A pioneira americana Edith Warton

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Edith Warton

Edith Warton

Berkshires, MA — Escrevia na cama todas as manhãs, largando no ar cada folha manuscrita para que pousasse oscilante no chão. Sua secretária recolhia a produção do dia e a datilografava.

Em 40 anos, Edith Wharton escreveu 40 livros – e com um deles, The Age of Innocence (original grátis em http://www.gutenberg.org/etext/541), conquistou em 1921 o primeiro prêmio Pulitzer concedido a uma mulher nos Estados Unidos.

O quarto das criações de Edith não era qualquer um. Ela o chamava, em francês, de boudoir. Tratava-o como a um santuário. Foi construído no canto norte de sua mansão de 42 quartos em Lenox, acima de uma biblioteca de 2.700 livros, e com vista para colinas distantes, o lago Laurel e um jardim de flores anuais, carregado de petúnias argentinas, em torno de um espelho de água retangular com uma fonte no meio.

Mãos habilidosas para escrever, plantar e arquitetar, Edith projetou com minúcias cada detalhe de O Monte, a mansão de estilo georgiano em que viveu por uma década. No lado norte, criou um giardino segreto, um jardim secreto murado com um mínimo de plantas, pedras cobertas de musgo, bancos debaixo de arcos e um pequeno lago com uma fonte. “Sou melhor paisagista do que novelista”, ela se gabava. Seu primeiro livro, escrito em 1897 com um arquiteto amigo, Ogden Codman, foi The Decoration of Houses. Depois, em 1904, publicou Italian Villas and Their Gardens.

The Gardens at The Mount, August 2009 Photos by Kevin Sprague ©2009

The Gardens at The Mount, August 2009
Photos by Kevin Sprague ©2009

Um dos quartos da casa foi especialmente arrumado para seu hóspede mais bem-vindo, o escritor Henry James, que muito a influenciou. De vez em quando a visitavam também o presidente Teddy Roosevelt e os escritores F. Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway.

Mesmo cercada de amigos, na casa que construiu, autora de livros de sucesso e filha de pais magnatas de uma família nova-iorquina tricentenária, Edith era infeliz. Faltava-lhe o marido, Edward ‘Teddy’ Robbins Wharton, 12 anos mais velho do que ela, um socialite e desportista sem nenhuma propensão literária, artística ou cultural, e com a saúde mental e física decaindo progressivamente, a partir de 1903. Foi ele próprio quem confessou que desviava dinheiro da conta bancária comum para manter uma amante em Boston.

O casamento ruiu. E com ele, O Monte. Edith se divorciou em Nova York. “Divorciar em Nova York é um diploma de virtude”, escreveria. Ela deixou a mansão e os Berkshires em 1911, e nunca mais voltou. Foi para a França. De lá partiu de carro para as frentes da Primeira Guerra Mundial. Mandava notícias para os Estados Unidos como correspondente de guerra.

O governo francês a condecorou com a Legião de Honra por ter ajudado os sem-teto franceses e belgas. Mas o que ela encontrou mesmo na França nunca antes tinha vivido até os 46 anos: uma paixão. O amante era Morton Fullerton, um jornalista do London Times em Paris, amigo de Henry James. Tempos felizes… Seu novo círculo de amigos incluía o poeta, cineasta e novelista Jean Cocteau e o escritor André Gide, fora os americanos para quem Paris era uma festa.

Uma única vez Edith voltou aos Estados Unidos. Foi em 1923, quando recebeu o doutorado em letras pela Universidade de Yale – um título inédito para uma americana. Ela também se elegeu membro pleno da American Academy of Arts and Letters, em 1930.

Na farta bibliografia que deixou, o título de um conto chama a atenção: “Xingu” (download grátis: http://www.readbookonline.net/readOnLine/1584/) Mas ela nunca esteve na Amazônia. O rio aparece como cenário para a trama.

O Monte passou por seis proprietários, entre eles uma escola feminina e um grupo de teatro, Shakespeare & Company, até ser tombado e restaurado aos seus dias de glória. Está impecável, um museu com jardins fantásticos abertos para piqueniques.

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Edith ficou na França, escrevendo até um ponto final — o ataque cardíaco em 11 de agosto
de 1937, quando tinha 75 anos. Ela foi enterrada no cemitério americano de Versalhes. Em seu túmulo, há uma inscrição em latim: O Crux Ave Spes Única (Salve, oh Cruz, nossa única esperança).

Baleia à vista

View from Arrowhead

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Berkshires, MA -A enorme baleia branca boiava no alto do Monte Greylock, bem longe do oceano, em Pittsfield. Era só Herman Melville abrir a janela para avistá-la. Ele se sentia tão ao mar em Berkshires que descrevia seu quarto como a cabine de um navio. E nas noites de ventania continha o impulso de subir ao telhado para pegar a roda do leme, e enfrentar as ondas até ancorar num porto seguro.

Moby Dick ainda hoje está no horizonte, boiando imóvel a 1.064,06 metros do Monte Greylock, na Monument Mountain, o ponto mais elevado de Massachusetts. Não era um delírio do marujo-escritor Herman Melville, que vivia obcecado por baleias, o tema de um novo livro que já deveria ter enviado a seu editor em Londres.

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Em dias claros, os turistas avistam Moby Dick da janela de Arrowhead, o casarão de uma fazenda de 1780, em Pittsfield, comprado por Herman Melville depois de participar de um piquenique no topo da Monument Mountain, em 5 de agosto de 1850, com o editor Evert Duyckinck, os escritores Oliver Wendell Holmes e Nathaniel Hawthorne, e o jurista David Dudley Field Jr. Ouviam a leitura da lenda de uma índia que pulou dali para a morte, o coração despedaçado pela paixão por um primo, quando desabou um temporal.

Melville, 32 anos, e Hawthorne, 46, buscaram abrigo juntos, enquanto Holmes servia champanha em canecos de prata. Tornaram-se dois grandes amigos, e um influenciou a obra do outro – sem que tenham antecipado a amizade entre os cowboys do filme Brokeback Mountain. O piquenique literário do século 19 virou um programa que ainda atrai escritores de Boston e Nova York. O lema é o de Holmes, e vale para todos os que decidem visitar Berkshires apenas para ouvir música em Tanglewood ou curar o corpo e a alma no Kripalu Center for Yoga and Health, em Lenox: “É preciso carregar as montanhas no cérebro”.

O marujo Melville foi funcionário de banco e vendedor numa loja de pele em Nova York, onde nasceu, até se alistar no baleeiro Acushnet para uma caçada de três anos a baleias, em 1841. Abandonou o barco nas Ilhas Marquesas, por brigar com o capitão, e ficou pulando de navio em navio, de porto a porto, só voltando à Nova York ao entrar para a Marinha americana.

Em terra firme, não sabia o que fazer da vida, mas tinha inúmeras boas histórias para contar. Os primeiros cinco livros o fizeram escritor. Mas nem o sucesso de Moby Dick lhe rendeu dinheiro suficiente para sustentar-se em Arrowhead com a família – a mulher, Lizzie, e quatro filhos. Até hoje best-seller, só lhe rendeu, enquanto vivo, meros US$ 589. Teve que abandonar a sua bucólica vida. Pelos 20 anos seguintes trabalhou como inspetor de alfândega em Nova York. Nunca mais escreveu prosa, só poesia – e sua musa foram os tempos em Berkshires. Morreu em 1891. Seus últimos escritos apareceram publicados apenas 33 anos depois.

Arrowhead foi comprada pela Sociedade Histórica em 1975. Curioso o endereço que cruza uma grande amizade: 780 Holmes Road, Pittsfield MA – 01201.

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Baleias à proa!

Moby Dick bóia no Mount Greylock, congelada no tempo. Mas a 4 horas de ônibus de Stockbridge, no Porto de Boston, partem cruzeiros para Stellwagen Bank, um ponto no mar em que baleias de vários tipos se encontram, e aparecem para as fotografias.

O barco tem uma área grande com ar-condicionado e cadeiras, bar, banheiros limpos, e especialistas em baleias simpáticos explicando o que todos estão vendo, às vezes mais além do que o necessário, porque, sob silêncio, ouvem-se as baleias assoviando, e até o barulho de seus mergulhos.

O passeio dura três horas. Muita brisa marinha, sol forte, os passageiros que não comeram o fast-food a bordo estão prontos para um dos ótimos restaurantes de Boston.

Quem embarca para ver baleias, a US$ 35 os adultos, e US$ 29, crianças, receberá um ticket para outra próxima viagem, se não avistar nenhuma. A propaganda promete “garantia de baleias”, ou o ticket de volta.