A aldeia brasileira no Líbano

by Celkadri - Licensed under Public Domain via Wikipedia

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Al Bireh, Líbano central (12/07/1982) — A paisagem que se avista desta aldeia escondida num dos picos de uma cordilheira é tão impressionante quanto perigosa: abaixo, o verde vale de Bekaa, com seus caminhos minados, plantações de cerejas, tanques movendo-se camuflados e um céu muito claro, sem nuvens – os trovões esporádicos são disparos de canhões.

Surpreendente, nesta aldeia que esteve ao centro de uma das maiores batalhas aéreas do mundo, envolvendo mais de cem aviões sírios e israelenses, em 9/6/1982, é a informação de um de seus 1.300 habitantes:

-Aqui, todos falamos português e “arabês”.

Cinco mil habitantes de Al Bireh vivem hoje no Brasil. E 300 brasileiros estão aqui, no fogo cruzado de uma guerra que não entendem.

-Somos gente da roça, sabe? – explica um deles.

No dia “daquela chuva de bombas” morreu um brasileiro, o Sr. Ali Bacha, que viveu 22 anos entre o Paraná e São Paulo. Uma de suas filhas, Fátima, lembra:

-Meu pai tinha bronquite. E o ar daqui faria muito bem a ele, aconselhou um médico de São Paulo. Lá, ele vivia sufocando de ataques… Então, viemos. Como passou a não sentir mais nada, reuniu a família, resolvendo: vamos ficar aqui…

No dia “daquela chuva de bombas”, quando Israel atacou as baterias de mísseis soviéticos Sam-6 instaladas no vale de Bekaa, o Sr. Ali Bacha foi respirar na varanda de sua casa. Seu filho, Mohamed, e uma prima, Kessem, australiana, sentaram-se ao lado. Na varanda, sobre o penhasco, um privilegiado mirante, caiu uma bomba.

Mohamed, 20 anos, brasileiro, foi ferido na perna direita, “o osso saindo para fora”. Estilhaços queimaram vários pontos do corpo de Kessem. E o Sr. Ali Bacha morreu.

Os brasileiros de Al Bireh não entendem a guerra:

-Só pode entender isto quem tem “cabeça grande” – diz um deles.

Não a entende, também, o aiatolá da aldeia, oficialmente conhecido como o Sheik de Ipanema. Na verdade, ele pouco fala, apenas sorri, com seus 110 anos – “o ar daqui é milagroso”, comenta Fátima apontando para o líder muçulmano, a barba comprida e branca. “Se você o chamar de velho, ele sai brigando”.

Na noite “daquela chuva de bombas”, um tenente sírio surgiu, também ferido, ao pé da montanha de Al Bireh. Entrou num carro, o de um primo de Mohamed. Os brasileiros, querendo tratar de seus feridos, pediram socorro aos israelenses, já dominando grande parte do vale de Bekaa

Mas o sírio, vendo os israelenses próximos, abandonou o carro, e tentou alcançar uma casa, exatamente a casa para onde tinha sido levado Mohamed, à espera de uma ambulância.

-Ele não conseguia mais andar, e aí deitou na frente da casa. Pegaram ele; estava uniformizado. Aí falamos para os israelenses: tem mais um ferido lá dentro.

Era Mohamed, levado então para o mesmo helicóptero em que seria transportado o tenente sírio, e os dois foram deixados, como agora se diz em Al Bireh, “no hospital policial”.

Três semanas depois, Kessem, a tia ferida de Mohamed, dava notícias, recuperando-se num hospital de Jerusalém, Hadassah. E o primeiro-ministro de Israel, Menachem Beguin, dava outras notícias, no parlamento: entre os prisioneiros de guerra, “há um brasileiro”.

Era Mohamed, preso com o tenente sírio.

-Mohamed, prisioneiro de guerra? – Perguntava a “gente da roça” de Al Bireh.

Muitas casas foram abandonadas. (Celkadri. Licensed under Public Domain via Wikipedia -

Muitas casas foram abandonadas. (Celkadri. Licensed under Public Domain via Wikipedia –

-Não, ele é dono de loja – diz sua irmã, Fátima, enquanto sua mãe, Bacha, balança a cabeça, confirmando-o:

-Ele nem conhecia o sírio…

Do lado israelense, a confusão cresceria quando um primo de Mohamed, ferido nos olhos, surgiria no mesmo “hospital policial”, portador, e com certo orgulho, de um documento provando ser ele um trabalhador – só que trabalhara no Iraque, outro país em guerra com Israel.

-Trabalhava no Iraque em “interpretação” de brasileiro para o árabe — explica um irmão de Mohamed.

-Como assim? – Pergunto.

-Sim, tem uma carteirinha que diz que ele é da “agência”, no Iraque.

-Mas que “agência” é esta?

-Chama Mendes Júnior, de Belo Horizonte.

Para brasileiros de Al Bireh, nada mais natural. Mas para israelenses, um brasileiro ferido com um sírio e que tem um primo vindo da “agência”, no Iraque, no meio de uma guerra, nada mais duvidoso. A embaixada do Brasil não pode obter nenhuma informação oficial do misterioso prisioneiro de guerra brasileiro, durante um mês. Mas ontem, sinal de que exaustivas investigações começam a esclarecer o que ocorreu, já será possível visitá-lo, como anunciou um funcionário do Ministério das Relações Exteriores, em Jerusalém.

Mohamed transformou-se no “herói” da guerra, em Al Bireh.

— Você viu ele? – pergunta-se a quem chega de Israel, como se fosse natural saber dele, entre os nove mil prisioneiros de guerra.

-Acho que ele vai chegar hoje – diz uma de suas irmãs, esperançosa.

Quando cheguei a Al Bireh, no domingo, e perguntei por brasileiros, já falava com um deles. E sendo também brasileiro, uma multidão me cercou, todos falando ao mesmo tempo, oferecendo café, chá, doces, almoço, e pedindo noticias dele, Mohamed. Quando um começava a se lembrar da guerra, a roda de crianças, homens e mulheres acrescentava detalhes, o Sheik de Ipanema sempre sorrindo, calado.

A guerra foi “aquela chuva de bombas: tanques, aviões, metralhadoras, todas as armas…”

-Enquanto “chovia”, o que vocês faziam?

-Íamos todos para o esconderijo.

-Que esconderijo?

-Junto com as vacas.

O estábulo fica embaixo da casa de pedras do Sr. Ali Bacha, que morreu na varanda. É um porão, com entrada independente, na descida do penhasco.

-Ontem (sábado) fomos para lá de novo – diz Fátima, sorridente.

Por que?

-Virgem Maria: ontem houve mais tiroteio. Caiu uma bombona aqui perto. Estávamos ouvindo a tia Kessem contar como foi tratada no hospital de Israel, e veio a bomba. A gente saiu correndo pro esconderijo. Minha tia queria voltar para o hospital. Dizia: não aguento mais…

-Quem atirava?

-Num sabemos…

-O que vocês acham dessa guerra?

-Ai, credo! Deveria ter um entendimento entre eles, pois tá morrendo muita gente que não tem nada que ver…

-Aqui, quantos morreram?

-Oito, e tivemos quatro “ferimentos”.

-Onde caiu a “bombona” de ontem? Ela veio de avião?

Um rapaz responde – o que trabalhava na “agência” do Iraque:

-De avião caíram as luminosas, aquelas que clareiam tudo. A bombona caiu aqui perto, e acho que foi de canhão.

-E quem disparou?

-Os sírios – e ao ouvir esta resposta, a viúva Bacha faz “pssssss”: — Não acuse ninguém, é perigoso”.

-Se eu soubesse que tinha mais guerra, não voltava para cá – comenta Kessem, o braço engessado, as duas pernas enfaixadas, exibindo um diploma de cidadania australiana.

-Você vai voltar para a Austrália?

-Não, se puder, vou para Israel.

Neste momento, ao mesmo tempo, muitos perguntam como é possível viajar para Israel.

Mohamed, o “prisioneiro de guerra”, contam em Al Bireh, já queria voltar para o Brasil desde que escutou as primeiras bombas, “muito tempo atrás”. Aqui, ele tinha uma loja de roupas feitas, sem nome, e que incendiou, atingida por uma bomba.

-Queimaram 20 mil dólares de roupas – conta o primo da “agência do Iraque”.

Depois, ele pergunta: – Mohamed vai receber indenização?

-De quem?

-Num sei… Israel não paga?

-E por que não os sírios?

-Não tem nada que os sírios não levaram daqui do Líbano. Ninguém podia ter um Mercedes ou Peugeot, que eles queriam. Levaram um Volvo de três mil dólares… Levaram uma geladeira.

Fátima acrescenta: -levaram minha máquina de costura.

E um outro completa:

-Olha, eles são “trombadinhas”.

-E os palestinos… Eles andavam por aqui?

A casa ao lado da família Bacha era o quartel-general da OLP em Al Bireh – mais um motivo para as suspeitas contra Mohamed.

-Eles entravam e saíam dela armados. Às vezes, pegavam alguém, davam “um pau”, e soltavam mais tarde. Se um outro apanhou, não vou fazer a mesma coisa, e apanhar também.

-Mas por que batiam?

-Não queriam pagar o aluguel da casa que tomaram na marra. Depois, mexiam com as moças. Eu não deixava minha irmã sair, porque se mexessem com ela, eu não aguentaria e iria tirar satisfações, e então me batiam.

-E os israelenses?

-Não conhecemos ainda. Chegaram agora. Quando subiram a montanha, pusemos bandeiras brancas em nossas casas. E cumprimentamos todos. Estão nos dando água, mas queremos que restabeleçam a luz… Não pudemos ver a copa do mundo: é verdade que o Brasil perdeu? Vai nos faltar comida, em mais dez dias. Precisamos do telefone para avisar nossa colônia no Brasil para nos mandar ajuda. E pedir que o banco de Shtoura abra de novo, para que possamos tirar dinheiro.

Trovões em Al Bireh. Vai chover?

-Não, estão em exercício — responde um oficial israelense.

Lá embaixo, na direção de Beirute, um caminhão com crianças saltaria sobre uma mina antitanque síria. Seis mortos. O grupo ia colher cerejas no vale de Bekaa, que do chão mostra outra paisagem: dezenas de tanques sírios destruídos, casas derrubadas, movimentação de tropas, “aquela chuva de bombas” que pode recomeçar a qualquer momento. Al Bireh está a três quilômetros da frente de combates.

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