Venerado Homem-Bomba

O palestino Ayyash foi um gênio

de bombas do terror detonadas em

Israel. Foi morto pelo serviço secreto

israelense com uma bomba

acionada por controle remoto.

Yahya Ayyash, 22/2/1966 - 5/1/1996.

Yahya Ayyash, 22/2/1966 – 5/1/1996

JERUSALÉM – Do céu surgiram três mulheres vestidas de branco para proteger, o novo grande mito nas colinas bíblicas da Judea e Samaria. Cultuado como “santo” da guerra santa dos radicais palestinos, ele está bombardeando, com pavios humanos, a frágil paz entre Israel e a OLP. É o homem mais caçado na Cisjordânia e em Gaza pelo exército israelense e pela Autoridade Palestina. Já esteve à beira da morte e da prisão, e escapou porque “Deus o ajuda”, como se crê em Rafat, a pequena aldeia onde ele há 29 anos nasceu, entre Nablus e Ramallah.

O nome de guerra de Yihya Ayyash (fala-se Irriá Aiach) é “Mehandess” – “O Engenheiro”, em hebráico e em árabe. Um engenheiro elétrico e químico formado na Universidade Bir Zeit, a Harvard palestina, ao tempo da Intifada, a rebelião na Cisjordânia, e “doutorado” em 1992 com um carro-bomba feito com explosivos de baixa qualidade – a característica assinatura das explosões que mataram 77 pessoas em Israel desde o acordo de paz com a Organização de Libertação da Palestina (OLP), em 1993.

maxresdefault   Quando Israel apagou a luz contra os ataques de mísseis iraquianos, em 1991, só uma casa de Rafat ficou iluminada – a dele. Fez-se luz com um pequeno transformador plugado na bateria de um carro. Ele também se revelou um perito em consertar antigos aparelhos de TV e rádio. E nenhum menino o superava nas atiradeiras. “Era o melhor”, lembram amigos. No que resta hoje do quarto dele, na casa de pedra em Rafat onde ainda moram os pais, Abdel-Latif e Aysha Ayyash, há um caixote em que se misturam livros como “Basic Circuit Theory”, “Electrical Machines and Transformers”, “Martyrs of Islam” e “Secret Resistance”.

No caixote, um retrato de Yihya Ayyash: engenheiro, religioso fervoroso e devoto militante do Ezzedin Al-Qassem, o braço armado do Hamas, grupo de palestinos que está detonando com homens-bomba a negociação entre OLP e Israel para a expansão da autonomia palestina na Cisjordânia, a ser concluída com uma grande festa, em 7 de setembro, na Casa Branca, em Washington. O chanceler israelense Shimon Peres já duvidava da data da festa, no final da semana em que mais um ônibus explodiu, em Jerusalém.

A fama (ou a infâmia) de Ayyash dá aos palestinos “o senso de que eles não estão desamparados”, explica o professor Yifrah Zilberman, da Universidade Hebráica. “Parece-lhes um herói que bate os israelenses em seu próprio jogo”, diz o jornal Maariv, acrescentando: “ele usa o próprio brilho técnico contra um gigante tecnológico armado de bombas nucleares”.

Famoso, porém não único, lembra um especialista em extremismo islâmico, Raphael Israeli: “Se as forças israelenses conseguirem capturá-lo, três outros Engenheiros vão surgir”.

100 mil foram ao enterro

100 mil foram ao enterro

Um discípulo de Ayyash foi preso no sábado passado. Mas a bomba que ele fabricou explodiu, assim mesmo, dois dias depois. O serviço secreto só ligou o autor à obra ao receber autorização de voltar a “sacudir” durante os interrogatórios. O método estava proibido desde a morte de um prisioneiro do Hamas, “sacudido” em abril. As “sacudidelas” mantém o preso acordado, minando suas resistências. “Sacudido”, Abdel Nasser Shaker Issa confessou ainda uma bomba anterior, detonada por um pavio humano em Ramat Gan, em julho. Uma célula inteira de “O Engenheiro” caiu, com mais de 30 pessoas. Na sexta-feira, um comando israelense matou outros dois membros do Hamas durante um tiroteiro em Hebron. Agora, uma polêmica “sacode” Israel: direitos humanos para suspeitos de terrorismo ou direito à vida humana para as vítimas dos atentados?

O jornalista Roni Shaked, autor de um livro sobre o Hamas, acha que só com interrogatórios de prisioneiros Israel poderá alcançar “O Engenheiro”. Os camicases palestinos são diferentes dos terroristas da OLP. Eles não se deixam recrutar como espiões. Vivem numa órbita impenetrável. Não se pode afirmar que “sacudindo” Shaker Issa se evitaria a explosão da bomba em Jerusalém. Mas o governo autorizou mais “sacudidas” em situações em que uma nova explosão pareça iminente. Nos jornais do fim de semana apareceu um pequeno anúncio: “Rabin & Peres/ Peguem um ônibus/ Como todos nós”. Ao prefeito de Jerusalém, Ehud Olmert, do partido Likud, na oposição, um repórter perguntou, refletindo um pânico geral: “Você pegaria um ônibus?” Ele respondeu que ainda vai fazer um passeio de ônibus, na semana que vem. “Mas, em geral, uso meu carro”, explicou.

Os passageiros de ônibus se olham com desconfiança. A polícia quer treinar cães para farejar pavios humanos. Cada nova explosão mina o apoio do governo Rabin para prosseguir as negociações com o líder da OLP, Yasser Arafat. Esta é a vitória de um único homem, “O Engenheiro”. Os israelenses o prenderam uma vez. É a lenda que corre na Cisjordânia. “Os soldados o sequestraram na Universidade Bir Zeit e o levaram para um lugar deserto. Quando iam matá-lo, eis que surgem do céu três mulheres vestidas de branco. Então, elas o protegeram”. Sob proteção divina, Ayyash planejou o seu maior ataque até hoje, o homem-bomba que explodiu dentro de um ônibus no centro de Tel-Aviv, em outubro de 1994, matando 22 pessoas.

maisMilitantes do Hamas dizem que “O Engenheiro” também conta com a proteção de um país árabe, onde agora estaria morando. Seria a Síria, mas o serviço secreto de Israel afirma que ele se esconde em Gaza, com uma jovem esposa e um filho. O pai não o vê entre suas oliveiras em Rafat “há dois anos”. E se lembra com orgulho de uma bomba de água que ele montou: “Até hoje dela não vaza uma gota”. Outros dois filhos, Younis, 20 anos, e Merae, 25, estão presos. Vizinhos o lembram como a um santo: “Ele nunca perdia nenhuma das cinco orações do dia, e começou a jejuar no sagrado mês do Ramadan quando tinha apenas 7 anos, bem antes da idade requerida pelo islamismo”.

Confronto israelense, via Brasil.

Tiroteio entre oposição

e governo em Israel

envolve o Brasil

Dayan: embaixador no Brasil?

Dayan: embaixador no Brasil?

A campanha contra a nomeação do israelense Dani Dayan para assumir a embaixada de Israel em Brasília, por ele ser um símbolo da colonização judaica na Cisjordânia, não começou no Brasil. A objeção ao novo embaixador, revelada em nome da presidente Dilma Rousseff, mas atribuída ao chanceler informal Marco Aurélio Garcia, foi pedida por três veteranos embaixadores israelenses ao embaixador do Brasil em Israel, Henrique Sardinha Pinto.

“Traição!” — grita-se em Israel. O ministro da Defesa, Moshe Ya’alon, escreveu em sua página no Facebook: “Esses cidadãos israelenses (os três ex-embaixadores e militantes de esquerda) perderam toda a vergonha (…) É por causa de atitudes assim que Israel vive sob ataque no mundo e sujeito a tentativas de deslegitimá-lo”.

yesha

Um dos “traidores”, antigo diretor-geral do Ministério de Relações Exteriores israelense, Alon Liel, disse à rádio das Forças Armadas, ao ser questionado por que foi fazer sua campanha contra a nomeação de Dayan direto no Brasil, e não em Israel: “Se eu considerasse que meu campo político pudesse chegar ao poder, agiria aqui. Mas minha ideologia não tem chances em eleições num futuro próximo. Daí a decisão tomada. A solução de dois estados (um palestino, outro israelense) só será salva se apelarmos à comunidade internacional”.

Alon Liel, que foi embaixador na Turquia, e os ex-embaixadores de Israel na África do Sul, Ilan Baruch, e na França, Elie Barnavi, com apoio de militantes de esquerda e do ex-deputado do partido Meretz, Mossi Raz, encontraram-se com representantes da embaixada do Brasil e da Autoridade Palestina. Disseram-lhes, em resumo: “Aceitar a nomeação de Dani Dayan será o mesmo que dar legitimidade internacional à colonização (nos territórios ocupados da Cisjordânia)”. Até chamaram Dayan de “chanceler dos colonos”.

Nascido na Argentina, Dayan (nenhuma relação com o general Moshe Dayan) foi presidente do Yesha Council, acrônimo para Yehuda (Judeia), Shomrom (Samaria) e Aza (Gaza), nomes bíblicos usados para designar a Cisjordânia e Gaza, central dos conselhos municipais das colonias construídas nos territórios conquistados por Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Ele próprio, secular, mora numa das colônias, em Maale Shomron.

Não só esbravejou o ministro da Defesa. O da Economia, Arye Dery, presidente do partido

Ya'alon, mnistro da Defesa (foto: Ofer Vaknin)

Ya’alon, mnistro da Defesa (foto: Ofer Vaknin)

ultraortodoxo Shas (Guardiães da Torá), propôs que “os esquerdistas sejam condenados”. Para ele, é por essas ações que a esquerda está cada vez mais distante do poder em Israel”. A deputada social-democrata Shelly Yachimovich, do Partido Trabalhista (pela Machane Hatzioni), ficou irritada ao ver gente de seu campo político agir com tamanha “baixeza” — e, pedindo desculpas, acrescentou: “idiotas”. Aos três ex-embaixadores, desafiou: “Por que vocês não moveram montanhas aqui? É inadmissível fazer isso através de um governo estrangeiro”. Para ela, Dayan é um nomeado de muito valor — uma das “mais inteligentes e tolerantes figuras públicas, exemplar por seu diálogo entre esquerda e direita”. Ainda arrematou: “Israel é governado pela direita, eleita democraticamente pelos eleitores israelenses, e assim designa seus embaixadores, alguns do corpo diplomático, outros não, como o fizeram governos anteriores”.

O líder da oposição Isaac Herzog, da União Sionista, e o presidente do partido Yesh Atid (Há Futuro), o jornalista Yair Lapid, renovaram o apoio à indicação de Dani Dayan ao embaixador brasileiro Henrique Sardinha Pinto. Eles acreditam que a nomeação ainda tenha futuro. O presidente da Knesset, o parlamento israelense, Yuli Edelstein, deixou claro que a candidatura à embaixada em Brasília se mantém “sólida” e que qualquer tentativa de desqualificá-la “deverá ser rejeitada”.

Colônia israelense na Cisjordânia

Colônia israelense na Cisjordânia

Dayan publicou artigo no The New York Times, em junho de 2014, propondo a derrubada de muros físicos e psicológicos que separam israelenses e palestinos. Explicou, na tradução de Rua Judaica: “A disputa territorial árabe-israelense é um jogo de soma zero, mas as considerações humanas não são. Não ganhamos nada com a humilhação ou a pobreza dos palestinos. Melhorar a qualidade de vida dos palestinos não conflitua com outros propostos endgames, como anexação da Judeia e da Samaria ou a fórmula de dois Estados. Nem as questões do status final serão alteradas: Os palestinos continuarão a votar nas eleições da Autoridade Palestina e os israelenses, nas eleições de Israel”, Ou seja: ao invés de dois estados, um só, binacional.