Je suis Enéas

Muito antes do “Je suis Charlie” tornar-se viral e incorporar outros nomes,

existiu o médico Enéas Carneiro, candidato a presidente no Brasil.

Ele dizia “Meu nome é Enéas”, e pronto: esgotado seu tempo de propaganda na TV.

Desde 6 de maio, há oito anos, seu bordão passou a ser:

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São Paulo, 1998 – Proclamava-se o próximo presidente do Brasil, sem ser um dos dois favoritos nas pesquisas de opinião pública, e assegurava: “Não estamos loucos, nem delirando”. Tornou-se coletivo: “Nosso nome é Enéas”. E começou a marcar entrevistas para o dia 1º de janeiro, na rampa do Palácio do Planalto.

“Delirantes-falsos-mentirosos-fabricados” são os 4,4 pontos porcentuais das intenções de votos que o colocaram em quarto lugar na corrida presidencial, acima dos ex-governadores Leonel Brizola (4,1 pp) e Esperidião Amim (1,9 pp), e ameaçando Orestes Quércia (5,5 pp) – “esses senhores extremamente mal dotados pela natureza”, como diz. Mas ele se nega a comemorar já uma vitória para o minúsculo Partido da Reedificação da Ordem Nacional (Prona).

O Dr. Enéas, médico de 55 anos, sabe-se o “próximo presidente” porque obteve uma prova de que o Prona não constou de uma pesquisa do Ibope em Porto Alegre. Ele tem uma “testemunha espontânea”, com denúncia registrada em cartório, e ficou indignado: “Como acreditar em pesquisa se o nome da gente não está incluído? Quem quiser confira, em qualquer esquina, de qualquer cidade: oito, nove ou dez em cada cem pessoas apertam a nossa mão e admitem que estão do meu lado”. Essas estatísticas “não são verdadeiras, lamentavelmente, e visam mostrar ao nosso eleitor que não adianta votar em nós, que não temos chance. A maior finalidade delas é colocar uma pedra de uma tonelada em cima da nossa candidatura”.

O “próximo presidente” Enéas Ferreira Carneiro está convencido de que já se elegeria no primeiro turno se dispusesse de três minutos na TV, ao invés de 1,15 minutos. “É convicção nossa, face ao que a gente vê nas ruas. Não estamos todos loucos. Não é possível que estejamos todos em pleno delírio. Somos médicos, engenheiros, advogados – homens de todas as profissões. O que vemos é bem diferente do que mostram as pesquisas”. Mas tudo bem que só seja confirmado presidente no segundo turno. Como ele já explicou à nação: “Só eu tenho as condições necessárias para exercer a Presidência da República, porque sou desligado do sistema que tem tentáculos em toda a parte, um verdadeiro tumor com as suas metástases”. Políticos profissionais, para ele, “são uns pascácios”, ou tolos.

Enéas e Clodovil

Enéas e Clodovil

SEM MAQUIAGEM – O Dr. Enéas orgulha-se de ser pontual. “Em 20 anos de aulas nunca atrasei um minuto. Nunca! Às 21h30 de quinta-feira, como tinha marcado, ele entrou na TV Record, em SP, para uma entrevista ao programa 25ª Hora. As poucas tietes de plantão o reconheceram, mas não se aproximaram. Caçavam duplas caipiras. Barbudo, careca, pequeno e muito magro dentro de um terno jaquetão azul-escuro, exalando pressa como se ainda só tivesse 17 segundos para pronunciar “Meu Nome É Enéas”, seu slogan de 1989, ele dava a impressão de que explodiria à menor provocação. Engano. Dócil, atento a um relógio que tirou do bolso para o tampo da pasta 007, onde guardava uma camisa, ele até surpreendeu: “Pergunte o que quiser, e lhe responderei com a minha franqueza”.

Estado – Essa rigidez com os horários, sua proposta de “orrrrrdem”, o discurso como uma metralhadora… não é por isso que o estão tomando por fascista?

Enéas – Não existe uma grande nação no mundo sem essa rigidez. É preciso que exista.

Estado – Fidel Castro também é rígido…

Enéas – Sim, só que ele exagera, com pena de morte e outros coisas de que discordo. Veja o exemplo da Copa do Mundo: ali houve ordem! Imagine um professor que diz aos alunos: começamos às 19h30, paramos às 21h, recomeçamos às 21h20, e terminaremos às 22h40. Só sai da aula quem estiver passando mal. Quando um aluno quer falar de política, eu o corto: “Por favor, doutor, aqui estamos falando de Medicina”. Imagine ser sempre assim, chova ou faça sol. É bom poder dizer isso. E imagine dar esse exemplo à nação, essa vontade de acertar. Apresentamos nosso projeto, e prometemos: vamos cumpri-lo. Ter horário, ter orrrdem, fazer as coisas funcionarem, é ser ditador?

Estado – Já o chamaram até de palhaço!

Enéas – Não consigo olhar para a imprensa de modo imparcial. Ela não traduz a realidade dos fatos. A Veja me chamou de palhaço. Ora, eu dou aulas para médicos há 20 anos. Tenho mil alunos por ano estudando comigo. Um jornalista que se diz cientista político escreveu aleivosias a meu respeito. Não procuro a imprensa. Se um repórter é elegante comigo, recebe o mesmo tratamento. Mas quando já me procura com ar de mofa, ironia, eu o trato devidamente. Já me perguntaram se sou exótico ou fascista. Aliás, nem foi uma pergunta, mas uma afirmação. Fiquei irritado. Exaltei-me. Sem tempo, não retruquei. Aí concluíram que era fascista. Isso é uma distorção. Querer que o Brasil seja livre, querer que nossas riquezas sejam nossas, que tenhamos um lugar ao sol, como todas as outras nações, isso é ser fascista, meu Deus? Se for, que nos chamem de fascista, tudo bem.

Orrrrdem. Respeito. Os dois assessores do Dr. Enéas o admiram. Fotos, só durante o tempo combinado. Nada de o flash disparar de surpresa e flagrá-lo espontâneo, talvez coçando o nariz. Diante de um cafezinho, pausa. Maquiagem para ir ao ar? De jeito algum: “Quero só lavar o rosto com água” – ele se defende, como se ameaçado.

O LIGEIRINHO – O Dr. Enéas estava lendo num jornal que na eleição de 1989 os candidatos teriam a TV à disposição. “Era carnaval, e isso me marcou”, ele lembra. “Nunca tinha participado de nenhuma reunião política. Mas já vinha discutindo em casa essa angústia que qualquer pessoa que não esteja comprometida sente no Brasil, essa falta de esperança, essa tristeza infinita do homem comum”. Então, sua terceira mulher, a promotora de auditoria militar Adriana Lorandi Ferreira Carneiro, o desafiou:

-Por que você não faz alguma coisa?

-O quê?

-Sei lá, candidate-se a presidente da República.

E aí está. O ex-militar e cardiologista que anulava o voto desde 1960, quando o presidente Jânio Quadros o decepcionou, mergulhava na política “por profunda indignação”. A professora Clarisse Fecury, diretora da Escola 24 de Janeiro, no segundo distrito de Rio Branco, onde Enéas nasceu, já o conhecia por “falar ligeirinho”. E o Brasil o comprovaria em 1989: em 17 segundos, ele conseguia pronunciar 56 palavras.

O pai era barbeiro. E morreu quando ele tinha nove anos. “Passei uma época muito difícil, trabalhando para ajudar minha mãe”. Tornou-se sargento, aos 19 anos, para estudar Medicina. E foi primeiro lugar num vestibular disputado por 755 candidatos na Faculdade Fluminense de Medicina. Ao sair do Exército, em 1965, tinha um currículo com cinco mil anestesias. Hoje, com 38 itens, acumula diplomas em cardiologia e física, aulas de português, taquigrafia e conferências. Da vida pessoal conta apenas o objetivo. Tem três filhas, cada uma com uma mulher, e todas muito discretas. Mora num apartamento próprio de 140 mil dólares em Laranjeiras. Seus vizinhos pouco o encontram no edifício. Às vezes paga com atraso o condomínio. E tem um Escort 1987.

“Quando me meti em política não foi para me tornar como o candidato do PT, que diz: venci. Venceu em quê? Fazendo greve? Qual foi a atividade em que este senhor se distinguiu na vida a não ser fazendo greve? Ao que saiba, ele não trabalha há 15 anos. Por que não estudou, se fala tanto em educação? Por que não se preparou para se tornar Presidente da República. Ele está preparado para perder, como já aconteceu. É o adversário ideal para o candidato do sistema. Fraco, fraco na argumentação. Uma beleza… para ser esmagado”.

Com a bomba atômica o Brasil se faria respeitar no mundo

Com a bomba atômica o Brasil se faria respeitar no mundo

    O BRASIL DE ENÉAS – Seria contra a invasão do Haiti: “Condenamos a intervenção de um país em outro”. Protestaria contra o bloqueio a Cuba: “Deixemos que cada país resolva seus problemas”. Diria às grandes potências: “Deixem-nos em paz. Deixem a nossa Amazônia em paz. Vamos parar com essa história de dar uma terra enorme, maior do que Portugal, para meia dúzia de índios. Vamos acabar com esta história de internacionalização. A economia internacionalizada quer dizer, em outras palavras: nações subdesenvolvidas de joelhos”.

         Enéas, o presidente, “faria do Brasil um país forte”, para evitar um Kuwait tropical. “Quando falo em reorganizar as forças armadas, a imprensa grita: absurdo! Dizem que estou ressuscitando assombrações porque meu candidato a vice-presidente é um almirante respeitadíssimo, o almirante Gama e Silva. Mas por que o Kuwait foi invadido? Por que não tinha poder de dissuasão…”

O Brasil de Enéas “deixará de ser um país extrator, e se tornará transformador”. Vai se impor ao mundo como “nação soberana”. Todas as riquezas minerais pertencerão a um monopólio estatal. Antes de assumir o poder, porém, o “próximo presidente” já lamenta: “É a este grito nacionalista que estão dando o nome de fascismo”. Ele preconiza um estado técnico, forte e intervencionista. E como médico, num partido formado por médicos, proibiria o aborto. “Não aceitamos nenhuma forma de interrupção da vida. E somos contra a eutanásia e a pena de morte”. E a favor da obrigatoriedade do hino nacional nas escolas, que passam a ter primário e ginásio.

O “presidente” Enéas rebatizará o Real. Voltará o Cruzeiro. “O real nada tem de real, é uma farsa, um plano maquiavelicamente tramado para dar certo temporariamente. Mas o cruzeiro, não”. Para intervir “em monopólios e oligopólios, prender quem desrespeitar controle de preços e reduzir as taxas de juros ao nível do mercado internacional”, o Brasil viverá sob um Estado de Emergência Econômica.

Estado – Mas os eleitores não estão aprovando e votando no Plano Real? Não os assustará um Estado de Emergência Econômica?

Enéas – Qualquer migalha que se dê ao homem simples o fará feliz. Quem vivia com uma inflação de 50% ao mês, e de repente, mesmo ganhando a miséria de 65 reais, vê que o dinheiro está estável, suspira de alívio. Essas pessoas têm um imperativo categórico, usando a linguagem de Kant, o grande filósofo alemão: comer. Para elas, pão na mesa é o fundamental. Ficam satisfeitas quando constatam que o dinheiro vale o mesmo que há quatro dias. Compreensível, natural… Mas o Sr. percebe que isso é uma farsa, que daqui a pouco isso vai explodir outra vez. Essas pessoas são tão simples que não sabem o que significa Estado de Emergência Econômica. Mas sentem uma profunda sinceridade quando falo. São atingidas não pela razão fria, mas pela emoção. E aí somos todos iguais: o servente que limpa o chão e o astrofísico. Ambos amam, odeiam, têm esperanças.

O “presidente” Enéas está convencido de que “o único lugar em que se pode endireitar o Brasil é na Presidência, de cima para baixo”. Por isso vai para lá.

NOSSO NOME É ENÉAS – “O governo, os meios de comunicação e os institutos de pesquisa mentem, mentem de modo sórdido” – diagnostica o Dr. Enéas. “Este tripé forma um grande poder. Poder terrível. Maligno. E asfiiiiiixia a população. O povo sequer pode ser informado. Quando alguém, e somos um exemplo, se levanta, emerge, querendo apenas servir, então não presta, torna-se um perigo, um ditador, fascista. Em 1989 o epíteto era Cacareco – um indivíduo que não tem projeto. E agora que temos um projeto, somos um perigo. Meu Deus, não entendo mais nada. Realmente, não entendo”.

Estado – Quem está dizendo “Nosso nome é Enéas”? Quem são seus eleitores?

Enéas – São pessoas lúcidas, que não aguentam mais essa onda de desordem que aí está, que perceberam que vem sendo manejadas, conduzidas qual uma manada de búfalos para o precipício, e que observam ir-se estiolando tudo que presta na nação, os valores cívicos sendo eliminados, destruídos, famílias esquartejadas diante de telas de TV inundadas por imagem de sexo quase explícito no horário nobre… Meu eleitor são essas pessoas, a grande maioria da população. Por isso repito: se tivesse três minutos, bastava isso, não haveria necessidade de segundo turno.

O presidente Itamar Franco deverá deixar o cargo com um nível de popularidade estimado em 83%, um recorde hemisférico. Talvez faça seu sucessor, é o “Presidente do Real e do Tetra”. Mas Enéas, que se acredita o “próximo presidente”, afirma que ele deveria, na verdade, “se envergonhar”. E explica: “Vergonha de não ter apresentado um projeto para o Brasil, vergonha da tristeza que contagia todas as pessoas e vergonha dos índices de mau estar social”.

A deputada federal Regina Gordilho, única do Prona, vê o Dr. Enéas mais do que um fenômeno. “Ele é o nosso salvador”, ela diz.