Na boca das motos

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Este troféu da Abraciclo ganhamos o fotógrafo Luis Blanco,

eu e a revista Cycle World. Foi o meu primeiro e único

freelance em um ano desempregado. Agradeço

ao editor Luis Guerrero por confiar num

repórter septuagenário, que o mercado editorial, em geral,

marginaliza. Durante a premiação, ele escreveu no Facebook 

que sou “jovem repórter”. E esse foi um outro prêmio.


Moto não fica velha; vira relíquia. Não fosse o pequeno relicário que conserva viva a paixão por motos querua1 venceram o tempo, a Boca das Motos no centro de São Paulo, talvez a maior do mundo, com mais de 70 anos, já estaria derrotada pela expansão da Cracolândia vizinha, os receptadores que vendem peças de desmanche e a prostituição nas ruas quando as lojas fecham.

Zezé, por exemplo, está aqui há 36 anos. Ele pega uma moto 2014 e a leva para a década de 50. Tem clientes em Portugal, nos Estados Unidos e em todo o Brasil. “Eu continuo na década de 70”, diz ele, José Pelose Filho, 56, dono da Recar, na rua dos Gusmões, 777. “Sou do tempo em que moto era glamour, os motoqueiros se respeitavam e quando emparelhavam, nos faróis, cumprimentavam-se”.

rua2Outro exemplo é Sylvestre Martines Paschoal, o Corvo. Aos cinco dias de idade, já levava o primeiro tombo de moto. Seu pai, o espanhol Perez, foi tirar a mulher e ele, bebê, na maternidade, no Cambuci, montado numa Velocette Mark 350. Como levara ainda outros dois filhos, voltaram cinco a bordo. Mas havia uma boiada no caminho. Ia desviar, não fosse um caminhão cortar-lhe à frente, levantando muita poeira. Despencaram ribanceira abaixo. Mais que um recorde no Guinness, ganharam a vida. O Corvinho, com três anos, já brincava na oficina de motos e motonetas do pai. Hoje é dono da Silverstone Moto, na rua General Osório, 440.

O Corvo, como Zezé, é um exímio restaurador de motos. Faz das modernas, clássicas. Em cima do balcão, expõe a Honda S90 pilotada por Beto Rockfeller, na novela de 1968-69, na TV Tupi. Avisa, por escrito: “Não vendo”. Ele ainda guarda outra relíquia: a moto do pai, autenticada por uma foto já se apagando, amarelecida, em que aparece com a irmã com a altura já alcançando o selim.

Na loja de Zezé, entre dezenas de motos, está estacionado um imponente Rols Royce azul, direção à direita, placa FQU 7074 — ano? Qual ano? “Por favor, não vamos falar disso” — ele apela. “É de um amigo que me pediu para reformar a tapeçaria”. Não fosse “muito amigo”, não faria. Dono de uma frota de motos, ele gosta de sair com Raimunda, sua Vespa. “Mas não põe no texto” — também pede. Quando compara sua Boca com a de hoje, baixa a voz, e como se fosse um segredo, fala a palavra que marca uma enorme diferença: “Desmanche”. Se o atendesse, censurando-me, cometeria um outro tipo de desmanche.

rua3 rua4 O que não tem problema algum de contar é que Pelose/Zezé chegou à Boca ao tempo em que reinavam seus indisputados três pioneiros: Edgard Soares, Felipe Carmona e Luiz Latorre. Começava a década de 30. O polígono formado pelas ruas General Osório, dos Gusmões e Aurora, cruzadas pelas ruas Conselheiro Nébias, Guaianases, Barão de Limeira e Avenida Rio Branco, pertencia ao bairro chique dos Campos Elísios, onde moravam as famílias tradicionais de São Paulo. O total de 80.350 metros quadrados abriga hoje cerca de 500 lojas de motos, peças e acessórios. Difícil saber quantas exatamente. Há oficinas e revendedores instalados até mesmo em apartamentos de prédios residenciais.

A primeira moto nasceu em 1867, de pai americano, Sylvester Howard Roper. Com cilindros a vapor, exalava um fedor incompatível com os pedestres e produzia um barulho ensurdecedor que espantava os cavalos montados pelos poderosos da época. A versão inodora, a carvão, foi testada numa corrida contra bicicletas, na pista de madeira de Charles River, pouco mais de 30 anos depois. Roper, então com 73 anos, chegou à frente, a 48 km/h. Tão empolgado ficou, ele resolveu comemorar dando outra volta. Aí perdeu: teve um infarto fulminante, caiu morto. A história oficial, como no caso de Santos Dumont e a invenção do avião, consagra o engenheiro mecânico alemão Gottlieb Wilhelm Daimler como o “verdadeiro” pai das motos, e ao primeiro motor de combustão interna de quatro tempos, a Nikolaus August Otto. Mas o motociclista pioneiro, oficial, estava mais interessado, porém, em quatro rodas. E dele viria, com Karl Benz, o Marcedes. O Brasil, perto de 1920, era apenas importador. Vinham as americanas Indian e Harley-Davidson, a belga FN de 4 cilindros, a inglesa Henderson e a alemã NSU. Depois, chegaram a japonesa Asahi, a italiana Guzzi e a tcheca Jawa. A Monark foi a primeira brasileira, com motor inglês BSA, em 1951. Em São Paulo já rodavam as motonetas Lambreta, Saci e Moskito, enquanto no Rio era fabricada a Iso, a Vespa e um ciclomotor, Gulliver. O resto é História.

O trio pioneiro da Boca era unido pela paixão comum às motos, mas separado pelos negócios. Carmona e Paco, pai de Edgardo, montaram uma revenda de modelos americanos e europeus, entre eles a Harley-Davidson, Panther, Indian, BSA, NSU, Norton e Horex. A 50 metros de distância, Latorre abriu sua loja com as italianas Laverda, Guzzi e Ducati. Mais tarde, em 1958, Edgardo proclamaria independência da sociedade herdada do pai, e se tornou um terceiro concorrente, levando a rivalidade comercial entre eles para as pistas de corrida e os pegas da Barão de Limeira ao aeroporto de Congonhas. Os três competiam em vendas na mesma rua, General (Manuel Luís) Osório, o patrono da Cavalaria, que, de certa forma, guarda certo parentesco distante com a montaria

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Moto, então, era um veneno, por viciar seus aficionados. Daí para a famosa Esquina do Veneno foi um pulo semântico nos anos 30. Era ali, no encontro dos barões de Limeira e do Erval, outro título do general Osório. O point chegou aos tempos em que Jô Soares o frequentava, ainda motociclista. Aqui Edgard tramava soldar a antiga3porta da loja do Carmona, e realmente a soldou um dia, para que ele não chegasse a tempo de ver os ajustes das motos rivais em Interlagos, antes da largada. A decadência coincidiu com a invasão das japonesas Yamaha e Honda. O golpe de misericórdia foi o golpe militar de 1964, que dificultou as importações com inúmeras barreiras alfandegárias. Os filhos dos patriarcas da Boca romântica tiveram que se virar com máquinas rodando no mercado, restaurando-as, customizando-as, ou montando as Vespas que recebiam em peças de Manaus ou direto da Itália. A Lambreta era fabricada perto do Pico do Jaraguá. Outros nomes se juntaram aos pioneiros, como o dos irmãos João e Zé Loco Benedetti — autoproclamado “o primeiro motoboy”, porque entregava as peças para os clientes.

A Esquina do Veneno morreu, ou mudou-se para algumas quadras adiante, na Cracolândia. Como manter o romantismo e charme antigos num Estado que hoje tem cerca de 5 milhões de motos? Para conquistar o enorme mercado, vale tudo. Comprar moto roubada para desmanche é, talvez, a principal estratégia. Peças sem origem e sem nota fiscal, portanto abaixo do preço, são o que procuram todos motoqueiros, nos sábados de alta visitação. A Boca aparece mais nas páginas policias que esportivas dos jornais. A PM e fiscais da Receita fazem batidas de quando em quando, emparedando os cubículos que não têm como justificar a origem de suas mercadorias. Já fecharam por quatro meses uma das grandes lojas, pretendendo dar um exemplo intimidador. O policiamento hoje inclui duas peruas com soldados, na fronteira com os craqueiros. Grupos de haitianos e africanos fazem parte agora da paisagem. Por eles florescem pequenas lan-houses, a conexão via Wi-Fi com famílias distantes. A demarcação de terreno lembra a passagem entre quarteirões étnicos em New York.

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The King of Helmets, Luiz Cláudio, dono da loja de capacetes Xaparral, na rua Conselheiro Nébias, 507, faz uma constatação bastante elucidativa: só poucos lojistas hoje têm motos. Há 20 anos, não havia quem não as tivesse. Mais que negócio, era e continua sendo um hobby. Ele próprio, a mulher e três filhos, usam quatro Scooters, mais uma 750 e outra, 650, montada artesanalmente. Na família, porém, Lucas Xaparral partiu noutra direção: adotou o skate, com o qual foi campeão no Circuito Plasma, de SP, em 2004. Carro? Há um, sim, mas fica na garagem. Todos o conhecem na Boca, para onde veio de Londrina na década de 70. Seu celular não para. Como os outros veteranos, a parte melhor de seu negócio é o restauro do passado. “Está na moda capacete antigo”, ele diz. “Faço réplicas”. Os lojistas do ramo de viseiras são seus bons e fiéis clientes, não concorrentes. Confiam-lhe os ajustes para as cabeças dos compradores, principalmente motoqueiras. Devolve-os “sob medida”.

Luiz Xaparral atribui a decadência da Boca ao crescimento do centro de SP. A Esquina do Veneno virou Esquina do Medo para muita gente. Nunca foi assaltado, e lá se vão 30 anos. Mas reconhece: “Os malandros respeitam quem é daqui”. Foi ele quem nos introduziu a um mundo invisível e inesperado entre centenas de lojas. São pequenos apartamentos em prédios residenciais transformados em revenda, fábrica e retífica de peças para motos. Uma proeza subir tornos escadas acima. O húngaro Janos Arpad Danicz estava na cozinha de ladrilhos brancos, ocupada por máquinas. “A vida é aqui”, ele diz sorridente. Não está exagerando: nasceu a três quarteirões da General Osório há 53 anos. O Corvo/Paschoal, da Silverstone, aquele do tombo de moto aos cinco dias de idade, tem uma escada em caracol, no fundo da loja. Por ela, entra-se em apartamentos acoplados com o tempo, depósitos de incrível parafernália juntada em aparente desorganização. Só não tem, com certeza, uma vassoura, ou espanador. Vi uma relíquia, uma enceradeira Arno, deixada num canto há anos. Muita poeira, graxa, máquinas, peças – e desse caos o dia-a-dia continua.

rua6 rua7O Corvo gosta do apelido. Sua trajetória passa por anos em que foi preparador de motos dos pilotos Mário Tamburro (Honda MT), de José Casarini (TZ 350) e do chinês King Man Hol (RS 125). Um dia, não resistiu, e foi para as pistas com uma RD 50. Competia com “canhões”, sem dinheiro nem patrocínio, e ainda chegava em terceiro lugar. Apelidaram-no de Maluquinho. Depois, Loukinho. Já o diminutivo Corvinho ficou para o seu filho. Em outra fase de sua vida, atuou como dublê em cenas perigosas de filmes ou novelas de TV, ou assessorava produtoras na escolha da moto ideal para anúncios. O Corvo decidiu homenagear a Honda CB 400, de 1981, que deixou um séquito de fervorosos apaixonados. E a recriou tal qual. Recebeu propostas de vendê-la. Mas a conservou em família, como a usada pelo Beto Rockfeller e a do seu pai.

Lembra de filmes como Easy Rider, com as suas Harley-Davidson Panhead 1951? Ou Top Gun Tom Cruise montado numa Kawasaki GPZ 900R? Do Exterminador do Futuro pilotando uma Fat Boy? De James Bond com uma BMW 1200C? Che Guevara na Norton 500? Do Batman, com sua Batcycles? Você entra na Hot-V2, na rua Conselheiro Nébias, 532, e o clima é esse, de cinema. Está lá escrito: “Lendas never die”. A loja vende “life style”, diz o dono Arnold Santos, 57 anos, baiano de Feira de Santana com longa vivência nos Estados Unidos. Ele está na Boca há 19 anos. Os filtros de ar de suas duas Harley têm o formato de caveira. Os rostos de suas duas filhas tatuados num braço, relojão, anéis, calça de couro, bota e um pipe de duas bocas para fumar não sei o quê preso na cintura, como revólver em faroestes, seriam de um hippie conservado em formol, se os tempos não fossem outros.

Arnold é um artesão bem conceituado. Seus alforjes para motos são cobiçados. Na sua loja cult tem tudo que um easy rider possa pretender, até bandeira americana desbotada. Tanta quinquilharia, será preciso muito tempo para ver tudo. Mas a música é boa para quem se identifica com os sinais ostensivos da era de Aquário, Beatles, Califórnia e Harleys estradeiras. Um casal bull terrier, Chayene e Spy, completa o cenário. Montam nas motos, e no selim adormecem. Alguns motoqueiros também não envelhecem; viram relíquias.

Meu mundo de ponta-cabeça


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Passei uma vida correndo — maratona de 54 anos. Já faz um ano que puxei o freio, mas ainda não parei, como carro estertorando depois de desligado. Mais alguns dias, e serei septuagenário.

Corri muito: foram horários de fechamento de jornal, muitas vezes contra o fuso horário aonde me encontrava. De bombardeios aéreos no Líbano. De tiroteios, no Panamá  e em El Salvador. De uma espada de degola, em Ruanda. De traficantes, em morro do Rio. De franco-atiradores no porto de Beirute. De inundações e terremotos.

Corridas contra bloqueio diante de lauda em branco na hora do deadline, para alcançar um avião já partindo, para encontrar um passageiro que aceitasse levar laudas e rolos de filme a alguém que o esperaria no destino, para cruzar fronteiras fechadas e para obter acessos e encontros exclusivos.

Só de lembrar dá um enorme cansaço. Poderia continuar correndo, agora contra a decadência e, finalmente, a morte. A fonte da juventude está hoje armada com poderoso arsenal: Viagra, plásticas, tratamentos anti-aging, dietas rigorosas, próteses, vitaminas, exercícios, implantes dentários, comunidades “sempre jovens” nas redes sociais, “dança para idosos”, 41 milhões de respostas no Google sobre “como manter-se jovem por mais tempo”, e a PEC da Bengala aprovada no Brasil, retardando de 70 para 75 anos a aposentadoria compulsória dos funcionários públicos.

A expectativa de vida do brasileiro subiu para 74,9 anos, em 2013, como divulgado pelo IBGE no final de 2014 — aumento de 3 meses e 25 dias em relação a 2012, ou mais de três anos sobre 2003. A Medicina nos mantém vivos com recursos e remédios cada dia mais incríveis. Eu próprio sobrevivi a um devastador câncer  de bexiga que descobri já avançado em 2012. Ganhei uma “neo-bexiga” artesanal, costurada com parte do tecido do meu intestino, durante uma cirurgia de 11 horas.

Parei de correr, mas não porque tenha querido. Estava a mil, feliz, no 11º ano em que dirigi o Diário do Comércio. Entrava pelas dez da manhã e saía depois de meia-noite. Só folgava aos sábados. Em outubro de 2014 , o jornal foi fechado . Agora, quase ao final desse forçado ano sabático, é que começo a relaxar, olhando em volta e para dentro de mim mesmo. O mundo não é só notícias, ou a próxima reportagem. Ah, quanto tempo perdi!

41vEQhA7UyL._SX352_BO1,204,203,200_Ganhei de uma amiga um livrinho que, pelo título, Travels with Epicurus, pensei que fosse sobre turismo na Grécia. O autor, Daniel Klein, filósofo de Harvard, septuagenário, trocou um recomendado implante dentário pela ilha grega Hydra, onde foi meditar sobre epicurismo. No lugar dele, sendo quem sou, talvez não resistisse à crise grega — e trabalharia.

Epicuro seduz os idosos a aproveitar ao máximo o último capítulo de nossa história pessoal. Como podemos morrer sem termos tocado o fundo de nós mesmos? Esta é a hora. Tempo para tardes preguiçosas, passeios de despedida pela Terra maravilhosa, o contato final e verdadeiro com filhos, netos e com quem dividimos nossa vida.

“Não é o jovem que deve ser considerado afortunado, mas o idoso que viveu bem, porque o jovem no seu auge vagueia ao acaso, vacilante, enquanto o idoso atracou no porto, depois de ter salvaguardada a sua felicidade verdadeira”. Estas aspas abrem o livro de “viagens” de Klein. São de Epicuro, o filósofo grego da felicidade e da vida tranquila, alcançados pela ataraxia, paz e liberdade do medo, e aponia, a ausência de dor.

O final da vida é para vivermos livres, enfim, da prisão que foi nosso dia a dia, das listas do que fazer, do novo objetivo depois dos objetivos realizados, do círculo vicioso estressante e das ambições de poder ou políticas. Não haverá nova chance; o tempo está passando.

“A liberdade pregada por Epicuro aos idosos é uma excelente oportunidade para refletir sobre a

Klein

Klein

opção sempre jovem”, diz Klein. Ele sabe que se dirige a aposentados com algum recurso, “mesmo que insuficiente para refeições gourmet ou para manter a casa dos anos produtivos”.

Nos meus primeiros dias desempregado já caçava emprego. Aquela comichão: “Não posso parar”. Tantos amigos bem colocados em jornais e publicidade, jamais me ocorreu que fosse difícil encontrar vaga, qualquer uma, apesar da imprensa em crise e o Brasil caindo em profunda recessão. Colecionei centenas de e-mails solidários e protestos pelo fim do jornal. Mas convite, não, nenhum.

Parar é difícil. Muito. Desemprego é depressão e frustração, mais agudas com o passar dos dias. Foi preciso que constatasse que o mercado de trabalho não está aberto para septuagenários. Até então me candidatei ao Google, que procurava alguém com o perfil como o meu, bem relacionado com a imprensa e empresários, políticos e governo, com inglês fluente, já experiente e dono de bom currículo. No item “idade”, final do sonho de contribuir num mundo de jovens criativos. Assim também foi com a Disneyworld, onde me candidatei a uma vaga aberta para assessor de comunicação. Já pensaram eu e Mikey? Pluto? Tio Patinhas? Não sabem lá na Flórida a atração que perderam no Brasil. Nem resposta mereci.

Mas caí na real. Estou conformado. Não que tenha desistido de trabalhar. Se pintar, por que não? Mas deixou de ser obsessão. E eu que nunca tinha noites, agora as tenho livres, para sair, namorar minha mulher, Cyra, que tantas vezes correu comigo para me embarcar num voo para o mundo em ebulição, e me esperou voltar. Tenho tempo de consertar a torneira quebrada. Jogar conversa fora. Posso rever os amigos nos fins de semana. Assistir tevê! Ainda falta bastante para me desligar completamente de uma vida que, vista de onde me encontro agora, foi uma loucura na qual mais me dei do que usufrui.

Sem arrependimentos: “As pessoas felizes lembram o passado com gratidão, alegram-se com o

Epicuro

Epicuro

presente e encaram o futuro sem medo”, diz Epicuro. Vivi a história do mundo enquanto fui jornalista em Jerusalém, Washington, Paris e Brasil. Privilégio, e o preço altíssimo valeu cada centavo.

Fui escalado um dia para entrevistar o psicanalista britânico Wilfred Bion, no Rio. O que mais me impressionou foi vê-lo enfiar a cabeça entre as pernas, para admirar a paisagem assim, de ponta-cabeça. Foi engraçado, mas hoje, ao lembrá-lo, me pergunto: será um insight de septuagenários? Meu mundo de cabeça para baixo está se revelando ótimo. Alegre. Em paz. E bonito.

 

Pequenos troféus-1 e 2

Duas paixões: Jerusalém  e o deserto

Celebração à vida, após câncer

Confronto israelense, via Brasil.

Tiroteio entre oposição

e governo em Israel

envolve o Brasil

Dayan: embaixador no Brasil?

Dayan: embaixador no Brasil?

A campanha contra a nomeação do israelense Dani Dayan para assumir a embaixada de Israel em Brasília, por ele ser um símbolo da colonização judaica na Cisjordânia, não começou no Brasil. A objeção ao novo embaixador, revelada em nome da presidente Dilma Rousseff, mas atribuída ao chanceler informal Marco Aurélio Garcia, foi pedida por três veteranos embaixadores israelenses ao embaixador do Brasil em Israel, Henrique Sardinha Pinto.

“Traição!” — grita-se em Israel. O ministro da Defesa, Moshe Ya’alon, escreveu em sua página no Facebook: “Esses cidadãos israelenses (os três ex-embaixadores e militantes de esquerda) perderam toda a vergonha (…) É por causa de atitudes assim que Israel vive sob ataque no mundo e sujeito a tentativas de deslegitimá-lo”.

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Um dos “traidores”, antigo diretor-geral do Ministério de Relações Exteriores israelense, Alon Liel, disse à rádio das Forças Armadas, ao ser questionado por que foi fazer sua campanha contra a nomeação de Dayan direto no Brasil, e não em Israel: “Se eu considerasse que meu campo político pudesse chegar ao poder, agiria aqui. Mas minha ideologia não tem chances em eleições num futuro próximo. Daí a decisão tomada. A solução de dois estados (um palestino, outro israelense) só será salva se apelarmos à comunidade internacional”.

Alon Liel, que foi embaixador na Turquia, e os ex-embaixadores de Israel na África do Sul, Ilan Baruch, e na França, Elie Barnavi, com apoio de militantes de esquerda e do ex-deputado do partido Meretz, Mossi Raz, encontraram-se com representantes da embaixada do Brasil e da Autoridade Palestina. Disseram-lhes, em resumo: “Aceitar a nomeação de Dani Dayan será o mesmo que dar legitimidade internacional à colonização (nos territórios ocupados da Cisjordânia)”. Até chamaram Dayan de “chanceler dos colonos”.

Nascido na Argentina, Dayan (nenhuma relação com o general Moshe Dayan) foi presidente do Yesha Council, acrônimo para Yehuda (Judeia), Shomrom (Samaria) e Aza (Gaza), nomes bíblicos usados para designar a Cisjordânia e Gaza, central dos conselhos municipais das colonias construídas nos territórios conquistados por Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967. Ele próprio, secular, mora numa das colônias, em Maale Shomron.

Não só esbravejou o ministro da Defesa. O da Economia, Arye Dery, presidente do partido

Ya'alon, mnistro da Defesa (foto: Ofer Vaknin)

Ya’alon, mnistro da Defesa (foto: Ofer Vaknin)

ultraortodoxo Shas (Guardiães da Torá), propôs que “os esquerdistas sejam condenados”. Para ele, é por essas ações que a esquerda está cada vez mais distante do poder em Israel”. A deputada social-democrata Shelly Yachimovich, do Partido Trabalhista (pela Machane Hatzioni), ficou irritada ao ver gente de seu campo político agir com tamanha “baixeza” — e, pedindo desculpas, acrescentou: “idiotas”. Aos três ex-embaixadores, desafiou: “Por que vocês não moveram montanhas aqui? É inadmissível fazer isso através de um governo estrangeiro”. Para ela, Dayan é um nomeado de muito valor — uma das “mais inteligentes e tolerantes figuras públicas, exemplar por seu diálogo entre esquerda e direita”. Ainda arrematou: “Israel é governado pela direita, eleita democraticamente pelos eleitores israelenses, e assim designa seus embaixadores, alguns do corpo diplomático, outros não, como o fizeram governos anteriores”.

O líder da oposição Isaac Herzog, da União Sionista, e o presidente do partido Yesh Atid (Há Futuro), o jornalista Yair Lapid, renovaram o apoio à indicação de Dani Dayan ao embaixador brasileiro Henrique Sardinha Pinto. Eles acreditam que a nomeação ainda tenha futuro. O presidente da Knesset, o parlamento israelense, Yuli Edelstein, deixou claro que a candidatura à embaixada em Brasília se mantém “sólida” e que qualquer tentativa de desqualificá-la “deverá ser rejeitada”.

Colônia israelense na Cisjordânia

Colônia israelense na Cisjordânia

Dayan publicou artigo no The New York Times, em junho de 2014, propondo a derrubada de muros físicos e psicológicos que separam israelenses e palestinos. Explicou, na tradução de Rua Judaica: “A disputa territorial árabe-israelense é um jogo de soma zero, mas as considerações humanas não são. Não ganhamos nada com a humilhação ou a pobreza dos palestinos. Melhorar a qualidade de vida dos palestinos não conflitua com outros propostos endgames, como anexação da Judeia e da Samaria ou a fórmula de dois Estados. Nem as questões do status final serão alteradas: Os palestinos continuarão a votar nas eleições da Autoridade Palestina e os israelenses, nas eleições de Israel”, Ou seja: ao invés de dois estados, um só, binacional.

Postais da Eurábia

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Por Gunduz Aghayev

O artista Gunduz Aghayev criou a série Metamorfose

aproximando as culturas do Ocidente e do Oriente.

O que mostra o contraste entre elas, diz ele, “é a arquitetura”.

Com a onda de refugiados para a Europa,

apelidada já de Eurábia, as ilustrações de Aghayev

ganham também outra dimensão.

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Feliz ano novo, Israel?

Americanos no Sinai

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Foreign Policy

Os Estados Unidos estão reforçando suas tropas de paz no Sinai. A Rússia tem elevado o número de seus instrutores militares na Síria. O Irã já mandou centenas de seus Guardas Revolucionários para Zabadani, ao norte de Damasco, nos últimos dias.

E Israel? Os israelenses vão comemorar o ano novo judaico de 5776, a partir de domingo ao pôr do sol.

Essa escalada ao sul e ao norte de Israel não prenuncia um feliz ano novo.

EUA — O contingente americano no Sinai foi reforçado por um batalhão de infantaria e cirurgiões para emergências, além de novos equipamentos de observação e alerta precoce. Estão agora no deserto 720 soldados. O reforço foi decidido depois que uma bomba detonada numa estrada, enquanto passava uma patrulha, feriu quatro, na semana passada. A presença de terroristas do Estado Islâmico não é miragem: eles já atacaram israelenses e egípcios, em apoio ao Hamas, em Gaza.

Iranianos na Síria

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General Mohammad Ali Jafari, comandante dos Guardas Revolucionários (foto YouTube/Press TV)

IRÃ — Os Guardas Revolucionários do Irã são uma novidade. Antes, os iranianos apenas treinavam o Hezbollah libanês para a guerra contra o EI, que plantou a semente de um Califado entre a Síria e o Iraque. Agora eles chegam às centenas e tomam posição nos altos de Zabadani, de onde controlam a estrada entre Damasco e Beirute. Os militares israelenses asseguram que o Irã está coordenado com a Rússia, citando encontros entre generais em Moscou. Como se fosse um voto de final de ano para os judeus, o líder religioso iraniano, aiatolá Khamenei, desejou apenas o máximo de mais 25 anos de vida para Israel que, segundo ele, deixará de existir.

Aeroporto russo na Síria?

Members of Al-Qaeda's Syrian affiliate and its allies sit on top of a former Syrian army figther jet after they seized the Abu Duhur military airport, the last regime-held military base in northwestern Idlib province on September 9, 2015 in the latest setback for President Bashar al-Assad's forces. Al-Nusra Front and a coalition of mostly Islamist groups captured the military airport after a siege that lasted two years, the Syrian Observatory for Human Rights monitor said. AFP PHOTO / OMAR HAJ KADOUR

Al Qaeda com caça russo, AFP PHOTO / OMAR HAJ KADOUR

RÚSSIA — Os russos estão com o presidente Bashar Assad há 4,5 anos e cerca de 250 mil mortos. Há vários sinais de que se dispõem a ampliar a parceria. Israel acompanha as obras russas em Latakia: um aeroporto militar? É o que antecipam. Também, no porto de Tartus, o movimento de navios russos cresceu notavelmente. O analista do Instituto de Política do Oriente Médio em Washington Jeffrey White, ouvido pela agência France Press, informa que “muito material de combate e veículos logísticos” atravessa a Turquia desde abril.

O ministro da defesa de Israel, Moshe Yaalon, deixou claro, num encontro com repórteres, que só intervirá na escalada russo-iraniana se houver transferência de armas para o Hezbollah no Sul do Líbano. Numa intervenção anterior, em janeiro, a aviação israelense matou o comandante dos Guardas Revolucionários, general-brigadeiro Mohammad Ali Allahdadi, ao atacar um comboio de armas na Síria.

Zabadani: cenário de guerra?

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Morremos na praia

O refugiado de 3 anos trazido morto à praia

pelas ondas da imigração é a morte de todos nós.

In memorian: o horror nas capas dos jornais.

Corrupção no Brasil, by USA.

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Incrível: estava passeando pelos últimos e-mails de Hillary Clinton desclassificados (no sentido de liberados), quando, curioso com que veria se pesquisasse “Brazilian corruption”, recebi um guia da corrupção no Brasil de 1992. Alguns nomes são os mesmos ainda hoje. No caso de Odebrecht, por exemplo, era Norberto, agora é Marcelo. Collor continua um case para estudo tanto ontem como agora. Se apenas copiasse o material, desformataria-o, e seria difícil de lê-lo com tudo em maiúsculas e sem parágrafos, empastelado. Assim, fotografei toda a aula de corrupção, que reproduzirei aqui em 14 quadrinhos. Não tenho

The Economist

The Economist

tempo para fazer a tradução do inglês para o português. Quem não o souber, porém, só de passar os olhos verá  “jeitinho”, siglas de partidos e nomes dos suspeitos de sempre. Quando um quadro acaba sem ponto final ele continuará no seguinte. Quando isso não acontecer, é porque o restante era insignificante para ocupar um espaço sozinho, lembrando que o texto, escrito em 1992 e desclassificado em 2012, não traz nenhuma novidade bombástica. Vale pela aula de corrupção para os diplomatas do Departamento de Estado e os agentes dos serviços de inteligência que lidavam com o Brasil. Vamos lá (os espaços em branco são censura):

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Digito, logo existo.

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Este artigo foi escrito nos anos 90, na transição da máquina de escrever para o computador.

Com o toque de um botão, liga-se o computador, penetra-se na supervia mundial de informação, cozinha-se no micro-ondas, envia-se fax, acionam-se vídeos, sistema de som, filmadora e controle remoto, acerta-se o relógio digital, consultam-se a agenda e secretária eletrônicas, desperta-se o telefone celular e movem-se os vidros elétricos do carro.

Só um problema: -Qual botão?

Apertando o botão errado, apaga-se a tela do computador, afunda-se no cyberspace, piscam números e luzes nos relógios dos eletrodomésticos, suprimem-se texto, voz e imagem gravados, para-se no acostamento da supervia eletrônica e sai-se frustrado, irritado, a autoestima machucada e com medo de tentar de novo – sintomas de tecnofobia, uma irreprimível aversão a novidades tecnológicas, fenômeno da era digital.

Alguns tecnofóbicos suam e sentem palpitações quando pressionados a apertar o botão de uma nova tecnologia. “São pessoas que não conseguem acompanhar a velocidade das inovações” – explica o psicólogo Larry Rosen, autor de uma pesquisa que revelou que só a metade dos universitários nos Estados Unidos fica tranquila interagindo com um computador. Outro 1/10 já está com a “síndrome de 12:00” – a hora que pisca nos relógios nunca acertados, às vezes vedados com esparadrapos.

man-vs-machineO ex-secretário de Cultura de São Paulo, Sabato Magaldi, não é um tecnofóbico. Ri muito quando apontado como suspeito portador de graves sintomas. E explica que apenas não precisa “desse inferno”, o computador: “Acaba a luz, perde-se tudo; aperta o botão errado, tem que chamar um técnico”. Com a antiga máquina de escrever semiportátil, uma Erika, ele fica com a impressão de “armar melhor o texto”. Escreve rápido. E se surge algum problema, consegue resolver sozinho. Orgulha-se de ser “do tempo do linotipista”.

“Acho as máquinas boas enquanto não enguiçam”, pondera Sabato Magaldi. “Se enguiçam, dá vontade de quebrá-las. Minha reação é de violência: não tenho vocação para consertar, não sei mexer”. Ele até já quis atirar um carro no rio Pinheiros. Outra impossibilidade são as agendas eletrônicas. “Nem pensar! Tenho cadernos com 200 mil telefones, as folhas caindo de todos os lados…” Então, ele pergunta: “Como vou copiar tudo isso?” E também, para quê? “Não gosto de ver as coisas no computador. Gosto mesmo é de papel branco, batido a máquina”.

davinci_transhuman“Tecnofobia é um sinal dos nossos tempos”, diz Dan Gookin, que escreveu o guia “Windows for Dummies” – ou “Windows para Idiotas”, abrandado na edição brasileira com o título de “Windows para Leigos”. É a “fobia dos anos 90”, confirma a indústria de computadores Dell, no Texas, com o resultado de uma pesquisa feita no final de 1994: “Mais da metade dos americanos está com tecnofobia em diferentes graus. Cerca de 1/4 de todos os adultos nunca conseguiu programar um VCR ou a memória do rádio do carro. Muitos ainda lamentam a morte da máquina de escrever”.

Nem as crianças americanas escapam à epidemia virtual, embora já nasçam programadas com um antídoto contra tecnofobia. Um software introduzido em 1994 pela gigante Microsoft pretendia ser uma ferramenta que as ensinasse a escrever, brincando com desenhos e sons. Mas o ambiente Windows, desenvolvido para facilitar o convívio com os computadores, veio alterado, com estranhos e confusos ícones. Até um mini-gênio brasileiro da computação que vive em Bethesda, Maryland, onde faz baby sitter para computadores de adultos, acertando-lhes os acentos e cedilhas, foi derrotado pelo “programa infantil”. E muitos pais reclamaram de um preocupante sintoma tecnófobo nos filhos: uma súbita perda da autoestima.

“O que o mundo conhece e entende, mesmo, é o telefone” – admite um gerente de produtos na indústria Hewlett-Packard, Shafhi Rava.

As novidades eletrônicas são como cães: sabem quando alguém tem medo. Na casa dos jornalistas Mônica Falcone e Marco Antônio Rezende, ex-diretor da revista VIP/Exame, elas parecem estar à espreita, rosnando. Só Lucas, o filho de cinco anos, se dispõe a enfrentá-las armado de manuais, embora ainda não saiba ler. Foi ele quem descobriu que o vidro do Ômega novíssimo, elétrico, não funcionava porque estava quebrado.

asimo “Nosso pânico com tecnologia é tamanho”, explica Rezende, “que a gente aceitou a ideia de abrir primeiro a porta toda vez que precisava baixar o vidro para pedir gasolina em postos. Já tínhamos renunciado. Rodamos um mês com ar condicionado ligado, os vidros fechados”. Mônica já estava também conformada: “Quando os aparelhos se revoltam, desisto”. A rebelião tende a se alastrar. Já aderiram, total ou parcialmente, ao fax, ao micro-ondas, ao computador 486, ao telefone de duas linhas e dez ramais, à máquina de café e a um sistema múltiplo de vídeo.

“Durante anos a gente gravou filmes da TV com péssima qualidade até Mônica descobrir, num manual com 12 a 14 línguas, inclusive o finlandês, que tinha lá o tracking, e que para sintonizar melhor era preciso fazer o tracking” – diz Rezende. (OK, o repórter também não sabe o que seria tracking num VCR; já num míssil disparado, é a trajetória.) O sofisticado computador virou uma simples máquina de escrever. O telefone perdeu fantásticos recursos e uma generosa memória porque foi desligado da tomada. Se o plugam, pisca como árvore de Natal. Usa-se o micro-ondas só para esquentar comida. “Tenho uma filosofia sobre isso”, revela Mônica. “Acho que todos esses aparelhos custam mais do que rendem em termos de felicidade. Dão mais trabalho do que prazer. Então, pego de cada um o que preciso”. Por “amor materno”, porém, ela está abrindo uma exceção. Começou a aprender jogos eletrônicos, que “detesta”, porque Lucas “adora” e quer jogá-los “de qualquer jeito”.

O psicólogo Donald Norman, que escreveu “The Psychology of Everyday Things”, um exame dos objetos usados todos os dias, concorda que “é muito difícil programar um VCR”. E reclama: “Temos mais o que fazer em nossas vidas do que gastar uma hora aprendendo a usar um forno micro-ondas”. Ele está trabalhando na fábrica de computadores Apple, mais “amigáveis” dos desbravadores do cyberspace analfabetos em informática do que os primos da família DOS e Windows. “As pessoas temem com toda razão a nova tecnologia”, ele diz. “É complexa, quem a faz não sabe nada sobre quem a vai usar”. Alguns vídeos já aceitam comandos orais. O próximo controle remoto será como um mouse de computador. Mas sobram os relógios para programar. E o temor do desconhecido. Para cada pai e mãe intimidados, há sempre um Lucas que se sente à vontade num teclado. As crianças parecem ter chips no sangue.

images “Meu sobrinho de 12 anos desmonta um computador”, espanta-se o publicitário Cláudio Carilo. “Sabe tudo”. E lamenta: “Minha geração (a de 1953) foi atropelada. Na juventude, aprendi mecânica. Mexe-se aqui, e há uma reação ali. De eletrônica não sei nada.” Mas ele não se julga um A_M_quina_de_Escrevertecnofóbico. E por um simples motivo: “Nem chego perto para ter medo”.

O futurólogo Alvin Toffler resumiu a evolução do poder em seu último livro, “Power Shift”. Primeiro, o poder derivou da força bruta. Depois, da riqueza. E agora chegou a Idade da Informação. O chefe do Departamento de Filosofia da Unicamp, Osvaldo Giacóia, está confrontando o novo poder tecnológico numa realidade não mais virtual: a filha, aprendendo computação no primeiro grau da Escola Nossa Senhora do Rosário, acaba de lhe pedir um computador. Ele próprio, em Berlim, recentemente, constatou que o acesso aos arquivos das bibliotecas só se abre aos que sabem computar, “pressupondo-se que sejam todos”. Então, ele se pergunta: “Em que medida estamos preparados para uma confrontação com a civilização tecnológica? Em que medida compreendemos o que é a essência da técnica?”

O professor Giacóia lembra o filósofo Heidegger: “Ele afirma que não podemos incorrer na ingenuidade de pensar instrumentalmente a técnica, como se exercêssemos um controle autárquico sobre o emprego da tecnologia. O computador que minha filha está pedindo me leva a refletir: não somos nós que controlamos os processos tecnológicos, mas estamos envolvidos numa civilização tecnológica. É um movimento planetário que tende a ligar as pessoas nos mais diferentes pontos no espaço e nos mais diferentes momentos no tempo”.

Digito, logo existo. O professor Giacóia se impressiona menos com as façanhas do correio eletrônico e da captura instantânea de megabytes de informações em universidades mundo afora do que “com o tipo de relacionamento que se instala entre nós e o produto do nosso próprio pensamento”. Como se o pensamento se tornasse disponível e manipulável para apropriação técnica.

A tecnofobia está produzindo um “mercado da ignorância”. Um dos últimos anúncios da IBM para a TV americana nem mostra um computador, embora feito para vendê-los. O foco é concentrado no atendimento aos consumidores. Aparece um comediante garantindo que eles serão atendidos no primeiro toque do telefone, sem ficar na linha esperando. E convida: ligue, se tiver um problema; nem se preocupe em ler o manual. “A administração da ignorância do consumidor tornou-se mais importante do que a inovação”, comenta um pesquisador do Massachusetts Institute of Technology (MIT), Michael Schrage. Acabou-se o tempo das inovações programadas para intimidar. A última moda na linha de montagem das famosas marcas multinacionais obedece a uma regra simples: “Produza para idiotas, e todos comprarão”.

computador-hp-all-in-one-omni-2201000brO Centro de Estudos e Pesquisas do Procon também investe no “mercado da ignorância”. Mas com outra arma: um guia de compras. Até agora foram lançados 12 folhetos “traduzindo” os manuais de fornos micro-ondas, fogões, lava-louças, aspiradores de pó, liquidificadores, refrigeradores, chuveiros elétricos, lavadoras de roupa, máquinas de costura, TVs, ferros de passar e até bronzeadores. Quem for à 46a Feira de Utilidades a0frD0IDomésticas (UD) poderá pegá-los, grátis, nos portões de entrada. Um dia virão outros para tele copiadoras, celulares, computadores, vídeos e sistemas de som.

“Nos manuais há termos que não dizem nada aos consumidores”, explica a diretora do Centro de Estudos do Procon, Vera Marta Junqueira, professora de Psicologia do Consumidor na FMU. “Nós os ajudamos com subsídios que podem orientar a compra”. Ela própria não está imune à tecnofobia. E até admite que sofreu um pequeno surto ao sentar-se diante de um computador. “Tão difícil acertar aquela flechinha!” Hoje ela ainda o subutiliza. Mas lembra, esperançosa: “A fome e a sede põem a lebre a caminho”.

Os espectadores americanos gargalhavam quando, em “Um Ladrão Bem Trapalhão”, Woody Allen respondia que “sim”, sabia operar um computador, durante uma entrevista para concorrer a um emprego. A questão era engraçada em 1969. Mas ele ainda acrescentaria uma pequena mentira: “Minha tia tem um”. Hoje devem tê-los todas as tias nos Estados Unidos. No ensaio “Parem o trem da tecnologia que quero descer”, Steve Harvey, do Los Angeles Times, comenta: “Pergunto-me se a cena faria alguém rir hoje em dia. Eu talvez choraria”.

A livraria dos espiões

OU:

A ESPIÃ QUE VENDIA LIVROS

Bancroft, foto AP para o jornal Ledger.

Elizabeth Bancroft, foto AP para o jornal Ledger.

Washington, DC (15/11/1989) — Um dos livros mais vendidos, numa misteriosa livraria especializada em espionagem, a três quarteirões da Casa Branca, no centro de Washington, é um manual: “Como desaparecer completamente, e nunca ser descoberto”. No mesmo gênero, há um outro best-seller: “Como criar uma nova identidade” – escrito por um autor evidentemente anônimo.

gtw1_markoe1a_400-copy-s600x600 “São livros mais procurados por homens”, explica a “diretora de aquisições” do National Intelligence Book Center, Rose Mary Sheldon. “As mulheres procuram um outro livro” – ela explica, sorrindo, e aponta para uma prateleira, onde se destaca o manual “Como encontrar pessoas desaparecidas – um guia para investigadores”.

A livraria dos espiões fica no sexto andar de um prédio na movimentada esquina das ruas K e 17. Não há nenhuma vitrina, no andar térreo, para atrair os curiosos. Nem propaganda. Só uma única vez, em quatro anos, ela foi anunciada, num pequeno classificado do jornal The Washington Post. Sua existência tornou-se conhecida entre funcionários do Pentágono e do Conselho de Segurança Nacional, agentes da CIA e de outros serviços secretos, alguns diplomatas, jornalistas e escritores. Na porta, apenas uma placa discreta. Dentro, surpresa: uma pequena antessala em que os clientes são examinados através de uma janela de vidro, e onde devem deixar casacos, embrulhos, a pasta 007 e máquinas fotográficas.

Cada um dos armários, iguais aos guarda-volumes de moeda dos aeroportos, tem a bandeira de um país, para facilitar a posterior identificação. Falta a brasileira: “Não temos clientes brasileiros, nem pelo reembolso postal” – desculpa-se Rose Mary Sheldon, uma doutora em Filosofia pela Universidade de Michigan que está escrevendo um livro sobre a coleta de informações na antiga Roma.

A diretora Rose, a gerente Kellie Tassone e a fundadora da livraria, Elizabeth Bancroft,

Elizabeth Bancroft

Elizabeth Bancroft

cultivam o mistério. Elas tratam os fregueses como se fossem o lendário terrorista internacional “Carlos”, em pessoa, em busca das últimas novidades da CIA ou da KGB. Pedem a identidade dos repórteres que as entrevistam, “apenas por rotina”. E dão informações a conta-gotas. Por trás de um vidro blindado, elas observam quem chega, dão as instruções sobre os armários da antessala, e controlam a segunda porta, que se abre para a livraria – um quarto comprido, com uma estante no meio e outras acompanhando as paredes, com um total de 1.400 títulos.

Elizabeth Bancroft não dirá quem foi que lhe deu o dinheiro para fundar o National Intelligence Book Center (NIBC). “Um investimento privado”, conta. E Kellie garantirá: “Não temos nada com o governo”. Um freguês, com um forte sotaque árabe, pergunta à Rose Mary “se tudo está mesmo à venda”. Parece ter encontrado o paraíso. Já de partida, prometendo voltar, “inch’allah”, ou “se Deus quiser”, percebe que ela o compreendeu, sem necessidade de tradução.

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-Você já’ esteve no Oriente Médio? — perguntei.

-Na Jordânia e em Israel – diz Rose, que aumenta o suspense ao acrescentar: “E não como turista…” Daí ela não passará. Nem Elizabeth. Nem Kellie. Nenhuma delas revelará se já trabalhou em serviços secretos. Faz parte do charme do NIBC.

Numa parede, um poster adverte:

           “RÚSSIA

            Visite-nos

           Antes que o visitemos

spy8No balcão, camisetas da CIA e da KGB, a 12,50 dólares cada. Ou emblemas, a 6,50 dólares. Ou canecos, a 9,50 dólares. “São lembranças muito vendidas”, comenta Rose. “O folclore da livraria… Quem vem aqui procura os livros”.

A raridade do NIBC é o “Greek Memories”, um relatório de 1930 escrito por um funcionário do serviço de inteligência britânico – o primeiro a mencionar a existência do M16, o serviço secreto da Inglaterra. O livro foi banido pelo governo inglês. Seu preço: 1.200 dólares.

A estante de criptografia é bastante popular. “Muita gente quer aprender a se comunicar com códigos, ou a decifrá-los”, diz Rose. Um dos livros, “Cryptograms and Spygrams”, de Norma Gleason, promete “muitas horas de desafios” aos leitores. A parte de “serviços” e manuais surpreende. Aqui não só se encontram os testes de admissão para a CIA e FBI, ospy10u a lista dos diplomatas em Washington, ou dicionários inglês-russo e russo-inglês, ou as dicas para comprar uma carteira de identidade pelo correio, mas, também, uma obra tão insólita e estranha como a “Técnicas do Interrogatório Físico”, de Richard Krousher, que tem um capítulo chamado “Humilhação”, outro para “auto tortura física”, e mais ”Derivação Sensorial”, “Intrusão nos orifícios do Corpo”, “Batendo”, “Queimando”, “Esmagando” e “Mutilações”. Um repórter do “City Paper” de Washington, Robert Cwiklik, levanta a hipótese de que o manual possa ter sido encontrado entre agentes da CIA operando na América Central. Rose Mary não o confirma. Nem o desmente.

Alguns outros títulos sugestivos: “O Guia do Arrombador”, por Eddie “Arame”; “O livro de cabeceira dos espiões”; a biografia do presidente George Bush em russo; “Spyclopaedia”; “A nova KGB”; “Métodos de Disfarce”; “Mapa de Bolso da USRR”; “Guia Ilustrado das Técnicas e Equipamentos da Guerra Eletrônica”; “A agenda Secreta: Watergate, a Garganta spy6Profunda e a CIA”; e “Revelações de um contra-terrorista”. A ficção cobre apenas um por cento dos livros e só inclui dois autores, John le Carre e Tom Clancy. Há uma prateleira repleta de documentos iranianos, e outra para periódicos, como o “Intelligence Quarterly”, “The International Journal of Intelligence and Counterintelligence”, e um boletim sobre ações clandestinas. As versões em vídeo começam a aparecer. Uma delas, por exemplo, é “Por Dentro da CIA”. E há uma seção de bibliografias e de clássicos, com os famosos livros de espiões e espionagem.

Não há nada proibido à venda no NIBC, garante Rose Mary. E qualquer livro pode ser comprado por telefone (202) 797-1234, ou por fax (202) 331-7456, mesmo fora dos Estados Unidos, pagando com cartão de crédito, ordem postal ou cheque. O catálogo de livros custa 5 dólares, e pode ser pedido pelo correio, ao endereço do NIBC, 1700 K Street, NW, Suíte 607, Washington, DC 20006.

“Ainda não temos nenhum cliente no Brasil”, comenta Rose Mary. Entre os fregueses norte-americanos, estão o escritor Norman Mailer e Jacqueline Onassis. E dezenas de assíduos anônimos.

Nota

A livraria NIBC sumiu deixando poucos rastros, em 1999. Aos clientes foi informado que seus livros poderiam ser encontrados na tradicional livraria Olsson, no Dupont Circle, em Washington, DC, fechada abruptamente em 2008, depois de 36 anos de clientes fieis.

Elizabeth Bancroft reapareceu como diretora executiva da Association of Former Intelligence Officers (AFIO), em 2003. Tanto era do ramo que assessorou diversos segmentos da inteligência civil e militar dos Estados Unidos. Assim se explica porque ela não gostava de ser fotografada nem gravada: ao repórter que a entrevistava com o gravador ligado, dizia: “Quando você atravessar aquela porta, para sair, sua fita será apagada”.

Sorrisos de Silício

Eu não rio fácil com piadas que fazem rir os gênios do vale do Silício. (Invejo-os porque gostaria de morar em San Francisco). Os “geniuses” riem de ingenuidades. Ou quando se auto-criticam.

Hoje vi alguns cartuns minimalistas que provocam ao menos um leve sorriso ao confrontarem o mundo da invenção com o mundo real. Entre tempo real e tempo atemporal.  Veja:

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Quem explora este veio é uma designer freelance, Liz Fossilien, que trabalhou numa empresa de música por acaso chamada… Genius. Ela agora tem um site em que expõe o contraste entre o mundo real e o mundo plugado, não só com cartuns únicos mas mas também com histórias em quadrinhos. Ei-la coroada em sua home em… http://fosslien.com/

ela

No site Design You Trust (http://main-designyoutrust.netdna-ssl.com/wp-content/uploads/2015/08/2129.jpg) Fosslien diz:

“Eu trabalho em tech, vivo em San Francisco, bebo café caro… e sou alvo dessas piadas”.

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