Museu íntimo de Dora Maar

Estava em Paris quando “Picasso de Dora Maar” foi a leilão.

Quem me contou lembranças do casal  foi o artista pernambucano

Cicero Dias, então ainda vivo. Era ele quem ajudava Picasso

a administrar suas trocas constantes de mulheres.

Republico um artigo sobre Dora Maar, hoje vedete de uma

exposição de Pablo Picasso em SP.

amor

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Paris, 6/10/1998 — Numa rolha de champanhe, Pablo Picasso gravou sua paixão pela amante Dora Maar há mais de 50 anos. Retirada agora de seu ineditismo, é como se destampasse uma cápsula do tempo. Eis Picasso com 55 anos. Eis sua musa Dora, 29, fotógrafa surrealista. E eis o acervo amoroso dos nove anos que passaram juntos: desenhos em pedras, ossos, madeira, caixa de fósforos, brincos, a rolha de champanhe e retratos como o de Dora adormecida, Dora na praia, Dora chorando, Dora de unhas verdes, Dora e o minotauro e Perfil de Dora sentada. São 143 relíquias que Dora guardou num museu íntimo, como fetiches, até morrer, sem herdeiros nem testamento, em julho do ano passado.

O “Picasso de Dora Maar” vai a leilão nos dias 27, 28 e 29, na Maison de la Chimie, em Paris, estimado em mais de US$ 25 milhões. Os desenhos, pinturas, fotografias e móveis de Dora farão parte de outro leilão em 20, 26 de novembro e 7 de dezembro, no hotel Drouot. O governo francês ganhará 60% do que for arrecadado. Genealogistas que entram em ação sempre que ninguém reclama um espólio valioso encontraram as pistas de dois parentes distantes, comprovados, mas não identificados até que assinem um contrato definindo quanto merecerão de recompensa, no mínimo, 15% do valor total.

“Dora era uma mulher muito nervosa”, diz o pintor pernambucano Cícero Dias, 92 anos, amigo de Picasso condecorado em maio pela França por ter municiado aviões ingleses com um poema de Paul Éluard, então despejado dos céus da Europa ocupada pelas forças nazistas, em 1942. “Foi internada várias vezes, deprimida, porque não aguentava saber de Picasso com outras mulheres”. Foram vizinhos, os três. Dora morou até morrer no prédio 6 da rua de Sovoie, a um quarteirão da margem esquerda do Sena. Pôs o amante num ateliê de sua esquina com a Rue des Grands Augustins. Cícero estava perto, do outro lado do rio.

Picasso e Theodora Markovitch foram apresentados pelo poeta Éluard no café Deux Magots, em St.-Germain-des-Prés, numa noite em janeiro, 1936. Nascida em Tours, na França, o pai da antiga Iugoslávia a criou, com a mãe francesa, “no Uruguai”, insiste Cícero, ou “na Argentina”, diz o jornal The New York Times. Os amantes conversavam em espanhol. Dora fotografou a produção de Guernica, inspirado na cidade basca alvo de um bombardeio aéreo alemão, e seria uma de suas figuras – a mulher horrorizada segurando uma lâmpada. Posou também para a série Mulher chorando. “Nunca pude imaginá-la a não ser chorando”, dizia Picasso. E foi assim que a deixou por outra mulher mais jovem, Francoise Gilot, em 1944.

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Dora nunca foi rica, mas jamais vendeu qualquer lembrança de Picasso. O seu acervo amoroso revela mais do Picasso homem do que do pintor. “O que importa para mim é que cada uma das peças está cheia de sentimento, cheia de vida”, diz o marchand parisiense Marc Blondeau, contratado como consultor para o leilão. Picasso esteve com Gilot na vernissage de pinturas de Dora, em 1945. E se viram pela última vez em 1954.