Seleção mundial de capas do Fifagate

Acima estão algumas das capas que driblaram a mesmice. Inclui a dos jornalões, sem grandes novidades, para mostrar como reagiram. Entre eles esqueci a Folha, que não vi na peneirada feita no Newseum. Acrescento-a agora, porém não a da primeira página, mas a da edição de Esportes, que chama mais a atenção.Folha_de_S_Paulo_-_Digital_Pages

A pioneira americana Edith Warton

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Edith Warton

Edith Warton

Berkshires, MA — Escrevia na cama todas as manhãs, largando no ar cada folha manuscrita para que pousasse oscilante no chão. Sua secretária recolhia a produção do dia e a datilografava.

Em 40 anos, Edith Wharton escreveu 40 livros – e com um deles, The Age of Innocence (original grátis em http://www.gutenberg.org/etext/541), conquistou em 1921 o primeiro prêmio Pulitzer concedido a uma mulher nos Estados Unidos.

O quarto das criações de Edith não era qualquer um. Ela o chamava, em francês, de boudoir. Tratava-o como a um santuário. Foi construído no canto norte de sua mansão de 42 quartos em Lenox, acima de uma biblioteca de 2.700 livros, e com vista para colinas distantes, o lago Laurel e um jardim de flores anuais, carregado de petúnias argentinas, em torno de um espelho de água retangular com uma fonte no meio.

Mãos habilidosas para escrever, plantar e arquitetar, Edith projetou com minúcias cada detalhe de O Monte, a mansão de estilo georgiano em que viveu por uma década. No lado norte, criou um giardino segreto, um jardim secreto murado com um mínimo de plantas, pedras cobertas de musgo, bancos debaixo de arcos e um pequeno lago com uma fonte. “Sou melhor paisagista do que novelista”, ela se gabava. Seu primeiro livro, escrito em 1897 com um arquiteto amigo, Ogden Codman, foi The Decoration of Houses. Depois, em 1904, publicou Italian Villas and Their Gardens.

The Gardens at The Mount, August 2009 Photos by Kevin Sprague ©2009

The Gardens at The Mount, August 2009
Photos by Kevin Sprague ©2009

Um dos quartos da casa foi especialmente arrumado para seu hóspede mais bem-vindo, o escritor Henry James, que muito a influenciou. De vez em quando a visitavam também o presidente Teddy Roosevelt e os escritores F. Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway.

Mesmo cercada de amigos, na casa que construiu, autora de livros de sucesso e filha de pais magnatas de uma família nova-iorquina tricentenária, Edith era infeliz. Faltava-lhe o marido, Edward ‘Teddy’ Robbins Wharton, 12 anos mais velho do que ela, um socialite e desportista sem nenhuma propensão literária, artística ou cultural, e com a saúde mental e física decaindo progressivamente, a partir de 1903. Foi ele próprio quem confessou que desviava dinheiro da conta bancária comum para manter uma amante em Boston.

O casamento ruiu. E com ele, O Monte. Edith se divorciou em Nova York. “Divorciar em Nova York é um diploma de virtude”, escreveria. Ela deixou a mansão e os Berkshires em 1911, e nunca mais voltou. Foi para a França. De lá partiu de carro para as frentes da Primeira Guerra Mundial. Mandava notícias para os Estados Unidos como correspondente de guerra.

O governo francês a condecorou com a Legião de Honra por ter ajudado os sem-teto franceses e belgas. Mas o que ela encontrou mesmo na França nunca antes tinha vivido até os 46 anos: uma paixão. O amante era Morton Fullerton, um jornalista do London Times em Paris, amigo de Henry James. Tempos felizes… Seu novo círculo de amigos incluía o poeta, cineasta e novelista Jean Cocteau e o escritor André Gide, fora os americanos para quem Paris era uma festa.

Uma única vez Edith voltou aos Estados Unidos. Foi em 1923, quando recebeu o doutorado em letras pela Universidade de Yale – um título inédito para uma americana. Ela também se elegeu membro pleno da American Academy of Arts and Letters, em 1930.

Na farta bibliografia que deixou, o título de um conto chama a atenção: “Xingu” (download grátis: http://www.readbookonline.net/readOnLine/1584/) Mas ela nunca esteve na Amazônia. O rio aparece como cenário para a trama.

O Monte passou por seis proprietários, entre eles uma escola feminina e um grupo de teatro, Shakespeare & Company, até ser tombado e restaurado aos seus dias de glória. Está impecável, um museu com jardins fantásticos abertos para piqueniques.

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Edith ficou na França, escrevendo até um ponto final — o ataque cardíaco em 11 de agosto
de 1937, quando tinha 75 anos. Ela foi enterrada no cemitério americano de Versalhes. Em seu túmulo, há uma inscrição em latim: O Crux Ave Spes Única (Salve, oh Cruz, nossa única esperança).

Baleia à vista

View from Arrowhead

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Berkshires, MA -A enorme baleia branca boiava no alto do Monte Greylock, bem longe do oceano, em Pittsfield. Era só Herman Melville abrir a janela para avistá-la. Ele se sentia tão ao mar em Berkshires que descrevia seu quarto como a cabine de um navio. E nas noites de ventania continha o impulso de subir ao telhado para pegar a roda do leme, e enfrentar as ondas até ancorar num porto seguro.

Moby Dick ainda hoje está no horizonte, boiando imóvel a 1.064,06 metros do Monte Greylock, na Monument Mountain, o ponto mais elevado de Massachusetts. Não era um delírio do marujo-escritor Herman Melville, que vivia obcecado por baleias, o tema de um novo livro que já deveria ter enviado a seu editor em Londres.

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Em dias claros, os turistas avistam Moby Dick da janela de Arrowhead, o casarão de uma fazenda de 1780, em Pittsfield, comprado por Herman Melville depois de participar de um piquenique no topo da Monument Mountain, em 5 de agosto de 1850, com o editor Evert Duyckinck, os escritores Oliver Wendell Holmes e Nathaniel Hawthorne, e o jurista David Dudley Field Jr. Ouviam a leitura da lenda de uma índia que pulou dali para a morte, o coração despedaçado pela paixão por um primo, quando desabou um temporal.

Melville, 32 anos, e Hawthorne, 46, buscaram abrigo juntos, enquanto Holmes servia champanha em canecos de prata. Tornaram-se dois grandes amigos, e um influenciou a obra do outro – sem que tenham antecipado a amizade entre os cowboys do filme Brokeback Mountain. O piquenique literário do século 19 virou um programa que ainda atrai escritores de Boston e Nova York. O lema é o de Holmes, e vale para todos os que decidem visitar Berkshires apenas para ouvir música em Tanglewood ou curar o corpo e a alma no Kripalu Center for Yoga and Health, em Lenox: “É preciso carregar as montanhas no cérebro”.

O marujo Melville foi funcionário de banco e vendedor numa loja de pele em Nova York, onde nasceu, até se alistar no baleeiro Acushnet para uma caçada de três anos a baleias, em 1841. Abandonou o barco nas Ilhas Marquesas, por brigar com o capitão, e ficou pulando de navio em navio, de porto a porto, só voltando à Nova York ao entrar para a Marinha americana.

Em terra firme, não sabia o que fazer da vida, mas tinha inúmeras boas histórias para contar. Os primeiros cinco livros o fizeram escritor. Mas nem o sucesso de Moby Dick lhe rendeu dinheiro suficiente para sustentar-se em Arrowhead com a família – a mulher, Lizzie, e quatro filhos. Até hoje best-seller, só lhe rendeu, enquanto vivo, meros US$ 589. Teve que abandonar a sua bucólica vida. Pelos 20 anos seguintes trabalhou como inspetor de alfândega em Nova York. Nunca mais escreveu prosa, só poesia – e sua musa foram os tempos em Berkshires. Morreu em 1891. Seus últimos escritos apareceram publicados apenas 33 anos depois.

Arrowhead foi comprada pela Sociedade Histórica em 1975. Curioso o endereço que cruza uma grande amizade: 780 Holmes Road, Pittsfield MA – 01201.

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Baleias à proa!

Moby Dick bóia no Mount Greylock, congelada no tempo. Mas a 4 horas de ônibus de Stockbridge, no Porto de Boston, partem cruzeiros para Stellwagen Bank, um ponto no mar em que baleias de vários tipos se encontram, e aparecem para as fotografias.

O barco tem uma área grande com ar-condicionado e cadeiras, bar, banheiros limpos, e especialistas em baleias simpáticos explicando o que todos estão vendo, às vezes mais além do que o necessário, porque, sob silêncio, ouvem-se as baleias assoviando, e até o barulho de seus mergulhos.

O passeio dura três horas. Muita brisa marinha, sol forte, os passageiros que não comeram o fast-food a bordo estão prontos para um dos ótimos restaurantes de Boston.

Quem embarca para ver baleias, a US$ 35 os adultos, e US$ 29, crianças, receberá um ticket para outra próxima viagem, se não avistar nenhuma. A propaganda promete “garantia de baleias”, ou o ticket de volta.

Festa brasileira em Israel

Floydian_Font___dafont_comFloydian_1Font___dafont_comWaters, da banda Pink Floyd (The Wall),
não está conseguindo convencer Caetano
e Gil ao boicote a Israel.
Resta-lhe outro Muro, o das Lamentações.

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Clique: Gil falou contra a guerra aos soldados israelenses.

A festa brasileira em Israel

Não foi com este vestido. Mas a roupa de baixo foi a mesma...

Não foi com este vestido. Mas a roupa de baixo foi a mesma…

Tel-Aviv, 1983 — Caetano, Elba, Djavan e Ney Matogrosso reunidos num show de quase cinco horas, em israel, foram considerados “um excesso”.

Por quem o comemorou, “excelente”, e por quem o lamentou, um “desperdício”.

Um excesso: outras celebridades, como Rod Stewart e Joe Cocker, por exemplo, estão se apresentando também este mês, em outros pal­cos deste país do tamanho da Via Dutra. O público israelen­se não tem o hábito de comparecer a shows semanais, e depois de um inverno rigo­roso em espetáculos, foi posto, de repente, diante de múltiplas escolhas irresistíveis, algumas até mesmo gratuitas.

Entre nove a dez mil pessoas foram ver “O Carnaval do Brasil”, como anunciado nos cartazes de rua.­ A “festa brasileira”, prometida por um pequeno avião que a anunciou com letras de fumaça, sobre as praias de Tel-Aviv, foi feita num estádio de futebol, Bloornfield, em Jaffa. O público podia escolher a grama, perto do palco, onde seria permitido dançar, ou a arquibancada, com o preço do ingresso variando entre 12 e 16 dólares.

O estádio foi grande para o máximo de 10 mil pessoas, deixando certa impressão de vazio. Os portões entre o gramado e a arquibancada acabaram abertos, com cadeiras aos que se cansavam de dançar, e espaço, aos que se animavam.

Caetano pode se apresentar assim em Israel

Caetano pode se apresentar assim em Israel

Caetano foi recebido com muito aplauso, assim que surgiu abrindo o show. “Shalom, shalom” – cumprimentou. O que ele via era um estádio lotado, todo na penumbra, e grande animação no gramado — a policia em alerta contra invasão de fãs que marcou o espetáculo de Gal Costa e Gilberto Gil.

— Gil, Gal, Jorge Ben, Nazaré Pereira e agora Caetano, Elba, Djavan e Ney: é uma overdose para o israelense — comentou um crítico popular em Israel, Dubi Vilensky, sentado na arquibancada. — Vou ficar aqui uma hora, depois outra lá embaixo, mais uma aqui… Eu acho que cada um deles deveria ser um show à parte; há talento de sobra nesta noite.

Caetano, para o jornal Davar, foi “cansativo, cantando mui­tas músicas lentas”. Na verdade, depois de pedir ao público perto do palco, num perfeito inglês, que tomasse uma decisão entre ficar de pé ou sentado, pois cobria a visão de outros, reclamada por gritos que o perturbavam, pegou o violão, dispensou sua banda e acalmou a plateia. Claro que ele cantou sua música que fala do primeiro-ministro Beguin, Tatcher e Delfim, “Ele me deu um beijo na boca”, lançada antes das guerras do Líbano e das Malvinas, e da grande crise econômica brasileira.

“Profetas são vocês ai” — disse Caetano em entrevista a uma rádio, quando perguntado ­quais seriam os próximos personagens políticos de suas músicas.

Elba já achava, desde que chegou, que estava, na verdade, em Fortaleza. Teve a certeza quando de um sobrado emanava música brasileira, em Jaffa. Bateu à porta e, milagre na Terra Santa!, abriu-a realmente um cearense. Havia mais outros na casa. Eles tinham, ainda por cima, o seu último disco.

Muito à vontade, Elba pulou no palco que nem pipoca. Estava contagiante: levantou o público e a saia com sua voz ardi­da e sua grande alegria. (No dia seguinte alguns jornais mostraram que ficava nua, ao rodopiar).

— Cada um desses artistas merece um show individual — repetiu Eli Israeli, cujo programa de rádio é o grande promotor da música brasileira em Israel, tendo por prefixo o Trem das Onze, can­tado por Gal.

Quando Djavan entrou no palco, já quase 11 da noite, o público pedia Samurai, que seria a última apresentada por ele, uma hora depois. Eis então que surge Ney Matogrosso, emplumado, uma grande surpresa, a apoteose. Tanto sucesso, tentaram ­promover um show só para ele, no dia seguinte, num teatro de Tel-Aviv.

Ney: arrasou.

Ney: arrasou.

Mas no camarim, Ney não estava feliz por ter sido o último do show. Esperou, sentado, maquiado, por três horas e meia. Foi recompensado, o único a ter que voltar para um bis — a exceção, Caetano, reapareceu convidado por Djavan.

Caetano e Elba assistiram ao final do show, com Ney no palco, sentados na grama. Para eles tantos brasileiros não foram excessivo, mas “muito bom, fantástico”.

A empresária Lilian Schutz levou Caetano, Djvan e Elba para outro show, numa praça de Haifa, onde reuniu um público de cinco mil pessoas, a 10 dólares cada. (Promotora da maioria dos shows de brasileiros em Israel, não é ela, desta vez, a responsável pela nova visita de Caetano e Gil.).

Bo Le Rio

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Tel-Aviv, 1985 — O título do disco é Bolerio, e como em sua capa e contraca­pa aparecem erros como “participagao”, “musicas convidados”, “car- linghos” e “technico”, pode-se pensar numa coleção de boleros grava­da sem maiores cuidados de revisão.

Mas “bo-le-rio”, assim separado, significa, em hebraico, “Vamos ao Rio”, e quem está convidando é uma cantora israelense, Yehudit Ravitz, com 10 músicas de Jorge Ben e banda do Zé Pretinho.

Ravitz

Ravitz

Bolerio foi gravado ao estilo da Guerra dos Seis Dias, em 48 horas, entre 17 e 19 de abril, pela CBS israelense. Foi o resultado de um impulso que levou Yehudit a subir ao palco­ convidada por Jorge Ben, num teatro lotado de Tel-Aviv. O público se negava a ir embora sem mais um bis. Os dois sequer se conheciam.

Jorge Ben foi de País Tropical, em português, e Ravitz o seguiu, em hebraico. “Tudo espontaneamente”, ela contou. “Os rapazes da banda queriam gravar o disco, e eu gostei de cantar com eles — uma total empatia. Estava gravando meu próprio álbum, sem conexão ccm 0 Brasil. No dia seguinte ao show, já estava selecionando oito musicas de Jorge Ben para uma gravação totalmente inesperada”.

Por que tanta musica brasileira em Israel? A própria Ravitz já tinha gravado com outro cantor israelense, Matti Caspi, um LP com 0 titulo de País Tropical, e nos últimos dois anos vieram a Israel vários cantores brasileiros, entre eles Gal, Gil, Caetano, Ney Matogrosso, Elba, Nazareth Pereira e Jorge Ben.

Ravitz acha que “Israel é um país triste e que os israelenses procuram alegria — uma alegria que existe na musica brasileira”. A explicação de Gilberto Gil foi outra:

— Israel é também um país tropical

Shuaras queriam fazer a cabecinha-oca de Fujimori

Estive com os shuaras equatorianos depois que foram _bolinnha2bombardeados pelo Peru, em 1995.A vingança que juravam me espantou: iriam reduzir a cabeça de Alberto Fujimori ao tamanho de uma bola de tênis, espetada na ponta de uma lança. E não seria a primeira.

imagesBomboiza, Equador (janeiro/fevereiro 1995) — Quando falam da “pequena cabeça do presidente Alberto Fujimori”, os índios shuaras da Amazônia equatoriana não estão minimizando a sua inteligência. Estão falando em redução de cabeça mesmo, “tzantza”, que há 50 anos não praticam.

A cabeça do presidente Fujimori está ameaçada de ser reduzida a pouco mais de uma bola de tênis, e se tornar um troféu espetado numa lança, porque a aviação peruana bombardeou a nação Shuar em Shiramentsa, Banderas e Numbatkaime.

As bombas de Shiramentsa (Fátima, em espanhol) abriram três crateras sem atingir os índios. Mas os deixaram furiosos clamando por “tzantza”. Em Bomboiza, ao pé de El Cóndor, a montanha sagrada dos shuaras, o líder Nantipia falou também de “tangana”, um veneno extraído de uma planta, Pallo Fernandez, que cresce matando toda a vegetação ao redor. “Uma só gota mata de 15 a 20 pessoas”, explicou.

Os shuaras caçam com zarabatanas. Podem acertar um alvo distante até 40 metros. Mas preferem os fuzis. Um grupo de índios coletou fragmentos das bombas peruanas para tentar trocá-los por fuzis na base Centinela del Cóndor, em Gualaquiza. “Não nos deram armas”, lamentou Nantipia. “Estão em falta, disseram”. Mas ele não acreditou: “Desconfiam de nós porque estamos contra a privatização de uma mina de ouro em Bomboiza”.

No exército equatoriano há um batalhão exclusivo de shuaras desde 1981 – um prêmio pelo resgate de vários soldados desaparecidos na floresta. São os iwias, ou “diabos da selva”, os gigantescos inimigos míticos que o guerreiro Shuar deve enfrentar em sua iniciação, quando peregrina às cascatas sagradas do Cóndor e toma uma poção de ervas alucinógenas para “ver” o próprio destino.

1984

O sargento Anguacho foi um iwia que lutou em guerras passadas contra o Peru. Hoje, com “mais” de 12 filhos, “talvez uns 60 anos”, parece mais um anjo da selva. Sorri desdentado, bonachão. E se mantém uniformizado e armado com um fuzil Fall 62, esperando na porta do quartel de Gualaquiza que o mandem para a frente de batalha. “Sei o que é combate”, ele diz. “Quero me unir aos meus irmãos na floresta”.

Um repórter pergunta a Anguacho se ele se sente equatoriano ou peruano. Nem um nem outro, responde. A Amazônia não tem fronteiras para o Shuar. Mas são do Equador os papéis que os identificam. E está em território equatoriano a montanha sagrada do Cóndor, onde perambula o espírito de Arutam, o deus que toma a forma de qualquer animal. “Temos que defendê-la”. Mesmo que na outra trincheira esteja um Shuar alistado pelo exército peruano.

Os shuaras dos vizinhos em guerra se relacionam, muitos até são parentes, mas “quando se sentem de um país ou de outro, definem uma fronteira” – explica o sociólogo Jorge Trujillo, que estuda as comunidades indígenas do Equador. Para ele, na mesma situação estariam os Ianomâmis divididos entre a Venezuela e o Brasil. “O que está acontecendo é um enorme passo na política das nacionalidades indígenas em relação à nação equatoriana. Muitos críticos protestaram quando se falou em autonomia para as nações indígenas. A resposta foi direta: os índios participaram ativamente com o exército para manter as posições do Equador. Isso demonstra que a unidade é uma realidade”.

A luta entre os shuaras não chega a ser uma exceção. “O mesmo já aconteceu em guerras na Ásia e na África”, lembra Trujillo. O sargento Anguacho resume com simplicidade: “Somos como um mamão partido. Mas continuamos sendo mamão”. No Oriente Médio, os árabes do exército israelense descrevem o paradoxo assim: “Meu país está em guerra contra meu povo”.

Os shuaras que ficam na retaguarda participam da guerra preparando chifles para as tropas. As mulheres cortam bananas e batatas em finas fatias, e depois de fritá-las em separados panelões, misturam-nas com carne em pequenos pacotes de plástico – um para cada soldado. Suam ao lado do fogo no calor de 40 graus da Amazônia. E vão bebericando cuias com chicha, feita de mandioca.

shuar10-x  Em Bomboiza, o líder Nantipia repete uma denúncia que foi desmentida pelo Peru: “O exército peruano está usando nossos irmãos como bucha de canhão. São eles que vão à frente das patrulhas para detonar as minas”. O shuar Marcelino Chupi foi a Paris, no fim de semana, para participar da Segunda Assembleia da Iniciativa Indígena pela Paz, onde acusará o Peru de incentivar “a luta entre irmãos”. O prêmio Nobel da Paz de 1992, Riguberta Menchú, pediu o imediato cessar-fogo numa carta aos presidentes Sixto Ballén e Alberto Fujimori. “As primeiras e principais vítimas estão sendo os povos indígenas”, ela lamentou.

Os líderes dos 40 mil shuaras do Equador proclamaram guerra contra o presidente Fujimori, não contra os 10 mil “irmãos” do outro lado da fronteira, nem contra o povo peruano. E saíram às ruas de Quito pedindo, literalmente, a sua cabeça, para reduzi-la extraindo-lhe os ossos e recheando-a de pedras e sementes.

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No meio do caminho tinha Petra

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Memória esculpida em pedra rosa-vermelha, Petra assombra. É o testemunho petrificado de um povo que perambula pelo deserto da Terra Santa há mais de 2 mil anos.

populac3a7c3a3o-de-beduinos-do-desertoEl Badwi — estepe, começo e beduíno em árabe, esse povo “tem o ar, os ventos, o sol, a luz, os espaços abertos e um imenso vazio” – como dizia o arqueólogo, militar, espião e escritor inglês Thomas Edward Lawrence (1888-1935), o lendário Lawrence da Arábia do livro Os Sete Pilares da Sabedoria.

Os nabateus, primeiros beduínos, vagavam em caravanas das dunas do sul da Arábia até o Mediterrâneo, no século IV a.C., respeitando os mandamentos expostos ao profeta bíblico Jeremias (35:7): “Não edificareis casa, não fareis sementeiras, não plantareis nem possuireis vinha alguma; mas habitareis em tendas todos os vossos dias, para que vivais muitos dias sobre a terra, em que viveis peregrinando”.

Não passavam de 10 mil, os nabateus; porém, “superavam em riqueza a outros árabes”, conta Diodorus Siculus, historiador da era do imperador Augusto. Descendiam de Nabayot, filho maior de Ismael e neto de Abraão. Em Petra (do grego petros, pedra), ou Batra (pedra, em árabe), encontraram água, ainda na fonte que o patriarca Moisés fez brotar de um pedregulho, ao cruzar o deserto conduzindo os judeus da escravidão no Egito à liberdade em Canaã, a Terra Prometida.nabateus

Labirinto de penhascos estratégico na rota das caravanas de especiarias (ouro, prata, mirra, púrpura fenícia, madeira e seda) que unia a Síria ao Mar Vermelho, e a Índia ao Oriente Médio, Petra tinha também a vantagem de ser uma fortaleza natural imbatível, blindada contra invasores. Com água e segurança, os nabateus foram abandonando a vida nômade. Fundaram um império: no século 1 a.C., sob o reinado de Aretas III, a Arábia Pétrea já se estendia de Damasco à Salah, na Arábia Saudita, com 30 mil habitantes.

Petra ficou conhecida como “Rainha do Deserto”, um reino que abrange a fortaleza de Massada, onde 967 judeus preferiram o suicídio à rendição aos romanos em 70 a.C., e as grutas de Qumram, local em que os essênios guardavam os recentemente descobertos Pergaminhos do Mar Morto – duas maravilhas no mesmo cenário lunar do deserto bíblico de Edom. A cidade teve poder, glória e independência até o ano 106, quando o Império Romano a anexou, sob o governo de Trajano (98 a 117). Posta de fora da rota das caravanas dos “navios do deserto”, os camelos, caiu no esquecimento. Um longo esquecimento.

2013-06-22 08.37.52Do esplendor de Petra restam hoje um trecho de rua pavimentada, uma porta monumental, um teatro romano para quatro mil pessoas, uma colunata, um mercado e mais de 750 tumbas, incluindo a de al-Deir, a melhor conservada, talvez a do último rei nabateu, Rabel II, com 45 metros de largura por 42 de altura. A cor dominante tem matizes vermelhos, marrom, amarelo e violeta. As pedras parecem estar pegando fogo com o passado. A rocha dentro dos mausoléus, formatada pela erosão da água e do vento, mostra os efeitos de um caleidoscópio.

“Quem me conduzirá à cidade fortificada? Quem me guiará até Edom?” (Salmos 60:9)

2013-06-22 09.03.21

A estrada para Petra, a 70 quilômetros ao Sul do Mar Morto, vai serpenteando um árido planalto até descer a um pequeno vale. De repente, numa curva da “siq”, uma estreita garganta de um quilômetro que se aprofunda até a 100 metros, surgem, magníficas, talhadas na rocha, as colunas de Khazneh Firaoun — o Tesouro do Faraó. Os beduínos ainda hoje as fazem de tiro ao alvo, já muito perfuradas, pretendendo que o ouro que contenham escorra pelos buracos, segundo uma lenda. Mas enquanto esperam, alugam camelos ou charretes para os turistas que não conseguem caminhar de volta a pé, sob sol abrasador. Uma branca mesquita marca o local em que foi enterrado Aaron, o irmão de Moisés.

Só uma pequena parte de Petra emergiu em décadas de escavações. Não há pressa. Arqueólogos querem antes conter a erosão que ameaça monumentos desenterrados. Um plano implicaria no restauro do sistema de canais de irrigação dos nabateus, visíveis pelo caminho até o Tesouro do Faraó. Aproveitando até a última gota de água, acumulada em reservatórios, eles plantavam jardins e alimentavam fontes. A paisagem era diferente, e a terra, melhor, não essa aridez atual. Florescia mesmo um bosque de carvalhos. Uma igreja bizantina com mosaicos do século V brotou ultimamente em pesquisas de um grupo americano. Também foi exumada uma mulher com 180 moedas, provavelmente soterrada durante um terremoto no ano de 363.

2013-06-22 08.53.50Amonitas, amorreus, moabitas e edomitas também deixaram rastro bíblico nos reinos de Edom, Gilead e Moab, a moderna Jordânia, conquistada pelos egípcios, assírios, babilônios, persas e romanos. Os árabes só chegariam entre 633 e 636, com o islamismo. Cristãos cruzados assumiram o poder na Idade Média. Otomanos governaram de 1517 até 1918, o fim da primeira guerra mundial. Os ingleses mandatários designaram as terras a oeste do rio Jordão como Palestina, e à leste, Transjordânia, então entregues à administração do príncipe Abdullah ibn Hussein, filho do governante hashemita de Meca e irmão de Faiçal, destronado da Síria pela França. Ele se coroou rei ao proclamar a independência em 1946 — e foi assassinado em 1951, em Jerusalém. Em dois anos, outro estado independente se formaria ao lado da Jordânia: Israel.

Petra renasceu em 1812, redescoberta pelo suíço Johann Ludwig Burckhardt (1784-1817), que aprendeu árabe, treinou longas caminhadas e se disfarçou de sheik, sob o pseudônimo de Ibrahim Ben Abdalla, desconfiado de que não iria fundo no deserto se parecesse viajante ocidental. Levava uma cabra para sacrificar na tumba de Aaron. Um dia, ele dobrou a curva da “siq”, e ali estava Petra. Seguiram-se outros viajantes. E novas expedições científicas.

2013-06-22 09.57.27Hoje os turistas desembarcam em Aman, a 262 quilômetros ao Norte, a ex-Rabbath-Ammon bíblica e ex-Philadelphia greco-romano, “cidade branca” de um milhão de habitantes com as ruínas do templo de Hércules, a capital do reino hashemita, onde a família Hussein bin Talal reina há mais de 50 anos. Visitam Jerash, a “Pompeia do Oriente”, a mais bem preservada das dez cidades romanas do século I a.C. que formam uma confederação, Decápolis, povoada desde a Idade do Bronze, há 5 mil anos. Das ruínas de Umm Qais, a antiga Gadara, avistam-se todo o vale do rio Jordão, o Mar da Galileia e as colinas do Golã, com os picos nevados do Monte Hermon. O mapa da Palestina e da Terra Santa no século VI é “a” preciosidade da “Cidade dos Mosaicos”, Madaba, ao lado do Monte Nebo, onde o profeta Moisés teria morrido e sido enterrado.

Petra foi para a tela de cinema com “Indiana Jones e a Última Cruzada”; foi transformada em miragem por Hollywood. É um pedregulho que foi sendo esculpido pelos nabateus e pelo tempo. Nas ruas de areia e pedra, há muitas pedras para escalar ou soltas pelo meio do caminho.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra.

(Carlos Drummond de Andrade)

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O mundo se lembra de Lawrence da Arábia libertando árabes, montado num camelo. Lawrence Thomas Edward da Arábia morreu montado numa motocicleta, em Dorset, na Inglaterra, em maio de 1935.

Os dois eram um só: o aventureiro britânico, militar e escritor, que nasceu em 1888, ano da Lei Áurea no Brasil, e que em 1910, com 22 anos, já havia se formado pela Universidade de Oxford e estava embarcando numa expedição arqueológica do Museu Britânico à cidade hitita de Carchemish, hoje Karkamis, na Turquia. Que aprendeu árabe no deserto do Sinai. Que trabalhou para o Serviço de Inteligência Militar da Inglaterra no Cairo ao eclodir a primeira Guerra Mundial, em 1914. Que foi enviado para o Hejaz, a moderna Arábia Saudita, com um grupo de socorro ao príncipe Faiçal, que se tornaria rei do Iraque.

Lawrence lutou entre os árabes na rebelião contra o governo turco. Era um conselheiro militar. Unificou as forças armadas árabes para conduzi-las à vitória contra os turcos. Em 1918, com Faiçal, entrou em triunfo em Damasco, à frente do exército britânico. Foi participar da Conferência de Paz de Paris, em 1919, mas voltou sem a independência. De 1921 a 22 ficou na divisão de Oriente Médio do governo inglês, em Londres. Mas por pouco tempo, porque decidiu renunciar para se alistar na Royal Air Force, sob o pseudônimo de J. H. Ross. Não queria aparecer, porque já era muito popular. Em 1923, ele passou para a divisão blindada. Em 1925, retornou à força aérea de “Her Majesty” por dez anos.

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No último dia do décimo ano, em 1935, Lawrence foi dar uma volta sem sua motocicleta em Dorset. Apareceram dois ciclistas à frente. Desviou, mas a manobra o derrubou e ele bateu com o crânio no chão. Seis dias depois, sem ter recobrado a consciência, foi enterrado. O neurologista que cuidou dele começou então uma campanha para que todos os motociclistas passassem a usar capacetes.

Lawrence deixou uma obra escrita. Um dos livros, Sete Pilares da Sabedoria, de 1926, é uma coletânea de suas aventuras no mundo árabe. Outro é uma condensação, Revolta no Deserto, lançado um ano depois. Como personagem de filme, deu a sir David Lean, diretor de cinema inglês, um segundo Oscar em Hollywood.