São Gaudí

E la nave va

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Da tumba na igreja da Sagrada Família, em Barcelona, o arquiteto Antoni Plàcid Gaudí i Cornet poderá passar para o altar. “São Gaudí, o arquiteto de Deus”, começou a ser promovido por um grupo de devotos que já obteve a bênção do cardeal espanhol Ricard Maria Carles para iniciar o processo de beatificação.

  Uma comissão histórica e outra teológica estão investigando a vida de Gaudí para o padre Lluis Bonet i Armengol, pároco da Sagrada Família que foi nomeado vice-postulante do processo de beatificação pelo arcebispo de Barcelona, cardeal Carles. O postulante deverá ser nomeado pelo Vaticano, se o processo, sempre longo, podendo durar décadas, for além do estágio inicial de coleta de dados.

  Gênio, louco e santificável, Gaudí é a glória de Barcelona, o “arquiteto universal catalão” e “gigante do gótico” que marcou a arquitetura do século XX. Ele está enterrado na cripta de sua última e inacabada obra, a Igreja Expiatória da Sagrada Família, visitada por 1 milhão de turistas em 1998. “Os despojos de um homem tão grande esperam aqui a ressurreição dos mortos”, diz uma inscrição na lápide, decorada com flores de plástico.

  Outra tumba na mesma cripta é a do livreiro Josep Maria Bocabella i Verdaguer, que teve a ideia de construir a Sagrada Família para protestar contra a industrialização e a perda de valores tradicionais, já em 1866. No início da guerra civil espanhola, em 1936, os soldados do general Franco a saquearam. Mas não tocaram na de Gaudí. “Não é milagroso?”, pergunta o arquiteto José Manuel Almuzara, fundador e presidente da Associação Pró-Beatificação de Gaudí.

  Uma tetraneta de Bocabella, Teresa Dalmases, continua hoje a coletar fundos para a obra da Sagrada Família, 117 anos depois de assentada sua primeira pedra. A US$ 5,40 o ingresso inteiro, com descontos para grupos e estudantes, ela arrecadou cerca de US$4,5 milhões em 1998. Nesse ritmo, a igreja estará pronta em mais 50 anos, empregando 50 operários, a maioria artesãos, e as máquinas mais modernas. Para o final de 2000 programou-se a primeira missa na igreja que passou a ser de Gaudí em 3 de novembro de 1883, ao se demitir o arquiteto da diocese, Francisco de Paula de Villar.

  Gaudí dedicou-se à Sagrada Família por 43 anos – os últimos 12 anos em tempo integral e os dois finais morando num estúdio dentro do canteiro de obras. Toda tarde, pelas 5 horas, lá ia ele a pé rezar na igreja de San Felipe Neri, ao lado da catedral, no centro de Barcelona. Era uma boa caminhada, recomendada contra recaídas de uma febre reumática que já tinha lhe tirado a infância na rua com outros meninos. Parecia um eremita, a barba branca e a roupa puída. O guarda Silverio Silvestre achou que ele fosse um mendigo ao registrar sua entrada na emergência do Hospital Santa Cruz, em 7 de junho de 1926. O condutor do bonde da linha 30 contaria mais tarde, diante de um juiz: “O velho cruzava a Gran Via na esquina de rua Bailén e voltou ao ver outro bonde na direção contrária, sendo então atropelado”. Três táxis recusaram-lhe socorro.

  “Amén Déu meu! Déu méu!” – foram as últimas palavras de Gaudí, em catalão, três dias depois do atropelamento. Não quis que o transferissem a outro hospital, ao recobrar a consciência. “Só lhe faltava, para ir direto ao céu, morrer como um pobrezinho de Cristo” – escreveu o cronista F. Folch num elogio fúnebre no Diário de Barcelona. “Arquiteto de Deus”, chamou-o um famoso liturgista da Catalunha, Manuel Trens, no jornal La Publicitat. Espalhando numa mesa várias folhas amarelecidas com fotos e textos do enterro de Gaudí, realizado na cripta da Sagrada Família “por autorização  direta do papa” (Pio XI), padre Bonet conclui: “Já o consideravam santo; nós não inventamos nada”.

  Padre Bonet, de 67 anos, constrói com muita fé a imagem de São Gaudí. E um irmão dele, Jordi Bonet, executa-lhe a obra, concretamente. É o atual arquiteto responsável pela construção da Sagrada Família. Também devoto, diz: “Para mim, Gaudí já é um santo”. Ele dá um motivo a mais para a beatificação: “A igreja precisa de santos laicos”. E o momento não poderia ser melhor, lembra padre Bonet: “O papa está promovendo beatificações e canonizações”. Os dois irmãos foram influenciados por um arquiteto muito amigo de Gaudí, Lluis Bonet i Gari, o próprio pai.

  Entre a maioria de prédios baixos e marrons de Barcelona, a herança de Gaudí atrai pelas formas inesperadas, ousadas, curvas, salientes, enfeitadas, coloridas, caprichosas e harmoniosas. Ele ensinava que “a curva é a linha de Deus”. Em seu mundo, não havia retas. “Originalidade”, dizia, “é voltar as origens”. Na origem, filho do caldeireiro Francesc Gaudí i Serra, era um menino de Reus, uma cidade industrial ao lado de Tarragona moldada sob fortes influências maçônica e nacionalista. Estudou num colégio de padres. Às vezes, em crise de febre reumática, com dor em todo o corpo, ia para a aula montado num burrico. Foi vegetariano a vida toda, por ordem médica. Tinha pendor para detalhes. Interrompeu uma professora que explicava que os pássaros voam porque têm asas para dizer que “as galinhas não voam, embora tenham asas”. A mãe, Antònia Cornet i Bertran, morreu quando ele tinha 24 anos e já estudava arquitetura em Barcelona. 

  Gaudí não teve uma vida digna de santo até 1900, aos 42 anos, quando o comparavam a São Francisco de Assis e a Gandhi, ou até 1911, ao voltar de uma estadia de cura de febre reumática nos Perineus decidido a abandonar tudo e se dedicar obsessivamente à “catedral dos pobres”, Sagrada Família. Não há um momento-chave de revelação na vida do “Arquiteto de Deus” aceito por seus biógrafos. Adorava a fama, conquistada com a construção da Casa Vicens e de edifícios para o conde Eusebi Güell, amigo e mecenas. Fumava charutos de qualidade. Tinha pavio curto e era arrogante. Vestia-se com elegância, mas só usava sapato já amaciado pelo irmão, que os novos o machucavam. Frequentava os melhores restaurantes. E nunca se provou que tenha tido uma paixão. Teria amado em segredo uma mulher, não correspondido. E um amigo que só se casou depois de sua morte levantou a suspeita de uma relação homossexual. Para os devotos, o arquiteto de linhas curvas divinas, ou sensuais, morreu casto.

  Ascético, profundo conhecedor da liturgia católica, religioso de missa e comunhão diários, aprendiz de canto gregoriano, arquiteto precursor do modernismo, pobre e humilde no final da vida, Gaudí não fez milagres. É o que lhe falta para ser elevado a São Gaudí. Uma mulher de Valência pediu-lhe que o marido ganhasse um concurso, e foi atendida. Outra, para passar numa prova na universidade, e passou. E mais uma, ainda, para se livrar de uma pedra no rim, e se diz curada. Uma doente terminal está agora pedindo por vida, e a Associação Pró-Beatificação de Gaudí a acompanha, com fé de que terá mais um relato milagroso para o padre Bonet, o vice-postulador da beatificação. A pediatra brasileira Cecilia Maria Pereira assina uma carta no último boletim O Arquiteto de Deus antecipando “um grande milagre que beneficiará milhares de pessoas enfermas em meu país e no mundo”, se Gaudí atender as suas orações.

  Nas ruelas de Barcelona, Época perguntou ao acaso se Gaudí deveria ser beatificado. Dez em dez pessoas disseram sim. Mas São Gaudí não chega a ser unanimidade. Entre artistas e intelectuais prevalece a opinião do escritor Manuel Vázquez Montálban: Gaudí é um patrimônio cultural de todos, não uma propriedade da igreja. Editorialista do jornal La Vanguardia e escritor com 28 livros publicados, José Luis de Vilallonga é mais radical: “Vou lhe dizer a verdade, Gaudí não me agrada nem um pouco, nem como arquiteto, nem como santo – um absurdo.” O historiador da Arte e diretor do Spazio Gaudí, Daniel Giralt-Miracle, ironiza a campanha pró-beatificação: “Nem eu apoio”. Mais próximo de Gaudí do que os céus, para ele, estaria Picasso. Mas para o diretor da Cátedra Gaudí na Universidade de Barcelona, Juan Bossegada Nonell, “as condições para a santificação estão aí…”

  O único artista jamais canonizado foi São Lucas. Além de pintor ele foi um dos quatro apóstolos. “O céu não precisa de arquitetos, Deus já fez tudo”, brincam com o arquiteto Almuzara. Longe de desistir, ele vai adiante, descobrindo sempre novos indícios de milagre. As conversões, por exemplo. O coreano Jun Young-Joo converteu-se do budismo no último Natal, depois de visitar a Sagrada Família. “Não é qualquer um; é o diretor da Câmara de Comércio e Indústria de Pusan, na Correia”, ele diz. Enviou-lhe um bilhete: “Através das obras de Gaudí e do toque divino que têm, me convenci da existência de Deus”. Ao arquiteto japonês Kenji Imai bastou um encontro com o próprio Gaudí, em 1926: a conversão foi instantânea.

  O outro convertido é o escultor japonês Etsuro (“homem feliz”) Sotoo. O que o atraiu na Sagrada Família, quando a visitou em julho de 1978, aos 25 anos, foram blocos virgens de pedra da Galizia. Sentiu uma irresistível vontade de esculpi-los. Com o tempo, o arquiteto Almuzara e “o convívio com a obra de Gaudí” acabaram esculpindo sua fé cristã em sua alma budista. Tão devoto, ele já pensa em casar-se de novo, com a mesma esposa, no ritual católico. Hoje ele ainda faz os anjos sem asas da “fachada do nascimento”, no lado de trás da igreja. E vai precisar de mais sete anos para acabar seu trabalho e voltar a Fukuoka, onde três grandes blocos de pedra o esperam diante do museu, armadilhas com que a prefeitura local pretende recuperá-lo.

  “Antes, tínhamos que explicar aos turistas que Gaudí não era louco, mas alguém excepcional, quase louco”, diz Sotoo, em espanhol com sotaque, uma toalha enrolada como turbante na cabeça. “Agora, vamos descobrir se ele era santo, ou ao menos alguém como Salomão e Davi – um construtor do Templo”.

 

Oração para Gaudí

 

   “Santissima Trindade, que infundiste a teu servo Antoni Gaudí,

arquiteto, um grande amor à tua Criação e um ardente afã de imitar os mistérios da infância e paixão de teu Filho;

faça que eu saiba também entregar-me a um trabalho bem feito, e digna-te a glorificar

teu servo Antoni, concedendo-me, por sua intercessão, o favor que te peço (aqui o pedido). Amém.

  Jesus, Maria e José, dê-nos a paz e protegei a família (três vezes)

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