A crise que produziu uma safra de enforcados

Essa crise econômica só começando

remeteu-me a outra, em 1995, há 20 anos,

em que 19 endividados de Irecê, na Bahia, foram

encontrados balançando em umbuzeiros.

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Foto de um enforcado em umbuzeiro em Saloá, PE, feita pelo vereadorwellingtonfreitas.blogspot.com

ireIRECÊ, Bahia (23/10/1995) — Como frutos dos umbuzeiros da caatinga, balançam os corpos dos enforcados. A safra dos suicidas é alarmante: 19 corpos já foram colhidos em cinco meses pela Delegacia Regional de Irecê, no médio São Francisco, a 474 km de Salvador. A maioria, 14, pendia como imbus, presa aos galhos por cordas de sisal ou por um cipó.

“Aqui jaz o Plano Real” — diz em Irecê o vereador e agricultor Indolécio Vanderlei Soares.

“Vivemos uma crise muito grande” — explica o prefeito Henrique Sobral.

“A maioria dos suicidas é agricultor ou tem algum elo com agricultura” — constata o delegado-regional Carlos Laranjeira.

“Três anos consecutivos de seca, somados às dificuldades geradas pelo Plano Real, com elevadíssimas taxas de juros e a falta de crédito agrícola, mergulharam no mais completo e absoluto caos os 19 municípios da microrregião de Irecê – até pouco tempo o maior celeiro de grãos do Nordeste, responsável pela produção de 20% do feijão consumido no Brasil” — protestou na Câmara, em Brasília, o deputado Cláudio Cajado (PFL-Bahia).

O ÚLTIMO – Do monte de sisal beneficiado, José Evaristo Cunha tirou um feixe. Foi para a roça no interior de Canarana, onde morava com a mulher e cinco filhos, a 46 km de Irecê. Ao camponês que o viu entrando na caatinga, avisou: “Vou buscar um jegue”. Procurado mais tarde, tanto que demorava a voltar, lá estava ele, balançando num umbuzeiro.

Morreu no dia em que nasceu, 18 de outubro, com 54 anos. Vestiu-se com uma roupa velha, porém limpa, e cobriu a cabeça com um chapéu. Amarrou-se na árvore escolhida apoiando-se num balde. Chutou-o, então, e à própria vida. A família passou com o corpo por Irecê, para autópsia, e prosseguiu viagem para o enterro em Conceição do Coité, a uns 100 quilômetros de Feira de Santana. O escrivão e repórter policial Ezequias Dourado inaugurou  o item “Canarana” em sua lista dos suicídios.

Dois cunhados de Evaristo explicam o suicídio com motivos contraditórios. O que o ajudou a recobrar-se do Plano Collor, dando-lhe um motor para beneficiar o sisal, Deraldo da Cunha, o Vavá, lamentava na sexta-feira: “O finado foi vítima de dois planos econômicos”. Lembrou: “Ele estava começando a se organizar de novo”. Até emprestava dinheiro a juro, dois anos e oito meses depois de trabalhar como servente em Salvador. “Mas, com a crise, ninguém estava podendo lhe pagar…” Nico acrescenta um sintoma visível do suicídio em gestação: “Vivia sem assunto, arredio”.

Dona do restaurante e hotel “Volte Sempre”, em Canarana, Durvalina Araújo Carneiro concorda com Vavá: “Evaristo não caçava conversa com ninguém”. Só que sua explicação não é a crise econômica, mas a mental. “Ele achava que tinha uma doença que lhe inchava o rosto”, nunca inchado. Cunhada, e também prima, ela o lembra com “uma pessoa de ouro”, que “pagava todo mundo direitinho para morrer sem dívidas”.

Foto: acopaccaldeiraoaraci.blogspot.com

Irecê (foto: acopaccaldeiraoaraci.blogspot.com)

Na informal “bolsa de valores” de Irecê, onde reina a comerciante Edna Paes Cunha entre produtores de cenoura, feijão, mamona, beterraba e cebola, não se faz segredo da agiotagem desastrada de Evaristo. “Seis devedores lhe deram o calote”. E numa safra de indiscutíveis suicídios econômicos, tornou-se mais um na relação oficial da 19a Delegacia Regional. Simples raciocínio: “A situação econômica pode ter agravado a cisma com o inchaço, levando-o à forca no imbuzeiro”.

COM A CAMISOLA – “O pai estava com os olhos abertos e a língua de fora” — conta Josemar, seis anos. Foi quem primeiro o viu. O corpo balançava na cozinha do barracão inacabado, suspenso por uma camisola enrolada. Os outros três irmãos pequenos tinham ido para a casa do vizinho com a mãe, enxotada aos gritos: “Saía, vai ver TV”.

Por três vezes, Maria Lúcia enfrentou o marido, Edilson José Leite, dizendo-lhe “não”. Mas ele ia se tornando cada vez mais furioso. Então, ela pegou Elimara, de oito meses, e saiu. Foi seguida por Jocimara, três anos, e Edmar, oito. Só Josemar ficou, escondido: “Gostava muito do pai”. Todos o apreciavam no miserável povoado de São Gabrielzinho, a nove quilômetros de Irecê, queimado pela seca.

“As crianças sofriam; ele sofria” — explica “o grande amigo” Edmilson Gomes dos Santos. A estiagem secou também os empregos. Sem irrigação, nada se planta e ninguém trabalha. “Meu marido ficava agoniado com a falta de dinheiro”, diz Maria Lúcia. Jovem, 28 anos, ela está agora sozinha com uma filha no colo, e três outros filhos pequenos em volta. “O povo vai nos dando coisinhas”, consola-se. Do barracão inacabado a família passou para um quartinho em frente, “melhor porque tem luz”. E sob uma cruz branca de madeira, no próspero cemitério do povoado, ficaram enterrados os problemas de Edilson, 35 anos.

VIDA CIGANA – No mesmo dia em que o ex-rico agricultor José de Diva se enforcou numa imburana de sua fazenda em João Dourado, na região de Irecê, “um cigano” apareceu para cobrar um cheque de R$ 5.400, parte de uma dívida de R$ 110 mil.

A dívida e a vida venceram em 5 de julho para Diva. Ele amarrou a corda de sisal, tirou o óculos, descalçou os sapatos, e se enforcou. Um empregado o viu de longe. E avisou a família. A mulher e os sete filhos não sabiam do empréstimo com “os ciganos”. Como diz Josielda Souza Marques, 25 anos: “Meu pai já foi homem de comprar 15 tratores”. Mas agora que sabem, “vou honrá-lo”, embora achem que “filhos herdam bens, não débitos”.

Diva tinha 57 anos. Plantava feijão, cenoura e beterraba. “Foi um grande produtor”, lembra-se na bolsa de valores de dona Edna, em Irecê, com muita surpresa ainda hoje. “O pai vinha mal desde o Plano Collor”, explicou Josielda, contendo-se para não chorar. “Com o real de Fernando Henrique Cardoso, ele piorou”. E passou a sofrer muita pressão dos agiotas, ciganos que vivem em Utinga, a 150 km, na rodovia BA-142, ao sul da Serra do Tombador.

Plantação na seca (acopaccaldeiraoaraci.blogspot.com)

Plantação na seca (acopaccaldeiraoaraci.blogspot.com)

“Se tivesse nos contado, poderíamos lutar juntos para pagar as dívidas”, lamenta Josielda. A imagem que fazia do pai não mudou com o suicídio, embora ele próprio menosprezasse os suicidas. “Eu o admiro muito; orgulho-me de ser sua filha”. Ela também o compara a Jesus Cristo: “Morreu pelos filhos”. Todo dia às 6 horas da tarde ela sente um aperto no coração: era a hora em que o pai voltava da fazenda para casa.

MATA-SE O COVEIRO – O repórter Levi Vasconcelos, do jornal A Tarde, de Salvador, encontrou em João Dourado um coveiro entre seis camicases do Plano Real. “A mulher dele me disse que já não tinham nem mais um grão de arroz”.

A lista do escrivão Ezequias Dourado contabiliza seis suicídios em João Dourado, sete em Irecê, um em São Gabrielzinho, dois em Juçara, um em Cafarnaum, um em Canarana e um em Ibipeba. “Mas houve outros suicídios, como o de um policial militar que não podia tratar o filho doente, e de um menino que não conseguiu pagar R$ 10 que devia de uma bicicleta”, lembra o delegado Laranjeira. Em 11 meses, cerca de 100 pessoas foram demitidas no comércio de Irecê. Uma loja que vendia 120 tratores por ano está vendendo apenas seis.

“Muita dívida”, comenta Janete, recepcionista no hotel Caraíba. Todos sabem da onda de suicídios que brotou da nova seca de três anos. “Notícia ruim corre rápido”, comenta-se na praça principal. Alguns acham que os mortos já chegam a 30. Na bolsa de valores de dona Edna uma certa esperança renasce com a primeira chuva de umbu, que molhou há poucos dias a terra queimada. “O mar está mais quente, sinal de muita chuva”, diz o agricultor Ermenito Dourado, que brinca: “Por enquanto, a situação está pecuária” (ao invés de precária).

A única solução para a microrregião de Irecê, com 19 municípios e 400 mil habitantes, é a irrigação. A terra fértil se cobrirá de frutas, feijão, milho, soja, beterraba e cenoura. “Será o fim dos suicídios”, espera o produtor Edmarcos Messias Paiva, 26 anos. E ele o prova: sua plantação de cenoura, irrigada, está verdejante. “Vou passar a plantar um hectare por semana”, promete.

Umbuzeiro dos suicidas (www.onordeste.com)

Umbuzeiro dos suicidas (www.onordeste.com) 

A esperança do vereador Indalécio está plantada na perenização de rios temporários. “Mas o governo privilegia mais o Sul do que o Nordeste”, ele reclama. O prefeito Sobral já garantiu R$ 42 milhões do Banco do Nordeste para projetos de irrigação. A solução a longo prazo, porém, só virá com a construção do canal do rio São Francisco, a 100 km. No curto prazo, a prorrogação da dívida dos agricultores, anunciada na semana passada, “só produzirá resultados se seguida de abertura de crédito”.

No gabinete do prefeito Sobral há uma foto do presidente Fernando Henrique em Irecê. Ele mostra o polegar. “… O dedo da agricultura”, brinca um assessor. O visível borrão ao lado apaga um opositor, que aparecia sorrindo. “Existe saída para tudo”, comenta-se. “Como a prorrogação da dívida dos agricultores, que pode estancar a onda de suicídios”.

“Mas o último suicídio coincidiu com o anúncio da rolagem da dívida para pequenos e médios produtores” – alguém comenta.

“… Que o suicida não tinha sido avisado” – outro acrescenta.

“Na garganta, só cerveja; corda, não: É o que se diz agora em Irecê” – conta  o prefeito Sobral.

Venezuela X Brasil, Copa América.

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 Para quem vão torcer Dilma, o Itamaraty, o PT e Marco Aurélio Garcia?

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Na capa, nada da visita frustrada dos senadores a Caracas.

Seleção de recortes sobre a Seleção

O CHEF DA PRESIDÊNCIA

O marqueteiro João Santana é um exímio chef na cozinha.

Provei de uma moqueca que ele fez. Mais que isso, eu o vi prepará-la,

VivaSenior.com.br

ensinando: “não se pode machucar os ingredientes”.
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Revendo o bufê servido na campanha de Dilma

Rousseff, hoje, dia de denúncia

oficial das pedaladas fiscais escondidas do

eleitorado, concluo que o chef da Presidência

machucou, e muito, os ingredientes.  Que exagerou no tempero.

E que está provocando uma indigestão nacional.

Requentei e atualizei um artigo que circulou restrito num jornal  

que não existe mais, e aqui o ofereço.

Bom apetite.

Vídeo da campanha de João Santana para Dilma

Vídeo da campanha de João Santana para Dilma: prato vazio.

A recomendação do chef João Santana, ao assumir a cozinha lá de casa, no final dos anos 80 do século passado: “Não podemos machucar os ingredientes”. Cortou uma, duas, quatro cebolas com tanta perícia que nem elas, nem nós, choramos. Picou tomates carinhosamente. Tratou os temperos com devoção. Levou o peixe ao fogo com delicadeza e até certa culpa pelo calor que o transformaria, meia hora depois, numa moqueca baiana. No final, um prato agradecido por tanto cuidado e respeito — ao que retribuiu, delicioso.

Brusco salto para 2014. Para papar a sétima eleição da série interrompida com a derrota de seu candidato no Panamá, em maio, o marqueteiro João Santana convenceu a presidente Dilma Rousseff a torturar e espancar os ingredientes que ameaçavam o primeiro turno de seu refogado predileto — a reeleição. E tome, Marina! Tome, Aécio! E tomemos, nós!

Temperou o banquete eleitoral com o terrorismo da fome ante pratos vazios, desemprego, banditismo de meninos de rua desamparados e fantasmas renascendo de um passado assombrado, numa sequência de filmes de horror publicitário nunca antes vista nestepaiz. A rival Marina foi desidratada, desconstruída e afogada em banho-maria. O rival Aécio, salpicado na blogosfera com cheiro de pó, fritado em fogo lento à manteiga Aviação, embarcada no aeroporto aberto perto de sua fazenda de Cláudio, em Minas, e servido com o consagrado molho de “privataria tucana”.

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Cena de La Grande Bouffe (A Comilança), filme franco-italiano de 1973.

Dilma? Irretocável, qual bolo de noiva! Gerentona, mãe do PAC, incorruptível, a senhora Muda Mais Brasil, poste aceso pelo companheiro ex-presidente, Dama de Ferro na administração da Petrobras, benfeitora de Cuba, protetora dos degoladores do califado islâmico em formação na Síria e Iraque, chefa de um grupo político acima de qualquer suspeita e já considerada reeleita até 2018 por clamor popular, antes mesmo da eleição.

Entre chef e marqueteiro, entre incapaz de torturar uma berinjela e comandante de um pelotão de fuzilamento de reputações, João Santana fez outras escalas na vida. Foi bicho-grilo empenhado, turista em viagens de ácido e cogumelos alucinógenos ao interior de si mesmo. Foi músico no tropicalismo dos anos 70, amigo de Caetano e Gil.

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Dilma e João Santana (www.cristianolima.com)

Chamavam-no Patinhas e ele tinha o cabelo black power. Ao jornalista Luiz Maklouf Carvalho ele se definiu como “um dos últimos socialistas românticos e um dos primeiros socialistas cibernéticos – ao mesmo tempo utópico e descrente, ao mesmo tempo sério e debochado”.

Contou também que “aprendeu hipnotismo em dez lições” e praticou “até com levitação”; e que “hoje é adepto da quiromancia”. Seu pai espiritual “é ainda” o suíço-baiano Anton Walter Smeták (1913-84), violoncelista, compositor, escritor e escultor – o guru dos tropicalistas: “Ensinou-me a virar os olhos para dentro da cabeça e o ouvido para dentro do silêncio da alma” (Época, versão Kindle, 2014).

Quando nos conhecemos morávamos perto um do outro – ele em Washington, DC, e eu em Bethesda, Maryland, ligados por metrô. Patinhas passava um ano sabático nos Estados Unidos, com a quinta ou sexta de suas mulheres, que hoje totalizam oito – e, prometido, não serão mais.

Era então um jornalista famoso no Brasil. Tinha sido dele o golpe mortal desferido contra o presidente Fernando Collor. Derrubou-o ao descobrir o motorista Francisco Eriberto Freire França, testemunha-chave no processo de impeachment: ele entregava dinheiro em pacotes do tesoureiro PC Farias em domicílios brasilienses e ainda se encarregava de providenciar bodes, galinhas “e o escambau” para rituais de magia negra na Casa da Dinda. Aquele famoso Fiat Elba da primeira-dama Rosana foi compra dele.

De diretor da sucursal de Brasília da revista IstoÉ, Patinhas promoveu-se a marqueteiro político, associando-se ao “mago” Duda Mendonça, que foi quem elegeu Lula pela primeira vez. De repórter investigativo das falcatruas de todo-poderosos passou à defesa de todo-poderosos contra a imprensa. Uma reviravolta e tanto. A mesma do carinho com hortaliças ao bombardeio impiedoso da verde Marina. De bicho-grilo a sombra da presidenta do Brasil. Marketing, para ele, é a adaptação de um produto ao gosto do consumidor, assado de chef, enquanto a publicidade cuida de vender.

Tucano de nascimento, pois que nasceu em Tucano, a cerca de 200 quilômetros de Salvador, João Santana já trabalhou para o falecido Hugo Chávez, da Venezuela, e José Eduardo dos Santos, de Angola. Ele “perdeu a sensibilidade para as questões fundamentais do Estado do Direito”, criticou-o Alberto Dines, jornalista observador da imprensa, num artigo em que lamentou a perda de ótimos repórteres investigativos para o marketing.

A ABOBADA DILMA COZINHEIRAO poder de Patinhas é imenso. Como se fosse massinha, moldou Dilma segundo sua percepção das pesquisas de opinião pública diárias que mandava fazer. Escreve os discursos mais importantes. Criou as marcas PAC; Minha Casa Minha Vida; o Brasil de Todos; o País sem Fome… Ele dá o rumo, determina a agenda e escolhe o inimigo.

Aí mora o perigo. Talvez Marina não devesse ter sido picada, refogada e queimada no fogo alto de Dilma. Talvez não devesse ter servido ao eleitorado um bufê de inverdades com salada de alho e bugalhos. O chef Santana machucou os ingredientes. Salpicou pimenta baiana ardida até na sobremesa, sonhos. E mais de 51 milhões de brasileiros estão com indigestão.

Tempestade de mísseis

Destino: Ashkelon. Mas ficou dentro de Gaza

Destino: Ashkelon. Mas ficou dentro de Gaza

As sirenes de ataque aéreo soaram esta noite ao sul de Israel. Mas eu as estou escutando há alguns dias.

O último míssil mirou Ashkelon. Os indícios são de que ele não passou de Gaza. Uma semana atrás, foi disparado um Grad, com mais potência e mira, na direção de Ashdot. Em ambos, a surpresa: o grupo Hamas, normalmente o suspeito número um dos dois ataques, conseguiu avisar a Israel que não pôs o dedo no gatilho.

Se não foi o Hamas, foi Gaza. O grupo que está assumindo os disparos tem ligação direta com o Estado Islâmico, EI. Autodenomina-se Brigadas do Sheik Amar Hadid.

É este o alarme que ando escutando.

Patrulhas do Hamas em Gaza

Patrulhas do Hamas em Gaza

Em Israel prevê-se uma tempestade no verão que está chegando. Tempestade de mísseis. Cem mil mísseis, de uma vez só, disparados das fronteiras síria, libanesa e de Gaza. Não há sistema de defesa antiaérea capaz de formar um guarda-chuva protetor para a população civil em todo território israelense.

A estimativa é de que haverá 4 mil mortos nos primeiros dias da tempestade. No Líbano, milhares de refugiados, com a retaliação israelense.

“O Irã quer cobrir Israel com fogo intenso” — disse o primeiro-ministro Bibi Netanyahu à imprensa internacional em Jerusalém, na semana passada.

Os iranianos têm seus representantes no Líbano, o Hezbollah, equipado com armamento moderno. O califado islamita sendo implantado no Iraque e na Síria já chegou a Gaza e dá tiros no lugar do Hamas. O Irã é visível também nas colinas do Golã, preparando o novo front.

Ex-ministro da Defesa e primeiro-ministro, Ehud Barak pediu aos israelenses que não sejam presunçosos, certos de sua superioridade militar. “Nunca estivemos sob 100 mil mísseis, ainda por cima mais certeiros. Isto é uma situação completamente diferente”.

As Forças de Defesa de Israel estão ensaiando alguma resposta ao “tapete” de mísseis previsto para o verão, que é quando começa a maioria das guerras no Oriente Médio. Os túneis usados pelos palestinos do Hamas para vencer a fronteira israelense em Gaza, ano passado, já não representam mais tanto perigo, porque agora são levados em conta, sem surpresas.

Se os aiatolás atômicos iranianos forem responsabilizados pela tempestade de 100 mil mísseis, a próxima guerra não deverá se limitar às fronteiras tradicionais dos países vizinhos. Alcançará Teerã, provavelmente.

As nuvens que prenunciam a tempestade devem encobrir as negociações para a limitação nuclear do Irã, reiniciando agora. O chefe supremo das Forças Armadas americanas passou esta semana por Israel. Foi chamado de “grande amigo dos israelenses”. As sirenes voltaram a soar. Baterias antimísseis foram armadas em pontos vitais. O exército ensaiou uma mobilização geral.

Quando o míssil padrão era a katiusha, disparado de caminhões, Israel invadiu o Líbano. Aí a TV israelense perguntou a um soldado:

— Você sabe o que veio fazer aqui no Líbano?

— Sim — ele respondeu. — Acabar com as katiushas.

As Katiushas

As Katiushas

— E onde estão as katiushas? — tornou a perguntar o repórter.

— Em Moscou…

Foi cômico, na época. Mas agora a situação é outra: os mísseis são do Irã, e o Irã está ao alcance da aviação israelense.

Duas bikes por minuto na cidade das lambretas

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Pedaladas de Dilma e

ciclofaixas  de Haddad, resgatei  a visita que fiz

à maior fábrica de bicicletas no

mundo, a Giant, em Taipei  — onde, no entanto,

as lambretas  são unanimidade nas ruas.

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Pedalando no salão de entrada da Giant

No salão de entrada da Giant

Taiwan (2011) — Na cidade das lambretas, Taipei, há uma fábrica de bicicletas gigante – a Giant. Mas é raro ver um ciclista pedalando nas ruas. Câmera em prontidão, não flagrei nenhum para ilustrar este post. Difícil: são 11 milhões de lambretas para 22 milhões de taiwaneses. Não existe frota maior por quilômetro quadrado, em todo o mundo. E, no entanto, na Giant, duas bicicletas são produzidas a cada minuto, num total anual de 5,2 milhões, para abastecer 11.125 revendedores em 80 países.

– Onde estão os ciclistas e as ciclofaixas em Taiwan? – perguntei a Zack Cheng, ‘especialista’ da Giant Manufacturing Co., em Tachia Taichung Hsien, nos arredores de Taipei. “Ah, os taiwaneses saem com suas bikes só nos fins de semana, para lazer”, ele explicou.

A vice-presidente executiva Bonnie Tu contou que tem quatro bikes em casa. Aos 62 anos, ela “rejuvenesce quanto mais pedala”. O presidente e fundador da Giant, King Liu, 76 anos, ainda participa de longas maratonas, às vezes com mais de mil quilômetros. Seu projeto é criar um festival de ciclismo taiwanês tão popular quanto o carnaval no Brasil. Já montou um bike hotel: ao acordar, o ciclista recebe sua companheira limpinha e revisada. E partem ilha afora.

Outra ideia veio de Paris e Nova York (em 2011), aqui batizada de You Bike: são 500 bicicletas disponíveis nas estações de metrô. As promoções, tantas, até se atropelam: Bike Day, Cycling Island, Giant Adventure, sem contar os vários tours da ilha, de um a nove dias, concebidos por idade e sexo dos competidores.

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Levantei com o dedo mindinho uma bike de fibra de carbono no amplo salão de entrada da Giant. Mais leve até que o meu laptop. A profusão de modelos confunde. Para cada grande grupo, como Road Bikes (as mais vendidas), Off Road, Cross, Mountain, Hybrid, Cruiser, BMX e Confort, multiplicam-se os subgrupos. Algumas incluem suspensão dianteira e traseira, outras só à frente; as mais pesadas absorvem melhor os choques em buracos; umas combinam alumínio e carbono; e os chineses, grandes consumidores, preferem as feitas de aço. “Cada uma tem uso específico; o mais importante é saber escolher” – diz Zack Cheng, como se fosse algo fácil, de domínio comum.

Pela linha de montagem passam variados tipos de bike prontas para a embalagem, por uma esteira. Ali já recebem o destino final no mundo, colado na caixa de papelão. Caminhões as esperam num grande pátio. Nem tudo se mostra entre milhares de operários, e nem tudo que se vê pode ser fotografado. Não se trata de censura, apenas segredo industrial.

De todas as competições internacionais que disputa, numa a Giant se mantém imbatível: é a campeã mundial em faturamento entre as bicicleteiras, com o faturamento de US$ 1,3 bilhão, em 2010. Talvez seja também a maior do mundo. Embora a informação apareça em pesquisas a banco de dados na web, ou em inúmeros artigos em jornais e revistas, na Giant, mesmo, há um certo cuidado em confirmá-la. A referência preferida é a renda anual. Não será exagero nenhum colocá-la também na liderança dos produtores de bicicletas de qualidade. Foi ela que introduziu a Cadex 980 C, a primeira bike de fibra de carbono. Também foi ela que revolucionou a bike estradeira com a Compact Road Design. Com a Suspensão Maestro, ela elevou o nível de performance para competições e off-road. As e-bikes, as bicicletas elétricas, na mira do presidente King Liu desde 2005, hoje são populares. O desafio é calibrar sua potência. Os e-ciclistas abusam, os acidentes aumentam e os fabricantes, cobrados, tendem a dar marcha a ré. Afinal, quem quiser força e velocidade compra uma moto, ou uma lambreta.

A fábrica em Taipei

A fábrica em Taipei

“Bicicleta, como carro, tem seus modelos do ano” – explica a vice-presidente Bonnie Tu. As novidades são lançadas em julho e chegam às lojas em setembro. Para ela, no mercado mundial cabem 100 milhões de bikes. Isso porque ainda não pedala uma maioria calculada em 85% da população. “O que fazemos é tentar atrair os sem-bike para a cultura saudável da bike”. Num recente “Café com a Presidenta”, Dilma Rousseff falou em promover a cultura do ciclismo no Brasil, recomendando a prefeitos a abertura de ciclovias seguras para estudantes de escolas públicas. O projeto prevê 100 mil bikes e 100 mil capacetes para 300 municípios.

A Giant começou em Taiwan, em 1972. A partir de 1986, ganhou o mundo. Foi para a Holanda, Estados Unidos, Japão, Canadá, França, Alemanha, Austrália e a República Popular da China (para não confundir com a República da China, ROC, dos taiwaneses). Hoje está com onze fábricas ou montadoras em vários países, e quer mais. Por que não o Brasil? – perguntei a Bonnie Tu. “Temos um importador… Mas o nosso problema é o altíssimo imposto de importação brasileiro”.

Bem informada, ela citou pelo nome as principais marcas concorrentes que desfilam pelas ciclovias aos domingos. E admitiu: “Não entendemos ainda o potencial brasileiro. Só sabemos que se trata de um mercado importante, muito-muito importante”. A Giant tem a esperança de que os impostos possam baixar, mas não cair como no caso recente dos tabletes, para permitir a produção nacional do iPad, da Apple, pela taiwanesa Foxconn (que, afinal. não ocorreu). “Por enquanto, estamos ajudando o nosso representante a construir a marca. Somos muito pacientes”.

No final, montei uma bike de fibra de carbono (foto no alto). Saí à rua e dei voltas pelo jardim da Giant. No ônibus para o centro de Taipei, fiquei atento ao trânsito e ao cenário de lojas, oficinas e estacionamentos. Lambretas, só lambretas… Nenhuma bicicleta! Qualquer turista, com carteira internacional de motorista, pode alugar uma até 50cc e se perder na multidão. Pode ir sem medo: os acidentes são raros (em uma semana, não vi nenhum), ao contrário da mortandade diária entre os motoboys de São Paulo.

Cadê a bike?

Cadê a bike?

O repórter viajou a convite da Taiwan External Trade Development Council, TAITRA.

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A Capa do Mundo

Aqui estão algumas das capas de jornais do mundo com Blatter por manchete.

Os europeus e brasileiros focaram no Fifalão.

Dos americanos, só mesmo os internacionais, tipo NYT, WP e WSJ.

A seleção da Capa do Mundo foi escalada pelo critério de  prestígio dos jogadores,

mas inclui artilheiros da criatividade, embora sem muitos gols. 

(clique na capa para ampliar)