No deserto, com Mister Chuva.

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thetransarabia.com – Lawrence da Arábia

2013-06-21 13.04.17Como uma miragem no deserto, os beduínos vão passando. E desaparecem, para sempre. São uma tribo em extinção. O deserto se tornou fértil: em se plantando, nascem oásis; e em se perfurando, jorra petróleo.

Restam uns 60 mil beduínos em Israel. Mais da metade ainda vaga sob o sol do deserto do Negus com seus camelos e tendas. Mas outros 40% já encontraram endereço fixo em cidades, enterrando a vida nômade nas dunas de areia. Trocaram a poesia por água encanada, esgoto, emprego e lazer. E foram bem-vindos.

Muita poesia: “O beduíno tem o ar, os ventos, o sol, a luz, os espaços abertos e um imenso vazio” – escreveu o arqueólogo, militar, espião e escritor inglês Tomas Edward Lawrence (1888-1935), o lendário Lawrence da Arábia, no livro Os Sete Pilares da Sabedoria. Continuando: “Ele não vê na natureza fecundidade nem esforço humano: simplesmente o céu acima e, abaixo, a terra imaculada. Assim ele se aproxima inconscientemente de seu Deus”.

El Badwi, beduíno em árabe, é sinônimo de estepe e de começo. Então, o mundo começa nas estepes do deserto. Os judeus também acreditam que no deserto esteja a Casa de Deus. Onde também moram o silêncio, o vento, o calor e o vazio.

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Subindo o Monte Sinai

Tive um guia beduíno para escalar os 2.265 metros até a “Porta do Céu”, o Jbel Mussa, o monte em que Moisés, cego e já com mais de 100 anos, teria recebido de Deus os dez mandamentos. Ia à frente, com um galão de água, pouco antes que o deserto do Sinai voltasse à soberania egípcia pelo acordo de paz com Israel. Chamava-se Chuva. Vestia um longo casacão preto e a tradicional keffiah, o pano branco assentado na cabeça por um cordão preto. Ele me falou de um amigo que namorou uma turista americana, num oásis à beira mar, “o hotel de Mil e Uma estrelas”. Daí nasceu um filho, alguns meses depois, em Nova York. A mãe queria o pai por perto, e lhe enviou uma passagem aérea. Provocou uma polêmica ecológico-diplomática: pode-se transplantar um beduíno das dunas de Ras Muhammad (a praia Cabeça de Maomé) para Wall Street, o Village, a Broadway?

Chuva era realmente uma raridade do deserto. Ele não sabia o fim da história de seu amigo. Só o começo: “Era uma vez um beduíno que foi para Manhattan…” Ele também repetia uma piada apropriada ao local, apreendida com turistas. “Quando chegou ao topo da montanha, e Deus lhe perguntou para onde queria levar seu povo, Moisés, que estava gago, tentou responder: “Ca…ca…ca…” Canaã, como foi completado, precipitadamente. Na verdade, os judeus queriam ir para o Ca…ca…Canadá. Ou a Ca…ca…Califórnia.

Muitos beduínos não são árabes, como os Qashqai, no Irã; os Tuareg, no Sahara; e os Turcomanos do Norte da Síria e do Iraque. Os únicos negros estão no Sudão. Todos têm um denominador comum: vagueam pelos desertos, guiados por instinto e tradição. Vivem em tendas e criam camelos. O Political Dictionary of the Arab World calcula que restem entre sete e oito milhões de beduínos espalhados pelo mundo árabe e Israel. Mas estão batendo em retirada. Cada vez mais encontram à frente mais desertos férteis, proibidos para pastagem. Já não podem mais formar aqueles bandos perigosos que assaltavam as ricas caravanas. Hoje, se não assistirem a TV mundial CNN podem acabar no fogo cruzado de uma guerra entre dois países vizinhos. Já sobreviveram a muitas. Já estiveram sob domínio otomano, inglês e israelense nos desertos da Judea e Samaria bíblicas.

2013-06-22 04.49.22O mercado de camelos, os navios do deserto, não está mais em expansão. Então, dá maior retorno criar bodes e carneiros. Como o rebanho prefere ficar ruminando numa encosta de ralo verde do que na amarela de pura areia, os beduínos vão abandonando a vida nômade. Assentam-se na periferia das cidades. Alguns até se elegeram deputados no parlamento israelense. Em Amã, na Jordânia, os beduínos formam a elite do exército real, a famosa Legião Árabe. As tendas provisórias se perpetuam em casas e depósitos. Os governos estimulam a transição. Um dia fizeram uma experiência da qual Chuva participou. Deram-lhe uma casa projetada por arquitetos que estudaram os costumes de sua tribo. Bem que ele se esforçou por se adaptar. Mas uma noite não resistiu: montou uma tenda diante da casa, e foi morar nela. Outros gostam, perpetuam o teto.

Os chefes de família e os mais velhos beduínos elegem um líder espiritual, o Sheik. Sua autoridade penetra a vida pessoal e familiar de todos numa tribo. Mas ele não chega a ser um juiz de pequenas causas. Os próprios índios do deserto devem resolver os problemas sozinhos, a partir de certas regras estabelecidas ao longo de séculos. Assassinatos e estupros demandam uma sulha – uma compensação. Ou vingança. As guerras intertribais há muito que estão pacificadas. Mas a lei do deserto vigora entre beduínos que se mudaram para cidades. A mulher infiel, por exemplo, ainda é assassinada.

2013-06-22 09.25.20Os beduínos deixaram de ser o elo de ligação entre povos separados por desertos. A TV é instantânea, e os aviões, mais práticos. Os oásis são acessíveis por linhas regulares de ônibus com ar condicionado. As famílias das capitais árabes já não mandam seus filhos para aprender com os gurus do deserto. Aprendiam as matérias primas da personalidade beduína, como a virilidade, coragem e resistência, temperadas pela hospitalidade, honra e lealdade familiar. Hoje os discípulos preferem aprender economia e computação nas dunas do saber dos Estados Unidos.

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O paraíso: a praia de Ras Muhammed (Cabeça de Maomé)

Dahab, outra praia no Sinai.

Dahab, outra praia no Sinai.

“Cada indivíduo nômade”, explicou Lawrence da Arábia, “tem sua própria religião, sem transmissão oral nem tradição, mas instintiva”. O beduíno reza à entrada da tenda. No deserto não há mesquitas, nem o canto do muezim do alto dos minaretes convocando os fiéis para as orações. O Corão leva em conta a aspereza do deserto. E as abluções e outros rituais de purificação com água podem ser feitos com areia.

Os supersticiosos beduínos acreditam no djinn – um espírito do mal que ataca os recém nascidos, aterroriza as caravanas, e pode baixar em certas pessoas, como, no espiritismo, com Zé Arigó e Chico Xavier. Contra ele, recorrem aos walj – os santos; aos sherif – os descendentes da família do Profeta; aos madjzbur – místicos comparáveis aos pais de santo; e aos faqir (não confundir com os fakirs hindus) – miseráveis com poderes sobrenaturais, curandeiros e exorcistas. Muitos ainda se valem de amuletos e de talismãs mágicos. A tribo dos Tiyaha, no Negus, ficou famosa por uma terapia culinária. Contra reumatismo, nada melhor que um naco de carne de abutre, um primo do urubu brasileiro. Contra impotência, coelhinhos.images

Os beduínos em extinção, os senhores dos desertos, ainda são visíveis pelo Negus, quase 2/3 do território de Israel. Surgem à beira de estradas, com seus rebanhos, roupas penduradas, crianças brincando. Parecem ciganos. E vão se adaptando tanto que já fabricam artesanato para vender a quem quer conhecê-los. Vale a pena vê-los antes que acabem. Todas quintas-feiras, a partir de seis da manhã, os beduínos se reúnem ao lado da estação rodoviária de Beersheba para vender carne, tapetes, roupas e joalheria. Só que já chegaram à Idade dos T-shirts. E também vendem aparelhos eletrônicos.

Os oásis do deserto são hoje grandes hotéis de cadeias internacionais. Oferecem hidroterapia com água do Mar Morto, quartos com vistas espetaculares, cozinha típica, passeios organizados, conexão mundial via satélite, até mesmo os jornais do dia. Uma bolha de ar condicionado no meio do nada povoado de lembranças bíblicas. Beersheba é a cidade dos Sete Poços do Velho Testamento. Os judeus a cruzaram em busca da Terra Prometida, perdidos durante 40 anos. Os restos da fortaleza de Massada, construída por Herodoto, “o Grande”, em 43 Antes de Cristo, tornaram-se o símbolo do moderno estado de Israel: “Não cairá outra vez”, repete-se hoje. Cercada pelos romanos em 70 AC, seus 967 habitantes preferiram o suicídio à rendição. Pela vizinhança, outras atrações: as grutas de Qumram, onde foram descobertos os pergaminhos do Mar Morto, e as reservas naturais e os kibutzim que vão colorindo de verde o deserto. E tem a placa de Sodoma, na estrada, onde casais adoram posar para fotos, selfies, bundas à mostra, como se tivessem sido convidados para a última bacanal. Eilat, no Mar Vermelho, a fronteira com o Sinai egípcio, foi adotada como o Caribe dos Nórdicos. Charters trazem refugiados do inverno, brancos de neve. Do outro lado, a Jordânia, com Petra, e a Arábia Saudita.

LAW1Os beduínos se espalham pelas colinas verdejantes da Galiléia até a mistura de sal e calor dos mares Morto e Vermelho. De carro, esse mergulho da água quente salgada para o frescor do doce rio Jordão pode ser feito em três horas. E se alguma caravana de beduínos cruzar à frente, atenção, esfregue bem os olhos: pode ser uma miragem.

Veja também: Sinai

SINAI

vashonhavurah.wordpress.com

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AQUI É TERRA SANTA

www.portalsaofrancisco.com.br)

O Monte de Moisés (www.portalsaofrancisco.com.br)

Terra Santa vista do céu

Terra Santa vista do céu

Melhor do que a definição de Deus, impossível: “Tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é terra santa”. Estamos ao pé do monte Horebe, no deserto do Sinai. Um silêncio profundo, poentes sangrentos, montanhas majestosas, o sol abrasador e as dunas de areia — ou o paraíso, um oásis: a água doce, fresca, e a sombra das palmeiras e tamargueiras. Camelos e cabras pastando.  Beduínos imóveis, contemplando. Uma Terra Santa, como dizia Deus a Moisés, há mais de 3.200 anos, revelando-se “numa chama de fogo do meio de uma sarça”.

O que se avista é o cenário do Êxodo. Ou a terra da lua, a terra dos gigantes, a casa de Deus — um triângulo de 61 mil quilômetros quadrados, com o mar Mediterrâneo em sua base, e o mar Vermelho e o Golfo de Suez banhando cada ponta, ligando África e Ásia.

O Sinai, 25ª província do Egito, foi devolvido por Israel, em 1979, em troca da paz. Por aqui andou Abraão. E José se tornou escravo. Foi onde o povo judeu passou 40 anos perdido em busca da Terra Prometida. E recebeu as tábuas da Lei. Por aqui também passaram Jesus Cristo e a Virgem Maria, caminhando para Palestina. E onde ainda hoje se refugiam eremitas, cruzam andarilhos peregrinando para Meca e Medina, iluminam-se os hippies, maravilham-se os ecólogos, e clic, clic: chegaram os turistas. Os nudistas estão proibidos pelas leis islâmicas.

Uma Terra Santa, sim, e para as três grandes religiões monoteístas. Antes de ser assassinado, o presidente egípcio Anwar El Sadat sonhava com a construção de uma mesquita-sinagoga-igreja ao pé do monte Horebe, o monte Sinai, ou Jebel Musa – a montanha de Moisés. Para os cristãos, aqui os anjos depositaram o corpo de Santa Catarina, a mártir decapitada em Alexandria. O mosteiro construído em sua homenagem e com seu nome, no ano de 530, pelo imperador Justiniano I, continua aberto aos visitantes. Logo á entrada, na porta conhecida por Bab El Rais, está escrito: aqui é a porta do eterno. É por ela que os justos entrarão”. Em outra porta, encontra-se Estevão, só ossos: ele morreu em 580 vigiando o ossuário de três mil monges. Seu esqueleto mantém ainda a mesma posição, e a função.

en.wikipedia.org

O Mosteiro de Santa Catarina (en.wikipedia.org)

O mosteiro de Santa Catarina é protegido dos intrusos por uma alta muralha de granito cinzento. Lembra uma fortaleza. Era antes, no século IV, ao tempo de Constantino, apenas uma capela e uma torre de refúgio para os cristãos que escapavam das perseguições romanas. Depois de concluído, ganhou uma pequena mesquita. A cruz e a meia-lua têm a montanha de Moisés como fundo, com seus 2.285 metros acima do nível do mar. São o monumento mais importante do deserto do Sinai.

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Os monges do mosteiro de Santa Catarina não sabem com certeza qual foi o motivo que lhes rendeu os vizinhos, na mesquita, na época do califado Fatímida, que coincidiu com os primeiros anos do reino cruzado. Seria uma demonstração de irmandade entre muçulmanos e cristãos, hoje perdida no Líbano? Ou haveria alguma razão política justificando a aproximação? Intrigas do deserto: se consultados agora, os solitários monges recusariam o projeto de construção de um templo triplo como idealizado pelo presidente Sadat, em 1979. Das comemorações da paz eles só aprovaram mesmo aqueles aparelhos telefônicos que puderam compartilhar com os jornalistas, conectando a Terra Santa ao resto do mundo. Os habitantes deste deserto bíblico já viram passar por aqui as tropas hititas, assírias, persas, gregas, romanas, árabes, francesas, turcas, cruzadas, inglesas, egípcias, israelenses e varias outras nacionalidades que compõem o exército de paz das Nações Unidas.

Wadi el Tor (commons.wikimedia.org)

Wadi el Tor (commons.wikimedia.org)

Uma lenda localiza a sarça-ardente que não se consumia onde se encontra, exatamente, a igreja do mosteiro. E 1.500 metros acima, ou 3 mil tortuosos degraus, no topo do monte Sinai, o lugar em que Moisés falou com Deus, recebendo os Dez Mandamentos. Conta-se que, gago, quando perguntado para onde queria levar seu povo, respondeu: “Ca…ca…ca… E a voz divina completou:

— Canaã!

(Moisés queria dizer Ca…ca…ca…li…fór…nia, mas não conseguiu. Uma dissidência afirma que, na verdade, seria Canadá.)

Os muçulmanos sempre foram mais interessados na história e em seu significado ético do que na geografia histórica. E é por isso que não identificariam a montanha de Moisés, a sua Jebel Musa, com nenhum ponto particular no mapa. Mas isto não quer dizer que não a reverenciem profundamente, esteja onde estiver.

A biblioteca do mosteiro, uma das mais antigas e ricas do mundo, contém uma carta do profeta Maomé aos monges, confirmando a forte influência da história de Moisés sobre o islamismo. E para protege-la de um provável ataque dos bandos de beduínos, junto com o verdadeiro tesouro representado por 1.500 pinturas e 2 mil ícones, os imperadores bizantinos foram buscar os guardas ideais na Bósnia. Tornaram-se muçulmanos, e uma nova tribo no deserto do Sinai, conhecida como Al-Jibaliá, ou os montanheses.

“Sobe a mim na montanha, e lá espera” ordenou Deus a Moisés. Nos últimos 150 anos, 12 diferentes montanhas foram cotadas como o local certo do encontro: cinco no sul do deserto do Sinai, quatro ao norte, uma no centro e duas do outro lado da península triangular, na Arábia Saudita e na Jordânia.

No topo do Monte Sinai (www.gopixpic.com)

No topo do Monte Sinai (www.gopixpic.com)

Um geografo alemão, Burckhardt, foi um dos primeiros a seguir os rastros de Moisés e o povo de Israel, montado num camelo. E acabou apontando, em 1819, uma montanha ao lado de Jebel Musa e de seu mosteiro como o mais provável, por causa de algumas inscrições, “Jebel Sarbal”. Quase 50 anos depois, em 1870, Henry Spencer, chefiando uma grande expedição, pesquisou a região com geólogos, zoólogos e botânicos. E escolheu o pico oeste do Monte Sinai: Jebel Tzuftzufa, no vale de Er-Raha. De 1920 a 30, o governador inglês do Sinai, C.S. jarvis, defendeu a teoria de que Moisés teria viajado para a Terra Prometida seguindo o Mediterrâneo. Ele ficou fascinado por Jebel Hillal, perto do oásis de Cades Barnéia, alcançado dois anos depois da fuga da escravidão no Egito. A travessia do Mar Vermelho, assim, ficaria localizada na lagoa de Bardawil, perto de El Arish, cidade de exilio para criminosos.

A mais recente teoria sobre a rota do êxodo e a localização de Jebel Musa, ou Montanha de Moisés, pertence a um geógrafo israelense, Menashe Harel. Ele não acredita que os israelitas tenham tomado o “Caminho dos Filisteus”, pelo nordeste, por um simples motivo: encontrariam o exército egípcio facilmente. Assim, passaram por Ismailya, dando a volta pelo golfo de Suez e descendo por Wadi Sudar para chegar a Refidim. Aqui, Moisés, com seus 80 anos, poderia subir o Jebel Sin-Bishr, de apenas 618 metros acima do nível do mar, e receber de Deus as tabuas da lei, com os Dez Mandamentos.

Os turistas, como o próprio presidente Anwar El Sadat e os monges do mosteiro de Santa Catarina, visitam Jebel Musa, a Montanha de Moisés, o monte Sinai, como sendo o local certo do encontro sagrado. Sobe-se de madrugada ainda, para alcançar o topo durante o alvorecer, quando o calor não é insuportável. Um espetáculo grandioso, anunciado por agências de turismo como “a visão de uma paisagem lunar”. Vai-se a passos curtos, em fila de um, com guias beduínos que carregam galões com água. No alto, no “portão do céu”, encontra-se uma capela e uma casa de uma só peça, geralmente fechadas. Dependendo da época do ano pode ser vista ali uma senhora que se apresentava como “a monja do Sinai”, até 1984. A quem chegava, ela oferecia uma bala. Vestia-se toda de branco, dizia que escutava Deus e tinha um discípulo, um Iugoslavo encarregado de “limpar a montanha”. Andavam descalços: pisavam a Terra Santa.   

(www.walkopedia.net )

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