7½ minutos de horror: pais matam a filha Palestina.

Montagem: MRGRDY7787.BLOGSPOT

Montagem: MRGRDY7787.BLOGSPOT

Há um ano a brasileira Maria Isa morreu num presídio do Missouri, nos EUA.

Seu marido palestino morreu antes dela, em 1997, de diabetes, enquanto

esperava ser executado, no corredor da morte. Os dois mataram com

seis a oito facadas a filha de 16 anos, Palestina, porque ela os “desonrou”,

voltando-se mais aos costumes ocidentais que à Meca. O crime foi gravado pelo

FBI, que só transcreveria a fita depois. Os gritos de Palestina horrorizaram

o júri e os Estados Unidos. A familia Isa era monitorada sob suspeita de terrorismo.

Afinal, entre seus membros, havia um Hitler, um Saddam, Arafat, Hussein,

além da Palestina. E estava ligada  ao grupo do terrorista Abu Nidal.

St. Louis, Missouri, 1992 — A um mês da condenação à morte ou à prisão perpétua, e no dia do segundo aniversário do assassinato da filha de 16 anos, a brasileira Maria Isa parecia feliz experimentando um novo tênis branco enquanto lamentava ser “vítima de um complô dos serviços secretos americanos” ao repórter que a visitava no presídio de St. Louis, no Missouri.

“Até que enfim acertaram meu número!” – disse Maria à guarda que esperava de pé com a caixa de tênis à mão. Ela trazia no peito, como medalhas, as fotos de seus dez netos distribuídas em três enormes botões sobre o uniforme azul de presidiária. Foi a última dos presos a entrar no corredor das visitas. E suspendeu o sorriso ao ver um estranho ao lado da sobrinha.

Sarrafi, sarrafi” – explicou Ahlah Matias, filha de Iracema, a irmã de Maria que também vive nos Estados Unidos, em Ohio. Sarrafi quer dizer repórter, em árabe, uma presença expressamente proibida no presídio pelo diretor de Segurança Pública de St. Louis, William Kuehling. “Uma antiga política”, ele mandou dizer ao fechar a porta à imprensa. O convite partiu de Fátima Abdeljabbar, uma das filhas de Maria e Zein Isa, que está preso na cadeia do centro de St. Louis. “Entra comigo no horário de visita. Diz que é um amigo da família. Só precisa provar que mora fora do Missouri”.

Um vidro blindado separa os visitantes e prisioneiros. Alguns se beijam, e se tocam, como se ele não existisse. Mas para falar, mesmo com rostos colados, precisam de um telefone. Ahlah passa ao repórter o telefone e os 20 minutos a que tem direito. Fátima, com os quatro filhos de três meses a oito anos, espera do lado de fora a abertura das grades para a próxima sessão de 20 minutos, a última da noite. As duas filhas de brasileiras casadas com palestinos usam véu na cabeça e seguem com fervor o islamismo. Maria, não. Ela é católica. Mas aprendeu a conviver com a primeira esposa do marido, Foizia, ao mudar-se de Santa Catarina para a aldeia de Betiim, na Cisjordânia. Muitas esposas só descobrem que são mais uma no harém quando vão conhecer o Oriente Médio. Alguns homens casam até quatro vezes.

“Gostei muito da Palestina” – diz Maria, 48 anos. “Bom demais para mim. Eu trabalhava no armazém de Zein, e Foizia cozinhava. Uma vez ela veio aqui na América. Aí cozinhei para ela um dia, porque nos outros nosso marido a levou para jantar fora. É como uma grande amiga minha”. Fátima acha que os palestinos devem sentir uma certa atração especial pelas brasileiras. “São mulheres fortes”, acrescenta. “Só na aldeia de Deir Debuar, em Ramallah, viviam mais de 15 brasileiras havia nove anos. Imagina agora?” A embaixada do Brasil, em Tel-Aviv, em 1983, tinha uma lista de brasileiras que queriam ser repatriadas que “daria para lotar um Jumbo”, como dizia um diplomata.

Palestina, 16 anos. Reprodução: Murderpedia.

Palestina, 16 anos. Reprodução: Murderpedia.

Maria gostou tanto da Palestina que à última filha chamou Palestina. “A terra perdeu o nome, e aí demos o nome à nossa filha”. Todos a chamavam de Tina. Era uma das melhores alunas da escola Roosevelt. Jogava futebol como um menino de rua do Brasil. Já trabalhava á noite no balcão do Wendy’s, um rival do Mc Donald’s. E namorava Cliff Walker, um rapaz negro de 20 anos. “Um homem pode ter quantas mulheres puder alimentar”, explica Fátima, “mas uma muçulmana só deixa os pais para casar, e com outro muçulmano, muitas vezes um primo”. Tina estava mais voltada para Nova York do que para Meca. E Maria não entende: “Nós a criamos tão bem…O pai comprava uma dúzia de roupas para revender só para tirar uma para Tina, quando moramos em Porto Rico”. Para a família, ela era uma rebelde. A prima Ahlah diz que gostaria de ter um pai como Zein, “tão bondoso, tão preocupado com as filhas”. Outra prima, Sausan Nijneh, acrescentou: “Dava tudo que ela queria. Até prometeu enviá-la para um curso de francês em Paris. Uma ingrata!”

A prima Nijneh mora na rua Delor 3757, diante do apartamento em que Palestina foi assassinada a facadas em 6 de novembro de 1989, ao voltar do trabalho no Wendy’s, durante uma discussão com os pais. A parede da sala é decorada com uma grande bandeira vermelha, preta, branca e verde da Palestina. “Vermelha pelo sangue”, ela comenta. E prevê que a paz no Oriente Médio só será concluída quando “um rio de sangue correr à altura do joelho”. O chaveirinho sobre a mesa tem as cores palestinas. A mesquita, numa foto, é a de Al-Aksa, em Jerusalém. E o nome do sobrinho de 16 anos sentado no sofá já lhe rendeu uma prisão em Israel e muitos problemas nos Estados Unidos: Hitler.

“Mas me chamam, aqui, de Hassan” – explica Hitler. “Meu pai escolheu o nome porque Hitler odiava judeus, e os judeus ocupam a minha terra, a Palestina”. Nijneh também não faz distinção entre judeus e israelenses. “São todos iguais, e oprimem nosso povo”. E ela acha que o governo americano “é judeu”. Então, nem chega a ser muito surpreendente que o FBI tenha recebido ordens de escutar a família Isa. “Para os Estados Unidos qualquer palestino pertence à Organização de Libertação da Palestina”. Ela própria não está muito pró-OLP, atualmente, por causa do diálogo iniciado com Israel, na conferência de paz de Madri. Uma vez um vizinho a procurou para advertir: “Cuidado com as paredes”. Os telefones davam sinais de que tinham ouvintes extras. O promotor-assistente Robert J. Craddick supõe que a escuta deveria ser feita perto do apartamento, talvez noutro ao lado, ou no de um andar acima, mas não ao “vivo”, por causa da mistura de português, árabe e inglês que exigia uma tradução especializada. O FBI nada comenta.

Maria Isa. Foto New York Daily.

Maria Isa. Foto New York Daily.

Maria diz que nunca viu o marido levantar qualquer suspeita de militância terrorista nos 27 anos em que estão casados. E o defende: “Um brasileiro deve jogar pelo Brasil. E a religião de Zein não é ruim”. Ela ficou muito revoltada com o FBI, não só por ter escondido microfones em seu apartamento, mas porque “editou” a gravação apresentada no julgamento. A transcrição a acusa de mandar Tina “calar a boca” quando grita desesperadamente por ajuda, enquanto esfaqueada pelo pai. São 7,5 minutos de absoluto horror. Veteranos do tribunal de St. Louis choraram ao ouvir. As redes de TV se negaram a por no ar. Os jurados recomendaram a pena de morte para o casal Isa. O promotor Craddick teme não se livrar do “pesadelo” que povoa agora seus sonhos “pelo resto da vida”.

“Nada disso é verdade”, assegura Maria.

– Então, o que aconteceu?

Maria: Não vi. Por isso, não sei.

– Como não viu? A sua voz está na gravação…

Maria: Meu marido gritou comigo. E caí no chão. Por isso não vi.

– O júri recomendou para você e o marido a sentença de morte…

Maria: Isso não está certo. Querem apenas castigar meu marido. A gravação foi fabricada e não deveria ser ouvida pelos jurados.

– Você acha que será executada?

Maria: Espero que me expulsem para o Brasil.

Fátima e Ahlah ficaram surpresas com a esperança da mãe. Não a tinham ouvido até então. Mas não acham que exista alguma perspectiva de deportação. A mobilização da opinião pública brasileira “não adiantará neste caso”, como antecipa o promotor Craddick. “Não há nada que o Brasil possa fazer”. Para ele, o sangue na roupa de Maria prova que ela segurou a filha enquanto o marido a esfaqueou seis vezes. O advogado de defesa, Charles M. Shaw, explica o mesmo sangue de outra forma: a mãe superprotetora colocou-se entre o pai e a filha. E conclui: “Maria não é culpada de nada, só de ser casada com Zein Isa”.

Maria contou que está em campanha contra o FBI dentro do presídio. “Agora que falo melhor inglês, explico a todo mundo o que fizeram comigo”. No tribunal, chorou quando o júri recomendou que ela e o marido sejam executados. Mas agora “não sofre mais”, como acrescentou. “Minha mãe talvez venha me ver. E acho que vão me tirar da pena de morte, porque Zein assumiu toda a responsabilidade pela morte de Tina”. A Sra. Jacunaima Magani Matias, de 70 anos, nunca saiu do Mato Grosso nem viajou de avião, mas talvez esteja em St. Louis até antes do dia 13 de dezembro, quando o juiz Charles A. Shaw, xará do advogado de defesa, anunciará a sentença.

Zein, 60 anos, está com quatro úlceras na perna e é diabético. Ele também contesta a gravação do FBI. Nela não aparece um detalhe que ele acha muito importante: Tina lhe pediu US$ 5 mil, e com uma faca na mão. O namorado, Cliff Walker, estaria na rua esperando. Foi só então que o pai pronunciou a ameaça que provocou arrepios entre os jurados: “Você vai morrer esta noite”. E conta: “Forcei a faca na direção dela, e ela caiu. Lutamos no chão”. Aí ele pôs o pé na boca de Tina para calar os gritos. Não se lembra quantas vezes a apunhalou, talvez seis, ou oito vezes. O FBI examinou a transcrição das conversas da família Isa depois do assassinato. O promotor Craddick imagina um cenário cinematográfico: um detetive abre o jornal e vê que ocorreu um crime numa casa “grampeada”. Vai pesquisar, e encontra tudo gravado. “Esse foi um caso excepcional”, ele acrescenta. “Uma escuta sempre é dirigida. A polícia só pode ouvir o que um juiz autorizou. Se está a procura de drogas e surpreende uma trama para um assalto, não pode intervir”.

Quem ouvisse as conversas telefônicas entre Zein, Maria e as filhas casadas não teria dúvidas de que Tina estava condenada à morte. Uma frase do pai, por exemplo: “Ela se tornou uma mulher queimada, uma p… negra, e a única forma de limpá-la será através de seu sangue”. Outra: “Se Tina morrer, vou alegar legítima defesa. Colocarei uma faca em sua mão depois que ela cair”. Um comentário de Fátima, uma irmã: “Se Deus me der um desejo, vou enterrá-la num caixão”. Outra irmã, Soraia Salem, sugeriu que Tina fosse acorrentada no porão, e seu passaporte enviado para a Palestina. O pai completou: “Vou é mandá-la dentro de um caixote”. Toda a família sentiu-se desonrada com o namoro e o trabalho de Tina. “Foi um sacrifício”, concluiu a promotora Dee Joyce-Hayes. Mas ela pediu que os jurados não justificassem o crime com a religião. “Muitas coisas ruins já foram feitas em nome do cristianismo ou do islamismo”.

Maria saiu da solitária em que permaneceu durante o julgamento para um salão onde dorme com outras 50 mulheres. Sua pena seria comutada por prisão perpétua. “Só tenho aqui dentro uma inimiga, uma policial que me xinga o tempo todo. Os outros me tratam muito bem”. Quando for sentenciada, dentro de um mês, ela poderá ser removida para o corredor da morte do sistema penitenciário do Missouri. Mas ela diz que não está “sofrendo” com a antecipação: “Sou a única a fazer o rosário aqui”, ela conta, orgulhosa. Em sua cela, no centro da cidade, Zein também reza as cinco orações do dia voltado para Meca, na Arábia Saudita. A família espera a sentença pronta para se mudar para a Palestina assim que ela for criada. “A Palestina é a coisa mais importante em nosso coração”, diz Fátima.

zein1Por trás de cinco grades de uma superprotegida cadeia está o homem que espera a morte por ter matado a filha. E o palestino-brasileiro-americano Zein Isa diz que só quer mais um favor da vida: “Não executem minha mulher, Maria”.

Ele repete várias vezes, com o sotaque que troca “p” por “b”: “Boubem Maria, boubem Maria. Ela deve ser debortada bara o Brasil. Eu só matei Balestina, porque ela me atacou com uma faca”. Palestina, 16 anos, nascida em Cáceres, no Mato Grosso, foi enterrada aqui, em St. Louis, no Missouri, há dois anos, mas num cemitério católico, porque uma muçulmana não pode “levantar a mão contra o pai sem desonrá-lo”, e vestida toda de branco, com um véu de noiva.

A metade do rosto de Zein Isa, 61 anos, é visível pela janelinha da última e pesada porta de ferro da Cadeia Municipal do centro de St. Louis, uma cidade embranquecida pela neve que caiu durante toda a noite. Está num cubículo, e mal pode dar um passo atrás para ficar com o corpo inteiro à mostra. Ele diz que sofre com quatro úlceras numa perna. Manca, e pede o fim da visita mesmo de filhas porque “dói muito manter-se em pé”.

Até chegar aqui, um visitante passa por um exame de documentos, revista pessoal que extrai da roupa até a carteira, um vistoria no sapato, e uma, duas, três e quatro portas gradeadas pesadas que vão se abrindo por controle remoto ou manualmente. Um policial está sempre por perto. Os jornalistas não podem entrar.

Zein Isa repete o que Maria contou numa entrevista em seu presídio fora de St. Louis. Palestina era “a filha mais querida” entre os seis filhos de suas duas esposas. A outra mulher, Foizia, está em Betiim, na Cisjordânia, onde a família viveu por algum tempo, mas infeliz com a ocupação israelense. A nova geração vai carregando nos nomes o protesto contra Israel. A filha morta era Palestina. Um sobrinho de Isa foi batizado de Hitler. Um neto, de Saddam, “o único que acertou os judeus”, com os misseis Scud durante a guerra no Golfo. Outro primo que vive em Ohio, filho da brasileira Iracema, é Arafat, em homenagem ao líder da OLP. E ainda há mais um prêmio á Saddam, um outro sobrinho de Ohio chamado Hussein. Dentro das casas o que enfeita as paredes são bandeiras vermelhas, verdes, brancas e negras da OLP, fotos das mesquitas de Jerusalém e mapas árabes de Israel.

Zein Isa, porém, nega qualquer ligação com algum grupo terrorista palestino. “Basta ser palestino para se tornar um suspeito nos Estados Unidos”, ele diz pelas três pequenas aberturas abaixo da janelinha na porta de ferro. A família Isa demonstra uma desconfiança recíproca com os judeus. “Você chama Mussa (Moisés, em árabe)? Ainda bem que você é brasileiro, porque não confiamos nos judeus…” E judeu, para as filhas de Isa, fervorosas islamitas, pode ser até mesmo o governo americano, quando ele se inclina a favor de Israel. O FBI manteve a família sob vigilância durante dois anos, com microfones em suas casas.

Palestina, assassinada. Foto:  Murderpedia

Palestina, assassinada. Foto: Murderpedia

A morte de Palestina, com seis facadas, há dois anos, foi uma tragédia cultural. Zein Isa não concordava com que a filha trabalhasse, namorasse e fosse independente, ao contrário das irmãs que se casaram com palestinos. “O namorado era negro, mas podia ser branco, marrom, amarelo. Foi um caso de honra”, diz a família. Fátima, ali na cadeia com o pai, ainda acrescenta: “Mas como o juiz foi negro, aqui nos Estados Unidos logo se atribuiu o assassinato a um preconceito racial”.

Zein Isa concorda fazendo sim com a cabeça. Palestina estava comprometendo “a honra dela própria, da mãe, do irmão, de todo o mundo, até dos netos”. Fátima não tem dúvidas de que a única vítima do assassinato da irmã foram os pais. “Fazia anos que o FBI nos escutava. Desde 1987 vigiavam. Por que não foram sacudir essa guria que queria acabar com papai? Não, não. Deixaram meu pai matar a filha apenas para pegá-lo, apenas porque achavam que ele tinha conexão com a OLP”.

A família Isa, em Betiim, é conhecida. Quando o pai de Zein morreu, “toda a cidade chorou”. Um homem assim tão respeitado não pode ser desonrado. “Na Arábia não é feio um pai matar a filha”, diz outra irmã de Palestina, Aziza. “Aqui nos Estados Unidos as moças podem andar na rua, bebem droga, bebem bebida alcoólica, fumam, fumam marijuana e dormem com outros rapazes antes de casar. Ficam grávidas. Vendem filhos para comprar drogas. Nos somos gente árabe, que tem cultura e que tem honra…”

Fátima interrompe a irmã Aziza para perguntar: “Você sabe o que é honra para o americano? Vou lhe dizer: honra é não mentir para o Imposto de Renda”. E ela acrescenta: “Se meu pai tivesse matado Tina no Oriente Médio o máximo de cadeia que pegaria, se pegasse, seria uns cinco anos. Muita gente pediria a Deus para lhes dar um pai como o meu pai. Tina tinha o melhor dos pais. Ele a encheu de roupas caras. Uns sete mil dólares só de roupa. E para o enterro ainda lhe compramos um vestido de noiva de 750 dólares”.

Zein Isa diz pela janelinha: “Não me breocupo em morrer”. Está magro, foi operado da perna uma vez no ano passado, mas as úlceras o atacaram de novo. Passa o tempo solitário, lendo o Corão e fazendo cinco orações diárias curvado para Meca. Depois do julgamento, com a condenação a morte que deve ser confirmada dia 13 de dezembro, ele passou a ter pressão alta. Em sua casa de Betiim, na Cisjordânia, que “vale 77 mil dólares”, ainda vive um filho pediatra e a outra esposa. Se pudesse voltaria agora para a Palestina, de onde saiu porque não encontrava trabalho e se indignava em viver sob ocupação israelense.

Aziza e o pai aproveitam o final dos 20 minutos da visita para falar em árabe. O assunto é o destino de Maria. A família está em campanha para transformar em prisão perpétua a recomendação dos jurados para que seja também executada. Outra possibilidade que vem sendo explorada é a de uma eventual deportação para o Brasil. Ela optou por se manter brasileira, ao contrário do marido, naturalizado americano, e só tem como documento um passaporte brasileiro. “Ajudem Maria”, apela Zein Isa. “Ela não me ajudou a matar Tina. Eu sozinho a matei. Ela apareceu com uma faca na minha frente…Foi legítima defesa”. Na gravação do FBI, porém, a voz de Maria é audível entre os gritos da filha. Num momento ela até diz: “…vai tarde”. Na transcrição oficial não consta esta frase, considerada “inaudível” pela tradutora do português.

Os 7,5 minutos de gravação foram a principal prova contra Zein e Maria, no julgamento. Cada um foi defendido por um diferente advogado, com a esperança de que fossem julgados separadamente. Mas houve um só júri, e uma recomendação única: pena de morte. As crianças da família Isa aprendem que “os avós estão presos, e às vezes surgem na televisão, por causa de uma filha desobediente, Tina”. Fátima contou a seus filhos: “Tina levantou a mão contra o avô. E o avô bateu nela. E ela morreu”. É o que aprenderam também os filhos de Aziza: “A menina que mancha a honra da família deve ser punida”. A desonra de Palestina foi a de querer se tornar uma adolescente americana, e não muçulmana. A de namorar um rapaz que não a queria em casamento, mas só para um namoro de adolescência. A de querer trabalhar e ser independente numa família em que as meninas são criadas para se devotar aos maridos e filhos.

“A menina muçulmana é como uma flor”, explica Aziza. “Se as pétalas caem, ela não vale o vaso de cristal”. Tina se tornou o exemplo da desobediência na família Isa. No segundo aniversário do assassinato, ninguém foi visitar o seu túmulo. Na véspera, as filhas visitaram a mãe, Maria. E depois Zein, o pai. Choraram muito ao sair, porque o superintendente do presídio comunicou o corte das visitas aos domingos, e manteve apenas duas por semana, na terça e sexta-feira. Amparada pelos filhos, o rosto contorcido de dor, Fátima explicou: “Acharam que três visitas são um privilégio para quem logo será transferido para o corredor da morte”.

O namorado esperava

Palestina na rua.

Mas ela não voltou.

O rapaz acusado de “virar a cabeça” da adolescente brasileira Palestina Isa, pivô da “desonra” lavada com um brutal assassinato, contou que os dois “nunca tiveram uma relação íntima”, nem estavam pensando em se casar. “Ela tinha 16 anos…Só queria um amigo para ir ao cinema, dançar”, disse Cliff Walker, o namorado negro de Tina, através do promotor Robert J. Craddick.

As irmãs de Palestina continuam acusando Cliff Walker: “Tina era uma menina muito boa até que conheceu esse rapaz preto. A Tina bonita que amávamos morreu um ano antes da morte, um ano antes de ser enterrada” – disseram Fátima e Aziza, que defendem os pais, Zein e Maria, pelo assassinato. E Fátima ainda repetiu ontem: “Se meu pai vai morrer porque defendeu a honra de Tina e da família, terá um grande prazer. Se vão executá-lo porque ele é palestino, terá muito orgulho. Para meu pai será um prazer morrer como um homem honrado”.

Cliff Walker, hoje com 20 anos, não quis aparecer pessoalmente para uma entrevista. O promotor Craddick explicou que ele “está procurando superar o doloroso passado, recomeçar a vida”. Saiu da escola Roosevelt, trabalha meio período e procura um emprego de tempo integral. “Mas aqui, em St Louis, um adolescente negro tem 50 por cento de chances de conseguir uma boa colocação”.

Fátima o chama de “vagabundo”. Diz que ele agora está namorando Mariane, a melhor amiga de Tina. E que os dois sumiram sob proteção policial, “porque pensam que estejam ameaçados de morte”. E acusa: “Esse rapaz não é nenhum homem. Se fosse, teria ido salvar aquela menina”, ou “aquela guria”, como tem chamado a irmã, evitando um nome sagrado como Palestina. Tina entrou em casa em 6 de novembro de 1989, após a primeira noite de trabalho num restaurante, esperando uma recepção tão ruim dos pais que pediu ao namorado, Cliff: “Espere um pouco. Se ouvir gritos, voltarei”.

Tina não voltou. Foi esfaqueada seis vezes pelo pai, Zein, enquanto a mãe, Maria, a mandava “calar a boca”, segundo a transcrição da escuta feita pelo FBI no apartamento da família Isa, sob suspeita de ligações com grupos terroristas palestinos. O trabalho fora, o namoro e a americanização de Tina entre fervorosos muçulmanos somaram-se para a decisão anunciada por Zein: “Ouça, minha querida filha, você sabe que este é o seu último dia? Esta noite você vai morrer…” Maria já tinha ido á escola Roosevelt avisar que Tina não mais a frequentaria como “um castigo pelo namoro”. E para o pai “a honra da família só poderia ser lavada com sangue”, com um sacrifício.

O promotor Craddick falou com Cliff Walker: “O que nos parece é que a família Isa continua tentando desculpar o que fez. Acusaram primeiro Tina, porque ela agiu sozinha. Agora acusam Cliff. Ele é que teria virado a cabeça de Tina. Isso é tendencioso. Estão sempre alegando que o assassinato ocorreu porque foram provocados. Cliff não fez nada com Tina. Ele nunca a influenciou a desrespeitar a família. Os dois sempre entenderam muito bem a diferença de culturas que os separavam. Tina só queria fazer o que as outras garotas faziam. Ter controle do próprio dinheiro, e foi por isso que começou a trabalhar. E namorar”.

A família Isa desmente que os problemas com Cliff surgiram porque ele é negro. “Podia ser marrom, branco, amarelo”, explicou Fátima. “Uma muçulmana não tem namorado”. Mas o promotor Craddick constrói uma frase curiosa para discordar: “Não aceitavam que Tina namorasse ninguém, e muito menos um negro”. Ele também desmente que Cliff tenha recebido uma oferta de um dote de US$ 5 mil para casar com Tina. “Isso simplesmente não aconteceu porque os dois não contemplavam um casamento. Nem eram íntimos…”

Tina não era “sexualmente ativa”, acrescenta Craddick, baseado em Cliff e no depoimento feito por amigas durante o julgamento. “Temos razões para acreditar que Tina era virgem”. O namoro nunca evoluiu para uma relação mais profunda. A família a enterrou como uma noiva, toda vestida de branco, e não voltou mais ao túmulo, nem nos dois primeiros aniversários da morte. Convidada a ir ao cemitério, Fátima respondeu: “Eu, não. Pra que? Mas se você for, ore por ela, que tanto faz sofrer nossos pais”.

Cliff não namora Mariane Paladino, a melhor amiga de Tina, como denunciou Fátima. Ela também não quis aparecer pessoalmente para uma entrevista. O promotor Craddick, que a conhece “muito bem”, explicou: “Você pode imaginar que as duas pessoas mais próximas de Tina tiveram que testemunhar no tribunal. E ficaram muito próximos. Foram vistos muitas vezes na sala da promotoria. Mas não são namorados. Mariane não se recuperou psicologicamente a ponto de namorar ninguém. Ela está passando, realmente, por um tempo muito difícil”. Os dois também não estão sob proteção policial, “embora tenham medo da vingança de uma família que foi capaz de matar a própria filha”, desde que a desmentiram no julgamento.

Fátima foi avisada de que o Ministério da Justiça no Brasil se proclamou impotente para tomar qualquer iniciativa pela brasileira Maria. Mas insistiu que vai ainda escrever uma carta ao consulado brasileiro em New Orleans. Ela quer uma opinião oficial contra o julgamento único para os pais numa tentativa de levar a mãe, sozinha, diante de outro júri. Zein confessou o assassinato, alegando legítima defesa. Pela sua versão, ele é que foi atacado por Tina com uma faca. Maria diz que desmaiou, e não viu nada. A gravação com a voz dela pedindo á filha para se calar “foi fabricada pelo FBI”. Os jurados recomendaram a pena de morte para os dois. E um juiz deve confirmá-la no dia 13 de dezembro.

“Aqui, geralmente, o juiz aceita a sentença pedida pelos jurados” – prevê Craddick. E ele só terá duas opções: a pena de morte ou a prisão perpétua. Só depois do veredicto é que os advogados de defesa terão 25 dias para apelar.

A gravação do assassinato da adolescente Palestina Isa pelos pais pode ser parte de uma investigação do FBI sobre lavagem de dinheiro, e não somente uma precaução contra a eventual militância da família em grupos palestinos terroristas.

O FBI não dá nenhuma pista dos objetivos que o levaram a instalar sofisticados instrumentos de escuta na casa de Zein Isa, em 1987. Mas uma fonte ligada ao processo do assassinato de Palestina, na Corte Municipal de St. Louis, disse ontem que “a família trabalha em armazéns que podem servir para lavar pequenas quantias de dinheiro”.

Aziza, uma das filhas de Zein e Maria, explica que o seu marido é empregado num armazém, e que os maridos das irmãs Fátima e Soraia trabalham em armazéns próprios, em St Louis e Kansas City. O armazém do pai foi vendido para pagar as despesas dos advogados de defesa, US$ 30 mil até agora, mas a comunidade palestina local e os amigos da aldeia Betiim, na Cisjordânia, doaram outros US$ 15 mil. O que sobrar vai ser usado para as despesas com o apelo previsto logo depois que sair o veredicto, no dia 13 de dezembro.

A suspeita de atividade terrorista pode ser justificada pelo radicalismo dos Isa, mas um líder da grande comunidade judaica de St. Louis contou que não se lembra de nenhum problema com os imigrantes palestinos. O promotor Robert J. Craddick confirma: “Não estou sabendo de nenhuma ação da OLP por aqui, mas o FBI considerou os Isa muito importantes para os ouvir permanentemente”.

Aziza lembra como a família ficou sabendo que estava sendo espionada. “Em 1987, um rapaz que trabalhava no conjunto de apartamentos em que morávamos foi ao bar do meu cunhado, e revelou que alguns policiais entraram em nossa casa e puseram aparelhos de escuta dentro. Os agentes do FBI tinham alugado um apartamento em frente, de onde monitoravam a escuta. Minha irmã Soraia revirou sofás, móveis…todos os lugares em busca dos microfones, e nada encontrou. Papai brincou: querem escutar minhas filhas brigando umas com as outras? Tudo bem, fiquem à vontade”. Para ela, a única explicação possível é a de que são palestinos. “E palestinos, para o FBI, são todos terroristas”.

Fátima interrompeu várias vezes uma conversa telefônica para perguntar: “Está ouvindo? Eles estão na linha…” Ela ainda denunciou que sua correspondência é aberta. E lembrou-se de algo ocorrido há cinco anos, sem estabelecer nenhuma ligação com a vigilância do FBI. “O irmão da caixa que trabalhava no armazém de meu cunhado matou outro homem por causa de droga. E a casa dele, da mãe e dos irmãos passaram a ser também escutadas”. Mas o pai nunca se envolveu com drogas, ela acrescentou. “Acontece que todos os árabes são vigiados. Podem vigiar o quanto quiserem…Não estamos fazendo nada contra a lei, nem contrabando”.

Quem administra o dinheiro que sobrou da venda do armazém de Isa é um cunhado, que vive em Chicago. “O pai confia muito nele”, diz Aziza. “É o genro mais velho”. A família tem uma trajetória considerada também interessante pela mesma fonte que levantou a suspeita de que a escuta do FBI pode ser parte de uma investigação sobre lavagem de dinheiro. Zein e Maria se casaram em 1962, no Brasil, e desde então vivem viajando. Já estiveram em New Jersey, depois na Carolina do Norte, e então se mudaram para Porto Rico, para a Cisjordânia, voltaram ao Brasil, de novo a Porto Rico, até que se instalaram em St. Louis. Só depois se descobriram as ligações de Zein com o grupo terrorista de Abu Nidal, responsável por ações espetaculares dentr e fora do Oriente Médio.

“Deve ser lavagem de dinheiro, mas coisa pequena”, acrescentou a fonte. Ela teve acesso a várias transcrições das gravações do FBI, mas “só quis saber o que se relacionava com o assassinato de Tina”. Os gritos que Tina deu enquanto morria foram fulminantes para a decisão unânime dos 12 jurados. E um reexame cuidadoso da gravação demonstrou que a brasileira Maria não pode ter desmaiado enquanto a filha era esfaqueada, porque ela comenta bem claramente: “…já vai tarde”.

Veja também: a brasileira que ajudou matar um soldado israelense.

Yasser Arafat: exílio no continente perdido.

Foto AlJazeera

Foto AlJazeera

A primeira vez que estive a cinco metros de

Yasser Arafat foi quando ele se despedia de Beirute,

derrotado na guerra de 1982 contra Israel.

Segui-o até a entrada do porto. onde o esperava o navio

Atlantis, que o levaria para o exílio na Tunísia.

Em comum, Arafat e Atlantis

simbolizavam um continente perdido.

Bandeira do Al Fatah

Bandeira do Al Fatah de Arafat

Beirute, 30/8/1982 – Foi uma tumultuada operação-resgate, e não a cerimoniosa despedida que estava preparada. Yasser Arafat, de uniforme verde-oliva, kefiah enrolada na cabeça, desceu de sua limusine preta para passar em revista uma guarda de honra da OLP, e uma multidão o envolveu, levantando câmeras e armas de todos os tipos.

Pela primeira vez, eu me encontrava a cinco metros de Yasser Arafat, e em Beirute oeste, onde penetrei, quase clandestino, pela manhã, e sem passaporte, porque nele havia carimbos de entrada e saída de Israel suficientes para que fosse condenado como espião, pela OLP.

Os palestinos gritavam em coro, suspendendo e abaixando fuzis, metralhadoras, pistolas e lança-granadas:

“A revolução vencerá”.

No local da cerimônia, na fronteira oeste-leste do porto de Beirute, havia uma grande poça de esgoto. E como a festa de despedida tumultuou, ela se transformaria no tapete vermelho comum a todos, mesmo para Arafat.

Antes, às dez da manhã, os poucos jornalistas que chegaram a área oeste do porto, atraídos pelos rumores da partida do chefe da OLP, foram reunidos, ao lado do “Hotel Normandy”, pelos guerrilheiros palestinos e pelos Mourabitoun — as milícias pró-nasseristas que agora mandavam aqui, bem armados. E pudemos ver o Atlantis, branco, navegando para o porto de Beirute entre os navios de guerra franceses e norte-americanos.

Uma tropa da Legião Estrangeira da França esperava, num tanque e num caminhão, recebendo ordens diretas do embaixador francês no Líbano, Paul Marc Henry, de terninho azul molhado de suor, se­guido de muito perto por guarda-costas de metralhadoras e revólveres engatilhados. Um mourabitoun, em cima de um jipe com bateria antiaérea, parecia ansioso para dar o primeiro tiro da festa de despedida. Apontando para o mar, a rota do êxodo, ele dizia, otimista:

-A revolução palestina continuará seu caminho.

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Uma outra placa, bem humorada, nos escombros de uma loja completamente arrasada por bombardeio aéreo, anunciava: “Crisis Tourism”, ou turismo da crise, imposto por Israel aos guerrilheiros da OLP. Uma criança de três anos tentava empunhar um fuzil kalachnikov maior do que ela, incentivada pelo pai, para a alegria dos fotógrafos. Quando a deixou cair, ela ficou apontada para a mãe, que correu para sair da mira.

Quem atinge o porto, deste lado oeste, chega já sem referências para medir a destruição geral. Beirute parece ter sobrevivido a um cataclisma. Toda a cidade exibe as marcas da violenta guerra, bombardeada por aviões, por barcas lança-mísseis e pelos canhões de artilharia. Os hotéis antes famosos, à beira-mar, são ruínas. O lixo se amontoa por todos os lados. E é difícil encontrar alguém desarmado. Ao contrário, muitos estão constantemente com os dedos no gatilho. Vi um tanque T-54, soviético, pertencente a OLP, ao lado do ex-Hipódromo, cujo cano fundiu, de tanto disparar. E vi também muitos caminhões lança-mísseis, as katiushas, nas áreas agora sob o controle dos Mourabitoun ou dos militantes da El-Amal, a milícia xiita, pró-khomeinista.

No lobby de um dos hotéis mais famosos da cidade, vendia-se armas a preços de liquidação, 20 a 25 dólares cada. Pés de maconha cresciam na rua, mas só vitrine. Se se tentasse colher algumas folhas, logo surgia o vendedor, dono da plantação.  As lojas reabriram. O centro ficou intransitável de tanta gente com seus carros aproveitando a abertura dos bancos e repartições públicas. Ao contrário de Beirute oriental, decorada com fotos de Bachir Gemayel, o novo presidente, a ocidental parecia renascer para o nasserismo, decorada com fotos do antigo presidente egípcio Gamal Abdel Nasser. Nos dois lados da cidade havia uma nova energia perceptível no ar, o alivio pós-guerra. Apelos à reconstrução e a normalização eram repetidos nas rádios e nos jornais, lembrando que “O Líbano voltará a ser dos libaneses”, quando todas as forças estrangeiras forem embora, em menos de um mês.

Despedida do amigo Wallid Jumblat, o líder druso. Foto: Al-Araby

Despedida do amigo Wallid Jumblat, o líder druso. Foto: Al-Araby

Yasser Arafat partiu depois que os sírios da Brigada 85 começaram a se retirar, por terra, para Damasco. Das 6h11 às 7h43 da manhã, eles saíram pela galeria Semaane escoltados pelos sofisticados Bersaglieri, os soldados italianos emplumados — são várias penas, algumas castanhas, outras verde escuro, pendendo dos capacetes brancos. O desfile contou com alguns tanques velhos sobre jamantas, caminhões lança-mísseis semi-destruídos, e uma grande variedade de veículos militares de transporte, alguns rebocados, todos com as fotos do presidente Hafez Assad e bandeiras da Síria. Logo na saída, cruzavam com bandeiras israelenses, hiçadas durante a noite, sob protesto das forças multinacionais.

Os israelenses viam os 1200 “inimigos” sírios desfilando, discretos, com binóculos, de vários edifícios próximos, e ao longo dos 25 quilômetros até Sofar, no Vale de Bekaa, onde a rodovia passa ao controle da Síria. Num momento, quando surgiu um caminhão de soldados com turbantes vermelhos enrolados nas cabeças, exibindo um grande cartão redondo com a foto do presidente Hafez Assad em meio a flores, uma pequena multidão de libaneses vaiou. Aí, ocorreram as já tradicionais trocas de gestos obscenos

A esta hora, Yasser Arafat seguia para a casa de Wallid Jumblatt, o líder druso dos movimentos de esquerda, para despedir-se. Aqui, comentaria que se sentia “muito orgulhoso” da resistência que seus guerrilheiros opuseram às forças israelenses, durante dois meses de sitio, e revelou, brincando, que pensava acrescentar um “L” à sigla de sua organização.

A “OLLP” se dedicaria à Libertação do Líbano e da Palestina, “ambos ocupados por Israel”. Em sua mensagem aos habitantes de Beirute, na noite anterior, Arafat elogiaria “a resistência heroica diante da agressão israelense”, saudando “a solidariedade libanesa-palestina, na prova mais dura que já conheceu a nação árabe”.

– Nós combatemos juntos e nos sacrificamos para defender o Líbano, esta terra onde viveram nossos ancestrais e onde viverão nossas crianças. Esta terra continuará sendo árabe, e nós permaneceremos unidos, pelo sangue e pelo destino. A história prendeu sua respiração com a gente, observando a epopéia que escreveram os habitantes de Beirute com seus irmãos combatentes, diante da mais infame das máquinas de guerra e de destruição israelense/norte-americana.

O algoz de Arafat, o general Ariel Sharon. Foto: NPR.org

O algoz de Arafat, o general Ariel Sharon. Foto: NPR.org

Aos rumores de que iria partir secretamente, ou mesmo de que já tinha partido, Arafat respondeu que a sua retirada seria pública, “um adeus popular”. Depois da casa de Wallid Jumblatt, ele foi se despedir do primeiro-ministro Chafic El-Wazzan. Ao porto, já chegava o seu vice, Abou Yad, liderando um longo comboio de limusines a prova de balas, protegido por dezenas de guarda-costas, todos vestidos com camisetas cinzas e calças jeans, um grande revólver no coldre às costas, uma metralhadora na mão. Via-se num carro o ex-primeiro-ministro Selim El-Hoss, e, num outro, o mufti Sunita, Hassan Khaled. Todos pararam próximos aos blindados da Legião Estrangeira francesa. Perguntei a um Mourabitoun como se chamava o local.

-Hotel Normandy – ele disse.

-Mas aonde está o hotel?

Com sua bota, ele ficou riscando a poeira no chão: — Virou pó.

Então, ele perguntou quem eu era:

-Sarrafi, Sarrafi (jornalista) – respondi, e antes que insinuasse uma verificação de documentos, acrescentei: “Brasil, Sarrafi Brasil”. O mourabitoun abriu um grande sorriso, e se lembrou da copa do mundo.

-Zico, Izidoro…

medium_3429308312Outros mourabitouns surgiram, acompanhados da polícia militar da OLP, pedindo a todos os jornalistas que se concentrassem mais abaixo, na fronteira oeste-leste do cais, onde uma tropa esperava Arafat para a despedida de honra. Os franceses guardavam a zona do cais que se estende para o leste, onde começa a região controlada pelos marines norte-americanos. Mas havia muitos civis armados, alguns com camisetas de Che Guevara, além dos uniformizados, representantes de várias sub-facções da OLP.

Entre a tropa e a imprensa havia uma grande poça de esgoto. Ao lado, o prédio do banco sirio-libanês, destroçado. E escutávamos, apreensivos, o ruído de aviões bem alto, invisíveis, mas com certeza israelenses, pois o aeroporto estava fechado desde o dia sete de junho, quando a guerra começou.

No “Hotel Normandy” começaram os tiros da festa de despedida, para o ar. Na rua estreita, onde estavam a imprensa e a guarda de honra, parou um caminhão lotado de soldados da OLP que ocuparam posições numa área já inteiramente ocupada, apertada para a cerimônia pretendida. Uma mulher preparou flores, três guerrilheiros enrolaram bandeiras dos vários grupos da OLP que darão para o líder levar em seu êxodo grego e tunisiano. Enfim, as sirenes de um jipe Range Rover, com muitos guarda-costas, anunciou que atrás, na limusine preta, vinha Yasser Arafat.

Ele desceu, e tudo ficou, de repente, muito tumultuado. Muitos queriam beijá-lo, costume comum entre os árabes. Arafat, miúdo no meio de tanta gente, foi avançando lentamente, identificável pelo kefiah (turbante) preto e branco. E entrou na poça de esgoto em que todos acabamos nos molhando.

Seu carro preto abriu passagem, com pessoas até sobre o teto, e quando a porta abriu, os que estavam próximos de Arafat o enfiaram para dentro. Por um cordão de isolamento, a limusine chegou a uma trincheira de sacos de areia, onde a ninguém é permitido ultrapassar, e há empurrões, ameaças de sacar armas. Um jornalista cai deitado no esgoto, e os outros estão sujos até os joelhos. A mulher com flores, e os guerrilheiros com as bandeiras, forçaram inutilmente a entrada.

Arafat partiu para o setor oriental, onde embarcou num navio especial grego, sob proteção americana e francesa, para a Grécia. Os tiros tão aguardados começaram a ser disparados, para o mar. O chão ficou cheio de cartuchos vazios.

O navio era o Atlantis. E seu mais ilustre passageiro se afastava outra vez de sua Atlântida, o continente palestino perdido.

Mais sobre a guerra Israel-Líbano

Tanta corrupção, tão pouca memória.

Tentei manter o Museu da Corrupção com a ajuda de um crowdfounding.

Ganhei o primeiro não.

Procurei um crowdsourcing. Prometeram responder em dois dias.

Passsaram-se mais de 30. Segundo não.

Ofereci o texto abaixo para os dois jornalões de São Paulo.

Um o considerou uma pauta. O outro nem respondeu.

Depois de quatro nãos fiquei muito inseguro.

Então, resolvi anunciar

pelas redes sociais que o Museu da Corrupção,

no país da corrupção, vai fechar.

O Museu da Corrupção. Ele é virtual, mas foi projetado por um arquiteto.

O Museu da Corrupção. Ele é virtual, mas foi projetado por um arquiteto.

O Museu da Corrupção parou de se atualizar todos os dias. Não por falta do que expor. Com o Petrolão jorrando daria até para montar uma exibição diária. Também não por problema de espaço, que é ilimitado na internet, onde ele foi aberto há seis anos, no endereço www.muco.com.br

O Museu da Corrupção pode acabar, por falta de recursos. Tanto sucesso fez ao abrir, em 22 de abril de 2009, que, em 9 meses,recebeu o Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa. A coincidência com a data da Descoberta do Brasil foi proposital: pesquisas confirmam que corruptores degregados e Pindorama surgiram com as primeiras caravelas.

No início, o MuCo requeria poucas horas do trabalho de uma pequena equipe. Mas agora, não mais, afogando no mar de lama dos propinodutos abertos na Petrobras.

O MuCo chegou a ter um milhão de visitantes por mês. Foi notícia aqui e lá fora, tido como antídoto à venenosa corrupção. Do mundo digital o MuCo baixou fisicamente no Largo de São Francisco, convidado pelos alunos de Direito da USP. Materializou-se com paineis e uma seção multimídia especial sobre a Maranhão dos Sarney. Por acaso, uma banca oferecia ali, quentinha, a Pizza Sarney, o bigodão de aliche – a mais concorrida do cardápio da virtual do museu, mas assada de verdade por um pizaiolo do Bexiga. Havia fila para comprar um pedacinho desse maranhão, sabor impunidade.

O MuCo nasceu contra a impunidade – as pizzas do Planalto. Quem segue as manchetes de jornais vê que o escândalo de hoje empurra o de ontem para escanteio. Alguém aí se lembra da Operação Navalha, em 2007? Foram soltos todos os 46 presos acusados de comprar licitações do PAC e do Luz para Todos. Quem sabe que fim levou o desvio de R$ 214 milhões da Sudam, em 1999? Entre 143 presos e soltos, o ex-senador Jáder Barbalho conseguiu até ser reeleito, em 2011.

A geração pós-1964 herdou depoimentos, documentos, imagens, livros, testemunhos, aulas, jornais e revistas – enfim, memória da ditadura militar que durou 21 anos. Reuniu conhecimento para responder às tentações antidemocráticas,cíclicas e não deverá, por suposto,repetir erros do passado.

    O Brasil supercorrupto é, principalmente, um desmemoriado; reelege políticos flagrados recebendo propina, ou que lavam $$ em paraísos fiscais. Suspeitos são postos a investigar o butim que eles próprios compartilharam. A referência para a história está pulverizada em muitos arquivos da PF, das CPIs do Congresso, de jornais e revistas, do STF, de blogs, dos institutos de combate à corrupção nacionais e internacionais, e da ONU.

Um propósito do MuCo é coletar, organizar e expor, centralizado, online, e com acesso gratuito, a corrupção e os corruptos, não os deixando escapar pelo esquecimento. Hoje uma torre só, o museu já poderia ser um condomínio. De jornais convidados a ter sua própria torre, 3 aceitaram, um apenas restou – o Lance, de olho nos escândalos do esporte, em tempos de Copa do Mundo e das Olimpíadas.

  Difícil acreditar que tanto se reclame da corrupção galopante no Brasil, e nada seja feito para preservar sua história. E ela vai aumentando cada dia mais: Mensalão, Petrolão, quem sabe Apagão? (da Eletrobras). É o seu dinheiro, o meu e o nosso coletado para Saúde, Educação, Desenvolvimento, ou para 39 ministérios, embolsado por uns poucos em postos-chave e com mandatos políticos, foro privilegiado.

Pai do MuCo, compartilho sua paternidade. Que ele tenha muitos pais! Importante é que exista, se desenvolva e se torne referência nacional para pesquisas e para a história da corrupção no Brasil. Com recursos, ele poderá transmitir ao vivo operações e alertas da PF, ou julgamentos no STF e CPIs no Congresso, e promover visitas guiadas por temas ou casos.

O MuCo criou uma galeria que expõe as obras de arte apreendidas de refinados lavadores de dinheiro. Poderia ainda esculpir em cera os maiores corruptos do Brasil, exibindo-os como as estátuas de Madame Tussauds, em Londres. O museu estava preparando um salão para o acervo do Petrolão, homenageando quem foi processado até morrer, em New York, por dizer que havia corrupção na Petrobras – o escritor e jornalista Paulo Francis. E ele estava certo!

            Já aconteceu algumas vezes: absolvidos, suspeitos pedem para sair de exposição. Ninguém quer integrar uma coleção permanente sobre corrupção. O MuCo tem esse poder de dissuasão. Mas há muito ainda a fazer. Se não for alimentado, renovado e desenvolvido, ele vai acabar fechando as portas. Será uma pena.

    Alguém quer ajudar? Algum mecenas? Alguma fundação? Alguma sugestão? Crowdfounding? Crowdsourcing? (Só não são bem-vindos empreiteiras, Petrobras, partidos politicos e órgãos do governo federal, estadual e municipal).

A brasileira do terror

Deir Balut

Deir Balut

A brasileira Lamia Maruf saiu da aldeia de Deir Balut,

na Cisjordânia, dirigindo uma kombi alugada com cinco passageiros

— o seu marido, um cunhado com a esposa, e três rapazes de sua família.

Adiante na estrada, um soldado israelense pedia carona.

Foi atendido. Depois, assassinado. A seguir, enterrado numa caverna.

Um detalhe levou à prisão do grupo dois anos depois: Lamia tinha

alugado a kombi com seu passaporte. Ela e o marido pegaram prisão perpétua.

O Brasil pediu a libertação de Lamia, mais tarde concedida.

O marido, Tawfic  Abdallah, foi um dos 477 palestinos libertados em troca

de um soldado israelense sequestrado, Gilad Shalit. Ambos estão no Brasil.

Lamia Maruf

Lamia Maruf

Tel-Aviv, 24/04/1986 — Depois de brincar por 40 minutos com sua filha de 11 meses, no centro de detenção de mulheres de Kishon, perto de Haifa, a brasileira Lamia Maruf Hassan disse à vice-cônsul do Brasil em Israel, Debora Jaeger:

– Diga para todo mundo que sou forte… Que eu não choro, não.

Mas a Sra. Jaeger a viu chorar, em seguida: despedia-se de sua filha, Lubna Patrícia Abdallah, que o deputado Airton Soares (PMDB-SP) levou de volta para o Brasil. Lamia não esperava tê-la naquele sábado de manhã, dia 19, e nem sabe, agora, quando irá revê-la.

– Ficou olhando a filha, demoradamente, no momento da despedida. Assinou um documento para que ela pudesse partir de Israel. Disse-me que estava conformada, entendendo bem a situação. Aí chorou. Estávamos partindo, e ela chorava lembra a vice-cônsul, Debora Jaeger.

Lamia Maruf Hassan, 21 anos, foi presa na aldeia de Deir Balut, na Cisjordânia, no dia 13 de março, com seu marido, Taufik Ibrahim Mohammed, de 31 anos, e mais quatro rapazes e uma mulher, Zohara Said, mãe de três crianças.

O grupo preso, afiliado ao Al-Fatah, a facção majoritária liderada por Yasser Arafat dentro da OLP, “estaria” sendo acusado de rapto e assassinato de um sargento israelense, David Manos, desaparecido desde o dia 6 de novembro de 1984.

“Estaria”, pois nenhuma autoridade israelense quis se precipitar:

– Enquanto os suspeitos não são incriminados formalmente nada se pode falar sobre eles, segundo a lei em Israel, disseram várias fontes que acompanham de perto o caso. O pedido deste repórter para visitar Lamia foi negado oficialmente, e com alguma visível irritação.

Sargento David Manos

Sargento David Manos

Mas alguns fatos já se tornaram conhecidos, transpirando dos serviços de informação e revelados pela advogada de Lamia, uma dedicada e famosa defensora de quase todos os palestinos presos por Israel, Felicia Langer, do Partido Comunista Israelense.

Em 1981, Lamia Maruf Hassan veio visitar a aldeia de sua família, Deir Balut, na Cisjordânia, que Israel ocupa desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967, e a chama pelo nome bíblico de Samaria. Tinha acabado o curso secundário e vinha conhecer seu futuro marido, o primo Taufik. Os dois namoraram até que ela voltou ao Brasil, para continuar o curso colegial, e ele foi lecionar na Líbia,

Casaram-se três anos depois, em 1984. Foram viver numa modesta casa sem água nem luz, em Deir Balut. Lamia falava ainda um árabe rudimentar e era vista, sempre, com um gravador, escutando música brasileira. Chamava a atenção, por ser muito bonita. Um conhecido, palestino, sabendo-a presa, agora, declararia ao jornal israelense Yedioth Aharonot, em 26 de março:

– Quem poderia imaginar que uma moça tão linda assim virasse terrorista?

Lamia logo trocaria o jeans pela galabyia, a túnica das mulheres árabes, e um lenço na cabeça. Estaria grávida de três meses quando assumiu a direção de uma Kombi alugada com seu marido, o cunhado Tachsin e a esposa, Najach, e mais três rapazes de sua família. Ao deparar com um soldado de Israel pedindo carona na estrada, estacionou.

O soldado, sargento post-mortem David Manos, nunca mais reapareceu, depois desse dia, 6/11/1984. Quando as buscas foram encerradas, e seus pais quiseram que elas prosseguissem, com esperanças, o então chefe do Estado Maior do Exército, general Rafael Eitan, sugeriu que talvez Manos estivesse envolvido com drogas, vivendo no submundo da máfia israelense.

Quase um ano depois, e por acaso, a polícia foi descobrir o corpo do sargento David Manos, conduzida pelo grupo a que Lamia pertencia, delatado por um rapaz da própria aldeia Deir Balut, detido para interrogatório no caso de um “crime menor”, e pode então reconstituir o que acontecera com o sargento depois que ele entrou na Kombi da família Abdallah. Pelo que consta, embora sem confirmação de fonte oficial, ele teria sido dominado, levado a um local onde foi assassinado, por estrangulamento, e depois transportado para uma caverna, onde o enterraram. (Outra versão é a de que ele fora levado diretamente para a caverna, amarrado, e depois mantido preso por alguns dias, até ser assassinado).

– Só dirigi o carro, admitiu a própria Lamia. Ela se defendeu:

Não matou nem sabia que alguém queria matar o sargento. Como a irlandesa que, dias atrás, carregou uma mala com explosivos pelo aeroporto de Londres, sem o saber, para embarcar num voo da israelense El-Al.

Ela contou que dirigiu o carro durante uma conversa com a vice-cônsul do Brasil, Debora Jaeger, sem qualquer tipo de pressão. E o repetiu diante da corte militar de Nablus, como o confirma sua própria advogada de defesa, Felicia Langer, que, como as autoridades israelenses, acrescenta: “Mas não posso lhe dar mais detalhes”.

Numa entrevista ao jornal Hadashot, um novo vespertino israelense, o deputado Airton Soares diria: “Se Lamia estiver envolvida no assassinato do soldado David Manos, é somente por influencia da OLP”. E diria mais, ainda: “A detida contou ao secretário do consulado, com quem se encontrou esta semana, que os investigadores tentaram forçá-la, sob ameaças, a confessar que é membro da OLP”. E concluiu, segundo publicaram os repórteres Nadav Haetzni e Ruth Kerny: “Mesmo na época da ditadura no Brasil realizavam-se julgamentos públicos. Aqui, não”.

O deputado Airton Soares veio a Israel para participar do processo que envolve Lamia, como observador, e também para orientar a advogada Felicia Langer. Conseguiu vir (depois de declarar que Israel talvez não lhe concedesse visto, do qual nem precisou, como qualquer outro brasileiro), deixaram-no encontrá-la (depois que ameaçou levar um pedido até o primeiro-ministro Shimon Peres), falou à imprensa israelense sobra a “ditadura” em Israel, e viajou de volta para o Brasil com a filha de Lamia. O irmão Taissir, que veio com ele, teve menos sorte: esperou diante da corte de Nablus uma autorização para vê-la que não lhe foi dada. Lá dentro, sua irmã estava tendo sua prisão preventiva prolongada por mais 35 dias. Não podia ver sequer a própria filha.

Sua advogada Felícia Langer, por um mal entendido, chegaria só meia hora depois. Mas teve acesso ao protocolo da sessão;

– Em qualquer país é assim — justificou um funcionário israelense. – Vá tentar ver ou entrevistar algum terrorista detido em prisão europeia… Depois que for julgado, talvez. Mas, durante o inquérito, nunca. Afinal, Lamia é suspeita de assassinato político… Ela dirigiu um carro em que houve luta e que transportou um corpo. Tem que ser julgada.

Lamia não se queixa mais das condições atuais em que está detida. O momento pior foi quando esteve completamente incomunicável. Chegou a ser ameaçada por uma prisioneira judia em vingança pelo assassinato do sargento David Manos. É o que conta a advogada Felicia Langer, que pode vê-la regularmente, agora, no presídio perto de Haifa.

– Posso ir vê-la quando quiser também – diz a vice-cônsul do Brasil, Débora Jaeger. No último encontro, sábado passado, ela levou de surpresa a sua filha, para uma despedida:

– Ela me disse que tudo o que fez foi por amor ao marido.

“Eu amo ele”, repetia. “Vou esperar por ele”, prometeu. Então, eu lhe perguntei: você faria tudo de novo? “Por amor, faço”, ela respondeu, e me perguntou: “Você sabe o que é o amor? Sabe?

445658 O governo brasileiro quer Lamia livre

Jerusalém – A brasileira Lamia Maruf Hassan achava que ia se livrar da prisão perpétua a pedido do chanceler Luís Felipe Lampreia, o primeiro ministro do Brasil a visitar Israel em 22 anos, nesta semana, num degelo das relações entre os dois países. “Agora ela chora, deprimida” – contou quem esteve com ela, sob a condição de não ser identificado.

Lamia, 30 anos, acusada pelo exército de Israel de ter sequestrado, enforcado e esquartejado o soldado israelense David Manos, junto com o marido palestino Taufic Ibrahim Mohammed, também prisioneiro perpétuo, sustenta ainda hoje, oito anos depois de julgada por um Tribunal Militar, que só participou indiretamente do crime, executado em nome da OLP, hoje negociando em paz a expansão de um regime autônomo na Cisjordânia e Gaza.

“Estava em casa, na cozinha, quando o soldado foi morto” – ela disse ao visitante. “Isso nunca foi questionado”. Promovido a sargento ao morrer, o soldado Manos ficou alguns dias refém da OLP antes de ser executado. Mais de um ano depois, sem pistas, sem corpo, a polícia já afastava a suspeita de atentado contra ele, especulando se não teria sumido com um amigo que vivia na clandestinidade do crime organizado. Mas então um delator da aldeia de Deir Ballut entregou o casal Hassan, a cunhada Zahara e Mustaf Mahmud. Os quatro levaram policiais a uma caverna onde foi desenterrado um esqueleto. Era Manos, confirmou-se. Ao grupo também se acrescentaram duas bombas que não explodiram, plantadas num cinema e num hospital.

Lamia estava grávida de três meses quando dirigia a Kombi em que Manos pegou carona para a morte. A filha Lubna Patricia Abdalla pôde nascer no Brasil, onde hoje, com 9 anos, vive com avós e tios. Uma vez por ano visita a mãe, no presídio de Hasharon, perto de Tel-Aviv. A Embaixada do Brasil pode vê-la a cada duas semanas. Manda-lhe jornais, revistas e livros em português. A imprensa é rechaçada. Autoridades israelenses não entendem por que “tanto interesse nela”, uma “terrorista com as mãos manchadas de sangue”. O chanceler Shimon Peres procurou retira-la do meio das novas relações entre Brasília e Jerusalém, repetindo que ela “violou a lei”, garantindo que “está sendo bem tratada” e prometendo que “poderá sempre receber visitas”. Alguns empresários brasileiros acompanhando o chanceler Lampreia, equipararam-na aos canadenses que sequestraram o empresário Abílio Diniz. “A gente até fica ofendido quando nos pressionam para liberta-los”, lembrou um deles.

Há dois meses, Lamia aderiu à greve de fome dos prisioneiros árabes em Israel. A Embaixada do Brasil tentou passar a visita quinzenal para semanal, sem conseguir. O jejum durou 18 dias. Foi interrompido, então, porque a liderança palestina na prisão ficou satisfeita com a promessa de libertação das prisioneiras, num gesto de boa vontade israelense ao progresso nas negociações com a Autoridade Palestina. Uma lista está nas mãos de negociadores palestinos e israelenses, mas dela não constariam, em princípio, as que são acusadas de “crime de sangue”. A única esperança para Lamia, como sugeriu o ministro da Justiça de Israel, David Libai, ao chanceler Lampreia, “È um gesto político”. Mas ele próprio disse que nada tem a fazer: o processo está na alçada da justiça militar.

“Lamia queria sair da prisão perpétua como brasileira, não pelas ligações com a OLP” – contou a quem a visita. Vive agora numa cela sozinha, por ser a mais antiga. Aprendeu hebraico e inglês, já sabia o árabe e mantêm fluente o português. “Está muito bonita, os cabelos compridos”, lembrou o visitante, a quem deu de presente uma almofada que bordou. Outro presente que fez antes, para outra pessoa, foi uma miniatura da mesquita de Omar, sobre o Monte do Templo, em Jerusalém. Quando sabe que será visitada, “prepara-se: quer parecer bem”. A impressão que deixa “é a de ser muito forte e que procura pensar positivamente”.

Na cela de Lamia há uma TV, um aparelho de som e “tratamento com dignidade: ela nunca foi maltratada”. Numa oportunidade em que teve a chance de pedir algo, optou por um aquecedor, que usa durante o inverno. Antes vestia-se de azul ou preto, as cores do presídio, mas agora pode se vestir à vontade. Ela costura o próprio vestido, borda toalhas e almofadas. Outras presidiárias a procuram para compartilhar os problemas. Ela lhes faz um resumo do que leu – “e lê um livro atrás do outro”. São “aulas”, como contou ao visitante, que convida: “Quem quiser lhe escrever uma carta, só endereça-la ao Presídio Hasharon, em Israel, e ela a receberá”.

Galeria

Saudades do Diário do Comércio…

As capas do Diário do Comércio expostas aqui estavam no acervo do NewsPage

Designer que entrou em reforma. Num e-mail circular aos associados, o site pede que cada

um faça o backup de seu portfólio, por garantia. Já que o fiz, aproveito e as exponho aqui.

São 11 anos de capas, uma diferente da outra. Foram feitas sempre em equipe.

Com o tempo, acrescentarei outras, como as selecionadas a

concorrer ao Prêmio Esso, nunca conquistado na categoria “Capas de jornal”.

O Newseum, de Washington, julgou esta capa uma das dez melhores do mundo sobre o terror na maratona de Boston.

O Newseum, de Washington, julgou esta capa uma das dez melhores do mundo sobre o terror na maratona de Boston.

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lula atômico

Manchete com socorro a Paraitinga oscar

Mister da Silva

Dos brasileiros que conheci na minha

temporada em Israel, Mr. da Silva

foi o único do qual me despedi posto num caixão,

seu corpo despachado para enterro no Brasil.

Ele trabalhava em Jerusalém como

porta-voz da ONU, na Colina do Mau Conselho, onde comprava sem impostos as cervejas e uísques que repartia com os amigos.

Pena: não guardei fotos dele, mas é possível

que ainda as encontre, e então as colocarei aqui.

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Foto: Haaretz.

A ONU, na Colina do Mau Conselho. Foto Haaretz

O porta-voz das forças de paz no Oriente Médio, mister Da Silva, é, sim, brasileiro. No Brasil ele era só uma voz, porém famosa, a primeira que se ouviu transmitindo, direto de Belém, via Aman/Cairo/Londres/NY/Rio, a Missa do Galo do ano da Guerra do Suez, em 1956.

Fernando Jaques foi um popular repórter da Rádio Nacional. Agora, mister da Silva, 62 anos, convocado de sua sala no palácio inglês da Colina do Mau Conselho, em Jerusalém, pelos jornais do mundo todo, é o homem de ligação e informação da ONU na área considerada a mais delicada e a mais explosiva do mundo: o Oriente Médio.

Algumas vezes o tratam como se fosse um francês, o nome grafado assim, nos jornais: monsieur Jacques de Sylva. Como porta-voz da ONU sua missão é viajar pelo mundo. Na bagagem, vai sempre um violão. Levou-o para Karachi, no Paquistão em guerra com a Índia, ao final de 1965 e até 68. Depois, para a Birmânia, que não se dava bem com o secretário-geral e seu chefe, o birmanês U Than, e dali para Lima, no Peru. Afinal chegou ao Oriente Médio, com QG em Jerusalém, e sua jurisdição inclui Beirute/Cairo/Damasco e Aman. Gosta de cantar. E conhece até músicas recentes de Chico Buarque, Caetano Veloso, Elis Regina, Fafá de Belém, as suas preferidas.

Seu carro branco, placa número 5, está ligado permanentemente com a ONU. E em Jerusalém, passeando, pode receber a ordem repentina de se apresentar na sala do comando, onde está o general Enzio Siilasvuo, e então partir para o Sul do Líbano, ou Nova York. Ele nunca sabe. Por isso, deixa sempre uma pequena mala pronta. E o violão.

Mister da Silva já é avô, e sua esposa, atualmente, mora no Rio. Quando veio para Israel, por seis meses, há três anos, já pensava em voltar a trabalhar em rádio, não mais como entrevistado, mas entrevistando, e em português.

Quem o tirou do jornal A Batalha, onde começou como repórter em 1935, e o colocou diante de um microfone, porque gostou de sua voz, foi Galeano Neto. E quem a educou, depois, foram Luís Mendes e Heron Domingues, com quem esteve no Egito para entrevistar o presidente Nasser. Os jogos olímpicos de 1948, os primeiros depois da 2ª Guerra Mundial, em Londres, chegaram com a sua voz, na Av. Rio Branco para a grande torcida que se emocionava com as vitórias da seleção brasileira de basquete. Ficou na Rádio Nacional até se tornar o diretor de sua TV, que inaugurou, em Brasília. Então, a ONU o escutou e o convidou para gravar seus programas em português para o Brasil, Portugal e África, a partir de 1962.

Hoje mister da Silva sai do encontro com Yasser Arafat, o líder da OLP, numa casa de um subúrbio de Beirute, e entra na sala do general Dayan, em Jerusalém. Depois, vai para seu apartamento e toca violão. Se o telefone permitir.

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O “erro” fulminante

O general Enzio Siilasvuo, chefe do Estado-Maior das Forças de Paz das Nações Unidas no Oriente Médio, admitiu que “foi um erro”, o comunicado divulgado por seu porta-voz, o brasileiro Fernando Jaques da Silva, na última segunda-feira, sobre incidentes que ocorriam no Sul do Líbano.

O porta-voz Fernando Jaques da Silva, depois de divulgar o comunicado, sabendo que ia “provocar muito barulho”, como o comentou a mim e também a uma cadeia norte americana de televisão, sofreu um ataque cardíaco fulminante, e seu corpo chega as hoje ao Rio de Janeiro, de Paris, pela Air France, para que sua família o enterre.

O general Enzio Siilasvuo disse mais ainda, durante a transmissão de posse entre o antigo oficial de ligação do exército israelense com a ONU, coronel Simon Levinsohn, amigo de Fernando Jaques da Silva, e o coronel Aharon Levran, seu substituto: “Este comunicado jamais deveria existir”.

O comunicado denunciava a presença de militares israelenses durante uma manifestação de cristãos do sul do Líbano diante do posto de Nakura, na fronteira com Israel. Na confusão criada, dois oficiais libaneses muçulmanos, vindos de Beirute, foram raptados, depois libertados, e um helicóptero destruído, o mesmo que os trouxera até ali. “Espero”, concluiu o general Siilasvuo, “que este incidente seja esquecido nos próximos dias. Não vemos a necessidade de publicar um novo texto, invalidando o anterior”.

O comunicado divulgado na noite de segunda-feira passada pelo Quartel-General da ONU, em Jerusalém, era do conhecimento do general Siilavuo. Antes de divulgá-lo oficialmente, Fernando antecipou: “Alguém vai cair na ONU…” — e contou por que: recebidas as informações de Nakura, através de um porta-voz da Unifil, as forças de emergência no sul do Líbano, ele as levou para o general Siilasvuo, que apenas recomendou, por prudência, que o texto final fosse antes passado para o vice-secretário geral das Nações Unidas, Brian Urquhart, em Nova York”.

O texto final foi então entregue a um general da Unifil, encarregado de contatar Brian nos EUA. Mas a consulta levou tão pouco tempo, 20 minutos, que gerou a suspeita de que “sequer teria sido feita”. E a informação de que “NY esta de acordo” veio acompanhada de uma ordem: “divulgue-se”.

A ONU, o exército israelense, o ministério de Relações Exteriores, a embaixada brasileira e alguns amigos, diplomatas e jornalistas, levaram o corpo de Fernando Jaques da Silva até o aeroporto Ben Gurion, em Tel-Aviv, de onde partiu para o enterro no Brasil. Enquanto uma bandeira das Nações Unidas era enrolada sobre o caixão, o padre Francolino Gonçalves fez uma pequena oração em português.

Bebês brasileiros-israelenses

Os bebês do Brasil em Israel

macacao-body-do-brasil-tp_523245418705345955fA SÉRIE BRAZILAI (BRASILEIRO EM HEBRAICO) CONTINUA COM A BRASILEIRA ALÇADA A HEROÍNA EM ISRAEL, MAS CONDENADA POR TRÁFICO DE BEBÊS NO BRASIL, ARLETE HILU. ELA VENDEU MAIS DE MIL BEBÊS, POR VALORES QUE CHEGARAM A 20 MIL DÓLARES. QUANDO PRESA EM TEL-AVIV, POR USAR PASSAPORTE FALSO,   SEUS CLIENTES TENTARAM IMPEDIR QUE FOSSE EXTRADITADA A PEDIDO DO BRASIL. ISRAELENSES AINDA A PROCURAM. SÃO OS BEBÊS DA DÉCADA DE 80, AGORA ADULTOS, QUE  QUEREM CONHECER OS PAIS BIOLÓGICOS.

Arlete, foto de Guto Kuerten, RBS.

Arlete, foto de Guto Kuerten, RBS.

Tel-Aviv, 01/1982 — Muitos israelenses estão dispostos a se atirar sobra a pista do aeroporto de Tel-Aviv para impedir que decole algum avião levando a mineira Arlete Hilu de volta ao Brasil, onde a espera a prisão preventiva já decretada.

Arlete, 41 anos (em 1982), de Itajubá, MG, está em liberdade condicional em Holon, subúrbio de Tel-Aviv. Os israelenses que superlotaram o tribunal com seus filhos adotados no Brasil, apoiando-a com cantoria e rosas, agora a protegem de quem quiser vê-la, principalmente de repórteres brasileiros. Uma “comissão de ação pró-Arlete”, como tantas outras criadas aqui em defesa da causa dos judeus soviéticos, já está em plena atividade.

Foi realmente difícil falar com Arlete. Essa nova heroína de muitos israelenses, pais de mil a duas mil crianças que ela ajudou a “adotar” no Brasil, comoveu o país inteiro ao chorar no tribunal, ao ser libertada, e repetindo, em inglês, “obrigada, muito obrigada”. A TV a mostrou longamente, em seu horário nobre.

Com o consentimento de alguns de seus protetores, o número do telefone obtido com seu advogado, Shmuel Peer, Arlete atendeu quando liguei.

– Como está difícil falar com você, Arlete…

Arlete Hilu: – Saí de oito dias de cadeia. Estava cansadíssima. Não podia falar.

– Você foi bem tratada na prisão?

AH: – Fui muito bem tratada. Não tenho do que reclamar…

– E por que você foi presa em Israel?

(Antes que Arlete responda, veja a acusação oficial da polícia: ela entrou em Israel com passaporte em nome de Vilma Pereira de Oliveira, usou ainda outros nomes, fez-se passar por advogada e ajudou a centenas de casais israelenses a adotar crianças brasileiras com documentos falsos. Um casal que teve de devolver, em Nova York, o bebê obtido através de Arlete, por 20 mil dólares, porque os papeis não estavam em ordem, apresentou queixa em Israel, querendo indenização. Alguns dos adotados seriam, na verdade, reféns, roubados de suas mães.)

AH: – Minha única culpa, aqui, foi ter entrado com passaporte com outro nome.

– Falso?

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AH: -Não. O passaporte foi tirado direitinho lá no Brasil, só que com outro nome. Isto é falsidade ideológica. Não tem justificativa. Tenho que pagar por isso. Mais fui levada a agir assim. Mas o Brasil tem parte da culpa.

– Por quê?

AH: – Por que se me apresentasse no aeroporto com meu próprio nome com certeza seria presa…

– E por quê?

AH: – Ora, tenho problemas lá… Não me diga que não sabe. Sou a principal envolvida na adoção de crianças em todo o Brasil. Mesmo que nem tenha sido eu, há gente que usa meu nome. Acusam-me de rapto. Mas eu nunca forcei nenhuma mãe a me entregar seu bebê. Bem, é por isso, que tenho uma prisão preventiva me esperando voltar.

– Esse casal israelense que perdeu o bebê em Nova York por causa de um passaporte falso… Todas as crianças “adotadas” saíram assim do Brasil?

AH: – Não tenho culpa se o passaporte da criança tenha saído errado. Foi a própria polícia que o fez. Acho muito estranho que essa mesma polícia não o tenha percebido lá mesmo, no Brasil, na hora do controle de documentos, no aeroporto. Só em Nova York, e pelos policiais americanos?

(Acrescenta o advogado Shmuel Peer: “O casal Katarivas deixou o Brasil antes que a documentação estivesse inteiramente completa. Foi um mal-entendido”.) A informação de que o bebê teria custado 20 mil dólares aos pais adotivos também é contestada. Embora Arlete não fale de preços, “pois cada caso é um caso”, jornais israelenses avaliaram em 20 mil dólares a adoção, com tudo incluído: despesas com passagem e hospedagem. Haveria bebês de 40 mil dólares também.

– Quantas crianças você ajudou os israelenses a adotar?

AH: – Aqui dizem que foram mil, ou mais. Eu não sei ao certo. Foram muitas, isto sim. Muitas.

(O Ministério do Interior contabilizou oficialmente 252 casos, que são aqueles que referendou no processo).

– E o que você acha disso?

AH: – Acho errado. Sou contra. Nossos filhos não deveriam sair do Brasil. Mas o Brasil deveria dar condições para que as mães os criassem. Segundo o Unicef, de três a quatro milhões de crianças entre zero e dois anos morrem por ano no Brasil. Seriam mais de 30 mil por dia… Enquanto isso, aqui em Israel, tem gente querendo tanto uma criança…

(São mulheres que perderam maridos nas guerras. Ou outras, estéreis. Muitas, ainda, por um princípio humanitário. Todas querem uma criança. “Uma verdadeira tragédia humana”, conta o advogado Marcos Wasserman, presidente do Centro Cultural Brasil/Israel, muito procurado para aconselhar legalmente candidatos a adoção de bebês brasileiros. “A lei judaica permite ao marido separar-se da esposa que não lhe deu filho, após dez anos de casamento. Arlete reuniu casais, permitiu nova vida a viúvas e a centenas de israelenses.

– O povo daqui gosta de você… Como você se sente, procurada num país e protegida em outro?

AH: -O povo gosta demais, demais. É maravilhoso. No tribunal, levei um choque. Aquela gente toda com rosas, cantando. Aquelas crianças já crescidas… Não sei o que dizer. Minha vida será curta para pagar o que estão me dando. Gente que me protege. Que diz que me impedirá de ser levada à força daqui. O Brasil joga fora, e aqui dão vida a uma criança. Amo o Brasil, mas neste sentido ele é muito egoísta: não deixa um bebê sair, só para que morra lá.

Arlete está na casa de uma família a qual ajudou a adotar uma criança, mas convidada para muitas outras. Veio com seu filho, de um ano e cinco meses, Paulo Henrique, que teria problemas cardíacos mas estaria já sendo tratado. O pai ela esconde. Israelense? Ela ri, e não responde. Diz que é viúva há 14 anos. Agora, diariamente, ela deve se apresentar à polícia, em Holon, até que seu processo seja encerrado. Ela não tem dúvidas de que será absolvida, no final. A “comissão de ação pró-Arlete” deu uma demonstração de que é capaz de comover o país todo, e estava apenas começando a agir.

arleteNota: Absolvida em Israel, mas condenada no Brasil por formação de quadrilha e tráfico de bebês, Arlete ficou presa por dois anos. Ao sair, continuou a vender adoções. Foi presa de novo, na fronteira com o Paraguai, com seis passaportes em branco, carteiras de identidade falsas e roupas de bebês. Ao ser libertada, fixou-se no Balneário Piçarras, em Santa Catarina. Ainda hoje recebe emails de israelenses, mas agora de adotados que a procuram na tentativa de encontrar os pais biológicos, conhecer a cidade em que nasceram, dar uma volta às origens, mas sem abrir mão da nacionalidade israelense.

Gilberto Gil “brazilai”

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Hebraico para brasileiro, Brazilai é

uma série de artigos sobre brasileiros em Israel.

São cantores, prisioneiro de guerra,

porta-voz da ONU, agenciadora de bebês para adoção,

políticos em visita e até uma mulher que se uniu a um grupo

terrorista para matar um soldado israelense.

A série começa aqui com Gilberto Gil.

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Tel-Aviv, 2/8/1982 — Quem diria que num pequeno país em guerra, Israel, onde cada habitante tem pelo menos um parente ou um amigo na linha de frente dos combates, 150 mil pessoas se reuniriam para ouvir e dançar musica brasileira?

Pergunte-se a Gilberto Gil.

-Incrível, né? – ele comentou, surpreso, ao partir de Israel para Londres. Sua empresaria israelense, a uruguaia Lilian Schutz, a mesma que trouxe Gal Costa pouco tempo atrás, antes da guerra eclodir no Líbano, assegura que “Gil chorava ao caminhar para o avião”.

Pergunte-se também ao Repolho, um dos bateristas que veio com a banda de Gil, considerado “sensacional” pelos críticos de música de Israel, e ele responderá:

-Pô, meu…

Gil deu três concertos pagos, os teatros de Cesárea, Jerusalém e Tel-Aviv completamente lotados, mais um livre, na concha acústica de um grande parque em que se apresentou Zubin Mehta. Fora os espetáculos, ele deu longas entrevistas ao vivo às rádios e uma pela televisão.

Nos10 dias em que passou em Israel, que define como “um país tropical”, ele tratou de ensinar a mitologia brasileira, e palavras estranhas como candomblé, macumba, Oxalá, Yemanjá, Xangô e Oxossi acabaram se tornando populares.

O primeiro show de Gil foi no teatro construído por Heródoto, em Cesárea, há 2200 anos. A audiência era majoritariamente brasileira, saudosa, gritando os nomes das canções que queria ouvir. Um grupo exibia uma faixa: “Curitiba o saúda”.

Tão logo Gil apareceu, com a camiseta amarela da seleção brasileira, houve a primeira tentativa de invasão do palco. Muito à vontade, em inglês fluente, ele falou ao público sobre os problemas de segurança no mundo, deixando implícitas suas criticas à guerra de Israel no Líbano, e prometendo “um carnaval para o fim do espetáculo”. Mesmo assim, ocorreriam algumas cenas de violência, a policia reprimindo duramente os impacientes que já queriam dançar.

Flora, a mulher de Gil, misturou-se ao público, dançando, e muitas vezes Lilian Schutz, a empresaria, teve que avisar à policia:

– Calma, ela é a mulher do cantor…

O show livre de Gil, patrocinado pela prefeitura de Tel-Aviv e por um banco israelense, só seria anunciado após encerrados os espetáculos pagos. Depois de Cesárea, Gil contataria, então, o público israelense, em Jerusalém. Ele repetiria, porém, a mesma recepção dada pelos brasileiros que vivem em Israel, tentando dançar apesar da polícia, muito rigorosa.

Quando chegou ao terceiro show pago, Gil já se sentia á vontade para dizer ao público: “vou cantar uma música de sucesso na rádio israelense…”

E ouvia um coro repetindo: “sarara, sarara…”

A camisa da seleção brasileira já tinha desaparecido. Agora, os músicos apareciam com camisetas locais, Coca-Cola escrito em hebraico, ou “eu amo Nova York, mas minha casa é em Jerusalém”, ou, ainda, uma que traz um jogo de palavras: “Israel Isreal”. Emocionado com a recepção, Gil propunha à sua empresária Lilian um festival de música brasileira, tcom Rita Lee, Caetano, Milton, Maria Bethânia e uma grande banda. Mas, por enquanto, até o fim deste ano, deverão vir o balé do Recife e Nazaré Pereira, Gal Costa estando prevista para o começo do verão do ano que vem.

O último concerto de Gil foi para as primeiras páginas de todos os jornais locais, com fotos abertas das 150 mil pessoas reunidas no parque Hayarkon. A televisão também mostrou a multidão imediatamente após as imagens da guerra, que atingiu uma violência sem precedentes no domingo.

Gil brincava: “foi um maravilhoso sábado no parque”, e Domingo no Parque foi uma das canções que ele incluiu no show. “Aquele abraço”, outra, teve seu momento brasileiro explicado para a multidão, e “Luar”, em homenagem á lua quase cheia, ao lado da concha acústica. Gil estava todo de branco transparente  — “e olha: eu vibrava com a energia do público”, primeiro sentado na grama, depois forçando os cordões de isolamento da polícia e de um reforço chamado às pressas do batalhão de guardas da fronteira.

O prefeito de Tel-Aviv, Shlomo Lahat, que com Gal Costa dançava “sangue, suor e cerveja”, estava diante da concha acústica, vendo a multidão reunida apesar da guerra, “coisa que eu não imaginava”, disposto, agora, “a dar toda força a música brasileira em Israel”. E nem é preciso tanto esforço, pois os israelenses criaram um mercado para a venda de discos do Brasil em Tel-Aviv ou Jerusalém, e as últimas músicas são normalmente apresentadas na rádio, com tradução. A morte de um Vinicius ou Elis, por exemplo, renderam várias homenagens póstumas em programas especiais.

Ao final do concerto livre de Gil, que ameaçava não terminar, a multidão gritando “mais um”, a polícia o resgatou, pondo-o numa perua que partiu a toda velocidade. Mas no lugar em que o deixou, não distante, havia uma fila de jornalistas israelenses o esperando — nunca nenhum cantor reuniu tanta gente em Israel, e muito menos em tempo de guerra.

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Gil na imprensa israelense

Tel-Aviv, 20/7/1982 — Gilberto Gil apareceu em sua entrevista coletiva vestido como os israelenses: sandália, calção e uma camiseta com o nome de Stevie Wonder. Mas, ao contrário dos israelenses, está contra a guerra no Líbano:

-Não gostei disso, Israel bombardeando Beirute…

Havia muitos jornalistas esperando-o, no Hotel Plaza. Antes de evitar o lugar de honra ao centro de uma comprida mesa, indo sentar-se junto aos repórteres, Gil falava da guerra a correspondentes brasileiros, enquanto uma empresária pedia aos israelenses que evitassem perguntas políticas.

Mas foi inevitável. Um repórter, lembrando que artistas americanos vieram a Israel distrair os soldados nas frentes de combate, logo perguntou:

-Você cantaria para os soldados?

Gil sorriu, e respondeu, num inglês fluente:

-Olha, não tenho a menor intenção.

-Você não tem medo da guerra? — outra pergunta.

-Medo físico, não.

-Você não levou em consideração a guerra, antes de vir?

-Não, desde que os empresários não suspenderam os espetáculos… Aí, Gil fez os jornalistas israelenses sorrirem:

-A guerra aqui não tem nada de novo. Israel está em guerra há muitos anos.

Dizia-se em Israel, antes de Gil chegar, que “foi uma luta de quase um ano conseguir contratá-lo”. Mas Gil desmentiu, revelando que há nove anos ele tenta vir a Israel, “que quero conhecer”, só o fazendo agora porque “o momento é propício, a música brasileira sendo muito divulgada entres os israelenses”.

Perguntaram-lhe se a derrota do Brasil afetou seu trabalho, e Gilberto Gil, vangloriando-se como “goleiro”, contou que gravava duas faixas do último disco antes do jogo Brasil e Itália, interrompendo para assisti-lo. Depois, não se sentia bem para continuar gravando, “mas tive que prosseguir, e ao chegar em casa, chorei”. Até hoje, ele continuou contando, “tenho pesadelos à noite: vejo Falcão…vejo Paulo Rossi…”

Gilberto Gil quer visitar “pelo menos dois kibutzim”, em Israel, e tem um programa cheio: hoje, ele dará uma entrevista ao vivo à rádio militar, no mesmo programa de Eli Israeli, um apaixonado pela música brasileira que popularizou Gal Costa no país, tendo por prefixo o “Trem das Onze”.

-Você soube do sucesso de Gal aqui? – Perguntou uma repórter.

-Sim, ela me contou…

-Espera fazer o mesmo sucesso?

-Olha, eu só tenho medo de cantar no sul da Bahia… se me aprovam por lá, o resto do mundo é fácil. Não estou sendo modesto, não: show é negocio. Não poderia estar aqui se não houvesse aviões e não cantaria, se não houvesse eletricidade. Eu sou apenas uma peça em tudo isto.

Depois da entrevista à rádio militar, Gilberto Gil participar de um outro programa em outra rádio e de um show ao vivo pela televisão. No sábado, no anfiteatro romano de Cesárea, será a sua primeira apresentação, os ingressos já todos vendidos, seguida de um carnaval no Country Club da cidade, promovido pela embaixada do Brasil. Na terça e na quinta-feira, na próxima semana, Gil dará mais dois concertos, um em Jerusalém e outro em Tel-Aviv.

Em sua entrevista, Gil falou também de sua própria música, desenvolvendo uma longa explicação para então concluir:

– Eu faço música negra.

Um jornalista perguntou sobre rock, jazz e ritmos românticos, para estabelecer uma referência para os israelenses, e ele aceitou que “pode-se encontrar de tudo em minha música”, e até mensagens políticas, incluindo-se entre Chico Buarque, Caetano, Milton Nascimento e Bob Dylan – embora, para ele, “Dylan seja muito discursivo”. E explicou “o toque de minha música”:

– Sarara, por exemplo. Quem sabe o que é isso em Nice, em Montreux, em qualquer país da Europa. Ninguém. Mas todo mundo repete. E isto pode ocorrer aqui também.

– Alho terapia?

Gil ficou rindo, copo de suco de laranja à mão, enquanto os jornalistas ganhavam champanha:

– Nada disso. No Brasil, maximalizam tudo. São umas pílulas de alho, e é tudo. Criam muitas histórias…  

Exclusivo, mas inédito.

exclusivo

MAS INÉDITO!

Este é o meu inédito furo jornalístico mundial. Só me custou uma ida ao cinema. Quando ia saindo de casa, em Tel-Aviv, para a sessão das 9 da noite, o telefone tocou. Era o embaixador brasileiro Vasco Mariz (passados 23 anos, espero que identificá-lo agora não cause problemas diplomáticos entre Brasil e Israel). Ele contou que acabava de sair de uma reunião de embaixadores de países latino-americanos incumbido de passar à imprensa uma revelação. E me escolheu para publicá-la.

Adeus, cinema. No Brasil ainda três da tarde, por causa do fuso horário, não havia como deixar para escrever no dia seguinte. A “bomba”, como ele a introduziu:

“A Costa Rica vai mudar sua embaixada de Tel-Aviv para Jerusalém”.

Bomba, sim, mas tinha medo que não a reconhecessem lá longe, no bairro do Limão, em São Paulo. Por isso, depois de escrever e enviar por telex para a redação, telefonei para falar da importância de publicar a notícia, aparentemente um problema apenas de caminhão de mudança. Os embaixadores da América do Sul contavam com a “denúncia” para dissuadir a Costa Rica a não se mudar para Jerusalém, capital contestada de Israel. Valeria como um reconhecimento. Até a embaixada dos Estados Unidos ficava em Tel-Aviv. E o próprio Vasco Mariz mandava tirar a bandeirinha do Brasil de seu carro quando ia visitar o primeiro-ministro, o presidente, o Parlamento ou o Ministério das Relações Exteriores.

Dia seguinte, o embaixador me ligou: “Cadê a notícia? Não publicaram…”

Era uma notícia pequena. Não ocuparia tanto espaço assim no jornal. Prometi falar com a redação. Ele fixou um prazo: “Se não sair amanhã, passarei para outro repórter”. Telefonei, mandei recado, repeti o telex que já tinham perdido.

“Você está superdimensionando o assunto”, ouvi a 10 mil quilômetros de distância.

E não publicaram. O embaixador Vasco Mariz recorreu à agência Reuters. Que a pôs em seu circuito mundial em poucos segundos. Um por dia, todos os países árabes foram rompendo relações com a Costa Rica. Era, realmente, uma bomba. Foi manchete de jornais europeus e americanos. Lá pelo quarto dia de grande repercussão, recebo um telex: “E aí? Não vai entrar no assunto?”

A Costa Rica não se mudou para Jerusalém.

RC626Sou azarado com furos. Na minha primeira viagem internacional como repórter, para Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, fui cobrir o segundo casamento de Roberto Carlos, que não podia se casar no Brasil.No final da cerimônia civil resolvi conversar com o Juiz de Paz. Sem que perguntasse, ele desandou a dizer que “el matrimônio no es legal”. E reforçava: “Para nada, para nada”. Nosso avião, com os recém-casados, ou não ilegalmente casados, partiria em 40 minutos para a lua-de-mel em La Paz.Corri ao centro da cidade e escrevi vários telegramas para o jornal, despachados pela Western Union. Dia seguinte, no lobby do hotel, vi Roberto Carlos passar sem nos cumprimentar, os jornalistas brasileiros. Pensei: é o meu desmentido…Bem, os telegramas não chegaram até hoje.

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O FURO QUE NÃO FOI PUBLICADO

Tel-Aviv, 12/05/1982 — A Costa Rica é o primeiro pais do mundo a reconhecer Jerusalém como a capital de Israel, depois que as Nações Unidas condenaram a anexação do seu setor árabe pelos governo israelense, em 30 de julho de 1980. A decisão, anunciada oficialmente ontem, em San José, foi recebida com alegria no ministério das Relações Exteriores de Israel, mas, com constrangimento, por vários diplomatas latino-americanos em Tel-Aviv.

A primeira consequência da decisão adotada pela Costa Rica será a transferência de sua embaixada de Tel-Aviv para Jerusalém, já na próxima semana. O presidente israelense, Yitzhak Navon, telefonou para o presidente Luís Alberto Monge, em San José, agradecendo-lhe “a coragem”, esperançoso de que “outros países agora sigam o exemplo da Costa Rica”.

Será o fim do “castigo de Jerusalém”?

O Uruguai talvez “esteja a ponto de seguir o exemplo” da Costa Rica e, coincidentemente, o chanceler uruguaio Estanislão Valdes Otero encerrou uma visita oficial de quatro dias a Jerusalém.

O momento da decisão costa-riquenha é propício à controvérsia. O Egito, primeiro pais árabe a ter relações normais com Israel, recusa-se a negociar a autonomia palestina em Jerusalém, considerando sua parte Oriental, reunificada em 1980, depois de conquistada durante a Guerra dos Seis Dias, em 1967, “como parte integrante da Cisjordânia”. Por isso, os Estados Unidos sugeriram que Washington seja o anfitrião do encontro trilateral de negociações para a extensão dos acordos de paz de Camp David.

Em sua nota oficial, divulgada em Jerusalém, a Costa Rica explica que sua decisão “deriva do direito de qualquer país decidir onde seu governo será instalado”. Por este raciocínio, segundo um diplomata latino-americano, a Argentina poderá mudar sua capital para as ilhas Malvinas, com a aceitação da Inglaterra. Os países árabes deverão protestar, pois lideraram a campanha em favor do êxodo diplomático de Jerusalém, que ficou, até agora, sem nenhuma embaixada.

O presidente da Costa Rica, Luís Alberto Monge, foi o primeiro embaixador de seu país em Jerusalém, antes do êxodo das embaixadas para Tel-Aviv, sob pressão do mundo árabe. Ao assumir, no sábado passado, eleito há sete meses, ele recebeu uma delegação israelense liderada pelo ministro das Finanças, Yoram Aridor. Na conversa telefônica com o presidente Yitzhak Navon, em espanhol, ele reafirmou sua “grande amizade por Israel”. Quando consultado, reagiu o porta-voz do ministério das Relações Exteriores israelense:

— Nossa reação? De prazer…

A embaixada da Costa Rica, em Jerusalém, ocupará três escritórios no primeiro andar do edifício “Clal”, no centro da cidade. A inauguração está prevista para a semana que vem.