A livraria dos espiões

OU:

A ESPIÃ QUE VENDIA LIVROS

Bancroft, foto AP para o jornal Ledger.

Elizabeth Bancroft, foto AP para o jornal Ledger.

Washington, DC (15/11/1989) — Um dos livros mais vendidos, numa misteriosa livraria especializada em espionagem, a três quarteirões da Casa Branca, no centro de Washington, é um manual: “Como desaparecer completamente, e nunca ser descoberto”. No mesmo gênero, há um outro best-seller: “Como criar uma nova identidade” – escrito por um autor evidentemente anônimo.

gtw1_markoe1a_400-copy-s600x600 “São livros mais procurados por homens”, explica a “diretora de aquisições” do National Intelligence Book Center, Rose Mary Sheldon. “As mulheres procuram um outro livro” – ela explica, sorrindo, e aponta para uma prateleira, onde se destaca o manual “Como encontrar pessoas desaparecidas – um guia para investigadores”.

A livraria dos espiões fica no sexto andar de um prédio na movimentada esquina das ruas K e 17. Não há nenhuma vitrina, no andar térreo, para atrair os curiosos. Nem propaganda. Só uma única vez, em quatro anos, ela foi anunciada, num pequeno classificado do jornal The Washington Post. Sua existência tornou-se conhecida entre funcionários do Pentágono e do Conselho de Segurança Nacional, agentes da CIA e de outros serviços secretos, alguns diplomatas, jornalistas e escritores. Na porta, apenas uma placa discreta. Dentro, surpresa: uma pequena antessala em que os clientes são examinados através de uma janela de vidro, e onde devem deixar casacos, embrulhos, a pasta 007 e máquinas fotográficas.

Cada um dos armários, iguais aos guarda-volumes de moeda dos aeroportos, tem a bandeira de um país, para facilitar a posterior identificação. Falta a brasileira: “Não temos clientes brasileiros, nem pelo reembolso postal” – desculpa-se Rose Mary Sheldon, uma doutora em Filosofia pela Universidade de Michigan que está escrevendo um livro sobre a coleta de informações na antiga Roma.

A diretora Rose, a gerente Kellie Tassone e a fundadora da livraria, Elizabeth Bancroft,

Elizabeth Bancroft

Elizabeth Bancroft

cultivam o mistério. Elas tratam os fregueses como se fossem o lendário terrorista internacional “Carlos”, em pessoa, em busca das últimas novidades da CIA ou da KGB. Pedem a identidade dos repórteres que as entrevistam, “apenas por rotina”. E dão informações a conta-gotas. Por trás de um vidro blindado, elas observam quem chega, dão as instruções sobre os armários da antessala, e controlam a segunda porta, que se abre para a livraria – um quarto comprido, com uma estante no meio e outras acompanhando as paredes, com um total de 1.400 títulos.

Elizabeth Bancroft não dirá quem foi que lhe deu o dinheiro para fundar o National Intelligence Book Center (NIBC). “Um investimento privado”, conta. E Kellie garantirá: “Não temos nada com o governo”. Um freguês, com um forte sotaque árabe, pergunta à Rose Mary “se tudo está mesmo à venda”. Parece ter encontrado o paraíso. Já de partida, prometendo voltar, “inch’allah”, ou “se Deus quiser”, percebe que ela o compreendeu, sem necessidade de tradução.

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-Você já’ esteve no Oriente Médio? — perguntei.

-Na Jordânia e em Israel – diz Rose, que aumenta o suspense ao acrescentar: “E não como turista…” Daí ela não passará. Nem Elizabeth. Nem Kellie. Nenhuma delas revelará se já trabalhou em serviços secretos. Faz parte do charme do NIBC.

Numa parede, um poster adverte:

           “RÚSSIA

            Visite-nos

           Antes que o visitemos

spy8No balcão, camisetas da CIA e da KGB, a 12,50 dólares cada. Ou emblemas, a 6,50 dólares. Ou canecos, a 9,50 dólares. “São lembranças muito vendidas”, comenta Rose. “O folclore da livraria… Quem vem aqui procura os livros”.

A raridade do NIBC é o “Greek Memories”, um relatório de 1930 escrito por um funcionário do serviço de inteligência britânico – o primeiro a mencionar a existência do M16, o serviço secreto da Inglaterra. O livro foi banido pelo governo inglês. Seu preço: 1.200 dólares.

A estante de criptografia é bastante popular. “Muita gente quer aprender a se comunicar com códigos, ou a decifrá-los”, diz Rose. Um dos livros, “Cryptograms and Spygrams”, de Norma Gleason, promete “muitas horas de desafios” aos leitores. A parte de “serviços” e manuais surpreende. Aqui não só se encontram os testes de admissão para a CIA e FBI, ospy10u a lista dos diplomatas em Washington, ou dicionários inglês-russo e russo-inglês, ou as dicas para comprar uma carteira de identidade pelo correio, mas, também, uma obra tão insólita e estranha como a “Técnicas do Interrogatório Físico”, de Richard Krousher, que tem um capítulo chamado “Humilhação”, outro para “auto tortura física”, e mais ”Derivação Sensorial”, “Intrusão nos orifícios do Corpo”, “Batendo”, “Queimando”, “Esmagando” e “Mutilações”. Um repórter do “City Paper” de Washington, Robert Cwiklik, levanta a hipótese de que o manual possa ter sido encontrado entre agentes da CIA operando na América Central. Rose Mary não o confirma. Nem o desmente.

Alguns outros títulos sugestivos: “O Guia do Arrombador”, por Eddie “Arame”; “O livro de cabeceira dos espiões”; a biografia do presidente George Bush em russo; “Spyclopaedia”; “A nova KGB”; “Métodos de Disfarce”; “Mapa de Bolso da USRR”; “Guia Ilustrado das Técnicas e Equipamentos da Guerra Eletrônica”; “A agenda Secreta: Watergate, a Garganta spy6Profunda e a CIA”; e “Revelações de um contra-terrorista”. A ficção cobre apenas um por cento dos livros e só inclui dois autores, John le Carre e Tom Clancy. Há uma prateleira repleta de documentos iranianos, e outra para periódicos, como o “Intelligence Quarterly”, “The International Journal of Intelligence and Counterintelligence”, e um boletim sobre ações clandestinas. As versões em vídeo começam a aparecer. Uma delas, por exemplo, é “Por Dentro da CIA”. E há uma seção de bibliografias e de clássicos, com os famosos livros de espiões e espionagem.

Não há nada proibido à venda no NIBC, garante Rose Mary. E qualquer livro pode ser comprado por telefone (202) 797-1234, ou por fax (202) 331-7456, mesmo fora dos Estados Unidos, pagando com cartão de crédito, ordem postal ou cheque. O catálogo de livros custa 5 dólares, e pode ser pedido pelo correio, ao endereço do NIBC, 1700 K Street, NW, Suíte 607, Washington, DC 20006.

“Ainda não temos nenhum cliente no Brasil”, comenta Rose Mary. Entre os fregueses norte-americanos, estão o escritor Norman Mailer e Jacqueline Onassis. E dezenas de assíduos anônimos.

Nota

A livraria NIBC sumiu deixando poucos rastros, em 1999. Aos clientes foi informado que seus livros poderiam ser encontrados na tradicional livraria Olsson, no Dupont Circle, em Washington, DC, fechada abruptamente em 2008, depois de 36 anos de clientes fieis.

Elizabeth Bancroft reapareceu como diretora executiva da Association of Former Intelligence Officers (AFIO), em 2003. Tanto era do ramo que assessorou diversos segmentos da inteligência civil e militar dos Estados Unidos. Assim se explica porque ela não gostava de ser fotografada nem gravada: ao repórter que a entrevistava com o gravador ligado, dizia: “Quando você atravessar aquela porta, para sair, sua fita será apagada”.

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