BEM-VINDA, CORRUPÇÃO!

Aceitamos corruptos e corruptores de portas abertas no Museu da Corrupção (MuCo). Mas estamos com um sério problema: a atual supersafra do Petrolão é muito maior do que podemos absorver.

O MuCo nasceu da constatação de que a corrupção que faz a manchete dos jornais de hoje relega a do dia anterior ao esquecimento. Vamos adiante, desmemoriados. Mas expor passado e presente escandalosos pode corrigir o futuro. É ferramenta para pesquisadores. Intimida corruptores.

O MuCo nasceu em 21 de abril de 2009, mais para coincidir com o dia seguinte, o do Descobrimento do Brasil, do que com o Dia de Tiradentes. A repórter Kássia Caldeira já pesquisava havia seis meses os processos e investigações da Polícia Federal, os arquivos de CPIs, da Justiça e dos jornais, e aprofundava mais em nosso passado imprevisível. Assim montamos o primeiro acervo.

O arquiteto Rodrigo Moreira

O arquiteto Rodrigo Moreira

Um historiador deu o mote para precipitar a estreia do MuCo: “A corrupção começou com as primeiras caravelas”. Portugal desterrava seus trambiqueiros em Pindorama. O editor de web Luiz Octávio formatou o conteúdo dentro do espaço projetado pelo arquiteto Rodrigo Araújo Moreira. A curadoria foi assumida por Regiane Bochichi, ex-AOL.

Em dois meses, o MuCo alcançou 1.839.765 page views. Em seis meses, ganhou o Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa. Foi convidado a se exibir numa reunião da ONU, para o Mercosul, no Paraguai. Um grupo de Paris pediu, e ganhou, uma sala para expor la corruption française.

    Com um Congresso pródigo em corrupção, o MuCo teve que abrir uma galeria só para expor a produção diária de Brasília. Em outras salas, estão as operações da PF, o trabalho de CPIs, uma galeria especial para a arte apreendida com corruptos de bom gosto, uma biblioteca com integra de livros para baixar, alguns já esgotados, a pizzaria da ex-deputada Ângela Guadagnin em que a Sarney, o bigode feito de anchovas, é a mais apreciada. Há também uma lojinha, como em todo museu. Ela foi até disputada por interessados em vender produtos reais. Mas continua só vitrina, com cueca própria para esconder dólares, algemas preciosas, máquina de lavar dinheiro, camisas de colarinho branco, kit para escutas clandestinas e camisetas da hora. Cartões postais da Casa da Dinda e da mansão de Palocci, brasilienses; da refinaria de Pasadena, no Texas; e da Petrobras, no Rio e Pernambuco, entre outros, podem ser enviados do próprio MuCo. A Copa do Mundo deste ano ganhou uma área especial, alimentada pelo jornal Lance. Na sala de cinema passam vídeos e som coletados de várias fontes, inclusive da web. No depósito de ferramentas estão os telefones e e-mails de todos deputados e senadores.

O MuCo nunca teve nenhuma verba, ou investimento. E é uma pena que esteja hoje paralisado ante tanta corrupção jorrando da Petrobras. A alguns jornais, nas principais capitais do país, foi oferecido um anexo próprio, num conjunto de torres projetadas em torno do prédio inicial, já pequeno. Antes hospedado no recém-extinto Diário do Comércio, da Associação Comercial de São Paulo, era um espantalho: por que um jornal ia avalizar outro? E a concorrência? Agora liberado, o criador abdicando à sua criatura, ele poderia ser de todos, tipo Wikipédia. A forma de administrá-lo está aberta. Bobagem pensar em patrocínio. O Google o encamparia? Não, por incompatibilidade à sua operação no Brasil. Alguma empreiteira? Só por humor.

Agora, o MuCo (www.muco.com.br) também entrou no Facebook. Só como obra de todos, poderá crescer, digerir a corrupção que, de tanta, o imobilizou. Algumas ideias que aguardam condições de serem executadas: duas novas salas, uma para a Papuda, outra em homenagem a Paulo Francis, com a memória de suas denúncias sobre a Petrobras. Um museu de cera com os nossos corruptos mais conhecidos — forma eficaz de dissuadir futuros corruptores. Alguns suspeitos absolvidos revelaram o poder da memória preservada, pedindo à curadoria para acrescentar que foram julgados inocentes em casos de muita exposição. Em pouco tempo, a 9 de dezembro, será comemorado o Dia Mundial Contra a Corrupção. Hoje, o Brasil pode comemorar certo avanço contra a impunidade. Mas, e contra o esquecimento?DSC00429

Hong Kong 8888

Skyline em Victoria Harbour

Skyline em Victoria Harbour

Ao final de quatro dias passados em cenários cinematográficos de assassínios, sequestros, atentados terroristas, tráfico de drogas, prostituição, espionagem, tiroteios e guerra de gangues, o repórter encontrou sobre sua cama no Hotel Langhman um bilhetinho: “Responda, por favor: o que mais o impressionou em Hong Kong?”

O repórter respondeu, sem titubear: A SEGURANÇA!!

Ilha poderosa, como Manhattan; financeira, como Wall Street; turística, como Paris; lotada, como a 25 de Março em São Paulo; com chiques e famosos sem guarda costas nas ruas; Rolls-Royces no trânsito; um vasto Porto Cheiroso (a tradução de Hong Kong); mas… nenhum trombadinha. Nenhum!

  Crime, em Hong Kong, é ficção. Só nas telas de cinema. Victoria Harbour, a vista mais espetacular da cidade banhada a néon, foi o cenário de 007 Contra o Homem com a Pistola de Ouro, com grande elenco dizimado por James Bond. No SoHo estão os pontos de traficantes do filme Chungking Express. Do arranha-céu mais alto da cidade e 5º do mundo, Lara Croft salta para Caçadores de Tumbas II. Sequestros e atentados começam já no aeroporto Chek Lap Kok em Hora do Rush II. A prostituição se espalha em O Mundo de Suzie Wong e Adeus Minha Concubina, do cineasta Leslie Cheung, que se atirou do 24º andar do Mandarin Oriental Hotel. O endereço de tiroteios e gangues é a Pottinger Street, escolhida para Infernal Affairs – Infiltrados. E o encontro do Ocidente com o Oriente ficou há 54 anos marcado pela lacrimosa história de amor entre um jornalista americano e uma médica chinesa, A Love Is A Many Splendored Thing, ou Suplício de uma Saudade, filmado em Repulse Bay.

  Não é por acaso que muito turista desbrava a ilha com a sensação de que já viu o filme. Hong Kong é cinematográfica. Uma de suas novas atrações, a Avenida das Estrelas, em Tsimshatsui, celebra os 20 mais famosos do cinema chinês, como Jackie Chan e Bruce Lee, numa réplica de 440 metros do Calçadão da Fama, em Hollywood. Legiões de chineses do continente invadem a cena diariamente: são uma cultura milenar se deslumbrando com o mundo livre e altamente tecnológico em seu próprio outro país. O encontro do comunismo com o capitalismo; do aroma de incenso e da flor nacional, a bauhínia, a origem do nome Porto Cheiroso, com a multidão de celular no ouvido ou no olho, sob o fog que persiste apesar do fim do mandato britânico de 99 anos.

  Os ingleses partiram em 1º de julho de 1997. Conquistaram Hong Kong, com outras 235 ilhas, em duas Guerras do Ópio (1839-42 e 1856-60) impostas aos chineses, e a devolveram sob condição de que, por 50 anos, até 2047, ela será administrada pela China sob a fórmula “um só país, dois sistemas” – uma ilha de economia de mercado num oceano comunista, refletindo a ambiguidade do Yin e do Yang. Hambúrgueres e carrões são vendidos na China continental, mas o jornal New York Times, não – só em Hong Kong.

  Foi mesmo o que previram os hong-kongoneses – ou hong-kongers, em inglês: os negócios precedem a política. Tanto que o debate político desde a reintegração se limitou a questões tipo galinhas e poluição. Um anticlímax para o resto do mundo, que temia um assalto imediato à liberdade individual. Na Região Administrativa Especial da China, agora o prenome oficial de Hong Kong (SAR, na sigla oficial), os jornais estão sob censura invisível, mas a internet é livre, ainda, e as livrarias vendem até mesmo livros anunciando que está chegando o colapso da China, como The Coming Collapse of China, de Gordon Chang.

Chão de estrelas

Chão de estrelas

HK ou LA?

HK ou LA?

  AS ESTRELAS no Calçadão da Fama são ofuscadas pelo hotel das mil e uma estrelas, The Peninsula, por duas vezes “o melhor do mundo” dos guias Zagat, Travel & Leisure e Condé Nast Traveler. Alguns jornalistas brasileiros, convidados pelo grupo The Leading Hotels of the World, foram recebidos com champanhe na suíte de US$ 5.065 a noite, recentemente ocupada por Tom Cruise.

Avista-se Hong Kong brilhando dourada até da suntuosa banheira. Do balcão, por telescópio. Ou do quarto, deitado na cama. O prédio do Banco da China sobe ao céu com uma série de triângulos que culminam num prisma, mudando inteiramente de cor a cada momento. Toda noite, de 8h às 8h18, 18 dos prédios espetaculares no horizonte exibem A Symphony of Lights, com explosões de roxo, verde, vermelho e amarelo, flashes brancos e fogos de artifício (o chinês gosta tanto do 8, soando como a palavra “prosperidade”, que marcaram suas Olimpíadas para 8/8/2008, com início as 8h). Tradicionais sampans e balsas zarpam com turistas para um espetáculo a mais, as luzes do skyline efervescente refletidas nas águas do Victoria Harbour. Liga-se do celular para um número, e ouve-se a sinfonia que as acompanha. Rádios e um portal na internet também a transmitem.

  O chá das 5h no lobby do Peninsula é lendário. A sopa de barbatana de tubarão, no restaurante Spring Moon, alguns andares acima, um requinte. Mas há um programa duvidoso no exuberante bar Félix, no topo do hotel: fazer xixi sobre Hong Kong. Foi ideia do arquiteto Philippe Starck. É a impressão que dá aos homens sem vertigem mirando telhados, ruas e pedestres lá embaixo, embora um vidro sirva de escudo quase invisível e um canalete leve o rio de emoções para o esgoto. As mulheres fazem fila para entrar nos intervalos em que o banheiro fica vazio. Mas não podem “curtir” o programa. Só imaginá-lo.

  Todos os pontos de vista são cartões-postais em Hong Kong. Mas qual o mais arrebatador? Eis a questão! Hors-concours é a travessia de balsa entre a ilha de Hong Kong e a península de Kowloon. “Espetacular”, “soberbo” – ouve-se a bordo. O preço é incrivelmente ridículo, como em todo transporte público local: 2,20 dólares hong-kongoneses, menos de R$ 1, para um lugar na primeira classe no segundo andar do Star Ferry, que zarpa a cada 10 minutos, entre 6h30 e 23h30.

A visão do alto dos 373 metros do Victoria Peak, no meio da ilha, também é fantástica. Sobe-se em sete minutos num bondinho existente desde 1888, por R$ 10,30. Lá em cima, uma atração extra: um rickshaw para fotos. Mas, atenção: o chinês sorridente sentado ao lado cobra cada clique. E dá uma quádrupla resposta para tudo e todos, em inglês, levantando e baixando a cabeça: “ok, ok, ok, ok”. A deslumbrante arquitetura dos prédios desponta de qualquer ângulo. Vendedores de relógios e souvenires montam bancas pelas passagens estratégicas. Você os encontrará em todos os pontos turísticos.

O show das 8h

O show das 8h

YES, YES, YES, YES: Hong Kong vai ter uma Disneylândia a partir de 12 de setembro. Mickey, Pato Donald, Pluto, Margarida e Minie, personagens geralmente encontrados no prato dos chineses, serão mais um teste à ocidentalização da China. Por prudência, o Reino Mágico se submeteu à mágica chinesa do feng shui para atrair harmonia e boa sorte. É famoso e muito fotografado o exemplo de um grande prédio levantado perto de Stanley, um subúrbio ao sul de Hong Kong, que só vendeu todos seus apartamentos depois de reformado segundo o feng (vento) shui (água). Elementar: o construtor tinha esquecido de abrir uma passagem para o dragão. Aquele enorme buraco no meio do prédio resolveu todo problema.

A Disney ainda promete cardápio chinês na sua versão para Hong Kong. Os chineses comem tudo que tenha pernas, exceto móveis. Tudo que nada, menos submarino. E tudo que voa e não seja um avião. Se tem caloria, engolem. Os turistas que não comem nada cortado acima do pescoço e abaixo da cintura se deliciam com “o toque do coração”, ou dim sum. São bolinhos de carne, peixe ou vegetais, refogados ou cozidos no vapor, servidos no café da manhã, almoço, jantar, ceia, brunch e na hora do chá. O jornalista R. W. Apple Jr., do New York Times, encontrou o nirvana do dim sum em Hong Kong. Uma porção de bolinho de ninho de passarinho, rara iguaria, sai por R$ 24. Os populares podem ser comprados na rua e em fast foods. Entre os mais de 10 mil restaurantes da cidade, vale a pena visitar o Jumbo, “o maior flutuante do mundo”, em Aberdeen. Aqui você escolhe o peixe, o camarão e a lagosta vivos em tanques, depois os recebe prontos à mesa. Será que os chineses precisam mesmo de uma Disneylândia?

Hong Kong também é o nirvana do consumo. A última máquina fotográfica digital a US$ 399 no free shop de Guarulhos sai por US$ 299 nas lojas da Nathan Road, antes de qualquer barganha. Há shoppings só de computadores, gadgets, filmadoras, celulares e MP3. As peças com invisíveis defeitos de grifes multinacionais são desovadas por ninharia em bancas montadas nos túneis do metrô. Ternos sob medida ficam prontos em 12 horas. Há mercados só para seda, jade, artesanato, relógios, souvenires e pássaros… O preferido dos turistas é o de Stanley. Algumas lojas fecham às 23 horas.

Hong Kong recende a religião, incenso e superstição. São mais de 600 templos budistas, taoistas e confucionistas – oásis fora do tempo e da agitação dos 6,8 milhões habitantes e mais cerca de 1,5 milhão de turistas/mês. Entra-se no mosteiro Chi Lin, cercado de prédios e trânsito, e todo o burburinho cessa de repente. O lago de lótus em flor, fontes de água, jardins meticulosamente cuidados, monges meditando — e chega-se naturalmente à saída, onde um presente espera o visitante: um mantra gravado. No templo Sik Sik Yuen Wong Tai Sin, ao contrário, reina o fervor das oferendas, o balançar de varetas para prever o futuro e a espessa névoa de incenso diante do altar de Confúcio. Fica-se defumado para o resto do dia. À beira do mar, pela ilha afora, surgem minitemplos.

OS NÚMEROS são a obsessão dos chineses. O celular 133 3333 3333 foi leiloado, recentemente, por US$ 215 mil. O seu comprador não o atendeu quando chamado por jornalistas que queriam entrevistá-lo. É que o 3 dá sorte, embora também represente conflito. O 2, azar, mas pronuncia-se como a palavra “fácil”. O 4, amor, sexo, conhecimento, e também, principalmente, soa como morte. Então, fuja do 24, que forma “morte fácil”. 5: desgraça. 6: dinheiro. 7: comunicação, espiritualidade. 8: prosperidade (a combinação 28 é ótima, “dinheiro fácil”. 9: sucesso no futuro. O 1 não tem um significado específico. Em 174, por exemplo, forma um tsunami: “todos morrendo juntos”. No feng shui os números valem cada um por si, enquanto na numerologia eles são somados e reduzidos a um dígito. Uma distração chinesa é ficar interpretando as placas de carros e os números de casas e edifícios pela ilha. Todos evitam o 4. A Disney até adiou sua estreia na China, marcada originalmente para 2004, porque antecipou que “não seria um ano bom”.

O repórter voltou bastante influenciado pelos números de Hong Kong. E é por isso que ele está esperando dar 18h18 para colocar o ponto final nesta sua reportagem, que tem 18 parágrafos e vai completar o total de 8.888 caracteres, sem contar os espaços, exatamente neste ponto final, bem aqui.

São Gaudí

E la nave va

en.wikipedia.org

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Da tumba na igreja da Sagrada Família, em Barcelona, o arquiteto Antoni Plàcid Gaudí i Cornet poderá passar para o altar. “São Gaudí, o arquiteto de Deus”, começou a ser promovido por um grupo de devotos que já obteve a bênção do cardeal espanhol Ricard Maria Carles para iniciar o processo de beatificação.

  Uma comissão histórica e outra teológica estão investigando a vida de Gaudí para o padre Lluis Bonet i Armengol, pároco da Sagrada Família que foi nomeado vice-postulante do processo de beatificação pelo arcebispo de Barcelona, cardeal Carles. O postulante deverá ser nomeado pelo Vaticano, se o processo, sempre longo, podendo durar décadas, for além do estágio inicial de coleta de dados.

  Gênio, louco e santificável, Gaudí é a glória de Barcelona, o “arquiteto universal catalão” e “gigante do gótico” que marcou a arquitetura do século XX. Ele está enterrado na cripta de sua última e inacabada obra, a Igreja Expiatória da Sagrada Família, visitada por 1 milhão de turistas em 1998. “Os despojos de um homem tão grande esperam aqui a ressurreição dos mortos”, diz uma inscrição na lápide, decorada com flores de plástico.

  Outra tumba na mesma cripta é a do livreiro Josep Maria Bocabella i Verdaguer, que teve a ideia de construir a Sagrada Família para protestar contra a industrialização e a perda de valores tradicionais, já em 1866. No início da guerra civil espanhola, em 1936, os soldados do general Franco a saquearam. Mas não tocaram na de Gaudí. “Não é milagroso?”, pergunta o arquiteto José Manuel Almuzara, fundador e presidente da Associação Pró-Beatificação de Gaudí.

  Uma tetraneta de Bocabella, Teresa Dalmases, continua hoje a coletar fundos para a obra da Sagrada Família, 117 anos depois de assentada sua primeira pedra. A US$ 5,40 o ingresso inteiro, com descontos para grupos e estudantes, ela arrecadou cerca de US$4,5 milhões em 1998. Nesse ritmo, a igreja estará pronta em mais 50 anos, empregando 50 operários, a maioria artesãos, e as máquinas mais modernas. Para o final de 2000 programou-se a primeira missa na igreja que passou a ser de Gaudí em 3 de novembro de 1883, ao se demitir o arquiteto da diocese, Francisco de Paula de Villar.

  Gaudí dedicou-se à Sagrada Família por 43 anos – os últimos 12 anos em tempo integral e os dois finais morando num estúdio dentro do canteiro de obras. Toda tarde, pelas 5 horas, lá ia ele a pé rezar na igreja de San Felipe Neri, ao lado da catedral, no centro de Barcelona. Era uma boa caminhada, recomendada contra recaídas de uma febre reumática que já tinha lhe tirado a infância na rua com outros meninos. Parecia um eremita, a barba branca e a roupa puída. O guarda Silverio Silvestre achou que ele fosse um mendigo ao registrar sua entrada na emergência do Hospital Santa Cruz, em 7 de junho de 1926. O condutor do bonde da linha 30 contaria mais tarde, diante de um juiz: “O velho cruzava a Gran Via na esquina de rua Bailén e voltou ao ver outro bonde na direção contrária, sendo então atropelado”. Três táxis recusaram-lhe socorro.

  “Amén Déu meu! Déu méu!” – foram as últimas palavras de Gaudí, em catalão, três dias depois do atropelamento. Não quis que o transferissem a outro hospital, ao recobrar a consciência. “Só lhe faltava, para ir direto ao céu, morrer como um pobrezinho de Cristo” – escreveu o cronista F. Folch num elogio fúnebre no Diário de Barcelona. “Arquiteto de Deus”, chamou-o um famoso liturgista da Catalunha, Manuel Trens, no jornal La Publicitat. Espalhando numa mesa várias folhas amarelecidas com fotos e textos do enterro de Gaudí, realizado na cripta da Sagrada Família “por autorização  direta do papa” (Pio XI), padre Bonet conclui: “Já o consideravam santo; nós não inventamos nada”.

  Padre Bonet, de 67 anos, constrói com muita fé a imagem de São Gaudí. E um irmão dele, Jordi Bonet, executa-lhe a obra, concretamente. É o atual arquiteto responsável pela construção da Sagrada Família. Também devoto, diz: “Para mim, Gaudí já é um santo”. Ele dá um motivo a mais para a beatificação: “A igreja precisa de santos laicos”. E o momento não poderia ser melhor, lembra padre Bonet: “O papa está promovendo beatificações e canonizações”. Os dois irmãos foram influenciados por um arquiteto muito amigo de Gaudí, Lluis Bonet i Gari, o próprio pai.

  Entre a maioria de prédios baixos e marrons de Barcelona, a herança de Gaudí atrai pelas formas inesperadas, ousadas, curvas, salientes, enfeitadas, coloridas, caprichosas e harmoniosas. Ele ensinava que “a curva é a linha de Deus”. Em seu mundo, não havia retas. “Originalidade”, dizia, “é voltar as origens”. Na origem, filho do caldeireiro Francesc Gaudí i Serra, era um menino de Reus, uma cidade industrial ao lado de Tarragona moldada sob fortes influências maçônica e nacionalista. Estudou num colégio de padres. Às vezes, em crise de febre reumática, com dor em todo o corpo, ia para a aula montado num burrico. Foi vegetariano a vida toda, por ordem médica. Tinha pendor para detalhes. Interrompeu uma professora que explicava que os pássaros voam porque têm asas para dizer que “as galinhas não voam, embora tenham asas”. A mãe, Antònia Cornet i Bertran, morreu quando ele tinha 24 anos e já estudava arquitetura em Barcelona. 

  Gaudí não teve uma vida digna de santo até 1900, aos 42 anos, quando o comparavam a São Francisco de Assis e a Gandhi, ou até 1911, ao voltar de uma estadia de cura de febre reumática nos Perineus decidido a abandonar tudo e se dedicar obsessivamente à “catedral dos pobres”, Sagrada Família. Não há um momento-chave de revelação na vida do “Arquiteto de Deus” aceito por seus biógrafos. Adorava a fama, conquistada com a construção da Casa Vicens e de edifícios para o conde Eusebi Güell, amigo e mecenas. Fumava charutos de qualidade. Tinha pavio curto e era arrogante. Vestia-se com elegância, mas só usava sapato já amaciado pelo irmão, que os novos o machucavam. Frequentava os melhores restaurantes. E nunca se provou que tenha tido uma paixão. Teria amado em segredo uma mulher, não correspondido. E um amigo que só se casou depois de sua morte levantou a suspeita de uma relação homossexual. Para os devotos, o arquiteto de linhas curvas divinas, ou sensuais, morreu casto.

  Ascético, profundo conhecedor da liturgia católica, religioso de missa e comunhão diários, aprendiz de canto gregoriano, arquiteto precursor do modernismo, pobre e humilde no final da vida, Gaudí não fez milagres. É o que lhe falta para ser elevado a São Gaudí. Uma mulher de Valência pediu-lhe que o marido ganhasse um concurso, e foi atendida. Outra, para passar numa prova na universidade, e passou. E mais uma, ainda, para se livrar de uma pedra no rim, e se diz curada. Uma doente terminal está agora pedindo por vida, e a Associação Pró-Beatificação de Gaudí a acompanha, com fé de que terá mais um relato milagroso para o padre Bonet, o vice-postulador da beatificação. A pediatra brasileira Cecilia Maria Pereira assina uma carta no último boletim O Arquiteto de Deus antecipando “um grande milagre que beneficiará milhares de pessoas enfermas em meu país e no mundo”, se Gaudí atender as suas orações.

  Nas ruelas de Barcelona, Época perguntou ao acaso se Gaudí deveria ser beatificado. Dez em dez pessoas disseram sim. Mas São Gaudí não chega a ser unanimidade. Entre artistas e intelectuais prevalece a opinião do escritor Manuel Vázquez Montálban: Gaudí é um patrimônio cultural de todos, não uma propriedade da igreja. Editorialista do jornal La Vanguardia e escritor com 28 livros publicados, José Luis de Vilallonga é mais radical: “Vou lhe dizer a verdade, Gaudí não me agrada nem um pouco, nem como arquiteto, nem como santo – um absurdo.” O historiador da Arte e diretor do Spazio Gaudí, Daniel Giralt-Miracle, ironiza a campanha pró-beatificação: “Nem eu apoio”. Mais próximo de Gaudí do que os céus, para ele, estaria Picasso. Mas para o diretor da Cátedra Gaudí na Universidade de Barcelona, Juan Bossegada Nonell, “as condições para a santificação estão aí…”

  O único artista jamais canonizado foi São Lucas. Além de pintor ele foi um dos quatro apóstolos. “O céu não precisa de arquitetos, Deus já fez tudo”, brincam com o arquiteto Almuzara. Longe de desistir, ele vai adiante, descobrindo sempre novos indícios de milagre. As conversões, por exemplo. O coreano Jun Young-Joo converteu-se do budismo no último Natal, depois de visitar a Sagrada Família. “Não é qualquer um; é o diretor da Câmara de Comércio e Indústria de Pusan, na Correia”, ele diz. Enviou-lhe um bilhete: “Através das obras de Gaudí e do toque divino que têm, me convenci da existência de Deus”. Ao arquiteto japonês Kenji Imai bastou um encontro com o próprio Gaudí, em 1926: a conversão foi instantânea.

  O outro convertido é o escultor japonês Etsuro (“homem feliz”) Sotoo. O que o atraiu na Sagrada Família, quando a visitou em julho de 1978, aos 25 anos, foram blocos virgens de pedra da Galizia. Sentiu uma irresistível vontade de esculpi-los. Com o tempo, o arquiteto Almuzara e “o convívio com a obra de Gaudí” acabaram esculpindo sua fé cristã em sua alma budista. Tão devoto, ele já pensa em casar-se de novo, com a mesma esposa, no ritual católico. Hoje ele ainda faz os anjos sem asas da “fachada do nascimento”, no lado de trás da igreja. E vai precisar de mais sete anos para acabar seu trabalho e voltar a Fukuoka, onde três grandes blocos de pedra o esperam diante do museu, armadilhas com que a prefeitura local pretende recuperá-lo.

  “Antes, tínhamos que explicar aos turistas que Gaudí não era louco, mas alguém excepcional, quase louco”, diz Sotoo, em espanhol com sotaque, uma toalha enrolada como turbante na cabeça. “Agora, vamos descobrir se ele era santo, ou ao menos alguém como Salomão e Davi – um construtor do Templo”.

 

Oração para Gaudí

 

   “Santissima Trindade, que infundiste a teu servo Antoni Gaudí,

arquiteto, um grande amor à tua Criação e um ardente afã de imitar os mistérios da infância e paixão de teu Filho;

faça que eu saiba também entregar-me a um trabalho bem feito, e digna-te a glorificar

teu servo Antoni, concedendo-me, por sua intercessão, o favor que te peço (aqui o pedido). Amém.

  Jesus, Maria e José, dê-nos a paz e protegei a família (três vezes)

Voe, Dilma, voe para salvar o Brasil.

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beatlesbible.com/people/maharishi-mahesh-yogi/

Perguntei ao guru dos Beatles,

Maharishi Mahesh Yogi,

como salvar a economia brasileira.

Foi em 1991, mas vale ainda hoje.

51KL0hsg0KL._SY344_BO1,204,203,200_O guru indiano Maharishi Mahesh Yogi concluiu que a crise econômica brasileira só será resolvida quando o presidente Fernando Collor for capaz de “voar” com a própria energia mental para “o nível supremo da inteligência que administra o Universo”.

O venerando guru da década de 60 e dos Beatles vislumbra um “milagre econômico em seis meses” se o Brasil adotar o programa “simples” que propôs durante uma consulta exclusiva de 45 minutos, por telefone, entre Vlodrop, na Holanda, e Washington, DC.

“A troca de ministros é uma mudança superficial” – ele comentou, a voz fina e fanhosa. “Uma doença nas folhas e frutos das árvores deve ser tratada pela raiz”. Maharishi Mahesh Yogi significa “Grande Profeta”, ou “Destruidor da Ignorância”. Aos 79 anos, a vasta barba branca, ele introduziu a Meditação Transcendental no Ocidente, conquistou 25 mil discípulos pelo mundo e construiu um império avaliado em US$ 3 bilhões. Muitos já o consideram “um novo Ghandi”, ou “o próximo prêmio Nobel da Paz”.

Maharishi começou a falar da economia brasileira a partir de uma constatação: “A inteligência humana não será capaz de resolver a crise no Brasil”. E acrescentou: “O Brasil chegou ao nível supremo da ineficiência e inadequação de pensamento e de organização”. Ele contou que já advertiu os líderes brasileiros. “Mas acharam que se eu tivesse alguma solução para a economia do mundo, por que a situação economia no meu país, a Índia, não seria melhor?”

A economia do Universo é administrada por “um nível supremo de inteligência”, garante Maharishi, que se formou em Física antes de sair pelo mundo pregando paz e amor. “Baseio-me numa descoberta científica quando digo que a natureza trabalha sob o princípio da mínima ação, do mínimo esforço. A natureza não desperdiça inteligência, que organiza a diversidade infinita. Ela usa todo o seu potencial. Um universo infinitamente ordenado é o ideal supremo da economia. Temos abundância de inteligência criativa, a inteligência da natureza que a inteligência humana explora através da Meditação Transcendental”.

O Brasil está precisando do “Efeito Maharishi”. Ele é produzido pela energia liberada quando um meditador tenta levitar. Não é necessário que o presidente Fernando Collor saía voando pela janela do Palácio do Planalto, nem que se alce à altura da inflação. Basta o desejo de “voar”, em duas sessões diárias de 20 minutos de TM, sigla da meditação Transcendental em inglês.

O presidente Collor pode até delegar o trabalho de “voar” ao novo ministro Marcílio Marques Moreira, ou a um grupo de meditadores profissionais. “As vibrações emitidas coletivamente são maiores do que a soma de suas partes”, explica o guru. Ele acredita que foi um grupo de pilotos da TM que acabou com a Guerra Fria, unificou as Alemanhas e já produziu comprovadas altas em bolsas de valores. A guerra no Golfo só começou mesmo porque o presidente George Bush não apoiou a mobilização de um exército de 7 mil meditadores, ou 1 por cento da raiz quadrada da população mundial, que seria capaz de transformar o mundo ao custo de US$ 4 a 5 milhões de dólares por ano, se toda a mão de obra fosse contratada por salários mais baixos no terceiro mundo. Nem o presidente Saddam Hussein escaparia ao “Efeito Maharishi”.

O guru foi informado da preferência do presidente Collor por corridas. Voar, por esporte, só em aviões de combate. Então, reagiu: “Os exercícios físicos nada têm a ver com o ordenado movimento do dinheiro. Isso requer uma mente ordenada”. Ao ouvir que a um povo com fome ele está oferecendo meditação, lembrou: “Sim, sim. Há dois mil anos que as orações dos homens a Deus pedem o pão de cada dia. O pão não é um dom dos homens. A vida requer um nível supremo de inteligência”.

Maharishi acrescentou: “Há alguns anos o Brasil saiu de um regime militar para o civil. O que aconteceu? Os problemas foram adiados para uma próxima geração. Os brasileiros adiam muito. Para o próximo ano. Para a próxima estação. Mudar o problema não é sinal de inteligência. Há uma solução permanente a todos os problemas, que são causados pela violação das leis naturais. Temos um programa: meditação transcendental e prática grupal de voo. Estes são os valores que promovem a vida de acordo com a lei natural. Felizmente, muito simples. Uma solução a todos os problemas. É como quando um povo está vivendo na escuridão. Só resolve acender a luz. E todos os problemas da escuridão desaparecem”.

O violento confronto entre os latinos e a polícia perto da Casa Branca, no bairro de Mont Pleasant, deu ao Maharishi o argumento para uma nova campanha. Ele agora quer o fechamento de todas as embaixadas americanas no mundo até que passe o perigo de contágio da violência, como se fosse malária. “Uma quarentena”, está propondo. As decisões do presidente George Bush, com certeza, estão contaminadas pela alta criminalidade em Washington. Por isso, a quarta viagem de paz do secretário de Estado James Baker ao Oriente Médio “não poderá dar certo”. Por que?

“É muito simples: ele partiu carregado da criminalidade de Washington. As embaixadas americanas também estão influenciando o mundo com tendências criminosas. Quando alguém pega uma gripe poupa os amigos do contágio. Essa etiqueta da amizade deve valer para os governos”.

Maharishi não duvida que foi uma forte gripe que levou os Estados Unidos à guerra com o Iraque. “Isso é completamente óbvio”, ele reforça. “Se Washington não fosse a capital mundial do crime, o governo teria aceitado o meu conselho de criar um grupo de sete mil meditadores pela paz. Mas não pôde tomar uma saudável decisão”. Algumas vezes, durante o longo telefonema, gravado nas duas pontas, era claramente audível o coro dos discípulos de Maharishi, apoiando alguma declaração, ou apenas rindo.

“Você pode informar ao governo brasileiro”, pediu Maharishi, ao fim da conversa: “Não siga o padrão econômico dos outros governos. Não siga o padrão político dos outros governos. Apenas alinhe a consciência nacional com a inteligência natural. Então, ocorrerá uma transformação. Todos os problemas desaparecerão. Aconselhe ao governo a adotar meu plano master para criar o céu na terra”. Então, despediu-se com duas palavras inaudíveis.

Ps.: O guru Maharishi morreu em 5 de fevereiro de 2008, na Holanda.

Romeu (palestino), Julieta (israelense): beijo da paz?

Romeu e Julieta, por Frank Dicksee, 1884.

 Duas famílias nobres e inimigas,

em Verona, onde vai passar-se o drama,

renovam lutas por questões antigas

em que o sangue do povo se derrama.

Dessas duas famílias que o ódio afasta

implacável, nasceu um par de amantes

cuja má sorte, trágica e nefasta,

levou a paz às casas litigantes.

Desse ódio de família e seus extremos,

E o infausto amor, que ainda ao morrer, mais forte

do que o ódio, sepultou o ódio na morte,

no palco, em duas horas, trataremos.

Queira o auditório dar-nos atenção

E relevar a nossa imperfeição.” 

(William Shakespeare, prólogo de Romeu e Julieta, tradução de Onestaldo de Pennafort, MEC, 1940. 

  O palestino Romeu toma a israelense Julieta nos braços, e a beija apaixonadamente. Depois se matarão de amor, enquanto fora do teatro, palestinos e israelenses continuam se matando com pedras, bombas e balas.

  Em árabe, ao descobrir que Julieta é da inimiga família Capuleto, espanta-se Romeu: “A uma inimiga devo a minha vida!”

  Em hebraico, ao descobrir que Romeu é da inimiga família Montéquio, espanta-se Julieta: “O meu único amor, nascer de um ódio antigo!/ (…) Que monstruoso amor nasceu em mim:/ Devo odiar a quem amo, amar a quem odeio!” 

  Numa sacada no pomar dos Capuleto, Romeu e Julieta trocam juras de amor em diálogos hebraico-árabe, com legendas projetadas no palco em inglês, francês ou português, dependendo do público.

  Mortos na romântica tragédia de Shakespeare, em Verona, Romeu e Julieta enfim unem as famílias Montéquio e Capuleto, que tanto se odiavam. Mortos no trágico cotidiano palestino-israelense, em Jerusalém, eles renovam uma esperança de paz – “mas sem otimismo”, como contou a promotora internacional da coprodução palestino-israelense de Romeu e Julieta, Paula Karelic, numa entrevista em Tel-Aviv.

  Não falta só o aperto de mão conciliador do final imaginado por Shakespeare há 400 anos. “Falta-nos percorrer um longo caminho até um acordo definitivo entre nossos povos” – antecipou Karelic, que tinha um convite para apresentar Romeu e Julieta do Oriente Médio em São Paulo, em setembro de 1994. Faz 10 anos que os paulistas estão À Espera de Godot, mais para Samuel Beckett do que Shakespeare da Terra Santa.

  No mesmo dia histórico em que o líder da OLP, Yasser Arafat, e o primeiro-ministro de Israel, Yitzhak Rabin, deram-se as mãos nos jardins da Casa Branca, em Washington, o 13 de setembro de 1993, o beijo da paz entre Romeu e Julieta foi acertado entre duas companhias de teatro dos extremos de Jerusalém – a palestina Al-Kasaba e a israelense Kahn.

  De Verona para Jerusalém, os inimigos Capuleto e Montéquio mostrariam que israelenses e palestinos podem conviver numa mesma terra, e em paz. Ou dividir um palco. A OLP deu sua bênção. “Tratados não são apenas um pedaço de papel” – observou Ahmed Tibi, conselheiro de Yasser Arafat, ao jornal The Jerusalem Post: “A paz tem que ser implementada pelos dois povos”. Mesmo abençoado, o Al-Kasaba foi acusado de “precipitação”, e os “colaboracionistas”, ameaçados de morte.

  Os radicais do Hamas se opuseram por razões religiosas. Pressionado pela comunidade judaica, escandalizada com as cenas de amor entre um palestino e uma judia israelense, o Festival de Berlim suspendeu o patrocínio de parte do US$ 1,4 milhão dos custos da produção. Por onde passaram, e passam, Romeu e Julieta do Oriente Médio deixam um rastro de atentados anunciados, nunca ainda acontecidos.

  “Aceitei fazer Romeu e Julieta porque acho que o banho de sangue e o ódio devem ter um fim, e também porque, se nosso destino é vivermos juntos, temos que começar a conhecer uns aos outros” – explicou o diretor artístico do Al-Kasaba, George Ibrahim, que no palco representa o velho Montéquio, quando entrevistado na época da estreia num antigo galpão da Companhia Elétrica de Jerusalém, em 16 de junho de 1994.

   “A única alternativa para a paz é a morte” – foi o que também declarou o diretor artístico do Khan, Eran Baniel, que perseguiu por cinco anos, como a uma miragem no deserto bíblico, a ideia da montagem binacional de Romeu e Julieta. Marcaram os ensaios grandes atentados. Os atores se encontraram mesmo sob o impacto do massacre de 29 árabes em Hebron por um lunático judeu norte-americano, ou das explosões sangrentas em Afula e Hadera que mataram 13 israelenses, ou dos frequentes toques de recolher e da tensão beirando a conflagração de uma guerra geral. Às vezes, nem ensaiavam. Apenas conversavam até diluir as barreiras que cresciam isolando mais ainda os Montéquios e Capuletos médio orientais.

  George Ibrahim só foi adiante amparado pela própria mensagem da tragédia de Romeu e Julieta, que ele diz ser “contra o ódio sem sentido”. Então, convenceu-se: “É nosso dever prosseguir”. Os palestinos Montéquios não recorreram a recursos óbvios de identificação, como o tradicional kefiah, o turbante enrolado na cabeça. Já são naturalmente diferentes dos Capuletos. O diretor Fuad Awad, que nasceu em Nazaré, na Galileia, e estudou teatro na Universidade de Tel-Aviv, aproveitou Shakespeare para estabelecer uma ponte entre os atores árabes que são cidadãos israelenses e os palestinos da Cisjordânia e Gaza. “Formamos um mesmo povo”, contou ao jornal Le Monde, e o explicou: “Quando sou detido por horas numa barreira militar, e às vezes revistado sem saber por que, me pergunto se o teatro é capaz de criar uma nova situação. Este é o sentido da minha pesquisa sobre a identidade palestina”. A crítica também se despiu do simbolismo evidente para aplaudir o espetáculo enquanto arte.

Francesco Hayez, óleo sobre tela, 1823.

Francesco Hayez, óleo sobre tela, 1823.

Apesar de todas as aspirações políticas desta produção, o impacto maior é provocado pelo trabalho artístico”, como aplaudiu o Post de Israel,  mesmo lembrando que uma dupla direção pode criar um “pacote misto, e uma representação desigual”. O telefone da Julieta israelense, a atriz Orna Katz, 26 anos, tocou muito depois da estreia em Jerusalém. Beijar Romeu palestino, o ator Khalifa Natur, 29 anos, causou um assombro internacional.

  “Uma grande ideia”, disse Julieta. “Os palestinos estão envolvidos na cultura israelense por causa da ocupação. E nós não estamos na deles. Assim há uma troca. Todos aprendemos”.

  Ao tomar Julieta nos braços, Romeu lhe pede: “Ficai imóvel, pois, minha santa querida/ Enquanto eu colho a graça concedida”. E a beija. “Vossos lábios dos meus o pecado apagaram”, ele se maravilha. E responde Julieta: “Mas com o vosso pecado os meus ficaram!” Claro que com a deixa Romeu aproveita para beijá-la pela segunda vez: “Ficaram com o pecado? Oh! doce usurpação! Restituí-me o meu pecado então!”

 Beijos da paz, depois de encontros secretos entre palestinos e israelenses em Oslo, uma conferência em Madri, um aperto de mãos histórico nos jardins da Casa Branca, e muito, muito sangue derramado.

Paraíso de dólares brasileiros

Tantos dólares de brasileiros

nos paraísos fiscais, tirei do baú a reportagem que

fiz para o Estadão em 1991, em Cayman.

 É do  caribe…

Transparência só na água do mar. Foto carib.com

Transparência só na água do mar

Bandeira de Cayman

Bandeira de Cayman

Entusiasmado com a multiplicação de negócios brasileiros no paraíso fiscal das Ilhas Cayman, no Caribe, um banqueiro suíço sugeriu: “Por não criar uma linha aérea direta com o Brasil?”. A resposta de um banqueiro brasileiro: “Só se a batizarmos de Capital Flight”.

A evasão de capitais, ou capital flight em inglês, já alcançou cerca de US$ 3 bilhões só em depósitos nos bancos brasileiros no exterior (em 1991), principalmente em Cayman. Se forem contabilizados os depósitos nos bancos internacionais, a evasão de capitais do Brasil já atinge  total estimado entre US$ 30 bilhões e 60 bilhões.

Uma pesquisa altamente reservada, pedida por um banco 1920x1080-Cayman-Islands-Airborneinternacional em Nova York, revela os níveis estimados de depósitos nas agências de alguns brasileiros no exterior. Ao total estimado em US$ 2.235 bilhões, devem ser acrescentados cerca de US$ 600 milhões em depósitos no banco Delta, que pertence ao Real. “A lista só inclui gente pequena”, garante um banqueiro com muita experiência em negócios com brasileiros. Os ricos do Brasil preferem os grandes bancos americanos ou suíços.

Os tesouros das Ilhas Cayman não são os aparentes. O esplendor do cristalino fundo do mar só está acessível a mergulhadores e aos passageiros de um submarino turístico, o Atlantis. O sigilo bancário é impenetrável, submerso em mistério e inviolável por lei.

Do Atlantis, a US$ 60 por hora de passeio, avista-se o monte multicolorido que emerge do mar chamado Grand Cayman, 768 quilômetros ao sul de Miami, entre Cuba e Jamaica. Ao lado, estão as ilhotas Cayman Brac e Little Cayman. Ao fundo, numa profundidade média de 4 mil metros, os abismo conhecido como Cayman Trench. Ao avistar duas ilhas muito pequenas, cheias de tartarugas, quando navegava perdido entre o Panamá e Hispaniola, em maio de 1503, Cristóvão Colombo as batizou de Las Tortugas. Mas, 20 anos depois, elas reapareceram como se fossem Lagartos num mapa italiano. As tartarugas e lagartos evoluíram, em 1530, para crocodilos – os Caimanas do Caribe.

Grand Cayman é um Grande Crocodilo, com 35 por 6,4 quilômetros, a metade pântano. Little Cayman, o Jacarezinho, tem 16 por 1,6 quilômetros, com o ponto mais alto a 12 metros acima do nível do mar. A origem do sobrenome Brac da terceira Cayman seria galega – blefe. Esse Crocodilo de Mentira, com 19,2 por 1,8 quilômetros, é, na verdade, um templo de mergulhadores.

Os crocodilos desaparecem na bandeira de Cayman, substituídos por um leão de ouro, uma tartaruga e uma inscrição: “Fundada sobre os mares”. As próprias tartarugas entraram em processo de extinção. Foram muito caçadas por navegantes e piratas, num holocausto que os caimaneiros tentam reparar. Perto do Inferno, na ponta norte da ilha Grand Cayman, as tartarugas são criadas em vários tanques e devolvidas ao mar, numa experiência única no mundo. Mas a fazenda foi atingida por uma violenta ventania, um dia antes do Natal do ano passado, e está se recuperando da perda de cinco mil tartarugas de três a 15 meses. Ainda falta tirar o bife de tartaruga do cardápio dos restaurantes, onde a oferecem como um prato típico. Uma ironia: a carne pode ser comprada, sob encomenda, na fazenda criada pelo ideal da preservação.

As fotos da rainha Elizabeth e do príncipe Philip decoram a alfândega do aeroporto internacional Owen Roberts, em George Town, a capital da Grand Cayman. As ilhas passaram da Espanha para a Inglaterra com o Tratado de Madri, em 1670. Os caimaneiros nunca quiseram ser independentes. Foram administrados pela Jamaica por quase cem anos, desde 1863. Optaram por manter a tutela direta da Coroa Inglesa quando os jamaicanos proclamaram a independência, em 1962. E, orgulhosos, dirigem os carros na contramão do Caribe, como se estivessem em Londres, mesmo com os volantes do lado esquerdo.

A fidelidade total à coroa compensa. As ilhas Cayman mantêm o mais alto nível de vida do Caribe. O Produto Nacional Bruto equivale a US$ 17.400 por pessoa e continua crescendo a uma média de 5,8% ao ano (em 1991). Cada dólar caimaneiro vale US$ 1,25. Não há desemprego. A inflação está em torno de 10%, importada, como 95% de todos os produtos à venda. A Inglaterra nomeia um governador para cuidar da defesa, relações exteriores, segurança interna e serviço público. Ele escolhe três dos sete membros de um Conselho Executivo e ainda preside a Assembleia Legislativa, com 12 deputados eleitos. Não há partidos políticos formais, mas apenas dois times: o Dignidade e o Unidade.

A isenção de impostos nas ilhas Cayman é lendária. Ela foi conquistada numa noite tempestuosa de novembro, em 1788, quando o primeiro de um comboio de dez navios mercantes bateu contra os recifes da Baía do Canhão. Todos naufragaram. Mas os bravos navegantes caimaneiros enfrentaram o mar para resgatar tripulantes e passageiros, entre eles até um membro da Família Real. O rei George III ficou tão grato que extinguiu os impostos e o serviço militar na colônia. Estava criado o paraíso fiscal, só concluído em 1976, com a adoção de uma legislação para garantir o total sigilo bancário.

O tesouro das ilhas Cayman é hoje avaliado em US$ 380 bilhões – o quinto no mundo. Um total de 538 bancos e 18.264 empresas já lançaram âncoras no paraíso de águas verde-claras e da estabilidade política e econômica em pleno Caribe. Outros ainda seguem o mapa da mina. Dos 50 maiores bancos mundiais, 44 já chegaram. E, dos brasileiros, 17 estão no registro oficial do Inspetor dos Bancos.

As igrejas também crescem nesse paraíso. Já são 60. E a população passou dos 25 mil, com 20% negros, 20% brancos e 60% de “inseguros” – mas nem um pouco preocupados, como explicou um caimaneiro à revista National Geographic.

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Contas são movimentadas à distância

A abertura de uma conta num banco internacional de George Town, em Grand Cayman, seguiria uma burocracia rotineira não fossem as máquinas de picar papel. Podem nem ser usadas, mas estão sempre à disposição. Um banqueiro suíço ficou famoso por sentar os clientes ao lado de uma dessas devoradoras de papéis. Documentos comprometedores viram confete ou longas serpentinas. Uma cerimônia de triturar anotações muitas vezes marca solenemente o final das reuniões.

Mas nem sempre o cliente está presente. E nem mesmo o banco. As contas de brasileiros em Grand Cayman são abertas e movimentadas por fax, telefone, telex e computador a partir de Nova York, Miami, São Paulo, Rio de Janeiro, Assunção e Montevidéu. “Você é o primeiro brasileiro que aparece aqui em um ano e meio”, exclamou um executivo do Banco Econômico, André da Silveira Neeser. A maioria dos bancos não passa de uma plaquinha na parede e um número de caixa postal. Dos 538 registrados, apenas 69 existem fisicamente. Entre eles estão o Banco do Brasil, Real/Delta, Banespa, Unibanco e o Transworld Bank Trust Limited, ex-Econobank e ex-Econômico.

“Lucro no Exterior não é cobrado no Brasil”, diz um banqueiro para explicar o registro de bancos brasileiros em Cayman. E ele acrescenta: “Aqui, a operação é inteiramente legal. Em Nova York também, se você for estrangeiro. Mas em São Paulo ou Rio, não. Os gaúchos vão até Montevidéu para transferir dólares para Cayman. Lá, inclusive, o câmbio é livre. Os paranaenses cruzam a fronteira para o Paraguai. E o Banco do Brasil em Buenos Aires não estará cometendo nenhum crime perante as leis da Argentina se executar alguma operação de transferência. Na verdade, o cidadão brasileiro pode ter conta no exterior desde que a revele na declaração do Imposto de Renda. Não acredito que declarem. A maioria não quer nem receber os extratos das contas. Preferem um dia buscá-los”.

Alguns bancos abrem contas em Cayman para clientes especiais no próprio Brasil. Cobram uma taxa de remessa, outra para ordens de pagamento, e até apresentam um recibo de depósito em três dias. Pagam a Libor, os juros interbancários de Londres, que está em torno de 7%. E se livram ao mesmo tempo dos bancos centrais brasileiro e americano. Alguém que tenha mais de US$ 2 milhões vai certamente procurar um grande banco internacional, conta um corretor de Nova York. Será recebido com sofisticação. E poderá ter uma conta corrente completa, com talão de cheque, posições de investimento e um trabalho de administração de fundos pessoais. Ganhará um código de acesso por telefone. O Citibank, o Morgan, o Chase e os suíços possuem uma organização fantástica para atender clientes ricos. Mas, apesar de toda a infraestrutura de comunicações dos paraísos fiscais, ainda há quem carregue a própria mala de dinheiro.”

Queremos Viver

 

No post anterior, morte. Uma semana depois, vida.O casal setuagenário que procura um médico que o mate reencontrou o filho médico distante há cinco anos. Mas não foi uma reconciliação. “O que você quer?”, perguntou-lhe o pai, o publicitário aposentado Murillo Ferreira, enquanto a mãe, Arminda, estava sentada no sofá da sala, onde passa os dias abatida pelo mal de Alzheimer.

   “A reportagem…”, respondeu o médico cujo nome o pai pede para não ser revelado. A reportagem, na capa do Estadão de domingo, “Por favor, queremos morrer”, conta o drama de um casal junto há 53 anos, solitário após uma vida rica em amigos, doente e amargurado pelo abandono do filho médico e de um outro que não dá notícias desde 1982, quando foi morar em Salvador.

   Murillo achou que o filho ia criticá-lo por ter provocado “a reportagem” com uma carta ao Estadão em que defende o “direito de morrer”, atestando: “…é o que queremos, eu e minha mulher”. Acrescenta: “Os nossos corações já estão rateando. Os pulmões, tocando os seus foles. A cabeça, já meio louca, coitada, fazendo o que pode. O corpo trasteja, se fere, fratura, desgasta. As pernas, já não mais tão serviçais, estão cansadas, com mais de 70 anos cada uma. Tudo isso como dói! Dói por dentro, dói por fora. Aliás, a dor é o melhor sinal da vida. Só não dói depois da morte. Por tudo isso é que resolvemos deixar de sentir dor…”

   Mas o filho nada mais falou. Nem Murillo. E nem Arminda. Ela fez várias vezes o sinal da cruz, seu tique nervoso. Ainda ontem vestia a mesma calça e blusa de uma semana atrás, ela que foi uma mulher muito elegante. Viu-se no jornal, mas nada comentou.

   “Ficamos como imbecis, sem diálogo”, comentou Murillo. “Aí meu filho se levantou e foi embora”. Só depois é que ele se lembrou que Arminda toma um remédio que agora requer receita médica. E que o filho talvez poderia dá-la.

   “A reportagem” não sensibilizou só o filho de Murillo. Desencadeou uma avalanche de cartas e telefonemas de solidariedade ao casal, recebidos pelo Estadão. Muitas pessoas estão se oferecendo como companhias, enfermeiras se voluntariam para cuidar de Arminda, asilos e casas de repouso abrem espaço aos dois, médicos se colocam à disposição, religiosos querem dar amparo espiritual, jovens pedem o endereço para levar doces e antigos amigos reaparecem, chocados, propondo “resgatá-los para a vida”. Ao final de seu programa, anteontem à noite, Hebe Camargo criticou os filhos que abandonaram os pais.

   Murillo chorou ao ler a carta do amigo Hugo Maia, publicada ontem no Estadão. “Não consegui terminar”, ele contou. “As lágrimas saíram aos borbotões”. Foi um alívio: “Esvaziou a pressão permanente dentro de mim”. Para um casal que há quatro anos só recebeu em casa a faxineira diária e o repórter, na semana passada, a solidariedade geral emocionou. Arminda não fala, mas está visivelmente mais ativa. “O assunto” (a eutanásia) que a deixa nervosa não é mais a única conversa. Os moradores do prédio bateram à porta para oferecer apoio e esperança. Mas o casal não convidou ninguém para entrar. E não autorizou o Estadão a fornecer o endereço ou o telefone a quem está procurando um contato.

   “Essa homenagem em vida me faz querer morrer mil vezes”, Murillo comentou ontem, com uma ponta de morbidez.

Queremos morrer

Casal pediu ajuda para morrer, em carta a jornal.

Escrevi esta reportagem que foi a que mais repercutiu em meus 45 anos de repórter.

Tanta repercussão, que o casal decidiu viver, uma semana depois.

Hoje, marido e mulher estão mortos.

Morreram de causas naturais, num asilo no interior de São Paulo.

Morte e vida, Gustav Klimt.

Morte e vida, Gustav Klimt.

Casal setuagenário procura médico que o mate sem dor, com uma injeção. “Direito de morrer: é o que queremos, eu e minha mulher” – atesta Murillo B. Ferreira, 75 anos, numa carta ao jornal O Estado de S. Paulo. “Queremos morrer de braços dados, juntos como há 53 anos”, ele confirma ao receber num pequeno apartamento “uma segunda pessoa (o repórter) em quatro anos” – a primeira foi e continua sendo a faxineira diária.

  No meio do sofá de uma sala estreita, no mesmo lugar onde passa as tardes sentada, óculos sobre o Caderno 2 todo dia destacado e dobrado para ser lido “depois”, como o próprio banho “há meses” adiado para “amanhã”, Arminda Ferreira, 73 anos, tem seu tique nervoso, um sinal da cruz, e põe a mão sobre a do marido com um doce sorriso: “Não digo sim nem não”, ela comenta sobre o “Assunto”, como se refere à eutanásia. Está com Alzheimer, a doença que levou a americana Janet Atkins a inaugurar a máquina de suicídio do Dr. Jack Kevorkian, conhecido por Dr. Morte nos Estados Unidos.

  Uma pintura a óleo na parede da sala de estar vazia mostra Arminda quando jovem, em 1952. Era tão bonita que levou Murillo a postar-se diante do colégio Caetano de Campos só para vê-la caminhar até o ponto de ônibus na praça da República. Um dia de 1938 conversaram. “Era só papinho, mas foi, foi e foi”, ele agora lembra. Em cinco anos, ela então formada professora, casaram-se. Foram morar em Perdizes, bairro aonde voltaram agora por coincidência, depois de inúmeros endereços abertos dentro e fora de São Paulo por uma vida muito agitada. Noutra parede há um retrato mais atual, pintado pela própria Arminda: uma floresta de árvores desfolhadas, sobre um fundo amarelo. O outono do casal? Não, pelo menos não era essa a intenção.

  Murillo é um homem muito organizado. Faz a lista dos congelados que vai encomendar para o mês, elabora um cardápio para a semana, dá baixa do que retira do freezer e pode acrescentar às vezes algum comentário sobre sabor e preço, tudo na sua portátil Remington 55. Já organizou a própria cremação. E se gaba de anotar tudo desde 1920. “Mas foi quando você nasceu!”, exclama Arminda. “Pois é: todos os acontecimentos estão registrados”, ele confirma. Até a lista do que mais o irrita, deixando-o “a ponto de explodir”, por causa de um “acúmulo tenebroso”, está datilografada, sobre a mesinha diante do sofá.

  Por exemplo: há dois meses deu um cheque de R$ 240 que o banco debitou

R$740. “Isso me apavora: não entendo um erro assim”. Segundo item da lista de “pesadelos” é um remédio antigo de Arminda que passou de repente a ser vendido só com receita médica. “Fui a um pronto-socorro, expus o problema, e um médico então deu a receita… Mas cobrando R$124”. Outro dia Murillo voltou ao banco e ficou hora e meia na fila esperando a reativação da rede de computadores, em pane. “Demais!”, protesta: “O homem já foi à lua e as máquinas aqui na terra ainda não funcionam!” O IPTU recebido sem a via do contribuinte… “É possível isso?” Com uma trombose na perna esquerda ele teve que sair para fazer um xerox.

  “Estou cercado de bombas de efeito retardado”, pressente Murillo. “Não sei onde nem quando vão estourar”. Arminda faz um sinal da cruz.

  O “B” do sobrenome de Murillo não aparecerá por extenso para não identificar os dois filhos do casal. Um é médico, casado com uma médica, mas distante há cinco anos, embora vivendo em São Paulo. “Nem manda mais telegrama no Dia das Mães”. E não sabe que os pais procuram um médico que os mate, esgotados de viver. “Está de bem com a vida e bem de vida”. O outro não dá notícias desde 1982. “Talvez ainda esteja morando em Salvador”. Seguindo um longo rastro de calote em dívidas deixado pelo filho, e que o pai foi pagando com a venda de imóveis, carro e as coleções de 1500 long-plays e de 3 mil livros, os dois enfim se reencontraram numa “favela” em Itaparica, na Bahia. Combinaram uma reunião familiar. “Então, ele aprontou mais uma atrapalhada, e agora nem sei se continua vivo”.

  Murillo é de Recife. Aos 14 anos, perdeu o pai Luiz Mateus Ferreira num sanatório de Davos, na Suíça. Era arquiteto formado na Alemanha e dirigia a Escola de Belas Artes de Pernambuco. A família visitava parentes na Europa quando a morte a desmembrou. A mãe alemã, quando voltaram ao Brasil, o colocou no internato do colégio Anglo-Brasileiro, no Rio de Janeiro. Em seis anos ela também morreria. “Com 20 anos não tinha mais ninguém”. Teve que se aprumar sozinho. “Queria subir na vida, progredir…” Talvez por isso, agora lamenta, “não tenha dado a devida atenção aos filhos”. Não que deixasse lhes faltar algo: “Tinham tudo e estudaram nos melhores colégios de São Paulo”. Mas restava pouca presença paterna.

  O sonho de Murillo era se tornar médico. Mas ele nem tentou realizá-lo porque teve que trabalhar logo que acabou o ginásio. “Eu me fiz”, orgulha-se. Foi publicitário nas agências Lintas e J. Walther Thompson. Deixou a propaganda quando “Chatô” (Assis Chateaubriand, dono da rede Associados de jornal e TV) o convidou para dirigir a área comercial das rádios Difusora e Farroupilha de Porto Alegre. Depois, por 12 anos, foi diretor comercial da TV Paulista e das rádios Excelsior e Nacional de São Paulo. “Hebe Camargo, Sílvio Santos, Golias…tinha contato com todos”. Mudou de ramo em 1969: tornou-se administrador da caderneta de poupança Delfin, empresa de crédito imobiliário. Aposentado em 1976, ele continuou trabalhando. Passou então pelo Diário do Nordeste, em Fortaleza. “O melhor ano de minha vida, esse de 1982”. Mas Arminda não se deu bem. “Desde 1970 ela já dava sinais de depressão”. Viviam bem. Tinham casa no Sumaré, eram sócios do Pinheiros, viajavam, muitos amigos os cercavam.

  “Dramático é chegar na situação em que estamos hoje”, lamenta Murillo. “Para”, pede Arminda. Mas ele continua: “Hoje não encontro uma pessoa conhecida em São Paulo”. E Arminda repete: “Chega”. Mas o marido insiste: “Impressionante! Como se fôssemos de Marte, uns E.Ts.. Restam-nos as lembranças”. Mas mesmo as lembranças são traiçoeiras. Como a viagem de ônibus entre Miami e Califórnia que fizeram em 1955, agora trazida à tona. Ela: “Ah, os sorvetes!” Ele: “Comemoramos o aniversário dela no Grand Canyon”. Ela: “Nova Orleans era tão bonita!” Ele: “Felizmente aprontamos”. E os dois desembocam rapidamente na tristeza do aqui agora.


Arminda vestia Clodovil. Encomendou-lhe especialmente o longo em que foi fotografada no casamento do filho. “Há cinco anos usa só duas calças e duas blusas”, conta Murillo. Ela fica mexendo nos botões, calada. No guarda-roupa teria múltiplas escolhas, mas sequer o visita, nem por curiosidade. “Se não a forço a trocar-se, ficaria sempre com a mesma roupa”. Sempre muito organizado, ele bolou uma lista com sugestões para a mulher distribuir o tempo, dividindo-o em blocos de dez dias. “Mas ela só fica sentada, dizendo: amanhã, amanhã… Isso me deixa mais doente”. O casal vive da aposentadoria e de “algumas aplicações”. E se rotula “classe média remediada”.

  Murillo conhece dois sintomas típicos da doença de Alzheimer, que provoca uma progressiva degeneração do cérebro: “Tendência ao suicídio ela não tem”, exclui um. Outro, sim: “Banho ela não toma”. Arminda reclama: “Tomo sim!” E ele rebate: “Já não sei mais quanto tempo faz que não ligo o gás do chuveiro para ela”. Seriam “meses”, garante. “Fico possesso”. Então, chega ao principal item da lista do que mais o irrita: “Alzheimer é irreversível e vai só se agravando”.

  A preocupação maior de Murillo é morrer antes de Arminda. Se só ficar doente já será um grande problema: “Ela não sabe nem mais preencher um cheque”. Ensinou-a o símbolo do Real, juntos rascunharam vários cheques, e passado um dia, esqueceu tudo. Uma vez, ele de cama, os dois morando em Guarujá, ela desceu para comprar pão. Não soube voltar. A um quarteirão de casa, e perdida. “Me desespero: era uma professora, hoje está nesse estado”.

Munch

Munch

Arminda desvia os olhos, não encara o marido. Fica catando alguma coisa na blusa. Ela tem duas irmãs. Murillo procurou uma delas, que “mora num apartamento grande”, filhos casados, e lhe perguntou se poderia recebê-la, mesmo provisoriamente, até que arrumasse vaga numa casa de repouso, caso ele morresse de repente. “Comprometia-me a deixar todas as despesas pagas”. Há quatro anos espera uma resposta. “Aí desisti de procurar a outra irmã”. Então concluiu: “Não temos ninguém”. Pior: “Se me acontecer algo, minha mulher entra em parafuso”.

  O pequeno escritório com a Remington e duas gravuras de Aldemir Martins na parede, “presentes do amigo Caio Alcântara Machado”, é o “inferninho” de Murillo. Gostaria de levá-lo para onde fosse. E aí começam os problemas com asilos e casas de repouso há três anos pesquisados. “Não há espaço para um pouco de independência nem gostam de receber casais”. A preferência por avulsos tem uma lógica comercial: “O casal ocupará um quarto por R$1.200 que renderia mais se dividido entre duas ou três pessoas a R$750 cada”. Ele tentou asilar-se pondo anúncio em quatro jornais. Uma oferta que recebeu prometia uma área verde para longos passeios. Na verdade, era uma praça diante da casa, “um depósito de velhos”. Tentou o interior: “Os telefones não atendem”. Encontrou uma exceção no Lar dos Velhinhos de Piracicaba, “uma cidade com 85 anos”. Mas lá não há vagas.

  Quando Arminda teve que operar o útero, em 1992, o “inferninho” e outras exigências acabaram esquecidos. O casal entrou para “um asilo 5 estrelas” da Sociedade Beneficente Alemã, no Butantã, que incluía assistência médica pós-operatória. Logo ganharam o apelido de “Casal 20”, porque mais novos que todos. “Éramos brotinhos em comparação aos outros; por isso, fomos discriminados”, Murillo lembra, hoje arrependido de ter saído após um ano. Sofria com a perda de independência. Queriam ampará-lo, e ele reagia. “Isso desagrada num asilo, e eu não estava preparado”. Aos poucos, porém, foi se convencendo de que até poderia se ajustar, numa nova temporada. A hipertensão, a trombose na perna esquerda e a hérnia inguinal neutralizaram sua compulsão pela liberdade de fazer o que bem quer.

  De 147 casas de repouso em São Paulo só se salva 1%, garante Murillo: “Entrei em lugares que são verdadeiras baias para cavalos, casos de polícia”. Na carta que enviou ao Estadão ele menciona uma reportagem publicada em fevereiro sobre os filões de produtos e serviços que fazem parte do mercado da Terceira Idade. E pergunta: “Neste filão não há asilos?” Ele mesmo tem a resposta: “Não encontrei”. É então que acrescenta: “Daí optamos, eu e minha mulher, para a eutanásia, o direito de morrer. Pensamos muito. Pensamos durante um longo tempo. Não temos dúvida sobre a nossa decisão”.

  Arminda faz um sinal da cruz: “Nem gosto de ouvir falar”. Murillo procura justificá-la: “Conversamos, mas ela não se fixa muito, esquecendo tudo dois minutos depois”. Ainda bem que “vive com ideias fixas”. Todo dia, quando acorda, ela faz tudo sempre igual. Pega um paninho e o passa nos parcos móveis da sala. Depois senta no lugar de sempre no sofá até o entardecer. Vê um pouco de TV antes de dormir. Adormece em 20 minutos. Se o marido sai, fica aflita. Se demora, vai capengando com muita dificuldade para o hall do 15º andar. Quer sempre a porta aberta para poder ficar ali, diante dos elevadores. Ela própria não sabe por quê. Faz três meses que ela esteve “lá fora”, na rua Cayowaá: foi ao cabeleireiro.

  “Estou desesperado, não aguento mais”, desabafa Murillo. Com carinho, ele chama a atenção de Arminda, o olhar perdido. “Vamos embora os dois juntos, e da melhor maneira possível… Sem dor… Uma injeção”. Como se despertasse, ela diz: “Essa prosa me deixa nervosa”. Ele então ameaça: “Se necessário for, tomo uma medida drástica, coisa que não quero”.

  Suicídio? Murillo garante que “método violento está fora”. Até porque “não teria coragem de matar Arminda”. Na carta ao Estadão ele justifica a opção pela eutanásia: “Somos um casal de setuagenários que já perdeu qualquer visão idílica de uma vida futura saudável, tranquila e segura. Não conseguimos afugentar os fantasmas da velhice. Não conseguimos assimilar as mudanças que ocorreram em nossas vidas. Queremos ter o direito de morrer. Os nossos corações já estão rateando. Os pulmões, tocando os seus foles. A cabeça, já meio louca, coitada, fazendo o que pode. O corpo trasteja, se fere, fratura, desgasta. As pernas, já não mais tão serviçais, estão cansadas, com mais de 70 anos cada uma. Tudo isso como doi! Doi por dentro, doi por fora. Aliás, a dor é o melhor sinal da vida. Só não doi depois da morte. Por tudo isso é que resolvemos deixar de sentir dor…”

  Se um médico aceitar o papel do Dr. Morte, Murillo quer um mês para organizar o fim. A cremação já está arranjada. Os bens, também já decidiu, serão doados ao Hospital do Câncer. A dúvida ainda é Arminda. Se não quiser ir junto, ele terá que encontrar alguém que zele por ela até morrer. “Então morrerei tranquilo”. No sofá, a mulher lhe estende a mão. E sorri solidária. Depois afasta a fumaça do cigarro esquecido pelo marido no cinzeiro. E faz um sinal da cruz.

  A despedida já foi escrita. É o final da carta ao Estadão: “Geramos filhos para que perpetuassem, bem ou mal – no nosso caso foi mais para o mal do que para o bem – a nossa passagem, com um nome, memórias, amor ou indiferenças e saudades ou esquecimentos. Tudo absolutamente ilusório. Já fomos fanáticos por ciclos de vitórias e derrotas, de alegrias e prantos, de lutas que começam num grito de choro e terminam num suspiro. O temido último suspiro. Não o tememos mais… A gente vive um sonho de carne e osso, que acaba no acordar que é a morte. Queremos acordar…”

 

Leia também Queremos Viver.  (Houve uma terceira reportagem, com Murillo e Arminda se instalando no asilo que queriam morar, em Piracicaba.)

Leia também Queremos Viver.
(Houve uma terceira reportagem, com Murillo e Arminda se instalando no asilo que queriam morar, em Piracicaba.)

Lagoa do Barro liga a TV

Foto de Clóvis Ferreira, Estadão Conteúdo, 19/11/1933.
Foto de Clóvis Ferreira, Estadão, 19/11/1983.

Faz 21 anos, em 19 de novembro, que a energia solar chegou a Lagoa do Barro, cidade do Piauí então acessível apenas a carro à gás, com bujão extra para a volta. Quem imaginar que houve corrida, enfim, às geladeiras, pois até aqui tudo apodrecia sob o calor do sertão, está enganado. O povo se reuniu diante da janela da Prefeitura para ver aquilo que muitos já tinham ouvido falar, mas nunca tiveram chance de ver:  a TV.

Hoje, quando texto e foto chegam a um blog na internet, a 510 milhões de quilômetros da Terra e a mais de dez anos de viagem, o robô Philae transmite as primeiras análises da superfície e as fotos de um cometa que pode explicar a origem do universo. 

A caixa preta foi se iluminando de cores até formar imagens e soltar um som que hipnotizaram a plateia de pé ou em lombo de burros. Pronto: acaba de chegar a TV em Lagoa do Barro, uma cidade com 48 anos e 4.819 habitantes isolada a 530 quilômetros ao Sul de Teresina, no Piauí.

  Olhos arregalados diante dos adultos vestidos de crianças do programa “Chaves”, no SBT, o roceiro Joaquim Dias, 50 anos, entra na idade da TV com um desafio: “Agora vamos ver se há mesmo roubalheira em Brasília, como já vieram me contar”. Até agora, explica, só “assistia o rádio, que pega mal”. Para o filho, Toninho, é uma estreia na vida. E ele nem parece perturbado: “Tenho medo, não” – avisa aos amigos. Mas atrapalha-se, talvez nervoso, quando lhe perguntam quantos anos tem. “Nenhum”, responde. O pai o socorre, enquanto o televisor vai sendo ajeitado numa janela da escola José Magalhães Ribeiro, na praça principal, em obras: “Deve estar com 16 anos, porque já pode votar”.

  No ar, a TV em Lagoa do Barro. Mas onde estará Toninho? Sumiu, e ninguém o encontrará mais nesta histórica sexta-feira, 18 de novembro de 1993. Até choveu por meia hora quando não chovia desde março, molhando superficialmente uma das maiores secas do século no Piauí.

  ***

  Foi um verdadeiro programa ao vivo de pré-estreia à magia da TV. O céu amanheceu bem coberto, mas o vento levava embora as nuvens e as esperanças de chuva, como nos últimos dias. Um cenário desolador: açudes secos, cacimbas com resto de água salobra e esverdeada, aguadores em seus jegues pela estradinha poeirenta de 107 quilômetros até São João do Piauí, o gado esquelético vagando em busca do verde, a mata só galhos, crianças só pele e osso, e camaleões disparando pelas paredes de barro vermelho. Então, choveu. Um alívio marcado por cheiro de terra e alegria em Lagoa do Barro. A confusão com um cachaceiro levado à delegacia dissipou-se logo aos primeiros pingos.

  “Cacau está caindo” – comentou Ursino Ribeiro Coelho dentro da drogaria Rainha dos Anjos, a padroeira da cidade. “Tá bonito”, completou Lucinha, por trás do balcão. No Hotel da Neguinha já se avaliava a chuva: “Vinte dessas é que resolvem”. No bar Sertanejo de Cecílio já se previa: “Amanhã vai ter rosa-de-jericó”, uma erva que se abre com a primeira chuva, e que sobrevive à seca enrolada como uma bolinha. Uma poça foi logo promovida a rio. Ela se formou no cruzamento das duas ruas principais. “Todo mundo empacado no rio” – gozou Andralino Martins Rodrigues, ex-operário de uma empreiteira em São Paulo, rindo de quem encharcava os pés ao tentar saltá-la. A enxurrada dos telhados enchia panelas no chão. “Parecia fina, mas deu tanta água”, constatou Abílio Marques da Silva, 79 anos, um pioneiro da cidade. Ele se lembra dos anos em que choveu: “Em 1924 foi bom. Em 1926, ótimo. Depois, só em 1940 e 44. As últimas duas foram em 1960 e 85”. E agradece a Deus pela “chuva que anima”.

  É Abílio quem sabe explicar a origem do nome Lagoa do Barro do Piauí. “Simples”, conta: perto da cidade brotando na caatinga, em 1945, o rio Gameleira fazia uma curva, aproveitada por olarias para o fabrico de telha e tijolo. Mas alguns habitantes folclorizam, a partir do nome de duas vizinhas – a Lagoa de Areia e a Lagoa de Baixo: “Tudo para ver se nasce alguma lagoa de verdade”.

  A primeira casa do povoado foi fincada debaixo de um juazeiro, quase em frente ao bar Sertanejo do Cecílio. Ao se emancipar, em 29 de abril de 1992, já eram mais de 150 casas. “Eu morava há um quilometro, e fui atropelado pelas construções”, lembra Abílio, encerrando a história de Lagoa do Barro. A chuva de hoje, para ele “vasqueira”, rara, será “de grande utilidade para o criatório” – as cabras e bodes que se alimentam da rosa-de-jericó. Já a TV, o outro grande acontecimento do dia, ele compara à uma escola. “Facilitará o aprendizado das crianças. Todo uso dela é uma educação”.

  ***

  As noites de Lagoa do Barro nunca mais serão as mesmas desde que o forasteiro Nelson de Oliveira Jorge chegou com uma filmadora, confundida com binóculo, e trouxe a luz solar para a TV e dez postes de rua, há 15 dias.

  “Luz é uma maravilha; a gente passeia mais favorável”, reconhece Abílio, o pioneiro da cidade que começa agora a ser iluminada. O breu só era defendido mesmo por alguns namorados. A TV foi prioritária, e não a geladeira para guardar vacinas no posto de saúde, ou mais postes, por decisão popular. Mas a prefeita Hildete Oliveira Coelho tem outros “projetos luminosos” para Lagoa do Barro já negociados com Nelson, diretor da Heliodinâmica. A luz deverá chegar, por exemplo, às salas de aula.

  “Vou sair no binóculo?”, pergunta um bêbado. Nelson nem responde porque surgem na rua duas senhoras conhecidas por “Marcianas”, e ele entra em ação com a filmadora. Hoje elas também são chamadas de “Canarinhas” porque se vestiram de amarelo brilhante. Sempre se vestem com as mesmas roupas e cores, e passeiam de mãos dadas. Correm de medo da câmera. Chamadas, devolvem um recado: “Já temos namorados”. Um assessor da Prefeitura tenta convencê-las a entrar no “binóculo”, mas volta comentando: “Cortaram as asas das Canarinhas… Estão bravas”.

  Outras duas senhoras famosas em Lagoa do Barro são as solteiras e octogenárias irmãs Valentina. A mais velha, Mundinha, 84 anos, não se aposentava para não ter que entrar num carro e ir até São João do Piauí para fazer a papelada. Acabou cedendo, na semana passada, tentada por um salário mínimo, mas não revela nenhuma remota pista do que sentiu. Ela pouco fala, atualmente. Olegária, com 80 anos, é mais “moderna”: viu TV uma única vez, em 1978, quando ficou num hospital em tratamento. “E avião, só de muito longe”. As duas passaram a vida na roça em Gameleira de Cima, há 12 quilômetros, e vieram à cidade só para enterrar o irmão, Constantino Aprígio, 78 anos, que “começou a morrer com diarreia e acabou de velhice”. Vão ficar até o dia dos Reis, em 6 de janeiro. Rostos marcados como a terra seca, enrugados, elas sorriem quando se fala em casamento: “Na idade em que estamos não se casa mais”, concordam.

  ***

  Lagoa do Barro não tem cinema. Um padre a visita a cada três meses. Um médico, uma vez por semana. “Aqui se morre de desnutrição”, diz o jovem Dr. Rosemildo de Souza Figueiredo. Os doentes partem da consulta de receita na mão atrás de Lucília, filha de 20 anos da prefeita Hildete e já tesoureira da Prefeitura, com o curso completo de segundo grau. “Ajudamos porque ninguém tem dinheiro para os remédios”, ela explica. Lucinha, na drogaria Rainha dos Anjos, vende mais vitaminas e analgésicos, porque “a maioria das receitas é aviada fora”. A feira vem às sextas de Olicuri, na Bahia, há 60 quilômetros. A porta para o resto do Brasil, São João do Piauí, abre-se para um ônibus semanal, ou carona em peruas movidas ao gás, em duas horas e meia de pé e buracos. Um único telefone serve a todos. Liga-se para o número (086) 487-1377, o posto telefônico na (futura) praça Tancredo Neves, e um funcionário da Prefeitura irá pessoalmente buscar em casa quem estiver sendo chamado. A única diversão era o jogo “Caipira” nas duas mesas de dados na rua principal. Mas agora chegou a TV.

  A TV e a luz dos dez postes são ligadas às 6 da tarde. Os telespectadores apertam-se num corredor diante da janela com o televisor de 23 polegadas. Pelos lados vão estacionando burros e ciclistas como automóveis num cinema ao ar livre. O Aqui Agora e o TJ Brasil, do SBT, reinam na primeira hora. O Jornal Nacional e Fera Ferida, da Globo, encerram a programação de três horas diárias, às 9 da noite, no horário local, um a menos do que em Brasília. A sessão poderá ser prolongada se Lagoa do Barro instalar mais baterias de energia solar, ampliando o sistema que custou Cr$ 1,5 milhão, e inclui uma parabólica que capta 8 canais.

  A estreia da TV, depois da chuva e da feira, na sexta-feira à tarde, atraiu uma multidão. A telespectadora Ana Silva recuperou com as primeiras imagens o tempo em que morava na favela Jardim Silvina, em São Bernardo do Campo. “Até já me vi em televisão falando do desabamento do meu barraco depois de dois dias de dilúvio”, ela conta. Era uma exceção: flagelada da chuva entre flagelados da seca, esnobou o programa Chaves, que “tanto já tinha assistido”. Mas os outros não desgrudavam os olhos da caixa preta iluminada. Alguns meninos na primeira fila chupavam dedos, distraídos e maravilhados.

  A mãe de Ana, também Ana Silva, 48 anos, assistia de camarote a sessão vespertina de TV: estava montada num jumento. Mais tarde andaria 18 quilômetros até o sítio do Magalhães, onde mora. E prometia: “Vou vir sempre ver TV”. Outra telespectadora-montada, Maria do Socorro Dias, estacionou o burro equipado com uma garrafa de cerveja, ao lado de um bebedouro de animais. Chapéu de couro de cangaceiro, Joaquim Dias espremeu-se entre os meninos na fileira da frente, e nem piscou, os olhos arregalados. Estava só, sem o filho Toninho, que escapou à primeira televisão da vida. Emissários que o procuraram voltaram ao “Chaves” derrotados.

  Joaquim será “freguês” dos noticiários. “Quero acompanhar as traquinadas de Brasília”. Com “Marcianas”, “Valentinas” e outros personagens na cidade, muitos dispensam a dose diária de novela. O vice-prefeito Hermínio Ribeiro concorda: “A gente agora vai se informar”. O homem da luz solar, Nelson, alimenta um curioso projeto pessoal de consequências imprevisíveis: mostrar aos habitantes de Lagoa do Barro como eles reagiram à chegada da TV. Está tudo gravado em sua filmadora. Para quem só agora descobre a televisão deve ser espantoso passar direto ao vídeo, e ver-se na tela. “Em Lajes do Piauí, um distrito de Coronel José Dias, já nos receberam como se fôssemos deuses ou ETs”, ele conta. “Ali sequer conheciam o gelo até outubro”.

  O filme de Nelson só não foi rodado na estreia da TV por falta de vídeo. E a câmera quase ficou despedaçada, por pouco não reduzindo a pó as cenas da chegada da TV em Lagoa do Barro, durante uma tomada arriscada em que filmava, deixada no chão, uma perua de faróis acesos se aproximando até cobri-la e derruba-la. A última imagem é a de um grande diferencial à frente, mais baixo do que se esperava, e o inevitável choque.

  O Brasil sem luz

  Mais de 30 milhões de brasileiros vivem como os 4.819 habitantes de Lagoa do Barro, sem luz, distantes da rede elétrica e do que acontece no Brasil. Os eleitores que elegeram o deputado João Alves (PPR-BA) no interior de Presidente Jânio Quadros, no Sul da Bahia, sabem “só por ouvir dizer” que uma CPI da corrupção poderá cassá-lo. Em todo o mundo, por um cálculo da ONU, são 2 bilhões que ainda não chegaram a idade da eletricidade.

  A solução que iluminou Lagoa do Barro estava no que existe de mais abundante e inesgotável no Nordeste: o sol. Ele pode brilhar à noite se durante o dia for captado e armazenado em painéis solares. A “fotossíntese elétrica” é feita por “módulos fotovoltaicos”, compostos por células de silício que produzem eletricidade quando expostas à luz, mesmo em dias nublados. Quanto mais módulos, mais energia. Cada um sistema de 40 watts custa cerca de US$ 500. Mais de 20 mil sistemas já foram instalados no Brasil pela Heliodinâmica, a única empresa nacional que produz células solares.

  A energia solar está nos barcos do navegador Amyr Klink, nas baterias que recarregam os aviões da Taba em aeroportos da Amazônia, na telefonia celular rural, em bombas de água de cacimbas do Nordeste, na iluminação pública do Palácio do Planalto, em cercas eletrificadas de fazendas e até num protótipo de carro solar brasileiro, o The Banana Enterprise. O diretor financeiro da Heliodinâmica, Nelson de Oliveira Jorge, iluminou uma caverna na Serra do Capivari, em São Raimundo Nonato, depois de inaugurar a TV de Lagoa do Barro. Ele próprio enfrenta a escuridão com um novo sistema de energia solar, portátil, já vendido para o exército brasileiro.

Ah, Jerusalém!

Foto: Jerusalem.com

Foto: Jerusalem.com

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As pedras da fundação do mundo brilham douradas sob o sol, e prateadas ao luar. Dão cor e identidade a Jerusalém. Testemunharam a criação do primeiro homem, a morte e a ressurreição de Jesus, a vida de cidadãos ilustres como Abraão, Isaac e David, e a cavalgada de Maomé aos céus. Ê o que contam a Bíblia, o Talmude e o Alcorão, os guias oficiais da Terra Santa.

Pedras três vezes consagradas. Os judeus as veneram no Muro das Lamentações. Os muçulmanos cultuam o rochedo rachado pelo impulso da ascensão de Maomé, na Mesquita de Omar. E os católicos as seguem pela Via Dolorosa. Na paisagem bíblica, surgem empilhadas, equilibradas, formando cercas. Os arqueólogos as reviram. Judeus ortodoxos e palestinos as atiram, como armas. Turistas as visitam. São muralhas, minaretes, sinagogas, igrejas e mesquitas.
Pedras de calcário dolomita que reergueram 25 jerusaléns destruídas em 25 séculos de guerras entre judeus, gregos, romanos, cristãos e muçulmanos. Pedras da discórdia ainda hoje. Yerushalaim, em hebraico, É a “Cidade da Paz” – e tanto ódio provoca! Em árabe, Al Kuds, “A Santa” – e sempre tão cruel. A Bíblia (Zacarias, 8:3) chama Jerusalém de a “Cidade da Verdade” – ela que está minada por contradições Étnicas e religiosas. Cidade do “Verbo” – não do diálogo. Cidade dos Espelhos” do escritor israelense Amos Elon – “espelhos que são metáforas que a verdade de cada religião atribui a cidade que reflete seu passado e seu presente”.

Dez medidas de beleza foram
  conferidas ao mundo; nove
  foram tomadas por Jerusalém,
  e uma pelo resto do mundo.
  (Talmude)

A alma de Jerusalém está cercada por 4,5 quilômetros de muralhas reconstruídas em 1537 pelo sultão Suleiman, o Magnífico, no traçado romano original do século II. Pode-se dar a volta por cima delas em quatro horas. Dentro, apenas um quilômetro quadrado. Ê o bastante para conter séculos de história das três grandes religiões monoteístas. O judaísmo imperou de 1003 a.C. até o ano 70 d.C., e depois se intercalaram o cristianismo (de 300 a 638 e de 1099 a 1187) e o islamismo (de 638 a 1099 e de 1187 a 1917). Hoje convivem Alá, Jeová e Jesus. E o ar “É saturado com orações e sonhos” como o ar poluído sobre as cidades industriais. “Difícil respirar” – comenta o poeta israelense Yehuda Amichai.
A alma de Jerusalém tem oito portas. As quatro principais se abrem como uma rosa-dos-ventos. A imponente Porta de Jafa era a saída para o porto, à Oeste. Ê a mais movimentada. A Porta de Damasco abre-se para a cidade de à e para a Síria, ao Norte. Por ela entra-se no bairro muçulmano. A Porta dos Leões aponta para o Leste, para Jericó. E a Porta de Sião está na direção de Hebron, ao Sul. Uma porta ainda se tornará a mais importante do mundo, se nela for mesmo bater o Messias tão esperado pelos judeus. Os árabes a fecharam há séculos para impedir a visita. Chama-se Porta Dourada, ou “Porta da Compaixão”. A Porta Nova foi furada em 1887 para dar acesso direto ao bairro cristão. Por uma “porta de serviço”, a Porta do Esterco, penetra-se no monte Moriah, que muitos consideram o local mais carregado de energia espiritual do planeta.

Aqui, segundo o Gêneses, Deus criou o primeiro homem. E Abraão sacrificaria o filho Isaac, não fosse a intervenção de um anjo. Ainda aqui o rei Salomão construiu o Templo de um império que se estendia do Eufrates ao Egito, em 1043 a.C., e do qual resta só a muralha ocidental, conhecida como Muro das Lamentações. As frestas entre as pedras adoradas estão cimentadas de papeizinhos com pedidos de fiéis. Também já É possível enviar por fax uma mensagem para Deus, graças a um novo serviço inaugurado pela companhia de telecomunicações israelense. A ligação para Deus, em Jerusalém, “É local”. A mesquita dourada de Omar, com o rochedo de Maomé, e a de Al Aksa, que marcou a visita histórica do presidente egípcio Anuar Sadat a Israel, estão praticamente por cima do muro. Não apenas uma cidade dentro da outra, mas uma sobre as outras, como mostram as escavações ali ao lado, na cidadela de David. Os muçulmanos deram o terceiro lugar religioso do Islão para Al Kuds, “A Santa”, depois de Meca e Medina, na Arábia Saudita. Atrás do monte Moriah, logo À esquerda, está o Santo Sepulcro, repartido entre seis diferentes seitas cristãs. A soma das três religiões, num espaço tão pequeno, cria uma espiritualidade quase palpável.
Judeus de quipás balançam-se fervorosamente diante do Muro, muçulmanos de kafias e descalços curvam-se na direção de Meca, e cristãos tocam a terra que enterrou Jesus, ao som do chofar, do canto do muezim nas minaretes e dos sinos no Santo Sepulcro, num cenário de Velho Testamento. Ver Jerusalém, e enlouquecer: muitos peregrinos acabam internados como mais um João Batista, outro Messias. Em cinco dias ganham alta, e voltam À realidade.

Se eu me esquecer de ti, oh Jerusalém,
  esqueça-se a minha dextra da sua destreza.
  Apegue-se a minha língua ao paladar,
  se não me lembrar de ti,
  se não preferir Jerusalém à minha maior alegria.
  (Salmos)

Nem todas as pessoas passeiam nas ruas da Cidade Velha de Jerusalém dialogando com Deus, como diz o escritor Amos Elon. Há muitas que se concentram no shekel, a moeda dos tempos bíblicos que circula ainda hoje em Israel. O shuk, o mercado árabe, vive engarrafado de gente. A multidão é um caleidoscópio. Passam rabinos com seus grandes chapéus e trancinhas, os árabes de kafia e gelabiah, turistas com mochilas e filmadoras, franciscanos, coptas, drusos e armênios, e soldados com metralhadoras. Os mercadores ficam À porta de suas lojas convidando quem passe pelas ruelas para um negócio, que às vezes acaba numa disputada barganha. Vendem tapetes feitos à mão, vestidos beduínos, bijuterias, jogos de café típicos, caixinhas de madrepérola e bugigangas. Alguns sentam-se em tamboretes, contemplativos, chupando o narguilé, a máquina de fumar, e permanecem assim durante horas.

E folgarei em Jerusalém,
  e exultarei no meu povo;
  e nunca mais se ouvirá nela 
                                       voz de choro nem voz de clamor                                 .   
Reconstrução da antiga Jerusalem. (Foto:  commons.wikimedia.org)

Reconstrução da antiga Jerusalem. (Foto:
commons.wikimedia.org)

  E edificarão casas, e as habitarão;
  e plantarão vinhas
  e comerão o seu fruto.    
  (Isaías)

Fora das muralhas, Jerusalém espalha-se pelos montes Herzl, Scopus e das Oliveiras. Uma cidade contrastante, moderna, construída com a mesma pedra dourada. O antigo e o novo foram reunificados com a Guerra dos Seis Dias, em 1967, depois de 20 anos divididos por uma linha de cessar-fogo com a Jordânia, estabelecida pelas Nações Unidas. O Muro das Lamentações e o museu dos mártires do holocausto nazista, Yad Vashem, marcos do judaísmo, integraram-se na capital contestada de Israel. Os palestinos querem Al Kuds, a Cidade Velha, como a capital de uma futura Palestina. O Vaticano propõe torna-la um patrimônio sagrado comum às três grandes religiões monoteístas. E os judeus de todo o mundo repetem nas festas de Pessach, a Páscoa, que coincide com a primavera: “No ano que vem em Yerushalaim”. A unificação tornou-se lei constitucional, aprovada pela Knesset, o Parlamento, em 30 de julho de 1980. Mas um novo destino para Jerusalém foi selado com o aperto de mãos entre o primeiro-ministro Yitzhak Rabin e o líder da OLP, Yasser Arafat.