Desfile de plumas em Beirute

ber5

O dia em que

os bersaglieri

chegaram

para a guerra

Plumas castanhas nos capacetes brancos, e lenços violetas enrolados no pescoço — Beirute nunca viu tamanho luxo militar desfilando por suas ruas já indiferentes aos vários exércitos que a ocupam. São os Bersaglieri, os soldados italianos que chegaram anteontem, mas só ontem puderam desembarcar, sob os olhares espantados dos marines norte-americanos, da legião estrangeira da França, israelenses, libaneses, sírios e palestinos.

— Vieram para um baile? – gritou um “GI” norte-americano, enquanto instalava uma caixa de comunicações perto dos silos do porto de Beirute.

De cima de um tanque, também branco, um Bersaglieri respondeu:

— Sei que isso aí é uma bomba, mas explode depois que a gente passar, bem?

Os italianos trouxeram o bom humor à Beirute, apagando mesmo o sucesso do último desfile militar, o de anteontem, feito pelo próprio exercito Libanês, saindo pela primeira vez às ruas, organizados, em grandes contingentes, depois de quase oito anos de guerra.

O coronel Mastico, camisa e bermuda brancos, olhava, com prazer, seu exército de plumas desembarcando do “Buona Speranza” e do “Caorle”, ancorados no porto de Beirute com um grande atraso.

— Este lenço violeta… É moda? — perguntou uma jornalista polaca.

— Não…é o símbolo desta nossa missão — explicou, sério, o coronel Mastico. — Cada missão tem uma cor…Você vê este botão rosa aqui? (no meio do lenço violeta, ele mostrou um botão rosa, quase invisível). É para dividir os grupos.

A jornalista polaca, entre os italianos, causou alguma sensação. E grupos de soldados pediam para fotografar-se com ela. Outros, ainda a bordo, gritavam para ela. Bombas explodiam à distância, comemorando a despedida da OLP.

ber4Um outro jornalista perguntou ao coronel Mastico se suas tropas tinham instruções especiais para capturar membros da Brigada Vermelha que foram surpreendidos em Beirute quando Israel a cercou. Ele o pegou pelo braço, levou-o um pouco para fora do grupo de imprensa e de outros oficiais, e quis saber:

— É verdade? Tem célula da brigada aí dentro — e apontou para além das trincheiras de containers, Beirute oeste. De uma janela, longe, viam-se papeis picados caindo.

— Parece que sim. Mas como os palestinos começaram a retirar-se com kefyas (o pano envolvendo parte do rosto e a cabeça), não se sabe se ainda estão aqui, ou se já partiram para o Yemen, ou para Síria…

Quando a tropa de Bersaglieris deixou o porto, percorrendo a cidade em direção ao aeroporto internacional, que se encarregará de controlar, alguns beirutenses saiam de seus carros, para vê-la. E a maioria achava engraçado.

Dentro do porto, num jipe, observando os marines com seus fuzis M-16, e um equipamento ultrassofisticado, um coronel libanês comentou:

— Estamos nos preparando para entrar em Beirute oeste. E entraremos, muito possivelmente, neste fim de semana.

Um pouco mais além, no edifício destruído da alfândega, no teto, escondido entre escombros, um soldado israelense observava por binóculo os papeis picados caindo para além dos contêineres que marcam a fronteira, neste setor. Agitado, comunicava a novidade para seu comando. E por que? “Não havia ninguém ali, há muitos dias”.

Beirute fervilhava, ontem, de calor e agitação. Diante da galeria Semaane, e na passagem do museu, formavam-se filas quilométricas de carros com mudanças sobre os tetos, a maioria aos pedaços, perfurada por balas. Eram os libaneses voltando para o setor oeste, de onde fugiram durante as várias fases da guerra.

Seguindo a coluna deste êxodo ao avesso, descobria-se um medo geral de não reencontrar a casa de pé, ou o que tinha ficado dentro. A fila não andava, congestionada desde os postos de checagem de documentos. Crianças brincavam atirando com seus revólveres de espoleta ao som das bombas, ontem mais uma vez ininterrupto. Poucos adultos falavam francês ou inglês – só o árabe. A volta às suas casas foi decidida depois que chegaram os marines, especialmente. E reforçada pela televisão libanesa, mostrando os Sírios carregando 30 caminhões com fogões, geladeiras, malas…depois, o exercito libanês garante que os protegerá de possíveis vinganças

bersa

Tawfik, que mora perto da comiche Mazra, e que trabalhava na embaixada do Marrocos, fugiu para Aley, durante os bombardeios. Continuava vendo-os, porém a salvo, do alto das colinas que cercam a cidade.

— Não sei se tenho ainda a minha casa, nem meu emprego — ele explicou. — Volto para ver. Tendo a casa, fico.

Mais que falar, os libaneses muçulmanos que voltam têm dúvidas, como traduziu Tawfik, diante de um grupo que o rodeou, expressando-se em árabe — e fazendo surgir “café Libanês”, como o café turco é chamado em Beirute. “Bachir Gemayel vai trazer a paz para nós?” – era a principal questão.

A esperança está no ar: a Gendarmerie, parte do exército libanês, já tenta controlar o caótico trânsito de Beirute — e guardas já são vistos nos principais cruzamentos, apitando. A luz voltou à noite, nas grandes avenidas, as corniches, embora parcial. Bandeiras do Líbano surgem por toda a parte. Os israelenses desapareceram do centro, reagrupando-se pela periferia. Tratores removem escombros. Pequenos aviões pousam no aeroporto internacional. O embaixador da Arábia Saudita, general Ali Shaer, já estaria de volta, mas sem confirmação oficial. Surpresa, porém, é que os telefones estejam funcionando, entre o oeste e o leste. Até charges voltaram a ser publicadas nos jornais. No “Le Reveil”, ontem, na última página, via-se um libanês todo ferido, enfaixado, fazendo uma chamada: o soldado americano, presente, o francês, presente, e o italiano? – ele pergunta. O soldado italiano está desembarcando correndo de seu barco, atrasado. São os Bersaglieris, o luxo de ontem. Debaixo da mesa de chamada, tremendo, pequeno, vê-se um soldado sírio.

berOs sírios começam a se retirar hoje, pela galeria Semaane, em direção de Damasco — uma partida já duas vezes adiada, por motivos de segurança, os falangistas concentrando-se em pontos no caminho. Ontem, partiram 697 palestinos para o Yemen do Norte, por navio, e também 190 feridos, para Grécia, acompanhados do doutor Arafat, o irmão de Yasser Arafat.

O jornal da OLP já fechou — todos os redatores partindo para o exílio. O conselheiro de Yasser Arafat, Hani Al Hassan, também partiu anteontem, para a Tunísia. O rumor nesta misteriosa Beirute era o de que o próprio Arafat já teria ido embora, entre os 4.371 palestinos que saíram. Ele foi provocado pelo anúncio de Saeb Salam, ex-primeiro ministro que serviu de contato entre o embaixador Philip Habib e a OLP, de que os dois já tinham se despedido. Mas houve um desmentido — uma entrevista com Arafat divulgada ontem pela BBC, sem indicar data.

O tenente-coronel Robert Johnson, dos marines, protagonizou o primeiro contato formal entre os Estados Unidos e a OLP, embora ele o minimize: foi pedir para que a bombástica celebração cotidiana seja encerrada, “um contato técnico”, como o qualificou. Não o atenderam: os tiros para o ar prosseguiram durante todo o dia.

Os legionários franceses, penetrando mais em Beirute oeste, ocuparam o setor do cassino, destruído completamente. Aqui, há 60 anos, um general francês, Gouraud, proclamou a independência do grande Líbano. A independência está próxima: até o próximo dois de setembro, Beirute oeste será reunificada ao leste, e assim, aberta, deverá permanecer. Até 23 de setembro, as forças multinacionais devem se retirar. Depois, sairão também os israelenses e os sírios, que ocupam outras regiões do país. Então, o presidente Bachir Gemayel assumirá o poder, com enviado americano Philip Habib se entregando, atualmente, á tarefa de unificar as várias facções políticas num governo estável. Quem conhece muito bem o Líbano, como o correspondente de “O Estado”, Issa Goraieb, não ousa arriscar um palpite para o futuro.

— Aqui, nada é previsível — ele lamentava, deprimido com a presença de tantas forças estrangeiras em Beirute.

ber3

Tiro em Londres. Guerra total no Líbano.

Inimigos mortais, depois parceiros em busca da paz (Foto: CBS)
Inimigos mortais, depois parceiros em busca da paz. (Foto: CBS 
Shlomo Argov

Shlomo Argov

O embaixador israelense em Londres,

Shlomo Argov, é baleado na cabeça por

terroristas palestinos. Era o que o general Ariel

Sharon esperava para caçar Arafat

e expulsá-lo do Líbano.

Vieram pelo mar Mediterrâneo, envolvendo-se de ar térmico contra mísseis infravermelhos, e lançaram o ataque mais devastador sofrido por Beirute desde o último bombardeio de 24 de julho do ano passado (1981). Em sete ondas sucessivas, das 15h15 às 18h15, os aviões israelenses despejaram bombas sobre objetivos pré-selecionados da OLP, atingindo-os com impactos diretos, e provocando incêndios, grandes explosões – “um pânico indescritível”, como narraram as rádios libanesas. A represália de Israel ao atentado contra o seu embaixador em Londres prosseguia ainda de noite, com a artilharia de longo alcance disparando contra baterias de foguetes Katiushas, no sul do Líbano.

“Não há mais cessar-fogo”, explicou o porta-voz do primeiro-ministro Menachem Béguin. “Aqui, não cairá mais Katiushas”, prometia o ministro Yacoov Meridor, na alta Galileia, confortando a população dentro dos abrigos antiaéreos, depois que uma salva de 20 foguetes matou um homem ao volante de seu carro, ferindo outras quatro pessoas, no começo da noite.

— O exército cumprirá esta promessa – ainda acrescentou o ministro Meridor. Outras fontes do governo, durante o dia, falavam em “exterminar a OLP”, ou em “dar o golpe final contra os terroristas no Líbano”. E se assim for, o cálculo de 30 mortos e de 120 feridos, provisório, na noite de ontem, pode ser apenas um trágico começo de uma guerra total, o ministro da Defesa anunciando que “não vamos entrar numa nova guerra de desgaste”.

Através de seus próprios serviços de informações, Israel já tinha concluído, pela manhã de ontem, que seu embaixador em Londres fora atacado, durante a madrugada, por terroristas árabes. Shlomo Argov, há três anos na Inglaterra, foi baleado, na cabeça, com uma pistola de nove milímetros, polonesa, quando se retirava de um jantar diplomático, no hotel Dorchester, em Park Lane, e encontra-se em estado crítico, no Hospital Nacional.

Para algumas fontes israelenses, Londres teria sido escolhida para o atentado “por parecer um terreno propício, depois da divulgação, sistemática, pelo governo britânico, de que Israel vinha fornecendo armamento à Argentina, clandestinamente” (era o início da Guerra das Malvinas). Haveria, na Inglaterra, assim, um clima anti-israelense, e por isso lá ocorreu o atentado, e não na Itália ou na Alemanha Federal, como era antecipado em Israel, com agentes infiltrados no mundo da guerrilha palestina na Europa.

Prevendo um atentado que marcaria os 15 anos da Guerra dos Seis Dias, exatamente hoje, diversas fontes israelenses passaram as duas últimas semanas advertindo publicamente a OLP: “o cessar fogo”, rompido duas vezes desde julho do ano passado, “envolve também todas as instituições judaicas no exterior, e não apenas a fronteira, no sul do Líbano”.

Após o atentado da madrugada de ontem, nenhum membro do governo de Israel repetiu qualquer ameaça. Este silêncio, raro, provocou o alerta máximo para a OLP, em todo o Líbano. Nas ruas, os israelenses, escutando “o céu carregado”, bombardeiros rompendo a barreira do som, previam, de uma forma geral:

— Vai ser um terrível golpe…

Caças israelenses a caminho do Líbano. photo credit: Thibaud Saintin via photopin cc

Caças israelenses a caminho do Líbano. photo credit: Thibaud Saintin via photopin cc

Antes que Londres revelasse a nacionalidade dos passaportes dos suspeitos presos, entre eles dois jordanianos, um iraniano e um sírio, o porta-voz do Ministério do Exterior, Avi Pazner, já anunciava:

— Não há dúvida de que terroristas árabes são os responsáveis.

Pazner acrescentaria, também, que “todas as organizações terroristas árabes tem seus QGs no Líbano”, indicando o objetivo de uma iminente represália israelense, e ainda revelaria, concluindo, que todas as representações israelenses no exterior já haviam recebido ordens para redobrar a segurança contra “uma nova onda de atentados”. Há dois meses, o segundo secretário da embaixada de Israel em Paris, Yacoov Bar-Simantov, foi assassinado, com um tiro na cabeça. Há dois anos, no mesmo centro londrino, em Park Lane, morreu uma aeromoça da El-Al, num ataque ao ônibus que transportava a tripulação israelense. Em 17/04/1971, o cônsul de Israel em Istambul, Ephraim El-Rom, apareceu morto, após ser sequestrado. Em 13/11/79, o embaixador em Lisboa, Ephraim Elder, foi baleado na perna. Recentemente, dois escritórios israelenses, um em Roma e outro em Paris, também foram atacados.

Saindo de uma reunião do governo de que nada filtrou, o chanceler Shamir apenas diria, “chocado”:

— Árabes terroristas…

Os aviões partiram, mesmo que o Shabat estivesse para começar. A última vez que atacaram em Beirute, em julho do ano passado, deixaram o trágico saldo de 180 mortos. As primeiras bombas caíram perto da concorrida rua Jaloul, visando a tribuna do estádio de futebol transformada em depósito de armas e munição da OLP. Depois, sucessivamente, em ondas que se repetiam a cada meia hora, bombardearam um centro de treinamento do El-Fath, ou “o Relâmpago”, de Yasser Arafat; a base da “Força 17”, que é um grupo especial dentro da OLP; e a entrada que leva ao aeroporto internacional, guardada por palestinos e por soldados sírios da “força de dissuasão árabe”. Segundo o porta-voz militar, em Jerusalém, os aviões “encontraram pouco fogo antiaéreo” – mas ele não revelou que aparelhos estavam sendo usados na operação. A aviação Síria não apareceu sob os céus de Beirute, como nos últimos dois raids aéreos israelenses.

Os campos de Sabra e Chatila também foram acertados – e, pela primeira vez, também a casa de Yasser Arafat, em Bahane, ao sul da cidade, mas ele estava na Arábia Saudita, tentando uma mediação para uma outra guerra, a do Iraque – Iran.

A OLP desmentiu qualquer responsabilidade no atentado em Londres, condenando-o, mas para Israel “a OLP não tem credibilidade, nem para desmentidos”. Só duas horas depois de iniciado o ataque, o porta-voz militar, em Jerusalém, o confirmou, publicando um comunicado oficial:

“Após o ataque criminoso contra o embaixador de Israel em Londres, Shlomo Argov, e após múltiplas violações do cessar-fogo de julho de 1981, o governo deu ordens ao exército de atacar objetivos terroristas no Líbano”.

Um ministro, Yitzhak Modai, explicando então o ataque, declarou: “O preço da nossa moderação tornou-se muito alto. Isto não podia continuar…”.

Beirute em chamas (photo credit: JiPs☆STiCk via photopin cc)

Beirute em chamas (photo credit: JiPs☆STiCk via photopin cc)

O secretário de Estado norte-americano, Alexander Haig, defendeu a represália israelense, dizendo que “Israel mostra ao mundo que ataques terroristas não ficarão impunes”. Mas o Departamento de Estado, em Washington, expressava “uma profunda preocupação com a nova onda de violência”, à véspera da quinta visita de seu diplomata Philip Habib, que obteve o último cessar-fogo, agora inexistente. Ele chega na segunda-feira, a Beirute, enviado pelo presidente Ronald Reagan. Os Estados Unidos consideram que “o cessar-fogo ainda é valido, embora frágil”. A Inglaterra e a ONU foram os primeiros a enviar notas de condenação ao atentado em Londres ao primeiro-ministro Menachem Béguin.

Reagindo ao ataque à Beirute, as baterias de foguetes Katiushas, no sul do Líbano, abriram fogo contra aldeias israelenses da alta Galileia. Os aviões reapareceram, bombardeando uma área entre o porto de Sidon e Nabatyie, ao mesmo tempo em que entrava em ação a artilharia de longo alcance.

O duelo, na fronteira, prosseguia na noite de ontem, toda a população da Galileia dentro dos abrigos antiaéreos. Um diplomata via um grande perigo neste duelo, “embora a represália israelense já tenha sido desproporcional ao atentado”. Lembrava-se que as tropas de Israel estão reforçadas na fronteira, ao norte, desde a anexação do Golan Sírio, “e elas podem avançar, invadindo o Líbano para destruir as rampas de lançamento de foguetes”.

Passeio pelo sul do Líbano

2015-01-02 21.15.54

O repórter e a escolta obrigatória (Foto Rina Castelnuovo, New York Times).

Vestir o colete à prova de balas, e estar protegido por uma escolta armada com fuzis M-16. É obrigatório, como apertar o cinto e desligar o celular, nos aviões. Estamos nos aproximando do Líbano, via Metula, em Israel.

Adiante, o “portão número um”. Antes de cruzar a fronteira, paramos num grande pátio, ao lado de uma fila de carretas carregadas com tanques cobertos com panos finos e manchados de marrom e verde, camuflagem transparente, e vários caminhões brancos da ONU com soldados explicitamente nórdicos, louros e já vermelhos do tímido sol de primavera.

Do comboio da imprensa, surge o gordo e simpático arquiteto de Beersheba, no deserto do Negev que, por 40 dias cada ano, assume seu posto de oficial do exército israelense, cumprindo o “Miluim” — o serviço militar compulsório. Ele sai do primeiro dos três carros, todos alugados com seguros especiais para regiões em guerra, e some num barracão de madeira. Vai obter o nosso “visto de entrada” final.

Ônibus com turistas param perto, onde há uma paisagem perfeita para álbuns de recordação: arame farpado, trincheira, a cerca eletrificada que se perde de vista, o chão de areia fina e constantemente varrida que grava as pegadas dos guerrilheiros que conseguirem a raridade de uma infiltração, enganando os sistemas de defesa, e a placa que indica” Perigo: fronteira”. Tem até tenda que vende envelopes com selos libaneses, e como são válidos para remessa dali mesmo, muitos turistas trocam a máquina fotográfica por canetas, então descrevendo suas experiências de guerra. Os soldados alimentam a ficção, posando com suas armas. Este lugar já foi conhecido como Fatahland, por causa dos guerrilheiros do Fatah, e como Haddadland, agora, quando o major rebelde libanês Saad Haddad o proclamou “Líbano livre”. (Cá entre nós, é mais uma Disneylândia do Oriente Médio, graças ao turismo de guerra.

— Israel está querendo retirar-se do Líbano, ou na verdade vai é invadi-lo outra vez? — pergunto aos dois soldados da escolta, enquanto instalam um potente rádio de campanha no meu carro. Não respondem. Aponto para a caravana das carretas com tanques camuflados. Aí um deles explica

— Ah, isto é normal, trocas no front…

Quando não estão mobilizados, em “miluim”, trabalham como carpinteiros, em Holon, ao sul de Tel-Aviv. Hoje farão a última viagem dos 40 dias de serviço obrigatório. “Maspik”, ou “basta”, diz um deles. Vai embora daqui a pouco para casa, onde o esperam mulher e filhos. Volta o oficial e arquiteto de Beersheba, papeis à mão, gritando “Yala, Yala” , “Vamos, vamos”, coletes fechadoa, fuzis ao alcance prontos.  Abre-se o portão número um: entramos no Líbano.

Atire-se um libanês

Ao mar, e ele voltará,

Com um peixe na boca.

Os buracos de tiros de todos os calibres já foram rebocados, na maioria das casas. Como feridas, cicatrizaram, mas deixaram marcas. Ainda se encontram montes de ruinas, aqui e ali. Quando um telhado está quase inteiro no chão é porque desabou implodido por uma granada lançada para dentro pela janela. Mas quando restam apenas pedras, não há dúvida; bombardeio aéreo, ou impacto direto de obus de grosso calibre.

Os sul-libaneses, emergindo depois da guerra de Israel contra a OLP, em meio à guerra civil destruindo o Líbano desde abril de 1975, confirmam o provérbio. Seus peixes tomam a forma de um número impressionante de novas obras. Alguns projetos revelam outra característica do libanês, a sua capacidade de recomeçar do zero, ou o gosto pelo risco: do contrário, como entender o grande hotel sendo levantado vizinho ao portão número um, na fronteira com Israel? Ou o cassino anunciado por uma placa, em frente a uma obra já adiantada?

Será que os sul-libaneses esperam que os israelenses virão lotar o hotel, e apostarão no cassino? E como é que viriam? Uniformizados e armados, como sempre? Ou com passaportes, turistas? Será que estão acreditando numa eventual e distante paz entre Israel e o Líbano, que então abriria a rodovia Jerusalém-Beirute?

O Chateau Beaufort, de onde a OLP disparava contra o Norte de Israel.

O Chateau Beaufort, de onde a OLP disparava contra o Norte de Israel. Thibaud Saintin via photopin cc

Os libaneses não são ingênuos: se voltam com um peixe na boca, depois de jogados ao mar, é porque tem “shatara”, malandragem, no melhor dos sentidos, uma mistura de astúcia e malícia, como me explica um libanês. Alem disso, são ambiciosos: muitas das casas que projetam enormes, luxuosas mansões, ficam inacabadas. Isto se vê por todo o país. Beirute está repleta de sobrados interrompidos no primeiro andar, com as colunas do segundo apenas iniciadas, abertas para o céu como esperando um milagre.

Observe-se bem as casas em construção no sul do Líbano: elas não têm fundações. E o que isto revela não pode ser chamado de otimismo. Os libaneses acreditam tão pouco no futuro imediato que nem raízes fixam. A explosão de um bujão de gás derruba um edifício libanês, como aconteceu no porto de Tiro, onde os israelenses tinham instalado a sede de um comando regional. Ali 62 pessoas morreram.

Mesmo como um castelo de cartas, o sul do Líbano está sendo reconstruído, os buracos de balas tampados, as estradas reabertas, os serviços públicos funcionando. E apesar de todo o dinamismo que se supõe olhando a paisagem, o que mais se vê são homenzarrões jogando bolinha de gude, admirados pelas crianças.

Outra obra impressionante tomando forma no sul do Líbano tem a marca israelense, e está em fase de fundação: é a que recebeu, em hebraico, a abreviatura de “Zadal”, significando “Zva Drom Levanon”, ou Exército do Sul do Líbano.

Os libaneses dizem: “Quem recebemos em casa são nossos primos”. Isto vale para os israelenses? Afinal, esses “brimos” não foram exatamente convidados, impuseram-se. Resta-lhes sempre um argumento decisivo: a força, e se em algumas casas são recebidos com toda a pompa de uma cerimônia de café, em muitos locais caem vitimas de emboscadas, seus jipes de patrulha voam em minas plantadas durante a noite nas estradas, e bombas acionadas por controle remoto explodem à passagem de ônibus de transporte de tropas.

Não é à toa que os soldados da escolta, no meu carro, pedem para aumentar o volume do rádio, quando começa a tocar uma canção popular que diz: “Quero voltar para casa”, e se ela nada tinha que ver com a guerra no Líbano, para muitos soldados servindo em território libanês agora soa como um hino.

Primos? Os israelenses eram heróis, no começo da guerra, para cristãos e muçulmanos do sul do Líbano, cansados da ocupação palestina. Os tanques avançavam rumo a Beirute, arrasadores, e aqui eles eram recebidos sob chuva de flores, e os soldados, presenteados. Os israelenses aprenderam rápido a palavra que resume a grande generosidade do libanês: “tfadale”, “é seu”, ou “leva para você, por favor”, que ouviam quando gostavam de alguma coisa. Nos restaurantes, não lhes cobravam as contas. E no trânsito davam-lhes passagem. Hoje, hoje não aceitam mais nem mesmo o dinheiro de Israel. O israelense passou a ser visto como ocupante, mesmo pelos seus antigos aliados, os cristãos.

“Quero voltar para casa”, cantarola um dos soldados, olhando o pico do monte Hermon coberto de neve. Mas se está incômodo ficar, muito mais será sair — “muito difícil mesmo”, assegura o arquiteto que comanda o comboio da imprensa pelo sul do Líbano, quando nos aproximamos do quartel do “Zadal” em Marjayoun, famoso bastião das forças do major Saad Haddad, que morreu no começo de 1984.

Aquele que permanece sentado

É uma pedra. E o que

se move, um pássaro.

Os israelenses são como os pássaros do provérbio libanês. Estão ensaiando uma nova direção política no Líbano. Com a morte o comandante do Exército do Líbano Livre, o major Haddad, e o cancelamento do acordo de maio do ano passado, para a retirada das forças estrangeiras, com o governo do presidente Amin Gemayel, uma nova situação foi criada. E o capitão Malihi Menachem que o diga.

O capitão Menachem está trabalhando na criação do novo exército, “Zadal”. É israelense, como a bandeira que tremula no pátio do quartel. Mais que isso: recebe tratamento de comandante, de fato, já que oficialmente ninguém foi apontado para substituir o major Haddad. Assim, novos recrutas e veteranos o recebem nos bloqueios militares nas estradas, e os civis o saúdam respeitosamente. Todos os problemas da região acabam sobre sua mesa.

— Subentende-se que é Israel que comanda o novo exército do sul do Líbano. E será assim até quando? — Pergunto.

— Nós… nós não: eles… O major Haddad… Quando ele estava vivo, e ao saber que iria morrer de câncer, daí a sete meses, nomeou cinco prováveis sucessores. Um deles foi Elias Khalil, oficial do exército libanês. Era o mais indicado mesmo, entre todos. Mas ele não compareceu à cerimônia de sua própria posse. “Vocês me mataram antes que eu chegasse”, ele reclamou. Com o seu nome publicado pelos jornais, e sendo cristão, ele passou a receber ameaças de morte. E não assumiu…

— E o capitão Sharbal Barakat, o vice de Haddad?

— Não, muito jovem…ele está descartado. Dentro de mais duas semanas, no máximo três, teremos aqui um novo comandante.

— Cristão? Xiita? Druso? Quem?

— Por favor: não posso responder agora…Temos problemas. Nem tudo que Israel quer é possível, aqui e agora.

A preocupação do capitão Menachem é a de apagar a imagem de força cristã que ainda marca o novo exército do sul do Líbano. “A era Haddad acabou”, ele repete. E mostra alguns números:

— Os cristãos são agora 63% da brigada em formação. Os xiitas, 17%; os drusos, 13%; e os sunitas, 7%. Já contamos com dois mil homens.

— E eles se dão bem juntos? — pergunta-se à lembrança de que em Beirute os grupos étnicos estão muito distantes de formar um exército unido, reconciliados. Como Israel conseguiria o que os próprios libaneses ainda não conquistaram, mesmo após duas conferências de cúpula na Suíça?

Menachem olha para o vice-comandante de uma unidade mista, um libanês que não pode dar o nome por ter família em Beirute exposta a represálias. Ele explica: “Nós temos um interesse comum, só um objetivo — proteger nossas casas e aldeias com nosso próprio exército, enquanto tudo desmorona em Beirute…”

Outro motivo específico ao sul do Líbano: os seus 965 mil habitantes parecem ter concluído, à custa de toque de recolher como punição a atentados, ou fechamento das pontes sobre o rio Awali, ou por causa do excesso de violência que já experimentaram, que não há alternativa senão cooperar com Israel. “Ein brerá”, “não tem jeito”, dizem os israelenses, como consolação. Depois, ainda há o dinheiro: cada recruta, de 18 a 60 anos, com contrato que pode ser renovado a cada ano, recebe mensalmente o salário de cerca de 1.700 libras libanesas, equivalente a 300/350 dólares. Mas mesmo que nada ganhassem antes, muitos soldados já chegam ao quartel com seus Mercedes, pois o Líbano é um país sem impostos de importação.

Os uniformes causam certa confusão, iguais aos dos israelenses. As caixas de munição estão marcadas em hebraico. Mas a arma padrão é o fuzil Kalachnikov, capturado em grandes quantidades dos arsenais da OLP. A cor dos antigos Sherman e T-54, os tanques em operação no “Zadal”, é cinza claro.

Há soldados do exército do sul do Líbano que foram membros das milícias Amal (Esperança), xiitas, e da Saika, o grupo palestino apoiado pela Síria. Não estariam eles, na verdade, infiltrando-se, para sabotagens, muito mais do que voluntariando-se para uma luta em favor de Israel? Não acontecerá igual desastre ao ocorrido com o exército libanês, no momento da batalha decisiva, quando a maioria preferiu desertar?

O capitão Menachem assegura que “até agora, o novo exército mostrou eficiência e fidelidade”.

— São melhores que os soldados israelenses, em algumas coisas – ele acrescenta. “Primeiro, porque são da região, porque servem numa área em que conhecem praticamente a todos, sendo então capazes de distinguir os forasteiros. Digo-lhe: eles descobrem, só olhando, quem chegou para tumultuar, ou quem esconde alguma arma. Já aconteceu várias vezes, em bloqueios de estradas. Segundo, porque estão defendendo suas famílias. E terceiro: eles se comportam agora como um exército. Esta é a grande mudança, eles podem ser enviados em missão, a qualquer parte.

— Quer dizer: os cristãos são enviados para áreas cristãs, e os xiitas, para as xiitas?

Não, diz o capitão Menachem. — O objetivo é a integração. E se há alguma divisão ela não será nunca étnica, mas de acordo com a atividade.

O grupo que mais procura o novo exército, para alistar-se, é o cristão. Mas a recusa tem sido sistemática. Mesmo aqueles que desertaram o exército regular libanês foram reenviados para o norte, em navios que partiram do porto de Sidon.

— Só ficamos com cem deles — diz Menachem. — E por uma única razão: não queremos que o novo exército seja predominantemente cristão.

Durante a operação Litani, em 1978, Israel invadiu uma área cristã do Líbano. Estando agora na linha do rio Awali, mais para norte, a situação mudou completamente. A região sob controle israelense inclui 520 mil xiitas, 200 mil cristãos, 110 mil sunitas, 55 mil drusos e 80 mil palestinos. Por isso, o capitão Menachem conclui:

— Desencorajamos cristãos, e aceitamos os xiitas. Assim decidimos que tem que ser…

Uri Lubrani, o coordenador das atividades de Israel no Líbano, está levando em conta o pró-khomeinismo xiita, mas explica:

— Sou um otimista, apesar das más notícias. Sem otimismo, melhor ficar em casa, ler os matutinos, tomar a dose diária de frustração, e continuar. Aqui, estamos trabalhando duro para evitar que as coisas ruins aconteçam. A pressão pública em Israel para que nos retiremos do Líbano só agrava a situação. Tanto os xiitas como os sunitas nos perguntam: “Mas vocês estão saindo, ou ficando? Se estamos nos retirando, eles dizem que não querem conversa com a gente. Por isso, tenho insistido em não marcar datas de retirada, em comprar tempo… a nossa vantagem é a divisão entre os xiitas.

A luta interna vai crescendo dentro do Amal. Os pró-khomeinistas (os extremistas que estão prontos a morrer em nome de Alá) não passam de uma minoria, e a maioria os considera um grande perigo.

Os israelenses estão certos, depois que ouviram centenas de depoimentos de sul-libaneses de várias tendências, que os guerrilheiros da OLP não são mais bem-vindos na região. Em Beirute mesmo, os drusos eliminaram, recentemente, as milícias pró-nasseristas e pró-líbias, os mourabitun, porque seu líder, Koleilath, estava convidando os rebeldes do Fatah a penetrar em Beirute. A situação se repetiu no Shouf. E também ao sul de Beirute, evitando uma penetração para as linhas ocupadas por Israel.

— Uma consciência cresceu aqui pelo sul do Líbano, fruto de um desejo de viver. O povo está descobrindo que uma forma de viver uma existência normal é a de evitar ataques contra Israel.

Cada ataque palestino em Israel, antes da guerra de junho de 1982, significava represálias aéreas israelenses que atingiam a toda a população, direta e indiretamente. E depois, a ocupação palestina no sul do Líbano foi sinônimo de muita violência, assassinatos, estupro de mulheres e lutas intercomunais. O prefeito em El-khiam, Kamel Zawi, é um caso comum, típico. Sua aldeia foi talvez a que mais sofreu durante o império da OLP, abrigando cerca de cinco mil guerrilheiros. Os israelenses a bombardearam constantemente. A maioria da população fugiu para o norte, de onde fugiu de novo para o sul, há 18 meses. Agora que reconstruíram quase tudo, voltando do naufrágio com um peixe na boca, Zawi e alguns amigos fazem campanha para que os jovens juntem-se ao exército do sul do Líbano, desde que possa ser evitada qualquer publicidade: “Temos família em Beirute…”

Pergunto ao capitão Menachem quando é que Israel vai se retirar do Líbano. Ele parece surpreso: “Vamos ficar aqui 20, 30 anos…Esta é a realidade. Se sairmos, tibum: tudo desaba. Não se fala mais em retirada…Falamos em reduzir o máximo o número de soldados israelenses dentro do sul do Líbano. Claro: acontecendo algo sério, sempre temos condições de voltar.

— Se a integração entre xiitas, cristãos e sunitas funcionar aqui no sul poderá servir de modelo ao norte, para Beirute?

— De jeito nenhum – garante o capitão Menachem.Se o cão do sultão morre, uma multidão vai ao enterro. Mas ao enterro do próprio sultão, quase ninguém.

Pouco depois da morte do presidente Anuar Sadat, fui a El Arish, no deserto do Sinai, onde vi a população recebê-lo em delírio, pela sua iniciativa de paz. Procurei quem tinha entrevistado antes. Era uma maneira de avaliar o impacto do assassinato. Mas, então, ouvia: “Não é mais Sadat. Agora, é Mubarak…” Tanto provoquei, um senhor me disse: “Escuta aqui, Sadat está morto”, e me ensinou um novo provérbio árabe, que embora não seja libanês aplica-se ao Líbano de hoje. Em Bint Jubayl acompanhei uma patrulha xiita numa ronda. Fui conversando com um soldado que todos chamavam de “Ringo”, xiita nascido em Burj Al Barajne, na região do aeroporto internacional de Beirute.

— Sou da metrópole, mas vim para cá faz seis anos – diz “Ringo” com orgulho. O que ele está fazendo aqui, num exército apoiado por Israel. “Yea, yea…Este é um bom exército…”

— E seus irmãos do norte?

— Você está falando de Nabi Berri (líder xiita do Amal, “Esperança”)? Ele não é um homem de bem. Ele não é um bom xiita.

— E por que?

— Porque ele está em contato com a Síria e com os palestinos.

— E você, com Israel…

— Eu quero paz. Israel é um bom país. Gostaria que Israel fosse de novo até Beirute. Dar uma surra no Berri.

— E como são suas relações com os cristãos?

Ringo dá uma gargalhada: — Meu coração está com os cristãos.

Outro xiita, Mustapha Nedji, que não está no exército do sul do Líbano, diz claramente:

— Se um xiita me pergunta se eu gosto de Khomeini, eu lhe digo: “Mas claro”. Só que eu não gosto.

— Você quer que o exército israelense vá embora daqui?

— Sim, se houver paz entre Líbano e Israel.

No alto, com um estrondo supersônico, surgem os aviões israelenses. Sobre a cidade, disparam vários mini-foguetes antimísseis, alaranjados. Estão treinando. Na rua central, nada se altera. Na sede do comando, à porta, oficiais do exército do sul do Líbano, entre eles um druso israelense, tomam cafezinho. Dois oficiais da ONU, um norte-americano e um canadense, tentam comprar vasos que transformarão em lustres, mas não sabem árabe, e ninguém os ajuda. A rua se enche de estudantes saindo das escolas. O capitão Menachem conta, como se fosse um segredo:

— Esta cidade é perigosíssima. Há um grupo khomemista muito influente. Se Israel se retirar, os extremistas tomam o poder.

Quis saber do capitão Menachem o que acontecerá se o Partido Trabalhista vencer as próximas eleições em Israel. Afinal, o líder Shimon Peres está prometendo retirar as tropas em três meses.

— Política… Yitzhak Rabin (ex-primeiro-ministro e ex-chefe do Estado Maior do exército, futuro ministro da Defesa, num governo Peres) esteve aqui, comigo, na semana passada. E ele é completamente favorável a nossa atual política…

— Quer dizer: com os trabalhistas no poder, nada mudará aqui?

— Nada, porque governo e oposição concordam com os mesmos objetivos, embora adotando caminhos diferentes para atingi-los.

Um pneu do comboio fura na estrada, perto de um bloqueio militar de muçulmanos xiitas, sem uniformes. Dois carros, com quatro soldados israelenses, e um xiita que usa revólver como em filmes de faroeste, são escalados para encontrar um borracheiro. Toda saída dos caminhos normais, dentro do Líbano, implica em perigo. E na medida em que fomos penetrando para os subúrbios de Bint Jubayl, grupos ficavam no meio da rua, colocando-se diante dos carros. Mas a visão dos soldados armados parecia dissuasiva.

Num posto de gasolina, quando um israelense mostrou o pneu furado, nada aconteceu. Foi preciso que o xiita á paisana fosse buscar o borracheiro. Os imans e os mullahs da região estão proclamando ser pecado usar um copo que um israelense tocou. Melhor será quebrá-lo. O que dizer então de consertar um pneu?

O dono do posto de gasolina, um xiita que acabou de chegar da Costa do Marfim, veio ver os israelenses, ao saber que apareceram para consertar um pneu. Sendo pró-Israel, não quis inclusive cobrar, e ainda ofereceu cafezinhos. Perguntei se não estava comprando um problema com seus empregados, e os religiosos da cidade. E ele suspirou, e disse:

— Estamos sobre um vulcão.

No caminho de volta, entardecendo, surgem novas carretas com tanques, cobertos de camuflagem. Um soldado da escolta lembra: “Não disse? Estão trocando tanques…tudo normal…”

Publicado em 1984

Israel, Rússia.

Os russos invadem Israel

O veterano de guerra russo Vimer Bariz Samuelovich pôs suas três medalhas de bravura no peito, e fugiu. Rendido à crise econômica na Rússia, ele voou 2.117 km de Kiev até a “outra Rússia prosperando por ser o destino do êxodo de 850 mil russos desde 1987 – o início do fim do império soviético. Um pioneiro russo de Plonsk, David Gruen, mudou de nome ao chegar, em 1906, e o aeroporto foi batizado em sua homenagem: David Ben-Gurion. O cartaz em caracteres cirílicos dá “boas-vindas ao lar”. Os funcionários da imigração falam russo. A música de fundo é russa. As moças do café grátis são russas. O jornal, russo. E os israelenses riem da piada: “o hebraico está rapidamente se tornando a segunda língua em Israel”.

   Uma das medalhas de Samuelovich é a General Jukov. As outras são das duas guerras mundiais. Mas num país de milhares de heróis de 50 anos de guerras, elas apenas simbolizam a principal característica dos imigrantes das 15 ex-repúblicas soviéticas, todos recebidos como “russos”: o sentimento de superioridade. O sovietólogo Amnon Sela parodia os russos: “Nós temos uma grande e rica cultura, e vocês, nenhuma”. Eles não se submetem, como os imigrantes etíopes ou marroquinos; impõem-se. Também não se integram; conquistam direitos. “E por que deveríamos nos integrar?” – pergunta um antigo dissidente soviético, Eduard Kuznetsov, hoje editor do jornal russo mais popular de Israel, Vesti (Notícias). “Se somos muitos podemos lutar para manter nossa própria cultura”.

   Aos 73 anos, Samuelovich ostenta suas medalhas na sala do aeroporto lotada com 500 russos. Todos esperam ser chamados para dentro das 15 baias onde terão os nomes digitados num banco de dados, receberão uma carteira de identidade, seis meses de assistência médica gratuita e ajuda imediata em dinheiro, mais um carnê para uma retirada mensal em banco que ainda inclui benefícios para o primeiro ano em Israel. Para cada família de quatro pessoas, US$ 540 na hora e o equivalente a US$ 10 mil em 12 meses. Aos aposentados, aposentadoria. Aos doentes, hospitalização. Para todos, cursos intensivos de hebraico. A única condição para imigrar é a de ser judeu. Mas “exceto por algumas frases em iídiche, a maior parte dos judeus russos não conhece nada da vida judaica, nada do judaísmo e nem é sionista”, diz uma funcionária do Ministério do Trabalho, Nitza Zvi. “Seus filhos, porém, não serão diferentes dos nossos”, ela acrescenta.

   Como as medalhas de Samuelovich, muitos exibem colares com grandes estrelas de David, o entrelaçado de dois triângulos com seis pontas, o símbolo judaico. Tão à mostra, provocam suspeitas, ao invés de dirimi-las. Um jovem russo morto num recente atentado palestino em Jerusalém não pôde ser enterrado como judeu, por decisão do Rabinato. Um quarto dos russos israelenses não seria considerado judeu pela Lei Judaica: “judeu é todo aquele nascido de mãe judia”. A Organizatsiya, a máfia russa que já abriu filial em Israel, consegue “cobertura judaica” para quem quiser imigrar. Assim exportava gângsteres para Nova York ao tempo em que as portas da União Soviética estavam fechadas à imigração. E hoje envia prostitutas para as ruas de Tel-Aviv, ou “mensageiros” com malas de dinheiro ilegal para ser depositado no seguro sistema bancário israelense.

O visto para sair da União Soviética

O visto para sair da União Soviética

Samuelovich era gerente de loja, em Kiev. “Lá estava muito duro viver”, reclama. “Não tinha mais dinheiro”. A sua experiência de soldado deixou de ser compatível com as guerras sofisticadas travadas por Israel. Nem a idade permitiria um voluntariado. Então, o que vai fazer? Ele espera saber a resposta depois que aprender hebraico. O filho que imigrou há três anos dá aulas de educação física e poderá ajudá-lo. De condecorado à dependente, ele não perde a pose: estufa o peito, e tilintam as medalhas.

   Houve tempo, no início da década de 90, que o imigrante russo que não descesse do avião com um violino, então era médico. No hospital de Barzilai, perto de Ashkelon, a maioria da equipe é russa, mesmo os chefes de cirurgia e da área de oncologia. Estudantes de medicina russos trocam de carreira para evitar o mercado congestionado de Israel. Uma orquestra, a Andaluza, orgulho dos judeus expulsos de Portugal e Espanha em 1492 e 1496, os sefardins, já está tomada por russos. A diretora do conservatório de Ashdod, Hanita Zvevner, tem num caderno os nomes de 60 professores russos esperando vaga. “Não há alunos para todos!” Do dilúvio de oito mil imigrantes violinistas e pianistas, três mil foram empregados. Quando a Filarmônica de Israel apresentou “1812”, de Peter Ilyich Tchaikovsky, na praça Rabin, em Tel-Aviv, o público falava russo. Em 1989, menos do que 700 mil espectadores foram a concertos em Israel. Mas em 1994, com a chegada de 500 mil russos, o público passou a ser de 1,1 milhão.

   O flautista e saxofonista Vladimir Devorskin chegou de Moscou há três meses. Está tocando no calçadão de Jerusalém. Decepcionado? Vai voltar? “Yeltsin bandit, bandit”, xinga. Se tocasse numa rua russa, a Organizatsiya apareceria para cobrar pedágio. “Pelo menos aqui a máfia não assumiu o controle”. O organista Ariel, também moscovita, está conformado em viver de esmolas. Fez uma dupla com Devorskin para tocar algo brasileiro em homenagem ao repórter. E atacou “La cucaracha”… Ao lado, Ida Guershkah, de 72 anos, não toca nem canta: oferece antigas canções em iídiche num velho gravador quase sem som. Mas se diz feliz: “Tenho assistência médica de graça sempre que preciso”. E recebe “um dinheirinho” do governo.

   Os russos estão russificando Israel. Já são um quinto dos 5,9 milhões de israelenses. E continuam a chegar ao fluxo médio de 150 por dia, 5 mil por mês. A fábrica de chips da Intel em Haifa, que só tinha um único russo em 1983, agora tem 150. E o pioneiro, Mikhail Kagan, é hoje o chefe do departamento de microprocessadores. Com 600 mil eleitores, os russos decidiram a queda de Yitzhak Shamir, do Likud, em 1992, e elegeram Binyamin Netanyahu, do Likud, em 1996, rejeitando um aprendiz público de russo, o trabalhista e Nobel da Paz Shimon Peres. O partido Israel Ba’Aliya já fez os ministros Anatoly Sharansky (Indústria e Comércio) e Yuli Edelstein (Imigração e Absorção). E tem sete deputados. Os judeus russos são de direita. Minoria na antiga União Soviética, eles não se identificam com a outra minoria do Oriente Médio, os palestinos. O editor do Novosti Nidli (Notícias da Semana), Dmitri Ladizhinsky, justifica assim uma opinião geral russa sobre a troca de territórios ocupados pela paz: a ex-União Soviética, 28 mil vezes maior do que Israel, não devolveu ao Japão as ilhas Kural, tomadas na Segunda Guerra Mundial, agora 1% do território russo. “Então, é difícil entender por que os israelenses deveriam devolver mais de 10% de seu país – e para inimigos”.

   O soldado Nicolai tem uma visão mais próxima dos palestinos, por servir na Cisjordânia. “Em multidão, são perigosos, mas sozinhos nos convidam até para cafezinhos”. Só agora, com Bibichicov Netanyahu (Netanyahuzinho), é que há processo de paz”. Pai químico, ele vai estudar engenharia de computação e namora uma russa, embora neste momento, na praia de Ashdod, esteja paquerando uma loura cor de neve da Sibéria. Por que não uma israelense? “Mentalidades muito diferentes”, diz. O ministro Sharansky, trocado por espiões soviéticos depois de preso por nove anos, diz que o êxodo russo alterou o sionismo, que deixou de ser o caldeirão em que todos os diferentes judeus eram misturados. “Temos agora judeus russos, judeus americanos e judeus marroquinos, e queremos suas tradições e conhecimentos: Israel tem que se tornar a pátria de todos os judeus”.

Como as medalhas de Samuelovich, muitos exibem colares com grandes estrelas de David, o entrelaçado de dois triângulos com seis pontas, símbolo judaico. Tão à mostra, induz suspeitas, ao invés de dirimi-las. Um jovem russo morto num recente atentado palestino em Jerusalém não pôde ser enterrado como judeu, por decisão do rabinato. Um quarto dos russos israelenses não seriam considerados judeus pela Lei Judaica: “judeu é todo aquele nascido de mãe judia”. A Organizatsiya, a máfia russa que já abriu filial em Israel, consegue “cobertura judaica” para quem quiser imigrar. Assim exportava gângsteres para Nova York ao tempo em que as portas da União Soviética estavam fechadas à imigração. E hoje envia prostitutas para as ruas de Tel-Aviv, ou “mensageiros” com malas de dinheiro ilegal para ser depositado no seguro e curioso sistema bancário israelense.
Samuelovich era gerente de loja, em Kiev. “Lá, estava muito duro viver”, reclama. “Não tinha mais dinheiro”. A sua experiência de soldado deixou de ser compatível com as guerras sofisticadas travadas por Israel. Nem a idade permitiria um voluntariado. Então, o que vai fazer? Ele espera saber a resposta depois que aprender hebraico. O filho que imigrou há três anos dá aulas de educação física e poderá ajudá-lo. De condecorado à dependente, ele não perde a pose: estufa o peito, e tilintam as medalhas.
Houve um tempo, no início da década de 90, que o imigrante russo que não descesse do avião com um violino, então era médico. No hospital de Barzilai, perto de Ashkelon, a maioria da equipe é russa, mesmo os chefes de cirurgia e da área de oncologia. Estudantes de medicina russos trocam de carreira para evitar o mercado congestionado de Israel. Uma orquestra, a Andaluza, orgulho dos judeus expulsos de Portugal e Espanha em 1492 e 1496, os sefardins, está tomada por russos. A diretora do conservatório de Ashdod, Hanita Zvevner, tem num caderno os nomes de 60 professores russos esperando vaga. “Não há alunos para todos!” Do dilúvio de oito mil imigrantes violinistas e pianistas, três mil foram empregados. Quando a Filarmônica de Israel apresentou “1812”, de Peter Ilyich Tchaikovsky, na praça Rabin, em Tel-Aviv, o público falava russo. Em 1989, menos do que 700 mil espectadores foram a concertos em Israel. Mas em 1994, com a chegada de 500 mil russos, o público passou a ser de 1,1 milhão.
O flautista e saxofonista Vladimir Devorskin chegou de Moscou há três meses. Está tocando no calçadão de Jerusalém. Decepcionado? Vai voltar? “Yeltsin bandit, bandit”, xinga. Se tocasse numa rua russa, a Organizatsiya apareceria para cobrar pedágio. “Pelo menos aqui a máfia não assumiu o controle”. O organista Ariel, também moscovita, está conformado em viver de esmolas. Fez uma dupla com Devorskin para tocar algo brasileiro em homenagem ao repórter. E atacou “La cucaracha”… Ao lado, Ida Guershkah, de 72 anos, não toca nem canta: oferece antigas canções em iídiche num velho gravador quase sem som. Mas se diz feliz: “Tenho assistência médica de graça sempre que preciso”. E recebe “um dinheirinho” do governo.
Os russos estão russificando Israel. Já são um quinto dos 5,9 milhões de israelenses. E continuam a chegar ao fluxo médio de 150 por dia, 5 mil por mês. A fábrica de chips da Intel em Haifa, que só tinha um único russo em 1983, agora tem 150. E o pioneiro, Mikhail Kagan, é hoje o chefe do departamento de microprocessadores. Com 600 mil eleitores, os russos decidiram a queda de Yitzhak Shamir, do Likud, em 1992, e elegeram Binyamin Netanyahu, do Likud, em 1996, rejeitando um aprendiz público de russo, o trabalhista e Nobel da Paz Shimon Peres. O partido Israel Ba’Aliya já fez os ministros Anatoly Sharansky (Indústria e Comércio) e Yuli Edelstein (Imigração e Absorção). E tem sete deputados. Os judeus russos são de direita. Minoria na antiga União Soviética, eles não se identificam com a outra minoria do Oriente Médio, os palestinos. O editor do Novosti Nidli (Notícias da Semana), Dmitri Ladizhinsky, justifica assim uma opinião geral russa sobre a troca de territórios ocupados pela paz: a ex-União Soviética, 28 mil vezes maior do que Israel, não devolveu ao Japão as ilhas Kural, tomadas na Segunda Guerra Mundial, agora 1% do território russo. “Então, é difícil entender por que os israelenses deveriam devolver mais de 10% de seu país – e para inimigos”.
O soldado Nicolai tem uma visão mais próxima dos palestinos, por servir na Cisjordânia. “Em multidão, são perigosos, mas sozinhos nos convidam até para cafezinhos”. Só agora, com “Bibichicov Netanyahu” (Netanyahuzinho),  “é que há processo de paz”. Pai químico, ele vai estudar engenharia de computação e namora uma russa, embora neste momento, na praia de Ashdod, esteja paquerando uma loura cor de neve da Sibéria. Por que não uma israelense? “Mentalidades muito diferentes”, explica. O ministro Sharansky, trocado por espiões soviéticos depois de preso por nove anos, diz que o êxodo russo alterou o sionismo, que deixou de ser o caldeirão em que todos os diferentes judeus eram misturados. “Temos agora judeus russos, judeus americanos e judeus marroquinos, e queremos suas tradições e conhecimentos: Israel tem que se tornar a pátria de todos os judeus”.
Na pequena Rússia que está dando certo já foi formado o grupo teatral Gesher (Ponte, em hebraico), um sucesso absoluto em Israel já exportado para os Estados Unidos e a Europa. Dos nove israelenses convidados para uma conferência de matemáticos em Berlim, sete eram imigrantes russos. Cidades viraram canteiros de obras com o êxodo, atualmente estabilizado em 150 novos imigrantes cada dia. As medalhas de ouro das Olimpíadas da Língua Russa, em Moscou, foram conquistadas por três russos-israelenses. E em Beersheba, no deserto do Neguev, onde está enterrado David Ben-Gurion, há mais mestres de xadrez do que na própria Rússia.

Ben Gurion e Golda Meir, dois russos que foram primeiro-ministro em Israel.

Ben Gurion e Golda Meir, dois russos que foram primeiro-ministro em Israel.

Pousa mais um avião de russos no aeroporto Ben-Gurion. Agora surge o físico nuclear Marek Kiesler, viúvo de 52 anos, que chama atenção, como as medalhas de Samuelovich, porque carrega uma gaiola coberta com pano. Ele também está fugindo da crise econômica. Mas não quis abandonar Gosho, seu papagaio do Kazaquistão. Os imigrantes russos são como a bonequinha típica russa, a matriosca: aberta, tem outra boneca que se abrirá em outras bonecas, e assim 450 mil vezes mais, por um cálculo da Agência Judaica.

A Rússia de Bnei Ahish

A praça Menachem Beguin com a avenida Yitzhak Rabin, em Bnei Ayish, ao sul de Tel-Aviv, seria um cruzamento político improvável. Povoada de casais de velhinhos que não falam uma palavra de hebraico, só russo, é ainda mais impressionante. No quadro público de avisos, os anúncios são escritos em alfabeto cirílico. No shabat, o descanso religioso que fecha tudo em Jerusalém, a “delicatessen” Arbat está aberta.

Arbat, o calçadão mais famoso de Moscou, aqui é um mercadinho, com arroubo de delicatessen. Vende caviar a 200 shekalim o quilo (R$57), meio litro da vodca Dougan por 35 shekalim (R$10), e também vobla, o peixe salgado parecido ao bacalhau. No balcão, a proprietária Anette Freiberg, que imigrou da Rússia em 1992, com 15 anos, atende a todos em russo. E serve de intérprete entre o gueto russo e israelenses.
Os russos começaram a chegar a Bnei Ayish na leva de Freiberg. Havia então 1500 habitantes, a maioria imigrantes que vieram do Iêmen nos anos 50. Em pouco tempo, ocuparam a cidade: hoje os russos são 2/3 dos 7 mil habitantes. Agora tomarão o poder, elegendo o prefeito nas eleições de novembro. Será Grigory Lifshits, que foi membro do Partido Comunista em Moscou. Entre a minoria iemenita e a maioria russa restou certa tensão. Quando quer xingar, um iemenita diz: “russo!” A réplica, em geral: “árabe!”

Os refuseniks

Brailovsky, Sharansky, Kuznetsov... Foram centenas de refuseniks.

Brailovsky, Sharansky, Kuznetsov… Foram centenas de refuzeniks

Acabou a União Soviética, mas Eduard Kuznetsov mantém-se refusenik – um contestador. Nos anos 70, ele planejou o sequestro de um avião para Israel, com 15 outros dissidentes, mas foi descoberto e preso pela KGB. Ao recobrar a liberdade e o direito de viajar, saindo de um campo de trabalho forçado, continuou contestando pelo microfone da rádio russa Liberdade, montada pelos Estados Unidos em Munique, na Alemanha.

Há mais de 15 anos em Israel, planejou um segundo sequestro – e foi bem-sucedido. Saiu do primeiro jornal russo-israelense, Vremya (Tempo), fundado pelo barão inglês dos jornais, Robert Maxwell, para dirigir Vesti (Notícias), sequestrado quase toda a equipe. Vesti é hoje o quarto jornal mais vendido em Israel, o primeiro em russo, já preparando edições para a Rússia, onde hoje chega com dois dias de atraso, e para as comunidades russas nos Estados Unidos, Europa e Austrália. Está com a tiragem de 60 mil e se gaba de ser independente, embora publique muitos artigos de políticos ligados ao partido Meretz, da esquerda liberal.

Na sua salinha escura do Vesti, em Tel-Aviv, Kuznetsov confirma ser ainda um refusenik. Quando sondado sobre preferências políticas, não cai em nenhuma dissertação. “Não voto por ninguém”, diz secamente. Se está feliz em Israel, para onde quis vir em avião sequestrado? “Ainda não estou pronto para ser israelense”. Os imigrantes russos devem se acrescentar a Israel, não se integrar. Para falar sobre o futuro imediato da Rússia, ele adota um tom funéreo: “A Rússia não pagou ainda pelo passado comunista, e vai correr sangue”.

Putin (foto: Time of Israel)

Putin (foto: Time of Israel)No Kremlin israelenseKremlin, em Israel.

No Kremlin de Jerusalém

(Entrevista com ministro de Imigração e Absorção Yuli Edelstein, 40 anos, fundador do partido Israel Ba’Aliya, em 1960, e assessor por um ano, de 1993 a 94, do então líder da oposição e hoje primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, do Likud. Ele vive numa colônia da Cisjordânia, Alon Shvut, com a mulher e dois filhos. Edelstein é de Chernovitz, na antiga União Soviética, e foi um “Prisioneiro de Sion”, em Moscou, de 1984 a 87, quando imigrou para Israel. Eleito em maio de 1996 para o Parlamento, Netanyahu o nomeou ministro da Absorção um mês depois, em junho. É formado em línguas em Moscou).

— Os russos continuam imigrando para Israel? Qual a situação hoje?
Yuli Edelstein: Os russos continuam chegando. Recebemos no ano passado, da antiga União Soviética, cerca de 54 mil novos imigrantes. Da Rússia mesmo chegaram 15 mil. Hoje, por causa da situação econômica russa, estamos esperando um crescimento na imigração.
— Quantos judeus podem ainda imigrar da ex-União Soviética?
Edelstein: Cerca de mais 1 milhão.
— Israel terá ao todo 2 milhões de russos?
Edelstein: Depende… Não creio que todos quererão vir para Israel. O potencial é grande. Hoje, o candidato a imigrante sabe tudo que o espera antes mesmo de partir. Então, a forma como o absorvemos aqui, ou o estado de nossa economia, influencia muito a decisão de vir ou não.
— O que os potenciais imigrantes sabem de Israel, hoje, é sedutor?
Edelstein: Sim, quando eles têm todas as informações sobre Israel, ficam propensos a imigrar.
— Muita gente tem procurado o consulado de Israel em Moscou para imigrar?
Edelstein: Não estamos falando ainda de massas. Mas há um grande aumento de pessoas buscando informações.
— Já 1/5 da população, como os russos estão mudando Israel?
Edelstein: Eles influenciam muito, e de várias formas. A economia israelense parece hoje muito diferente por causa desta onda imigratória. Esses 15% adicionais da população impulsionaram a nossa economia principalmente por conter um grande número de profissionais altamente qualificados. Tornou possível o desenvolvimento do setor high tech. Mas ainda tem outra influência. Nas cidades em desenvolvimento do deserto do Neguev e da Galileia, uma situação totalmente diferente está criada, pois 25% de sua população são de novos imigrantes. Eles pesam nas decisões sobre educação, esportes e vida cultural. Se você falar com qualquer prefeito de uma dessas cidades, ouvirá o mesmo: tudo está completamente diferente do que era há dez anos.
— E em política? Como os russos influirão nas eleições municipais de novembro?
Edelstein: Teremos (o partido Israel Ba’Aliya) 78 membros de prefeituras, alguns serão vice-prefeitos e em um ou dois lugares elegeremos o prefeito.

(Esta reportagem foi publicada em 1999, na revista Época.)

   

Líbano dos mártires

Praça dos Mártires, 1982.

Praça dos Mártires (redzijs.wordpress.com)

Duas mulheres de mãos dadas (foto), uma com véu, muçulmana, e a outra cristã, simbolizavam a unidade do Líbano, na Praça dos Mártires, desde 1930. Entre elas, uma urna com as cinzas de 21 enforcados, o marco do longo martírio libanês. Em setembro de 1948, as duas mulheres foram atacadas a machadadas. Depois, sumiram. Só reapareceram, de repente, em 2001, no Museu Sursoq, em Beirute.

liban

A mulher de bronze perfurada de balas abraça um jovem de braço amputado. A outra mão levanta uma tocha, como a estátua da Liberdade. Os dois refletem o sol laranja mergulhando no Mediterrâneo. Estão à beira de um precipício em que um homem, entre mortos, clama por vida. Homenageiam 21 libaneses cristãos e muçulmanos enforcados em 1916, na Praça dos Mártires, em Beirute.

Mas o martírio libanês é feito de muito mais cadáveres. Em 15 anos e 6 meses, até 1990, foram mortos 152 mil maronitas, sunitas, greco-ortodoxos, drusos e xiitas, em batalhas que ainda tiveram a participação extra de palestinos, israelenses e sírios.

Estátuas feridas, o braço da união mutilado, elas são agora uma monumental lição aos libaneses que estão tentando reconstruir o país e a identidade nacional esfacelados: ninguém venceu a guerra.

 Este monumento à união do Líbano, uma vez já sequestrado e escondido, vai sobreviver metralhado e aleijado na nova Praça dos Mártires. Mas em volta, no coração de Beirute, outras ruínas, esqueletos de prédios e ruas serão definitivamente arrasados por tratores numa nova batalha – agora, pela paz.

O projeto prevê uma avenida dez metros mais larga do que a Champs-Elysée, em Paris. Diante do mar se erguerão duas torres de 40 andares inspiradas nas do World Trade Center de Nova York (que ainda existiam). Uma ilha de lixo que emergiu no Mediterrâneo ganhará uma Ponte Vecchio, como em Florença, e se transformará num jardim de 60 mil metros quadrados. A reforma do governo libanês pretende apagar os vestígios da guerra; não restaurar os fragmentos que restaram. “Vamos ressuscitar a Suíça do Oriente Médio”, disse-me o ministro da Habitação, Mahmoud Abou Hamdane. Um provérbio popular o ampara: “Jogue um libanês ao mar, e ele voltará com dois peixes na boca”.

  Os turistas já fazem pose ao pé do casal de bronze na Praça dos Mártires devastada. Estão reaparecendo aos poucos em Beirute tranquilizados por três anos de silêncio dos canhões. O último obus foi disparado em 13 de outubro de 1990, agora também o aniversário do primeiro acordo entre a OLP e Israel. É o turismo de uma tragédia ainda cheirando a pólvora. A guia explica em alemão: “Aqui era a Embaixada dos Estados Unidos, destruída por um suicida com um carro-bomba em 1983”. As câmeras miram a carcaça do prédio em que 67 pessoas morreram. Cozinhas e quartos improvisados pelos novos “diplomatas”, os sem teto da guerra, estão expostos como se abertos a serrote. Crianças brincam entre os escombros já verdejantes de musgo e mato. E em frente, a praia do Mediterrâneo verde-azulado. Voam aviões, e não são mais caças F-16 despejando bombas. “Aqui morreram 300 americanos e franceses das Forças Multinacionais de Paz”, continua a guia. Mais ao sul estão os campos de Sabra e Shatila, onde dois mil palestinos foram massacrados por milícias falangistas em 1982, enquanto cercados por tropas israelenses. Mas neles turistas ainda não entram.

  O termômetro do otimismo durante a guerra era o movimento dos vidraceiros. Se vendiam vidros para janelas, projetavam a esperança de que acabariam os booms supersônicos que estilhaçavam as vidraças. Agora são os cartões de crédito. “Que país os aceitaria à beira de uma guerra?” – desafia Rachid Fayed, diretor da Sociedade Libanesa para o Desenvolvimento e Reconstrução do Centro de Beirute (Solidere). E ele acrescenta com muita certeza: “O mundo está confiando no futuro do Líbano”. Mas é bom ser precavido, como a própria Middle East Airlines (MEA). Sua passagem mostra, com desenhos didáticos, o que os passageiros não devem levar na bagagem: revólveres, espingardas, gases comprimidos ou venenosos, ácidos corrosivos, munição e até material radioativo. Nada mais natural no Líbano. Afinal, numa conferência de paz em Genebra, na Suíça, os delegados libaneses chegaram fortemente armados, e foram barrados nos detectores de metal.

1982: Israel cerca Beirute.

1982: Israel cerca Beirute.

“Crazy beoble”, explica um curioso armênio que faz ponto toda noite no saguão do hotel Cavalier, o substituto para a imprensa do memorável hotel Commodore, destruído no final da guerra. “O povo aqui é louco”, ele comenta para justificar um conselho pessoal: “Se fosse você diria que me chamo Pedro, não Moisés. Pedro é melhor”. No aeroporto de Beirute o guarda da imigração, depois de ler no passaporte, e certificar-se perguntando-me o nome, preferiu não acreditar: “OK, Maurice. Pode passar”. O armênio me propôs logo no primeiro contato: “Você me vende um passaporte brasileiro por US$ 5 mil, e ainda lhe dou outros US$ 5 mil”. Depois, inflacionou o pedido com mais outros cinco passaportes. “Quero dos bons”, avisou, “porque falsos compro ali na esquina por US$200”. Era talvez um agente sírio suspeitando de uma identidade falsa, como concluiu um funcionário da Embaixada do Brasil, veterano no Líbano. Beirute é uma cidade em que todos ainda são suspeitos. Quando o porteiro xiita viu o aperto de mãos com um druso, aconselhou: “Agora, conte os dedos”.

  Olha-se a destruição em volta, e concorda-se: “crazy beople”. Em “A Morte de uma Nação”, a cientista política americana Sandra Mackey lembra uma estatística de um amigo libanês: “50 por cento dos libaneses consideram-se líderes naturais, 25 por cento acham que são profetas, e 10 por cento imaginam-se deuses”. O presidente da Assembleia Nacional, Nabih Berri, explicou uma vez: “Se você nos toma como indivíduos, somos muito civilizados. Mas se você nos toma como um grupo, vai pensar que está de volta à Idade Média”. 

  Cada um dos dois predominantes grupos no Líbano, muçulmanos e cristãos, subdivididos em 16 seitas oficialmente reconhecidas, tentou aniquilar o outro, numa violenta e autodestrutiva competição pela identidade nacional desde a independência da França, em dezembro de 1943. Deveriam viver em harmonia com um presidente cristão maronita, um primeiro-ministro muçulmano sunita, e um xiita como presidente de um Parlamento de maioria cristã, com a proporão de 6 por 5 entre 128 deputados. Era o Pacto Nacional. Mas o balanço de forças sofreu uma reviravolta quando os muçulmanos e drusos tornaram-se 2/3 da população, e os cristãos encolheram para 1/3, em 1970. Os xiitas passaram a ser a maior comunidade do país. Os muçulmanos exigiram reformas. E os cristãos resistiram. Cada grupo se armou e criou sua própria milícia. Num Líbano em pé de guerra palestinos e israelenses começaram a travar um combate extra, pela Palestina.

  A guerra civil libanesa começou em 13 de abril de 1975. O estopim foram os disparos saídos de um carro em alta velocidade contra uma igreja no bairro de Ain Rummane. Com quatro mortos, os cristãos decidiram ir à forra. Horas depois, emboscaram e mataram 27 palestinos dentro de um ônibus. A escolha nada teve de casual. A liderança cristã via a Organização de Libertação da Palestina (OLP), já a maior milícia em Beirute, aliada dos muçulmanos, como a principal ameaça à soberania libanesa. Morteiros e foguetes riscaram o céu numa imediata reação da OLP. Canhões miraram das colinas os campos palestinos. Levantaram-se barricadas nas ruas. Grupos que compunham o exército debandaram para aderir às milícias comunitárias. Bairro contra bairro, duelos pelas janelas dos prédios, sequestros, carros-bombas, kamikazes, franco atiradores, e o Líbano mergulhou em fogo e cinzas. Os sírios tentaram garantir a paz com a força de suas tropas, em 1976, e continuam ainda hoje acampados por todo o país. Israel invadiu o sul libanês atrás da OLP em 1978, cercou Beirute em 1982, quando expulsou o líder Yasser Arafat para Tunis, e retirou-se em 1984, sem criar uma “nova ordem” que ampliaria a paz isolada com o Egito. E continua retendo uma “faixa de segurança” dentro do Líbano, ao longo de sua fronteira.

  “Beije a mão que você não pode morder, e peça a Deus para quebrá-la”, diz outro provérbio libanês. Nenhum dos grupos no conflito do Líbano acabou impondo a sua vontade. O Pacto de Reconciliação Nacional de 1989, assinado em Taif, na Arábia Saudita, manteve um cristão na Presidência e um sunita como primeiro-ministro, estabeleceu a igualdade parlamentar e legitimou a presença militar síria. Mas os combates ainda prosseguiram por mais um ano até a derrota do general cristão Michel Aoun, que desde 1988 travava uma “guerra de liberação” contra a Síria. O diretor da Solidere, Rachid Fayed, gosta de explicar que “os libaneses prolongaram a guerra, ao se adaptarem a ela tão bem no dia-a-dia”. Os fios nas ruas são um impressionante exemplo. Brotam dos postes e se reproduzem como trepadeiras. Formam pencas, se entrelaçam e cruzam Beirute pelo ar. Alguns vendem energia de geradores particulares. São as mini-centrais elétricas particulares. Outros ligam bairros com horários de racionamento opostos. Assim ninguém fica sem luz. O bairro a ser apagado de 4 às 8 horas é iluminado pelo que apagará de 8 às 12 horas, e vice-versa. Ainda há fios de roubo de energia e os de telefone, muitos sem uso.

Carros luxuosos se misturam aos atingidos pela guerra no trânsito caótico de Beirute. Não existe um único farol. Houve um tempo em que se disparava ao alto para atravessar um cruzamento. Não mais. A cidade ganhou guardas de trânsito chiquérrimos, todos com luvas brancas. Levantam a mão, e ela se destaca das ruínas sempre ao fundo, por toda a parte. Talvez por isso a usem: para que os motoristas a vejam. Mas os próprios guardas não sabem ao certo. “Deve ser por elegância”, arriscou um diplomata. Alguns pontos da “linha verde” que antes dividia a cidade ainda estão guardados por tanques estacionados sobre calçadas. Nos bloqueios militares, soldados carregam lançadores de granadas às costas. Posters com os rostos de aiatolá Khomeini, do presidente iraniano Ali Akbar Rafsanjani e do íman Mussa Sadr, líder libanês do Amal (Esperança) que sumiu enquanto viajava para a Itália, em 1978, enfeitam os bairros dominados pelo Hezbollah, o Partido de Deus. As guaritas sírias ostentam a foto de um sorridente presidente Hafez Assad. Para completar, bandeiras pretas tremulam sobre os escombros dos campos de Sabra e Shatila em sinal de luto pelo aperto de mãos entre o “presidente” Yasser Arafat e o primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin. A impressão é a de que uma nova guerra está por explodir. Mas os libaneses vão vivendo e repetindo: “Al hamdallah”, graças a Deus. Os restaurantes de Jouniê lotam todas as noites, as mesas fartas com os variados pratos do mezzeh, e o cheiro adocicado do Arak e do narguilé.

  Deitado numa cadeira da piscina do outrora luxuoso hotel Saint-Georges, hoje um esqueleto vazio, o torrefador de café Maher Haddad queima-se ao sol como uma de suas sementes, enquanto admira as ruínas de Beirute. Bem em frente estão dois outros hotéis destruídos: o charmoso Phoenicia e o americano Holiday In. Linda paisagem, não? “Esta é a imagem de mais de 15 anos de guerra”, ele diz. “Esperamos que tudo seja agora mudado. Se você vive sem esperança, não pode ser feliz”. O futuro de paz no Oriente Médio o perturba só num outro front, o comercial. “Se não corrermos, perderemos o mercado árabe para Israel”. Esta será uma guerra difícil para os israelenses. 

  Os libaneses são imbatíveis nos negócios. Eles têm uma tradição que começa com os fenícios, em 2.800 AC. Então, o principal produto no Líbano era o cedro, hoje o símbolo nacional. Dele extraíam uma tinta púrpura, que simbolizava riqueza e dignidade social, e um óleo e uma resina para a conservação dos mortos. Os faraós do Egito enviavam compradores a Byblos e Tyre. Cada egípcio morto dava um lucro certo. Vocação precoce… Quando o professor perguntou quanto é um mais um, o aluno libanês respondeu: “Você está comprando ou está vendendo?” Sim, os libaneses vendem tudo, e com lucro. Mesmo em guerra, aumentaram de 342.584 para 1.041.216 o número de carros no país. Instalaram mais 200 mil linhas telefônicas, embora só a metade esteja funcionando. (Um minuto de ligação para o Brasil custa US$6, por uma linha especial que não é libanesa, nem cipriota, mas – surpresa! – norte-americana.) A renda média individual caiu de US$1.869, em 1974, para US$1.112, em 1990, e já registrou um crescimento de 15 por cento em 1992. O setor elétrico deu um salto de 260 por cento em 19 anos. O ministro das Finanças, Fouad Siniora, está conseguindo a proeza de reduzir em 8% o déficit público ao mesmo tempo em que aumenta em US$250 milhões o orçamento para 1994. A inflação chegou a 117% contada desde o começo do ano passado pela Confederação Geral dos Trabalhadores do Líbano. E isso num país que teve um estrago de US$ 25 bilhões só em sua infraestrutura de água, esgoto, gás, eletricidade, telefone, ruas e jardins públicos. O dólar, que valeu até 3 mil libras libanesas na guerra, estabilizou agora em 1.700

  Tostando ao sol, Maher Haddad se ufana: “Somos suíços”. Os libaneses estão mais para “a delicadeza do relógio do que para a máquina da guerra”. E ele repete, quase ofendido: “Nunca fomos guerreiros”. Que o desmintam os 67 quilômetros quadrados de destruição ao pé do Monte Líbano, entre os rios do Cão e Damour, os limites da Grande Beirute. As barricadas de areia ainda diante de muitas casas. O casal de bronze furado de balas. E que o confirmem a competição de iates dando a largada na baía de Saint George, os carros luxuosos estacionados diante do Iacht Club, a badalação noturna e o boom da construção. “Temos mais segurança aqui, hoje, do que na Europa”, garante uma funcionária na nova loja da Middle East Airlines, no centro da cidade. Ela só não entende porque os aviões libaneses não podem ainda decolar para os Estados Unidos. E nem porque um visto norte-americano deve ser pedido em Damasco, a hora e meia de carro de Beirute. O presidente Bill Clinton está esperando do Líbano uma prova a mais de confiança: a paz com Israel. A livraria Internationale se beneficia com o terceiro ano de cessar-fogo. Cada dia surge um novo livro explicando o que aconteceu ao país das mil e uma versões.

  O rio Adônis desce vermelho o Monte Líbano, sagrado para fenícios e romanos. Foi nele que Adônis teria morrido nos braços de Vênus. A cor talvez seja a do minério de ferro lavado pela neve derretida. Por 15 anos e meio muitos libaneses fantasiavam que a verdadeira nascente era o Líbano sangrando. Mas os poetas também podem estar certos: o sangue deve ser mesmo o de Adônis, ferido por um javali.

liban

OS BATRÍCIOS

VALE DE BEKAA – Bem-vindo ao Brasil do Oriente Médio. Aqui vivem nossos “batrícios”. Eles são a maioria em várias aldeias incrustadas entre o Monte Líbano e as montanhas Antilíbano, perto da Síria e Israel. Falam “bortuguês”, tomam guaraná, plantam feijão roxinho, improvisam feijoadas com carne de carneiro, torcem apaixonadamente pela Seleção, às vezes captam novelas repassadas por um canal de televisão da Turquia, e importam abacaxis e manga.

  — Ministro, o Líbano está confiando na paz?

  Hamdane – Com o acordo de reconciliação nacional passamos a planejar seriamente a reconstrução. Agora, no governo do primeiro-ministro Rafic Hariri, entraremos na fase de execução. Não digo que estejamos verdadeiramente cem por cento confiantes na paz. Mas os partidos e religiões se uniram no Líbano. É esta união, o reencontro de todos os libaneses, que vai permitir a reconstrução, já partir do ano que vem. Estamos todos trabalhando juntos. Recomeçamos unidos.

  — O Líbano pode pagar a reconstrução?

  Hamdane – Trabalhamos com empréstimos do Banco Mundial, do Banco Islâmico e de vários países árabes. Já temos contratos assinados que ultrapassam US$1 bilhão. Os italianos também prometeram ajudar. Não estamos mais em dívida no Líbano. Retificamos o orçamento para 1994  (cerca de US$2,5 bilhões, ou US$200 milhões a mais que o de 1993).

  — Os jornais de hoje estão publicando que os Estados Unidos condicionaram o envio de ajuda ao Líbano à paz geral no Oriente Médio. Verdade? O Líbano deverá esperar a paz entre Síria e Israel?

  Hamdane – Os Estados Unidos procuram criar um status no mundo árabe, do qual fazemos parte. Em todo o caso, o governo americano não dará dinheiro de graça aos libaneses. Emprestarão. E pedirão que os amigos árabes ajudem o Líbano. Isto com certeza vai acontecer, mas aos poucos. O Líbano e a Síria estão fora da paz com Israel. Esperamos que este e outros problemas logo se resolvam. Aqui no Ministério não trabalhamos com política.

  — Noto um certo otimismo. Engano?

  (A tradutora, antecipando-se: “Sim, o ministro é otimista”.)

  Hamdane – Com a situação econômica do Líbano sou mais ou menos otimista. Mas com a região, incluindo o Líbano, não é ainda seguro dizer que tenhamos alcançado verdadeiramente a paz.

  — Quinze anos para destruir, quantos para reconstruir?

  Hamdane – Dentro de três anos viveremos sob condições razoáveis. Depois, seremos de novo como a Suíça. Esperamos que as condições o permitam. É preciso levar em conta também o papel do Líbano no desenvolvimento do Oriente Médio. Veremos o que lhe caberá. De qualquer modo, em três anos, se trabalharmos seriamente, teremos condições de vida muito aceitáveis.

  — Os libaneses do Brasil podem ajudar?

  Hamdane – A partir de amanhã, se quiserem.

  — Pode-se dizer aos libaneses no Brasil que o Líbano voltou a ser um país seguro, e que eles podem vir visitá-lo sem medo?

  Hamdane – Diga-lhes: não há nenhum problema.

Romeu (palestino), Julieta (israelense): beijo da paz?

Romeu e Julieta, por Frank Dicksee, 1884.

 Duas famílias nobres e inimigas,

em Verona, onde vai passar-se o drama,

renovam lutas por questões antigas

em que o sangue do povo se derrama.

Dessas duas famílias que o ódio afasta

implacável, nasceu um par de amantes

cuja má sorte, trágica e nefasta,

levou a paz às casas litigantes.

Desse ódio de família e seus extremos,

E o infausto amor, que ainda ao morrer, mais forte

do que o ódio, sepultou o ódio na morte,

no palco, em duas horas, trataremos.

Queira o auditório dar-nos atenção

E relevar a nossa imperfeição.” 

(William Shakespeare, prólogo de Romeu e Julieta, tradução de Onestaldo de Pennafort, MEC, 1940. 

  O palestino Romeu toma a israelense Julieta nos braços, e a beija apaixonadamente. Depois se matarão de amor, enquanto fora do teatro, palestinos e israelenses continuam se matando com pedras, bombas e balas.

  Em árabe, ao descobrir que Julieta é da inimiga família Capuleto, espanta-se Romeu: “A uma inimiga devo a minha vida!”

  Em hebraico, ao descobrir que Romeu é da inimiga família Montéquio, espanta-se Julieta: “O meu único amor, nascer de um ódio antigo!/ (…) Que monstruoso amor nasceu em mim:/ Devo odiar a quem amo, amar a quem odeio!” 

  Numa sacada no pomar dos Capuleto, Romeu e Julieta trocam juras de amor em diálogos hebraico-árabe, com legendas projetadas no palco em inglês, francês ou português, dependendo do público.

  Mortos na romântica tragédia de Shakespeare, em Verona, Romeu e Julieta enfim unem as famílias Montéquio e Capuleto, que tanto se odiavam. Mortos no trágico cotidiano palestino-israelense, em Jerusalém, eles renovam uma esperança de paz – “mas sem otimismo”, como contou a promotora internacional da coprodução palestino-israelense de Romeu e Julieta, Paula Karelic, numa entrevista em Tel-Aviv.

  Não falta só o aperto de mão conciliador do final imaginado por Shakespeare há 400 anos. “Falta-nos percorrer um longo caminho até um acordo definitivo entre nossos povos” – antecipou Karelic, que tinha um convite para apresentar Romeu e Julieta do Oriente Médio em São Paulo, em setembro de 1994. Faz 10 anos que os paulistas estão À Espera de Godot, mais para Samuel Beckett do que Shakespeare da Terra Santa.

  No mesmo dia histórico em que o líder da OLP, Yasser Arafat, e o primeiro-ministro de Israel, Yitzhak Rabin, deram-se as mãos nos jardins da Casa Branca, em Washington, o 13 de setembro de 1993, o beijo da paz entre Romeu e Julieta foi acertado entre duas companhias de teatro dos extremos de Jerusalém – a palestina Al-Kasaba e a israelense Kahn.

  De Verona para Jerusalém, os inimigos Capuleto e Montéquio mostrariam que israelenses e palestinos podem conviver numa mesma terra, e em paz. Ou dividir um palco. A OLP deu sua bênção. “Tratados não são apenas um pedaço de papel” – observou Ahmed Tibi, conselheiro de Yasser Arafat, ao jornal The Jerusalem Post: “A paz tem que ser implementada pelos dois povos”. Mesmo abençoado, o Al-Kasaba foi acusado de “precipitação”, e os “colaboracionistas”, ameaçados de morte.

  Os radicais do Hamas se opuseram por razões religiosas. Pressionado pela comunidade judaica, escandalizada com as cenas de amor entre um palestino e uma judia israelense, o Festival de Berlim suspendeu o patrocínio de parte do US$ 1,4 milhão dos custos da produção. Por onde passaram, e passam, Romeu e Julieta do Oriente Médio deixam um rastro de atentados anunciados, nunca ainda acontecidos.

  “Aceitei fazer Romeu e Julieta porque acho que o banho de sangue e o ódio devem ter um fim, e também porque, se nosso destino é vivermos juntos, temos que começar a conhecer uns aos outros” – explicou o diretor artístico do Al-Kasaba, George Ibrahim, que no palco representa o velho Montéquio, quando entrevistado na época da estreia num antigo galpão da Companhia Elétrica de Jerusalém, em 16 de junho de 1994.

   “A única alternativa para a paz é a morte” – foi o que também declarou o diretor artístico do Khan, Eran Baniel, que perseguiu por cinco anos, como a uma miragem no deserto bíblico, a ideia da montagem binacional de Romeu e Julieta. Marcaram os ensaios grandes atentados. Os atores se encontraram mesmo sob o impacto do massacre de 29 árabes em Hebron por um lunático judeu norte-americano, ou das explosões sangrentas em Afula e Hadera que mataram 13 israelenses, ou dos frequentes toques de recolher e da tensão beirando a conflagração de uma guerra geral. Às vezes, nem ensaiavam. Apenas conversavam até diluir as barreiras que cresciam isolando mais ainda os Montéquios e Capuletos médio orientais.

  George Ibrahim só foi adiante amparado pela própria mensagem da tragédia de Romeu e Julieta, que ele diz ser “contra o ódio sem sentido”. Então, convenceu-se: “É nosso dever prosseguir”. Os palestinos Montéquios não recorreram a recursos óbvios de identificação, como o tradicional kefiah, o turbante enrolado na cabeça. Já são naturalmente diferentes dos Capuletos. O diretor Fuad Awad, que nasceu em Nazaré, na Galileia, e estudou teatro na Universidade de Tel-Aviv, aproveitou Shakespeare para estabelecer uma ponte entre os atores árabes que são cidadãos israelenses e os palestinos da Cisjordânia e Gaza. “Formamos um mesmo povo”, contou ao jornal Le Monde, e o explicou: “Quando sou detido por horas numa barreira militar, e às vezes revistado sem saber por que, me pergunto se o teatro é capaz de criar uma nova situação. Este é o sentido da minha pesquisa sobre a identidade palestina”. A crítica também se despiu do simbolismo evidente para aplaudir o espetáculo enquanto arte.

Francesco Hayez, óleo sobre tela, 1823.

Francesco Hayez, óleo sobre tela, 1823.

Apesar de todas as aspirações políticas desta produção, o impacto maior é provocado pelo trabalho artístico”, como aplaudiu o Post de Israel,  mesmo lembrando que uma dupla direção pode criar um “pacote misto, e uma representação desigual”. O telefone da Julieta israelense, a atriz Orna Katz, 26 anos, tocou muito depois da estreia em Jerusalém. Beijar Romeu palestino, o ator Khalifa Natur, 29 anos, causou um assombro internacional.

  “Uma grande ideia”, disse Julieta. “Os palestinos estão envolvidos na cultura israelense por causa da ocupação. E nós não estamos na deles. Assim há uma troca. Todos aprendemos”.

  Ao tomar Julieta nos braços, Romeu lhe pede: “Ficai imóvel, pois, minha santa querida/ Enquanto eu colho a graça concedida”. E a beija. “Vossos lábios dos meus o pecado apagaram”, ele se maravilha. E responde Julieta: “Mas com o vosso pecado os meus ficaram!” Claro que com a deixa Romeu aproveita para beijá-la pela segunda vez: “Ficaram com o pecado? Oh! doce usurpação! Restituí-me o meu pecado então!”

 Beijos da paz, depois de encontros secretos entre palestinos e israelenses em Oslo, uma conferência em Madri, um aperto de mãos histórico nos jardins da Casa Branca, e muito, muito sangue derramado.

Lembranças da União Soviética

Marx, Engels, Lenin, Stalin.

Marx, Engels, Lenin, Stalin.

Ia sequestrar um avião na antiga União Soviética, em 1970; foi preso antes e condenado à morte por “alta traição”; a sentença caiu para 15 anos de prisão ante protestos mundiais;  trocado por dois espiões da KGB presos nos EUA, o dissidente Edward Kuznetsov voou para Israel. Aí o entrevistei.

Kuznetsov

Kuznetsov

 Эдуард Кузнецов

Os rebeldes prisioneiros políticos soviéticos gravam numa das mãos o seu protesto ao risco de mais oito a 15 anos extras de prisão. Por sua tatuagem, um pequeno círculo azul, reconheci Edward Kuznetsov num lotado restaurante de Tel-Aviv: ex-condenado à morte, frágil, magro, doente e careca, ele estava mudado, dois anos depois de sua inesperada libertação, obtida pelos Estados Unidos em troca de dois espiões da KGB.

Estado: – Você está quase irreconhecível!
Kuznetsov: – Pois é, fui “conservado” durante 16 anos…
Estado: – E como anda se sentindo, tirado da “conserva”?
Kuznetsov: – Cada noite eu escapo da prisão. As pessoas que encontro durante o dia comumente reaparecem nos meus pesadelos. Talvez eu o veja, de madrugada… Serei assim, até morrer.
Estado: – E seu tratamento hipnótico não o ajuda?
Kuznetsov: – Sim, mas minhas experiências foram muito traumatizantes. Ainda repercutem.
Estado: – Mas você parece estar ótimo, fisicamente…
Kuznetsov: – Nem tanto. Tenho alguns sérios problemas com meu  estômag. Isto é normal: 90% dos prisioneiros soviéticos são assim.

Estado: – Por quê?

Kuznetsov: – A primeira palavra no vocabulário dos “prisioneiros de ideias” da União Soviética é “pão”. A fome é a mais letal de todas as armas, se usada com método e eficiência. Seu efeito, horrível. Durante a segunda guerra mundial, os prisioneiros dos campos de concentração nazistas recebiam 2.500 calorias por dia. Na Rússia de hoje, um prisioneiro de campo de trabalhos forçados recebe, por lei, somente 2.050. No final, a quantia é muito menor.
Edward Kuznetsov, 42 anos (em 1981, quando nos encontramos), não quis almoçar. Pediu café com leite, que bebia devagar, um gole a cada novo cigarro Kent. Seu primeiro “sintoma” de revolta contra o regime soviético ocorreu-lhe aos 12 anos: “aconteceu-me de pensar alto e diferente dos outros alunos, na escola. Castigaram-me. Desde então fui confrontado a duas possibilidades: a de me tornar um leal delator, ou a de me envolver, até o fim, na oposição”.
Aos 17 anos, em 1956, durante a rebelião Húngara, Edward Kuznetsov passou a criticar abertamente a União Soviética. No seu primeiro encontro com a KGB, um oficial lhe perguntou: “Você não sabe que o nosso país está rodeado de inimigos?” Depois, ameaçou: “Se você não se contiver, acabará na prisão”.
Ao entrar para a universidade, Kuznetsov foi logo convocado para o exército. Puseram-no na “primeira divisão”, o departamento de espionagem, encarregado de ler as cartas enviadas aos soldados na Ucrânia. Recusou a missão. Então, foi transferido para uma área remota, que cuidava de pavimentação de estradas.
De volta ao curso de Filosofia, na universidade, formou um pequeno grupo que comparava a teoria marxista-leninista com a sua realização na vida prática, “encontrando pouca semelhança”. E daí surgiram inúmeros adeptos. E isto já era um movimento”.
Kuznetsov começou a ser constantemente vigiado, chamado para interrogatórios, ou detido: “A perseguição se tornou parte inseparável da minha vida, típica a qualquer um que não estivesse OK com o regime”. Aos sábados e domingos ele ia à praça Mayakovsky organizar manifestações que consistiam de leitura de poemas. “No dia 15 de outubro de 1961, a KGB veio ao meu apartamento e me levou para o presídio de Lubyanka. Eu não seria solto senão em 1968”. Mas por pouco tempo.
Estado: – Aonde você estava?
Kuznetsov: – Estados Unidos e Canadá, fazendo conferências sobre a União Soviética, movimentos dissidentes, movimentos internacionais de direitos humanos, a questão judaica. Falava de diferentes coisas.
Estado: – Nestes últimos dois anos, você falou e escreveu muito, encantado por estar livre. Lembro-me que comparou a liberdade ao ar: “o homem só se torna verdadeiramente consciente de quanto ele é indispensável, perdendo-o por alguns instantes”. Ou, ainda, que “liberdade é a consciência de que existem direitos humanos, de que se está protegido do abuso e da violência”.
Kuznetsov: – Estou criando um movimento, aqui em Israel, para lidar com problemas de imigração e integração de imigrantes. É a isto que me dedico, principalmente.
Estado: – Um partido de imigrantes?
Kuznetsov: – Mais ou menos… Estes problemas não são levados ao Parlamento. Então, sinto que tenho algo a fazer. Não pretendo tornar-me um político profissional, mas, apenas, evitar uma futura catástrofe.
Estado: – Quantos vocês já são?
Kuznetsov: – Uns 200 mil, contando somente os que imigraram da União Soviética. A maioria, consultada, dispôs-se a formar uma lista independente.
Estado: “Deputado Kuznetsov!” Com 200 mil, vocês poderão eleger mais de um representante no Knesset (o parlamento israelense)
Kuznetsov: – Sim, pelo menos uns três.
Estado: – E você será um deles?
Kuznetsov: – Não sei ainda. No momento final, vamos decidir. Talvez, se ninguém se dispuser, aí, então, eu vou. Mas, por princípio, não quero. Sou um franco-atirador, e quero continuar assim, livre, sem compromissos de estar todos os dias num escritório. Liberdade: você sabe o quanto isto é importante para mim.
Estado: – Você pensa em se filiar a algum partido? Aqui, em Israel, existe o partido comunista, o Rakah.
Kuznetsov, depois de uma gargalhada: Não, não. É impossível encontrar comunistas mesmo na Rússia. Eles estão no Ocidente. Você não acredita? Olha, em 1970 houve a festa do centenário de Lenine. Houve muito barulho por isso, em Moscou. Lançou-se um luxuoso livro oficial, reunindo declarações atribuídas a ele, mas muitas delas, porém, por um grande engano, eram de um dos seus mais famosos inimigos. Ninguém lê Lenine, a não ser nos Estados Unidos. Foi um grande escândalo. Toda a edição do livro foi destruída. A maioria dos imigrantes russos é radicalmente anticomunista. Aqui, nosso movimento tem recebido certa ajuda do “Rafi” (o partido criado pelo fundador de Israel, David Ben Gurion, ao afastar-se dos trabalhistas). Estamos juntos com ele para as eleições na Histadruth (a central sindical israelense). Queremos conquistar alguns cargos. Depois, veremos: ou nos juntamos de novo ao “Rafi”, ou concorremos independentes por algumas cadeiras no Parlamento. Já temos dinheiro, estamos unificados e fortes: resta-nos decidir qual a direção final.
Estado: E fora a campanha politica?
Kuznetsov: Eu trabalho como um louco pelos meus amigos que ainda estão na prisão. Você sabe: 12 de nós fomos sentenciados no “processo de Leningrado”. E três continuam presos. Eles não são judeus. Assim, estão numa verdadeira perigosa situação. Por quê? Por que ao libertarem Mendelevich, há pouco tempo, o último judeu envolvido na tentativa de sequestro de um avião, criaram a situação propícia para este tipo de propaganda: “vejam o que dá estar com os judeus”. Eles serão punidos exemplarmente. E o antissemitismo crescerá.

Bandeira União Soviética

Deixando a prisão, em 1968, Edward Kuznetsov começou a trabalhar como motorista de caminhão. “Meu pai era judeu, mais minha mãe, não. E como ele morreu quando eu tinha dois anos, eu nada aprendi da religião e cultura judaicas. Fui aprender nos campos de trabalhos forçados por onde passei”. O que o atraiu ao judaísmo, porém, foi a sua decepção com os movimentos de liberação. “Cheguei à conclusão de que a Rússia é um país destinado pela história a viver sob regimes totalitários, desde Ivan, o terrível, a Brejnev. Democracia e Rússia não combinam. Não há forças capazes de democratizar a União Soviética. Opositores intelectuais nada podem alterar. O sionismo me pareceu a única solução para escapar. Como judeu, seria um afortunado: teria esperanças de chegar um dia a Israel”. A abertura das fronteiras, para os judeus, significaria alguma chance de liberdade também para os outros.

Estado: – Você já se tornou judeu?
Kuznetsov: – Sempre fui, desde que nasci…
Estado: – Acho que você não entendeu a pergunta (pela lei judaica, judeu é todo aquele nascido de mãe judia).
Kuznetsov: – Sim, eu sei, desculpe.
Estado: – Você iniciou um processo de conversão, ao chegar a Israel… e para que, então?
Kuznetsov: – Comecei minha atividade na Rússia como democrata. Só quando estive no campo de trabalhos forçados, de 61 a 68, é que decidi que minha posição deveria ser judaica. A maioria dos judeus soviéticos começa a entender que são judeus não por um impulso interior, mas por causa dos vizinhos, que lhes gritam: “morte aos judeus”. O judaísmo se alimenta da hostilidade. Por isso, os judeus que escapam da União Soviética vão, na verdade, para os Estados Unidos, ao desembarcarem no aeroporto de Viena. Sua segunda fuga é do judaísmo.
Edward Kuznetsov conseguiu um emprego de estatístico no hospital psiquiátrico de Riga, Látvia. E aí liderou um grupo que se propunha a sequestrar um avião para Finlândia, mas que acabou preso antes do embarque, no aeroporto.
Estado: – Como a KGB os descobriu antes?
Kuznetsov: – Na Rússia é quase impossível fazer qualquer coisa secreta. Todos somos vigiados. E nosso grupo contava com 16 pessoas, o que é muito. Se o objetivo for o de escapar, será preciso agir só, ou com uma outra pessoa, no máximo. Mais: eu, o Yuri Fioderov e o Alexei Murzhenko éramos, já nesta época, bastante controlados pela KGB, como ex-prisioneiros políticos.
Estado: – Sabiam, então, que seriam presos?
Kuznetsov: – Exatamente. Víamos os agentes nos seguindo o tempo todo. A nossa preocupação não era a de fugir da União Soviética, que o considerávamos impossível, mas a de promover uma ação escandalosa que denunciasse o problema de imigração na União Soviética. Greve de fome? Não, tinha que ser algo bem maior. E eu, pelo menos, estava consciente de que voltaria para a prisão, sem alcançar o Ocidente.
Estado: – Vocês conseguiram até um piloto, Mark Dymshitz.
Kuznetsov: – Sim, tínhamos preparado tudo. Mas eu adverti o grupo: acabaremos presos só porque nos reunimos. Então, que nos prendam no aeroporto e não em nossas casas. Apenas seis atingimos o aeroporto. Ninguém soube dos outros, também presos, mas de nós, sim. A KGB nos expôs como bandidos. Assim entramos no jogo da détente.
Estado: – Para onde vocês foram levados?
Kuznetsov: Para a central da KGB, em Leningrado. Ali permanecemos incomunicáveis durante seis meses, submetidos a interrogatórios diários. A acusação? Traição, agitação antissoviética, propaganda e uso indevido de grande propriedade pública — ou seja, o avião.
Estado: – Condenaram-no à morte. Por que não executaram a sentença?
Kuznetsov: – Uma situação muito estranha. (O ex-presidente) Nixon chamou Brejnev pelo telefone direto. Depois dele, 17 países ocidentais iniciaram uma grande campanha pela nossa libertação. Até Franco, por causa de três bascos sentenciados à morte, interveio. E a soma de tudo isso, desses importantes apelos, nos ajudou. Eu fui condenado à morte por sete dias. Minha pena foi comutada para 15 anos em campos de trabalhos forçados.
Depois do “Processo de Leningrado”, para ele “uma comédia”, Edward Kuznetsov foi levado para Mordóvia, a 500 quilômetros de Moscou, entre tártaros e bashkirs, e posto numa cela de 3×5 metros, junto a outros 15 prisioneiros. Por muitas vezes o confinaram em solitárias, punindo-o por greves de fome, ou por “atividades antissoviéticas”. Preso, escreveu seu primeiro livro, “Diário de um Condenado à Morte”, enviado para o Ocidente em pequenas folhas de papel higiênico, ou nos maços de cigarro que podia receber.
Estado: – Como você conseguiu contrabandear os originais do seu livro?
Kuznetsov: – Talvez eu registre uma patente, e só então o revele. Mas é claro que não o farei: há outros usando o mesmo sistema. A KGB nunca pensou que fosse possível escrever livros e enviá-los para fora do país. Por isso, sempre declaram que “o texto é da CIA”. Todos os dias me revistavam, sem esquecer nenhum dos orifícios do corpo. Depois, repetiam: “é impossível”. Mas eu fiz. E até alcancei, por isso, um status especial. Eu lhes dizia francamente: continuarei escrevendo, aconteça o que acontecer. Mas se vocês me revistarem com mais brutalidade, escreverei o dobro. Eles sabiam que cumpriria a ameaça. Nos últimos três anos deixaram-me vivendo mais facilmente. O meu segundo livro apareceu em Israel, há pouco tempo. E já comecei o terceiro.
Estado: – O que representou o Processo de Leningrado para o movimento de imigração na União Soviética?
Kuznetsov: – De 1948 ate 1970, antes do nosso julgamento, apenas sete mil pessoas tinham deixado a Rússia. Depois, 300 mil. A KGB nos odeia por isso. Um coronel me disse, abertamente, em 1973: “Se soubéssemos que acabaria assim, teríamos lhe dado permissão para imigrar”.
Estado: – Você se refere ao fracassado sequestro?
Kuznetsov: – Sim, sim. Eles podiam conhecer os planos, mas não imaginavam suas consequências. Cometeram dois erros: um, minimizando a reação dos judeus nos Estados Unidos, e outro, concluindo que a nossa prisão aterrorizaria os judeus da Rússia. No entanto, ocorreu o contrário.
Estado: – Você disse, há pouco, que “entramos no jogo da detende”, ao serem presos. Como?
Kuznetsov: – Tornamo-nos um tipo de moeda. Basta olhar as estatísticas. (em 1971, 13 mil judeus deixaram a União Soviética. Com a assinatura dos acordos Salt (Strategic Arms Limitation Talks – Acordo de Limitação de Armamentos Estratégicos, em 1972), este número cresceu para 32 mil, depois para 35 mil, em 1973. Aí veio a emenda Jackson-Vanik, proibindo o comércio com a União Soviética a menos que os judeus pudessem imigrar livremente. O fluxo declinou para 21 mil em 1974, 13 mil em 1975, 14 mil em 1976 e 17 mil em 1977. Com os progressos do Salt II, a imigração atingiu 29 mil em 1978, chegando ao recorde de 51 mil em 1979). Coincidência?
Estado: – Então, o Processo de Leningrado foi uma bênção para os judeus. Mas apenas para eles?
Kuznetsov: – Não. Depois, 15 mil alemães receberam vistos de saída. Êxodo secreto, sem escândalo. Nos últimos cinco meses deixaram a União Soviética mais armênios do que judeus. Também silenciosamente. É muito conveniente às autoridades russas expor apenas o problema da imigração judaica, supostamente apolítica, nacionalista.
Estado: – Você disse, numa entrevista, que os prisioneiros políticos soviéticos têm uma crença: a de que “o Kremlin nos prende, mas o ocidente nos libera”. Como você acha que isto pode ser feito?
Kuznetsov: – Não é uma simples questão e não há uma simples resposta. A ajuda do Ocidente não é apenas muito valiosa, mas única. Não existe outra esperança. Seria melhor se ela fosse mais forte. Se você analisa o comportamento das autoridades soviéticas, verá que apreciam as atitudes de força. A Rússia respeita apenas quem se mostra durão.
Estado: – Então o presidente Reagan veio a calhar?
Kuznetsov: – Já o percebemos pelas reações de Moscou. Pedem a ele um encontro, mas ele não está nada apressado. A posição de força, isoladamente, não se constitui um ideal, para mim. Acredito em compromissos. No contexto soviético, no entanto, pode se tornar a única linguagem compreensível. Depois da administração Carter, fraca, chegou o tempo de se tratar duramente a União Soviética.
Estado: – O que ocorrerá com a Polônia?
Kuznetsov: – Entenda: não há limites morais para a Rússia. O que conta, agora, para o Kremlin, é a reação do Ocidente. São absolutamente pragmáticos. Se imaginam uma reação violenta, talvez hesitem. Os soviéticos não baseiam sua política no vácuo. Estou seguro de que os russos invadirão a Polônia. O mundo reagirá durante dois meses, e pronto.
Estado: – Você está desiludido com o Ocidente?
Kuznetsov: – Antes um pouco de ser solto, um oficial da KGB me disse: “fique quieto o máximo possível, lembrando-se que algumas vezes os inimigos da União Soviética morrem lá fora”. Mas está é uma outra história. Na verdade, eu não tinha nenhuma ilusão sobre o mundo em geral, e sobre Israel, em particular. Aqui, neste país, eu encontrei o que eu esperava. Afinal, o que se pode esperar de tantos judeus reunidos num só pais?
Estado: – Como israelense, agora, qual a sua posição sobre problema palestino?
Kuznetsov: – Ah-ah… Ok: eu penso que é muito complicado, mas não tão difícil de resolver como o problema telefônico, em Israel. Quem sabe a solução encontrada por outros povos sirva também para nós? Durante a guerra com o Japão, todos os japoneses que viviam nos Estados Unidos foram postos em campos de concentração. Quem acredita nisso hoje? O Québec francês, no Canadá, quer separar-se. Isto não representa perigo algum para a segurança, por lá. Os bascos não são uma questão de segurança para a Espanha. Por que, aqui, todo mundo se mete?
Estado: – Esta é uma região muito delicada.
Kuznetsov: – Ah, ninguém gostará mais de Israel se dermos possibilidade aos palestinos de iniciarem uma guerra contra nós, num estado vizinho, satélite da Rússia. Devemos ser justos com os nossos maiores inimigos. Estou certo de que o problema seria menor se a União Soviética não estivesse tão implicada… Para ela, melhor mesmo é esta situação sem paz. Só na instabilidade é que poderá ampliar a sua influência aqui, no Oriente Médio.
Estado: – Você visitaria a União Soviética, se convidado?
Kuznetsov: – Não usaria esta possibilidade. Talvez me prendessem de novo. Difícil saber: minha situação jurídica está complicada porque porque minha pena não foi comutada. Deprivaram-me da nacionalidade russa, e foi tudo.
Estado: – Como você soube que seria solto?
Kuznetsov: – No avião, antes de voar para Nova Iorque. Soube que não iria para a China porque, antes da decolagem, dois emissários da embaixada americana em Moscou vieram explicara tudo. Mesmo assim, temi: “talvez eles não sejam americanos, mas agentes da KGB”. Só nos Estados Unidos é que soube ter sido trocado por dois espiões soviéticos condenados a 50 anos de prisão. E mais recentemente, em Madrid, deram-me mais um detalhe: alguns computadores entraram também no negócio.
Com Edward Kuznetsov foram libertados também Mark Dymshitz (que seria o piloto do sequestro); Valentyn Moroz, símbolo da resistência Ucraniana; Georgi Vins, líder batista; e o escritor Alexander Ginzburg que, durante seu julgamento, ao lhe perguntarem qual era sua naturalidade, respondeu simplesmente: “prisioneiro”. Encontraram-se no aeroporto Sheremetyevo, de Moscou, para o voo da liberdade, o de número 315 da Aeroflot.
Estado: – Além de careca, sua roupa chamava a atenção.
Kuznetsov: – Era um terno de inverno polonês, camisa checa, sapatos búlgaros. Em pleno verão. Foi mais um engano da KGB…
Estado: – E o que você fez com esta roupa?
Kuznetsov: – Guardei. Usei-a num filme feito em Israel… e vou usá-la ainda mais, pois recebi convites para outros filmes, um americano e outro, alemão.
Estado: – Seus amigos de prisão souberam que você foi libertado?
Kuznetsov: – Oficialmente, até hoje, ninguém sabe na Rússia. Os jornais de lá não deram uma linha sequer. Mas as rádios estrangeiras, sim. Agora, está difícil capta-las, por causa da situação polonesa. Conta-se que um agente da KGB perguntou a suspeito:
– Você ouviu as rádios estrangeiras hoje?
– Sim – ele respondeu.
– E você contou a seus amigos o que ouviu?
– Sim.
– E o que foi que você contou?
– zzzzzzzzzzzzzzz
Estado: – O que você vai fazer agora?
Kuznetsov: – Vou ate Nazaré falar a 600 russos em nome do nosso movimento. Antes, passarei um filme sobre o Processo de Leningrado, com Geraldine Chaplin. Depois, vou me reunir a Sylva, minha mulher, e a minha filha.