‘Ligeirinho’ entre Ásia e Europa

Um ligeirinho biarticulado de Curitiba foi levado a Istambul para exibição durante a Hábitat II, em 1996. Ao embarcá-lo num gigante cargueiro russo, o Antonov, o seu motorista permaneceu ao volante. Ali ficou, esquecido, até o pouso na Turquia, sem nada comer ou beber durante 14 horas. Mas foi dele, Cláudio Mariano, o feito histórico: o ônibus curitibano fez várias vezes a ida e volta entre a Europa a Ásia.

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1Istambul, 3 de junho de 1996 — Rebatizado de “Orient Express”, um ônibus “ligeirinho” de Curitiba ligou a Europa a Ásia, levando a bordo, orgulhoso, o governador do Paraná, Jaime Lerner, que marcou o momento com uma paradinha sobre a ponte do estreito de Bósforo, encerrada sob pressão de um policial turco irritado com a fila de carros que logo se formou atrás.

O Orient Express fará um novo passeio da Europa a Ásia, levando a imprensa internacional, depois de uma entrevista coletiva do governador Lerner, uma das estrelas do Hábitat II, em Istambul — cidade com sete colinas, minaretes espetados para o céu e única no mundo a ligar dos continentes. Dois repórteres portugueses, admitidos com os brasileiros na volta de pré-estreia, gostaram muito do que chamaram de “rapidinho”.

O motorista do ligeirinho-rapidinho-expresso do oriente, Cláudio Mariano, aprendeu uma lição no trânsito turco: “buzino bastante”. Os taxistas em Istambul já saem com o carro buzinando. Na verdade, só às vezes é que desligam a buzina. Difícil escutar o canto do muezim nas mesquitas tanto o buzinaço.

“Entrei no jogo deles”, diz Mariano, 34 anos, “para que achem que sou um da turma”. O problema será se habituar, porque é ele quem testa os candidatos a motorista em Curitiba, cidade da moda em Istambul, onde as cidades do mundo estão em discussão. Quando um repórter lhe perguntou se só ele veio a Turquia dirigir o ligeirinho, esclareceu:

“Além de mim, só eu”.

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Istambul

O governador Lerner contou que Mariano viajou 14 horas no gigantesco cargueiro russo Antonov que trouxe de Campinas a Ancara o “biarticulado”, como agora chamam o ônibus com três carros ligados por sanfonas em Curitiba. Só um detalhe: esqueceram de embarcar a comida para ele. Vermelho, 24,5 metros, placa AEFK 3036, a bandeira do Brasil ao lado da porta dianteira, o biarticulado chama a atenção em Istambul. Os ônibus turcos são menos articulados, só dois carros as vezes, ou mais altos, com dois andares. Nenhum com três, capaz de acolher 270 pessoas entre 53 assentos. Até 300 dá para levar.

“Cidade para Todos” é o tema da palestra do governador Lerner na Hábitat II. As cidades são soluções, não problemas, para ele, que discorda de todos os profetas que veem o apocalipse esgueirando-se pelos arranha-céus ou no trânsito sufocante e congestionado. “Curitiba não chega a ser um paraíso”, reconhece, “mas prova que se pode mudar”. A lição paranaense para o mundo se resumiria num princípio: “respeito ao cidadão”. Por respeitá-lo, o curitibano “tem boas soluções de moradia, um dos melhores sistemas de transporte no mundo, atenção com as crianças e preocupação ambiental”.

O Orient Express do Paraná “transporta mais passageiros do que o metrô de Washington a um custo 200 vezes menor por quilômetro”, ainda exultou o governador Lerner. O motorista Mariano avançava no trânsito turco quase raspando o retrovisor nos outros ônibus. Os passageiros olhavam a tarde cair sobre o estreito de Bósforo, onde a cada 15 minutos passa um navio singrando do Mar Negro ao Mar de Marmara. A travessia de um continente ao outro, dentro da mesma cidade, não demora mais que cinco minutos, e é a rotina de Istambul. Muitos moram na Ásia e trabalham na Europa.

 

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A Mesquita Azul

Era a hora do rush. A volta para a Ásia ocupava uma das pistas na direção da Europa. Comprimido em só duas faixas de tráfego, os carros seguiam lentos. Entre eles, o Orient Express. Então, o governador Lerner teve a ideia de registrar “a travessia histórica”. Mandou Mariano parar. Pulou para o asfalto, mas ao mesmo tempo chegou um policial já furioso, falando muito por rádio, e dando uma clara ordem com gestos, já que não o entendiam. O governador obedeceu.

 

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