Estou comprando crack


2015-01-05 00.09.36

O fotógrafo Luiz Prado fotografava do alto de um prédio. Na foto acima, pago.

Abaixo, recebo a pedra de crack. Era uma reportagem sobre a Cracolândia,

então novidade em São Paulo. Quando ia embora, a craqueira gritou para mim:

– Ei, vamos fumar juntos?


2015-01-05 00.10.46

Crack em brasa no cachimbo, tragada profunda, relampejam os olhos e… abracadabra: “Sou outra pessoa” – diz Adriana Rodrigues de Souza. É a vez de Gabiru. Isqueiro no fornilho, dá uma cachimbada, prende a fumaça até tossir e… Shazam! “Agora fica mais fácil aguentar o dia” – ele explica, aliviado. Outro pedacinho de crack sobre as cinzas completa a rodada. Micróbio aspira e… tuiinnnn: fissura aplacada.

  Nem cinco minutos depois, Adriana quer de novo ser outra pessoa, Gabiru sente que vai “saindo do ar”, Micróbio afunda na “nóia” – a paranoia. Os três estão na rua Conselheiro Bebias, no centro de São Paulo, contagiados pela epidemia de crack. Imundos, maltrapilhos, confundem-se com o lixo no escuro da noite. Já perderam o amor-próprio, a esperança e a memória. Trocam-se por uma pedra de crack. Perderam-se de tanto barato instantâneo.

   “Cada pedra é uma pessoa” – conta Adriana, 20 anos. “E todas falam comigo”. Mas ela ainda não entendeu “o que as pessoas estão querendo dizer”, mesmo fumando-as, todos os dias e noites, há mais de quatro anos. A próxima dose será sempre uma nova promessa de revelação. Miragem enfumaçada: “Sinto que as pessoas me puxam…”

   Gabiru, 19 anos, “está numa boa”. Quando acha que deve comer, fuma maconha: “Abre o apetite”. Para se desligar, então dormir, ele toma álcool. Assim se cuida. Por suas mãos rolam “umas 80 pedras por dia”. Algumas o mantém “24 horas no ar”. Outras, vende. Ele as chama de “Kuwait”, porque inventadas nos Estados Unidos. “Tô nessa porque quero”, garante. Micróbio, arredio, não fala nem a idade. Irrequieto, ansioso, de pé o tempo todo, só acalma pipando o cachimbo.

  Uma garota de oito anos se enrosca numa sobra do cobertor de Adriana. Fuma tabaco com a compulsão de um adulto. O quarteto se une por algumas coincidências: nenhum sabe de pais ou família, todos são “diplomados” pela Febem e vivem nas ruas. Pressentem o crack como cães, o cio. O mundo vai da estação da Luz até a avenida São João. Há quem cruze a fronteira, chegando à praça da República. Misturam-se às prostitutas e mendigos. Brilhou um isqueiro à noite, ali estão eles. De dia sentam-se no meio-fio, ou se esticam sob o sol para dormir.

  De uma janela para a rua Conselheiro Nébias, no quarteirão próximo da rua Aurora, avista-se uma mulher de vestido preto e branco. Chama a atenção tentando se enfiar entre um carro estacionado e a calçada. Quando consegue, acende o cachimbo. Dia claro, lojas abertas, até a polícia está em ação na esquina, descobrindo que Micróbio é Rodrigo, menor de idade que traz na mão esquerda, tatuada, uma temerária confissão: a caveira com um punhal, marca de quem já matou policial. O soldado Araújo examina a tatuagem. Do outro lado, a mulher se levanta, na fugaz curtição do crack, e encosta na parede de um supermercado, escorregando até sentar-se, as pernas abertas.

  “Não matei ninguém, não” – Micróbio puxa a mão. “Foi na Febem que me tatuaram, mas vou apagar”. Agora o soldado Araújo procura picadas nos braços, enquanto vai perguntando: “Rodrigo de quê?” Cada resposta é um novo sobrenome. Outro soldado os transmite por walkie-talkie. Abordada por um homem, engravatado, a mulher se levanta, cruza a blitz, e logo está de volta. Óbvia transação: vê-se a troca de uma nota por algo invisível, tão pequeno, mas logo enfiado no bolso da calça. E lá vai ela de volta entre o carro e o meio-fio queimar “a comissão”.

  Micróbio olha desconfiado para o repórter. “Foi você”, está na ponta da língua. De noite, Gabiru teria se enganado, agora foram todos dedurados. A imprensa por testemunha, o estudante Marcos Perusi dá um passo adiante, e acusa o soldado Araújo: “Você chamou o suspeito de bobo”. E se apresenta: “Sou da Comissão de Direitos Humanos”.

  -Seus documentos – pede o soldado, surpreendido. “Xinguei ele de bobo?”, pergunta. “Você o insultou”, insiste Perusi, que prova fazer pós-graduação na USP. “Este menino (R.A.M) é ladrão de toca-fitas”, ouve-se pelo walkie-talkie. Limpo, sem drogas nem picadas, Micróbio foi substituído pela Comissão de Direitos Humanos no interesse das Rondas Ostensivas com Apoio de Motociclistas (Rocam). Não sendo bobo mesmo, ele cai fora rapidinho. Do outro lado da rua, o repórter decide testar o mercado de crack a céu aberto.

  -Tem pedra? – pergunta à mulher de preto e branco.

  -Você é da polícia? – desconfia. Tranquilizada, impõe a comissão: “Metade para mim”. Uma pedra, R$10,00. Pega a nota, manda esperar e sobe a rua até um grupo de garotos. Uma perua da polícia chega junto. Descem militares armados. Mas lá vem ela voltando. Cochicha ao passar: “Vem comigo”. Não que temesse ser escutada; com a pedrinha de crack escondida na boca, mal podia falar. Entrega feita, ela diz se chamar Márcia, e convida: “Se deixar eu fumar com você faço o que quiser”. Por enquanto, tem uma nova fornada para o cachimbo. Então se espreme entre um carro e a guia. O mundo vai passando em volta. Com uma aparente alucinação, surrealista: um cavalo sem cavaleiro  surge galopando, perseguido por um policial montado e uma radiopatrulha. Capturam-no na rua Brigadeiro Tobias, já perto do Denarc, o Departamento de Narcóticos, vencido o rush do trânsito na avenida Casper Líbero.

  Um sintoma da epidemia de crack é a violência. Ali está um homem caído no chão. As pessoas que o rodeiam parecem estar drogadas. Olhar esbugalhado, um rapaz abre a porta de um “táxi” que parou – o carro de reportagem do Estadão, camuflado. “Coloca ele aí” – ordena. Esquina de ruas dos Gusmões e Protestantes, quatro da tarde, o motorista Evandro só exige que testemunhas o acompanhem. Ele não quer chegar no Pronto-socorro com um corpo perfurado por cinco tiros, e nada a declarar ao plantão policial. A multidão se impacienta, balançando o carro como se fosse virá-lo. Todos gritam. “Ai minha cabeça: parece uma panela de pressão” – reclama a mulher que tem o respeito geral.

  O Tático Móvel desce a rua a toda, sirene ligada. Dois soldados vestem luvas enquanto perguntam: -O que aconteceu? Silêncio. Um vê sangue, então pergunta: -Quem atirou? Silêncio. Fica irritadíssimo, diz uns palavrões e se dirige a todos: “Agora ninguém sabe p…. nenhuma! Ninguém viu nada. Que se …..” Partem com o corpo sem nome, sem testemunhas, sem nada para o boletim de ocorrências além de local e hora. “Foi uma menina”, revela a ex-panela de pressão, agora aliviada. “Chegou no homem e disparou cinco vezes”. Depois, saiu andando, e ninguém a deteve nem pela curiosidade de saber: -Por que? “Aqui todos sabem”, explica um policial que chegou para investigar. “É droga, com certeza”. Ele não tira a mão do gatilho do revólver, no coldre. “Fuma-se crack no meio da rua”. Só procurar pelo chão: no meio do lixo, há maricas – os cachimbos improvisados, feitos de rosca de lâmpadas ou tampa de vidro de esmalte. As garrafinhas do saudável Yakult também servem. Sem nunca ter passado do cigarro, ele adivinha pelo que já viu: “O efeito deve ser muito forte, muito mais do que o da cocaína pura”.

  Viúva duas vezes, a “Pantera Negra”, ou “Jaboticaba”, ou “Yolanda”, esclarece: “Aqui é uma rua, ali é outra”. Tem lógica, como acrescenta: “O ponto de drogas está ali; aqui ficamos nós”. Não que sejam incompatíveis. Mas o que acontece do outro lado da rua está além de uma fronteira virtual. “Não sou nenhuma santa” – e ela mostra o gesso do braço direito lotado de assinaturas de novos pretendentes. A terceira viuvez? Ela dá uma gargalhada. Uma amiga ao lado parece desconhecer fronteiras. Alucinada, murmura incongruências na calçada dominada pela prostituição. Alguém a chama de “Maria das Pedras”.

  A prostituta cobra R$35,00. Anuncia: “Faço o que posso”. O craqueiro pede R$15,00 mas deixa por R$10,00. Também faz propaganda: “Esta é turbinada”. Quem experimentou, nega. O efeito da pedrinha começa em 15 segundos, dá um pico em cinco minutos, tuiiinnnn, e decai até desaparecer no máximo de 15 minutos. Uma droga fast-food. Fica o vazio que só será preenchido por novas baforadas. Fuma-se para fumar mais, e mais, e mais. O crack é assim, insaciável. Ao estreante, enjoa. Mas produz uma sensação de potência e euforia. A cachimbada equivale ao “Shazam!” que dá poderes ao super-herói das histórias em quadrinhos. Ao abracadabra das metamorfoses mágicas. Em seis semanas de uso, vicia. Com mais tempo, provoca hipertensão, taquicardia, paranoia. E pode levar ao suicídio.

   “Ah, nem sei o que faria sem as pedras” – diz uma craqueira de 17 anos num “ponto” ao lado do tradicional Bar do Leo, na rua Aurora. “Loucura: estou nessa desde os 13 anos”. Uma vez, no barato, ela enxergou cobras avançando poste abaixo. Também já entrou em pânico, gritando sem controle. Desistiu de namorar: “Não tenho nenhum prazer sexual”. Mas ela topa qualquer programa, não importa com quem, por uma pedrinha. “Não estou nem aí para Aids”. Nem para a família: “Esqueci quem são meus pais”.

  A divisão entre consumidor e traficante se embaralha no fast-food do crack. Adriana vendia mais do que fumava. “Aí a Ivonete morreu, de cachimbo na mão, e um tiro no peito”. Era a fornecedora. Agora ela fuma a comissão do que vende. “Pintou freguês, vou buscar”. A memória começa a capengar. Já não se lembra mais de uma irmã. Gabiru a chama de “Gorda”. Maldade: ela parece ter o peso normal, nem tão franzina como os outros craqueiros.

  -O que você come?

  Ela abre a mão para mostrar uma pedra. Come crack.

  -Sede não tem?

  Ela aponta para o esgoto escorrendo para um bueiro.

  -Trabalha? “Cato lixo”, responde. Adriana se gaba de que “pode parar quando quiser”. Gabiru, ex-gráfico, também se mostra convencido: “Eu me controlo, ainda sou dono de mim mesmo”. Então, fumarão mais um pouco hoje, amanhã, depois. Micróbio nem fala mais, só espera a chama de um isqueiro. Já regrediu tanto que o apelido, de outros tempos, lhe faz justiça.

Foto: MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL (21/01/2013)

Foto: MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL (21/01/2013)

 Os pilotos do casarão Santos Dumont

  Reféns do crack, os 400 moradores do “casarão de Santos-Dumont”, no bairro de Campos Elísios, caberiam dentro de um Jumbo voando na rota de um desastre já anunciado por um oficial de Justiça há uma semana: o despejo, em mais 40 dias. Numa escadaria do cortiço, um grupo de craqueiros tenta decolar pipando um cachimbo. Voo baixo, cego, raspando a lama e o lixo.

  “A batalha aqui é grande: os drogueiros são de 30 a 40; a gente disposta a lutar, só dez” – conta um dos moradores. “Mas se nos despejarem não acabarão com a droga”, ele aposta.

  O casarão em que morou Alberto Santos-Dumont, na esquina das alamedas Nothman e Cleveland, deverá agora ser esvaziado e restaurado. Há 12 anos foi tentado o primeiro despejo. Mas 52 famílias despejadas antes de dois cortiços no bairro de Santa Cecília o invadiram. A situação mudou com a chegada dos craqueiros. “Infiltraram-se entre as pessoas de bem”, reclamam moradores que nasceram no cortiço, rompendo um silêncio imposto sob a ameaça de navalha. Uma avó que denunciou ao Estado que a propuseram tornar-se “um avião”, entregando drogas, recebeu a advertência de que poderá “sangrar”.

  À noite, quem tem que passar a pé diante do casarão, corre. O motorista que der duas voltas no quarteirão, revelando algum interesse, será abordado: quer crack? Mas “Salsicha” não está para conversas, só negócios. “Tô numa boa não”, ele avisa. “Desbaratina”, ordena. Uma mulher confessa que se casou “só para sair deste inferno”. Mas ela volta para visitar a mãe. E protesta contra a ordem de despejo: “Como aqui as portas são abertas para todos, não podemos impedir quem quer que seja de entrar. Já entrou ladrão fugindo da polícia. Já chegou para morrer ferido em tiroteios na rua. Aqui há craqueiros como nas ruas centrais da cidade. Todos os lugares têm viciados”.

  As 120 famílias, com 176 crianças, incontáveis cachorros e gatos, foram surpreendidos em março com a chegada dos “Rambos”. Eram policiais bem armados que revistaram todos os cubículos do cortiço. Pela primeira vez a comunidade do Casarão de Santos-Dumont percebeu que tinha se tornado refém dos craqueiros. E que o provável resgate será o despejo final, que o Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos, a Unificação de Centros de Cortiços, a Pastoral da Moradia e a vereadora petista Aldaiza Sposite estão tentando evitar.

  “Botar a população na rua?” – espanta-se a coligação anti-despejo. “A rua já está cheia…” Uma moradora protesta: “Tem muita família boa e trabalhadora aqui dentro que não deve pagar pelo que fazem uns poucos”. A comunidade também sofre diretamente: “Os craqueiros te quebram os canos, arrancam fios de luz, compram briga”. O anexo do casarão já está contagiado pela epidemia de crack. Completamente alucinado, um homem perambula entre crianças. “O crack me dá alegria”, apregoa. “Troquei pela cachaça, que me perturbava”. Um encarregado da limpeza, diante de um monte de lixo, propõe, mas ninguém o escuta: “Por R$2,00 limpo todo o quintal”.

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