Os dias em que não morri

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Foto Creative Commons

Por duas vezes, na guerra do Líbano, vivi a morte bem de perto. Mas sobrevivi e estou aqui, agora, relembrando. Nada heroico. Apenas o dia a dia de um correspondente.

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Moussa Sadr

 

Saí correndo de Beirute atrás de um telex ao norte de Israel. Estava sem contato com a redação do jornal, em SP, desde que uma bomba destruíra, três horas antes, o gerador do hotel Commodore, onde ficávamos os repórteres que cobriam a guerra no Líbano. Sabotagem ou coincidência, sempre que o noticiário do dia era desfavorável à OLP, buuuum!, acabava a luz — e adeus transmissão de filmes, fotos e textos.

Peguei a estrada do litoral, deformada pelas sapatas dos tanques no asfalto amolecido pelo sol. Os correspondentes de tevês iam até Damasco, mais perto. Mas eu, barbudo, com carro com placa israelense e nome judeu, não seria bem recebido pelos sírios. Perto da veneranda cidade de Tyre, fundada em 2750 a.C., entrei num desvio sem mais asfalto, uma reta poeirenta com poucas casas do lado direito. Avistei uma multidão em passeata. Era muita gente, segurando cartazes e gritando.

E aí? Que fazer? Dar meia-volta, fugir? Isto já faria de mim uma presa, ou alvo de tiros. Ficar? Prisão certa, ou linchamento imediato. Não poderia acelerar contra a multidão… Então, travei portas e vidros automáticos, à espera.

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Israel no sul do Líbano, foto Creative Commons

A turba vinha furiosa. Reconheci a foto que muitos brandiam. Era o imã Moussa Sadr, líder xiita do sul do Líbano, nascido na cidade sagrada de Qom, no Irã.

A multidão engolfou meu carro, que balançou, balançou, mas ninguém tentou abrir a porta. Cegos de ódio, nem me notaram. Eu tremia. De repente, vi a frente livre. Saí devagar, depois acelerei fundo. Alguns quilômetros adiante, no asfalto de novo, parei para comprar água e saber o que estava acontecendo. Ouvi: Moussa Sadr havia desaparecido desde que seu avião fez escala em Trípoli, na Líbia, a caminho de Roma. Certos de que ele fora assassinado, seus súditos exigiam a cabeça do coronel Muamar Kadafi. O mistério não foi desfeito até hoje.

No mesmo Citroën esportivo branco, com placa do país invasor, me perdi uma noite em Beirute. Não existiam GPS, Waze e nem celular. Um sinal indicara que tinha entrado na “terra de ninguém”, uma zona neutra separando os inimigos. Como sair dali? E, dependendo da saída, quem encontraria?

Rodei a 20 km/h até ler uma placa em francês, Café du Brésil. Só podia ser um sinal para mim. O problema era um monte de terra, talvez uma trincheira abandonada, bloqueando o caminho. Mas fui! Acelerei, saltei ao bater na barreira, e pousei diante de alguns soldados que apontavam os fuzis para mim. Talvez não tenham atirado por causa da placa israelense. Ou deveriam, por isso mesmo: poderia ser um camicase com carro roubado. Pegaram meus papéis e foram checar com o serviço de imprensa, em Jerusalém, se eu era mesmo repórter credenciado. E a guerra continuou por mais cinco meses.

 

7 comentários sobre “Os dias em que não morri

    1. A continuação: fui para outras guerras, na América Central, Ruanda, e me tornei correspondente em Washington por seis anos,depois na França por outros dois anos, mas sempre voltando ao Oriente Médio (eleiçóes, morte de Rabin, etc). Só estive diante da morte mais uma vez, e sobrevivi: foi quando tirei a bexiga tomada por câncer. Faz três anos, e estou bem. Abraço, rabino

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