Romeu (palestino), Julieta (israelense): beijo da paz?

Romeu e Julieta, por Frank Dicksee, 1884.

 Duas famílias nobres e inimigas,

em Verona, onde vai passar-se o drama,

renovam lutas por questões antigas

em que o sangue do povo se derrama.

Dessas duas famílias que o ódio afasta

implacável, nasceu um par de amantes

cuja má sorte, trágica e nefasta,

levou a paz às casas litigantes.

Desse ódio de família e seus extremos,

E o infausto amor, que ainda ao morrer, mais forte

do que o ódio, sepultou o ódio na morte,

no palco, em duas horas, trataremos.

Queira o auditório dar-nos atenção

E relevar a nossa imperfeição.” 

(William Shakespeare, prólogo de Romeu e Julieta, tradução de Onestaldo de Pennafort, MEC, 1940. 

  O palestino Romeu toma a israelense Julieta nos braços, e a beija apaixonadamente. Depois se matarão de amor, enquanto fora do teatro, palestinos e israelenses continuam se matando com pedras, bombas e balas.

  Em árabe, ao descobrir que Julieta é da inimiga família Capuleto, espanta-se Romeu: “A uma inimiga devo a minha vida!”

  Em hebraico, ao descobrir que Romeu é da inimiga família Montéquio, espanta-se Julieta: “O meu único amor, nascer de um ódio antigo!/ (…) Que monstruoso amor nasceu em mim:/ Devo odiar a quem amo, amar a quem odeio!” 

  Numa sacada no pomar dos Capuleto, Romeu e Julieta trocam juras de amor em diálogos hebraico-árabe, com legendas projetadas no palco em inglês, francês ou português, dependendo do público.

  Mortos na romântica tragédia de Shakespeare, em Verona, Romeu e Julieta enfim unem as famílias Montéquio e Capuleto, que tanto se odiavam. Mortos no trágico cotidiano palestino-israelense, em Jerusalém, eles renovam uma esperança de paz – “mas sem otimismo”, como contou a promotora internacional da coprodução palestino-israelense de Romeu e Julieta, Paula Karelic, numa entrevista em Tel-Aviv.

  Não falta só o aperto de mão conciliador do final imaginado por Shakespeare há 400 anos. “Falta-nos percorrer um longo caminho até um acordo definitivo entre nossos povos” – antecipou Karelic, que tinha um convite para apresentar Romeu e Julieta do Oriente Médio em São Paulo, em setembro de 1994. Faz 10 anos que os paulistas estão À Espera de Godot, mais para Samuel Beckett do que Shakespeare da Terra Santa.

  No mesmo dia histórico em que o líder da OLP, Yasser Arafat, e o primeiro-ministro de Israel, Yitzhak Rabin, deram-se as mãos nos jardins da Casa Branca, em Washington, o 13 de setembro de 1993, o beijo da paz entre Romeu e Julieta foi acertado entre duas companhias de teatro dos extremos de Jerusalém – a palestina Al-Kasaba e a israelense Kahn.

  De Verona para Jerusalém, os inimigos Capuleto e Montéquio mostrariam que israelenses e palestinos podem conviver numa mesma terra, e em paz. Ou dividir um palco. A OLP deu sua bênção. “Tratados não são apenas um pedaço de papel” – observou Ahmed Tibi, conselheiro de Yasser Arafat, ao jornal The Jerusalem Post: “A paz tem que ser implementada pelos dois povos”. Mesmo abençoado, o Al-Kasaba foi acusado de “precipitação”, e os “colaboracionistas”, ameaçados de morte.

  Os radicais do Hamas se opuseram por razões religiosas. Pressionado pela comunidade judaica, escandalizada com as cenas de amor entre um palestino e uma judia israelense, o Festival de Berlim suspendeu o patrocínio de parte do US$ 1,4 milhão dos custos da produção. Por onde passaram, e passam, Romeu e Julieta do Oriente Médio deixam um rastro de atentados anunciados, nunca ainda acontecidos.

  “Aceitei fazer Romeu e Julieta porque acho que o banho de sangue e o ódio devem ter um fim, e também porque, se nosso destino é vivermos juntos, temos que começar a conhecer uns aos outros” – explicou o diretor artístico do Al-Kasaba, George Ibrahim, que no palco representa o velho Montéquio, quando entrevistado na época da estreia num antigo galpão da Companhia Elétrica de Jerusalém, em 16 de junho de 1994.

   “A única alternativa para a paz é a morte” – foi o que também declarou o diretor artístico do Khan, Eran Baniel, que perseguiu por cinco anos, como a uma miragem no deserto bíblico, a ideia da montagem binacional de Romeu e Julieta. Marcaram os ensaios grandes atentados. Os atores se encontraram mesmo sob o impacto do massacre de 29 árabes em Hebron por um lunático judeu norte-americano, ou das explosões sangrentas em Afula e Hadera que mataram 13 israelenses, ou dos frequentes toques de recolher e da tensão beirando a conflagração de uma guerra geral. Às vezes, nem ensaiavam. Apenas conversavam até diluir as barreiras que cresciam isolando mais ainda os Montéquios e Capuletos médio orientais.

  George Ibrahim só foi adiante amparado pela própria mensagem da tragédia de Romeu e Julieta, que ele diz ser “contra o ódio sem sentido”. Então, convenceu-se: “É nosso dever prosseguir”. Os palestinos Montéquios não recorreram a recursos óbvios de identificação, como o tradicional kefiah, o turbante enrolado na cabeça. Já são naturalmente diferentes dos Capuletos. O diretor Fuad Awad, que nasceu em Nazaré, na Galileia, e estudou teatro na Universidade de Tel-Aviv, aproveitou Shakespeare para estabelecer uma ponte entre os atores árabes que são cidadãos israelenses e os palestinos da Cisjordânia e Gaza. “Formamos um mesmo povo”, contou ao jornal Le Monde, e o explicou: “Quando sou detido por horas numa barreira militar, e às vezes revistado sem saber por que, me pergunto se o teatro é capaz de criar uma nova situação. Este é o sentido da minha pesquisa sobre a identidade palestina”. A crítica também se despiu do simbolismo evidente para aplaudir o espetáculo enquanto arte.

Francesco Hayez, óleo sobre tela, 1823.

Francesco Hayez, óleo sobre tela, 1823.

Apesar de todas as aspirações políticas desta produção, o impacto maior é provocado pelo trabalho artístico”, como aplaudiu o Post de Israel,  mesmo lembrando que uma dupla direção pode criar um “pacote misto, e uma representação desigual”. O telefone da Julieta israelense, a atriz Orna Katz, 26 anos, tocou muito depois da estreia em Jerusalém. Beijar Romeu palestino, o ator Khalifa Natur, 29 anos, causou um assombro internacional.

  “Uma grande ideia”, disse Julieta. “Os palestinos estão envolvidos na cultura israelense por causa da ocupação. E nós não estamos na deles. Assim há uma troca. Todos aprendemos”.

  Ao tomar Julieta nos braços, Romeu lhe pede: “Ficai imóvel, pois, minha santa querida/ Enquanto eu colho a graça concedida”. E a beija. “Vossos lábios dos meus o pecado apagaram”, ele se maravilha. E responde Julieta: “Mas com o vosso pecado os meus ficaram!” Claro que com a deixa Romeu aproveita para beijá-la pela segunda vez: “Ficaram com o pecado? Oh! doce usurpação! Restituí-me o meu pecado então!”

 Beijos da paz, depois de encontros secretos entre palestinos e israelenses em Oslo, uma conferência em Madri, um aperto de mãos histórico nos jardins da Casa Branca, e muito, muito sangue derramado.

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