Isto os jornais não contam

Amigos meus escreveram o livro  Isto o Jornal não Conta, na capa assinado pelo veterano e ótimo jornalista Fernando Portela. Pego o título emprestado, passo-o para o plural, e conto aqui apenas um entre tantos casos que aconteceram comigo em redações, para além das notícias. Não foi o único, nem o último.

Anti-Bullying-website-banner

Consultei a doutora Marie-France Hirigoyen em 1998, quando o sucesso de seu primeiro livro, Assédio Moral, repercutia muito na imprensa francesa. Ela recomendou:

“Reaja ou se demita”.

Reagi. Fui demitido.

Escrevi este artigo que circulou apenas na internet, e por pouco tempo, porque recusado por jornais e revistas. Cortei o nome do personagem porque ele se desculpou anos depois. Mas os estragos ficaram, não têm reparo e mudaram o destino de minha família.

Quando nos conhecemos, num jantar em Nova York, meu novo chefe foi dizendo: “Você é o nosso melhor correspondente”. Mas, num almoço no dia seguinte, com um amigo comum, ele iniciou um perverso processo para me substituir nos Estados Unidos. Conseguiu.

   Quando nos reencontramos em 1998 num novo emprego, ele no Brasil e eu na França, trocamos e-mail: “Nosso homem em Paris!”, ele escreveu. Retribui, deletando o passado que o condenava, e desejando-lhe “sucesso”. Fui demitido.

   Qualquer chefe tem o poder de demitir quem não queira. Mas torturar, não. A dose dupla de tortura de que fui vítima me levou à pesquisa de um fenômeno no mundo do trabalho batizado de bullying (tiranizar), na Inglaterra; mobbing (molestar), nos Estados Unidos; harcèlement moral (assédio moral), na França; e murahachibu (ostracismo social), no Japão. Algumas vítimas se matam. Outras são tratadas com antidepressivos ou tranquilizantes. Muitas pedem demissão e renunciam a direitos de indenização, dando vitória ao bully, ao tirano. E há as que resistem.

   A primeira pessoa a denunciar a tirania nas relações de trabalho foi uma jornalista inglesa, Andrea Adams. Ela escreveu dois documentários para a BBC Rádio 4, de Londres, que provocaram uma enxurrada de cartas de ouvintes. A inesperada repercussão a levou a publicar um livro, Bullying At Work, em 1992. Até alguns dias antes de morrer, com câncer, em 1995, ela fez campanha para tornar o psicoterrorismo no trabalho um delito como o assédio sexual.

   “Ir ao trabalho é como entrar na jaula de um animal imprevisível para enfrentar outra semana de crucificação profissional”, disse Adams em seu último discurso, para sindicalistas, em maio de 1994. Um drama clandestino sofrido por um mínimo de 12 milhões de europeus, segundo uma pesquisa pioneira da Organização Internacional do Trabalho, em 1996, e pela média de 2 milhões de americanos por ano, incluindo assaltos contra taxistas, na estatística de 1998 do Departamento de Justiça dos Estados Unidos. No Japão, uma experiência telefônica, a “bullying hot-line”, atendeu a 1.700 consultas só em um mês. Como o poder de um tirano se mantém pelo medo que cala suas vítimas, impossível medir o fenômeno em escala mundial.

   Há inúmeras formas de tiranizar um empregado. Adams as resumiu em alguns exemplos: marcar tarefas com prazos impossíveis; passar alguém de uma área de responsabilidade para funções triviais; tomar crédito por ideias de outros; ignorar ou excluir um funcionário só se dirigindo a ele através de terceiros; segurar informações; espalhar rumores maliciosos; criticar com persistência; e subestimar esforços. O processo é lento. As agressões, sutis. As reclamações serão interpretadas como choque de egos, atribuídas a uma nova forma de administração, à reorganização, reengenharia, senão rejeitadas. Não há lei que não a do mais forte.

   marie-france-hirigoyenA psiquiatra francesa Marie-France Hirigoyen (foto à esquerda) escreveu o livro Le harcèlement moral (O Assédio Moral): La violence perverse au quotidien (A violência perversa no cotidiano). Os cinco mil exemplares da primeira edição esgotaram-se rapidamente. Outros 60 mil, em seguida. O livro apareceu em português, editado pela Bertrand Brasil, depois de traduzido para 12 idiomas. A revista Le Nouvel Observateur consagrou-lhe uma capa, com o título: “Esses colegas e patrões que o deixam louco”. Os colegas entram no título como cúmplices: temem pelo próprio emprego. Quem for solidário com uma vítima poderá se tornar a próxima.

   Hirigoyen traça o perfil do tirano. É um “narcisista perverso”, que acha o próprio equilíbrio descarregando em outro a dor que não consegue sentir e as contradições internas que se recusa a perceber. Uma sanguessuga: procura fora de si a substância para sua vida. Tem um senso grandioso da própria importância. Vive absorvido em fantasias de sucesso ilimitado e de poder. Pensa ser especial e único. Precisa muito de admiração. Acha que tudo lhe é devido. Inveja os outros. Comporta-se com arrogância. Explora todos nas relações interpessoais. E posa de referência, de padrão do bem, do mal e da verdade.

   -As vítimas são impotentes? Nada podem fazer?

   – Elas têm que aprender a se proteger, a dizer não – respondeu Hirigoyen.

   – Mas, como dizer não?, com o desemprego em alta?

   – Há um momento em que a opção é a saúde mental, ou o emprego. Tenho uma paciente que se demitiu para preservar sua personalidade.

   – A vítima fica só, sem a solidariedade dos colegas — comentei.

   – Solidariedade não existe, é cada um por si.

assc3a9dio-moral-indignados

    “Aqueles que podem, podem. Os que não podem, tiranizam” – proclama na Internet o Bully OnLine (www.successunlimited.co.uk), criado por Tim Field, autor do Bully in Sight (Tirano na Mira), guia que ensina a prevenir, resistir e combater o assédio moral no trabalho. Ele acrescenta atributos ao mais comum dos tiranos, os que praticam serial bullying, a destruição em série de empregados. É vingativo, quando só, mas inocente, diante de testemunhas. Médico e monstro, como Jekyll & Hyde. Mente compulsiva e convincentemente. E torna-se agressivo, se chamado à responsabilidade.

   O bully também produz uma vítima indireta. É o patrão, que continuará pagando o salário ao empregado que já não está mais podendo funcionar bem. Ele ainda arcará com as consequências de um ambiente de trabalho deteriorado, lembra o professor alemão Heinz Leymann.

   Só existia legislação para proteger as vítimas de assédio moral na Suécia, Alemanha, Itália, Austrália e Estados Unidos, quando escrevi este artigo. A Organização das Nações Unidas (ONU) anexou à Declaração dos princípios fundamentais de justiça uma nova e abrangente definição de vítima. “Vítimas são as pessoas que, individual ou coletivamente, sofreram um dano à sua integridade física ou mental, um sofrimento moral, uma perda material, ou uma ofensa grave a seus direitos fundamentais, como consequência de atos ou de omissões que ainda não constituem violação da legislação penal nacional, mas que representam violações de normas dos direitos do homem reconhecidas internacionalmente”.

   Hirigoyen encoraja vítimas de harcèlement “a virem a público” – para ela uma poderosa forma de levar a Justiça a uma tomada de consciência, como no assédio sexual.

   Por enquanto, as vítimas brasileiras da guerra de nervos no trabalho estão perdidas. Um chefe pode abusar do poder impunemente. Ou o empregado se submete à lenta destruição por golpes mesquinhos e covardes, que acabam acertando toda a sua família, ou vai embora. “O silêncio e o vazio cercam aos poucos a pessoa visada”, diz Hirigoyen. “Às vezes, a solidão é tal que vira rápido um drama”. Mas ela pergunta à “sociedade cega diante desta forma indireta de violência:

   — Não nos tornaremos cúmplices, por indiferença?”

assedio-moral-e-crime12-jpg

O assédio do sucesso

A psiquiatra francesa Marie-France Hirigoyen quer se proteger de um tipo inesperado do assédio que denuncia e combate desde 1998, quando escreveu seu livro Assédio Moral – A violência perversa no cotidiano, que vendeu 450 mil exemplares em 27 países.

   “Tudo se tornou assédio moral”, diz a doutora Hirigoyen. “Virou moda”.

   É o assédio do sucesso. A Assembléia Nacional da França votou em 11 de janeiro de 2001 uma emenda que introduz a noção de assédio moral nas leis do trabalho. O projeto de lei 13.288, de 10 de janeiro de 2002, da Câmara Municipal de São Paulo, prevê suspensão, multa e demissão para os chefes tiranos, baseado em estudos da doutora Hirigoyen. Surgiram associações e sites na internet em defesa de empregados acossados. O tema ficou popularizado com capas de revistas e em páginas de jornal.

   O assédio moral passou a ser usado, indevidamente, como sinônimo de estresse, ou para condenar a pressão normal de um chefe para que o subordinado trabalhe mais. Foi por isso que a psiquiatra Hirigoyen escreveu um novo livro, Mal-estar no trabalho – Redefinindo o Assédio Moral, lançado em português pela editora Bertrand Brasil.

   “Não se deve atribuir tudo ao assédio moral”, ela diz. “É preciso distinguir o que é do que não é, mesmo porque, do contrário, não se poderá mais agir para punir ou prevenir. Antes que um caso seja identificado como assédio moral alguém de fora deveria investigá-lo e emitir um parecer, como sugere um projeto de lei belga”.assedio moral é crime

   Agora que fixou limites para o assédio moral, a doutora Hirigoyen vai mudar de assunto: “Não quero me repetir e muita gente está escrevendo livros sobre o tema, com poucas diferenças”. Talvez ocorram mudanças também entre seus pacientes. “Na Europa estão surgindo especialistas, não necessariamente psiquiatras, que tratam de assédio, tanto individual como coletivamente”.

   Será difícil para a doutora Hirigoyen ficar imune ao assédio do assédio moral. “Totalmente, não. Ainda recebo cartas de todas as partes do mundo”. Formada em medicina na França, em 1978, especializou-se em psiquiatria e psicanálise, e depois em vitimologia nos Estados Unidos. Ela também faz conferências. “Numa no México, um homem começou a chorar, reconhecendo: es mi vida, es mi vida… Qualquer que seja o país ou a cultura, o problema é o mesmo, são formas de ataque e sofrimento iguais, só o contexto difere, em função de maior ou menor proteção social. Em alguns lugares, o assédio se desenvolve sutil, escondido. No Brasil a violência no ambiente de trabalho é ostensiva”.

   O Brasil “está muito avançado”, em comparação à Europa e aos Estados Unidos. “Vejo que cada vez mais o mundo do trabalho tende a se individualizar. No fundo, cada pessoa, diante do assédio moral, se encontra só. Por isso a lei é importante: ela permite que o indivíduo ouse reagir”.

48080341.cached

Como reagir

Primeiro da turma de 1975 de Ciência da Computação na Universidade Staffordshire, na Inglaterra, Tim Field especializou-se em assédio moral no trabalho, na prática, ao ser forçado a sair de um emprego, em 1994. Hoje, ele mantém um serviço de aconselhamento por telefone e na internet, escreve livros e dá consultas a empresas e sindicatos. Entre seus clientes ingleses estão vários departamentos de polícia, o correio, o ministério da Defesa e algumas universidades.

   Depois de responder a 3 mil telefonemas e receber 26 mil visitas no seu site da internet, Tim Field chegou aos conselhos básicos para quem quiser reagir a um chefe tirano. Aqui, um resumo dos que se aplicariam às vítimas brasileiras.

* Lembre-se de que um chefe tirano projeta em suas vítimas as próprias fraquezas profissionais e morais. Assim, não as introjete.

* Sentir vergonha, dificuldade, culpa e medo é uma reação normal, mas imprópria se render ao tirano o controle e silêncio de sua vítima.

* Não se pode enfrentar sozinho um chefe tirano. Procure ajuda. Consulte o departamento médico de sua empresa.

* Aprenda o máximo que puder sobre assédio moral no trabalho.

* Supere toda falsa percepção sobre assédio moral, como a de que se trata apenas de uma forma dura de chefiar, ou de reorganização empresarial.

* Anote tudo. Não é um único incidente que conta, mas a regularidade com que acontece, o seu padrão e o conjunto.

* Guarde cópia de cartas, memorandos e e-mails.

* Faça um diário com as reclamações e críticas do chefe tirano. Se puder obtê-las por escrito, tanto melhor. Se as tiver pedido, e não for atendido, registre. A repetida recusa de justificar ou substanciar faltas cobradas pode ser usada como prova de assédio.

* A tiranização no trabalho estressa. Se o médico a diagnosticar, que inclua a causa – as condições no local de trabalho.

* Reclame do assédio moral ao escalão superior. Mas, cuidado: em geral, o tirano é que receberá o apoio de cima.

* Não se deixe levar pela armadilha da saúde mental: os sintomas e efeitos do assédio moral são uma lesão psiquiátrica, não doença mental.

* Uma licença médica deve ser registrada como acidente de trabalho, e a sua causa, a opressão do chefe tirano, denunciada ao empregador.

* Se o chefe tirano fizer suas críticas em público, procure um advogado para adverti-lo, por carta, que ele é passível de processo por difamação e calúnia.

* Considere demitir-se como uma decisão positiva, uma opção entre saúde e emprego.

* Se forçado à demissão, denuncie a causa ao empregador, por escrito, e oriente-se com um advogado antes de assinar qualquer documento.

* Considere tornar público o seu caso.

  

REINO desUNIDO

A saída do Reino Unido da União Europeia pegou os jornais britânicos muito além do horário de fechamento normal. Mas a maioria deles deu um jeito de publicar a notícia histórica, para muitos inesperada. A revista The Economist saiu, como todas as semanas, na quinta-feira, o dia do plebiscito, com a capabeijo dedicada à inteligência artificial, mas avisou on-line que faria outra edição para o BREXIT, com circulação local. Feito:  ilustrou-a com a bandeira britânica rasgada ao meio, como o próprio país dividido. 950

20160625_ldd300

Ilustração na The Economist

Outros jornais europeus também esperaram a contagem dos votos. (Os jornalões brasileiros não tiveram tanto problemas de horário). Aqui, algumas capas selecionadas.

 

 

 

 

A longa noite da imprensa

Como diz a manchete do Agora, o BRASIL DORME COM DILMA E ACORDA COM TEMER. Certa noite, faz tempo, os israelenses e eu  dormimos com Shimon Peres eleito e acordamos com Bibi Netanyhau primeiro-ministro. Lá, muito menos eleitores, era mais fácil acertar. A longa noite do impeachment impôs um desafio aos jornais, com hora de fechamento. Avançar o sinal, apostando nas previsões do voto dos senadores? O editor que já enfrentou um dilema assim sabe como é. Se decidir arriscar, passará a noite acordado — e, se tiver errado, seu jornal provavelmente já terá rodado. A solução que mais me agradou — eu que, lembro, não sou parâmetro universal — foi a do Estadão, novamente com um poster como capa, baseada em caderno especial sobre Michel Temer. A foto de Jaques Wagner e Dilma espiando a esplanada pela cortina do palácio entreaberta, distribuída pela Agência Brasil, fez a unanimidade nas capas de hoje. Destaco a publicada pela Gazeta do Povo, que a abriu generosamente. Surpresa veio de Franca, onde o Comércio também deu poster e driblou o impasse com um esperto À ESPERA DO FIM. O Metro e o Correio Braziliense mantiveram o bom nível na sequência do impeachment.

Jornal_O_Globo___Notícias_OnlineO Globo merece destaque especial: esperou o final da sessão no Senado para dar uma manchete segura e definitiva. Avisou aos leitores no online que circularia mais tarde.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Todas as capas da presidentA

Este slideshow necessita de JavaScript.

As seis capas destacadas acima estão, a meu ver, fora da mesmice geral — embora a mesmice também possa ter sua beleza, em alguns casos. O critério para a seleção foi a criatividade, um trabalho a mais na edição em prol do eleitor — e pessoal, não sendo eu parâmetro objetivo. O gratuito Metro tem se esmerado. Poster, título curto — e só. Claro que não vai competir com os jornalões em conteúdo. Temos a intrigante capa do Super. Não sei se foi intencional, mas a manchete para o futebol NÃO VAI TER VOLTA, ao lado da chamadinha para Dilma, ficou curiosa. Criatividade em abundância, perigosa, na fronteira entre o genial e o ridículo, vai estampada no Diário de São Paulo. É uma carta manuscrita para Dilma, assinada por “eleitores”, e que termina com TCHAU, QUERIDA. Suponho que tenha sido especialmente produzida para a capa. O Correio Braziliense, pródigo em primeiras páginas premiadas, dá a impressão de que tem buscado ideias em seu baú glorioso. Abaixo da dobra, revirado, está o Temer; e acima, Dilma, ambos transformados em cartas, uma dando a ÚLTIMA CARTADA,  o outro pondo AS CARTAS EM JOGO. Está ótimo, mas, se não me engano, já vi os mesmos recursos antes no mesmo jornal. O Estado de Minas não rompeu o seu formato, como tem feito na cobertura de grandes acontecimentos, e saiu com a Dilma pedalando, numa foto super vertical, e um título curto, PEDALADAS FINAIS. O DC:, de Santa Catarina, deu por título O DIA D (seguem-se em tom rebaixado palavras corriqueiras no processo de impeachment que contenham D, grafado em vermelho, a silhueta de Dilma por cima, e o final DE DILMA, completando a frase. Abaixo temos dez jornais internacionais que deram o impeachment na capa. No The  New YorK Times está no cantinho à esquerda, no pé da página. Mas no Wall Street Journal é a foto principal. Nossos hermanos e vizinhos compareceram, como também o espanhol El Pais, interessadíssimos no futuro do Brasil.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Hors concours

_5__Facebook

 

 

 

 

Cunha caiu nas capas dos jornais

Fui aos jornais brasileiros na expectativa de encontrar criativas capas sobre a suspensão deBRA^RJ_MET Eduardo Cunha. Surpreendi-me ao me deparar com tão poucas. Assim de memória, marcantes são a ilustração na capa do Estado de Minas, obliterada por um título demasiadamente longo; a charge no alto do Correio Braziliense; a capa do Metro, sim, foi elaborada e está de ótimo nível; entre os jornalões, o único que se lembrou de que todo o Brasil já sabia da decisão do STF foi o Valor, que então deu um passo adiante, atraindo o leitor para um ângulo novo, uma reflexão sobre o impacto da notícia para o eventual governo Temer . O Globo saiu com a manchete mais curta, forte: CUNHA FORA. Alguns jornais nem deram a notícia, e então os deixei de fora. Alguns que a deram, mas escondida, entraram na seleção, com 44 jornais ao todo. Dos internacionais, o único que se interessou foi o Buenos Aires Herald, em inglês. Não há nada nas capas do Washington Post e do New York Times, muito embora nos jornais da TV, ontem, a eles fosse creditada “grande cobertura” — nas edições on-line, sim, mas nas impressas, não. Ah, uma das capas nacionais me chamou a atenção ao repetir o que fez o Jornal da Tarde certa vez: “escolha sua manchete”. Uma das sugestões é o “tchau, querido”, que saiu também em outros jornais e apareceu demais nas comemorações contra Cunha na internet. Divirtam-se.

Este slideshow necessita de JavaScript.

A manchete oculta

 

13_de_Março_de_2016Qual a manchete oculta nesta capa da Folha de S. Paulo, edição de 13/3, o domingo das manifestações “fora, Dilma” e contra a corrupção?

Respondo: é o avanço da publicidade sobre o editorial, na área mais nobre dos jornais, a sua capa.

Uma interferência, permitida já faz tempo, encobrindo a leitura da manchete e de outros destaques do dia. Bancada por um anunciante, a sobrecapa esconde metade do cardápio oferecido aos leitores com fome de notícias. Por um lado, rende dinheiro; mas, por outro, gera reclamações e cartas irritadas do leitorado.

Alguns responderão: é o retrato da separação entre igreja e estado, ou editorial e publicidade — dogma que a imprensa defende desde sempre para blindar sua independência e integridade. Redação e comercial não se misturam, ou não se misturavam. Houve tempo em que nem se falavam. Entre eles deveria haver um muro inexpugnável — redação num lado e departamento comercial, noutro — melhor ainda se em andar ou endereço diferentes.

Alguém poderá também responder, constatando: “Empate!” Metade da capa é da publicidade; e a outra, da redação. Há um outro tipo de sobrecapa, maior, que cobre mesmo o logotipo dos jornais, a sua identidade. “Esculacho, um deboche”, protestou o jornalista Alberto Dines, do Observatório da Imprensa, num antigo artigo. Temos ainda os anúncios em páginas internas que extrapolam seus formatos, antes bem comportados, e foram parar lá no alto, no cabeço, onde estão os títulos. Mas podem aparecer também no meio, inclinados, tortos, forçando o texto das notícias a contorná-los. Haja malabarismo, dos leitores e diagramadores.

jornais1-620x450

A invasão das capas e os anúncios esdrúxulos em páginas internas são a ponta de um iceberg, trincado de cima às profundezas, pronto a ruir em alguns jornais, ou já derretido em muitos outros. A essa montanha de gelo entre igreja e estado restaria apenas o que flutua à superfície. Nos EUA, já a dão por dissolvida, os seus escombros soterrando os milhares de jornalistas que perderam emprego no tsunami que matou centenas de jornais que apostaram só no impresso, desprezando o novo mundo de bits e bytes, e ainda se mantiveram isolados do departamento comercial.

No aniversário de 95 anos da Folha, em fevereiro (2016), o editor-executivo Sérgio Dávila defendeu de críticas o patrocínio da Odebrecht à festa e ao seminário que debateu “o que é fazer jornalismo no século 21”. Nem todos se sentiram confortáveis: quatro dos convidados não quiseram ter seus nomes relacionados ao patrocinador, investigado por corrupção na operação Lava Jato, e recusaram participar. Eram VIPs: Eurípedes Alcântara, então ainda diretor de Veja; Fausto Macedo, repórter de O Estado de S. Paulo; e os apresentadores William Waack e Renata Lo Prete, da Rede Globo.

Em nota oficial, a Folha de S. Paulo se explicou: “Toda relação comercial do anunciante com o jornal pressupõe independência do produto editorial em que o anúncio será veiculado, seja um caderno, um site ou um evento. Não há motivo para discriminar anunciante ou local onde o anúncio será veiculado.” A metáfora da igreja e estado foi relembrada por Dávila em entrevista à TV do próprio jornal.

A ombudsman da Folha na época, Vera Guimarães Martins, escreveu que preferia mais um seminário sem patrocinador. Mas se inevitável, que o escolhessem com cuidado. Ela lembrou aos concorrentes: “Todos os meios desenvolvem projetos viabilizados pelo dinheiro de grandes corporações. Para ficar apenas nos jornais, a satanizada Odebrecht patrocina o programa de treinamento da Folha (juntamente com a Friboi e a Philip Morris), de O Estado (em parceria com a Philip Morris) e do curso de jornalismo da Editora Abril (com a BRF e a Heineken). A mesma empreiteira patrocinou no final de janeiro um seminário de O Globo”. Concluindo: “Precisamos ou não falar aberta e honestamente sobre isso?”. Sim, precisamos.

gawker

 

No site gawker.com, “a fofoca de hoje é a notícia de amanhã”, seu slogan, houve uma briga que bombou nas redações americanas, em 21 de julho de 2015, e que revela a dependência e capitulação ao indispensável anunciante:

“Faça então uma agência de publicidade”, protestou a editora Leah Finnegan ao fundador da Gawker Media, Nick Denton. “Diga abertamente aos leitores o que realmente somos!” — ela continuou. “Isso aqui não é mais lugar para jornalismo”.

Mas o que teria acontecido? Apenas isso: uma fofoca considerada grosseira fora tirada do ar, no site que se esmerava em ironizar a concorrência quando ela fazia o mesmo: deletar pecadilhos que ameaçavam virar processos milionários. No Gawker acrescentou-se uma outra justificativa: o temor da debandada de leitores e anunciantes. Os dois crescem e desaparecem juntos.

“Negócios sujos são feitos por toda parte” — reagiu Denton. “Sua atitude, sua ingenuidade, a revolta quando você descobre que é assim que o mundo funciona, não deixa de ser natural. Fizemos o que deveríamos fazer como empresa”. Ele ainda escreveu em memorando à equipe: “Nossa capacidade para financiar jornalismo independente é crítica. Se não retirássemos o post teríamos perdido, provavelmente, uma quantia de sete algarismos em anúncios”.

As reuniões no Gawker são praticamente públicas. Os presentes tuítam o que debatem, sem problemas. A fofoca tirada do ar envolvia o top executivo financeiro da poderosa editora Condé Nast (New Yorker, Vogue, GQ, Vanity Fair, Traveler, Glamour), David Geithner, flagrado com um ator gay de filmes pornográficos. O caso continha ainda lances de extorsão e fotos. Além do mais, a vítima e personagem principal ainda era irmão de um ex-secretário do Tesouro dos EUA até 2013, Timothy Geithner. Ninguém desmentiu a fofoca, bem apurada e documentada.

Até então, a muralha entre igreja e estado, na Gawker, como na China, ainda estava de pé. Os tempos mudaram.

(Quando pus o ponto final neste texto, recebi um alerta digital do NY Times. Era uma notícia sobre o Gawker, condenado por um júri na Flórida a pagar US$ 115 milhões ao lutador aposentado Hulk Hogan, 62, exposto em vídeo enquanto transava com a mulher de um amigo.)

 

Sem dinheiro, não tem jornal. A regra agora é reunir jornalistas e publicitários na busca conjunta de produtos que rendam lucro. Talvez um caderno especial para o dia das mães? Natal, dia dos namorados? Quem sabe algum artigo para um anunciante? A redação o fará e ele será publicado com a etiqueta de “informe publicitário”. Já se usa uma palavra para isso: advertorial, mescla de advertising (publicidade) e editorial. Em português está criado o eufemismo publieditorial, selo usado nos encartes de oito páginas sobre o Aedes aegypti inseridos nas revistas semanais, pagos pelo governo de SP. Nem se trata mais de experiência. No Times, a editora Trish Hall analisa artigos e projetos em gestação com potencial de atrair patrocinadores, ou agregar valor a marcas como Google, Dell, Netflix, Shell, etc..

Como diretor de um jornal por 11 anos, até 2014, muitas vezes me submeti, docilmente, aos desígnios do setor comercial. Precisava de verba. Senão ela, corte de pessoal. Nunca, porém, recebi algum pedido indecoroso. Durante a safra de balanço legal era comum, e continua sendo, as agências especializadas promoverem um leilão para chegar ao menor preço. Alguns jornais saiam da disputa ao atingirem o deadline de fechamento. Se não rodassem no horário, perderiam os voos que levariam a primeira edição para vários estados e Distrito Federal. Aí o prejuízo não compensaria o ganho.

Pelas 22 horas, ou até mais tarde, martelo batido, o jornal vencedor tinha que alterar a sua programação na gráfica e na redação para acolher uma porção de páginas inesperadas, embora bem-vindas. Quando anunciantes impunham espaços em branco nos balanços para que a redação os preenchessem com noticiário, tornando-os mais atraentes, o trabalho dobrava, fazia-se um mutirão. Valia a pena: R$ 3 milhões por ano.

Até o anúncio legal, hoje, está com os dias contados. Um ex-ministro me contou, justo num velório, que a presidente Dilma deve assinar uma autorização para que a safra dos balanços seja plantada doravante na internet, onde as empresas nada pagam pelo espaço, mas de onde os jornais não colherão lucro algum. Alguns morrerão, porque vivem apenas para eles, de safra em safra.

“Os Diários Oficiais fecharão?” – perguntei. Por eles a mudança sempre foi vetada. Agora, não mais: “Foram todos digitalizados” – respondeu o ex-ministro.

O The New York Times já passou a tratar notícia como produto — combinação de conteúdo editorial, monetização e tecnologia. A metáfora da igreja versus estado perdeu o sentido. Para o editor da página de editoriais, Andrew Rosenthal, o importante, nesta nova fase, é “a soma de julgamento bem fundamentado da redação e sensibilidade comercial”. Será que o jornal permitiria à Apple ou Samsung patrocinar uma coluna sobre smartphones ou computadores? “Eu não gostaria” — disse o editor-executivo Dean Baquet. “Não faremos nada que comprometa nossa credibilidade”.

Estrelas em ascensão no novo mercado de mídia, principalmente Vox Media e Buzzfeed, criaram seus próprios departamentos de publicidade nativa (native advertising). Produzem conteúdos sob encomenda, pagos, que se confundem com artigos e reportagens, mas com um pequeno detalhe diferenciador: trazem um selo que os identifica como anúncios. Revistas tradicionais como a Forbes, Atlantic, New Yorker e Economist também já entraram na era advertorial.

Em antigos jornais brasileiros funcionava o que ainda hoje é conhecido por Editoração. Aqui eram preparados pequenos anúncios para microempresários que não podiam recorrer a agências de publicidade. Às vezes, queriam publicar um quadradinho igual ao seu cartão de visita, apresentando-se ao mercado. Escolhiam o tamanho, ditavam os dizeres, ou deixavam um cartão como modelo, e recebiam a primeira prova já no dia seguinte. A Editoração agora cuida do tratamento de fotos, da qualidade do PDF das páginas que irão para a gráfica, de balanços legais e, raramente, monta algum anúncio fúnebre. Advertorial também é uma palavra antiga em inglês. Está no dicionário Oxford desde 1916.

Os jornais mudaram nos últimos cinco anos mais do que em 500 anos. A questão que enfrentam agora nem é se devem ou não cruzar a fronteira entre igreja e estado, mas, sim, qual a melhor forma de fazê-lo, unindo as duas pontas que, para a Folha do século 21, ainda não se encontram. Os anunciantes estão arredios. Com o advento dos adblockers, softwares gratuitos que bloqueiam anúncios pululando diante dos navegantes da net, cerca de US$ 22 bilhões em publicidade evaporaram no ano passado. Já são 200 milhões os internautas vacinados contra os anúncios on-line. Bom para eles, mas e para os sites? Alguns estão abrindo seu conteúdo só para quem permitir banners, os popups.

91Zy18In8IL._SX342_O jornal Boston Globe ganhou o prêmio Pulitzer e deu o Oscar ao filme Spotlight com a sua investigação sobre casos de pedofilia na igreja católica. Sua extensão on-line, Crux, lançada em 2014, foi fechada em 1º de abril, por não se sustentar. Ótimo produto, comprovado, mas zero em publicidade.

A revista Time derrubou o muro entre igreja e estado em 2013, sob pressão financeira. Foi a mudança mais radical da imprensa americana: sua equipe de jornalistas foi posta sob comando da área de negócios. Mais que extinguir a separação, promoveu, na verdade, um casamento. Que ambos os lados se conhecessem melhor, aprendendo como trabalham. A independência editorial se manteve, preservada. É possível? Tem sido, até agora, porque o comercial não pautou a redação nem uma vez, e nem o fará. A união produziu trocas de informações e cooperação “com honestidade”, resultando em nova postura ante o mercado anunciante.

Algumas empresas jornalísticas celebraram casais de três. Aos dois liberados da muralha que os separava, editorial e publicidade, juntou-se a área de tecnologia, fundamental nos novos tempos em que o jornal de papel tem sua obrigatória versão digital, mais site de notícias 24 horas/dia, TV e rádio on-line, twitters, noticiário para celulares, fóruns, vídeo, blogs e reportagens interativas, que usam recursos de ponta e terceira dimensão. O trio tem mais chances de sucesso do que duplas.

O perigo de pautas conjuntas com a área comercial é a abertura à influência de um anunciante ao conteúdo. Aconteceu com o inglês Daily Telegraph, que estava de rabo preso com o banco HSBC, por contrato publicitário, quando foi acusado de ter conduzido 100 mil clientes à lavanderia de dinheiro da Suíça. A cobertura omissa e tão suave levou o seu articulista político, Peter Oborne, a se demitir e a denunciar publicamente o jornal.

Um editor da revista inglesa Style, do Sunday Times, contou que há cerca de 20 anos foi chamado à sala do editor-chefe, onde o esperava uma carta do costureiro fashion Giorgio Armani reclamando não ter sido incluído numa recente cobertura de moda. A ordem que recebeu o surpreendeu. Que ele escrevesse de volta ao estilista um protesto pela sua “audácia de pretender interferir nas decisões editoriais do jornal”, fosse ou não anunciante.

No Estadão, quando nem existia departamento de publicidade, e quem quisesse anunciar que se dirigisse ao balcão de anúncios no térreo do jornal no centro de São Paulo, um amigo publicitário me procurou com uma proposta: a agência para a qual trabalhava compraria uma página inteira de classificados, que poderia ser revendida para lotar de classificados reais, contanto que, no meio dela, bem pequenino, sobrasse espaço para um só anúncio de área verde à venda, que deveria sair verde em meio a vizinhança preto e branca. Fomos juntos ao diretor da área que incluía publicidade, depois que um agente já havia rejeitado a proposta. Ele ouviu a lábia do publicitário, refletiu um momento, e então declarou, solenemente:

“Não, não podemos aceitar. É a nossa ideologia do preto e branco”.

 

***

Nota do autor: apesar de endossar a fusão das áreas editorial e comercial nas empresas jornalísticas, este artigo não tem patrocinador. Quem quiser republicá-lo, porém…

 

 

 

Capas do impeachment

O sempre criativo Correio Braziliense inspirou-se na “carta fora do baralho” com que Dilma se equiparou. Lembrou o tempo em que os EUA tinham um “baralho” a eliminar no Iraque. Depois da bela capa que rompeu o padrão gráfico do Estadão, no domingo, a de segunda é de novo um poster. Difícil superar o próprio sucesso, day after. O Hoje em Dia agigantou o número 367, o de votos contra a presidente Dilma, que aparece com a faixa. Interessante. O Jornal de Santa Catarina fez uma bela capa, tão minimalista e com espaços brancos quanto a Gazeta do Povo no domingo. Mas ficará sherlock para muitos leitores, tão abstrata, assim à primeira vista, se antes não for lido o texto que a explica. Fala “Em Transformação”, ilustrada por um casulo. Nada mais, nem foto da sessão da Câmara ou de povo nas ruas. Ousado, sim. Mas sou de uma escola de diagramação em que visual que requer explicação textual não será bem sucedido. A Folha e o Liberal empataram na manchete de uma única palavra: IMPEACHMENT. O Notícias do Dia, de Florianópolis, usou um recurso guardado para momentos históricos: uniu capa e contracapa, com uma foto enorme.

O The New York Times e Washington Post deram manchete com Dilma, mas daquelas envergonhadas, uma coluna do lado direito, tipologia pequena. Manchetes grandes sobre o Brasil saíram em três jornais argentinos. E também no México e na Nicarágua.

Jornais nacionais

Este slideshow necessita de JavaScript.

 Jornais internacionais

Este slideshow necessita de JavaScript.