Israel, Rússia.

Os russos invadem Israel

O veterano de guerra russo Vimer Bariz Samuelovich pôs suas três medalhas de bravura no peito, e fugiu. Rendido à crise econômica na Rússia, ele voou 2.117 km de Kiev até a “outra Rússia prosperando por ser o destino do êxodo de 850 mil russos desde 1987 – o início do fim do império soviético. Um pioneiro russo de Plonsk, David Gruen, mudou de nome ao chegar, em 1906, e o aeroporto foi batizado em sua homenagem: David Ben-Gurion. O cartaz em caracteres cirílicos dá “boas-vindas ao lar”. Os funcionários da imigração falam russo. A música de fundo é russa. As moças do café grátis são russas. O jornal, russo. E os israelenses riem da piada: “o hebraico está rapidamente se tornando a segunda língua em Israel”.

   Uma das medalhas de Samuelovich é a General Jukov. As outras são das duas guerras mundiais. Mas num país de milhares de heróis de 50 anos de guerras, elas apenas simbolizam a principal característica dos imigrantes das 15 ex-repúblicas soviéticas, todos recebidos como “russos”: o sentimento de superioridade. O sovietólogo Amnon Sela parodia os russos: “Nós temos uma grande e rica cultura, e vocês, nenhuma”. Eles não se submetem, como os imigrantes etíopes ou marroquinos; impõem-se. Também não se integram; conquistam direitos. “E por que deveríamos nos integrar?” – pergunta um antigo dissidente soviético, Eduard Kuznetsov, hoje editor do jornal russo mais popular de Israel, Vesti (Notícias). “Se somos muitos podemos lutar para manter nossa própria cultura”.

   Aos 73 anos, Samuelovich ostenta suas medalhas na sala do aeroporto lotada com 500 russos. Todos esperam ser chamados para dentro das 15 baias onde terão os nomes digitados num banco de dados, receberão uma carteira de identidade, seis meses de assistência médica gratuita e ajuda imediata em dinheiro, mais um carnê para uma retirada mensal em banco que ainda inclui benefícios para o primeiro ano em Israel. Para cada família de quatro pessoas, US$ 540 na hora e o equivalente a US$ 10 mil em 12 meses. Aos aposentados, aposentadoria. Aos doentes, hospitalização. Para todos, cursos intensivos de hebraico. A única condição para imigrar é a de ser judeu. Mas “exceto por algumas frases em iídiche, a maior parte dos judeus russos não conhece nada da vida judaica, nada do judaísmo e nem é sionista”, diz uma funcionária do Ministério do Trabalho, Nitza Zvi. “Seus filhos, porém, não serão diferentes dos nossos”, ela acrescenta.

   Como as medalhas de Samuelovich, muitos exibem colares com grandes estrelas de David, o entrelaçado de dois triângulos com seis pontas, o símbolo judaico. Tão à mostra, provocam suspeitas, ao invés de dirimi-las. Um jovem russo morto num recente atentado palestino em Jerusalém não pôde ser enterrado como judeu, por decisão do Rabinato. Um quarto dos russos israelenses não seria considerado judeu pela Lei Judaica: “judeu é todo aquele nascido de mãe judia”. A Organizatsiya, a máfia russa que já abriu filial em Israel, consegue “cobertura judaica” para quem quiser imigrar. Assim exportava gângsteres para Nova York ao tempo em que as portas da União Soviética estavam fechadas à imigração. E hoje envia prostitutas para as ruas de Tel-Aviv, ou “mensageiros” com malas de dinheiro ilegal para ser depositado no seguro sistema bancário israelense.

O visto para sair da União Soviética

O visto para sair da União Soviética

Samuelovich era gerente de loja, em Kiev. “Lá estava muito duro viver”, reclama. “Não tinha mais dinheiro”. A sua experiência de soldado deixou de ser compatível com as guerras sofisticadas travadas por Israel. Nem a idade permitiria um voluntariado. Então, o que vai fazer? Ele espera saber a resposta depois que aprender hebraico. O filho que imigrou há três anos dá aulas de educação física e poderá ajudá-lo. De condecorado à dependente, ele não perde a pose: estufa o peito, e tilintam as medalhas.

   Houve tempo, no início da década de 90, que o imigrante russo que não descesse do avião com um violino, então era médico. No hospital de Barzilai, perto de Ashkelon, a maioria da equipe é russa, mesmo os chefes de cirurgia e da área de oncologia. Estudantes de medicina russos trocam de carreira para evitar o mercado congestionado de Israel. Uma orquestra, a Andaluza, orgulho dos judeus expulsos de Portugal e Espanha em 1492 e 1496, os sefardins, já está tomada por russos. A diretora do conservatório de Ashdod, Hanita Zvevner, tem num caderno os nomes de 60 professores russos esperando vaga. “Não há alunos para todos!” Do dilúvio de oito mil imigrantes violinistas e pianistas, três mil foram empregados. Quando a Filarmônica de Israel apresentou “1812”, de Peter Ilyich Tchaikovsky, na praça Rabin, em Tel-Aviv, o público falava russo. Em 1989, menos do que 700 mil espectadores foram a concertos em Israel. Mas em 1994, com a chegada de 500 mil russos, o público passou a ser de 1,1 milhão.

   O flautista e saxofonista Vladimir Devorskin chegou de Moscou há três meses. Está tocando no calçadão de Jerusalém. Decepcionado? Vai voltar? “Yeltsin bandit, bandit”, xinga. Se tocasse numa rua russa, a Organizatsiya apareceria para cobrar pedágio. “Pelo menos aqui a máfia não assumiu o controle”. O organista Ariel, também moscovita, está conformado em viver de esmolas. Fez uma dupla com Devorskin para tocar algo brasileiro em homenagem ao repórter. E atacou “La cucaracha”… Ao lado, Ida Guershkah, de 72 anos, não toca nem canta: oferece antigas canções em iídiche num velho gravador quase sem som. Mas se diz feliz: “Tenho assistência médica de graça sempre que preciso”. E recebe “um dinheirinho” do governo.

   Os russos estão russificando Israel. Já são um quinto dos 5,9 milhões de israelenses. E continuam a chegar ao fluxo médio de 150 por dia, 5 mil por mês. A fábrica de chips da Intel em Haifa, que só tinha um único russo em 1983, agora tem 150. E o pioneiro, Mikhail Kagan, é hoje o chefe do departamento de microprocessadores. Com 600 mil eleitores, os russos decidiram a queda de Yitzhak Shamir, do Likud, em 1992, e elegeram Binyamin Netanyahu, do Likud, em 1996, rejeitando um aprendiz público de russo, o trabalhista e Nobel da Paz Shimon Peres. O partido Israel Ba’Aliya já fez os ministros Anatoly Sharansky (Indústria e Comércio) e Yuli Edelstein (Imigração e Absorção). E tem sete deputados. Os judeus russos são de direita. Minoria na antiga União Soviética, eles não se identificam com a outra minoria do Oriente Médio, os palestinos. O editor do Novosti Nidli (Notícias da Semana), Dmitri Ladizhinsky, justifica assim uma opinião geral russa sobre a troca de territórios ocupados pela paz: a ex-União Soviética, 28 mil vezes maior do que Israel, não devolveu ao Japão as ilhas Kural, tomadas na Segunda Guerra Mundial, agora 1% do território russo. “Então, é difícil entender por que os israelenses deveriam devolver mais de 10% de seu país – e para inimigos”.

   O soldado Nicolai tem uma visão mais próxima dos palestinos, por servir na Cisjordânia. “Em multidão, são perigosos, mas sozinhos nos convidam até para cafezinhos”. Só agora, com Bibichicov Netanyahu (Netanyahuzinho), é que há processo de paz”. Pai químico, ele vai estudar engenharia de computação e namora uma russa, embora neste momento, na praia de Ashdod, esteja paquerando uma loura cor de neve da Sibéria. Por que não uma israelense? “Mentalidades muito diferentes”, diz. O ministro Sharansky, trocado por espiões soviéticos depois de preso por nove anos, diz que o êxodo russo alterou o sionismo, que deixou de ser o caldeirão em que todos os diferentes judeus eram misturados. “Temos agora judeus russos, judeus americanos e judeus marroquinos, e queremos suas tradições e conhecimentos: Israel tem que se tornar a pátria de todos os judeus”.

Como as medalhas de Samuelovich, muitos exibem colares com grandes estrelas de David, o entrelaçado de dois triângulos com seis pontas, símbolo judaico. Tão à mostra, induz suspeitas, ao invés de dirimi-las. Um jovem russo morto num recente atentado palestino em Jerusalém não pôde ser enterrado como judeu, por decisão do rabinato. Um quarto dos russos israelenses não seriam considerados judeus pela Lei Judaica: “judeu é todo aquele nascido de mãe judia”. A Organizatsiya, a máfia russa que já abriu filial em Israel, consegue “cobertura judaica” para quem quiser imigrar. Assim exportava gângsteres para Nova York ao tempo em que as portas da União Soviética estavam fechadas à imigração. E hoje envia prostitutas para as ruas de Tel-Aviv, ou “mensageiros” com malas de dinheiro ilegal para ser depositado no seguro e curioso sistema bancário israelense.
Samuelovich era gerente de loja, em Kiev. “Lá, estava muito duro viver”, reclama. “Não tinha mais dinheiro”. A sua experiência de soldado deixou de ser compatível com as guerras sofisticadas travadas por Israel. Nem a idade permitiria um voluntariado. Então, o que vai fazer? Ele espera saber a resposta depois que aprender hebraico. O filho que imigrou há três anos dá aulas de educação física e poderá ajudá-lo. De condecorado à dependente, ele não perde a pose: estufa o peito, e tilintam as medalhas.
Houve um tempo, no início da década de 90, que o imigrante russo que não descesse do avião com um violino, então era médico. No hospital de Barzilai, perto de Ashkelon, a maioria da equipe é russa, mesmo os chefes de cirurgia e da área de oncologia. Estudantes de medicina russos trocam de carreira para evitar o mercado congestionado de Israel. Uma orquestra, a Andaluza, orgulho dos judeus expulsos de Portugal e Espanha em 1492 e 1496, os sefardins, está tomada por russos. A diretora do conservatório de Ashdod, Hanita Zvevner, tem num caderno os nomes de 60 professores russos esperando vaga. “Não há alunos para todos!” Do dilúvio de oito mil imigrantes violinistas e pianistas, três mil foram empregados. Quando a Filarmônica de Israel apresentou “1812”, de Peter Ilyich Tchaikovsky, na praça Rabin, em Tel-Aviv, o público falava russo. Em 1989, menos do que 700 mil espectadores foram a concertos em Israel. Mas em 1994, com a chegada de 500 mil russos, o público passou a ser de 1,1 milhão.
O flautista e saxofonista Vladimir Devorskin chegou de Moscou há três meses. Está tocando no calçadão de Jerusalém. Decepcionado? Vai voltar? “Yeltsin bandit, bandit”, xinga. Se tocasse numa rua russa, a Organizatsiya apareceria para cobrar pedágio. “Pelo menos aqui a máfia não assumiu o controle”. O organista Ariel, também moscovita, está conformado em viver de esmolas. Fez uma dupla com Devorskin para tocar algo brasileiro em homenagem ao repórter. E atacou “La cucaracha”… Ao lado, Ida Guershkah, de 72 anos, não toca nem canta: oferece antigas canções em iídiche num velho gravador quase sem som. Mas se diz feliz: “Tenho assistência médica de graça sempre que preciso”. E recebe “um dinheirinho” do governo.
Os russos estão russificando Israel. Já são um quinto dos 5,9 milhões de israelenses. E continuam a chegar ao fluxo médio de 150 por dia, 5 mil por mês. A fábrica de chips da Intel em Haifa, que só tinha um único russo em 1983, agora tem 150. E o pioneiro, Mikhail Kagan, é hoje o chefe do departamento de microprocessadores. Com 600 mil eleitores, os russos decidiram a queda de Yitzhak Shamir, do Likud, em 1992, e elegeram Binyamin Netanyahu, do Likud, em 1996, rejeitando um aprendiz público de russo, o trabalhista e Nobel da Paz Shimon Peres. O partido Israel Ba’Aliya já fez os ministros Anatoly Sharansky (Indústria e Comércio) e Yuli Edelstein (Imigração e Absorção). E tem sete deputados. Os judeus russos são de direita. Minoria na antiga União Soviética, eles não se identificam com a outra minoria do Oriente Médio, os palestinos. O editor do Novosti Nidli (Notícias da Semana), Dmitri Ladizhinsky, justifica assim uma opinião geral russa sobre a troca de territórios ocupados pela paz: a ex-União Soviética, 28 mil vezes maior do que Israel, não devolveu ao Japão as ilhas Kural, tomadas na Segunda Guerra Mundial, agora 1% do território russo. “Então, é difícil entender por que os israelenses deveriam devolver mais de 10% de seu país – e para inimigos”.
O soldado Nicolai tem uma visão mais próxima dos palestinos, por servir na Cisjordânia. “Em multidão, são perigosos, mas sozinhos nos convidam até para cafezinhos”. Só agora, com “Bibichicov Netanyahu” (Netanyahuzinho),  “é que há processo de paz”. Pai químico, ele vai estudar engenharia de computação e namora uma russa, embora neste momento, na praia de Ashdod, esteja paquerando uma loura cor de neve da Sibéria. Por que não uma israelense? “Mentalidades muito diferentes”, explica. O ministro Sharansky, trocado por espiões soviéticos depois de preso por nove anos, diz que o êxodo russo alterou o sionismo, que deixou de ser o caldeirão em que todos os diferentes judeus eram misturados. “Temos agora judeus russos, judeus americanos e judeus marroquinos, e queremos suas tradições e conhecimentos: Israel tem que se tornar a pátria de todos os judeus”.
Na pequena Rússia que está dando certo já foi formado o grupo teatral Gesher (Ponte, em hebraico), um sucesso absoluto em Israel já exportado para os Estados Unidos e a Europa. Dos nove israelenses convidados para uma conferência de matemáticos em Berlim, sete eram imigrantes russos. Cidades viraram canteiros de obras com o êxodo, atualmente estabilizado em 150 novos imigrantes cada dia. As medalhas de ouro das Olimpíadas da Língua Russa, em Moscou, foram conquistadas por três russos-israelenses. E em Beersheba, no deserto do Neguev, onde está enterrado David Ben-Gurion, há mais mestres de xadrez do que na própria Rússia.

Ben Gurion e Golda Meir, dois russos que foram primeiro-ministro em Israel.

Ben Gurion e Golda Meir, dois russos que foram primeiro-ministro em Israel.

Pousa mais um avião de russos no aeroporto Ben-Gurion. Agora surge o físico nuclear Marek Kiesler, viúvo de 52 anos, que chama atenção, como as medalhas de Samuelovich, porque carrega uma gaiola coberta com pano. Ele também está fugindo da crise econômica. Mas não quis abandonar Gosho, seu papagaio do Kazaquistão. Os imigrantes russos são como a bonequinha típica russa, a matriosca: aberta, tem outra boneca que se abrirá em outras bonecas, e assim 450 mil vezes mais, por um cálculo da Agência Judaica.

A Rússia de Bnei Ahish

A praça Menachem Beguin com a avenida Yitzhak Rabin, em Bnei Ayish, ao sul de Tel-Aviv, seria um cruzamento político improvável. Povoada de casais de velhinhos que não falam uma palavra de hebraico, só russo, é ainda mais impressionante. No quadro público de avisos, os anúncios são escritos em alfabeto cirílico. No shabat, o descanso religioso que fecha tudo em Jerusalém, a “delicatessen” Arbat está aberta.

Arbat, o calçadão mais famoso de Moscou, aqui é um mercadinho, com arroubo de delicatessen. Vende caviar a 200 shekalim o quilo (R$57), meio litro da vodca Dougan por 35 shekalim (R$10), e também vobla, o peixe salgado parecido ao bacalhau. No balcão, a proprietária Anette Freiberg, que imigrou da Rússia em 1992, com 15 anos, atende a todos em russo. E serve de intérprete entre o gueto russo e israelenses.
Os russos começaram a chegar a Bnei Ayish na leva de Freiberg. Havia então 1500 habitantes, a maioria imigrantes que vieram do Iêmen nos anos 50. Em pouco tempo, ocuparam a cidade: hoje os russos são 2/3 dos 7 mil habitantes. Agora tomarão o poder, elegendo o prefeito nas eleições de novembro. Será Grigory Lifshits, que foi membro do Partido Comunista em Moscou. Entre a minoria iemenita e a maioria russa restou certa tensão. Quando quer xingar, um iemenita diz: “russo!” A réplica, em geral: “árabe!”

Os refuseniks

Brailovsky, Sharansky, Kuznetsov... Foram centenas de refuseniks.

Brailovsky, Sharansky, Kuznetsov… Foram centenas de refuzeniks

Acabou a União Soviética, mas Eduard Kuznetsov mantém-se refusenik – um contestador. Nos anos 70, ele planejou o sequestro de um avião para Israel, com 15 outros dissidentes, mas foi descoberto e preso pela KGB. Ao recobrar a liberdade e o direito de viajar, saindo de um campo de trabalho forçado, continuou contestando pelo microfone da rádio russa Liberdade, montada pelos Estados Unidos em Munique, na Alemanha.

Há mais de 15 anos em Israel, planejou um segundo sequestro – e foi bem-sucedido. Saiu do primeiro jornal russo-israelense, Vremya (Tempo), fundado pelo barão inglês dos jornais, Robert Maxwell, para dirigir Vesti (Notícias), sequestrado quase toda a equipe. Vesti é hoje o quarto jornal mais vendido em Israel, o primeiro em russo, já preparando edições para a Rússia, onde hoje chega com dois dias de atraso, e para as comunidades russas nos Estados Unidos, Europa e Austrália. Está com a tiragem de 60 mil e se gaba de ser independente, embora publique muitos artigos de políticos ligados ao partido Meretz, da esquerda liberal.

Na sua salinha escura do Vesti, em Tel-Aviv, Kuznetsov confirma ser ainda um refusenik. Quando sondado sobre preferências políticas, não cai em nenhuma dissertação. “Não voto por ninguém”, diz secamente. Se está feliz em Israel, para onde quis vir em avião sequestrado? “Ainda não estou pronto para ser israelense”. Os imigrantes russos devem se acrescentar a Israel, não se integrar. Para falar sobre o futuro imediato da Rússia, ele adota um tom funéreo: “A Rússia não pagou ainda pelo passado comunista, e vai correr sangue”.

Putin (foto: Time of Israel)

Putin (foto: Time of Israel)No Kremlin israelenseKremlin, em Israel.

No Kremlin de Jerusalém

(Entrevista com ministro de Imigração e Absorção Yuli Edelstein, 40 anos, fundador do partido Israel Ba’Aliya, em 1960, e assessor por um ano, de 1993 a 94, do então líder da oposição e hoje primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, do Likud. Ele vive numa colônia da Cisjordânia, Alon Shvut, com a mulher e dois filhos. Edelstein é de Chernovitz, na antiga União Soviética, e foi um “Prisioneiro de Sion”, em Moscou, de 1984 a 87, quando imigrou para Israel. Eleito em maio de 1996 para o Parlamento, Netanyahu o nomeou ministro da Absorção um mês depois, em junho. É formado em línguas em Moscou).

— Os russos continuam imigrando para Israel? Qual a situação hoje?
Yuli Edelstein: Os russos continuam chegando. Recebemos no ano passado, da antiga União Soviética, cerca de 54 mil novos imigrantes. Da Rússia mesmo chegaram 15 mil. Hoje, por causa da situação econômica russa, estamos esperando um crescimento na imigração.
— Quantos judeus podem ainda imigrar da ex-União Soviética?
Edelstein: Cerca de mais 1 milhão.
— Israel terá ao todo 2 milhões de russos?
Edelstein: Depende… Não creio que todos quererão vir para Israel. O potencial é grande. Hoje, o candidato a imigrante sabe tudo que o espera antes mesmo de partir. Então, a forma como o absorvemos aqui, ou o estado de nossa economia, influencia muito a decisão de vir ou não.
— O que os potenciais imigrantes sabem de Israel, hoje, é sedutor?
Edelstein: Sim, quando eles têm todas as informações sobre Israel, ficam propensos a imigrar.
— Muita gente tem procurado o consulado de Israel em Moscou para imigrar?
Edelstein: Não estamos falando ainda de massas. Mas há um grande aumento de pessoas buscando informações.
— Já 1/5 da população, como os russos estão mudando Israel?
Edelstein: Eles influenciam muito, e de várias formas. A economia israelense parece hoje muito diferente por causa desta onda imigratória. Esses 15% adicionais da população impulsionaram a nossa economia principalmente por conter um grande número de profissionais altamente qualificados. Tornou possível o desenvolvimento do setor high tech. Mas ainda tem outra influência. Nas cidades em desenvolvimento do deserto do Neguev e da Galileia, uma situação totalmente diferente está criada, pois 25% de sua população são de novos imigrantes. Eles pesam nas decisões sobre educação, esportes e vida cultural. Se você falar com qualquer prefeito de uma dessas cidades, ouvirá o mesmo: tudo está completamente diferente do que era há dez anos.
— E em política? Como os russos influirão nas eleições municipais de novembro?
Edelstein: Teremos (o partido Israel Ba’Aliya) 78 membros de prefeituras, alguns serão vice-prefeitos e em um ou dois lugares elegeremos o prefeito.

(Esta reportagem foi publicada em 1999, na revista Época.)

   

Feliz ano novo, Cuba.

Castillo de los Tres Reyes del Morro (Foto: commons.wikimedia.org/)

Castillo de los Tres Reyes del Morro (Foto: commons.wikimedia.org/)

Dispara o canhão no Castillo de los Tres Reyes del Morro: são 9 horas da noite nas ilhas do socialismo, da dissidência e do turismo no arquipélago de Cuba, cercado por todos os lados pelo mar bravio das profundas transformações na Europa Oriental, na União Soviética e na Nicarágua.

  A ilha do socialismo está se preparando para enfrentar os efeitos tropicais do furacão que abriu os regimes e as economias de seus principais aliados, orgulhosa das conquistas de 31 anos de uma revolução feita sem os tanques do Exército Vermelho soviético. A nova proclamação do venerado comandante Fidel Castro, espalhada em cartazes por toda parte, e repetida ao final dos discursos, dá a dimensão do tremendo desafio diante de Cuba:

  SOCIALISMO O MUERTE!

  A pequena ilha da dissidência ganha cada vez mais habitantes insatisfeitos com a falta crônica de liberdade, alimentos, transportes, habitação e comunicações, sob os ventos europeus da glasnost e da perestroika. Os dissidentes e anônimos descontentes, estimados entre 3 e 10 por cento numa população de 10,5 milhões, vivem o mesmo temor constante da repressão que Cuba sempre condenou nas ditaduras mais violentas da América Latina. O governo admite que existem: “são uns poucos antisociales e contrarevolucionarios”. Um funcionário do governo norte-americano não os considera “uma ameaça” a curto prazo para o presidente Fidel Castro. “Estão desorganizados” – observa um diplomata. “O impossível tornou-se inevitável” – concluiu um dos dissidentes depois da derrota do presidente Daniel Ortega: “é aqui em Havana que está a última peça de dominó que ainda falta cair”.

  Os cubanos conferem o relógio com o disparo diário do canhão do Castillo de los Tres Reyes del Morro – o tradicional “canonazo de las nueve”. E os turistas, a programação da noite. A ilha do turismo é um mundo à parte no arquipélago cubano. Aqui se gasta em dólares. Aqui não falta comida. Aqui há privilégios. Corrupção. Cambistas. Prostitutas. E vive-se uma relativa liberdade: um marinheiro alemão oriental do navio Gerhart Hauptmann entra no bar lotado do famoso restaurante La Bodeguita del Medio, pede rum com hortelã e água mineral, o mojito, e desafia em espanhol:

  -Quando vai cair o muro cubano? -Quando el jefe Fidel fará sua perestroika?

 


O verde mar do Caribe bate na amurada da avenida Malecón, em Havana, sob o reflexo da luz do farol do forte renascentista que gira há mais de cem anos para flagrar os piratas à porta do estreito da Flórida, no golfo do México.

A apenas 145 quilômetros daqui, em Miami, nos Estados Unidos, estão os gusanos, ou vermes – o milhão de cubanos que fugiram desde a revolução em 1959, e que planejam, com muita precipitação, uma grande festa para celebrar a queda de Fidel Castro.

  “No próximo Natal, em Havana” – anunciam os decalques grudados nos vidros dos carros de exilados. A transição para a democracia já ocupa uma comissão de estudos criada pelo governo da Flórida. Na calle Ocho, a principal da “Pequena Havana”, em Miami, há quem aposte que vai comer “um leitão em Cuba até o final do ano”.

  El comandante Fidel Castro, 63, não se dispõe a recuar um milímetro “nem para tomar impulso”: ele está a favor de mudanças – mas de “mudanças revolucionárias, buscando mais Revolução, e para tornar a Revolução mais sólida”, como disse num discurso em que explicou um novo pacote de rectificacion do regime aprovado pelo Comitê Central do Partido Comunista, em 16 de fevereiro. “Que ninguém sonhe que estejamos indo para o capitalismo ou coisa semelhante, à propriedade privada dos meios de produção, ou coisa que o valha (…) Socialismo o muerte! Pátria o muerte! Venceremos!”

               I

  A ilha da dissidência existe oficialmente: “Aqui há presos contrarrevolucionários…não negamos isto. Há pessoas que atentam contra a ordem, e recorrem a práticas violentas. Vão a julgamento. Não creio que sejam muito mais do que várias dezenas” – admite o chefe da Seção Internacional do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba, Jorge Gomez Barata.

  A ilha da dissidência é um labirinto minado. Alguns jornalistas estrangeiros que tentaram um contato direto com seus habitantes já foram expulsos de Cuba, ou ficaram marginalizados. O cubano que se apresenta abertamente como um dissidente pode ser um oportunista querendo apenas um lugar no voo diário para Miami, ou pertencer à polícia política. Alguns são presos, imediatamente, por “espalhar falsas notícias”, como aconteceu a três ativistas de dois grupos de direitos humanos, em 1989. Não há fontes independentes para checar denúncias. O governo não dá informações. Os próprios dissidentes não se conhecem, nem estão organizados num movimento único, e vivem sob a rigorosa vigilância dos Comitês de Defesa da Revolução que existem em cada quarteirão – os CDR.

  Os dissidentes são estimados em 3 a 10 por cento dos 10,5 milhões de habitantes que povoam as 1.600 ilhas do arquipélago de Cuba. Um funcionário do governo os limita a 250 mil eleitores que não votaram a Constituição de 1976. Mas outras fontes, extraoficiais, estimam que eles possam alcançar até um pouco mais de 1 milhão. A verdade, aqui, é um tabu. Quem tenta penetrar o terreno proibido da ilha da dissidência, em Havana, comete um crime ideológico, como se de Cuba só seja permitido fazer louvação, num eco de sua imprensa triunfalista. Um repórter da rádio estatal da Tchecoslováquia, Michal Cermak, foi expulso, em 11 de janeiro, depois de comparar o atual momento cubano à “calmaria antes da tempestade” que desabou sobre o comunismo na Europa do Leste.

  Uma das últimas explosões no labirinto minado da ilha da dissidência ocorreu no dia 22 de fevereiro, quando um jovem de 20 anos subiu num ringue, no segundo round de uma luta pelo campeonato mundial de boxe amador, no Coliseu da Cidade dos Esportes de Havana, e gritou:

  “Abaixo Fidel Castro. Basta de tirania”.

  A Tele-Rebelde transmitia a luta ao vivo, mas o câmera não focalizou o raro comício-relâmpago, assistido por um público de duas mil pessoas. A luta nem chegou a ser interrompida. Os telespectadores só puderam ouvir gritos confusos, enquanto uma multidão alcançou o dissidente, vestido com uma camisa marrom claro, e só não o linchou porque a polícia chegou antes. “Ele quis testar se a insatisfação está generalizada” – interpretou um observador cubano. “De repente, quem sabe?, dá certo, e o protesto esteja só à espera de um primeiro grito…

  Abajo Fidel Castro! – gritou um outro dissidente nas ruas do Cerro, no dia seguinte ao comício-relâmpago no campeonato de boxe. Foi perseguido e preso. “Louco”, diagnosticou um policial. Abajo Fidel! – apareceu escrito num lençol branco que tremulou por alguns poucos minutos, debaixo de uma forte chuva, no Palácio dos Matrimônios, no Vedado, ao lado do hotel Habana Libre.  

     Um nome na

         Ilha

     da dissidência

    

  O dentista Sebastian Arcos Bergnes, 58 anos, é um dissidente conhecido em Havana. Ele assusta quem o visita ao avisar: “Você foi filmado quando entrou na minha casa. Aqui na frente funciona o CDR do meu quarteirão. É onde mora um coronel aposentado. De qualquer forma, o motorista do táxi que o trouxe também vai denunciá-lo, com toda a certeza”. Sempre que dá alguma entrevista telefônica, internacional, ele perde temporariamente a linha, já tão difícil em toda Cuba. “Um castigo”, comenta.

  Sebastián quer, nada menos, que um plebiscito para que os cubanos digam si ou no a uma abertura democrática. E iniciou uma campanha em maio de 1989, “o ano da esperança”, com uma carta ao secretário geral da ONU, Javier Perez de Cuellar:

  “Não existe nenhuma intenção de ofender nem humilhar politicamente os atuais dirigentes cubanos no poder, mas somente que se leve em conta a opinião nacional” – ele escreveu na carta que assina como um dos quatro vice-presidentes do Comitê Pró-Direitos Humanos de Cuba, que é ilegal. “Se atualmente até o mundo comunista se mostra positivamente ativo nesta época de mudanças para a plena democracia, nada justifica uma posição petrificada de estancamento em Cuba”.

  A campanha pelo Plebiscito Nacional nasceu “do anseio de milhares de compatriotas que puderam entrar em contato com o Comitê Cubano Pró-Direitos Humanos, apesar da repressão imperante”, diz Sebastián. Enquanto espera uma resposta, ele se dedica a recolher e a tabular as denúncias que recebe de “uma vasta” rede de informantes.

  “Somos só a ponta do iceberg. Uns 50. Estamos divididos em setores – um jurídico, um apenas para presos, um médico, um de imprensa, e outros para cultura, educação, religião, estudantil, trabalhista e camponês. Assinamos comunicados. Aparecemos. Mas a grande maioria de nossos membros é anônima. São gente do povo, donas de casa, vítimas de violações” – conta Sebastián, que então apresenta, com orgulho, o seu último trabalho – a tabela de 1989, feita à mão:

  Assassinatos e desaparecimentos: 24.

  “Na verdade, são 8, mais 16 de anos anteriores só reportados em 89” – ele explica.

  Fuzilados: 4.

  “Foram os militares condenados à morte por tráfico de drogas no julgamento feito por um tribunal militar especial, em 13 de julho. Entre os executados estava o general de divisão Arnaldo Ochoa Sanchez” – lembra Sebastian. O registro dos fuzilamentos “decididos pela Justiça de um país soberano, e com ampla cobertura da imprensa mundial”, como comentou um diplomata que viu o relatório, “é uma bobagem”. Mas Sebastián argumenta que os acusados não puderam se defender, e que o Tribunal Supremo Popular “cometeu várias violações jurídicas”.

  Ferimentos, tratamento cruel ou degradante: 571 casos.

  Um exemplo é a carta de um preso comum, Osmar Ruiz Despagne, que denuncia espancamentos da polícia no presídio Combinado del Este. Há celas sem teto em que os presos “ficam embaixo da urina dos guardas”, conta Adela Bahamonde, baseada no relato de um irmão preso. “Só incluímos no relatório as denúncias por escrito, e assinadas”, diz Sebastián, que as recebe através de uma “rede invisível” de informantes. “Todas procedem”, ele garante quase ofendido com alguma dúvida.     

  Detencões ilegais: 182.

  Os três casos mais conhecidos são o do presidente da Comissão Cubana de Direitos Humanos e de Reconciliação Nacional, Elizardo Sanchez, e dos militantes Hiram Abi Cobas e Hubert Jerez Marino, detidos depois que deram declarações à imprensa estrangeira.

  Julgamentos arbitrários: 94.

  Perseguição política: 204.

  Entre os 320 “documentos” que Sebastián enviou para a Comissão de Direitos Humanos das Nações Unidas, em Genebra, em fevereiro, há um desenho em que “o preso politico mais antigo do mundo”, Mario Chanes de Armas, com 28 anos de cadeia, mostra a área em que ficou no presidio Combinado del Este, em setembro. “Uma solitária”, diz um dissidente, “e foi nela que completou 63 anos, em 25 de outubro. O crime que cometeu foi o de rebelar-se contra a ditadura de Castro, depois que os dois lutaram juntos no ataque ao quartel Moncada, em 1953, e no desembarque do iate Gramna, em 1956”.

  Perseguição religiosa: 74.

  O relatório traz uma carta assinada por Esther Maria Serrano Diaz, que reclama de perseguições contra os membros da seita Testemunhas de Jeová desde 1959, o ano da revolução de Fidel Castro que derrubou o governo direitista de Fulgêncio Batista.

  Proibição de sair do país: 151.

     Violações trabalhistas, sociais e culturais: 282.

     Outras: 57.

  Um funcionário do governo que aceitou comentar a situação dos direitos humanos em Cuba, Jorge Gomez Barata, chefe da Seção Internacional do Comitê Central do Partido Comunista, nega as denúncias:

  “Tivemos, aqui, em 1987, uma enquete feita por uma delegação internacional, convidada pelo nosso governo. O seu informe foi examinado na assembleia da Comissão de Direitos Humanos de 1988. A conclusão: não se constatou a ocorrência de violações de direitos humanos em Cuba. Mais de duas mil pessoas foram entrevistadas pela delegação: 90 por cento dos casos eram relativos a problemas de imigração. Gente que queria imigrar, e se defrontava com alguma dificuldade. A propaganda norte-americana fez crer que algumas destas pessoas que se entrevistaram com a delegação sofreram repressão das autoridades cubanas. Este tipo de coisa não existe em nosso país. Nenhuma delas foi reprimida por ter entrado em contato com os delegados da comissão de direitos humanos, a não ser que tenha cometido outro tipo de delito”.

  Sebastian comenta: “É preciso ter uma forte vocação de mártir para se opor ao governo cubano”. Ele próprio entrou para a oposição “por necessidade”, quando um irmão, Gustavo Arcos Bergnes, que participou do ataque ao quartel Moncada com o comandante Fidel Castro, em 26 de julho de 1953, foi preso em 1966.

  “Meu irmão era embaixador de Cuba na Bélgica desde 1959. Numa visita a Havana, em 1965, ele criticou, entre amigos, e não publicamente, o caudilhismo de Fidel, a repressão e a discriminação contra alguns opositores. Ficou preso por três anos, até 69, num primeiro período, e de 81 a 88, outra vez. Eu estava nas forças armadas. Era capitão da Marinha. Saí em defesa de Gustavo. Falei com Raul Castro, o ministro da Defesa. E com vários outros ministros. Só Fidel não me recebeu. Protestava contra a injustiça que se estava cometendo contra meu irmão. Fui posto na rua, e passei um ano trabalhando no campo”.

  Sebastián, formado em Odontologia, em 1955, voltou à Universidade de Havana como professor, a convite de velhos amigos. Mas a insistência com que prosseguiu a campanha pelo irmão o levou também à prisão, entre 1981 e 86. “Perdi o emprego. Se fosse um outro sistema, procuraria um novo trabalho na iniciativa privada. Em Cuba, porém, o único empregador é o Estado. Fiquei marginalizado. Meu filho foi expulso do segundo ano do curso de Biologia. É ele quem sustenta a casa, hoje, com seu salário de 128 pesos por mês” – que são cerca de 166 dólares, com cada dólar valendo 75 centavos no câmbio oficial, ou 4 a 7 pesos, no mercado negro. “Isto não dá para vivermos…e tenho que pedir dinheiro a parentes”.

  As reformas que Sebastián propõe para Cuba se limitariam, “num primeiro estágio”, ao respeito aos direitos humanos e à liberdade de reunião, religião e de opinião. “Só depois é que faríamos uma consulta popular, um plebiscito, para saber se o povo deseja uma abertura democrática no país. Aqui se fala em nome do povo mas não o consultam” – ele diz. A luta do próprio Comitê pró-Direitos Humanos não progride: está na ilegalidade desde que foi criado, em 1976, e nenhuma das três cartas pedindo autorização para funcionar, enviadas em 1987 e 88, sequer mereceram uma resposta do ministério da Justiça.

  Os filhos

  da revolucão

    

Aos 88, Fidel é fotografado por Lula. Foto: Ricardo Stuckert/ PR (24/02/2010)

Aos 88, Fidel é fotografado por Lula. Foto: Ricardo Stuckert/ PR (24/02/2010)

  Enquanto falava, cochichando, o jovem dissidente olhava nervosamente para os lados, no meio da multidão reunida nas escadarias da Universidade de Havana para uma manifestação em homenagem ao líder sul-africano Nelson Mandela.

  Uma frase do herói da independência cubana, Jose Marti, estava reproduzida numa faixa, no ponto marcado para o encontro: “Una ideia desde el fundo de una cueva puede mas que un ejercito”.

  O presidente da Federação dos Estudantes Universitários, Felipe Perez, gritava da tribuna: “Os racistas sul-africanos quiseram enterrar um homem, e criaram um símbolo…” O dissidente, 22 anos, filho de um membro do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba que lutou ao lado de Fidel Castro, em Sierra Maestra, aproveitava para denunciar, protegido pelas palmas:

  -Dois estudantes foram presos porque pediram a criação de um partido político…

  Perez prosseguiu: “Quiseram matar uma ideia, e criaram milhões de pessoas que a defenderam.”

  -Eram do curso de matemática…Seus nomes: Jorge Quintana e Carlos Ortega – acrescentou o dissidente.

  “Quiseram ganhar pela força, e perderam diante da força do exemplo, do coração e das ideias de Nelson Mandela, do povo da África do Sul e do Congresso Nacional Africano…”

  O dissidente explica: “Queremos reformas, queremos liberdades”. Um panfleto com as duas reivindicações, e “Abaixo Fidel“, circulou em dezembro entre os universitários pouco antes da prisão de Quintana e Ortega, e de um outro estudante que foi expulso. “Podem ter sido produzidos pela própria polícia para nos incriminar” – ele diz. Um outro panfleto circulou entre a imprensa estrangeira, assinado pela presidente do ilegal Partido dos Direitos Humanos, a poetisa Tania Diaz Castro, pedindo a realização de eleições livres por voto secreto e direto, sem “aspirar ao poder nem a cargos públicos, mas apenas ao retorno do pais ao estado de direito”.

  Agora começa a falar o representante do Congresso Nacional Africano em Cuba, Kingsley Xuma. Mas ele só lê o princípio do seu discurso. A tradutora, que o alternava, dispara na leitura, e volta a abrir-lhe um espaço apenas no final, para o “Viva Fidel, Viva a Revolução“, que ele grita em espanhol. O dissidente fica mais relaxado, embora um guarda da Policia Nacional Revolucionária tenha se postado por uns minutos à sua frente, de costas, com um pequeno transmissor ligado.

  “A insatisfação é grande entre os universitários…”

  -Vocês estão se organizando?

  “Não. Nem sabemos, realmente, quantos somos. Não temos como avaliar. A metade da população de Cuba nasceu depois da revolução. Não está tão motivada como a geração mais velha para defender os princípios revolucionários. Muitos querem sair do país. Estou entre eles. É mentira que não possamos viajar apenas porque Cuba não tenha divisas. Quando terminei minha bolsa na Tchecoslováquia fui convidado a ir para um país árabe, sem despesa alguma, tudo pago, e não deixaram”.

  -Vocês não gostam de Fidel?

  “Quase todos o admiramos, e muito. Achei até muito estranho aquele panfleto contra Fidel. Sei de muitos que são contra o socialismo, porém fideles. Só que o momento dele já passou”.

  Um outro estudante da ilha da dissidência, filho também da revolução, confessa: “Eu e meus amigos sentimos que está faltando alguma coisa. Sabemos dos benefícios do regime: crescemos dentro do sistema cubano de educação e saúde, que é muito bom, inigualável na América Latina. Mas estamos cansados dessa conversa de que devemos abrir mão de muitas coisas, em nome do básico indispensável para o país. Nada muda. Nossa situação não melhora. Fidel já abriu o jogo: vale tudo, menos uma contrarrevolução. Este é o assunto do dia entre os universitários. Nossos amigos que voltam de bolsas na Europa do Leste, e ficam confusos aqui em Cuba, falam da experiência de abertura de que participaram. Queremos a nossa glasnost”.

  Os universitários protestam contra o método “escalafon” – a tabela pela qual as melhores notas não significam, necessariamente, o primeiro lugar. “A média final vai depender de quantas vezes você participou de reuniões da juventude revolucionária, ou da Federação dos Estudantes, e com que frequência cada um se voluntariou a trabalhos coletivos”. Outro foco de insatisfação estudantil ganhou certa expressão no primeiro curso de publicidade iniciado recentemente em Cuba. Quando a professora pediu que os alunos imaginassem uma estadia no balneário de Varadero, a 144 quilômetros de Havana, quase foi vaiada.

    “A prioridade é para o turista. A gente está se transformando em cidadãos de segunda categoria em nosso próprio país. Entendemos que o turismo renda divisas, mas por que devemos ser tratados pior do que o estrangeiro?” – pergunta uma estudante, para quem o comandante Fidel Castro está se tornando “um paizão velho”, e o seu socialismo, “bom só na teoria”.

    1990: ano de

    “no venta” e de

    “con su mismo”.

    O garçom serve o filé ao turista como uma preciosidade. “É muito difícil comprar carne de boi” – lamenta uma dona de casa.

    “Temos uma cota de carne aqui no restaurante” – diz o garçom, pouco à vontade por ser consultado. “Ela aparece no nosso prato uma vez por semana”.

   Uma libreta de compras garante uma cesta básica mínima para cada família, desde a revolução em 1959. Numa casa com cinco pessoas, por exemplo, os cupons de racionamento dão direito a 1 quilo de feijão, 4,5 de açúcar, 4,5 de arroz por mês, 1 quilo de gordura, banha ou manteiga, e mais, semanalmente, a um pacote de 900 gramas de café, e o equivalente a uma coxa de galinha por pessoa, ou 120 gramas de carne de boi, ou porco, ou cavalo.

    A libreta não assegura, porém, a existência do produto. Há filas para obtê-lo. É preciso estar numa rede de amigos que se comunicam para saber que a cebola, sumida há seis meses, acabou de chegar às prateleiras. E outra boa estratégia, num mercadito, será a de decidir, rapidamente, em qual das filas valerá mais a pena investir. O prazer de uma cerveja poderá custar o pão.

  “A gente passa o dia na fila” – diz uma compañera que não dá seu nome, evidentemente, e mesmo assim ainda resiste  a falar. “As conversas com estrangeiros são desencorajadas, e podem significar a perda de um emprego” – como explicou o dissidente Sebastián Arcos Bergnes.

    “Outro dia me acordaram dizendo que tinha chegado o desodorante. Há tempos ele não aparecia. Aí entrei na fila. Mas eram apenas 15, e acabaram” – acrescenta a compañera. “Economizamos pasta de dente, porque é uma só por mês, e somos 5. Álcool não se encontra de forma alguma. Queijo? Nem pensar. A batata inglesa surge a cada três meses. E festejamos quando há cerveja – mas ela acaba num instante”.

   A compañera lamenta que não pode convidar ninguém para comer em sua casa. Às vezes, nem para um cafezinho. A não ser, é claro, que passe a fazer compras por la libre, fora do sistema de racionamento – legal, porém bem mais caro. É só fazer as contas com ela, convertendo cada peso a 1,30 dólar. Com um salário na faixa de 150 pesos, ou cerca de 195 dólares, a média geral, ela gasta 48 pesos, ou cerca de 63 dólares, com a cesta básica, mais 14 pesos com a prestação da casa, 11 com o galão de gás trimestral, 5 com a conta telefônica sem ligações internacionais, que custam 4 dólares por minuto para o Brasil, e mais as despesas com roupa, 10 centavos cada passagem de ônibus urbano, ou 25 centavos até uma boa praia, 10 centavos o jornal diário, e 1 peso o cinema. “Não dá nem para terminar o mês” – conclui, porque alguns dos produtos acabarão antes da próxima visita à bodega. Ninguém passa fome em Cuba. Mas o prato forte, para muitas pessoas, é a frustração.

    Olhe o que estou comendo” – mostrou um estudante, em Havana. Era arroz, ervilha e feijão. Num dia da semana virá um pouco de carne. “De manhã, tomei café com biscoito”, ele se queixa.

    Por la libre um quilo de carne custa entre 8 a 10 pesos. A cerveja pula de 60 centavos para 1 e 1,20 peso. A gasolina, a 1,25 o litro, vai para 2. O cubano pode ser preso se comprar lagosta, a 15 dólares cada nas diplotiendas, os mercados para os estrangeiros, onde só se aceita o dólar. É a exportação delas que assegura o litro de leite diário a todas as crianças de Cuba – a 25 centavos na libreta, e a 1, no livre.

    As frutas frescas e os vegetais são mais acessíveis nas áreas de produção, no interior. A escassez nas grandes cidades pode ser atribuída a problemas de estocagem, distribuição e transporte. As duas reformas agrárias instituídas a partir de 1959 nacionalizaram 80 por cento das terras, e o restante ficou nas mãos de 70 mil pequenos produtores independentes e cooperativas agrícolas. A experiencia dos “mercados camponeses”, que consistiu na liberação de preços e na venda direta ao consumidor, em 1980, foi abandonada, quando parecia estar dando alguns primeiros resultados, porque representava um perigo em potencial: “O método capitalista produz bandidos, ladrões e pessoas que ficam ricas à custa de outros” – diz el jefe, Fidel Castro.

    De tanto ouvir “no hay”, o cubano concluiu, com humor, que a culpa deve ser do ano, no venta, com a esperança de que a Soviética não se mantenha por toda a década. Alguns até teorizam sobre uma novo marxismo – o con su mismo, que é o isolamento em que Cuba pode ficar com a crise do socialismo no Leste Europeu e na União Soviética.                         I

Nosso porto em Mariel. Foto: Ismael Francisco/ Cubadebate

Nosso porto em Mariel. Foto: Ismael Francisco/ Cubadebate

   El comandante en jefe quer que todo o mundo saiba: “Aqui no trópico, nesta ilha caribenha, as coisas são diferentes”.

    A ilha do socialismo não vai um milímetro para trás “nem para tomar impulso”, promete el comandante Fidel Alejandro Castro Ruz. A única direção é ”para frente!”

    Aos que acreditam que a revolução cubana está chegando ao final, aos 31 anos, cercada por todos os lados pela crise do comunismo, el comandante garante: “Que se afunde, primeiro, a ilha no mar”. E adverte que Cuba será um vespeiro com milhares de frentes de combate, se atacada. “Temos bandeiras muito sagradas a defender, e as defenderemos até as ultimas consequências”.

   O verbo render “foi há muito tempo apagado do dicionário cubano” – disse Fidel Castro, em 20 de fevereiro, durante o discurso em que explicou um novo impulso ao processo de rectificacion de erros da revolução, iniciado em fevereiro de 1986, “quando em nenhum partido do campo socialista se falava em restruturação”.

   El comandante não está propondo nenhuma reforma que conduza ao multipartidarismo. Pelo contrário: ele deixou claro que a profunda revisão, a ser completada até a reunião do Comitê Central do Partido Comunista, no primeiro semestre de 1991, não foi iniciada para questionar os princípios marxistas-leninistas, nem para produzir alguma forma de democracia fora do sistema de partido único. O objetivo é o de dar nova vida à revolução cubana.

   “O jefe declara que quer aprender com os erros que o Partido Comunista cometeu na Europa”, ironizou um cubano depois de analisar o pacote de rectificacion, anunciado tão repentinamente, num fim de semana, como se fosse mais um aumento de pão, ou ovos. “E isto quer dizer: aprender a como não perder o poder” – ele concluiu.

    Um diplomata em Havana afirma que “chegou a hora da verdade”, e observa que el comandante começou, inclusive, “a demarcar o terreno de luta”, ao prometer o aperfeiçoamento do Partido único, com a rectificacion e algumas “mudanças revolucionárias” que tornem “a Revolução ainda mais sólida”. Mas ele pergunta: “Como Fidel Castro vai conduzir seu projeto nacional sem os subsídios do bloco comunista?” A ajuda econômica soviética é de 4,5 bilhões de dólares por ano, ou 12 milhões de dólares por dia, e pode não ser mais mantida integralmente a partir de 1991. Uma das saídas de Cuba passa por uma maior integração latino-americana. E outra, por Washington, com a normalização das relações que encerraria o rígido bloqueio comercial imposto há’ mais de 30 anos.

    

    A paz com os

    EUA e’ uma

    fantasia? “No”.

    Os novos heróis cubanos são os 11 tripulantes do navio mercante Hermann que resistiram com canivetes, chave de fenda e machados à uma inspeção antidroga da guarda costeira dos Estados Unidos, em águas internacionais do golfo de Yucatã, em 30 de janeiro, quando transportavam uma carga de cromo para Tampico, no México. A bandeira que defenderam, panamenha, já está exposta no Museu da Revolução. Cada um deles vai receber a mais alta condecoração nacional pela bravura e pelo comportamento comunista exemplar demonstrados diante da “pirataria ianque”. Uma impressionante multidão em Havana os recebeu diante da missão de interesses norte-americanos em Cuba, na avenida Malecon, à beira-mar, onde um cartaz antigo  anuncia: “Señores imperialistas, no les tenemos absolutamente ningun miedo”.

    Fidel Castro, a barba já quase toda branca, estava lá para promover “a heroica lição dada ao Império”. Alguns dias depois ele diria num discurso à Assembleia Nacional: “Quem pensam que somos nós? Que pensam da historia de nossa pátria e do que é capaz o nosso povo? Acho que os que estavam no Hermann o demonstraram. Aqueles homens sem armas, sem armas!, e que não se importavam se havia um ou 20 guarda-costas, ou se por trás dos guarda-costas estava o porta-aviões, diziam: Aqui não entram, e se acabou. Este país é um gigantesco Hermann, mas com ferros, com ferros suficientes para nos defendermos”.

  Este gigantesco Hermann, no entanto, apesar da aparente prontidão para uma guerra sempre iminente, poderia navegar nas águas pacíficas de uma nova relação comercial entre Estados Unidos e Cuba. Fantasia?

    “No”, diz o chefe da Seção Internacional do Comitê Central do Partido Comunista, Jorge Gomez Barata, 43 anos. “Se o governo norte-americano mudar sua política para Cuba estaremos prontos para uma normalização”.

    “É o que Cuba mais deseja” – assegura um embaixador do Grula – o grupo latino-americano em Havana. Basta apenas um gesto dos Estados Unidos: por fim à “politica de capitulação”, inaceitável e humilhante para Cuba.

    O diretor do Departamento de América Latina e do Caribe do Ministério das Relações Exteriores, Lazaro Cabezas, lembra que o próprio jefe já declarou: “Normalização de relações com os Estados Unidos si, mas sem condições de nenhuma classe. Afinal, foram eles que adotaram a política do garrote com Cuba…” 

A invasão do Panamá, o caso do navio Hermann, as transmissões da rádio Jose Marti, em Washington, e o atual plano de enviar sinais de televisão para competir com os dois canais da ilha do socialismo, a Cubavision e a Tele-Rebelde, dão aos cubanos a impressão de que o presidente George Bush pretende ser ainda mais provocador do que o ex-presidente Ronald Reagan.    

  “A política me ensinou”, diz o compañero Barata, sem bater a porta à mínima esperança, “que uma situação de crise pode terminar em guerra ou em paz”. Ele comenta que “um clima de normalização com os Estados Unidos está no melhor interesse da revolução cubana”, e no da atual diplomacia soviética, mas protesta: “Antes de falarmos de um acordo, temos que perguntar o que há para resolver?”

    -E o que há?

     “Um caminho para o entendimento passa por uma transformação na política norte-americana. A União Soviética aspira a uma distensão nas relações entre Estados Unidos e Cuba. A diplomacia soviética trabalha nesta direção. E isto poderia significar uma contribuição na medida em que a União Soviética seja capaz de pressionar os Estados Unidos a também afrouxar as tensões com Cuba”.

Foto: The Presidential Press and Information Office (11/07/2014)

Foto: The Presidential Press and Information Office (11/07/2014)

    “Nao somos

    os mendigos do

    terceiro mundo”

   Os cubanos, hoje, realçam a diferença histórica que os distancia dos europeus orientais, com base num discurso que el comandante pronunciou em 7 de dezembro: “Cuba não é um país onde o comunismo chegou por trás de vitoriosas divisões do Exército Vermelho”. O que vale para a Polônia, Alemanha Oriental, Tchecoslováquia, Bulgária e Romênia, não se aplica à ilha do socialismo.

   “Temos mais diferenças do que semelhanças”, diz Barata. “Posso afirmar, com toda a franqueza, que quando a revolução cubana triunfou, não conhecíamos um único russo, nem um só alemão oriental, nenhum húngaro. Não tínhamos relação com o comunismo internacional. Nossa revolução foi um fenômeno autóctone, desvinculado dos processos pelos quais o socialismo conquistou o poder na Europa Oriental. Nossos dirigentes não foram impostos, nem selecionados pela militância de algum partido, e não chegaram em cima de tanques. Não temos um passado stalinista. E é preciso lembrar que aqui estamos no terceiro mundo. Um cubano não tem razões para se sentir insatisfeito com o que alcançou com o socialismo”.

   O compañero Barata ouviu o líder sindical Lech Walesa dizer que o comunismo converteu os polacos nos mendigos da Europa. “Nós não somos os mendigos do terceiro mundo”, ele reage, com certo orgulho. Outros compañeros do Comitê Central do PC cubano repetem, com pequenas variações, o argumento apresentado pelo onipresente jefe Fidel Castro:

     “A terrível verdade é que em países da América Latina há milhões e milhões de crianças abandonadas nas ruas, sem pais e sem famílias; um analfabetismo tremendo, onde nem a metade, nem às vezes 40 por cento dos jovens, chegam ao sexto grau ou terminam a escola primária; prostituição, fome, desnutrição e insalubridade. Fala-se do capitalismo desenvolvido da Europa, mas o que temos que ver é o capitalismo subdesenvolvido do Terceiro Mundo. Isto é o que temos que ver: o que se passa aí não acontece aqui, em absoluto”.

    

   Perigo à vista

   na ilha: um

   naufrágio  econômico.

Foto: site.adital.com.br

Foto: site.adital.com.br

O cubano chegou a admirar o início das profundas transformações na União Soviética e no Leste Europeu. “Mas na medida em que o processo foi degenerando, acompanhado de ações violentas, francos retrocessos, nossas percepções mudaram”, conta o compañero Barata.

   “Os europeus orientais vão despertar num pesadelo”, acrescenta. “Estão vivendo uma ilusão – a ilusão de que o Ocidente os receberá de braços abertos, e cederá seus capitais, a sua tecnologia. Duplo engano. Foram enganados por um socialismo que não era genuíno. E estão enganados ao procurar no capitalismo a solução para seus problemas”.

   O compañero Barata ficou escandalizado com o conselho que deu aos poloneses um emissário do Fundo Monetário Internacional, FMI, “sem mover um músculo do rosto” – o de que fosse desempregado 1 milhão de trabalhadores. “Isto significa, na estrutura da família polonesa, que 6 a 8 milhões de pessoas ficarão sem recursos para viver. Claro que aí não está a solução do problema de um povo. Ninguém deve se gabar de que ocorreu algum progresso. Nós que vivemos no terceiro mundo, e que sabemos, de verdade, em que condições o ocidente transfere seu capital e sua tecnologia, podemos dizer: essa gente está vivendo uma grande ilusão”.

  É por isso que Cuba só tem uma opção: Socialismo o muerte! “Estamos ratificando uma decisão de não retroceder”, explica Barata. “Para nós não existe o caminho de volta ao capitalismo”.

    À frente, o caminho é incerto. Cuba precisa de uma reserva de 1.2 bilhão de dólares por ano, no mínimo, para manter a sua economia no nível mais baixo de desempenho. E precisa, também, das importações da União Soviética e dos países da Europa do Leste, que respondem por 85 por cento de seu comércio. O Produto Nacional Bruto é ainda o mesmo de antes da revolução, em 1958, com uma diferença – a população cresceu em 3,5 milhões de habitantes. Os cubanos estão entre os mais pobres da América Latina em renda per capita, mas entre os de nível de vida melhor, ao mesmo tempo, porque contam com assistência medica e educação gratuitos, e roupa e comida subsidiados. A mortalidade infantil caiu para 11 por 1000 crianças, um das 20 mais baixas do mundo, e a expectativa de vida passou a ser de 74 anos.

   “Não temos ninguém pedindo esmola nas ruas, ninguém morrendo de fome” – orgulha-se qualquer cubano. Mas os cofres de Cuba estão sangrando perigosamente. Os lucros com a revenda do excesso de petróleo que recebia da União Soviética caíram de 574 milhões de dólares, em 1985, para a metade, em 1986, e zeraram, em 1989. Ao que tudo indica, não haverá mais excessos, e só mesmo o suficiente para o consumo interno. O preço do “óleo branco”, o açúcar, principal produto cubano, também pode perder a proteção soviética contra a desvalorização no mercado internacional. E aí estão em jogo 4 milhões de toneladas por ano.

    “Até quando os soviéticos trocarão um trator por 20, 50 sacas de açúcar?” – pergunta um diplomata latino-americano em Havana. A resposta é um mistério do último encontro entre el comandante Fidel Castro e o presidente Mikhail Gorbachev, há um ano, em Havana.

    “Cuba assinou os acordos de intercâmbios comerciais para 1990, e com vantagens” – assegura o compañero Barata, dissipando qualquer previsão de problemas imediatos. A falta de trigo que deixou os cubanos sem pão, no último semestre, foi provocada por uma restruturação da frota mercante soviética. Em Moscou, porém, um assessor do Comitê Central, Andrei Kortunov, reclamou, por escrito: “não é segredo que compramos o açúcar cubano por um preço quatro vezes acima da média mundial”. A tendência para uma economia de mercado, sem preços preferenciais, que contagiou como um vírus os países do conselho de assistência econômica do bloco comunista, o Comecon, só afetou Cuba superficialmente, por enquanto.

    “Não há uma vacina contra o vírus Gorbachev” – lamentou um empresario holandês com grandes negócios agrícolas com Cuba. Ele torce para que os cubanos sobrevivam ao vendaval econômico que está se armando no horizonte. Um membro do Politburo Soviético, Yuri Maslyukov, já insinuou que el comandante Fidel Castro poderá ter que pagar agora os 10 bilhões de dólares que deve à Moscou. Mas, como?, se ele suspendeu desde 1986 os pagamentos da dívida de 7 bilhões de dólares com os países industrializados, e não recebe mais novos créditos.

    Um dos produtos cubanos que justifica a ajuda soviética de pouco mais de 1 dólar diário para cada um dos 10,5 milhões de cubanos, a maior entre os países do Terceiro Mundo, é estratégico. A ilha do socialismo serve de base para submarinos e aviões soviéticos; de posto de observação de toda a costa norte e sul-americana do Atlântico; e de radiação de influência entre os países não-alinhados. Com uma característica peculiar: el comandante nunca foi uma marionete do Kremlin. Divergiu em 62, durante a crise dos mísseis. E agora segue uma direção oposta à descentralização da economia e à glasnost.

     “Esta noção de que Cuba é um pais subsidiado pela União Soviética”, comenta o compañero Barata, “impede que se compreenda que as relações comerciais são um caminho de ida e volta. Mandamos 4 bilhões de dólares anuais para Moscou. E 4 milhões de toneladas de açúcar. A metade dos cítricos que os soviéticos consomem. Níquel. E medicamentos. Temos cerca de 200 produtos de exportação. A União Soviética não pode cortar suas relações comerciais com Cuba. Como arranjaria dinheiro para comprar o açúcar no mercado internacional?” – ele pergunta, lembrando que o preço cubano é preferencial, mas pago na base de troca de mercadorias. “Nossa economia, uma economia agrícola, está sadia. Veja o caso da economia brasileira. Custa muito caro colocar automóveis e computadores no mercado, principalmente porque existe a competição dos Estados Unidos, do Japão e dos outros países desenvolvidos. Nos não estamos neste nível de competição. Nem produzimos produtos prescindíveis”.

    Convite para

   uma nova relação

    com o Brasil    

    

    “Há muitas coisas em comum entre Cuba e Brasil, principalmente o povo, a cultura” – diz o compañero Barata. “E isto cria uma base muito propícia para um entendimento entre nossos dois países.”

   As relações entre o Brasil e Cuba, restauradas em junho de 1986, “ainda estão por construir”, ele acrescenta. “Não digo reconstruir, conscientemente, porque o episódio do rompimento não pode ser atribuído à vontade de nenhum dos dois países – e, sim, com certeza, à pressões externas, porque foi um fenômeno generalizado na América Latina.”

    Um cálculo brasileiro, otimista, era o de que as relações comerciais com Cuba chegariam a 200 milhões de dólares por ano. “Romantismo”, comenta um diplomata que veio abrir a nova Embaixada. Cuba importa pneus, uma pequena quantidade de carros, óleo de cozinha, lâmina de barbear, frangos, soja e até mesmo goiabada, que também produz. A lista, agora, vai incluir ônibus, e poderá ainda crescer muito mais com os produtos que normalmente eram comprados da organização comercial dos países do bloco comunista, o Comecon, que decidiu abandonar as operações tipo escambo, ou troca de mercadorias, em favor de acordos baseados em valores de moedas ocidentais.

    “Temos que encontrar os mecanismos de complementação de nossas economias que possibilitem uma comercialização muito mais fluida, e relações de todos os tipos” – pede o compañero Barata, que também responde pelo Departamento de Orientação Revolucionária do Comitê Central do Partido Comunista cubano. “As economias latino-americanas se complementam pouco”, ele acrescenta: “Não podemos vender açúcar a quem produz açúcar. Nem café. Mas o nível de desenvolvimento tecnológico do Brasil, e o que o Brasil representa como um mercado, abre um precedente muito importante. Estamos trocando, atualmente, um dos produtos de nossa indústria farmacêutica – a vacina para a meningite. Podemos evoluir para um maior intercâmbio de tecnologias. Será, então, um caso único. Em geral, este tipo de intercâmbio ocorre do Norte para o Sul, e poucas vezes entre dois países do Sul, subdesenvolvidos”.

     -O que Cuba espera do governo Fernando Collor?

    O diretor do Departamento de América Latina e do Caribe do Ministério das Relações Exteriores, Lazaro Cabezas, lembrou que o Congresso brasileiro será o mesmo até outubro, e comentou: “Queremos estar bem com qualquer governo brasileiro”. Depois, acrescentou: “Especialmente na esfera econômica e comercial, importante para nossos dois países”.

     O companero Cabezas é a favor de uma verdadeira integração latino-americana sem exclusão política ou ideológica, e com respeito à autodeterminação e independência de cada país. “Essa politica tem sido uma constante, e posso dizer mais: ela não está ligada aos acontecimentos na Europa do Leste”.

     O impacto econômico da perestroika levou el comandante a procurar outras alternativas, e não só na América Latina. Ele já assinou um acordo comercial de 500 milhões de dólares com a China. E até deve visitá-la ainda este ano. Ele também resolveu investir, maciçamente, na área de turismo – uma fonte de frustrações na ilha do socialismo, porque cria uma classe privilegiada, um mundo à parte onde não existem filas, os táxis não são los incapturables, e há de tudo nas diplotiendas.

    

    No se derrumba

    la Revolución como

    un merengue

   Cuba pode se tornar “um parque de diversões capitalista” – prevê o professor Ron Chepesiuk, do Winthrop College, na Carolina do Sul, que passou uma longa temporada na ilha do socialismo. Os 250 mil turistas de 1987 serão 350 mil este ano, e 1 milhão, em 1992, rendendo entre 500 a 700 milhões de dólares por ano. Os brasileiros estão chegando a uma média de 500 por mês.

   Alguns diplomatas comentam, brincando, que Fidel Castro é também o único “chefe da oposição” cubana. O seu investimento turístico, ironicamente, poderá abalar a própria Revolução – algo que nem o bloqueio americano não conseguiu.

    El comandante se indigna com quem acredita “que pode vir aqui colher mangas baixinhas”, e que 31 anos de lutas vão se desmanchar como se fossem um suspiro, um merengue. “A unidade do povo…isto é o mais sagrado, a arma número um da Revolução”.

    Um par de sapatos, comprado sem a caderneta de racionamento, por la libre, custa até 120 pesos, ou cerca de 156 dólares, quase o salário médio da população, que é de 150 pesos. O cobiçado aparelho colorido de TV, onde passam as populares novelas brasileiras, sai por 2 mil pesos, como uma geladeira. E um carro, 5 mil pesos, ou 6.500 dólares. O cubano não tem o direito de sair do país, a não ser em alguns casos especiais. E disputa espaços no turismo interno, numa invencível competição com os estrangeiros que pagam em dólar. Donas de casa reclamam. Muitos jovens protestam. E os contestadores estão ficando cada vez mais ousados, ao surgir em público gritando: Abajo Fidel! O povo está unido?

    “Temos gente insatisfeita” – responde o compañero Barata. “Algumas expectativas de consumo não são satisfeitas. E nosso governo não pode destinar quantidades de dinheiro para que turistas cubanos saiam a conhecer o mundo. Mas  existe um clima de compreensão. Sabe-se claramente que o país não pode avançar no mesmo ritmo em todas as frentes. Asseguramos a educação em todos os níveis, em todos os graus. Formamos 20 mil médicos por ano. Há 25 mil estudantes matriculados em cursos superiores de tecnologia. Nossa saúde publica é de primeira categoria, e inclui transplantes até do coração. O emprego está garantido a todos. Temos um seguro social altíssimo, com 10 por cento da população aposentada. Um país com opções para habitação, com um alto nível de subsídio aos produtos básicos… Assim investimos os nossos recursos. É preciso fazer algum sacrifício. Não se pode ter tudo”.

     A ilha do socialismo parece inabalável. Uma mini-superpotência. El comandante decidiu nadar contra a corrente que flui da Europa do Leste. Ao reunir o Comitê Central do Partido, em 16 de fevereiro, a sua palavra de ordem estava escrita numa faixa: “Neste momento, nosso e do mundo, temos que ensinar o que é um comunista”. O processo de rectificacion não mudará basicamente nada. “Manteremos, irremovível, o princípio de partido único, que não nos veio de Lenin, mas de Marti, quando fundou o Partido Revolucionário para a independência de Cuba”, ele explicou à Assembleia Nacional do Poder Popular. E recomendou: “Não iremos privatizar nada; ao contrario, temos que socializar progressivamente”. O plenário repetiu com ele, como se dissesse amém: Venceremos!

                       

    Uma turista húngara sugere que os cubanos devem “se matar já'”, diante da única opção oferecida pelo comandante Fidel Castro: Socialismo o muerte!

    Govrik e o namorado, Peter, ficaram encantados com Cuba, como a maioria dos turistas, depois de 20 dias de férias. Mas estão embarcando no Aeroflot para Berlim, no aeroporto Jose Marti, irritados porque não puderam pagar um último anejo, o rum de mais de sete anos, com o “certificado” – a moeda cubana dos turistas da Europa do Leste. A garçonete insistiu: só dólares.

    A ilha do turismo e a ilha do socialismo se chocam constantemente. “Os cubanos estão com raiva da gente” – conclui Govrik, 23 anos, estudante de economia internacional. “Deve ser porque saímos do lugar, e eles não. Ganhamos liberdade, e eles ainda não. Além do mais, paramos de exportar ônibus para Cuba”.

    Govrik e Peter queriam festejar a partida, que quase perdiam, porque não encontraram um guagua – ônibus, que se pronuncia uaua – para voltar do “paraíso” de Varadero, um balneário a 144 quilômetros de Havana. No final conseguiram capturar um de los incapturables, os táxis que cobram em pesos, com a condição de que pagassem em dólares. Agora, o brinde – ao longo voo de volta, e aos dias ensolarados de Cuba. E a constatação de que em Cuba, onde a gorjeta já foi proibida e era ofensiva, o suborno começa a resolver problemas.

     O soviético Alexandr, um visitante veterano da ilha do socialismo que viaja em missões oficiais de intercâmbio agrícola, lamenta ouvir casos em que os cubanos aparecem como “qualquer imperialista corrupto”. Ele diz que se entristece muito ao confirmar “uma perda da pureza revolucionária”. 

    -Câmbio? – murmura o jovem que acerta o passo com o turista, nas ruas de Havana.

    -Puros? – ele insiste, oferecendo charutos.

    -Mulatas?

     Um psicanalista brasileiro ia trocar 1 dólar por 6 pesos, quando no oficial cada 1 peso vale 75 centavos de dólar, e o cambista arrancou-lhe a nota da mão, e saiu correndo. Um comunista italiano hospedado no hotel Habana Libre, ex-Hilton, só descobriu ter caído num golpe ao tirar o bolo de dinheiro do bolso: eram duas notas de 20, com o retrato de Camilo Cienfuegos, e o resto, papel de revista.

    “O cambista pediu que não contasse o dinheiro na rua para não chamar a atenção” – ele lembra, entre envergonhado e amargurado, depois de trocar 100 dólares por 40 pesos. Nem reclamar pode: o câmbio negro é punido em Cuba, e ele está com el comandante Fidel Castro, torcendo com fervor pela resistência na ilha do socialismo, porque “as transformações na Europa não passam de um retrocesso”. Ele pediu a dois jornalistas que o ouviram: “Por favor, não falem mal de Cuba. Este país não merece”.

    Um brasileiro que veio tratar o filho, no “turismo do vitiligo”, que é uma afecção cutânea que produz áreas despigmentadas pelo corpo, perdeu todo o dinheiro num assalto, e teve que dormir na Embaixada do Brasil até conseguir um voo de volta para São Paulo, via Panamá. Alexandr, o soviético, diagnostica sintomas de “um câncer” na sociedade cubana. O único tratamento possível, como recomenda, é “abertura, democratização”. Ele não tem dúvidas de que Cuba seguirá esta receita: “Apenas uma questão de tempo” – assegura, olhando para os lados para ver se alguém o escutou, num tique típico na ilha da dissidência.

    O alemão Werner se prepara para ver as ondas arrebentando com forca no parapeito da avenida Malecón, num dia de vento Norte: “No quiero câmbio, ni puros, ni mulatas” – ele repete, como se estivesse treinando para o assédio inevitável, assim que pisar o mundo real de Havana. Mesmo que troque dólar com vantagens, como irá gastá-lo? O mundo em que vive o turista não aceita pesos. O jornaleiro, sim. Mas o jornal Granma custa 10 centavos. O cafezinho, servido em quiosques, outros 10 centavos. O famoso sorvete na Copellia, entre 0,50 e 1,50 pesos. O cinema, 1 peso. E pode-se tomar rum com água mineral, folha de hortelã e açúcar, o mojito, no bar do restaurante Bodeguita del Medio, famoso pelas visitas do escritor Ernest Hemingway. O garçom, porém, vai atender, primeiro, quem pagar com “divisas”. O peso também compra livros – livros entre 1 e 5 pesos que são disputados quando chegam nas prateleiras, e que esgotam rapidamente. Se o turista quiser trocar mais de 20 dólares, ao desembarcar no aeroporto Jose Marti, com certeza vai ouvir: “mas para que, compañero?” Quando sair, só poderá destrocar o máximo de 10 dólares, se tiver o comprovante do cambio oficial.

     O dólar abre as portas dos restaurantes onde os cubanos fazem fila. Garante as melhores mesas nos cabarés, que são uma mania em Havana, onde funcionam mais de 300. Com ele, anda-se de turistaxi, sempre disponível diante dos principais hotéis. E compra-se no “palácio da comida”, uma diplotienda frequentada por residentes estrangeiros, no hotel Triton, e que tem os produtos básicos em falta nos mercaditos do pais.

    Os dois mundos convivem e colidem. O garçom serve um filé como uma preciosidade. Ele próprio dirá que só come carne uma vez por semana, “se tanto”. Mas quem tem um amigo no campo acaba descobrindo um circuito clandestino para se abastecer de carne de porco ou de galinha. O estrangeiro compra uma garrafa do melhor anejo por 4 dólares. O cubano, por 20 a 30 pesos. Charutos? So’ os de segunda ou terceira categoria. Os melhores, puros, estão nas diplotiendas, inacessíveis. A ilha do turismo tende a crescer. Há mais 5 mil quartos de hotéis em construção. E um ambicioso projeto para transformar as praias de Cayo Coco num porto de cruzeiros turísticos e de iates.

    Muitos cubanos observam, constrangidos, as obras dos novos paraísos capitalistas. “Precisamos é de mais casas e de mais guagua” – critica um deles, com o cuidado de não ser ouvido na fila do cinema Yara. Um funcionário da Cubatur, que não quis dar o nome, defende a estratégia: “Temos ofertas garantidas de turismo que logo vao amortizar o investimento. Estamos apostando no certo”. Uma previsão é a de que 350 mil turistas visitarão Havana até o final do ano, 100 mil a mais do que em 1987, e que gastem uns 200 milhões de dólares. A meta de 1 milhão de turistas está fixada para 1992, com um retorno estimado entre 500 e 700 milhões de dólares.

     Os turistas são aconselhados a ter muita paciência, ou ardor revolucionário, quando chegam à Cuba. O funcionário da alfandega poderá sair para o banheiro, e demorar. Ou ser extremamente minucioso, especialmente com os poucos cubanos que voltam de viagem. Abre envelopes. Lê até as cartas, se estiver muito desconfiado. Os problemas no hotel são resolvidos, geralmente, com muita lentidão, enquanto circulam memorandos pela infraestrutura burocrática, que está procurando adaptar-se aos novos tempos e tornar-se mais eficiente, “mais capitalista” – como definiu uma recepcionista.

     Com tempo, dois dias, uma banheira é desentupida. A privada ganha uma tábua. E troca-se a televisão sem imagens por uma com imagens, mas sem som. Opção do dia dos namorados: ver “A escrava Isaura”, ou ouvir um show de Roberto Carlos? Agora, o telefone, esse parece não ter solução, embora um técnico português de uma companhia canadense, que passou um mês avaliando como Cuba falará com o mundo em 1991, durante os jogos pan-americanos, garanta: “Vamos conseguir. Se depender de nós, faremos uma ligação com um satélite, e pronto: Cuba entra na era do DDI”.

    O técnico, porém, não sabe se Cuba quer “tanta comunicação”, e como decidiu contar por que, pediu a proteção do anonimato: “Acho que há um problema político”, ele confidenciou. “O governo cubano talvez não queira perder o controle das ligações internacionais. Imagine todo mundo discando direto daqui para Miami?” Uma ligação para Havana, atualmente, requer muita paciência e determinação. Pode levar uma noite inteira, e nem sair. Vários funcionários da embaixada do Brasil foram convocados no sábado, 17 de fevereiro, para um trabalho extra, provocado por um comunicado do Comitê Central do Partido Comunista que anunciou um pacote de rectificaciones para o aperfeiçoamento da “democracia socialista”. Mas não puderam telefonar nem mandar telex para o Itamaraty.

     “Não tivemos linha” – explicou um diplomata.

     “A linha caiu varias vezes até que conseguisse passar uns parágrafos” – contou um correspondente estrangeiro em Havana.

     O problema não é apenas o de linhas antigas, com 50 anos. Uma funcionária da telefônica, em novembro de 88, tocou fogo numa estação, silenciando 60 mil telefones – os que começam por 6 ou 61, incluindo o da Embaixada Britânica. “Foi por causa de uma briga com o namorado”, diz-se em Havana. A incendiária está presa, condenada a 12 anos de cadeia. As outras linhas, naturalmente, sofreram uma sobrecarga. Quando se tira o telefone do gancho já se escuta o ruido de ocupado. Não se aflija: disque assim mesmo que pode dar certo. Ao som de algo se partindo, anime-se: a ligação será completada. Há vezes em que se disca, e não acontece nada, um silêncio total. E outras em que se escuta, nitidamente, alguém desligando – será um censor?

    “Tudo aqui é muito difícil” – comenta um diplomata enquanto abre, em 24 de fevereiro, o cartão de feliz Natal despachado em 24 de dezembro, no Rio de Janeiro.

    Havana parou no tempo. Quase todos os seus carros são americanos que começaram a rodar antes da Revolução, em 1959, e já passaram por inúmeras retificas e adaptações. Algumas mansões antigas, na cidade velha, fundada em 1515, viraram verdadeiros cortiços. Outras estão sendo restauradas, com a ajuda da Unesco. Mas a cidade é uma das poucas capitais latino-americanas sem favelas. E sem mendigos. E pode ser confundida com uma superpotência com a leitura de sua imprensa triunfalista, que badala muito os congressos que abrem todas as semanas, com títulos pomposos como “Informática-90”, “XII Festival de Rádio”, “Pedagogia-90”, “Primeiro Encontro Iberoamericano de Historias em Quadrinho”, e “Cristianismo, Socialismo e Marxismo”. Um deles, o de “Psicologia Marxista e Psicanalise”, reuniu um grande numero de brasileiros e foi encerrado, sem Freud nem Marx, com um comunicado contra a teleagresion que os Estados Unidos deverão cometer se levar adiante o projeto de uma TV para Cuba – a TV Marti. Um psicologo brasileiro comentou: “Vim mais para turismo. Tentei falar com os psicólogos cubanos sobre a situação politica, mas eles se mostram muito fechados”. Numa excursão à Bahia dos Porcos, perto de Cienfuegos, ele viu uma passeata.

     “Contra Fidel?” – perguntou, preparando a câmera. Era a favor. Muitos cubanos que criticam o socialismo são leais ao jefe Fidel. “Conhecemos o que era Cuba sob Fulgêncio Batista”, diz um ex-marinheiro, hoje motorista de um turistaxi Lada, soviético. Ele critica “esses jovens opositores” como se as reformas que reclamam fossem uma moda passageira. E pergunta, desafiador: “Nos Estados Unidos não há também um só partido no poder? Hein? O que me diz disso?” Um técnico em refrigeração lembra que andava descalço, aos 15 anos, e que hoje todos estão calçados.

     “Vivi os dois regimes. Antes, aqui, havia uns poucos ricos. Agora, somos todos iguais. Todos podemos estudar. Temos médicos e hospitais. Este não é um sistema para produzir milionários. Para mim, o socialismo deixou de ser um fantasma – virou o único meio de vida” – ele diz.

     El comandante Fidel Castro parece onipresente em Havana, como a salsa e a rumba. Ele vai a todos os lugares para resolver pessoalmente os problemas que considera prioritários. Cuida até de uma melhor distribuição de guaguas pela cidade. Surge no meio de uma míni brigada de voluntários, numa obra, ou numa manifestação, de repente. “Veja Fidel: não tem nada para ele; só para o povo” – comenta um voluntario no trabalho de recapeamento das ruas do Vedado, onde estão os grandes hotéis. Havana é uma cidade muito bonita. As mangueiras estão florescendo nesta época do ano. Grupos de velhos fazem ginástica nos parques, todas os dias. As melhores praias estão ao Leste, como El Megano, Santa Maria del Mar e Bacuranao. A música faz parte da paisagem. Os concertos nas Casas de la Trova são gratuitos. E há shows de rumba e salsa pelas ruas, nos sábados de descanso, dois por mês.

     O jornalista Joaquin Rivery, responsável pela área do cone Sul do jornal oficial do PC de Cuba, Granma, diz que el comandante conta também com um evidente apoio juvenil. Uma prova seria a grande participação de jovens nas últimas das várias manifestações em Cuba – a festa de aniversario do herói da independência, Jose Marti, que “foi um espetáculo incrível”, e a homenagem aos tripulantes do navio mercante atacado pela guarda-costeira norte-americana, que lotou um longo trecho da avenida Malecón.

    Rivery vai ao Brasil para cobrir a posse do presidente Fernando Collor de Mello. Ele foi correspondente em Moscou por 4 anos, e esteve na China e na Polônia, nos anos 80. “Aqui só existe liberdade de imprensa revolucionária”, explica. Isto quer dizer que o Granma, o Trabajadores e o Juventud Rebelde não são publicados para atacar a Revolução. Suas manchetes também não refletem, necessariamente, o que de mais importante acontece no mundo. Pode ser o otimismo com a safra, uma novidade científica e até o dia dos namorados, que rendeu muita cobertura em todos os jornais.

      “Aqui não há glasnost, nem vai haver glasnost – assegura Rivery. O que é bom para a União Soviética não é obrigatoriamente bom para Cuba”.

     Uma das perguntas que se faz ao jornalista estrangeiro que pede credenciais para trabalhar em Cuba reflete um dos fascínios cubanos: “Você já escreveu um livro?” O escritor Miguel Mejides, vice-presidente da União Nacional de Escritores e Artistas, explica:

     “Em 1958, um ano antes da Revolução, tínhamos muitos analfabetos, cerca de 38 por cento de uma população de 6 milhões de habitantes. A campanha de alfabetização começou em 1961, quando o escritor Alejo Carpentier criou a editora nacional.  Aprendi a ler com 12 anos. O primeiro grande livro de leitura maciça, em Cuba, foi Dom Quixote, de Cervantes. A partir daí o livro passou a chegar a todas as casas, e a representar prestigio. Não acho que lemos tudo que deveríamos ler. Mas estamos bem superiores ao restante da América Latina”.

     Os prêmios literários da Casa de las Américas são considerados importantes. A brasileira Anita Leocádia Prestes ganhou um dos prêmios deste ano para ensaios, com A Coluna Prestes. O livro Fidel y La Religion, de Frei Betto, dificilmente será encontrado, atualmente, como os de Jorge Amado, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa, esgotados rapidamente. Na Feira Internacional do Livro, em Havana, em fevereiro, foram apresentados 3 mil novos títulos, a maioria estrangeiros. Mejides, 40 anos, está escrevendo seu quarto livro – uma novela em que o personagem principal é um cantor cubano de rock, “gordo, frustrado e careca”, que passa para rumba e cha-cha-cha quando viaja ao exterior, “e vive à procura da infância, da adolescência”.

     Cuba só pode pagar direitos autorais em pesos. Uma exceção foi aberta para um escritor norte-americano que Mejides não identifica. “Pagamos com charutos. Uma caixa de charutos”. Outros recebem com uma estadia em Cuba.

     Há um turista que muitos cubanos detestam: é o gusano, ou lagartixa, ou verme, o cubano que vive no exílio, nos Estados Unidos. Ele chega a Havana com passaporte norte-americano, dólares, e compra nas diplotiendas o que seus parentes, vivendo em Cuba, não podem comprar: ventiladores, TV a cores, rum, puros e até comida. Exibe-se como alguém bem sucedido. Alguns já misturam palavras em inglês ao espanhol.

      A fartura do café da manhã no Habana Libre impressiona alguns turistas. Quantos deles não abrem a bolsa debaixo da mesa e deixam cair bananas, bolos e ovos cozidos para economizar o almoço? Assim pagam 3,50 dólares por duas refeições. Os cubanos não podem subir nos elevadores do hotel se não tiverem um cartão de identificação como todos os hóspedes. Na piscina, no segundo andar, o topless acabou de chegar, e e’ uma fonte de curiosidade e perturbação. O saguão de entrada está constantemente cheio. Uma babel, onde se misturam comunistas e imperialistas. El comandante Fidel Castro costumava dormir no 23 andar, abaixo do restaurante Sierra Maestra. Aqui também reabriu a Embaixada do Brasil, em 25 de junho de 1986. Nos últimos dias começaram a chegar novos repórteres franceses, belgas, japoneses, ingleses e espanhóis que estavam na Nicarágua, acompanhando as eleições que derrotaram o presidente Daniel Ortega, e que deixaram a ilha do socialismo ainda mais isolada.

    “Vieram para o derumbe” – ironizou um funcionário do ministério das Relações Exteriores. “Vão desistir de tanto esperar”. Só na “pequena Havana”, em Miami, entre os exilados cubanos, o derumbe parece iminente. Alguns já preparam as malas esperando voltar até antes do Natal. “Cuba não é Granada, nem o Panamá'” – advertem os cubanos. Eles acabaram de concluir um exercício de prontidão nacional, e estão preparados para defender o socialismo. Um cartaz por Havana os compara ao David, na luta contra Golias.

    A pedrinha tem uma forma que lembra a ilha de Cuba, e veio diretamente do muro de Berlim para a mesa de um cubano de Miami, Jorge Mas Canosa, considerado forte candidato à eventual sucessão do comandante en jefe Fidel Castro (não mais, a morte o levou antes, em 1997). Está numa moldura, com uma dedicatória assinada pelo deputado norte-americano pela Flórida, Lawrence J. Smith:

     “Talvez o muro em torno de Cuba seja o próximo a cair”.

     Canosa, 49 anos, preside a Fundação Nacional Cubano Americana, e atribui “aos amigos”, com um sorriso, a fama crescente de que será o próximo líder de Cuba. Ele não esconde que até já trabalha na transição, com uma equipe que inclui o economista Milton Friedman, mas motivado apenas “por um desejo de participar”.

    Na “pequena Havana” de Miami, Canosa observa, cada dia mais animado, os sinais de que el comandante Fidel Castro está caindo na ilha isolada pelo colapso do comunismo, pela derrota do aliado Daniel Ortega, na Nicarágua, e pelo fim das relações de conveniência com o general Manuel Antonio Noriega, do Panamá, que era uma das saídas ao bloqueio econômico de mais de 30 anos imposto pelos Estados Unidos.

     Os sinais captados por Canosa são “concretos”, como ele diz: “Estamos recebendo dois a três desertores do governo de Cuba por dia. Isso não se produzia antes, há’ um ano. Isto é muito importante. Algumas vezes passam dois dias sem que apareçam. Mas, então, chegam 10 de uma vez só”.

     -Chegam como? Barcos?

     “Não”, responde Canosa. “Pedem asilo no Canadá, na Espanha, Bélgica, Inglaterra, Equador…São funcionários do governo cubano que desertam enquanto cumpriam alguma viagem oficial. Tem acontecido mesmo em países comunistas. É um sintoma de que há uma séria crise em Cuba”.

-Algum deles está aqui, em Miami?

     “Neste momento, não”.    

    Outros sinais observados por Canosa: “Vários funcionários cubanos estão pedindo entrevistas secretas com frequência. Isto é inédito. Examino com cuidado a decisão de dá-las ou não, porque posso cair em alguma armadilha preparada pelo governo de Cuba. Aí já não se trata mais de um desertor. Gente que quer apenas um contato”.

    -E o que pretendem?

     “Estão procurando romper o isolamento em que se encontram, achar uma saída. Querem democracia, abertura, mudanças. Isto é muito delicado. Não posso falar a respeito porque ponho ainda mais em perigo a vida de pessoas que já estão se arriscando muito. Não são emissários de Fidel nem Raul Castro. Buscam algum tipo de conexão com gente que os ajude a produzir uma forte pressão interna para promover o inicio de um processo de democratização em Cuba”.

     Canosa também é o presidente da empreiteira Church & Tower of Flórida, com contatos no Brasil. Ele veio para os Estados Unidos no primeiro ano da revolução de Fidel Castro, em 1960. Era estudante de Direito, e não pode terminar o curso. Seus três filhos, nascidos americanos, e a esposa cubana, só esperam o momento de embarcar para uma nova vida em Cuba. As fotos em seu escritório o mostram com o ex-presidente Ronald Reagan e com o presidente George Bush.

    “Devo ao meu pais, que amo profundamente, o resto da minha vida” – ele diz. “Quero ajudar na reconstrução moral, espiritual e econômica do meu povo. Quero dar uma contribuição importante, seja numa instituição cívica, ou na vida pública”.

    A previsão de Canosa parece largamente compartilhada entre o milhão de exilados cubanos que vivem na Flórida: “É muito difícil prever uma data, mas não há dúvidas de que Castro não poderá’ resistir ao impacto das mudanças. Uma questão de tempo… Ele se colocou num curso de colisão com a própria União Soviética. E não está em condições de entender-se com os Estados Unidos. Na realidade, Castro entrou em choque com os dois polos políticos do mundo, e não vai sobreviver”.

     Castro es el próximo, “Castro é o próximo”, repete-se na Calle 8, a principal da “pequena Havana”, em Miami. No cafe’ Versailles, um ponto de reunião de exilados cubanos, o guarda de segurança Eusebio Hernandez aposta com um amigo: “Vou comer um leitão em Cuba, no final do ano”. O advogado Rafael Penalver fala mesmo numa “renascença cubana”. E para o ex-prisioneiro politico Ed Lopez Castillo, 66 anos, será um alívio:

    “Fiquei preso 13 anos porque denunciei o uso imoral da embaixada de Cuba na Tchecoslováquia. Ela tinha se convertido num prostíbulo. Eu estava começando a carreira diplomática, como primeiro secretario, em 1965. Escrevi um relatório de 44 paginas, e fui acusado de diversionismo ideológico, um inimigo da Revolução. Agora, este governo está por cair. A queda é iminente. Voltarei para Cuba com prazer”.

     Castillo, antes, vai à Caracas, na Venezuela, para reunir-se à esposa e filha, que não encontra há 10 anos. Chegou a Miami em 1989, com o ex-prisioneiro Ramon Guin Diaz, um plantado, um preso que resiste aos programas de reabilitação “mesmo sob tortura”, e que foi condenado a 22 anos por uma tentativa de assassinato contra Fidel Castro. “Puseram-nos num pequeno avião, e disseram que voaríamos para a Flórida. Tivemos medo de que iam, na verdade, nos assassinar. Até agora não sabemos a que devemos o voo especial para o exilio”.

     A excitação entre os exilados aumentou quando o governador da Flórida, Bob Martinez, anunciou a criação da Comissão Cuba Livre para examinar que efeitos norte-americanos poderá ter a queda de Fidel Castro. O prefeito de Miami, Xavier Suarez, que partiu de Cuba ainda criança, recomendou à policia que se prepare com antecedência para uma grande comemoração. O jornalista cubano-americano Sergio Lopez-Miro, que escreve uma coluna semanal para o Miami Herald, lamenta a precipitação oficial:

     “O governador criou essa ridícula comissão para estudar os efeitos de uma suposta queda iminente de Castro, mas talvez ele deva examinar os efeitos da histeria provocada na  comunidade”.

    Muitos exilados procuraram advogados para saber qual o procedimento legal para a recuperação de casas e terras desapropriadas pela revolução de 1959, que derrubou a ditadura de Fulgêncio Batista. Outros já se preparam para abrir negócios em Cuba.

     O empresário Canosa também é o presidente da Comissão Cuba Livre, e explica: “Achamos que devem vir de Cuba tantos cubanos quanto partirem da Flórida, porque o trabalho aqui, nos Estados Unidos, será igualmente importante. Faremos lobby em prol de um mercado livre entre os dois países, para que Havana e Miami se tornem cidades irmãs, e para unirmos, também, as universidades de Harvard e de Cuba, num primeiro momento”.

     Um dos objetivos da Comissão Cuba Livre é o de estudar o período de transição, apos Castro. E Canosa se anima: “Desde papel sanitário a automóveis e computadores serão embarcados do porto de Miami. A Flórida vai conhecer um período de grande prosperidade, na minha opinião. Afinal, estará se abrindo um mercado de quase 11 milhões de habitantes. A sociedade cubana quer se converter numa sociedade de consumo, e tem recursos. Cuba não é uma ilha pobre. Ao contrário: a mais rica do Caribe, e talvez de toda a América Central”.

     Canosa estava em seu Mercedes-Benz, à caminho da Fundação Nacional Cubano Americana, quando o telefone tocou. Uma repórter do jornal USA Today queria sua reação à noticia de que no Congresso, em Washington, alguns senadores e deputados acabavam de criar uma Junta pela Liberdade de Cuba. O que o Senado pode fazer para apressar a queda de Fidel Castro? – ela perguntou.

    “Esta Junta tomará a iniciativa, brevemente, de criar uma legislação capaz de dar o golpe final à tirania” – ele começou a responder, e acrescentou, como se já soubesse do plano: “Uma das primeiras medidas será a de apertar o bloqueio econômico contra Cuba, com a proibição de que companhias americanas no exterior vendam a intermediários cubanos”.

     Canosa seria confirmado, no dia seguinte, pelo presidente do comitê de Relações Exteriores da Câmara, o deputado democrata Dante Fascell, que revelou já ter pedido ao Departamento de Estado um relatório sobre o comércio de Cuba com subsidiárias norte-americanas, estimado em 300 milhões de dólares. “Fidel está maduro para cair, e acho que isto vai acontecer antes do que muita gente espera”, disse outro deputado, Larry Smith, um democrata de Hollywood. Foi uma nova festa para a “pequena Havana”, em Miami. “Se fizermos o nosso trabalho, Castro não estará no poder em 12 meses, contados desde hoje” – prometeu o senador republicano Phil Gramm, do Texas, em 1 de marco.

     O senador democrata da Flórida, Bob Graham, pediu, em nome da Junta: “Que o povo de Cuba possa votar como o povo polonês votou, como o povo do Panamá votou, como o povo da Nicarágua votou”. O deputado republicano Porter Gross, um dos observadores da eleição nicaraguense, acrescentou: “Quando o povo pode escolher, escolhe certo, como acabamos de ver”.

     Canosa ainda deu uma entrevista para uma rádio de Miami antes de estacionar diante da Fundação Nacional Cubano Americana. “O sistema de Cuba não está desenhado para sobreviver no meio ambiente atual”, ele comentou. “Cuba foi planejada para viver no meio ambiente comunista, com os subsídios e a assistência da União Soviética.” El comandante Fidel Castro não teria nem a alternativa de uma reaproximação com os Estados Unidos, como acreditam alguns membros do Comitê Central do Partido Comunista, em Havana.

     “A presença cubano-americana nos Estados Unidos impede que Castro engane os americanos”, diz Canosa. “Enquanto os irmãos Castro estiverem no poder”, e ele aí inclui Raul, o ministro da Defesa, “não há a menor chance para uma reconciliação com o governo americano. Simples: a Casa Branca não vai reconhecer uma ditadura que assassinou milhares de cubanos, que viola os direitos humanos, e que fornece armas à guerrilha em El Salvador”.

   Os cubanos os chamam de gusanos, vermes ou lagartixas. Mas Canosa, com orgulho, diz: “Somos uma força politica nos Estados Unidos. E afetamos a politica interna de Cuba. O exilio é responsável pela rádio Marti, pela televisão Marti, pelo fortalecimento do embargo contra Cuba, pelas denúncias de violações dos direitos humanos por Fidel Castro, e pela nomeação do escritor cubano Armando Valladares como embaixador dos Estados Unidos nas Nações Unidas, em Genebra”.

     -Como será o próximo governo de Cuba?

     “A lei do pêndulo vai funcionar”, responde Canosa. “Cuba vai passar de uma economia centralizada, de um regime ditatorial, para uma absoluta democracia, e uma economia de mercado. Já temos uma serie de sugestões preparadas, como a lei que deverá vigorar durante o período de transicão, e as primeiras medidas econômicas. O professor Milton Friedman nos ajudou. Não temos que inventar nada. Se você quer comprar o melhor carro, sabe qual e’. A economia de mercado livre é a única que funciona. A reconstrução econômica de Cuba será de tal magnitude, de tal prosperidade, que servirá de exemplo para toda a América Latina. Nos faremos de Cuba, em três anos, um dos países mais prósperos do Hemisfério Ocidental”.

     -A Fundação vai divulgar os planos para a transição?

     “Oportunamente”, corta Canosa.

     A Fundação Nacional Cubano Americana funciona como um governo no exilio, dispondo de uma verba de 5 milhões de dólares. Uma frase de Abraham Lincoln decora as paredes de seus escritórios: “Quem nega liberdade a outros não merece tê-la”. Uma outra decoração é a primeira página em que apareceu o general Noriega numa foto de presidiário. Só que, reparando bem, vê-se o rosto de Fidel Castro, sob o título: “US prisioner # 41586”.

     Um funcionário explica: “Aqui resolvemos todos os problemas, desde o de um desertor importante, na Polônia, até o de uma velhinha que caiu na rua, em Miami. Nunca aspiramos a ser um governo no exílio. Só que com o tempo viramos a organização mais importante na luta contra Castro, e somos hoje a oposição cubana”.

     Leopoldo Rivero talvez seja o cubano com o projeto mais mórbido entre todos os exilados. Ele quer receber o corpo de Fidel Castro. “Vou arrancar seus fios de barba, um a um. Depois, o cremarei”. A cremação é uma das especialidades da Funerária Rivero de Coral Gables, no coração da “pequena Havana”, e dos subúrbios de Wastchester e Hialeah. O prestigio de Rivero nasceu em Cuba, onde ele já era do ramo. “A revolução confiscou tudo que pertencia à minha família, e aí parti para os Estados Unidos”. Hoje ele está indignado diante do corpo de um menino de 15 anos, “um novo mártir do exilio”.

     Ricardo Gregorio Perez, que vai receber um enterro patriótico e grátis da Funerária Rivero, morreu de desidratação ao ser recolhido pela guarda-costeira norte-americana, quando já se aproximava das costas da Flórida. Vinha numa balsa feita com espuma sintética junto com o cunhado Ernesto Jesus Pena, de 23 anos, que sobreviveu e ficou detido no centro Krome, em Miami. A travessia dos 145 quilômetros do golfo do México foi feita por 40 refugiados, em janeiro, e por 391, durante 1989. Não se sabe quantos mais a tentaram, e naufragaram.

     “Vou enrolar este muchacho numa bandeira cubana”, diz  Rivero, em sua funerária, num tratamento igual ao que dispensou aos 27 corpos recolhidos de um barco que partiu do  porto de Mariel, em Havana, que marcou o êxodo de 125 mil cubanos em 1980.

     “A juventude é que está saindo agora de Cuba” – observa Jorge Lobo, 28 anos, depois de uma visita de solidariedade ao corpo do muchacho na funerária Rivero. Ele acabou de chegar de Havana. Ao pedir o visto, há 3 anos, foi expulso da universidade e perdeu o emprego no Comitê Estatal de Estatísticas. Trabalha agora servindo água e pão aos que se sentam para comer no restaurante Versailles. “Sinto-me quase em casa, aqui na Calle 8”, ele diz, mas preferia viver em Havana, onde ficou sua família. Aqui, tomando café, alguns exilados planejam invasões, o assassinato de Fidel e atentados. Os planos “não saem do terreno da fantasia”, garantem os líderes comunitários.

     “Para que?” – pergunta o professor Ricardo Bofill Pages, famoso no exilio cubano. “A guerra das ideias, no mundo de hoje, é muito mais importante do que a guerra com as balas de chumbo”. As transmissões da Rádio Marti, em Washington, são a principal arma contra el comandante Fidel Castro. “A história de Cuba”, ele afirma, “vai se dividir em antes e depois da Rádio Marti”.

     Bofill, formado em marxismo-leninismo em Moscou, fundou o primeiro Comitê Cubano Pró-Direitos Humanos, em Havana, em 1976, e ainda o preside, desde Miami. “Fiquei mais de 13 anos preso em 30 diferentes prisões de Cuba. Não há um milimetro do meu corpo que não tenha levado porrada. E mataram meu pai com um soco, em 1980” – ele conta com uma carga de violência inesperada para quem prega uma guerra de ideias.

     Dispara: “Meu pai tinha 71 anos quando o mataram numa rua de Havana. Um paradoxo: meu pai, um trabalhador, um combatente espanhol contra o fascismo, um revolucionário que se mudou para Cuba, morto na rua, durante as manifestações de repúdio ao êxodo de Mariel. Eu estava preso por ter sugerido uma renovação no Partido Comunista. Veja só: meu pai assassinado, e eu preso, numa suposta república socialista – nós, militantes comunistas!”

     E dispara mais: “Em que terminaram nossos ideais? As ideias de Prestes? Terminaram em Noriega. No bandoleiro que governa a Etiópia. Roubaram nossa ideia. Que diabo tem que ver Fidel Castro com os trabalhadores? Ele nunca trabalhou em sua vida”. E dispara: “Amigo mio, este governo que está em Cuba não tem nada que ver com os trabalhadores, com os pobres, com os negros. É uma oligarquia. Fala em nome do marxismo apenas para manter o poder…”

     Bofill transborda de ódio, armado com a Rádio Marti. As transmissões não violam a soberania cubana? “Isto é uma tremenda falsidade”, ele diz. A própria Rádio Havana transmite insurreição e desestabilização desde 1960. Um dos direitos universais mais sagrado é o da liberdade de informação e comunicação. O governo soviético levantou as restrições à Rádio Europa Livre e à Rádio Liberdade”.

     Nada mais contrastante do que o motorista de táxi que leva um passageiro ao aeroporto Jose Marti, em Havana, e fala com paixão revolucionaria do comandante en jefe Fidel, e o motorista de táxi do aeroporto de Miami, um exilado cubano que quer a pena de morte para o tirano Fidel. Um participa das brigadas voluntárias para construir a ilha do socialismo. E o outro contribui com dinheiro para fortalecer a ilha da dissidência.

    

     Viagem entre

     dois mundos

     Os passageiros do voo 8606 já estão impacientes, em pé, diante da porta de embarque, e ainda falta mais de hora e meia para a partida.

     A maioria dos passageiros tem mais de 65 anos. Apertam-se em filas que formaram por conta própria, visivelmente assustados. Esperaram meses pelo visto de saída, e agora temem algum imprevisto. Não carregam sacolas com presentes. E vestem-se com roupas simples, novas, ou cuidadosamente engomadas.

     O avião da companhia norte-americana Eastern acabou de pousar no aeroporto internacional Jose Marti, em Cuba. O voo 8606 não existe em nenhum guia turístico. Liga Havana e Miami, de segunda a sábado, “a partir de 11 horas da noite”. São só 40 minutos, e duas realidades tão diferentes! 

     Uma condição para a viagem é ter mais de 65 anos, e algum parente nos Estados Unidos que mande um convite por escrito, acompanhado dos 300 dólares para o bilhete de ida e volta. O visto dá direito a apenas 20 dias, improrrogáveis. Diplomatas e alguns estrangeiros são aceitos como passageiros, desde que haja espaço. O jato tem 149 lugares disputados diariamente, e levanta voo sob os auspícios da comunidade cubana, que o freta da Eastern para o transporte de ex-prisioneiros políticos, e a reunião de familiares.

     O camponês Geraldo, 68 anos, recebeu a autorização para embarcar, três meses depois que a pediu, em outubro de 1989, mas então estava em plena colheita de arroz. “Como poderia sair?” – ele pergunta, como se pedisse desculpas. Ele vai ver o filho, em Miami. No momento, quer muito ir ao banheiro, mas não sairá da fila que inventou com outros compañeros, pondo em pratica uma recomendação do próprio comandante Fidel Castro: “para trás nem para tomar impulso; só para frente!”

     Os cubanos são fervorosos comunistas, antes do embarque. Defendem o limite de 20 dias no exterior, “decidido pelo governo cubano para permitir o rodízio entre todos que queiram visitar a família”. Justificam as filas que enfrentaram: “afinal, somos um caso especial, e não podemos ter todas as atenções”. Uma senhora que se diz chamar Miriam, sem muita convicção, é um caso especialíssimo: viaja para conhecer o neto, mas não vê a filha desde que a mandou, com três anos, para fora de Cuba, depois da Revolução de 1959. Todos olham a pista através da porta de vidro, e os guaguas/ônibus que levam os passageiros até os aviões, e os relógios:

     “Será que há algum problema?” – pergunta Victor. Ele sugere que um passageiro estrangeiro pergunte ao guarda, porque a um cubano não pegará bem mostrar-se ansioso. As aeromoças da Eastern fazem compras. Um pacote de charutos, uma garrafa de rum, o último cassete de Pablo Milanes – “Proposiciones”. Os únicos jovens no voo são os dois lutadores porto-riquenhos que vieram a Havana para o Campeonato de Boxe Amador, e o técnico e a empresária que os acompanham. Foi quando um deles lutava que um dissidente subiu ao ringue, e gritou: Abajo Fidel! Basta de tirania! “Nem percebi os gritos, só a confusão que se armou”, ele lembra.

    Os passageiros são chamados às 11h40, mas já estão todos espremidos contra o vidro do portão A, que é apenas entreaberto para um embarque a conta-gotas. Cada passaporte cubano, já examinado à entrada do aeroporto, no balcão do voo 8606 e no guichê da imigração, passa por uma nova e rápida fiscalização. O funil se desfaz aos poucos, enquanto as guaguas lotados partem para o Eastern, vigiado por alguns policiais dentro de uma rádio-patrulha.

     A aeromoça pede: “Al fondo, compañeros”. Muitos dos compañeros entram pela primeira vez num avião. A maioria precisa de ajuda, principalmente para fechar o cinto. A corrida pela pista traz um sorriso à Miriam, voando no avião ianque para o mundo capitalista. Pergunta as horas, e não ouve a resposta. Daí a pouco pergunta de novo, preocupada: “Sera’ que minha filha ainda estará me esperando, com tanto atraso?”. As duas conseguiram combinar o reencontro pelo telefone. O voo dura 40 minutos, sem cafezinho, nada – so’ a correção dos cartões de desembarque, um por um, pelas tres aeromoças cubano-americanas.

     O avião toca a pista, sem aplausos. Os passageiros vão cruzando o aeroporto de Miami mostrando uns para os outros o carpete, a quantidade de telefones públicos, e – como entrar aqui? – a esteira rolante, que provoca risos. Um agente da imigração puxa da fila cada um dos passageiros, e o coloca plantado diante da linha amarela dos guichês de fiscalização, enquanto tenta falar espanhol: “stay aca'”. Todos se reúnem outra vez na saída da alfândega. Tanta é a confusão armada pelos que esperam os passageiros, com invasão dos cordões de isolamento, que a polícia decidiu: só abre a porta quando a calma for restabelecida.

    A multidão se contem por um instante. E quando aparecem os primeiros passageiros, descontrola-se outra vez. Abraços emocionados. Lágrimas. Aplausos. Gritos. Faixas. Flores.

 

Foto: gocuba.ca

Foto: gocuba.ca

Niède Guidon

Niède Guidon, Serra da Capivara, Piauí (foto www.saoraimundo.com)

Niède Guidon, Serra da Capivara, Piauí (foto http://www.saoraimundo.com)

A dama das cavernas na caatinga do Piauí, Niède Guidon, arqueóloga paulista, desenterrou um Brasil de 70 mil anos que está revolucionando a pré-história das Américas. Mas agora ela só quer encontrar certo homo sapiens sapiens de apenas 238 anos, Wolfgang Amadeus Mozart, e não consegue descobrir nenhum rastro dele em São Raimundo Nonato, a 435 km ao Sul de Teresina.

  “Estou doente de não poder ouvir a Flauta Mágica” (de Mozart) – lamenta Guidon: “Chega a doer…” Perfumes ela tem: usa Diorissimo, até nas cavernas. Há vinho francês na adega. Lá fora a caatinga virou um jardim, tanto que choveu aplacando uma das maiores secas do sáculo: “É uma beleza que não se esgota” – maravilha-se. A seus pés brincam os três inseparáveis cachorrinhos Schnauzer, alemães. Ela vive um momento de glória: seu trabalho de 23 anos está conquistando o reconhecimento científico mundial e até o interesse do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em Washington.

  Só falta ópera, e nem mesmo o homo sapiens vivo a substitui. “De vez em quando a gente fica sozinha na vida, não é? Depois, já cheguei a uma idade em que essas coisas…” Guidon, 61 anos e solteira, ou “sábia” que pretende “permanecer sábia até a morte”, vai agora introduzir um sistema de vídeo com telão aonde muitos descendentes dos primeiros brasileiros estão só agora descobrindo a TV

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(divulgapiaui.com.br)

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O (próprio) passado não é importante para a arqueóloga que recuou o tempo dos primeiros homens na américa de 20 para 70 mil anos. Ela resiste em escavá-lo. Mas faz um “Resumo da ópera” pessoal: a paulista de Jaú formou-se em História Natural na USP, foi professora em escolas de pequenas cidades de interior, a mãe morreu quando tinha seis anos e o pai está com 90 anos, aposentado como fiscal de rendas do estado. Mais uma escavada, e revela:

  “Tive um problema. Éramos três professoras morando sozinhas. Também dirigíamos carro. E não íamos a missa aos domingos. Eu ainda tinha que falar de evolução em algumas aulas. Alunos perguntavam: mas, e Adão e Eva? Aí denunciaram que estávamos ensinando filosofia ateia e pregando amor livre. A Secretaria da Educação abriu um inquérito. Fomos absolvidas de qualquer erro, mas condenadas a partir por falta de clima para permanecer. Então nos comissionaram no Museu do Ipiranga, com vaga, na época, apenas no departamento de arqueologia”.

  Outra cavucada, e Guidon acrescenta: “Aí me perguntei o que era arqueologia. E descobri que não sabia a resposta. Fui ao diretor do museu para dizer que não poderia trabalhar, a menos que aprendesse. Só existiam cursos nos Estados Unidos, na Inglaterra ou na França”. Ela apostou na terra do avô, francês. E ganhou uma bolsa para a Sorbonne. Viveu Paris de 1961 a 62. E o Brasil do golpe militar de 1964, quando de novo a denunciaram, como subversiva. “Tinha ideias socialistas. Mas não fui uma socialista de carteirinha. E nem fiz política estudantil”. Mesmo assim a demitiram. Ela então voltou a ser professora e estreou no comércio até que uma tia relacionada aos militares aconselhou: “Suma”. E ela sumiu mesmo. Continua “sumida”, o lado franco mais pesado que o brasileiro, professora na Escola de altos Estudos em Ciências Sociais, com intervalos em que se transforma na dama das cavernas da Serra da Capivara, no sertão do Piauí, sob o patrocínio oficial da França e apoio da Itália.

  Madame Guidon não apagou em Paris a lembrança dos “bordados de pedra” que viu em 1963 nas fotos levadas ao Museu do Ipiranga pelo então (e atual) prefeito de São Raimundo Nonato, Gaspar Dias. “Era uma arte diferente de tudo aquilo que existia na literatura”, ela lembra. Tentou ver de perto, mas não passou de Petrolina, à beira do rio São Francisco, em Pernambuco, barrada por uma ponte caída. Conseguiu, sete anos depois, ao final de uma expedição franco-brasileira a tribos indígenas em Goiás: “Levamos uma semana rodando de jipe por um areão infernal”. Mas foi um vernissage pré-histórico. “Ah, vi que os desenhos eram de um gênero ainda desconhecido no Brasil. Catei cacos de cerâmica. E tirei fotos”. A França, interessada, logo liberou verbas para uma missão, em 1975, depois repetida em 1978. Hoje já são mais de 400 galerias, com um acervo de 25 mil cenas coloridas de sexo, dança, caça, animais, guerra, colheita e jogos, pintadas entre 17 e 12 mil anos, numa extraordinária paisagem esculpida pela erosão.

imagem015  O trabalho de desvendar a coleção de arte pré-histórica do Piauí foi passado há 13 anos a uma antropóloga francesa, Anne-Marie Pessis. Ela se adaptou à caatinga sem abandonar o perfume Rive Gauche. Alguns desenhos são de homens com pênis gigantes – “talvez símbolos de poder, como um cocar”. Já as mulheres têm a vagina representada fora do corpo, portátil. E há figuras sem sexo definido. As cenas variam do beijo ao sexo grupal. Nada por acaso: os primeiros artistas brasileiros dão aos especialistas a clara intenção de “registrar, marcar o cotidiano”. Guidon escreveu o livro Peintures Prehistoriques du Brèsil, publicado na França, em 1991, mas acabou se dedicando totalmente à chefia de uma pesquisa global, que incluiu zoólogos, geólogos e botânicos. O Brasil começou a coparticipar via Conselho Nacional de Pesquisas (antigo CNPq), o governo do Piauí, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), e os institutos de Desenvolvimento Florestal (IBDF) e o de Meio ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Um projeto de proteger os 130 mil hectares da Serra da Capivara com um Parque Nacional, anunciado em 1979, só nasceu depois de uma difícil gestação de nove anos, dando tempo a devastação de algumas áreas de caatinga virgem, primária, e a chegada dos grafiteiros. A ONU logo o batizou de Patrimônio da Humanidade.

  As comunidades vizinhas ao Parque Nacional entraram nos planos de Guidon. “Partimos do princípio de que preservação da natureza é um luxo que só existe quando se tem o suficiente para sobreviver. Quem está com fome vai caçar mesmo”. Ela se tornou “mãe” para 600 crianças: deu-lhes três escolas, três refeições por dia, chuveiro com água em plena seca, e postos de saúde. E um “pai” para os sertanejos sucessores dos índios Pimenteiras e Jaicós: ensinou-lhes a ler e escrever, a escavar e peneirar os tesouros arqueológicos sob seus pés, e os preparou para o turismo e a apicultura. Ê uma “cabra-macho”, dizem de madame Guidon, 1,5 metro de altura, porque ela pilota trator, escala íngremes paredões, sobreviveu ao ataque de abelhas que a furaram com 200 picadas, trabalha direto de 4 da madrugada às 10 da noite enfrentando pedreiros, posseiros, prefeitos e até preconceitos científicos ao desbravar a pré-história do continente americano.

(www.saoraimundo.com)

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  Um telefonema de Paris localizou Guidon em Teresina, num dia de 1981. “Temos duas datações de 25 mil anos”, ela ouviu diretamente do laboratório. E respondeu: “Não, vocês misturaram as amostras. Não pode ser: na américa do Sul não tem nada dessa idade. Impossível”. O chefe entrou na linha: “Por isso estou telefonando. Quero que amplie as escavações. O carvão que você nos mandou tem 25 mil anos”. A sondagem aprofundou oito metros. E cada metro representou um salto de 10 mil anos. “A datação mais antiga que já temos é de 48.700 anos”, ela conta. “E ainda há material mais abaixo que ultrapassa o limite de medição do Carbono-14. Estamos aplicando outras tecnologias. Mas podemos calcular que os primeiros homens chegaram há 70 mil anos na Pedra Furada”.

  Chovia muito no sertão há 22 mil anos. “Era uma imensa quantidade de água” – e Guidon aponta para um vale ressequido, acrescentando: “Ali corria um caudaloso rio”. Antes, há 70 milhões de anos, as ondas do mar vinham bater por aqui. Grandes animais rondavam até 10 mil anos atrás a Pedra Furada – esse buraco de 15 metros de diâmetro num paredão com mais de 60 metros de altura, o cartão postal da Serra da Capivara que os franco-sertanejos apelidaram de Arco do Triunfo. Manadas de mastodontes e de superlhamas dominavam a paisagem. Os bichos-preguiça chegavam a ter oito metros de altura. E dos tigres dente-de-sabre restou uma preciosa mandíbula que disputa com um pedaço de crânio fossilizado, a cerâmica de 8.960 anos e um machado de pedra polida de 9.200 anos, o lugar de honra no Museu do Homem Americano, recém-fundado em São Raimundo Nonato.

  Um exame de fezes fossilizadas (coprólitos) do homo sapiens sapiens abala a tese de que os descobridores pré-históricos da América vieram da Ásia por um tapete gelado formado no Estreito de Behring. Elementar, como explica Guidon: “detectou-se a presença do Ancilóstomo, o verme do amarelão. Ê um parasita de clima quente. Ele não resistiria ao frio do Polo Norte. Até hoje não o encontraram na Ásia nem nos Estados Unidos. E ele existe na África e no Mediterrâneo. A tribo que chegou ao Piauí veio por um caminho quente”. Mas ela não rejeita nenhuma hipótese, e acrescenta outras: viagens por mar, através das ilhas aleutas, ou pelo Atlântico. Falta-lhe uma ossada para uma conclusão científica. O esqueleto mais antigo desenterrado na Serra da Capivara tem dez mil anos. A acidez da areia de clima tropical úmido corroeu os mortos pré-históricos.

  A dama das cavernas vai logo voltar à rotina de madame em Paris. “Importante”, diz Guidon: “Este trabalho não é meu. Sozinha não o teria feito nunca. Agora chegou o momento de ir me retirando aos poucos”. Ela tem que reassumir em dezembro seu posto na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais. Precisa trabalhar: “Gasto o que ganho, porque o que a gente leva do mundo é o que viveu de bonito”. Para Cloet, Dachta e Mimo, os três cachorrinhos, já assegurou uma herança em dólares para que “vivam como sempre viveram”. Como antes, então, virá a São Raimundo Nonato só durante as férias, para continuar as escavações na Toca do Caldeirão do Rodrigues, iniciadas pelo arqueólogo italiano Fabio Parenti, 36 anos, autor de uma tese de doutoramento que formalizou para a comunidade científica as datações mais antigas da Serra da Capivara. Espera aterrissar num aeroporto já dentro da cidade, e não mais há 300 quilômetros, em Petrolina. Ela também quer encontrar um Parque Nacional funcionando como uma Disneylândia da pré-história. Está deixando pronto o projeto, com espetáculos de luz e som, grutas iluminadas por energia solar, hotel cinco estrelas, plataformas para mergulhos de asa-delta, cânions para escalar, anfiteatros naturais e guias formados. No antigo quartel da PM em que vive, ela começou a transferir a administração da Fundação Museu do Homem Americano (Fundham) para uma profissional contratada. E já escuta ao longe a Flauta Mágica.

Dubai!



O gênio da ostra

maravilhosa.

E os Mil e Um 

recordes de Dubai.

ra uma vez um beduíno pescador que catou uma concha no fundo do mar da Arábia. Ele não poderia fazer a menor ideia do que encontrado. Vivia a 1500 anos da pérola hoje considerada a mais antiga do mundo, datada entre 5547 e 5235 a.C., e exumada de um túmulo por arqueólogos franceses. Tão distantes no tempo, e tão próximas! A concha na origem (e futuro) de Dubai, e a pérola com que o morto de Umm al Quwain partiu para o além, posta sobre seu lábio superior há muito dessecado, estavam separadas apenas 44,4 quilômetros uma da outra, no deserto atualmente compartilhado pelos sete Emirados Árabes Unidos (EAU).

Ao abrir a inusitada concha, o pescador neolítico deve ter liberado algum gênio, como Aladim e sua Lâmpada Maravilhosa. Materializou-se um poderoso ímã que atraiu caravanas de beduínos do Iêmen, Egito, Iraque, Arábia Saudita e Oman, constituindo uma vila que prosperou com a pesca e caça à pérola, já então um precioso talismã. Milênios sem dar o ar de sua graça, há 25 anos parece ter saído do… (desculpem-me) ostracismo: só pode ser ele o mago por trás do melhor, maior, mais alto, mais rico e outros tantos superlativos e recordes que se tornaram sinônimo de Dubai – “rastejar” em árabe.

Outro mago, o brasileiro Paulo Coelho, ganhou do sheik-poeta Mohammed Bin Rashid Al Maktoum, emir de Dubai e vice-presidente da união dos emirados, uma mansão de US$ 4,5 milhões (Pelé, Beckham e Schumacher, também). Mas ele não seria assim poderoso como o Aladim das ostras, mais para Ali Babá, Simbad e Xerazade, dos contos das Mil e Uma Noites, do que para Alquimista. Parece miragem a paisagem de opulência, com o horizonte de 600 arranha-céus (até novembro), no deserto batido por frequentes tempestades de areia. Mais de perto é um desfile marcante de contrários: nas ruas, camelos e Ferraris, mulheres tampadas por abbaya preta (cloak – disfarce, em inglês), escondendo roupas e lingeries de grifes da moda; e nas praias, o burkini, que descobre só olhos e mãos, enquanto turistas se despem em sumários biquínis. Os homens vestem branco imaculado, até na keffiah, o pano enrolado na cabeça.

(Pérolas são poder, saúde, sorte, sabedoria, pureza, inocência. Adornam os fiéis de Alá, no Alcorão. Jesus as equiparou ao reino do céu, e pregou: “…não as lanceis aos porcos”. No Cântico dos Cânticos, elas marcam a revelação divina a Moisés no Sinai – a própria Torá, o livro sagrado dos judeus. Os gregos as congelaram das lágrimas de alegria de Afrodite; para os romanos a pérola é Vênus, nascida de uma ostra – ambas deusas do amor. Os hindus creditam ao deus Krishna a façanha de trazer à tona a primeira do mundo, quando procurava o que dar de presente de casamento para sua filha, Pandaïa. Mas só os chineses sabem que elas se escondem no cérebro dos dragões. E os poetas veem o beijo da lua no mar como o momento sublime em que são concebidas, filhas da beleza. )

Lulu ou gamashah, ostra em árabe, sustentou Dubai até a década de 40, quando o cultivo de pérolas em fazendas marinhas, bem mais fácil e produtivo, substituiu a caça no fundo do mar. A Arábia perdeu o fôlego. E o Japão emergiu para garantir as joias das coroas, colares e anéis de monarquias, dos ricos, das noivas e dos mitos em todo o mundo. Foi o filho de um fabricante de talharim, Kokichi Mikimoto, quem patenteou, em 1896, o seu método de inocular microrganismos nas conchas, atiçando-as a se defender secretando o nácar, que é a mãe da pérola – a madrepérola. Na natureza, basta um grão de areia para desencadear as camadas de calcário brilhante e rosado que formarão a bolinha de gude preciosa. Na linha de montagem japonesa até a cor, entre tons mais escuros e esbranquiçados, pode ser determinada. Depende do freguês.

Lula criou o bordão NANP – Nunca Antes Nestepaiz. Em Dubai o ufanismo vai bem mais além, ambicioso: Nunca Antes no Mundo (NAM). O impossível, seja adjetivo ou substantivo, foi banido do dicionário. Acabou a Lulu? O Aladim das ostras a substitui por outra preciosidade, o ouro negro. O petróleo jorra desde 1960, secando a terceira maior reserva do mundo. Emerjamos à tona das águas do Golfo Pérsico com as lulus, lulas e tesouros das Mil e Uma Noites. Vamos às alturas explorar a obsessão dubaiense: recordes.

O mais alto do mundo

O mais alto do mundo

Pessoalmente, o recorde em Dubai que mais me afetou, dolorido por muito tempo, foi o dos torcicolos. O contágio se dá ao pé do edifício Burj Khalifa, onde turistas torcem o pescoço para ver o topo, o “No Topo”, a 828 metros. NAM uma torre chegou tão alto! E se por acaso alguma chegar, será derrotada por uma antena regra-três, nem um pouco secreta, que, alçada, baterá o recorde do recorde. Seus 57 elevadores engolem 10 andares por segundo. Param no 124, a 452 metros de altura, o máximo permitido aos visitantes. Que alívio dos 50 graus de calor no chão, lá fora! A brisa penetra pelas frestas do paredão de vidro, que dá a volta de 360 graus sobre a vastidão do deserto, o litoral do Irã, o estreito de Ormuz e o Golfo Pérsico.

Nos primeiros 37 andares desta cidade vertical, NAM!, outro recorde dentro do recorde: o pioneiro hotel do estilista Giorgio Armani. O menor preço para quem quiser dormir ao menos uma das Mil e Uma Noites é o de R$ 500, dentro de um pacote comprado antecipadamente. Passar oito dias na Suíte Fountain custará R$ 20 mil. Temos ainda o recorde do recorde do recorde: os 700 apartamentos de Burj (Torre) Khalifa, entre os andares 45 e 108, foram vendidos em oito horas. Os árabes dos países vizinhos formam a maioria dos proprietários, alguns em busca de refúgio seguro caso a Primavera Árabe ainda dê uma nova florada de democracia no Oriente Médio.

O Burj Al Arab, Torre das Arábias, já foi recordista de hotel mais alto, com 321 metros, até que a Rose Tower, em Dubai mesmo, a superou. Perdeu a pose, mas não as exclusividades que a tornam um NAM. Tem sete estrelas, numa avaliação em que cinco são o máximo. Seu apartamento mais barato sai por US$ 1.000/noite; e o mais caro, US$ 28.000/noite. O ouro da decoração começa no hall de entrada e adentra os quartos. Por fora, é uma vela imensa de um dhow, o barquinho árabe que vai e vem no estuário da cidade por 1 dirham (US$ 0,20), e um mastro gigantesco com duas colunas em forma de V. O hotel navega sobre a ilha artificial Palm Jumeirah, que forma uma palmeira com duas outras ilhas, o Palm Islands – o maior arquipélago feito à mão do mundo.

Burj-arab

Burj-arab

Tudo em Dubai é faraônico. As réplicas das pirâmides na Dubailand em construção, já o dobro da Disneylândia, serão maiores que as originais egípcias. A megalomania chega a ser canibalesca: o projetado centro comercial Mohammed Bin Rashid vai desbancar do Guiness o shopping Dubai, com seus 350 mil metros quadrados e 1200 lojas. Não bastasse, ainda terá mais de 100 hotéis, um lago NAM (no deserto!) e um parque de fazer sombra ao Hyde Park, de Londres. O emirado já tem o recordista Jardim do Milagre, com 45 milhões de flores, uma super-horta só de plantas medicinais e um borboletário que está no casulo. Golfe? Aqui, uma controvérsia: os dubaienses dizem que NAM existiu um melhor que o deles, em Meydan. Mas os aficionados votam nos norte-americanos. Imbatível, porém, é a estação de esqui dentro do shopping dos Emirados, a maior etc., etc.. Lá fora, o calor infernal; aqui, nos Alpes das dunas, -2ºC, e cai neve realmente.

Existem recordes não contabilizados. O de trabalhadores estrangeiros no emirado, por exemplo. Só a construção do Burj Khalifa reuniu 12 mil operários de 80 nacionalidades. Hoje a legião estrangeira é dominada por bengalis, filipinos e indianos. As empresas que os trazem confiscam passaportes para que, arrependidos, não fujam. O outono da Primavera Árabe também trouxe fugitivos da Líbia, Egito, Iêmen, Síria e Tunísia. Mas brimos têm outro status.

NAM um país quebrou como Dubai, soterrado por uma duna de US$ 100 bilhões em dívidas, em 2009. O mundo enfrentava a crise financeira da bolha imobiliária dos EUA. E o emirado investia num cassino etc., etc., em Las Vegas. Apostou US$ 5 bilhões, e perdeu. Jogou US$ 1 bilhão na livraria Barnes & Noble de Nova Iorque, quando o e-book abria um novo mercado. Mas o pior foi a estatal dubaiense Emaar Properties comprar, por US$ 1,05 bilhão, a construtora americana John Laing Homes, que então fechou as portas. O que seria um sonho de brasileiros é creditado como mais uma das causas que levou o Daily Mail, de Londres, a titular: “Bye, Bye Dubai”. É que, aqui, não há imposto de renda para pessoa física ou jurídica, e nem sobre lucros de capital.

Mas a manchete se despedindo de Dubai foi precipitada. Sheik Khalifa Bin Zayed Al Nahyan, presidente da união dos sete emirados e autócrata de Abu Dhabi, veio em socorro do vizinho sheik Mohammed Bin Rashid Al Maktoum. Não por acaso a torre mais alta do mundo foi batizada de Burj Khalifa. Salva, solvente, Dubai voltou à efervescência, caçando novos recordes. Eleita anfitriã da Expo Mundial de 2020, em disputa com São Paulo, haja Guiness para incluir seis anos de projetos mirabolantes. O primeiro título já foi descoberto: NAM tal evento ocorreu no MENASA (Middle East + North Africa + South Asia). Sob o lema “Conectando Mentes, Criando o Futuro”, US$ 20 bilhões serão investidos (e cá entre nós, se o “brimo” Fernando Haddad ganhasse o “prêmio” de receber 20 milhões de visitantes, em 2020, nem com um IPTU cobrado NANP e NAM reuniria recursos suficientes).

O aeroporto internacional de Dubai, entre os dez melhores do mundo, com 14 milhões de passageiros/ano, imenso centro comercial e muita organização e eficiência, já é considerado pequeno. O novo, Maktoun, deverá receber até 150 milhões de passageiros/ano, parte do projeto Aerotrópolis, uma cidade com serviços e indústria integrados ao porto de Jebel Ali, hoje o mais movimentado entre Singapura e Europa. Passei por lá uma noite. Impressiona ver o que foi importado – geladeiras, televisores, máquinas de lavar, computadores -, guardado num espaço aberto, à mostra, ao alcance da mão, e sem nenhum guarda ou vigilante por perto. A guia brasileira Jaysa Pinheiro explicou: – Ninguém toca, aqui não tem assaltos.

A Emirates, com dois voos de 15 horas diários para o Brasil, foi a… recordista em compras no Show Aéreo de novembro de 2013, montado no futuro aeroporto de Dubai, a 50 km do centro: 150 Boeing 777 mini-jumbos, por US$ 76 bi, e mais 50 Airbus A380, por US$ 23 bi. NAM! Provavelmente o destino de tantos aviões será o de conquistar os asiáticos para os voos às Américas, África e Europa. E o contrário, também. O show foi um sucesso: as vendas somaram astronômicos US$ 206,1 bi. Armaram estandes no pedaço asfaltado do deserto para 1.046 exibidores de 60 países. A Embraer estava lá.

Foi num momento do show aéreo que teve início um inesperado show terrestre, naquele cenário de helicópteros, drones e caças-bombardeiros torrando ao sol. Uma multidão de homens de branco seguia a apressada Sua Alteza, à frente de todos. Vestia a galabya branca, mas com alguns panos marrons por cima. Só ele. Era o emir Mohammed Bin Rashid Al Maktoum em pessoa, um rosto popularizado por inúmeros pôsteres e fotos frequentes na paisagem. Entrou (e todos o seguiram) e saiu (com a caravana atrás) dos aviões de transporte civil da próxima geração. Mulher árabe ali? Nenhuma.

Também fui atrás de Sua Alteza, entrando na caravana – e nela havia um grupo que só queria a chance para um selfie com o sheik Mohammed. Ele saiu do sol de mais de 50 graus para uma área ar-condicionada. Sobrei. Puxaram-me para fora do séquito. Era o único com roupa “civil”, muito visível. Mesmo credenciado, dali não dei mais um passo; só meia-volta, volver!

Os Maktoun reinam em Dubai desde que deixaram Abu Dhabi, em 1833. Parte de sua tribo, a Bani Yas, a maior que existia, com ramificações até no Catar, adotou o povoado de casas feitas de gesso e lascas de coral e ostras dos caçadores de pérola e peixes. É o que se vê ainda hoje no bairro mais antigo do reino, Bastakiya. Ponto turístico e de partida para os guias, estava para ser destruído e dar lugar a novo projeto. Salvou-o, por pouco, o príncipe Charles, da Grã-Bretanha. Soprou para o sheik Mohammed a palavra “preservar”. E foi atendido.

Bastakya

Bastakya

O “guru cultural” de Bastakiya, Nasif Kayed, faz parte do roteiro turístico. É o diretor do Centro para o Entendimento Cultural Sheik Mohammed. Ele leva infiéis e mulheres, desde que com os ombros cobertos, para dentro da mesquita do bairro, e lá deixa que assistam a uma das cinco orações do dia, uma liberalidade rara no rígido mundo islamita. O encontro termina com um almoço, a comida sobre um tapete no chão. As ruelas estreitas são consideradas precursoras do ar-condicionado, canais de brisa constante.

Em Deira, outro bairro antigo, descobre-se o que falta nas ruas do restante da cidade: gente. Aqui é o mercado árabe de especiarias e também de ouro, que tomou o lugar das pérolas. Vielas apinhadas, pequenas lojas transbordando de fregueses, o cheiro de açafrão pairando no ar. No centro, as ruas são, na verdade, avenidas mais largas que as brasilienses. Pedestres circulam por passarelas. Viajam de metrô sem motorneiro. Poucos se arriscam a ficar sob o sol. Multidões só dentro dos shoppings-centers, a Meca do consumo, ou nos bares dos últimos andares dos altos hotéis, em que se sobe trocando duas ou três vezes de elevadores.

O sheik Al Maktoun no poder, 65, é filho de Rashid Bin Saeed Al Maktoun, e tem um diploma inglês, duas mulheres e 21 filhos, três dos quais medalhistas em equitação. Os cavalos dividem seu coração com a poesia, consideradas “duas paixões”. Acabou de lançar “Poemas do Deserto”, com prefácio de Paulo Coelho.

Escrever é um ato de coragem – ele escreveu.Mas vale a pena correr o risco, e os poemas de Sua Alteza ajudam a entender melhor a alma do homem e a herança da nação.

Sua Alteza é o proprietário de 99,67% da Dubai Holding. O petróleo, 7% na economia do emirado, não importa mais que a diversidade que faz a fortuna do PIB nominal de US$ 54.607 per capita. O turismo rende fluxo constante de receita, e aumenta sempre. Em 2012, foram 11 milhões de visitantes; agora, a nova meta é 15. A Primavera Árabe nos países vizinhos teve a influência de levar o sheik para mais perto de seus súditos. Mais do que Revolução os dubaienses querem Evolução. Ao contrário da maioria no Oriente Médio são pró-EUA abertamente: emprestaram seus portos e aeroportos para forças internacionais que por duas vezes combateram o Iraque de Saddam Hussein. Aceitou ainda que o serviço secreto americano montasse uma sucursal de espionagem em algum oásis não identificado de seu deserto, com o foco principal no Oriente Médio.

Consta que Dubai coleciona 59 recordes no Guiness. No último réveillon, então, chegou ao 60º: NAM se viu tão prolongado foguetório – embora por ali os muçulmanos estejam no ano de 1434 e os judeus chegarão a 5775 em 2014. Pouco depois da meia-noite, lá seis horas antes que no Brasil, começou a circular a notícia pela Internet.

Dubai Sets a Guinness World Record for the Largest Fireworks Show with Over 500,000 Fireworks.

   Um passeio pelo deserto é a volta às origens de Dubai. Dunas de areia como ondas do mar. Beduínos com seus camelos. Alguns órix pastando um capim invisível. Falcões domesticados (mas não os teste como papagaios fossem, que ficará sem dedo ou mão). O vento sopra carregado de areia. A caravana de Toyota 4×4 com pneus esvaziados surfa escorregando, atolando e provocando a parte de “aventura” prometida na Aventura nas Arábias. A excursão começa em tempo de parar em uma duna de onde se avista o sol se pondo. Já noite, num oásis de beduínos, a iluminação fraca, aparece Sumaya, mestra de dança do ventre. NANP: ela é brasileira, do interior do Maranhão. Está em temporada em Dubai, mas seu palco abrange o Oriente Médio.

   Falando das pérolas que originaram Dubai, um beduíno retrucou com um pequeno conto digno das Mil e Uma Noites: “Uma vez, perdi-me no deserto, sem provisões. Estava prestes a morrer quando, subitamente, vi de longe um saco. Nunca esquecerei a alegria que senti ao pensar que o saco continha grãos de trigo fritos, e, depois, a minha amargura e desespero quando descobri que só continha pérolas!”.

(fotos freeimages, rabinovici, agência do governo de Dubai)

O livro de ouro dos mórmons

O anjo com trombeta é Moroni.

Um novo mórmon a cada 90 segundos, ou 950 por dia, 350 mil por ano, e uma receita anual de US$5,9 bilhões, dão hoje à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias um reino espiritual de 10 milhões de fiéis e um império material de mais de US$30 bilhões, reinvestidos na expansão mundial que só em São Paulo já inclui a construção de 90 novas capelas.

“Estamos construindo casas de Deus para o próximo milênio” – diz via Internet (www.lds.org) o atual “profeta” dos mórmons, Gordon B. Hinckley, presidente da LDS, acrônimo em inglês de Latter-day Saints, ou Santos dos Últimos Dias, como é mais conhecida a igreja mormônica em sua “terra prometida”, Salt Lake City, em Utah, no oeste norte-americano.

A imobiliária paulista Sitehunters recebeu a incumbência de localizar 80 terrenos em São Paulo para a fundação de novas “estacas” (dioceses, atualmente 170 no Brasil); “alas” (paróquias, já 1.320); distritos (54); “ramos” (paróquias distritais, 263); e missões (hoje 23, com 3.700 missionários brasileiros e estrangeiros). O Brasil e o México são os países em que os mórmons mais crescem no mundo, depois dos Estados Unidos.

Os mórmons creem que Jesus Cristo, ao ressuscitar, tenha ido pregar aos indígenas americanos, que seriam uma das tribos de Israel reduzida à apostasia pelas igrejas cristãs do Velho Mundo. Para eles, Deus, em 1820, também restaurou a religião dos “últimos dias”, enviando o anjo Moroni para revelar novas escrituras a um simples menino de 14 anos, Joseph Smith, que morava numa fazenda perto Palmyra, em Nova York.

Templo Mórmon em São Paulo

Templo Mórmon em São Paulo

As revelações, em placas de ouro, escritas em “egípcio reformado” e atualizadas diretamente por Deus, Jesus Cristo, João Batista, São Pedro e São João, são o Livro de Mórmon, impresso por Smith em 1830. Uma de suas últimas revelações é a de que Jesus Cristo voltará à terra para reinar por mil anos. A nova Jerusalém será o Condado de Jackson, no Missouri, onde os LDS, abençoados por um milagre econômico que os colocou acima de empresas como a Nike e a Gap entre as 500 maiores da revista Fortune, já compraram 5.900 hectares de terra.

Capa da revista Time em agosto, vilipendiados quando se organizaram há 167 anos, mas hoje admirados, os mórmons têm 4 senadores, 28 deputados federais e 4 governadores nos Estados Unidos; e um vice-governador no Brasil, o cearense Moroni Torgni (PSDB); 56 mil missionários (3.700 no Brasil), 11.600 capelas e 50 templos em 160 países; 16 estações de rádio e 1 TV, a revista Deseret News, a cadeia de livraria Deseret Books, a Universidade Brigham Young em Utah, com uma extensão em Jerusalém, e a Faculdade Ricks, em Idaho; a maior produção mundial de carne e de amendoim, 50 fazendas, 100 propriedades pelo “Sistema de Bem-Estar”; indústrias de sabão e de enlatados de atum e pêssego em calda; agências de viagem, imobiliárias e companhia de seguro.

O material e o espiritual não brigam entre os Santos dos Últimos Dias. O bispo paulista Vladimir Campione, de 43 anos, até mesmo os corporifica, ganhando a vida (temporal) com uma empresa de marketing.

Estado – Ninguém melhor do que o senhor poderia explicar qual o marketing de tanto sucesso mundial dos mórmons…

Bispo VC – É o marketing boca a boca. Mas o sucesso não está ligado a marketing. O que conta, realmente, é o entendimento de nossa mensagem, tão limpa, tão clara! Não nos consideramos os donos da verdade. Cada qual deve decidir-se por si próprio se entra ou não para a igreja.

Estado – No seu caso, como foi?

Bispo VC – Um amigo me convidou para visitar a igreja numa noite cultural. Os mórmons também se divertem! Um ancião simpático cantava, a voz trêmula. Senti empatia por todo lado. Ninguém gritava: “Aleluia!” Se ouvisse um desses gritos, daria no pé.

Campione ainda participou de uma “reunião sacramental”, o equivalente à missa, mas o vinho substituído por água, que os mórmons não bebem álcool, nem café ou chá preto. Tinha 20 anos. Era católico, não praticante. Seduziu-o não ser forçado a crer, “só a compreender”. Então, concluiu: “Esta é a igreja do politicamente correto” – embora até 1978 os mais baixos escalões em sua hierarquia fossem proibidos aos negros, e a poligamia ter vigorado por 49 anos, a partir de 1831, quando a sancionou o primeiro “profeta” Joseph Smith, sucedido pelo “profeta” Brigham Young (1801-1877), que já teve 17 mulheres e 56 filhos.

“É vedada qualquer discriminação de raça, sexo, cor, origem, condição social e idade”, advertem hoje os Santos dos Últimos Dias em placas visíveis em toda congregação. Aberta aos negros, a igreja conquistou 110 mil fiéis em 24 países africanos. Também alçou aos quadros da direção mundial um negro brasileiro, Helvécio Martins, ex-professor de economia da UFRJ.

A bandeira brasileira está içada entre a capela e o único templo da igreja no Brasil, o primeiro da América do Sul, construído há 19 anos num terreno de 21 mil metros quadrados na avenida Francisco Morato, 2.430, no Caxingui, em São Paulo. “Simboliza nosso respeito ao governo e às leis”, explica o bispo Campione. “Não nos importa o partido que detém o poder”, ele ainda ressalta. “Um fiel pode ser petista, ou psdebista, mas dentro da igreja ninguém faz política, nem usa ou empresta a listagem de nomes e endereços para correio político”.

Os mórmons (“superiormente bons”, em “egípcio reformado”) têm a reputação de incorruptíveis. A central de inteligência dos Estados Unidos (a CIA) e também o FBI, a polícia federal, os cortejam querendo empregá-los. No Brasil dos anões do orçamento, do escândalo dos precatórios, da compra de votos e do “frangogate”, eles enfrentam problemas. Um “habite-se” que pode ser concedido rapidamente, estimulado por propina, leva meses para os Santos dos Últimos Dias. Com despachantes proibidos de subornar, também fica emperrada a liberação de equipamentos importados da igreja matriz em Salt Lake City. “Mas ser mórmon não confere a ninguém um atestado automático de incorruptibilidade”, alerta o bispo Campione. “Não é assim, bambambã: não há perfeitos na igreja”.

Estado – Como é ser incorruptível em meio a tanta corrupção?

Missionário Joshua Carr – Temos que viver no mundo, mas não como o mundo vive…

Estado – Um notório corrupto pode se tornar mórmon?

Carr – São três os princípios básicos da conversão: fé, arrependimento e batismo. Quem passar por estes três estágios, e com sinceridade, não será mais corrupto – mas um mórmon.

Inconfundíveis, esses missionários: cabelo cortado à escovinha, camisa branca de manga curta, gravata e um crachá preto no peito, e a aura de quem “encontrou o caminho na vida”. Confiantes e sorridentes, eles batem de porta em porta como vendedoras de cosméticos da Avon. Andam em dupla, mas não escolhem o parceiro. Têm entre 18 e 26 anos. Servem no mundo, mas não escolhem o país – os homens, por 2 anos; e as mulheres, 18 meses. Não ganham um centavo: são sustentados pela própria família.

O missionário Joshua Carr, de 20 anos, nascido na pecaminosa Las Vegas, está encerrando sua temporada no Brasil. Logo voltará à “terra prometida”, Salt Lake City, para estudar Odontologia. Acabado de chegar de Paradise (Paraíso), na Califórnia, Bryan Reeve, de 19 anos, tem dois anos pela frente. Ambos são fluentes em português, a língua mais falada pelos mórmons depois do inglês e espanhol, ensinada no centro de treinamento de Provo, em Utah, onde há cursos de 41 idiomas.

“O brasileiro é um povo abençoado”, acreditam Carr e Reeve, testemunhas e promotores da taxa explosiva de conversões ao mormonismo. Os pioneiros Santos dos Últimos Dias no Brasil foram imigrantes alemães que chegaram em 1923. Os primeiros missionários de Utah os reforçaram em 1928. A primeira igreja da América do Sul surgiu em Joinville, em Santa Catarina, em 1931. A literatura mormônica começou a ser traduzida para o português em 1938. E o “profeta” Gordon B. Hinckley acabou de declarar, via Internet, que “Campinas (SP) tem grande necessidade de um templo”.

Estado – O que os missionários dizem de tão convincente?

Carr e Reeve – Temos uma técnica: focalizamos áreas em particular. Auto-suficiência, por exemplo. Mostramos como é importante ser independente, estudar, ter emprego. E convidamos todos a visitar a igreja. Quem vier verá o que somos. Mas em nossas capelas não forçamos a evangelização.

Estado – Qual é a mensagem?

   Carr – Uma mensagem forte… muito forte. Mensagem de família e de respeito. Primeiro, fé em Jesus Cristo; segundo, arrependimento; e terceiro, batismo por imersão para remissão dos pecados.

Os Santos dos Últimos Dias não acreditam em pecado original. “Cremos que os homens serão punidos pelos seus próprios pecados e não pela transgressão de Adão”, disse o primeiro profeta, Joseph Smith. A teologia mórmon reconhece “ser a Bíblia a palavra de Deus”, mas acrescenta-lhe o Livro de mórmon, com as novas revelações já feitas ou que ainda serão feitas a “profetas vivos”. Os missionários pregam a honestidade, castidade, benevolência e virtuosidade; a submissão a reis, presidentes, governadores e juizes; e acenam com uma futura “coligação de Israel” e a restauração das Dez Tribos numa Sião no continente americano.

Os pioneiros

Os pioneiros

Não há crucifixos nas capelas. Nem imagem de santos. Os templos são proibidos aos não-iniciados porque usados exclusivamente para rituais sagrados, como o “selamento” (casamento) e a “ordenança para os mortos” (batismo por procuração para a salvação de ancestrais dos fiéis).

Os mórmons não casam “até que a morte os separe”, mas para a eternidade. E como podem salvar antepassados, reuniram o maior acervo genealógico do mundo, com 7 milhões de livros de 300 páginas cada, repletos de registros microfilmados, mesmo de brasileiros, copiados em cartórios, cemitérios e em listas de navios negreiros. Os originais estão guardados numa biblioteca perfurada numa montanha de granito em Salt Lake City, protegidos de explosão nuclear ou do impacto direto de mísseis, com um sistema de refrigeração munido de filtros que vedam não só o pó, mas também a poeira radioativa. Em São Paulo, o arquivo é muito procurado por descendentes de europeus que querem um passaporte da União Européia.

O templo paulista dos Santos dos Últimos Dias só permaneceu aberto à visitação pública entre 5 e 29 de setembro de 1978, quando foi purificado “por recomendação” de Cristo. Construído “para Deus”, ele é “eterno”, todo em mármore, à prova de terremoto, decorado com cortina e carpete antifogo, e equipado com uma infra-estrutura de tratamento de água e ar comandada por computador. Uma agulha de 30 metros banhada a ouro o identifica em meio aos fast-food, postos de gasolina e um shopping-center no Caxingui, ao lado do bairro chique do Morumbi.

Os jardins em volta do templo são bem cuidados. A fonte, funcionando. Árvores dão sombra ao grande estacionamento, todo demarcado. Um oásis de silêncio com 4.925 metros quadrados, num terreno cinco vezes maior. Relatos da época em que 47 mil pessoas o visitaram destacam uma pia batismal sobre 12 bois representando as tribos de Israel. Uma entre 76 salas é a “Celestial”, com lustres e espelhos que refletem “o infinito”. Outra, a das noivas, tem um guarda-roupa com vestidos para o “selamento”. Nos fundos, os prédios da administração e alojamento para peregrinos de todo o Brasil.

Lembra os escritórios de grandes empresas americanas. Computador nas mesas das secretárias diante das salas dos executivos mórmons. Mulheres de saias que terminam nos tênis. Os homens de gravata – e há feições de todo o mundo. Nos cartões de visita, o nome dominante é Jesus Cristo – e, depois, pequeno, por exemplo, Antonio Fernandes, o diretor de Assuntos Públicos dos Santos dos Últimos Dias. A maioria tem e-mail, fax, telefone e celular.

Ex-radialista no Recife, Antonio Fernandes hoje conversa com o “profeta” durante freqüentes teleconferências. Numa quinta-feira de 1990 ele abriu a porta para dois missionários que perguntavam por um vizinho. No domingo já era mais um mórmon. “Assim descobri esta igreja”. Como todos os fiéis, 10% de sua renda bruta anual vão para os Santos dos Últimos Dias. O editor da revista mormônica independente Sunstone, Elbert Peck, contou à Time que a igreja-matriz em Salt Lake City controla cada centavo arrecadado e depositado em bancos. Em 1997, foram US$5,2 bilhões, dos quais US$300 milhões enviados de fora dos Estados Unidos.

Mas Antonio Fernandes também jejua no primeiro domingo de cada mês e dá aos Santos dos Últimos Dias mais o equivalente a duas refeições, R$10. Os mórmons são generosos nos donativos. Construíram galpões para abrigar os sem-teto do terremoto de 1988 na Armênia. Contribuem com hospitais infantis e bancos de alimentos. E doaram US$100 milhões para um centro de câncer da Universidade de Utah. O que os diferencia das outras religiões que coletam dízimo, porém, é a capacidade única de multiplicar o dinheiro. Para a Time, pelo menos US$6 bilhões são investidos diretamente nas próprias empresas agrícolas, imobiliárias, agências de viagem, companhias de seguro e mídia. E os investimentos dão um retorno que excede US$600 milhões.

“A igreja ampara os fiéis desempregados ou que estejam em dificuldade”, diz Antonio Fernandes. Os Santos dos Últimos Dias abriram 97 agências de emprego nos Estados Unidos. Cada mórmon, porém, deve estocar alimentos e água em casa para um ano. Preparam-se, pois Cristo voltará ao fim de um período de muita flagelação. Na Praça do Bem-Estar, em Salt Lake City, estão estocados 9 milhões de quilos de trigo, o suficiente para alimentar uma pequena cidade por seis meses.

“Eu já usei minha dispensa uma vez”, comenta Antonio Fernandes.

Não é por acaso que o “guru da reengenharia da alma”, Stephen Covey, autor do bestseller Os Sete Hábitos das Pessoas Muito Eficazes, é mórmon, nascido em Utah, onde, ao chegar há exatos 150 anos, num êxodo de 2.092 quilômetros, fugindo de assassinos que mataram o “profeta” Joseph Smith a sudoeste de Nauoo, em Illinois, declarou solenemente o segundo “profeta” Brigham Young, como se avistando a Terra Prometida:

“Este é o lugar!”.

E plantou a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, que terá 260 milhões de fiéis em 2080, no Brasil e no mundo, num cálculo feito para a Time pelo sociólogo Rodney Stark, da Universidade de Washington.

Nota:

Artigo publicado em 1997 em O Estado de S. Paulo. Os números não estão atualizados.

Aos Amigos

Sempre lembram de mim perto do Natal. Não por ser judeu, evidentemente. Pelo judaísmo, o meu grande dia é o de malhar o Judas. Os mineiros levam a sério a delação não premiada de Jesus. Uma vovó em Minas foi quem melhor resumiu a minha condição judaica:
“Você é um menino tão bom… nem parece judeu”.
Lembram de mim no Natal porque vivi na Terra Santa e fui algumas vezes a Bethlehem, Casa do Pão (em hebraico) e da Carne (árabe); para nós, Belém. Sempre voltava da visita anual à Basílica da Natividade com garrafas do intragável vinho local.
Dali a alguns dias, partiria para o Brasil em férias, com escala na festa de Natal na casa de um amigo em Paris. O vinho bíblico causava certo impacto à mesa da ceia. Apontavam-no dizendo: “Veio da terra de Jesus!”. Mas todos bebiam mesmo o francês.
Pois o Natal em Belém é como seu vinho: uma decepção. Por cinco anos seguidos, a única “novidade” que revi foi um pinheirinho de verdade, brotando ao lado da delegacia de polícia, em frente à Natividade. Uma repórter americana levava fita métrica para anunciar aos cristãos dos EUA quantos centímetros crescera a futura árvore de Natal autêntica da cidade. O prefeito Elias Freij vivia seus dias de glória do ano, procurado por jornalistas do mundo inteiro. Mas fazia charme e só reclamava, como se estivesse diante do Muro das Lamentações, a alguns poucos quilômetros de distância, em Jerusalém. Lamentava:
— O Natal vai ser uma tristeza, por causa da guerra no Líbano, ou da ocupação israelense, dos combates em Gaza, da ascensão de aiatolá Khomeini no Irã, porque Yasser Arafat foi expulso de Beirute, por Sabra e Shatilla…
Uma única vez ele denunciou um culpado inesperado: a greve da companhia aérea jordaniana, o voo preferido dos peregrinos. Por ser baixinho, servia de explicação maldosa para a altura da porta da Basílica da Natividade, 1,25 metro. Ironizavam: “Só ele não se curva para entrar na igreja…” A verdade, porém, é que assim, baixinha, impedia as orações de fiéis a cavalo ou a camelo.
O canto do muezim convocando os muçulmanos às orações do dia soa mais poderoso e mais popular que os sinos da Natividade, inaugurada em 333 d.C.. E a noite de Natal se resume à Missa do Galo, transmitida ao vivo para o mundo porque, graças ao fuso horário, antecede a do Vaticano. A procissão vem de Jerusalém. À entrada, cruza a tumba de Raquel. Ali perto, em Hebron, jaz o patriarca de judeus e árabes, Abraão.
A estrela de prata, com 14 pontas, marca o exato local em que cristo nasceu. É uma gruta escura, iluminada por velas e lamparinas a óleo. Respira-se incenso. Os turistas descem uma escada, e saem subindo outra. Poucos são aqueles que se ajoelham e rezam, fechando os olhos aos flashes que capturam selfies para álbuns de recordações ou Instagram. Guias traduzem para várias línguas o que foi aqui inscrito em latim, em 1917: “hic de Virgine Maria, Jesus Christus natus est” (“Aqui Jesus Cristo nasceu da Vir­gem Maria”).
Todo Natal um ou dois peregrinos saem da Natividade direto para o manicômio, em Jerusalém. Incorporam Jesus. Em cinco dias, na companhia de outros Jesus e alguns São João Batista, voltam ao que eram, e ganham alta.
Feliz Natal!

Tombo na passarela

De tirar o boné (foto: divulgação).

De tirar o boné (foto: divulgação).

   Entre joias de Boucheron, Van Cleef, Arpels, Buccelatti e Chaumet, o luxo do hotel Ritz, a potência do Morgan Bank e o poder do Ministério da Justiça francês, instalado na casa em que morreu o compositor Frédéric Chopin, na Place Vendôme do rei Luís XIV, do imperador Napoleão, da rainha da moda, Coco Chanel, e da princesa Diana, em Paris, o estilista brasileiro Ocimar Versolato acaba de tomar uma decisão: tirou o boné, a sua marca registrada.

   “Não uso mais” — anunciou.

   A cabeça nua revela um Versolato que equipara o seu sucesso na recente temporada de desfiles em Paris “ao do filme Central do Brasil”, porque em ambos “houve muita sinergia, um boom de imprensa, uma histeria total de tudo quanto é lado”. Um careca em trégua financeira, em vigor desde 1998, com a associação à Ana Luíza Pessoa de Queiroz, tataraneta do presidente Epitácio Pessoa e representante de um grupo de usineiros do Nordeste, há mais de dez anos vivendo na França.

   O boné era permanente como o cigarro, sempre aceso. Fazia gênero na cabeça detalhista e obsessiva do único brasileiro jamais aceito pelo mínimo de 20 dos 24 estilistas da Câmara Sindical da Alta-Costura Parisiense. Por que o tirou? Versolato dá de ombros. Foi instintivo, como a moda que faz. Talvez uma “atitude”. Moda “é uma questão de atitude”, ele ensina. E não há griffe que vista uma atitude errada.

   Da sala de costura da mãe perto do Paço Municipal de São Bernardo do Campo, na periferia de São Paulo, ao auge da alta-costura francesa, foram 25 anos. Menino, ele viu tanques avançando contra metalúrgicos em greve. Hoje ele vive num mundo de 400 metros quadrados todo branco. Seu showroom ocupa o jardim de inverno de Chopin. E também há 1.200 canhões lá fora. Estão fundidos numa coluna com a estátua de Napoleão. “Queria um endereço luxuoso em Paris, longe dos outros estilistas”. Não poderia ter encontrado melhor. Só o rival Valentino é seu vizinho, mas com loja, não a “maison”, onde as roupas são feitas. Versolato ainda mora em três salões com vista para o Grand Palais. “Meus endereços dão um bom efeito”, diz.

   Manter os dois endereços e a paixão pelos três “F” de fashion (moda), food (comida) e films (filmes), dá trabalho. E ele “só vive para o trabalho”. Dorme três horas por noite, insone. Fica pensando em “tudo, tudo, tudo”. De manhã lembra uma frase do cineasta italiano Pier Paolo Pasolini: “Não sei por que o artista tem que executar a obra se só imaginá-la é tão bom!”. Versolato nem desenha as roupas sonhadas. Arma vestidos em modelos. As paredes de seu ateliê exibem dezenas de croquis, mas ele os trata com certo desprezo. Seu processo de criação requer três dimensões – o comprimento, a largura e a altura. Como um escultor, ele vai formatando o tecido, com o mínimo de pontos de costura. O resultado tem que ser confortável. E tornar a manequim mais bonita.

   Com filho tão pródigo, a mãe deixou de costurar e hoje tem uma cantina italiana em São Bernardo. Versolato continuou a aprender com Marie Rucki, diretora do Cours Berçot, em Paris. Ele a viu na TV quando tinha 13 anos. E a encontrou num curso em São Paulo, dez anos depois. Ela o convenceu a continuar estudando na França. Aceitou, formou-se como o melhor aluno e acabou enviado como representante francês a um concurso de moda na Suíça. “Daí fiz estágio com Versace, trabalhei com o estilista Hervé Léger por quatro anos, montei minha própria marca e passei um ano na maison Lanvin”. Foi o primeiro brasileiro a ser contratado por uma casa de alta moda em Paris.

   Versolato, com 38 anos, está agora expandindo. Já conta com 18 pontos de venda nos Estados Unidos, 12 na Europa e 30 no Brasil. Não diz o preço de suas roupas. “Já fiz vestido de US$ 50 mil e até de US$100 mil”, conta. Mas também de US$ 4 mil. Com uma calcinha na mão, explica: “Olha, este Versolato custa US$ 60”. A estratégia é diversificar mais: “Quero fazer até móveis para casa, mas com tempo, porque senão tropeço”. O seu último desfile mostrou 32 modelos com nuances de 12 tons de branco. A crítica o elogiou. Para ele, foi uma antecipação do ano 2.000. “Um mix (misto) de tudo, sob o tema geral da modernidade, a roupa ganhando mais alma, mais espiritual do que material”. Mas ninguém encomendou até agora uma roupa assim para o réveillon do milênio.

   Quando fala de moda no Brasil, Versolato tem a impressão de voltar ao Paço Municipal de São Bernardo. Não cita nomes. “Fui o primeiro, espero não ser o único e não fecho a porta para ninguém em Paris”. Mas ele acha que os estilistas brasileiros estão querendo fazer sucesso, “masturbação pessoal”, e não roupa. “Roupa não é fácil, dá trabalho e requer talento”.

   

Ocimar e o Oscar

   O vestido da noite do Oscar de Fernanda Montenegro já está definido. É um Valentino. O brasileiro da moda em Paris, Ocimar Versolato, perdeu a oportunidade porque se ofereceu tarde, na semana passada. “Fernandinha me ligou para se desculpar por não poder aceitar um vestido meu porque já estava com roupa feita”. No telefonema, os dois combinaram outro projeto: encenar Gabrielle “Coco” Chanel, com texto de Maria Adelaide. Versolato diz que vai ensinar Fernanda a fazer prova de roupa e levá-la ao quarto de Coco Chanel, mantido intacto no hotel Ritz, do outro lado da rua de seu ateliê na Place Vendôme. Ele ainda prometeu que ficará torcendo para que ela ganhe o Oscar, mesmo vestida de Valentino. “Impressionante o trabalho que fez, metade do Central do Brasil é dela”, disse. Mas explicou: “Se fosse a Sônia Braga vestindo outro que não eu, ela apanhava”. Não será surpresa para Versolato se um vestido dele aparecer na noite do Oscar. Sua griffe enviou roupas, mas ainda não sabe se alguma foi selecionada pelas atrizes.

Nota

Este texto é de 1999. Ocimar Versolato brilhava em Paris. Em 2005, de volta ao Brasil, ele abriu oito lojas de artigo de luxo que fecharam em oito meses, e lançou seu primeiro livro — Vestido em Chamas. Em 2009, criou a rede de franquias e vendas on-line Versolato Cosmetics. Hoje ele vive na Itália.