Queremos Viver

 

No post anterior, morte. Uma semana depois, vida.O casal setuagenário que procura um médico que o mate reencontrou o filho médico distante há cinco anos. Mas não foi uma reconciliação. “O que você quer?”, perguntou-lhe o pai, o publicitário aposentado Murillo Ferreira, enquanto a mãe, Arminda, estava sentada no sofá da sala, onde passa os dias abatida pelo mal de Alzheimer.

   “A reportagem…”, respondeu o médico cujo nome o pai pede para não ser revelado. A reportagem, na capa do Estadão de domingo, “Por favor, queremos morrer”, conta o drama de um casal junto há 53 anos, solitário após uma vida rica em amigos, doente e amargurado pelo abandono do filho médico e de um outro que não dá notícias desde 1982, quando foi morar em Salvador.

   Murillo achou que o filho ia criticá-lo por ter provocado “a reportagem” com uma carta ao Estadão em que defende o “direito de morrer”, atestando: “…é o que queremos, eu e minha mulher”. Acrescenta: “Os nossos corações já estão rateando. Os pulmões, tocando os seus foles. A cabeça, já meio louca, coitada, fazendo o que pode. O corpo trasteja, se fere, fratura, desgasta. As pernas, já não mais tão serviçais, estão cansadas, com mais de 70 anos cada uma. Tudo isso como dói! Dói por dentro, dói por fora. Aliás, a dor é o melhor sinal da vida. Só não dói depois da morte. Por tudo isso é que resolvemos deixar de sentir dor…”

   Mas o filho nada mais falou. Nem Murillo. E nem Arminda. Ela fez várias vezes o sinal da cruz, seu tique nervoso. Ainda ontem vestia a mesma calça e blusa de uma semana atrás, ela que foi uma mulher muito elegante. Viu-se no jornal, mas nada comentou.

   “Ficamos como imbecis, sem diálogo”, comentou Murillo. “Aí meu filho se levantou e foi embora”. Só depois é que ele se lembrou que Arminda toma um remédio que agora requer receita médica. E que o filho talvez poderia dá-la.

   “A reportagem” não sensibilizou só o filho de Murillo. Desencadeou uma avalanche de cartas e telefonemas de solidariedade ao casal, recebidos pelo Estadão. Muitas pessoas estão se oferecendo como companhias, enfermeiras se voluntariam para cuidar de Arminda, asilos e casas de repouso abrem espaço aos dois, médicos se colocam à disposição, religiosos querem dar amparo espiritual, jovens pedem o endereço para levar doces e antigos amigos reaparecem, chocados, propondo “resgatá-los para a vida”. Ao final de seu programa, anteontem à noite, Hebe Camargo criticou os filhos que abandonaram os pais.

   Murillo chorou ao ler a carta do amigo Hugo Maia, publicada ontem no Estadão. “Não consegui terminar”, ele contou. “As lágrimas saíram aos borbotões”. Foi um alívio: “Esvaziou a pressão permanente dentro de mim”. Para um casal que há quatro anos só recebeu em casa a faxineira diária e o repórter, na semana passada, a solidariedade geral emocionou. Arminda não fala, mas está visivelmente mais ativa. “O assunto” (a eutanásia) que a deixa nervosa não é mais a única conversa. Os moradores do prédio bateram à porta para oferecer apoio e esperança. Mas o casal não convidou ninguém para entrar. E não autorizou o Estadão a fornecer o endereço ou o telefone a quem está procurando um contato.

   “Essa homenagem em vida me faz querer morrer mil vezes”, Murillo comentou ontem, com uma ponta de morbidez.

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