Lobo mau baleado. De verdade.

 

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O caçador deu um tiro no lobo mau. E não foi de mentirinha.

Sangrando, o lobo mau cambaleou três passos, sentiu a perna endurecer, tirou a máscara, e caiu desmaiado na cadeira da vovó.

A plateia ria de tanto realismo para um conto da carochinha. Chapeuzinho Vermelho “perdeu a voz”, tão assustada. A vovó irrompeu no palco, saindo detrás de um vaso, onde se escondera ao ser “comida” pelo lobo mau, e deu o alarme: “é sangue! … sangue!”

Era a abertura da anual Feira de Ciências e Cultura na Escola Cenecista Miguel Matias, em Campo Alegre, a 86 quilômetros de Maceió. A escolha de encenar Chapeuzinho Vermelho fora feita pelos 28 alunos do segundo grau. Tinham liberdade para decidir. O estudante José Claudevan, 21 anos, lembra: “No ano passado, tivemos câncer de mama como tema de uma exibição”. Mas, desta vez, “as meninas”, futuras professoras, sugeriram uma encenação que algum dia haverão de promover entre seus próprios alunos.

Campo Alegre dá as boas vindas aos visitantes com uma placa fincada pelo prefeito Miguel Felizardo no entroncamento da estrada para Arapiraca. “Alegre” e “Felizardo” não combinam com o clima de suspeição e hostilidade que paira sobre os forasteiros. É uma cidade dos boias-frias que trabalham no canavial de perder de vista da região. Diante de casas baixas, coloridas, muita gente fica sentada, gozando o fresco da sombra. São algumas compridas ruas pouco movimentadas. Crianças brincam de mirar os passantes com revólveres de plástico. A primeira impressão é a de que existem muitas funerárias para o tamanho da cidade. Mas, para um motorista conhecedor da zona da mata alagoana, “não faltam clientes”: a violenta política os produziria em abundância.

Não é de espantar, assim, que o final inesperado de Chapeuzinho Vermelho tenha alcançado Maceió, numa nota de três parágrafos ao pé de uma página interna de jornal, como mais um caso de agressão. Não foi. O lobo mau José Claudevan é muito amigo do caçador Iran do Carmo.

Soro na mão, esparadrapos no buraco de entrada e saída da bala na coxa direita, Claudevan deve receber alta hoje. Do palco no pátio da escola dois professores o levaram sangrando muito ao pronto-socorro de Arapiraca. Mas lá ninguém estava sendo atendido, por causa da greve geral nos serviços públicos estaduais de Alagoas. O jeito foi seguir para Aracaju, em Sergipe.

Lobo mau Claudevan conta que o anestesiaram para limpar os fragmentos “de chumbo ou pólvora”, observaram-no por três dias e o mandaram de volta para recuperação no hospital Senador Arnon de Mello (pai do ex-presidente Fernando Collor) em Campo Alegre.

“Nunca trabalhei em teatro”, explica Claudevan. E para ser lobo mau só ensaiou três vezes, todas na quarta-feira, véspera da estreia na Feira de Cultura e Ciências.

chapeuzinho vermelho

Quando entrou em cena, o lobo mau, na verdade, era um macaco. “Não havia máscara de lobo… então, usamos a que encontramos” – conta Claudevan, de boné do time de basquete Chicago Bulls na cabeça e um radinho de pilha na cabeceira, dividindo um quarto da enfermaria com outro paciente.

Fada da Bela Adormecida e uma vez até “Nossa Senhora”, agora Sandra Madense, 18 anos, seria Chapeuzinho Vermelho, no lugar de outra “atriz” que desistiu de vergonha de cantar “pela estrada afora…” Também muito tímida, ela diz “não ter voz”. E fala pouquíssimo.

Sandra Chapeuzinho Vermelho lembra que a peça estava no momento em que ela correria atrás de socorro do caçador, desconfiada daquela boca grande do lobo mau. “Pra te comer”, disse-lhe o macaco-lobo.

Entra em cena Iran, o caçador. Tem nas mãos uma espingarda velha que “disparou” várias vezes nos três ensaios do dia. Do tipo “soca-tempero”, todos a experimentaram de brincadeira. Mas “arma antiga gosta de pegar resíduos de chumbo”, sabe o experiente vigia da escola Cenecista Miguel Matias. Para ele, foi apenas o que aconteceu. “Um infortúnio”. E nada mais pode declarar, desconfiado. No 2° Distrito Policial de Campo Alegre, o plantonista garante que não conhece ainda a nova versão de Chapeuzinho Vermelho. E que não há um processo teatral em investigação. Nem espingarda apreendida.

Sandra Chapeuzinho Vermelho tem namorado, e ele não é nem o lobo, nem o caçador. Assim ficaria afastada a suspeita de “agressão” provocada por ciúmes ou disputa entre dois adolescentes. Iran, o caçador, só não apareceu no sábado no hospital Arnon de Mello, o primeiro dia de visitas a Claudevan, porque vive em outro município, Limoeiro, e ainda afastado da cidade, na fazenda Recanto.

A “vovó” Alzineide Nazário dos Santos, 18 anos, sentou-se à beira do leito de Claudevan. Na hora em que o caçador quase matou de verdade o lobo mau ela estava escondida atrás de um vaso, já “devorada”. Ficaria dentro de um armário, cumprindo o roteiro da “narradora” Andrea Maria dos Santos, 18 anos. Não conseguindo, “o jeito foi improvisar com uma planta”.

lobo

Publicado no Estadão em 16/9/1996

 

As visitas lotaram a enfermaria. Uma diretora do hospital ameaçou mandar todos embora por causa do repórter e fotógrafo “presentes sem autorização”. Um funcionário chegou a pedir que “essa história fosse esquecida”, porque “Alagoas já foi muito difamada por causa do (ex-presidente) Collor e do (empresário) PC Farias”.

Um final feliz: Chapeuzinho Vermelho e a vovó revelaram que, “agora, o lobo mau ficou sabendo que é muito querido por todos colegas de classe.”