Meu mundo de ponta-cabeça


eu 008

Passei uma vida correndo — maratona de 54 anos. Já faz um ano que puxei o freio, mas ainda não parei, como carro estertorando depois de desligado. Mais alguns dias, e serei septuagenário.

Corri muito: foram horários de fechamento de jornal, muitas vezes contra o fuso horário aonde me encontrava. De bombardeios aéreos no Líbano. De tiroteios, no Panamá  e em El Salvador. De uma espada de degola, em Ruanda. De traficantes, em morro do Rio. De franco-atiradores no porto de Beirute. De inundações e terremotos.

Corridas contra bloqueio diante de lauda em branco na hora do deadline, para alcançar um avião já partindo, para encontrar um passageiro que aceitasse levar laudas e rolos de filme a alguém que o esperaria no destino, para cruzar fronteiras fechadas e para obter acessos e encontros exclusivos.

Só de lembrar dá um enorme cansaço. Poderia continuar correndo, agora contra a decadência e, finalmente, a morte. A fonte da juventude está hoje armada com poderoso arsenal: Viagra, plásticas, tratamentos anti-aging, dietas rigorosas, próteses, vitaminas, exercícios, implantes dentários, comunidades “sempre jovens” nas redes sociais, “dança para idosos”, 41 milhões de respostas no Google sobre “como manter-se jovem por mais tempo”, e a PEC da Bengala aprovada no Brasil, retardando de 70 para 75 anos a aposentadoria compulsória dos funcionários públicos.

A expectativa de vida do brasileiro subiu para 74,9 anos, em 2013, como divulgado pelo IBGE no final de 2014 — aumento de 3 meses e 25 dias em relação a 2012, ou mais de três anos sobre 2003. A Medicina nos mantém vivos com recursos e remédios cada dia mais incríveis. Eu próprio sobrevivi a um devastador câncer  de bexiga que descobri já avançado em 2012. Ganhei uma “neo-bexiga” artesanal, costurada com parte do tecido do meu intestino, durante uma cirurgia de 11 horas.

Parei de correr, mas não porque tenha querido. Estava a mil, feliz, no 11º ano em que dirigi o Diário do Comércio. Entrava pelas dez da manhã e saía depois de meia-noite. Só folgava aos sábados. Em outubro de 2014 , o jornal foi fechado . Agora, quase ao final desse forçado ano sabático, é que começo a relaxar, olhando em volta e para dentro de mim mesmo. O mundo não é só notícias, ou a próxima reportagem. Ah, quanto tempo perdi!

41vEQhA7UyL._SX352_BO1,204,203,200_Ganhei de uma amiga um livrinho que, pelo título, Travels with Epicurus, pensei que fosse sobre turismo na Grécia. O autor, Daniel Klein, filósofo de Harvard, septuagenário, trocou um recomendado implante dentário pela ilha grega Hydra, onde foi meditar sobre epicurismo. No lugar dele, sendo quem sou, talvez não resistisse à crise grega — e trabalharia.

Epicuro seduz os idosos a aproveitar ao máximo o último capítulo de nossa história pessoal. Como podemos morrer sem termos tocado o fundo de nós mesmos? Esta é a hora. Tempo para tardes preguiçosas, passeios de despedida pela Terra maravilhosa, o contato final e verdadeiro com filhos, netos e com quem dividimos nossa vida.

“Não é o jovem que deve ser considerado afortunado, mas o idoso que viveu bem, porque o jovem no seu auge vagueia ao acaso, vacilante, enquanto o idoso atracou no porto, depois de ter salvaguardada a sua felicidade verdadeira”. Estas aspas abrem o livro de “viagens” de Klein. São de Epicuro, o filósofo grego da felicidade e da vida tranquila, alcançados pela ataraxia, paz e liberdade do medo, e aponia, a ausência de dor.

O final da vida é para vivermos livres, enfim, da prisão que foi nosso dia a dia, das listas do que fazer, do novo objetivo depois dos objetivos realizados, do círculo vicioso estressante e das ambições de poder ou políticas. Não haverá nova chance; o tempo está passando.

“A liberdade pregada por Epicuro aos idosos é uma excelente oportunidade para refletir sobre a

Klein

Klein

opção sempre jovem”, diz Klein. Ele sabe que se dirige a aposentados com algum recurso, “mesmo que insuficiente para refeições gourmet ou para manter a casa dos anos produtivos”.

Nos meus primeiros dias desempregado já caçava emprego. Aquela comichão: “Não posso parar”. Tantos amigos bem colocados em jornais e publicidade, jamais me ocorreu que fosse difícil encontrar vaga, qualquer uma, apesar da imprensa em crise e o Brasil caindo em profunda recessão. Colecionei centenas de e-mails solidários e protestos pelo fim do jornal. Mas convite, não, nenhum.

Parar é difícil. Muito. Desemprego é depressão e frustração, mais agudas com o passar dos dias. Foi preciso que constatasse que o mercado de trabalho não está aberto para septuagenários. Até então me candidatei ao Google, que procurava alguém com o perfil como o meu, bem relacionado com a imprensa e empresários, políticos e governo, com inglês fluente, já experiente e dono de bom currículo. No item “idade”, final do sonho de contribuir num mundo de jovens criativos. Assim também foi com a Disneyworld, onde me candidatei a uma vaga aberta para assessor de comunicação. Já pensaram eu e Mikey? Pluto? Tio Patinhas? Não sabem lá na Flórida a atração que perderam no Brasil. Nem resposta mereci.

Mas caí na real. Estou conformado. Não que tenha desistido de trabalhar. Se pintar, por que não? Mas deixou de ser obsessão. E eu que nunca tinha noites, agora as tenho livres, para sair, namorar minha mulher, Cyra, que tantas vezes correu comigo para me embarcar num voo para o mundo em ebulição, e me esperou voltar. Tenho tempo de consertar a torneira quebrada. Jogar conversa fora. Posso rever os amigos nos fins de semana. Assistir tevê! Ainda falta bastante para me desligar completamente de uma vida que, vista de onde me encontro agora, foi uma loucura na qual mais me dei do que usufrui.

Sem arrependimentos: “As pessoas felizes lembram o passado com gratidão, alegram-se com o

Epicuro

Epicuro

presente e encaram o futuro sem medo”, diz Epicuro. Vivi a história do mundo enquanto fui jornalista em Jerusalém, Washington, Paris e Brasil. Privilégio, e o preço altíssimo valeu cada centavo.

Fui escalado um dia para entrevistar o psicanalista britânico Wilfred Bion, no Rio. O que mais me impressionou foi vê-lo enfiar a cabeça entre as pernas, para admirar a paisagem assim, de ponta-cabeça. Foi engraçado, mas hoje, ao lembrá-lo, me pergunto: será um insight de septuagenários? Meu mundo de cabeça para baixo está se revelando ótimo. Alegre. Em paz. E bonito.

 

Pequenos troféus-1 e 2

Duas paixões: Jerusalém  e o deserto

Celebração à vida, após câncer

Confronto israelense, via Brasil.

Tiroteio entre oposição

e governo em Israel

envolve o Brasil

Dayan: embaixador no Brasil?

Dayan: embaixador no Brasil?

A campanha contra a nomeação do israelense Dani Dayan para assumir a embaixada de Israel em Brasília, por ele ser um símbolo da colonização judaica na Cisjordânia, não começou no Brasil. A objeção ao novo embaixador, revelada em nome da presidente Dilma Rousseff, mas atribuída ao chanceler informal Marco Aurélio Garcia, foi pedida por três veteranos embaixadores israelenses ao embaixador do Brasil em Israel, Henrique Sardinha Pinto.

“Traição!” — grita-se em Israel. O ministro da Defesa, Moshe Ya’alon, escreveu em sua página no Facebook: “Esses cidadãos israelenses (os três ex-embaixadores e militantes de esquerda) perderam toda a vergonha (…) É por causa de atitudes assim que Israel vive sob ataque no mundo e sujeito a tentativas de deslegitimá-lo”.

yesha

Um dos “traidores”, antigo diretor-geral do Ministério de Relações Exteriores israelense, Alon Liel, disse à rádio das Forças Armadas, ao ser questionado por que foi fazer sua campanha contra a nomeação de Dayan direto no Brasil, e não em Israel: “Se eu considerasse que meu campo político pudesse chegar ao poder, agiria aqui. Mas minha ideologia não tem chances em eleições num futuro próximo. Daí a decisão tomada. A solução de dois estados (um palestino, outro israelense) só será salva se apelarmos à comunidade internacional”.

Alon Liel, que foi embaixador na Turquia, e os ex-embaixadores de Israel na África do Sul, Ilan Baruch, e na França, Elie Barnavi, com apoio de militantes de esquerda e do ex-deputado do partido Meretz, Mossi Raz, encontraram-se com representantes da embaixada do Brasil e da Autoridade Palestina. Disseram-lhes, em resumo: “Aceitar a nomeação de Dani Dayan será o mesmo que dar legitimidade internacional à colonização (nos territórios ocupados da Cisjordânia)”. Até chamaram Dayan de “chanceler dos colonos”.

Nascido na Argentina, Dayan (nenhuma relação com o general Moshe Dayan) foi presidente do Yesha Council, acrônimo para Yehuda (Judeia), Shomrom (Samaria) e Aza (Gaza), nomes bíblicos usados para designar a Cisjordânia e Gaza, central dos conselhos municipais das colonias construídas nos territórios conquistados por Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Ele próprio, secular, mora numa das colônias, em Maale Shomron.

Não só esbravejou o ministro da Defesa. O da Economia, Arye Dery, presidente do partido

Ya'alon, mnistro da Defesa (foto: Ofer Vaknin)

Ya’alon, mnistro da Defesa (foto: Ofer Vaknin)

ultraortodoxo Shas (Guardiães da Torá), propôs que “os esquerdistas sejam condenados”. Para ele, é por essas ações que a esquerda está cada vez mais distante do poder em Israel”. A deputada social-democrata Shelly Yachimovich, do Partido Trabalhista (pela Machane Hatzioni), ficou irritada ao ver gente de seu campo político agir com tamanha “baixeza” — e, pedindo desculpas, acrescentou: “idiotas”. Aos três ex-embaixadores, desafiou: “Por que vocês não moveram montanhas aqui? É inadmissível fazer isso através de um governo estrangeiro”. Para ela, Dayan é um nomeado de muito valor — uma das “mais inteligentes e tolerantes figuras públicas, exemplar por seu diálogo entre esquerda e direita”. Ainda arrematou: “Israel é governado pela direita, eleita democraticamente pelos eleitores israelenses, e assim designa seus embaixadores, alguns do corpo diplomático, outros não, como o fizeram governos anteriores”.

O líder da oposição Isaac Herzog, da União Sionista, e o presidente do partido Yesh Atid (Há Futuro), o jornalista Yair Lapid, renovaram o apoio à indicação de Dani Dayan ao embaixador brasileiro Henrique Sardinha Pinto. Eles acreditam que a nomeação ainda tenha futuro. O presidente da Knesset, o parlamento israelense, Yuli Edelstein, deixou claro que a candidatura à embaixada em Brasília se mantém “sólida” e que qualquer tentativa de desqualificá-la “deverá ser rejeitada”.

Colônia israelense na Cisjordânia

Colônia israelense na Cisjordânia

Dayan publicou artigo no The New York Times, em junho de 2014, propondo a derrubada de muros físicos e psicológicos que separam israelenses e palestinos. Explicou, na tradução de Rua Judaica: “A disputa territorial árabe-israelense é um jogo de soma zero, mas as considerações humanas não são. Não ganhamos nada com a humilhação ou a pobreza dos palestinos. Melhorar a qualidade de vida dos palestinos não conflitua com outros propostos endgames, como anexação da Judeia e da Samaria ou a fórmula de dois Estados. Nem as questões do status final serão alteradas: Os palestinos continuarão a votar nas eleições da Autoridade Palestina e os israelenses, nas eleições de Israel”, Ou seja: ao invés de dois estados, um só, binacional.

Postais da Eurábia

5141

Por Gunduz Aghayev

O artista Gunduz Aghayev criou a série Metamorfose

aproximando as culturas do Ocidente e do Oriente.

O que mostra o contraste entre elas, diz ele, “é a arquitetura”.

Com a onda de refugiados para a Europa,

apelidada já de Eurábia, as ilustrações de Aghayev

ganham também outra dimensão.

4159

1370

2197

3167

6147

Feliz ano novo, Israel?

Americanos no Sinai

americanos

Foreign Policy

Os Estados Unidos estão reforçando suas tropas de paz no Sinai. A Rússia tem elevado o número de seus instrutores militares na Síria. O Irã já mandou centenas de seus Guardas Revolucionários para Zabadani, ao norte de Damasco, nos últimos dias.

E Israel? Os israelenses vão comemorar o ano novo judaico de 5776, a partir de domingo ao pôr do sol.

Essa escalada ao sul e ao norte de Israel não prenuncia um feliz ano novo.

EUA — O contingente americano no Sinai foi reforçado por um batalhão de infantaria e cirurgiões para emergências, além de novos equipamentos de observação e alerta precoce. Estão agora no deserto 720 soldados. O reforço foi decidido depois que uma bomba detonada numa estrada, enquanto passava uma patrulha, feriu quatro, na semana passada. A presença de terroristas do Estado Islâmico não é miragem: eles já atacaram israelenses e egípcios, em apoio ao Hamas, em Gaza.

Iranianos na Síria

jafri-e1430136614852

General Mohammad Ali Jafari, comandante dos Guardas Revolucionários (foto YouTube/Press TV)

IRÃ — Os Guardas Revolucionários do Irã são uma novidade. Antes, os iranianos apenas treinavam o Hezbollah libanês para a guerra contra o EI, que plantou a semente de um Califado entre a Síria e o Iraque. Agora eles chegam às centenas e tomam posição nos altos de Zabadani, de onde controlam a estrada entre Damasco e Beirute. Os militares israelenses asseguram que o Irã está coordenado com a Rússia, citando encontros entre generais em Moscou. Como se fosse um voto de final de ano para os judeus, o líder religioso iraniano, aiatolá Khamenei, desejou apenas o máximo de mais 25 anos de vida para Israel que, segundo ele, deixará de existir.

Aeroporto russo na Síria?

Members of Al-Qaeda's Syrian affiliate and its allies sit on top of a former Syrian army figther jet after they seized the Abu Duhur military airport, the last regime-held military base in northwestern Idlib province on September 9, 2015 in the latest setback for President Bashar al-Assad's forces. Al-Nusra Front and a coalition of mostly Islamist groups captured the military airport after a siege that lasted two years, the Syrian Observatory for Human Rights monitor said. AFP PHOTO / OMAR HAJ KADOUR

Al Qaeda com caça russo, AFP PHOTO / OMAR HAJ KADOUR

RÚSSIA — Os russos estão com o presidente Bashar Assad há 4,5 anos e cerca de 250 mil mortos. Há vários sinais de que se dispõem a ampliar a parceria. Israel acompanha as obras russas em Latakia: um aeroporto militar? É o que antecipam. Também, no porto de Tartus, o movimento de navios russos cresceu notavelmente. O analista do Instituto de Política do Oriente Médio em Washington Jeffrey White, ouvido pela agência France Press, informa que “muito material de combate e veículos logísticos” atravessa a Turquia desde abril.

O ministro da defesa de Israel, Moshe Yaalon, deixou claro, num encontro com repórteres, que só intervirá na escalada russo-iraniana se houver transferência de armas para o Hezbollah no Sul do Líbano. Numa intervenção anterior, em janeiro, a aviação israelense matou o comandante dos Guardas Revolucionários, general-brigadeiro Mohammad Ali Allahdadi, ao atacar um comboio de armas na Síria.

Zabadani: cenário de guerra?

1280px-Alzabadani-e1441896223323

Morremos na praia

O refugiado de 3 anos trazido morto à praia

pelas ondas da imigração é a morte de todos nós.

In memorian: o horror nas capas dos jornais.

Corrupção no Brasil, by USA.

shutterstock_128008547

astamatines.com

Incrível: estava passeando pelos últimos e-mails de Hillary Clinton desclassificados (no sentido de liberados), quando, curioso com que veria se pesquisasse “Brazilian corruption”, recebi um guia da corrupção no Brasil de 1992. Alguns nomes são os mesmos ainda hoje. No caso de Odebrecht, por exemplo, era Norberto, agora é Marcelo. Collor continua um case para estudo tanto ontem como agora. Se apenas copiasse o material, desformataria-o, e seria difícil de lê-lo com tudo em maiúsculas e sem parágrafos, empastelado. Assim, fotografei toda a aula de corrupção, que reproduzirei aqui em 14 quadrinhos. Não tenho

The Economist

The Economist

tempo para fazer a tradução do inglês para o português. Quem não o souber, porém, só de passar os olhos verá  “jeitinho”, siglas de partidos e nomes dos suspeitos de sempre. Quando um quadro acaba sem ponto final ele continuará no seguinte. Quando isso não acontecer, é porque o restante era insignificante para ocupar um espaço sozinho, lembrando que o texto, escrito em 1992 e desclassificado em 2012, não traz nenhuma novidade bombástica. Vale pela aula de corrupção para os diplomatas do Departamento de Estado e os agentes dos serviços de inteligência que lidavam com o Brasil. Vamos lá (os espaços em branco são censura):

how-the-petrobras-sa-adr-corruption-scandal-has-affected-sete-brazil