar a liderança de concorrentes fortes como St. Moritz, Londres, Zurique, Madri e Ibiza. O maior suspeito de provocar o erro é uma indústria química que despeja seus resíduos no rio Ebro, do qual se colheu a água para o teste. O prefeito exige um desmentido oficial, mas o povo, que gosta mesmo de vinho, brinca de procurar os cocainômanos vorazes da pacata cidadezinha. De qualquer forma, os espanhóis são classificados como os maiores usuários de cocaína do mundo, 3% de sua população entre 15 e 64 anos, seguidos de 2,4% dos ingleses e de 2,8% dos americanos.

O contraste entre o espiritual e o mundano se acentua à mesa, farta em frutos do mar. O pecado da gula contagia turistas e peregrinos. Há uma iguaria local servida só em alguns restaurantes da Galiza em toda a Espanha, o percebes. É um molusco que cresce grudado às pedras da costa entre Malpica e Cabo Ortegal, batido pelas ondas do Atlântico e do mar Cantábrico. Arrisca-se a vida para pegá-los. A pesca tem seus especialistas no remoto povoado de San Andrés de Teixido, o padroeiro dos pescadores. Aqui um quilo de percebes sai por 15 dólares, mas se ele viajar até La Coruña, já custará 60. Fresco, fervido e resfriado, o básico, já dá para se deliciar, sorvendo um Albariño.

Mero, robalo, salmão, vieiras, ostras, polvo… Para os turistas gastrônomos, a Galiza é a Capital do Polvo. Peça o pulpo a la galega, servido com azeite de oliva e pimentão, ou pulpo a feira, misturado à páprica, ótimo aperitivo. Come-se até o empanzinamento. E quando acaba o longo almoço, começa o ritual do jantar, tapas à mesa, vinho aberto. A Galiza também se tornou famosa como a Capital das Empanadas. Mas, sem nenhuma dúvida, ainda pode ser chamada de a Capital da Tarta de Santiago, a torta de amêndoas enfeitada com a cruz do apóstolo. O dono de um aconchegante hotel rural, com só nove quartos supercharmosos, La Fervenza, perto de Lugo, preparou no forno a lenha um capon, um galo castrado até 12 semanas de idade. Delicioso, mas muitíssimo gorduroso. A digestão levou dois dias.

Em Lugo, Paulo Coelho parou sua caminhada, iniciada em Saint Jean Pied de Port, na França, e pegou um ônibus para Santiago. Ele mesmo o revelou ao inaugurar a sua rua. Desde o século XII, os peregrinos recuperam o fôlego aqui. Assim emprestaram fôlego à economia da cidade, voltada para o setor de serviços. O turismo hoje é cultivado. A sua muralha romana de 2.140 metros, com dez portas, construída entre 260 e 310, é a maior atração. Ela está inteira, como a de Jerusalém. Só lhe falta um Muro das Lamentações, para onde com certeza afluiriam peregrinos e turistas ao final da estadia na Galiza, já com suspiros de saudades.