As mortes de Rabin e da paz

Rabin (seta à esq.) e seu assassino com o clarão de um dos dois disparos.

Rabin (seta à esq.) e seu assassino com o clarão de um dos dois disparos.

O governo israelense acreditava ter encontrado o caminho para a paz com o seu primeiro primeiro-ministro nascido em Israel, Yitzhak Rabin. E a liderança palestina, sob o comando de Yasser Arafat, comungava a mesma esperança. Havia negociações abertas desde os acordos de Oslo, vontade política real de superar quaisquer obstáculos, e de ir em frente. Estados Unidos, Europa e ONU apoiavam os esforços de ambos os lados.

As dissidências israelenses e palestinas protestavam e atiravam bombas e pedras para impedir o avanço nas negociações. Contra essa ruidosa oposição, os movimentos pró-paz marcaram uma manifestação para demonstrar sua força majoritária: sábado à noite, ao final do shabath de 4 de novembro de 1995, na Praça dos Reis de Israel, em Tel-Aviv.

O premiê Ytzhak Rabin, Nobel da Paz em 1994, pensou em não comparecer. Temia um embaraço político se tivesse que enfrentar uma praça vazia. Acabou indo. E se viu diante de uma multidão impressionante calculada em 100 mil pessoas, muito para um país pequeno como Israel. Tanta gente, os serviços de segurança entraram em prontidão contra atentado palestino, especialmente algum homem-bomba em meio a tanta gente.

“Permitam-me dizer, estou emocionado” – falou Rabin, 73 anos, dirigindo-se à praça totalmente tomada. “Gostaria de agradecer um a um por ter vindo aqui se posicionar contra a violência e pela paz”. Continuou, à la John Lennon: “Este governo decidiu dar uma chance à paz — paz que poderá resolver grande parte dos problemas de Israel”.

AssassinatoEntão, Rabin lembrou que, por 27 anos nas Forças de Defesa de Israel, “lutei enquanto não havia prospectos para a paz”. Agora, pela primeira vez, ele via “grandes prospectos”. Ainda comentou que “a violência está minando os verdadeiros fundamentos da democracia israelense; temos que condená-la, denunciá-la e isolá-la. Este não é o nosso caminho”.

Filho de um religioso iemenita, o estudante de Direito Yigal Amir surpreendeu-se ao encontrar o premiê Rabin num casamento, tão desprotegido, ao alcance de… um assassino. Prometeu-se que não deixaria passar outra oportunidade igual.

Amir armou-se. Não escondeu dos amigos que queria matar Rabin, que acusava de entregar aos árabes a Terra Prometida que ele próprio, quando general, ajudou a conquistar na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Serviços secretos que o monitoravam produziram alguns poucos parágrafos com observações, esquecidas numa pasta arquivada. E o mais grave: alguns rabinos proclamavam que seria aceitável, por uma interpretação talmúdica, eliminar Rabin, sob a acusação de que ele estava “traindo o povo judeu”.

Ao fim da apoteose com a Canção da Paz, puxada por Rabin com o coro da praça dos Reis de Israel, Amir já circulava despercebido entre os seguranças e autoridades no cortejo que foi a pé até onde estavam estacionados os carros das autoridades, abaixo do palanque armado diante da Prefeitura de Tel-Aviv, no mesmo nível da avenida Ibn Gvrol. Aproximou-se. Esticou o braço. Quase não se ouviram os disparos. Dois tiros, nas costas, à queima-roupa. Foi há 20 anos. Desde então, Israel perdeu-se no caminho da paz.

Aloni e Rabin cantando a pazenterro

Rabin cantando a paz; depois, ele e ela enterrados.

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Amir, o assassino confesso, sorridente.

PRAÇA YITZHAK RABIN, TEL-AVIV – Ao se reunirem de novo os israelenses, uma semana depois, o primeiro-ministro que ouviram cantar a Canção da Paz é agora o nome desta ex-praça Reis de Israel, o estacionamento devassado em que ele foi assassinado está impenetrável coalhado de soldados e policiais, atiradores de elite postam-se no alto dos prédios, helicópteros militares pairam no ar, o primeiro-ministro interino Shimon Peres fica a distância cercado de guarda-costas, e a viúva Leah Rabin lhes diz: “Agora a maioria silenciosa não permanecerá mais em silêncio”.

Um dos 100 a 150 mil israelenses na praça Yitzhak Rabin é o brasileiro dono de uma banca de jornais em Ramat-Aviv, Abraão, 64 anos: “Agora Israel é um país como todos os outros”, ele lamenta, com sotaque. “Este país foi criado para ser um exemplo, e os judeus já começaram a se matar”. Como muitos na impressionante multidão, ele voltou à praça. Esteve no dia do assassinato, justamente para romper o silêncio da maioria silenciosa, como agora pediu a viúva Rabin, reclamando da campanha da direita, não contestada, contra o processo de paz.

“Deixaram-no sozinho na torre”, continuou a viúva Rabin para a silenciosa multidão. “Calou-se diante de insultos e do ódio terrível”. Nos cartazes levantados, um apelo: “Basta de violência”. Ao fundo do palanque, uma foto gigante de Rabin, e a frase marcante pronunciada pelo presidente Bill Clinton na Casa Branca e no cemitério do Monte Herzl, em Jerusalém: “Shalom haver”, ou “Até logo, amigo”. O serviço secreto tinha recomendado ao primeiro-ministro interino Shimon Peres não ir ao comício do adeus. Ele também era visado no atentado e foi advertido de que será “a próxima vítima”. Ficou sentado ao fundo do palanque, mas Leah o alcançou:

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A viúva Leah: “deixaram Rabin sozinho”.

“Apelo a você, Shimon Peres, a continuar a levar a nação israelense no caminho e no espírito da paz de Yitzhak”. Já se diz que a viúva Rabin deverá entrar para a política apenas para vingar os que elevaram o tom da campanha contra o processo de paz a um nível em que um assassinato poderia ocorrer. Mas Peres já o tinha prometido antes, à tarde, durante um memorial do Partido Trabalhista. Vai executar a herança de paz que também ajudou a construir, e prometeu golpear “os discípulos do diabo”, os ultra religiosos que sancionaram o primeiro assassinato político cometido por um judeu contra outro na história de Israel, numa tentativa de paralisar a devolução da Cisjordânia, que prossegue hoje, com a transferência de Jenin à Autoridade Palestina.

A três mil convidados, entre eles os embaixadores egípcio, jordaniano e norte-americano, Shimon Peres identificou “os discípulos do diabo” como “muita gente beirando a insanidade que pensa ser mensageiro de Deus”.

A praça Yitzhak Rabin de Tel-Aviv, tradicional ponto de manifestantes em Israel, estava repleta de soldados e policiais desde às 16 horas. A multidão foi ocupando-a aos poucos. Muitos escoteiros sentaram-se rodeando dezenas de velas acesas. Havia pela praça muitas ilhas iguais. Em algumas, cantava-se a Canção da Paz, noutras escreviam-se poemas ou cartas em memória do primeiro-ministro assassinado. Uma judia francesa, entrevista por canais de TV franceses, pedia a pena de morte para o assassino confesso, Yigal Amir. E a justificava: “Se há países que condenam a morte traficantes de drogas, por que não dar uma lição exemplar a quem matou um líder político?”

Num fim de semana os israelenses se reuniram pela paz, noutro pelo preço da paz pago pelo primeiro-ministro Rabin, e entraram pela noite de domingo ouvindo seus cantores mais famosos cantando tristes canções tradicionais.

A Canção da Paz fúnebre

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4/11/1995: a noite de paz que mudou Israel.

Jovem, sorridente: Amir.

Amir: tiros em nome de Deus

 JERUSALÉM – Um jovem testamento desabrochou do assassinato do primeiro-ministro Yitzhak Rabin em Israel. “Escolherás a vida”, o principal mandamento colhido no Antigo Testamento (Deuteronômio 30:19), brotou da multifacetada juventude israelense entre lágrimas, velas e canções de paz.

A face jovem do sorridente assassino confesso Yigal Amir, 25 anos, foi trocada pela da plangente Noa Ben-Artzi Philosof, 17 anos, neta do primeiro-ministro Rabin, que comoveu o mundo ao despertar no funeral “para (e não de) um pesadelo” compartilhado por quase todo Israel, ao vivo e aos soluços, via satélite.

Era jovem a maioria na fila de 1 milhão formada diante do caixão no Parlamento e na vigília embaixo do dúplex da viúva Leah e do vizinho e sucessor Shimon Peres, apontado como “a próxima vítima” por fanáticos de grupelhos de aiatolás sionistas. Foram os jovens que ficaram de plantão acendendo velas e rabiscando últimas homenagens na praça dos Reis de Israel até a sétima noite de luto em que a rebatizaram de praça Rabin.

Jovem, chorando: filha de Rabin.

Noa, neta de Rabin, acordando para um pesadelo .

“A reação dos jovens é a única coisa que me dá esperança nessa bagunça” – desabafou o rabino Naamah Kelman, diretor do Departamento de Educação do Movimento Israelense para o Judaísmo Progressivo.

“Como se os jovens tenham crescido em uma semana” – conclui uma assistente social de Jerusalém, Hilorie Baer. A geração que vestiu máscaras de gás sob a chuva de mísseis iraquianos na Guerra do Golfo, em 1991, e perdeu amigos dentro de ônibus implodidos por camicases palestinos ou em combates na Cisjordânia e no Sul do Líbano agora vive um impacto equivalente ao da guerra do Vietnã na juventude americana.

“Algo lhes foi roubado”, diz Baer. “Estão tentando agora tampar o vazio”. E o enxerto disponível é o processo de paz. Yitzhak Rabin se tornou um avô de 73 anos que tiraria o espectro da guerra do serviço militar obrigatário de Israel, um herói de guerras e um mártir da paz.

Uma multidão permanente circunda a cova ainda só coberta de flores no Monte Herzl. A face da dor é jovem. O estacionamento do cemitério lota com ônibus especiais de estudantes. Excursões de turistas fazem aqui mais uma escala obrigatória na bíblica Jerusalém. Sentado diante do túmulo vizinho de Golda Meir, uma fundadora de Israel enterrada em 1978, o jovem Tomer Cohen, 17 anos, tenta escrever “para entender o que aconteceu”. Mas não consegue. “Estou confuso: não sei mais nada”, diz.

Tomer cresceu aprendendo que um dos inimigos de Israel era o líder da Organização de Libertação da Palestina (OLP), Yasser Arafat, agora prestando uma visita de pêsames a viúva Leah Rabin, impensável para o israelense Benjamin Netanyahu, líder do Likud, acusado de alimentar o clima político de ódio que culminou com os dois tiros disparados pelo estudante Yigal Amir. O processo de paz lhe ensinou que “há bons e maus árabes”. E com o assassinato restou uma amarga lição: “Tem judeu ruim, também”.

Na folha de papel que Tomer pretende deixar entre centenas de outras cartas na sepultura de Rabin duas linhas já estão escritas: “Lutou e morreu pela paz – e, então, devemos-lhe respeito”. Há horas ele não consegue acrescentar nem mais uma palavra, tamanha a confusão que o bloqueia. “Eu era contra o que Rabin representava, mas agora acho que estava errado”, explica. “Pensava: este é o meu país, não quero perdê-lo, e como não somos tão grandes como o Brasil não devemos dar territórios em troca da paz”.

Tomer não é como religiosos sionistas que crêem que a Cisjordânia seja a terra prometida por Deus a Abraão, enterrado na gruta de Machpela, em Hebron. Ele não quer devolver as colinas do Golan à Síria para que os sírios não voltem a disparar lá do alto contra as cidades da Galileia. Quer fronteiras seguras, embora os mísseis Scuds disparados do Iraque ao centro de Tel-Aviv tenham abalado o conceito militar de profundidade estratégica. Perdido, ele se desculpa beirando o choro: “Só queria que o povo de Israel fosse feliz… Agora está tudo muito triste”.6578518099078490488no

*

Israel está contra Israel, mas agora respeita um frágil cessar-fogo verbal proclamado com o assassinato do primeiro-ministro Yitzhak Rabin. A esquerda israelense sofre problemas morais com a ocupação da Cisjordânia. Desde o sétimo dia da Guerra dos Seis Dias, em 1967, não consegue responder a uma questão básica: como controlar mais de 1 milhão de árabes, e manter-se uma democracia? Já a direita israelense teme a insegurança da desocupação. Afinal, os árabes não prometiam afundar o país no Mediterrâneo? E para aterrorizá-la ainda mais, a OLP continua regida por uma Carta Nacional que prega a destruição de Israel, a ser revogada só dois meses depois das eleições palestinas, marcadas para janeiro. O centro político é uma pequena ilha de solitários. A nova pergunta que se fazem os israelenses: -E agora?

“Fui para a cama num lugar e acordei num país diferente”, espantou-se o poeta e cantor Ehud Manor. Mas o ex-extremista Yossi Klein Halevi, autor do livro Memórias de um Extremista Judeu, lançado recentemente nos Estados Unidos, acha familiar a fúria estática e o falso amor que animaram Yigal Amir a “salvar” Israel matando o primeiro-ministro Yitzhak Rabin. Entre os radicais de direita ele reencontra a noção de que os judeus, povo sem amigos, devem viver dentro de uma fortaleza, avistando no horizonte o perigo de um novo holocausto nazista. Como se Israel, hoje, não fosse uma superpotência militar. A lista de chefes de estado reunidos no Monte Herzl revelou um novo sentido para as primeiras palavras do livro Velha-Nova Terra escrito pelo fundador do sionismo, Theodor Herzl: “Se o quiserem, isso não será um sonho”.

Heróis com a primeira eleição da direita em Israel, em 1977, os colonos que se implantaram na Cisjordânia, então rebatizada com os nomes bíblicos de Judea e Samaria, são agora estigmatizados como estranhos. “O governo não se preocupou em explicar-lhes as novas doutrinas que guiariam o país”, escreveu Klein na revista Time. Ficaram com a antiga promessa do tempo do primeiro-ministro Menachem Beguin: “não haverá outra Yamit”, a colônia que florescia no deserto do Sinai mas foi trocada pela paz com o Egito. O aperto de mão de Yitzhak Rabin e Yasser Arafat abalou como um furacão os alicerces da colonização nas terras prometidas por Deus. A efervescência religiosa criou um Baruch Goldstein, o judeu americano que matou 29 fiéis muçulmanos que rezavam na mesquita de Hebron, em 1994.

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“O assassino de Rabin é um garoto inocente que levou sua tradição muito a sério”, disse o rabino e filósofo David Hartman: Yigal Amir “ouviu a linguagem do ódio e dogmatismo que encoraja a destruição repetida por seus próprios rabinos”. Foi um assassinato abençoado por aiatolás judeus.

No túmulo de Rabin:

“Eu era contra o governo, pois acho que não devemos dar de

A retirada israelense de Yamit, a "nascida do mar", no Sinai

A retirada israelense de Yamit, a “nascida do mar”, no Sinai

volta qualquer pedacinho da Terra Santa”, diz Yael Raziel, 17 anos, uma religiosa chocada com a campanha antirreligiosa desencadeada depois do assassinato em Israel. Alguns motoristas de táxi estão rejeitando passageiros ultraortodoxos. Uma mulher reclamou ter ouvido no centro comercial de Jerusalém: “Matou o primeiro-ministro, agora veio fazer comprinhas, não é?”

Os ultraortodoxos visitam o túmulo de Rabin durante a noite, para evitar confrontos políticos. “Estou aqui apesar de ser totalmente contra as concessões do governo aos palestinos… Vim por respeito: o assassinato feriu a honra do povo, a bíblia e o nome de Deus”, diz Danny, 19 anos. Ele se consola com uma esperança: “Do mal virá o bem”. Ouvindo-o, um amigo acrescenta: “No fundo, todos falamos a mesma coisa – mas entre discutir e atirar vai uma enorme diferença”. Um terceiro jovem, trancinhas cobrindo as orelhas, todo de preto, comenta: “Vim para acender uma vela e recitar salmos, porque assim me sinto melhor”. E Uri Malchi, funéreo, profetiza: “O barco furou, faz muita água e vamos todos afundar”.

A soldada Tali, 19 anos, diz que é ”chocante” o que está acontecendo. Um pouco envergonhada, confessa: “A parte mais difícil de aceitar é a de que um judeu cometeu o crime… Terrível dizer isso, mas seria mais compreensível se um de nossos inimigos enviasse o assassino. Assusta muito que um judeu mate outro em nome de uma religião”. Mesmo observada por um oficial que a repreende com um olhar porque está falando com um repórter, ela continua: “Gostava de Rabin, como muitos no exército que não querem mais uma guerra. A minha geração se ilude achando que todos amam todos. Não consigo entender como um jovem teve a coragem de matar a nossa esperança” – que, para ela, ainda sobrevive: “Agora vai assumir Shimon Peres. O assassino não conseguiu matar o processo de paz”.

O imigrante Gerard Planas, 18 anos, chegou há dois meses da Venezuela e já está velando o primeiro-ministro assassinado de seu novo país. Ele espera que o impacto da tragédia consolide a paz e una os israelenses, contagiando ainda os sírios com a mesma febre pacífica que já atacou egípcios, jordanianos e palestinos. “Uma homenagem a Rabin”, ele sonha em voz alta no jardim do cemitério Herzl. As lembranças de Caracas não são das melhores, mesmo confrontadas com a violência que lhe deu boas vindas em Jerusalém: “Aqui tem liberdade, pode-se andar na rua sem medo, dá para estudar e trabalhar, e não se vive como animal”. E repete, com ódio não dissimulado: “Não gosto de exército, mas logo vou ter que serví-lo. Mesmo aí existe uma grande diferença: trata-se o soldado venezuelano como um animal; aqui, ensinam-lhe a ser um homem”. O garoto Rahamim Levi, 16 anos, lembra: “O inimigo não é mais só árabe, mas o povo em volta daqui”.

images O jovem testamento inscrito na Praça Rabin: “Ele teve a visão da paz, e vamos continuar procurando-a”, assina Etzion. “Esta canção não pode ser silenciada”, atribuída ao próprio Rabin ao prometer seguir em frente com o processo de paz apesar dos pavios humanos bloqueando o caminho com cadáveres e escombros. “Ao invés de atirar, conversar”, escreveu Talman, sete anos. “Tolerância!” A frase que chegou às camisetas, assinada pelo presidente americano Bill Clinton: Shalom Haver, ou Adeus Amigo. Frase assinada por um grupo de estudantes: “Nosso coração está partido, mas mantemos a esperança”. A nova ordem no adesivo nos carros: “Chega de violência”. Uma constatação: “Estamos órfãos”. Conclusão do primeiro-ministro interino Shimon Peres: “O otimismo é jovem”. Entre esquerda e direita, religiosos e seculares, judeus e árabes, Antigo e Novo Testamento, surgiram os jovens.

Sai Rabin, entra Arafat Noel.

Belém, véspera de Natal.

Belém, véspera de Natal: sem mais “presente da paz”.

BELÉM, Cisjordânia – A geração intifada dos palestinos largou as pedras da rebelião contra a ocupação israelense e está na praça da Manjedoura enfeitando a cidade natal de Jesus Cristo para a chegada triunfal de papai-noel Yasser Arafat. Será o primeiro Natal livre de Belém em 28 anos. Não há clima para velar quem tornou possível o presente de paz, Yitzhak Rabin.

“O problema é dos israelenses”, diz um shebab (jovem) que se apresenta como Ismail, 17 anos, veterano de prisões em Israel.

Os shebabs transitam sem mais temer os soldados israelenses patrulhando a praça da Manjedoura, entre a Basílica da Natividade e uma mesquita de onde ecoa o canto do muezim convocando os fiéis muçulmanos às orações. Estão excitados com o presente, e o futuro. Penduram bandeirinhas palestinas como se a festa fosse de São João. E pôsteres de Arafat. Crianças brincam de explodir traques dentro de um ralo.

“Esta é a primeira vez que os israelenses se matam”, lembra o comerciante Ramzi Nassar, 24 anos. “Rabin passou a maior parte da vida tentando nos matar, e nós realmente o odiamos… Agora que começávamos a gostar dele, foi assassinado”. Outro shebab, Assam, acrescenta: “Não estamos de luto; estamos chocados”.

Ismail prefere “não achar nada” sobre o assassinato de Rabin. Enquanto fala atrai os jovens tomando o sol de inverno em um café na Praça da Manjedoura, já que não tem trabalho como 40% dos 35 mil palestinos de Belém. Com público ele parece fantasiar um pouco os cinco anos passados numa prisão perto de Beersheba, no deserto do Neguev. Mas é definitivo: “Amizade com israelenses só no futuro; agora, ainda não dá, com a opressão ainda não cicatrizada”. Ele mostra no braço a marca de uma bala que passou de raspão. E não se deixa fotografar por ainda temer retaliações: “O exército de Israel só começará a sair dia 3… e completará a retirada em 15 dias, uma semana antes do Natal”.

Um menino no grupo em volta de Ismail lembra de Rabin, não do Nobel da Paz, mas do herói de guerra israelense quando ministro da Defesa em 1987, ao estalar a intifada: “Ele dizia que a solução era quebrar os nossos ossos”. A voz da prudência sobrepõe-se à das recriminações. “Cuidado: Shimon Peres pode não ter o respaldo militar para continuar a retirada da Cisjordânia.” O prefeito de Belém e ministro de Turismo e Arqueologia da Autoridade Palestina, Elias Freij, advertiu: “O assassinato deve incentivar mais atentados ao fanatismo de ambos os lados”. E o jornal palestino Al Hayat al-Jadida anunciou: “A ameaça de uma guerra civil paira sobre Israel”

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TEL-AVIV – O complô para liquidar a paz israelo-palestina, com um sexto suspeito preso ontem, matou o primeiro-ministro Yitzhak Rabin mas errou o alvo. A primeira pesquisa de opinião pública feita depois do assassinato revela que agora 3/4 dos israelenses apoiam o processo de paz, quando antes estavam divididos quase pela metade: 51% a favor e 47% contra. Se eleições fossem convocadas hoje, o trabalhista Shimon Peres esmagaria os partidos de direita.

A pesquisa foi encomendada pelo jornal israelense Yediot Aharonot e revelada ontem: 74% entre 501 entrevistados na terça e quarta-feira são favoráveis à continuação do processo de paz, enquanto apenas 23% o rejeitam. A margem de erro é de mais ou menos 4%. Outra pesquisa, feita em Jerusalém, tradicional bastião da direita, mostra que Shimon Peres tomou a dianteira do seu principal opositor, o likudnik Bibi (Benjamin) Netanyahu, por 48% a 26%.

TIROS PELA CULATRA – A reviravolta na opinião pública israelense indica que o complô contra a paz pode ter disparado contra as próprias bases. Um único assassino confesso, Yigal Amir, assumiu a responsabilidade pelo atentado, repartindo-a somente com Deus, que ele disse tê-lo guiado, mas a polícia já prendeu outros cinco suspeitos de cumplicidade e desenterrou um arsenal que “daria orgulho” a qualquer organização terrorista.

O sexto suspeito foi levado a um tribunal de Tel-Aviv, ontem, para ser mantido preso enquanto prosseguem as investigações. Como todos outros, Michael Epstein é um judeu religioso de 23 anos que considera pecado passível de punição mortal a devolução da Terra Prometida por Deus aos judeus bíblicos, agora conhecida como Cisjordânia e capturada por Israel durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967.

O nome de Epstein surgiu no interrogatório de Yigal Amir e de seu irmão Hagai, que foi quem preparou as balas dundum, explosivas, disparadas contra Rabin há uma semana, durante um comício de paz. Ele sabia dos planos do atentado, e se dele não participou, pelo menos não o impediu nem o denunciou à polícia.

Yigal Amir confessou duas tentativas anteriores de se aproximar do premiê Rabin, este ano, com a intenção de matá-lo e aniquilar o acordo com Yasser Arafat, concluído em 1993. Mas a polícia revelou ontem, sem dar detalhes, que houve, na verdade, três tentativas. Não ficou claro se as aproximações frustradas de Yigal estão incluídas. Quando a imprensa procurou esclarecer, ficou ainda mais confusa. O ministro da Polícia, Moshe Shahal, afirmou, então, que “parece ter havido mais do que três atentados à vida do primeiro-ministro”. Nenhuma fonte ousou detalhar um segredo do Shin Bet.

Arafat visita a viúva Rabin

Arafat visita a viúva Rabin, afastado do enterro por segurança.

Arafat em Tel-Aviv. Sem disfarce.pict6

TEL-AVIV – A primeira visita do líder palestino Yasser Arafat a Israel foi de pêsames à viúva Leah Rabin, secreta, noturna, organizada por um agente aposentado do serviço secreto Shin Bet e nem um pouco parecida à do rei da Jordânia e a do presidente egípcio Hosni Mubarak à Jerusalém, públicas, com pompa e audiências com o primeiro-ministro interino Shimon Peres.

   Ausente notável no enterro do “amigo pessoal” Yitzhak Rabin, porque sua presença era considerada por Israel um problema a mais de segurança durante a recepção a chefes de estado e representantes de cerca de 100 países de uma só vez, e de repente, Yasser Arafat sentiu ser “um dever” não deixar de vir apresentar condolências pessoalmente a viúva Leah. O mesmo fez o príncipe herdeiro da Jordânia, que não pode deixar o reino quando o rei Hussein viaja. Mas ele foi bastante visível ao chegar, na terça-feira.

   Os israelenses só souberam da visita de Arafat depois que ele já voava de volta para Gaza. Mas nada mais parece surpreender Israel, veterano do imprevisível desde a sua criação, há 47 anos. A visita que seria histórica se limitou a uma entre outras notícias do dia nos jornais e rádios.

   Voaram com o presidente da OLP e da Autoridade Palestina a Tel-Aviv apenas Abu Mazem e Abu Ala, dois assessores. No apartamento dúplex da viúva Leah Rabin, em Ramat-Aviv, um bairro ao Norte onde também vive a família Shimon Peres, Arafat sentou-se numa poltrona sem estar com a cabeça coberta pela tradicional kefiah, e declarou: “Perdeu-se um grande homem que fez a paz dos bravos com a gente”.

   A viúva Rabin garantiu a Arafat que tanto ela quanto os israelenses “querem continuar o processo de paz”. Ele agradeceu por ela manter “a marcha na estrada da paz”. E ainda ouviu um elogio: “Meu marido o considerava um parceiro no processo de paz”. Por trás da primeira visita conhecida de Arafat a Israel (ele diz ter entrado disfarçado em Jerusalém depois da Guerra dos Seis Dias, em 1967) estaria o mesmo agente do serviço secreto que iniciou em 1986 os contatos com a OLP, Yossi Ginnosar, a pedido do então primeiro-ministro Shimon Peres.

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O Brasil sempre

aparece em

Israel. Até na cena

do assassinato

de Rabin.

TEL-AVIV – Com a carteira de imprensa brasileira falsa um israelense está vivendo certo momento de fama, embora anônimo. Fotógrafo amador, com a carteira que diz ter conseguido no Brasil, ele se promoveu a profissional e chegou a meio metro do primeiro-ministro Yitzhak Rabin, no comício da paz em que ele foi assassinado.

À Rádio das Forças Armadas o fotógrafo amador apresentou-se como “Ziv”, nome tão comum em Israel quando José no Brasil. Para provar que não estava blefando, ele mostrou fotos em que aparece bem próximo de Rabin e outros políticos no palanque do comício da paz.

Como condição para dar a entrevista desmoralizante aos serviços de segurança, a voz de “Ziv” foi alterada. Afinal, descoberto, ele pode ser preso por uso de documento falso, brasileiro por acaso. Ele contou: “Quando cheguei à manifestação, para dar meu apoio ao processo de paz, perguntei a um policial por onde a imprensa subia ao palanque”. Orientado, sem ter que se identificar, ele alcançou a entrada. Então, ficou esperando passar alguma equipe de TV.

“Segui um cinegrafista por entre alguns guardas”, acrescentou Ziv. “Um deles me chamou de volta, perguntando-me quem eu era. Mostrei-lhe a carteira de imprensa. Ele nem a leu, só perguntou se eu estava armado e vistoriou minha sacola, sem mover nenhuma das lentes”.

O “fotógrafo brasileiro” Ziv clicou o primeiro-ministro Rabin enquanto ele cantava Shir Lashalom, a Canção da Paz, a letra depois retirada de seu bolso num papel banhado em sangue. Não fosse o assassino confesso Yigal Amir, poderia ter sido “Ziv”. E o Brasil estaria envolvido num crime político que chocou o mundo.

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Para lamentar: o ódio entre irmãos.

product_thumbnailJERUSALÉM – O “ódio entre irmãos” é o que lamentam os judeus no Muro das Lamentações. A tradição aponta o “ódio fraterno” como causa da destruição do Segundo Templo no ano 70. Nas frestas das pedras bizantinas que colorem Jerusalém, restos sagrados do Templo, os judeus enxertam papéis pedindo “shalom”, ou paz. O assassínio do primeiro-ministro Yitzhak Rabin ressuscita para os israelenses o medo do destruidor “ódio entre irmos”.

Rabin foi a segunda vítima. A primeira chocou Israel em 1983. Era também um comício pela paz, conclamado em plena guerra israelense no Líbano pelo movimento Paz Agora, Shalom Archav. Durante a manifestação, rolou uma granada. Ao explodir, ela matou Emil Grunzweig, um rapaz que ficou na memória dos serviços de segurança como um recorrente pesadelo. A neta de Rabin, no enterro, ontem, disse que “acordou para o pesadelo”: judeus matando judeus.

“Nada, absolutamente nada, é um golpe maior para a vida da nação judaica do que a violência fraterna, e nada torna esta violência mais ameaçadora do que o assassinato do chefe do governo” – lembra em editorial de primeira página o Jerusalém Post. “Se a nação for mais afortunada (do que ao tempo da destruição do Segundo Templo), o assassinato servirá como uma advertência de que a violência interna é o nosso mais perigoso inimigo”.

Os irmãos que se odeiam, uns a favor e outros contra a devolução de terras da Cisjordânia aos palestinos, estão respeitando uma trégua não proclamada. Os colonos de Kiryat Arba, uma das fontes da violência verbal que se materializou em duas balas dundum disparadas contra Rabin, estão agora recitando salmos, chocados e amargurados. “Sentimos muita dor quando soubemos do assassinato”, disse o rabino Arye Weiss. Mas um rapaz de 17 anos, Shuvie Reuben, imigrante norte-americano, procurava ainda justificar a violência: “Rabin foi o responsável pelas mortes ocorridas desde o acordo de paz de Oslo”.

O assassino Yigal Amir também acusou Rabin, ontem, quando levado a um juiz em Tel-Aviv, de “dar nosso país aos árabes”. Seu objetivo declarado era o de parar o processo de paz. Ao explicar o que o mobilizou, ele não hesitou: “Foi Deus”. Para ele, a Halacha, código judaico, é muito claro: “Pode-se matar o inimigo”. E o inimigo era Yitzhak Rabin. “Toda a minha vida estudei a Halacha”, acrescentou. “Matar o inimigo numa guerra é um ato permitido”.

Há um esforço religioso de estancar a violência. O grão-rabino ashkenazi de Israel, Yisrael Lau, perguntou a todos os judeus: “Podemos erguer-nos em sã consciência e dizer que nossas mãos não compartilharam este sangue?” Há um mês, 20 religiosos do movimento ultra nacionalista Kach lançaram contra Rabin uma maldição, querendo-o morto.

O esforço de apaziguar os ânimos cria apenas uma frágil trégua, segundo o autor do livro Política da Provocação, Gadi Wolfsfeld, professor de ciência política da Universidade Hebraica de Jerusalém. “A tendência a longo prazo é a do confronto continuar, porque muita gente na extrema-direita está desenvolvendo uma ideologia que rejeita as regras democráticas”.

A profunda cicatriz que cindiu os israelenses era tratada ontem nas ruas de Jerusalém e em Tel-Aviv. Vigília permanente na praça Reis de Israel, onde Rabin foi assassinado, mantêm velas acesas. Um grupo faz plantão para consolar a viúva Leah, em Ramat Aviv. Num momento em que ela saiu de casa, dirigiu-se a ele: “Vocês deveriam estar aqui antes”, quando outros manifestantes exibiam cartazes contra o marido. Grupos param em jardins e organizam orações. Primeiras páginas com gigantescas manchetes sobre o atentado, coladas a muros, transformam-se em altares improvisados.

Líderes da extrema-direita vão a TV e pedem paz. O líder do Likud, o principal na oposição, Binyamin Netanyahu, ofereceu apoio para o primeiro-ministro interino, Shimon Peres, tornar-se o oficial, até as eleições do ano que vem. Muitos trabalhistas acham, porém, que o melhor será antecipar as eleições, capitalizando o impacto do “Ódio fraterno”, que, como um tiro no próprio pé, pode ferir mais o país.

O sucessor Shimon Peres, no enterro de Rabin

O sucessor Shimon Peres foi ameaçado de ocupar o próximo caixão político.

JERUSALÉM – Enterrado o primeiro-ministro Yitzhak Rabin, resta a paz no Oriente Médio e entre os divididos israelenses. Aos líderes árabes em torno do caixão azul e branco, no topo do Monte Herzl dominando a capital contestada de Israel, e a mais de 40 outros chefes de estado, observou o primeiro-ministro interino Shimon Peres: “Este é o coroamento glorioso dos esforços de Rabin pela paz – todos aqui, juntos”.

Sob o sol brilhante do outono nas colinas bíblicas de Jerusalém, emocionado, vestido com uma kefiah vermelho e branco, o rei Hussein disse a multidão de quatro mil convidados na esplanada onde está enterrado Theodor Herzl, o ideólogo da criação do estado de Israel. “Chegou o momento de todos nós batalharmos pela paz”.

Sucessor do mártir pioneiro da paz, Anuar Sadat, assassinado em 1981, o presidente egípcio Hosni Mubarak, alvo de um recente atentado na Etiópia, subiu também à tribuna – ele que relutava em visitar Israel, e menos ainda Jerusalém: “O melhor monumento a Yitzhak Rabin será a continuação do processo de paz que ele iniciou… Só assim honraremos verdadeiramente a memória deste abatido herói da paz”.

Solidéu na cabeça, que lhe caiu no momento em que o caixão era coberto de terra, o presidente Bill Clinton trouxe à Jerusalém uma comitiva de 100 pessoas, entre elas os ex-presidentes Carter e Bush, para a homenagem ao grande “chaver” (pronuncia-se raver, companheiro). Olhou para o rei Hussein e o presidente Mubarak, juntos em Jerusalém, como “uma fotografia” improvável a apenas alguns anos atrás. Como líder de uma nação três vezes sacudida por assassínios políticos (Abraham Lincoln, John Kennedy e Martin Luther King) ele aconselhou aos israelenses: “Não deixem que isso aconteça a vocês”.

Ausente, Yasser Arafat era onipresente. Ele não veio para permitir aos israelenses divididos uma trégua. Quanto mais dilata a autonomia plantada em Gaza e Jericó, mais cresce a violência verbal, agora com uma primeira vítima, Yitzhak Rabin. Perto do centro de imprensa montado às pressas para o enterro, como no tempo em que Sadat veio à Jerusalém, em 1977, foram rasgadas as fotos em cartazes do aperto de mão histórico entre Rabin-Arafat, na Casa Branca.

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Peres no memorial Rabin, na praça Rabin.

Lágrimas e soluços marcaram as lembranças da neta de Rabin, para quem ele era “um herói privado”, Noa Ben-Artzi, de 17 anos. “Sempre acordamos de um pesadelo”, ela disse. “Mas eu estou acordando para um pesadelo”. O avô era um “lobo solitário” que tinha por ela “o carinho macio” e um “meio sorriso tão significativo” que nenhum dos grandes líderes que o homenagearam “poderiam conhecer”. “Vou estar com você para sempre”, concluiu, quase não o conseguindo, e desceu rápido para os braços abertos do irmão, soldado.

Outro dramático momento teve o sangue de Rabin exposto. No comício da paz em que foi morto, pela primeira vez em público ele cantou, lendo a letra num papel, a “Canção para a Paz”. Depois, dobrou-o e o guardou num bolso. Então duas balas dundum, que explodem ao penetrar no alvo, cobriram-no de sangue. Da tribuna, o diretor do gabinete do primeiro-ministro, Eitan Haber, o releu para a multidão.

Um milhão de chocados israelenses passou pelo caixão de Rabin diante da Knesseth, o Parlamento em Jerusalém. Em 36 horas, 70 aviões com líderes de todo o mundo pousaram em Tel-Aviv. Os funerais lembraram uma mobilização para uma guerra. Mais de 10 mil policiais, soldados e agentes de segurança à paisana misturaram-se ao povo ao longo do trajeto até o Monte Herzl. Guarda-costas, surpreendidos com uma falha que custou a vida do primeiro-ministro, estavam alertas aos menores movimentos. Soldadas distribuíam bonés e garrafas de água contra o sol.

As escolas de Israel tiveram aulas sobre Rabin e a violência que o matou. A lição foi repetida para os adultos até por quem até antes do assassinato equiparava o processo de paz à entrega do país “aos árabes”. Todos permaneceram em silêncio ao soar por dois minutos o alarme de ataque aéreo. Ao falar, o primeiro-ministro interino assumiu a herança que recebeu: “O homem que matou Rabin não será capaz de assassinar a ideia que ele semeou”. E acrescentou: “Ficou a estrada aberta, e nós a seguiremos”.

O presidente Clinton conclamou: “Agora recai sobre todos nós que amamos a paz e Rabin continuarmos a luta para a qual ele deu a vida e pela qual a perdeu”. E o rei Hussein prometeu: “Eu me comprometo diante de você”- e virou-se para o caixão, ao lado – “e do meu povo na Jordânia, e do mundo, a continuar fazendo tudo para deixarmos uma herança igual”. O vice-presidente Marco Maciel lembrou a um repórter o recente encontro de Rabin com o presidente Fernando Henrique Cardoso, em Nova York. E apresentou ao presidente Ezer Weizman as condolências do Brasil.

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JERUSALÉM- Ameaçados de morte por grafites e telefonemas anônimos, mas protegidos por um excepcional esquema de segurança, o premiê interino de Israel e seus ministros aprovaram ontem a formação de uma comissão de inquérito sobre o assassinato de Yitzhak Rabin, aceitando ao mesmo tempo a renúncia do general encarregado do grupo de segurança VIP do serviço secreto, o Shin Bet, e punições a três subalternos.

Enquanto o governo estava reunido, a rádio israelense anunciou a prisão de um terceiro suspeito nas investigações do assassinato de Yitzhak Rabin, baleado no sábado por um universitário de extrema-direita, Yigal Amir, 25 anos, que confessou ter agido só, mobilizado “por Deus”. O segundo suspeito, irmão do confesso assassino, Hagai, 27 anos, é acusado de cumplicidade, porque sabia dos planos e fabricou as balas dundum. O terceiro pode ser um instigador do crime.

O novo grafite em Jerusalém chamou a atenção por lembrar as ameaças que culminaram no primeiro assassinato político cometido por um israelense contra outro na história de Israel. “Rabin foi uma vítima da paz, Peres é o próximo da fila”. Como assinatura, o símbolo do movimento Kach, antiárabe, ultra nacionalista. Num bastião da extrema-direita na Cisjordânia, em Kfar Tapuah, abaixo de uma foto de Shimon Peres foi inscrito: “Viva Yigal Amir”.

Antes do assassinato de Rabin, os grafiteiros seriam considerados “lunáticos”. Agora não mais. A rua diante do prédio do primeiro-ministro foi fechada. Uma tropa extra montou um cordão de segurança impenetrável para a imprensa. Para agravar a tensão, vários ministros revelaram que têm recebido ameaças de morte anônimas, pelo telefone.

Mesmo sob este clima, o governo divergiu na hora de votar a formação da Comissão de Inquérito. A maioria a queria com poderes ampliados para investigar os grupelhos de radicais que brotaram em terras férteis de violência na Cisjordânia. Só dois, afinal, resistiram, e 17 outros foram na direção apontada por Peres, que a limita a um mergulho profundo em todo o sistema de proteção “a indivíduos em geral, e na manifestação em que o crime ocorreu, em particular”. A parte podada pode merecer outro fórum, por ser mais sutil e envolver o direito à livre expressão na democracia israelense: quando um discurso passa a ser inflamatório ou instigador?

Chefiará a comissão, provavelmente, o juiz Meir Shangar. As investigações estarão a cargo de um militar, o general da reserva Moshe Levy, comandante das forças armadas nos anos 80. Os dois podarão sugerir punições ao apresentarem o relatório final. Mas já existe um relatório inicial. Preparado pelo próprio Shin Bet, constatou falhas na segurança de Rabin, um VIP mirado por fanáticos que se recusava a vestir um recomendado colete a prova de balas.

Rabin, em 1967, Guerra dos Seis Dias.

Rabin, em 1967, Guerra dos Seis Dias.

Dentro do carro que levou Rabin em três minutos ao hospital Ichilov, o motorista Menachem Damti perguntou:

-Está ferido, primeiro-ministro? No que ele respondeu: “Estou, mas não é assim tão grave”. Então, sua cabeça pendeu. Era muito grave. Ele foi alvejado quando seus guarda-costas falharam em imunizá-lo com um escudo humano. Eram poucos os que o cercavam. Penetras andavam pelo estacionamento, entre eles o confesso assassino, que simulava ser um dos motoristas da comitiva. Ele chegou a 1,5 metro de distância de sua vítima. Uma escada não estava bloqueada.

O filho de Rabin, o paraquedista Yuval, é quem resumiu a situação: “O sentimento generalizado parecia ser: -Confie em nós, tudo estará OK, nada acontecerá”. Quem quisesse disparar no primeiro-ministro teria um alvo livre. Um segundo círculo de segurança não o cobria. Os agentes secretos também não cercaram o carro oficial como preparativo básico para a partida numa manifestação com mais de 100 mil pessoas. Até a imprensa ousa agora perguntar ao “infalível” serviço secreto: como é que Yigal Amir não teve cassado o porte de arma depois de ser detido ameaçando Rabin por sua política de paz? Agora se sabe: o banco de dados sobre potenciais terroristas judeus é incompleto porque toda a ênfase era dada a camicases árabes em 47 anos de Israel.TelAvivYitzhakRabinMemorial

O general que chefiava o corpo de segurança de VIPs renunciou antes de ser demitido. A praxe em Israel é a de que ele não tem nome. A imprensa, conhecendo-o, não pode entregá-lo à opinião pública. Um subordinado imediato, também de alta patente militar, foi suspenso. E dois agentes transferidos para outras missões.

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