Dubai!



O gênio da ostra

maravilhosa.

E os Mil e Um 

recordes de Dubai.

ra uma vez um beduíno pescador que catou uma concha no fundo do mar da Arábia. Ele não poderia fazer a menor ideia do que encontrado. Vivia a 1500 anos da pérola hoje considerada a mais antiga do mundo, datada entre 5547 e 5235 a.C., e exumada de um túmulo por arqueólogos franceses. Tão distantes no tempo, e tão próximas! A concha na origem (e futuro) de Dubai, e a pérola com que o morto de Umm al Quwain partiu para o além, posta sobre seu lábio superior há muito dessecado, estavam separadas apenas 44,4 quilômetros uma da outra, no deserto atualmente compartilhado pelos sete Emirados Árabes Unidos (EAU).

Ao abrir a inusitada concha, o pescador neolítico deve ter liberado algum gênio, como Aladim e sua Lâmpada Maravilhosa. Materializou-se um poderoso ímã que atraiu caravanas de beduínos do Iêmen, Egito, Iraque, Arábia Saudita e Oman, constituindo uma vila que prosperou com a pesca e caça à pérola, já então um precioso talismã. Milênios sem dar o ar de sua graça, há 25 anos parece ter saído do… (desculpem-me) ostracismo: só pode ser ele o mago por trás do melhor, maior, mais alto, mais rico e outros tantos superlativos e recordes que se tornaram sinônimo de Dubai – “rastejar” em árabe.

Outro mago, o brasileiro Paulo Coelho, ganhou do sheik-poeta Mohammed Bin Rashid Al Maktoum, emir de Dubai e vice-presidente da união dos emirados, uma mansão de US$ 4,5 milhões (Pelé, Beckham e Schumacher, também). Mas ele não seria assim poderoso como o Aladim das ostras, mais para Ali Babá, Simbad e Xerazade, dos contos das Mil e Uma Noites, do que para Alquimista. Parece miragem a paisagem de opulência, com o horizonte de 600 arranha-céus (até novembro), no deserto batido por frequentes tempestades de areia. Mais de perto é um desfile marcante de contrários: nas ruas, camelos e Ferraris, mulheres tampadas por abbaya preta (cloak – disfarce, em inglês), escondendo roupas e lingeries de grifes da moda; e nas praias, o burkini, que descobre só olhos e mãos, enquanto turistas se despem em sumários biquínis. Os homens vestem branco imaculado, até na keffiah, o pano enrolado na cabeça.

(Pérolas são poder, saúde, sorte, sabedoria, pureza, inocência. Adornam os fiéis de Alá, no Alcorão. Jesus as equiparou ao reino do céu, e pregou: “…não as lanceis aos porcos”. No Cântico dos Cânticos, elas marcam a revelação divina a Moisés no Sinai – a própria Torá, o livro sagrado dos judeus. Os gregos as congelaram das lágrimas de alegria de Afrodite; para os romanos a pérola é Vênus, nascida de uma ostra – ambas deusas do amor. Os hindus creditam ao deus Krishna a façanha de trazer à tona a primeira do mundo, quando procurava o que dar de presente de casamento para sua filha, Pandaïa. Mas só os chineses sabem que elas se escondem no cérebro dos dragões. E os poetas veem o beijo da lua no mar como o momento sublime em que são concebidas, filhas da beleza. )

Lulu ou gamashah, ostra em árabe, sustentou Dubai até a década de 40, quando o cultivo de pérolas em fazendas marinhas, bem mais fácil e produtivo, substituiu a caça no fundo do mar. A Arábia perdeu o fôlego. E o Japão emergiu para garantir as joias das coroas, colares e anéis de monarquias, dos ricos, das noivas e dos mitos em todo o mundo. Foi o filho de um fabricante de talharim, Kokichi Mikimoto, quem patenteou, em 1896, o seu método de inocular microrganismos nas conchas, atiçando-as a se defender secretando o nácar, que é a mãe da pérola – a madrepérola. Na natureza, basta um grão de areia para desencadear as camadas de calcário brilhante e rosado que formarão a bolinha de gude preciosa. Na linha de montagem japonesa até a cor, entre tons mais escuros e esbranquiçados, pode ser determinada. Depende do freguês.

Lula criou o bordão NANP – Nunca Antes Nestepaiz. Em Dubai o ufanismo vai bem mais além, ambicioso: Nunca Antes no Mundo (NAM). O impossível, seja adjetivo ou substantivo, foi banido do dicionário. Acabou a Lulu? O Aladim das ostras a substitui por outra preciosidade, o ouro negro. O petróleo jorra desde 1960, secando a terceira maior reserva do mundo. Emerjamos à tona das águas do Golfo Pérsico com as lulus, lulas e tesouros das Mil e Uma Noites. Vamos às alturas explorar a obsessão dubaiense: recordes.

O mais alto do mundo

O mais alto do mundo

Pessoalmente, o recorde em Dubai que mais me afetou, dolorido por muito tempo, foi o dos torcicolos. O contágio se dá ao pé do edifício Burj Khalifa, onde turistas torcem o pescoço para ver o topo, o “No Topo”, a 828 metros. NAM uma torre chegou tão alto! E se por acaso alguma chegar, será derrotada por uma antena regra-três, nem um pouco secreta, que, alçada, baterá o recorde do recorde. Seus 57 elevadores engolem 10 andares por segundo. Param no 124, a 452 metros de altura, o máximo permitido aos visitantes. Que alívio dos 50 graus de calor no chão, lá fora! A brisa penetra pelas frestas do paredão de vidro, que dá a volta de 360 graus sobre a vastidão do deserto, o litoral do Irã, o estreito de Ormuz e o Golfo Pérsico.

Nos primeiros 37 andares desta cidade vertical, NAM!, outro recorde dentro do recorde: o pioneiro hotel do estilista Giorgio Armani. O menor preço para quem quiser dormir ao menos uma das Mil e Uma Noites é o de R$ 500, dentro de um pacote comprado antecipadamente. Passar oito dias na Suíte Fountain custará R$ 20 mil. Temos ainda o recorde do recorde do recorde: os 700 apartamentos de Burj (Torre) Khalifa, entre os andares 45 e 108, foram vendidos em oito horas. Os árabes dos países vizinhos formam a maioria dos proprietários, alguns em busca de refúgio seguro caso a Primavera Árabe ainda dê uma nova florada de democracia no Oriente Médio.

O Burj Al Arab, Torre das Arábias, já foi recordista de hotel mais alto, com 321 metros, até que a Rose Tower, em Dubai mesmo, a superou. Perdeu a pose, mas não as exclusividades que a tornam um NAM. Tem sete estrelas, numa avaliação em que cinco são o máximo. Seu apartamento mais barato sai por US$ 1.000/noite; e o mais caro, US$ 28.000/noite. O ouro da decoração começa no hall de entrada e adentra os quartos. Por fora, é uma vela imensa de um dhow, o barquinho árabe que vai e vem no estuário da cidade por 1 dirham (US$ 0,20), e um mastro gigantesco com duas colunas em forma de V. O hotel navega sobre a ilha artificial Palm Jumeirah, que forma uma palmeira com duas outras ilhas, o Palm Islands – o maior arquipélago feito à mão do mundo.

Burj-arab

Burj-arab

Tudo em Dubai é faraônico. As réplicas das pirâmides na Dubailand em construção, já o dobro da Disneylândia, serão maiores que as originais egípcias. A megalomania chega a ser canibalesca: o projetado centro comercial Mohammed Bin Rashid vai desbancar do Guiness o shopping Dubai, com seus 350 mil metros quadrados e 1200 lojas. Não bastasse, ainda terá mais de 100 hotéis, um lago NAM (no deserto!) e um parque de fazer sombra ao Hyde Park, de Londres. O emirado já tem o recordista Jardim do Milagre, com 45 milhões de flores, uma super-horta só de plantas medicinais e um borboletário que está no casulo. Golfe? Aqui, uma controvérsia: os dubaienses dizem que NAM existiu um melhor que o deles, em Meydan. Mas os aficionados votam nos norte-americanos. Imbatível, porém, é a estação de esqui dentro do shopping dos Emirados, a maior etc., etc.. Lá fora, o calor infernal; aqui, nos Alpes das dunas, -2ºC, e cai neve realmente.

Existem recordes não contabilizados. O de trabalhadores estrangeiros no emirado, por exemplo. Só a construção do Burj Khalifa reuniu 12 mil operários de 80 nacionalidades. Hoje a legião estrangeira é dominada por bengalis, filipinos e indianos. As empresas que os trazem confiscam passaportes para que, arrependidos, não fujam. O outono da Primavera Árabe também trouxe fugitivos da Líbia, Egito, Iêmen, Síria e Tunísia. Mas brimos têm outro status.

NAM um país quebrou como Dubai, soterrado por uma duna de US$ 100 bilhões em dívidas, em 2009. O mundo enfrentava a crise financeira da bolha imobiliária dos EUA. E o emirado investia num cassino etc., etc., em Las Vegas. Apostou US$ 5 bilhões, e perdeu. Jogou US$ 1 bilhão na livraria Barnes & Noble de Nova Iorque, quando o e-book abria um novo mercado. Mas o pior foi a estatal dubaiense Emaar Properties comprar, por US$ 1,05 bilhão, a construtora americana John Laing Homes, que então fechou as portas. O que seria um sonho de brasileiros é creditado como mais uma das causas que levou o Daily Mail, de Londres, a titular: “Bye, Bye Dubai”. É que, aqui, não há imposto de renda para pessoa física ou jurídica, e nem sobre lucros de capital.

Mas a manchete se despedindo de Dubai foi precipitada. Sheik Khalifa Bin Zayed Al Nahyan, presidente da união dos sete emirados e autócrata de Abu Dhabi, veio em socorro do vizinho sheik Mohammed Bin Rashid Al Maktoum. Não por acaso a torre mais alta do mundo foi batizada de Burj Khalifa. Salva, solvente, Dubai voltou à efervescência, caçando novos recordes. Eleita anfitriã da Expo Mundial de 2020, em disputa com São Paulo, haja Guiness para incluir seis anos de projetos mirabolantes. O primeiro título já foi descoberto: NAM tal evento ocorreu no MENASA (Middle East + North Africa + South Asia). Sob o lema “Conectando Mentes, Criando o Futuro”, US$ 20 bilhões serão investidos (e cá entre nós, se o “brimo” Fernando Haddad ganhasse o “prêmio” de receber 20 milhões de visitantes, em 2020, nem com um IPTU cobrado NANP e NAM reuniria recursos suficientes).

O aeroporto internacional de Dubai, entre os dez melhores do mundo, com 14 milhões de passageiros/ano, imenso centro comercial e muita organização e eficiência, já é considerado pequeno. O novo, Maktoun, deverá receber até 150 milhões de passageiros/ano, parte do projeto Aerotrópolis, uma cidade com serviços e indústria integrados ao porto de Jebel Ali, hoje o mais movimentado entre Singapura e Europa. Passei por lá uma noite. Impressiona ver o que foi importado – geladeiras, televisores, máquinas de lavar, computadores -, guardado num espaço aberto, à mostra, ao alcance da mão, e sem nenhum guarda ou vigilante por perto. A guia brasileira Jaysa Pinheiro explicou: – Ninguém toca, aqui não tem assaltos.

A Emirates, com dois voos de 15 horas diários para o Brasil, foi a… recordista em compras no Show Aéreo de novembro de 2013, montado no futuro aeroporto de Dubai, a 50 km do centro: 150 Boeing 777 mini-jumbos, por US$ 76 bi, e mais 50 Airbus A380, por US$ 23 bi. NAM! Provavelmente o destino de tantos aviões será o de conquistar os asiáticos para os voos às Américas, África e Europa. E o contrário, também. O show foi um sucesso: as vendas somaram astronômicos US$ 206,1 bi. Armaram estandes no pedaço asfaltado do deserto para 1.046 exibidores de 60 países. A Embraer estava lá.

Foi num momento do show aéreo que teve início um inesperado show terrestre, naquele cenário de helicópteros, drones e caças-bombardeiros torrando ao sol. Uma multidão de homens de branco seguia a apressada Sua Alteza, à frente de todos. Vestia a galabya branca, mas com alguns panos marrons por cima. Só ele. Era o emir Mohammed Bin Rashid Al Maktoum em pessoa, um rosto popularizado por inúmeros pôsteres e fotos frequentes na paisagem. Entrou (e todos o seguiram) e saiu (com a caravana atrás) dos aviões de transporte civil da próxima geração. Mulher árabe ali? Nenhuma.

Também fui atrás de Sua Alteza, entrando na caravana – e nela havia um grupo que só queria a chance para um selfie com o sheik Mohammed. Ele saiu do sol de mais de 50 graus para uma área ar-condicionada. Sobrei. Puxaram-me para fora do séquito. Era o único com roupa “civil”, muito visível. Mesmo credenciado, dali não dei mais um passo; só meia-volta, volver!

Os Maktoun reinam em Dubai desde que deixaram Abu Dhabi, em 1833. Parte de sua tribo, a Bani Yas, a maior que existia, com ramificações até no Catar, adotou o povoado de casas feitas de gesso e lascas de coral e ostras dos caçadores de pérola e peixes. É o que se vê ainda hoje no bairro mais antigo do reino, Bastakiya. Ponto turístico e de partida para os guias, estava para ser destruído e dar lugar a novo projeto. Salvou-o, por pouco, o príncipe Charles, da Grã-Bretanha. Soprou para o sheik Mohammed a palavra “preservar”. E foi atendido.

Bastakya

Bastakya

O “guru cultural” de Bastakiya, Nasif Kayed, faz parte do roteiro turístico. É o diretor do Centro para o Entendimento Cultural Sheik Mohammed. Ele leva infiéis e mulheres, desde que com os ombros cobertos, para dentro da mesquita do bairro, e lá deixa que assistam a uma das cinco orações do dia, uma liberalidade rara no rígido mundo islamita. O encontro termina com um almoço, a comida sobre um tapete no chão. As ruelas estreitas são consideradas precursoras do ar-condicionado, canais de brisa constante.

Em Deira, outro bairro antigo, descobre-se o que falta nas ruas do restante da cidade: gente. Aqui é o mercado árabe de especiarias e também de ouro, que tomou o lugar das pérolas. Vielas apinhadas, pequenas lojas transbordando de fregueses, o cheiro de açafrão pairando no ar. No centro, as ruas são, na verdade, avenidas mais largas que as brasilienses. Pedestres circulam por passarelas. Viajam de metrô sem motorneiro. Poucos se arriscam a ficar sob o sol. Multidões só dentro dos shoppings-centers, a Meca do consumo, ou nos bares dos últimos andares dos altos hotéis, em que se sobe trocando duas ou três vezes de elevadores.

O sheik Al Maktoun no poder, 65, é filho de Rashid Bin Saeed Al Maktoun, e tem um diploma inglês, duas mulheres e 21 filhos, três dos quais medalhistas em equitação. Os cavalos dividem seu coração com a poesia, consideradas “duas paixões”. Acabou de lançar “Poemas do Deserto”, com prefácio de Paulo Coelho.

Escrever é um ato de coragem – ele escreveu.Mas vale a pena correr o risco, e os poemas de Sua Alteza ajudam a entender melhor a alma do homem e a herança da nação.

Sua Alteza é o proprietário de 99,67% da Dubai Holding. O petróleo, 7% na economia do emirado, não importa mais que a diversidade que faz a fortuna do PIB nominal de US$ 54.607 per capita. O turismo rende fluxo constante de receita, e aumenta sempre. Em 2012, foram 11 milhões de visitantes; agora, a nova meta é 15. A Primavera Árabe nos países vizinhos teve a influência de levar o sheik para mais perto de seus súditos. Mais do que Revolução os dubaienses querem Evolução. Ao contrário da maioria no Oriente Médio são pró-EUA abertamente: emprestaram seus portos e aeroportos para forças internacionais que por duas vezes combateram o Iraque de Saddam Hussein. Aceitou ainda que o serviço secreto americano montasse uma sucursal de espionagem em algum oásis não identificado de seu deserto, com o foco principal no Oriente Médio.

Consta que Dubai coleciona 59 recordes no Guiness. No último réveillon, então, chegou ao 60º: NAM se viu tão prolongado foguetório – embora por ali os muçulmanos estejam no ano de 1434 e os judeus chegarão a 5775 em 2014. Pouco depois da meia-noite, lá seis horas antes que no Brasil, começou a circular a notícia pela Internet.

Dubai Sets a Guinness World Record for the Largest Fireworks Show with Over 500,000 Fireworks.

   Um passeio pelo deserto é a volta às origens de Dubai. Dunas de areia como ondas do mar. Beduínos com seus camelos. Alguns órix pastando um capim invisível. Falcões domesticados (mas não os teste como papagaios fossem, que ficará sem dedo ou mão). O vento sopra carregado de areia. A caravana de Toyota 4×4 com pneus esvaziados surfa escorregando, atolando e provocando a parte de “aventura” prometida na Aventura nas Arábias. A excursão começa em tempo de parar em uma duna de onde se avista o sol se pondo. Já noite, num oásis de beduínos, a iluminação fraca, aparece Sumaya, mestra de dança do ventre. NANP: ela é brasileira, do interior do Maranhão. Está em temporada em Dubai, mas seu palco abrange o Oriente Médio.

   Falando das pérolas que originaram Dubai, um beduíno retrucou com um pequeno conto digno das Mil e Uma Noites: “Uma vez, perdi-me no deserto, sem provisões. Estava prestes a morrer quando, subitamente, vi de longe um saco. Nunca esquecerei a alegria que senti ao pensar que o saco continha grãos de trigo fritos, e, depois, a minha amargura e desespero quando descobri que só continha pérolas!”.

(fotos freeimages, rabinovici, agência do governo de Dubai)

Ah, Jerusalém!

Foto: Jerusalem.com

Foto: Jerusalem.com

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As pedras da fundação do mundo brilham douradas sob o sol, e prateadas ao luar. Dão cor e identidade a Jerusalém. Testemunharam a criação do primeiro homem, a morte e a ressurreição de Jesus, a vida de cidadãos ilustres como Abraão, Isaac e David, e a cavalgada de Maomé aos céus. Ê o que contam a Bíblia, o Talmude e o Alcorão, os guias oficiais da Terra Santa.

Pedras três vezes consagradas. Os judeus as veneram no Muro das Lamentações. Os muçulmanos cultuam o rochedo rachado pelo impulso da ascensão de Maomé, na Mesquita de Omar. E os católicos as seguem pela Via Dolorosa. Na paisagem bíblica, surgem empilhadas, equilibradas, formando cercas. Os arqueólogos as reviram. Judeus ortodoxos e palestinos as atiram, como armas. Turistas as visitam. São muralhas, minaretes, sinagogas, igrejas e mesquitas.
Pedras de calcário dolomita que reergueram 25 jerusaléns destruídas em 25 séculos de guerras entre judeus, gregos, romanos, cristãos e muçulmanos. Pedras da discórdia ainda hoje. Yerushalaim, em hebraico, É a “Cidade da Paz” – e tanto ódio provoca! Em árabe, Al Kuds, “A Santa” – e sempre tão cruel. A Bíblia (Zacarias, 8:3) chama Jerusalém de a “Cidade da Verdade” – ela que está minada por contradições Étnicas e religiosas. Cidade do “Verbo” – não do diálogo. Cidade dos Espelhos” do escritor israelense Amos Elon – “espelhos que são metáforas que a verdade de cada religião atribui a cidade que reflete seu passado e seu presente”.

Dez medidas de beleza foram
  conferidas ao mundo; nove
  foram tomadas por Jerusalém,
  e uma pelo resto do mundo.
  (Talmude)

A alma de Jerusalém está cercada por 4,5 quilômetros de muralhas reconstruídas em 1537 pelo sultão Suleiman, o Magnífico, no traçado romano original do século II. Pode-se dar a volta por cima delas em quatro horas. Dentro, apenas um quilômetro quadrado. Ê o bastante para conter séculos de história das três grandes religiões monoteístas. O judaísmo imperou de 1003 a.C. até o ano 70 d.C., e depois se intercalaram o cristianismo (de 300 a 638 e de 1099 a 1187) e o islamismo (de 638 a 1099 e de 1187 a 1917). Hoje convivem Alá, Jeová e Jesus. E o ar “É saturado com orações e sonhos” como o ar poluído sobre as cidades industriais. “Difícil respirar” – comenta o poeta israelense Yehuda Amichai.
A alma de Jerusalém tem oito portas. As quatro principais se abrem como uma rosa-dos-ventos. A imponente Porta de Jafa era a saída para o porto, à Oeste. Ê a mais movimentada. A Porta de Damasco abre-se para a cidade de à e para a Síria, ao Norte. Por ela entra-se no bairro muçulmano. A Porta dos Leões aponta para o Leste, para Jericó. E a Porta de Sião está na direção de Hebron, ao Sul. Uma porta ainda se tornará a mais importante do mundo, se nela for mesmo bater o Messias tão esperado pelos judeus. Os árabes a fecharam há séculos para impedir a visita. Chama-se Porta Dourada, ou “Porta da Compaixão”. A Porta Nova foi furada em 1887 para dar acesso direto ao bairro cristão. Por uma “porta de serviço”, a Porta do Esterco, penetra-se no monte Moriah, que muitos consideram o local mais carregado de energia espiritual do planeta.

Aqui, segundo o Gêneses, Deus criou o primeiro homem. E Abraão sacrificaria o filho Isaac, não fosse a intervenção de um anjo. Ainda aqui o rei Salomão construiu o Templo de um império que se estendia do Eufrates ao Egito, em 1043 a.C., e do qual resta só a muralha ocidental, conhecida como Muro das Lamentações. As frestas entre as pedras adoradas estão cimentadas de papeizinhos com pedidos de fiéis. Também já É possível enviar por fax uma mensagem para Deus, graças a um novo serviço inaugurado pela companhia de telecomunicações israelense. A ligação para Deus, em Jerusalém, “É local”. A mesquita dourada de Omar, com o rochedo de Maomé, e a de Al Aksa, que marcou a visita histórica do presidente egípcio Anuar Sadat a Israel, estão praticamente por cima do muro. Não apenas uma cidade dentro da outra, mas uma sobre as outras, como mostram as escavações ali ao lado, na cidadela de David. Os muçulmanos deram o terceiro lugar religioso do Islão para Al Kuds, “A Santa”, depois de Meca e Medina, na Arábia Saudita. Atrás do monte Moriah, logo À esquerda, está o Santo Sepulcro, repartido entre seis diferentes seitas cristãs. A soma das três religiões, num espaço tão pequeno, cria uma espiritualidade quase palpável.
Judeus de quipás balançam-se fervorosamente diante do Muro, muçulmanos de kafias e descalços curvam-se na direção de Meca, e cristãos tocam a terra que enterrou Jesus, ao som do chofar, do canto do muezim nas minaretes e dos sinos no Santo Sepulcro, num cenário de Velho Testamento. Ver Jerusalém, e enlouquecer: muitos peregrinos acabam internados como mais um João Batista, outro Messias. Em cinco dias ganham alta, e voltam À realidade.

Se eu me esquecer de ti, oh Jerusalém,
  esqueça-se a minha dextra da sua destreza.
  Apegue-se a minha língua ao paladar,
  se não me lembrar de ti,
  se não preferir Jerusalém à minha maior alegria.
  (Salmos)

Nem todas as pessoas passeiam nas ruas da Cidade Velha de Jerusalém dialogando com Deus, como diz o escritor Amos Elon. Há muitas que se concentram no shekel, a moeda dos tempos bíblicos que circula ainda hoje em Israel. O shuk, o mercado árabe, vive engarrafado de gente. A multidão é um caleidoscópio. Passam rabinos com seus grandes chapéus e trancinhas, os árabes de kafia e gelabiah, turistas com mochilas e filmadoras, franciscanos, coptas, drusos e armênios, e soldados com metralhadoras. Os mercadores ficam À porta de suas lojas convidando quem passe pelas ruelas para um negócio, que às vezes acaba numa disputada barganha. Vendem tapetes feitos à mão, vestidos beduínos, bijuterias, jogos de café típicos, caixinhas de madrepérola e bugigangas. Alguns sentam-se em tamboretes, contemplativos, chupando o narguilé, a máquina de fumar, e permanecem assim durante horas.

E folgarei em Jerusalém,
  e exultarei no meu povo;
  e nunca mais se ouvirá nela 
                                       voz de choro nem voz de clamor                                 .   
Reconstrução da antiga Jerusalem. (Foto:  commons.wikimedia.org)

Reconstrução da antiga Jerusalem. (Foto:
commons.wikimedia.org)

  E edificarão casas, e as habitarão;
  e plantarão vinhas
  e comerão o seu fruto.    
  (Isaías)

Fora das muralhas, Jerusalém espalha-se pelos montes Herzl, Scopus e das Oliveiras. Uma cidade contrastante, moderna, construída com a mesma pedra dourada. O antigo e o novo foram reunificados com a Guerra dos Seis Dias, em 1967, depois de 20 anos divididos por uma linha de cessar-fogo com a Jordânia, estabelecida pelas Nações Unidas. O Muro das Lamentações e o museu dos mártires do holocausto nazista, Yad Vashem, marcos do judaísmo, integraram-se na capital contestada de Israel. Os palestinos querem Al Kuds, a Cidade Velha, como a capital de uma futura Palestina. O Vaticano propõe torna-la um patrimônio sagrado comum às três grandes religiões monoteístas. E os judeus de todo o mundo repetem nas festas de Pessach, a Páscoa, que coincide com a primavera: “No ano que vem em Yerushalaim”. A unificação tornou-se lei constitucional, aprovada pela Knesset, o Parlamento, em 30 de julho de 1980. Mas um novo destino para Jerusalém foi selado com o aperto de mãos entre o primeiro-ministro Yitzhak Rabin e o líder da OLP, Yasser Arafat.