Massacre do dia da Bastilha

Promenade_des_AnglaisA Promenade des Anglais é uma avenida larga, só para pedestres, ao lado do Mediterrâneo. Turistas a consideram o melhor passeio em Nice, na Riviera Francesa. Bons cafés, hotéis famosos, algumas praias pagas, pista para bicicleta e paraíso dos skatistas. São sete quilômetros de comprimento. É nela que se dança no carnaval. Ontem, 14 de Julho, Dia da Bastilha, programado um show de fogos de artifício, a Promenade, “Prom“, como a chamam, lotou. Então, às 22h30, um caminhão branco alugado, dirigido por  um tunisino, entrou na avenida dos pedestres e os atropelou durante dois quilômetros, quando foi parado a tiros. Restaram 84 mortos no asfalto. E uma pergunta: quando e onde será o próximo atentado terrorista?

nice3

O massacre do Dia da Bastilha em Nice foi apenas mais um. E o Brasil, com as Olimpíadas, que tome as precauções possíveis. O terror vive de visibilidade e o mundo reunido no Rio, a “cidade maravilhosa”, é uma atração irresistível.

Acontece que o Califado já perdeu 45% de seu território no Iraque e 20%, na Síria, atacado por forças que vão dos Estados Unidos e Rússia a aliados sunitas da Arábia Saudita. Ah, e pela França também: por isso Paris, e agora Nice, já foram alvos preferenciais, mais ainda pela extensa comunidade islâmica francesa à qual não faltam radicais.

bagdad

Al-Bafhdadi

O califa Ibrahim Awwad Ibrahim Ali al-Badri al-Samarrai Baghdadi,  nome de guerra Abu Bakr al-Baghdadi, líder do Estado Islâmico (EI), já antecipava, no começo do ano, que produziria “dias escuros” para os países da coligação que o estão atacando. “O que virá será mais devastador e amargo”, ele prometeu.

Uma lista com 1.700 nomes de condenados à morte pelo EI circulou nas últimas semanas, distribuída pelo seu braço virtual, a United Cyber Caliphate. A instrução para islamitas “lobos solitários” que moram nos EUA, França, Bélgica, Espanha, Turquia e outros países foi curta, direta: “Matem todos”. O FBI não é afeito à publicidade. Neste caso, porém, seus agentes procuraram alguns dos listados que moram em Nashville, no Texas. Seriam cidadãos comuns, não políticos ou militares, escolhidos ao acaso para disseminar o medo de que qualquer um pode estar na mira. Vazou que alguns dos alvos são membros da igreja católica e de sinagogas.

TORRES GEMEAS WTC 02 NEW YORK TWIN TOWER LEALTUDO

Outro motivo que leva o Califado a se exibir em atentados espetaculares, mesmo que visivelmente desesperados, é o ressurgimento das cinzas da Al Qaeda, que perpetrou o maior atentado terrorista da história, o 11 de Setembro (em 2001), derrubando as torres gêmeas em New York e uma ala do Pentágono, em Washington. Esta semana o filho de Bin Laden apareceu para dizer que vingará a morte do pai.

O EI nasceu no Iraque filho da Al Qaeda, mas os dois grupos não se entenderam e estão rompidos. Incrível: o que os separou foi o grau de brutalidade que cada um desfere em suas vítimas e na população das cidades conquistadas, como se

bin

Bin Laden

fizesse muita diferença jogar aviões em prédios e decapitar prisioneiros. Por que não matar com tiros em vez de degolar ante câmeras de TV? Um estrategista do terror, Adam Gadahn, nascido nos EUA, aconselhou a Ossama Bin Laden, em carta datada de janeiro de 2011, que renegasse o “filho” iraquiano, porque, do contrário, “sua reputação se degradaria mais e mais”. A ruptura foi formalizada quando o EI estendeu o Califado à Síria, jurisdição que pertencia ao grupo Frente Al Nusra, fiel a Al Qaeda.

Em papéis encontrados no último refúgio de Bin Laden leem-se reflexões como esta: “(…) essa violência indiscriminada desembocou na perda do apoio dos muçulmanos para os muhajedins”. Al Qaeda queria “recuperar a confiança perdida” no mundo islâmico. Isso explica a sua aplicação light das leis da sharia, como permissão para que mulheres vestissem calças e para que todos possam escutar música, mas lá no Yemen. Resumindo, um grupo pretendia refletir a imagem de moderado enquanto o outro mergulhava em banhos de sangue com transmissão ao vivo pela televisão. Para Bagdadi, o espetacular tem um efeito fundamental.

Outras diferenças são de origem. Bin Laden tinha diploma universitário e vinha de família de classe alta saudita. Já um de seus comandantes, o jordaniano Abu Musab al-Zarqawi, que partiu para fundar EI, nasceu na pobreza no reino da Jordânia e cercou-se de criminosos. Foi morto em 2006, no Iraque. A Al Qaeda recrutou combatentes no Afeganistão nos anos 80, enquanto o Califado os atraiu, jovens, iraquianos e sírios crescidos em guerras — e depois abriu-se para uma legião estrangeira de voluntários do mundo todo.

O risco maior, agora, é a paz entre Al Qaeda e EI. Ou uma competição entre eles pelos maiores atentados.

 RASTRO DE SANGUE

No primeiro trimestre de 2016, lançou 891 ataques na Síria e Iraque, matando 2150 pessoas;

Em outubro de 2015, derrubou um avião russo com 220 passageiros, explodindo-o no ar com bomba caseira de 1 quilo de TNT, colocada a bordo no aeroporto de Sharm el-Sheikh, um oásis no deserto do Sinai.

bata

Bataclan

Em 13 de novembro de 2015, em ataques coordenados em Paris matou 128 pessoas, a maioria se divertindo numa discoteca tradicional, Bataclan.

Em 22 de março de 2016, sacudiu  o aeroporto de Bruxelas, com três explosões. Mortos: 30 pessoas.

Em 12 de junho de 2016, um atirador “lobo solitário” matou 50 pessoas na boate gay Pulse, em Orlando, Estados Unidos.

Em 28 de junho 2016, um ataque suicida matou 44 pessoas e feriu mais de 200 no aeroporto Ataturk, em Istambul, na Turquia.

images

Aeroporto Ataturk

Em 1º de julho de 2016, depois de 11 horas de impasse, um grupo afiliado ao EI matou 20 reféns num restaurante em Daca, Bangladesh, a maioria estrangeiros.

Em 7 de julho, um carro bomba matou 281 pessoas no final do jejum de mais um dia do Ramadã, numa área de comércio de Bagdá, Iraque.

O terror em 102 capas

NY_DN

O Daily News responsabiliza a poderosa National Rifle Association, que zela pelos direitos de quem quer se armar nos Estados Unidos, pela carnificina na boate gay em Orlando, com 50 mortos e 53 feridos.

“Sem palavras”, o Tampa Bay Times (TBT), da cidade vizinha à tragédia de Orlando, publica uma rosa multicolorida. Na capa do Orlando Sentinel, um editorial para cicatrizar feridas abertas pelo massacre. Os jornais RedEye (Chicago) e Oregonian (Oregon) optaram por frases, como “Diante do ódio e violência, amaremos uns aos outros”, ou apelos à união, em suas capas sem fotos nem manchetes.

FL_TBFL_OSOR_TO

Aqui o panorama da noite do terror em Orlando em 102 capas de jornais dos EUA e do mundo

Este slideshow necessita de JavaScript.

S

“Com a bênção de Allah”

isisFoi “a primeira tempestade” na “capital da prostituição e obscenidade”, Paris. Você está lendo, entre aspas, os termos com os quais o Estado Islâmico (EI) reivindica seu ataque de sexta-feira, 13, na França, com pelo menos 140 mortos.

O comunicado está publicado na central jihadista da internet (https://ent.siteintelgroup.com/Statements/is-claims-paris-attacks-warns-operation-is-first-of-the-storm.html), um califado virtual. Ali hoje se informa que terroristas já trocam venenos de seus arsenais químicos para futuros ataques, sejam da Al Qaeda, EI e de vários grupelhos pouco conhecidos.

“A França e aqueles que seguem seus passos sabem que ficarão no topo da lista de ataques do EI, e que o cheiro da morte nunca se dissipará enquanto estiverem à frente da campanha da Cruzada, desafiando nosso Profeta (…) Estamos orgulhosos de levar a luta islâmica à França e de combater muçulmanos, e seus aviões, na terra do Califado (…) Este ataque é o primeiro da tempestade e advertência àqueles que querem aprender”.

Na íntegra do comunicado, o terror na França é uma “bênção” cujo sucesso foi “facilitado por Allah”. No Bataclan, o local da carnificina em que mais de 100 reféns foram mortos, “centenas de apostatas estavam reunidos numa festa de prostituição”.  Os oito terroristas mortos são elevados a mártires que mantiveram Paris sob seus pés.

Os jornais israelenses não circulam aos sábados. Mas seus sites dessacralizaram o shabbath para cobrir a carnificina em Paris. As bandeiras desceram a meio-pau em luto pelos mortos franceses. A Inglaterra fechou o terminal norte do aeroporto de Gatwick, por precaução. A imprensa alemã noticia que um homem ligado aos ataques foi detido na Bavaria. A Finlândia redobrou a vigilância em suas fronteiras. O policiamento também foi redobrado em New York. Uma tropa de 1500 soldados patrulha os pontos turísticos parisienses. E a Rússia estuda restringir os voos para a França.

Veja o terror na França na capa dos jornais do mundo.

Domingo

Foram selecionadas apenas as capas que romperam o formato rotineiro dos jornais, mais criativas. (Abaixo, as capas do sábado).

Este slideshow necessita de JavaScript.

Sábado