Morre a história viva de Israel

Foi-se o último sobrevivente da geração de fundadores de Israel. Armou-o para as guerras. Batalhou para lhe dar paz. Era sua história viva. O único que o presidiu e o governou duas vezes como primeiro-ministro. Aos 93 anos, rejuvenescia com os jovens israelenses, o Facebook, Twitter e a internet. Morreu na madrugada desta quarta-feira, no horário de Israel, duas semanas depois de sofrer um derrame cerebral.

Shalom, Peres

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Persky escorregou quando escalava o “caminho da cobra” de Massada, a montanha do deserto do Negev em que 967 judeus resistiram ao cerco do exército romano, em 70 de nossa era. Foi rolando até fincar os dedos na terra, parando suspenso à beira de um abismo. Os amigos que estavam no topo deram-se as mãos formando um cordão que o trouxe de volta à vida.

No dia seguinte, Persky estava ali de novo, obstinado, vencendo o percurso completo do sinuoso “caminho da cobra”, por onde os judeus da “Metzuda”, ou Fortaleza, ou Massada, recebiam mantimentos.

Em outra aventura pelo deserto, querendo chegar a pé ao posto policial Umm Al-Rashrash, hoje Eilat, Persky descobriria um novo nome. Foi quando um amigo geólogo, Mendelson, mostrando um ninho de águias chamadas de “peres”, na bíblia, lhe perguntou:

– Por que você não muda seu nome para Peres?

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Massada

Shimon Peres, 93 anos, conseguiu chegar ao topo de sua massada política? A escalada começou marcada por duas traumáticas quedas, uma em 1977 e outra em 1981, e nem todos seus amigos esticaram as mãos para salvá-lo.

Persky/Peres chegou à Palestina em 1933, quando tinha dez anos. Vinha da aldeia de Wieniawa, na Polônia, hoje Vishniev, na Bielo-Rússia, onde viviam apenas 170 famílias, e todas judias. Era um menino que apanhava dos outros, mais voltado para os livros de poesia do que as brincadeiras de rua, e quando sua mãe perguntava por que não se defendia, ele se espantava: “Por que eles me batem? Eu não fiz nada…”

Aos 14 anos, Peres e um amigo de escola, Mulla, entraram para o Hanoar há Oved, o movimento da juventude trabalhista patrocinado pela Histadrut, a federação geral do trabalho. E 43 anos depois, Mulla Cohen foi quem liderou a luta de Yitzhak Rabin para depor Peres da liderança do Partido Trabalhista.

A INTERNET, FACEBOOK E TWITTER CRIARAM COMUNICAÇÃO DE MASSA E ESPAÇOS SOCIAIS QUE REGIME ALGUM PODE CONTROLAR.

A escalada da “Massada política”, que teria início no Hanoar HáOved, foi sempre muito difícil para Shimon Peres. Este outro “caminho da cobra”, ou “de cobras”, pontilhado de armadilhas, seria percorrido solitariamente, sob o peso de fardos extras. A longa luta contra outro fundador de Israel e do partido Likud, Menachem Beguin, serve para ilustrá-lo: ele subia ao ringue, a tribuna do parlamento, como um boxeur que tem uma das mãos amarradas.

Quando o Partido Trabalhista, sob a liderança de Peres, estava para derrubar o Likud, eis que Yitzhak Rabin, ex-primeiro-ministro, publica seu livro de memórias em que o descreveu assim: “É um intrigante antigo que não se detém diante de nada para realizar as suas ambições. Ele usa e abusa das mentiras e das meias verdades. O Sr. Peres não pode pretender o acesso às funções de primeiro-ministro pois ele jamais vestiu um uniforme”. Como Peres derrotaria o eletrizante Menachem Beguin sofrendo ataques de dentro da cúpula do próprio partido?

Pode ser que Peres não tenha vestido um uniforme militar, mas desligá-lo do exército, como o fez o rival Rabin, é  injustiça: afinal, ele foi o diretor geral das forças de defesa de Israel aos 29 anos, vice-ministro da Defesa aos 36, e ministro da Defesa entre 1974-77. Peres participou tão ativamente do desenvolvimento do exército israelense, armando-o nuclear, eletrônica e tecnologicamente, que um de seus biógrafos, Matti Golan, equiparou-o à sua “espinha dorsal”. Já Yitzhak Rabin, não: no mesmo livro de memórias, acusa-o de ter passado as 53 primeiras horas do sequestro do Airbus de Air France para Entebe, em julho de 1976, sem encomendar um urgente plano de resgate ao Estado-Maior. Peres dá outra versão: por ela, Rabin fora informado da “operação Entebe” no momento em que era viável desencadeá-la.

Anos depois, os dois se reconciliaram, unidos para uma nova batalha contra o Likud, então liderado por Yitzhak Shamir, político criado no mundo secreto do Mossad. 

Como ao escorregar em Massada, Peres conservou para sempre a qualidade de se recompor rapidamente, e a obstinação para recomeçar do princípio. Quem o primeiro descobriu para a escalada politica foi “o velho”, foi David Ben Gurion, o primeiro primeiro-ministro de Israel. Ele o mandou como delegado ao Congresso Sionista na Basileia, Suíça, em 1946, o primeiro depois do holocausto nazista e  da II Guerra Mundial. Até então, Peres tinha trabalhado em agricultura, ordenara vacas e pastoreara cabras até se alistar na Haganá, o exército judeu clandestino na Palestina do Mandato Britânico. Escrevia também uma coluna num semanário, “Diário de uma Mulher”, assinando-a como se fosse mulher mesmo, e se saía tão bem que uma leitora enviou um comentário à redação: “Finalmente, uma autêntica mulher”.

Quando vivia no kibutz Alumot, Peres recebia cartas de uma moça apaixonada, mas escritas por alguns de seus companheiros. Suas respostas, depois, eram compartilhadas por todos, até dramatizadas. Quando ele ficou sabendo,  desapareceu por um ano. Sonya, filha do carpinteiro Gelman, tornar-se-ia sua esposa, em 1945, e os dois viveriam em Ramat-Aviv, ao norte de Tel-Aviv, até 2007, quando discretamente se separaram. O casal defendeu sempre sua privacidade com fanatismo. Poucos tomaram conhecimento.

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Namoro com Sonya e o enterro

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Peres falou da separação só muito mais tarde em entrevista ao jornal Yedioth Aharonoth, quando já circulava que a abreviatura Gal substituía o Peres na caixa postal de Sonya, nascida Gelman. A causa que os separou foi a insistência dele em se manter na política.

“Eu disse a ela: eu servi o país, o povo, toda minha vida. Isso é o que me preenche: não sei sequer o que seja descanso – descanso para mim é como morrer. Mas Sonya retrucou: você já fez o suficiente. Há outros que podem servir o país agora”.

Inconciliáveis, separaram-se, mas não se divorciaram. Ele foi para Jerusalém, ela ficou em Ramat-Aviv. Sonya morreu em 2011, aos 88 anos. O casal teve três filhos, um deles piloto da Força Aérea, oito netos e três bisnetos.

A animosidade contra Peres em seu próprio partido seria consequência da primeira fase da escalada da “massada política”, rápida, passando à frente de veteranos como “Sharett, Lavon, Eshkol, Golda e Sapir, que se consideravam, todos, os verdadeiros herdeiros do ‘velho’, David Ben Gurion. Mais tarde, a sua união com Moshe Dayan no “Rafi”, que rompeu com o PT, provocaria novas inimizades. De crise em crise, e depois do trauma da guerra do Yom Kippur, em 1973, restou para Peres a imagem do homem de infinita paciência, um arquiteto de compromissos.

QUANDO VOCÊ ESTÁ DIANTE DE DUAS ALTERNATIVAS, A PRIMEIRA COISA A FAZER É PROCURAR UMA TERCEIRA NÃO IMAGINADA E QUE AINDA NÃO EXISTE.

Esta seria a última vez em que Peres tentaria chegar ao topo de sua escalada pelo “caminho da cobra”. Se escorregasse, outros disputariam a liderança do partido, principalmente Yitzhak Navon, ex-presidente, e o outro Yitzhak, o Rabin, ex-primeiro-ministro. A campanha os mostrou unidos. E as sondagens de opinião pública deu ao partido o favoritismo do eleitorado.    

Mas o que Shimon Peres estava propondo?

Em primeiro lugar, Peres não aceitava o convite feito pelo Likud para formar um governo de união nacional. Queria dos eleitores o voto maciço pelo Partido Trabalhista, evitando assim que os pequenos partidos impusessem seus programas.

Depois, ele não separava economia de política externa, porque em Israel uma depende da outra ainda hoje: na época, a guerra no Líbano e a colonização na Cisjordânia consumiam muito dinheiro e não eram decisões econômicas, mas politicas. Preocupava-se ainda com a paz “fria” com o Egito, pretendendo ampliá-la para a Jordânia, como acabou ocorrendo, em 1994.

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A estreia de Shimon Peres como primeiro-ministro, em 1977, foi breve: ele substituiu Yitzhak Rabin, que renunciou ao perder a maioria no parlamento por causa de uma conta bancária no exterior e por perder o apoio de partidos religiosos ao receber os primeiros F-15 dessacralizando o shabat. Os aviões atrasaram pousando depois do pôr do sol de sexta-feira. Foi o fim de 30 anos de hegemonia do Partido Trabalhista.

Eleito Menachem Beguin, o incansável Peres assumiu a presidência do Partido Trabalhista e a vice-presidência da Internacional Socialista. Mas, durante esse período, por um acordo de rotatividade com o Likud sob Yitzhak Shamir, voltaria à cadeira de primeiro-ministro de 1984 a 86, herdando o desastre econômico da Guerra do Líbano do general Ariel Sharon — que, como ele, saiu da política com um derrame cerebral irreversível, em 2006; e que, ainda como ele, passou os últimos dias no hospital Tel Hashomer, em Ramat Gan.

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Com Arafat e sua mulher, Sonya

VOCÊS SABEM QUEM É CONTRA A DEMOCRACIA NO ORIENTE MÉDIO? OS MARIDOS. ELES SE ACOSTUMARAM À VIDA TRADICIONAL MAS É PRECISO MUDAR. SE VOCÊ NÃO DER DIREITOS IGUAIS ÀS MULHERES, NÃO HAVERÁ PROGRESSO.

 

Nomeado ministro das Relações Exteriores em 1992, Peres iniciaria as negociações de paz com os palestinos que lhe renderam, e a Rabin e a Yasser Arafat, o prêmio Nobel da Paz de 1994. Então, o imprevisível o levaria a reassumir de novo o cargo de primeiro-ministro — e, de novo, em substituição a Rabin, assassinado por um fanático religioso judeu, durante uma manifestação pela paz em Tel-Aviv.

A escalada da “massada política” transforma Peres em Sísifo. Chega ao topo carregando pedra, mas ela cai rolando montanha abaixo. O topo pode ser qualquer das múltiplas funções que ele alcançou em Israel, nas quais, como próprio da política, não pode se perpetuar. Passou 60 anos no Partido Trabalhista, mas o abandonou para se unir a um novo partido fundado pelo primeiro-ministro Ariel Sharon, o Kadima (Adiante, Pra frente), em 2006. Foi ministro do Desenvolvimento do Neguev e da Galileia e vice-primeiro-ministro por um ano, quando se tornaria o nono presidente de Israel e, mais até, o primeiro israelense a ter tido os dois maiores cargos do país.

Curioso na metáfora da escalada de Massada é o sonho que atormentava o general Moshé Dayan depois que ele revelou aos israelenses, quando esse tipo de confidência não era comum, estar com câncer, e à morte. Convidou alguns jornalistas à sua casa – e eu estava entre eles — para contar que em muitas noites sonhava que escalava uma montanha sem conseguir chegar ao topo e ver o que havia lá que tanto o mobilizava. Uma vez ele viu. Eram os túmulos de seus pais. Morreu pouco depois.

PENSO QUE A PAZ DEVE SER OBTIDA NÃO SOMENTE ENTRE GOVERNOS, MAS ENTRE POVOS. ISTO ERA IMPOSSÍVEL ANTES DO FACEBOOK.

Shimon Peres foi o último fundador de Israel a morrer. Chegada a hora da passagem da tocha, como na Olimpíada. Nos últimos anos, ele era o político mais querido dos jovens. “Darling”. Por que rejuvenescera fascinado com a nanotecnologia numa nação de startups. Entrou no Facebook. No Twitter. Dava entrevistas pelas redes sociais. Os gênios de Silicon Valley não deixavam de visitá-lo passando por suas filiais e laboratórios em Israel.

“Para mim”, dizia Peres, “sonhar é simplesmente ser pragmático”.

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Sentado no Iron Throne

Os aiatolás do Peru

A novidade é a notícia, antiga, ser publicada neste domingo, 31 de julho, pela agência do Estado Islâmico (EI), Amaq. A notícia reproduz uma reportagem do jornal pan-árabe Asharq Al-Awsat sobre o avanço do xiismo iraniano no Peru e, de lá, para outros países sul-americanos. Enfim, os aiatolás estão chegando. Numa breve passagem pela Argentina, em 1994, deixaram um saldo de 84 mortosO Irã político e religioso chegou ao Peru, de onde quer se espalhar para outros países da América do Sul.

 

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http://notihoy.com/libanes-detenido-en-peru-reconocio-ser-miembro-de-hezbollah/

O Irã político e religioso chegou ao Peru, de onde quer se espalhar para outros países da América do Sul.

A informação é de Asharq Al-Awsat, 1º jornal pan-árabe impresso em 4 continentes. A reportagem sobre o Peru iranizado foi reproduzida pela agência de notícias do Estado Islâmico, EI.

Por que esta notícia, requentada, foi publicada hoje? pe

Muitos peruanos já se converteram ao xiismo e fundaram uma entidade a que batizaram de Hezbollah Branch in Peru, cópia do libanês. O objetivo declarado é o de importar a revolução iraniana.

A maioria dos convertidos peruanos é da região montanhosa de Abancay. É dali que 20 homens foram levados à Teerã para serem doutrinados em xiismo.

O programa de TV Punto Final, do Peru, mostrou um grupo de jovens peruanos com um sheik xiita reivindicando o direito de propagar o xiismo da mesma forma como é permitido ao cristianismo.

A polícia peruana deteve alguns suspeitos ligados ao Hezbollah libanês quando entravam no Peru. Um especialista em influência iraniana na América Latina, Joseph Humire, diz, citado na reportagem, que o Irã financia o Hezbollah do Peru “com dinheiro de contrabando”.

1iraO “aiatolá” de Caracas, Nicolás Maduro, dá apoio integral à implantação do Hezbollah na América do Sul. O falecido coronel Chávez e o então líder iraniano Ahmanidejah tiveram uma relação intensa, boa parte da qual misteriosa. O Irã é acusado de ter participado diretamente do atentado contra a Associación Mutual Israelita Argentina (AMIA), em 1994, que deixou um total de 85 mortos.

Massacre do dia da Bastilha

Promenade_des_AnglaisA Promenade des Anglais é uma avenida larga, só para pedestres, ao lado do Mediterrâneo. Turistas a consideram o melhor passeio em Nice, na Riviera Francesa. Bons cafés, hotéis famosos, algumas praias pagas, pista para bicicleta e paraíso dos skatistas. São sete quilômetros de comprimento. É nela que se dança no carnaval. Ontem, 14 de Julho, Dia da Bastilha, programado um show de fogos de artifício, a Promenade, “Prom“, como a chamam, lotou. Então, às 22h30, um caminhão branco alugado, dirigido por  um tunisino, entrou na avenida dos pedestres e os atropelou durante dois quilômetros, quando foi parado a tiros. Restaram 84 mortos no asfalto. E uma pergunta: quando e onde será o próximo atentado terrorista?

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O massacre do Dia da Bastilha em Nice foi apenas mais um. E o Brasil, com as Olimpíadas, que tome as precauções possíveis. O terror vive de visibilidade e o mundo reunido no Rio, a “cidade maravilhosa”, é uma atração irresistível.

Acontece que o Califado já perdeu 45% de seu território no Iraque e 20%, na Síria, atacado por forças que vão dos Estados Unidos e Rússia a aliados sunitas da Arábia Saudita. Ah, e pela França também: por isso Paris, e agora Nice, já foram alvos preferenciais, mais ainda pela extensa comunidade islâmica francesa à qual não faltam radicais.

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Al-Bafhdadi

O califa Ibrahim Awwad Ibrahim Ali al-Badri al-Samarrai Baghdadi,  nome de guerra Abu Bakr al-Baghdadi, líder do Estado Islâmico (EI), já antecipava, no começo do ano, que produziria “dias escuros” para os países da coligação que o estão atacando. “O que virá será mais devastador e amargo”, ele prometeu.

Uma lista com 1.700 nomes de condenados à morte pelo EI circulou nas últimas semanas, distribuída pelo seu braço virtual, a United Cyber Caliphate. A instrução para islamitas “lobos solitários” que moram nos EUA, França, Bélgica, Espanha, Turquia e outros países foi curta, direta: “Matem todos”. O FBI não é afeito à publicidade. Neste caso, porém, seus agentes procuraram alguns dos listados que moram em Nashville, no Texas. Seriam cidadãos comuns, não políticos ou militares, escolhidos ao acaso para disseminar o medo de que qualquer um pode estar na mira. Vazou que alguns dos alvos são membros da igreja católica e de sinagogas.

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Outro motivo que leva o Califado a se exibir em atentados espetaculares, mesmo que visivelmente desesperados, é o ressurgimento das cinzas da Al Qaeda, que perpetrou o maior atentado terrorista da história, o 11 de Setembro (em 2001), derrubando as torres gêmeas em New York e uma ala do Pentágono, em Washington. Esta semana o filho de Bin Laden apareceu para dizer que vingará a morte do pai.

O EI nasceu no Iraque filho da Al Qaeda, mas os dois grupos não se entenderam e estão rompidos. Incrível: o que os separou foi o grau de brutalidade que cada um desfere em suas vítimas e na população das cidades conquistadas, como se

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Bin Laden

fizesse muita diferença jogar aviões em prédios e decapitar prisioneiros. Por que não matar com tiros em vez de degolar ante câmeras de TV? Um estrategista do terror, Adam Gadahn, nascido nos EUA, aconselhou a Ossama Bin Laden, em carta datada de janeiro de 2011, que renegasse o “filho” iraquiano, porque, do contrário, “sua reputação se degradaria mais e mais”. A ruptura foi formalizada quando o EI estendeu o Califado à Síria, jurisdição que pertencia ao grupo Frente Al Nusra, fiel a Al Qaeda.

Em papéis encontrados no último refúgio de Bin Laden leem-se reflexões como esta: “(…) essa violência indiscriminada desembocou na perda do apoio dos muçulmanos para os muhajedins”. Al Qaeda queria “recuperar a confiança perdida” no mundo islâmico. Isso explica a sua aplicação light das leis da sharia, como permissão para que mulheres vestissem calças e para que todos possam escutar música, mas lá no Yemen. Resumindo, um grupo pretendia refletir a imagem de moderado enquanto o outro mergulhava em banhos de sangue com transmissão ao vivo pela televisão. Para Bagdadi, o espetacular tem um efeito fundamental.

Outras diferenças são de origem. Bin Laden tinha diploma universitário e vinha de família de classe alta saudita. Já um de seus comandantes, o jordaniano Abu Musab al-Zarqawi, que partiu para fundar EI, nasceu na pobreza no reino da Jordânia e cercou-se de criminosos. Foi morto em 2006, no Iraque. A Al Qaeda recrutou combatentes no Afeganistão nos anos 80, enquanto o Califado os atraiu, jovens, iraquianos e sírios crescidos em guerras — e depois abriu-se para uma legião estrangeira de voluntários do mundo todo.

O risco maior, agora, é a paz entre Al Qaeda e EI. Ou uma competição entre eles pelos maiores atentados.

 RASTRO DE SANGUE

No primeiro trimestre de 2016, lançou 891 ataques na Síria e Iraque, matando 2150 pessoas;

Em outubro de 2015, derrubou um avião russo com 220 passageiros, explodindo-o no ar com bomba caseira de 1 quilo de TNT, colocada a bordo no aeroporto de Sharm el-Sheikh, um oásis no deserto do Sinai.

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Bataclan

Em 13 de novembro de 2015, em ataques coordenados em Paris matou 128 pessoas, a maioria se divertindo numa discoteca tradicional, Bataclan.

Em 22 de março de 2016, sacudiu  o aeroporto de Bruxelas, com três explosões. Mortos: 30 pessoas.

Em 12 de junho de 2016, um atirador “lobo solitário” matou 50 pessoas na boate gay Pulse, em Orlando, Estados Unidos.

Em 28 de junho 2016, um ataque suicida matou 44 pessoas e feriu mais de 200 no aeroporto Ataturk, em Istambul, na Turquia.

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Aeroporto Ataturk

Em 1º de julho de 2016, depois de 11 horas de impasse, um grupo afiliado ao EI matou 20 reféns num restaurante em Daca, Bangladesh, a maioria estrangeiros.

Em 7 de julho, um carro bomba matou 281 pessoas no final do jejum de mais um dia do Ramadã, numa área de comércio de Bagdá, Iraque.

Isto os jornais não contam

Amigos meus escreveram o livro  Isto o Jornal não Conta, na capa assinado pelo veterano e ótimo jornalista Fernando Portela. Pego o título emprestado, passo-o para o plural, e conto aqui apenas um entre tantos casos que aconteceram comigo em redações, para além das notícias. Não foi o único, nem o último.

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Consultei a doutora Marie-France Hirigoyen em 1998, quando o sucesso de seu primeiro livro, Assédio Moral, repercutia muito na imprensa francesa. Ela recomendou:

“Reaja ou se demita”.

Reagi. Fui demitido.

Escrevi este artigo que circulou apenas na internet, e por pouco tempo, porque recusado por jornais e revistas. Cortei o nome do personagem porque ele se desculpou anos depois. Mas os estragos ficaram, não têm reparo e mudaram o destino de minha família.

Quando nos conhecemos, num jantar em Nova York, meu novo chefe foi dizendo: “Você é o nosso melhor correspondente”. Mas, num almoço no dia seguinte, com um amigo comum, ele iniciou um perverso processo para me substituir nos Estados Unidos. Conseguiu.

   Quando nos reencontramos em 1998 num novo emprego, ele no Brasil e eu na França, trocamos e-mail: “Nosso homem em Paris!”, ele escreveu. Retribui, deletando o passado que o condenava, e desejando-lhe “sucesso”. Fui demitido.

   Qualquer chefe tem o poder de demitir quem não queira. Mas torturar, não. A dose dupla de tortura de que fui vítima me levou à pesquisa de um fenômeno no mundo do trabalho batizado de bullying (tiranizar), na Inglaterra; mobbing (molestar), nos Estados Unidos; harcèlement moral (assédio moral), na França; e murahachibu (ostracismo social), no Japão. Algumas vítimas se matam. Outras são tratadas com antidepressivos ou tranquilizantes. Muitas pedem demissão e renunciam a direitos de indenização, dando vitória ao bully, ao tirano. E há as que resistem.

   A primeira pessoa a denunciar a tirania nas relações de trabalho foi uma jornalista inglesa, Andrea Adams. Ela escreveu dois documentários para a BBC Rádio 4, de Londres, que provocaram uma enxurrada de cartas de ouvintes. A inesperada repercussão a levou a publicar um livro, Bullying At Work, em 1992. Até alguns dias antes de morrer, com câncer, em 1995, ela fez campanha para tornar o psicoterrorismo no trabalho um delito como o assédio sexual.

   “Ir ao trabalho é como entrar na jaula de um animal imprevisível para enfrentar outra semana de crucificação profissional”, disse Adams em seu último discurso, para sindicalistas, em maio de 1994. Um drama clandestino sofrido por um mínimo de 12 milhões de europeus, segundo uma pesquisa pioneira da Organização Internacional do Trabalho, em 1996, e pela média de 2 milhões de americanos por ano, incluindo assaltos contra taxistas, na estatística de 1998 do Departamento de Justiça dos Estados Unidos. No Japão, uma experiência telefônica, a “bullying hot-line”, atendeu a 1.700 consultas só em um mês. Como o poder de um tirano se mantém pelo medo que cala suas vítimas, impossível medir o fenômeno em escala mundial.

   Há inúmeras formas de tiranizar um empregado. Adams as resumiu em alguns exemplos: marcar tarefas com prazos impossíveis; passar alguém de uma área de responsabilidade para funções triviais; tomar crédito por ideias de outros; ignorar ou excluir um funcionário só se dirigindo a ele através de terceiros; segurar informações; espalhar rumores maliciosos; criticar com persistência; e subestimar esforços. O processo é lento. As agressões, sutis. As reclamações serão interpretadas como choque de egos, atribuídas a uma nova forma de administração, à reorganização, reengenharia, senão rejeitadas. Não há lei que não a do mais forte.

   marie-france-hirigoyenA psiquiatra francesa Marie-France Hirigoyen (foto à esquerda) escreveu o livro Le harcèlement moral (O Assédio Moral): La violence perverse au quotidien (A violência perversa no cotidiano). Os cinco mil exemplares da primeira edição esgotaram-se rapidamente. Outros 60 mil, em seguida. O livro apareceu em português, editado pela Bertrand Brasil, depois de traduzido para 12 idiomas. A revista Le Nouvel Observateur consagrou-lhe uma capa, com o título: “Esses colegas e patrões que o deixam louco”. Os colegas entram no título como cúmplices: temem pelo próprio emprego. Quem for solidário com uma vítima poderá se tornar a próxima.

   Hirigoyen traça o perfil do tirano. É um “narcisista perverso”, que acha o próprio equilíbrio descarregando em outro a dor que não consegue sentir e as contradições internas que se recusa a perceber. Uma sanguessuga: procura fora de si a substância para sua vida. Tem um senso grandioso da própria importância. Vive absorvido em fantasias de sucesso ilimitado e de poder. Pensa ser especial e único. Precisa muito de admiração. Acha que tudo lhe é devido. Inveja os outros. Comporta-se com arrogância. Explora todos nas relações interpessoais. E posa de referência, de padrão do bem, do mal e da verdade.

   -As vítimas são impotentes? Nada podem fazer?

   – Elas têm que aprender a se proteger, a dizer não – respondeu Hirigoyen.

   – Mas, como dizer não?, com o desemprego em alta?

   – Há um momento em que a opção é a saúde mental, ou o emprego. Tenho uma paciente que se demitiu para preservar sua personalidade.

   – A vítima fica só, sem a solidariedade dos colegas — comentei.

   – Solidariedade não existe, é cada um por si.

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    “Aqueles que podem, podem. Os que não podem, tiranizam” – proclama na Internet o Bully OnLine (www.successunlimited.co.uk), criado por Tim Field, autor do Bully in Sight (Tirano na Mira), guia que ensina a prevenir, resistir e combater o assédio moral no trabalho. Ele acrescenta atributos ao mais comum dos tiranos, os que praticam serial bullying, a destruição em série de empregados. É vingativo, quando só, mas inocente, diante de testemunhas. Médico e monstro, como Jekyll & Hyde. Mente compulsiva e convincentemente. E torna-se agressivo, se chamado à responsabilidade.

   O bully também produz uma vítima indireta. É o patrão, que continuará pagando o salário ao empregado que já não está mais podendo funcionar bem. Ele ainda arcará com as consequências de um ambiente de trabalho deteriorado, lembra o professor alemão Heinz Leymann.

   Só existia legislação para proteger as vítimas de assédio moral na Suécia, Alemanha, Itália, Austrália e Estados Unidos, quando escrevi este artigo. A Organização das Nações Unidas (ONU) anexou à Declaração dos princípios fundamentais de justiça uma nova e abrangente definição de vítima. “Vítimas são as pessoas que, individual ou coletivamente, sofreram um dano à sua integridade física ou mental, um sofrimento moral, uma perda material, ou uma ofensa grave a seus direitos fundamentais, como consequência de atos ou de omissões que ainda não constituem violação da legislação penal nacional, mas que representam violações de normas dos direitos do homem reconhecidas internacionalmente”.

   Hirigoyen encoraja vítimas de harcèlement “a virem a público” – para ela uma poderosa forma de levar a Justiça a uma tomada de consciência, como no assédio sexual.

   Por enquanto, as vítimas brasileiras da guerra de nervos no trabalho estão perdidas. Um chefe pode abusar do poder impunemente. Ou o empregado se submete à lenta destruição por golpes mesquinhos e covardes, que acabam acertando toda a sua família, ou vai embora. “O silêncio e o vazio cercam aos poucos a pessoa visada”, diz Hirigoyen. “Às vezes, a solidão é tal que vira rápido um drama”. Mas ela pergunta à “sociedade cega diante desta forma indireta de violência:

   — Não nos tornaremos cúmplices, por indiferença?”

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O assédio do sucesso

A psiquiatra francesa Marie-France Hirigoyen quer se proteger de um tipo inesperado do assédio que denuncia e combate desde 1998, quando escreveu seu livro Assédio Moral – A violência perversa no cotidiano, que vendeu 450 mil exemplares em 27 países.

   “Tudo se tornou assédio moral”, diz a doutora Hirigoyen. “Virou moda”.

   É o assédio do sucesso. A Assembléia Nacional da França votou em 11 de janeiro de 2001 uma emenda que introduz a noção de assédio moral nas leis do trabalho. O projeto de lei 13.288, de 10 de janeiro de 2002, da Câmara Municipal de São Paulo, prevê suspensão, multa e demissão para os chefes tiranos, baseado em estudos da doutora Hirigoyen. Surgiram associações e sites na internet em defesa de empregados acossados. O tema ficou popularizado com capas de revistas e em páginas de jornal.

   O assédio moral passou a ser usado, indevidamente, como sinônimo de estresse, ou para condenar a pressão normal de um chefe para que o subordinado trabalhe mais. Foi por isso que a psiquiatra Hirigoyen escreveu um novo livro, Mal-estar no trabalho – Redefinindo o Assédio Moral, lançado em português pela editora Bertrand Brasil.

   “Não se deve atribuir tudo ao assédio moral”, ela diz. “É preciso distinguir o que é do que não é, mesmo porque, do contrário, não se poderá mais agir para punir ou prevenir. Antes que um caso seja identificado como assédio moral alguém de fora deveria investigá-lo e emitir um parecer, como sugere um projeto de lei belga”.assedio moral é crime

   Agora que fixou limites para o assédio moral, a doutora Hirigoyen vai mudar de assunto: “Não quero me repetir e muita gente está escrevendo livros sobre o tema, com poucas diferenças”. Talvez ocorram mudanças também entre seus pacientes. “Na Europa estão surgindo especialistas, não necessariamente psiquiatras, que tratam de assédio, tanto individual como coletivamente”.

   Será difícil para a doutora Hirigoyen ficar imune ao assédio do assédio moral. “Totalmente, não. Ainda recebo cartas de todas as partes do mundo”. Formada em medicina na França, em 1978, especializou-se em psiquiatria e psicanálise, e depois em vitimologia nos Estados Unidos. Ela também faz conferências. “Numa no México, um homem começou a chorar, reconhecendo: es mi vida, es mi vida… Qualquer que seja o país ou a cultura, o problema é o mesmo, são formas de ataque e sofrimento iguais, só o contexto difere, em função de maior ou menor proteção social. Em alguns lugares, o assédio se desenvolve sutil, escondido. No Brasil a violência no ambiente de trabalho é ostensiva”.

   O Brasil “está muito avançado”, em comparação à Europa e aos Estados Unidos. “Vejo que cada vez mais o mundo do trabalho tende a se individualizar. No fundo, cada pessoa, diante do assédio moral, se encontra só. Por isso a lei é importante: ela permite que o indivíduo ouse reagir”.

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Como reagir

Primeiro da turma de 1975 de Ciência da Computação na Universidade Staffordshire, na Inglaterra, Tim Field especializou-se em assédio moral no trabalho, na prática, ao ser forçado a sair de um emprego, em 1994. Hoje, ele mantém um serviço de aconselhamento por telefone e na internet, escreve livros e dá consultas a empresas e sindicatos. Entre seus clientes ingleses estão vários departamentos de polícia, o correio, o ministério da Defesa e algumas universidades.

   Depois de responder a 3 mil telefonemas e receber 26 mil visitas no seu site da internet, Tim Field chegou aos conselhos básicos para quem quiser reagir a um chefe tirano. Aqui, um resumo dos que se aplicariam às vítimas brasileiras.

* Lembre-se de que um chefe tirano projeta em suas vítimas as próprias fraquezas profissionais e morais. Assim, não as introjete.

* Sentir vergonha, dificuldade, culpa e medo é uma reação normal, mas imprópria se render ao tirano o controle e silêncio de sua vítima.

* Não se pode enfrentar sozinho um chefe tirano. Procure ajuda. Consulte o departamento médico de sua empresa.

* Aprenda o máximo que puder sobre assédio moral no trabalho.

* Supere toda falsa percepção sobre assédio moral, como a de que se trata apenas de uma forma dura de chefiar, ou de reorganização empresarial.

* Anote tudo. Não é um único incidente que conta, mas a regularidade com que acontece, o seu padrão e o conjunto.

* Guarde cópia de cartas, memorandos e e-mails.

* Faça um diário com as reclamações e críticas do chefe tirano. Se puder obtê-las por escrito, tanto melhor. Se as tiver pedido, e não for atendido, registre. A repetida recusa de justificar ou substanciar faltas cobradas pode ser usada como prova de assédio.

* A tiranização no trabalho estressa. Se o médico a diagnosticar, que inclua a causa – as condições no local de trabalho.

* Reclame do assédio moral ao escalão superior. Mas, cuidado: em geral, o tirano é que receberá o apoio de cima.

* Não se deixe levar pela armadilha da saúde mental: os sintomas e efeitos do assédio moral são uma lesão psiquiátrica, não doença mental.

* Uma licença médica deve ser registrada como acidente de trabalho, e a sua causa, a opressão do chefe tirano, denunciada ao empregador.

* Se o chefe tirano fizer suas críticas em público, procure um advogado para adverti-lo, por carta, que ele é passível de processo por difamação e calúnia.

* Considere demitir-se como uma decisão positiva, uma opção entre saúde e emprego.

* Se forçado à demissão, denuncie a causa ao empregador, por escrito, e oriente-se com um advogado antes de assinar qualquer documento.

* Considere tornar público o seu caso.

  

REINO desUNIDO

A saída do Reino Unido da União Europeia pegou os jornais britânicos muito além do horário de fechamento normal. Mas a maioria deles deu um jeito de publicar a notícia histórica, para muitos inesperada. A revista The Economist saiu, como todas as semanas, na quinta-feira, o dia do plebiscito, com a capabeijo dedicada à inteligência artificial, mas avisou on-line que faria outra edição para o BREXIT, com circulação local. Feito:  ilustrou-a com a bandeira britânica rasgada ao meio, como o próprio país dividido. 950

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Ilustração na The Economist

Outros jornais europeus também esperaram a contagem dos votos. (Os jornalões brasileiros não tiveram tanto problemas de horário). Aqui, algumas capas selecionadas.

 

 

 

 

Todas as capas da presidentA

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As seis capas destacadas acima estão, a meu ver, fora da mesmice geral — embora a mesmice também possa ter sua beleza, em alguns casos. O critério para a seleção foi a criatividade, um trabalho a mais na edição em prol do eleitor — e pessoal, não sendo eu parâmetro objetivo. O gratuito Metro tem se esmerado. Poster, título curto — e só. Claro que não vai competir com os jornalões em conteúdo. Temos a intrigante capa do Super. Não sei se foi intencional, mas a manchete para o futebol NÃO VAI TER VOLTA, ao lado da chamadinha para Dilma, ficou curiosa. Criatividade em abundância, perigosa, na fronteira entre o genial e o ridículo, vai estampada no Diário de São Paulo. É uma carta manuscrita para Dilma, assinada por “eleitores”, e que termina com TCHAU, QUERIDA. Suponho que tenha sido especialmente produzida para a capa. O Correio Braziliense, pródigo em primeiras páginas premiadas, dá a impressão de que tem buscado ideias em seu baú glorioso. Abaixo da dobra, revirado, está o Temer; e acima, Dilma, ambos transformados em cartas, uma dando a ÚLTIMA CARTADA,  o outro pondo AS CARTAS EM JOGO. Está ótimo, mas, se não me engano, já vi os mesmos recursos antes no mesmo jornal. O Estado de Minas não rompeu o seu formato, como tem feito na cobertura de grandes acontecimentos, e saiu com a Dilma pedalando, numa foto super vertical, e um título curto, PEDALADAS FINAIS. O DC:, de Santa Catarina, deu por título O DIA D (seguem-se em tom rebaixado palavras corriqueiras no processo de impeachment que contenham D, grafado em vermelho, a silhueta de Dilma por cima, e o final DE DILMA, completando a frase. Abaixo temos dez jornais internacionais que deram o impeachment na capa. No The  New YorK Times está no cantinho à esquerda, no pé da página. Mas no Wall Street Journal é a foto principal. Nossos hermanos e vizinhos compareceram, como também o espanhol El Pais, interessadíssimos no futuro do Brasil.

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O sucesso do fracasso

Currículos com fracassos, e não com sucessos, estão na moda… na capital da inovação, o Vale do Silício. Será que a moda chegará ao Brasil, com 11 milhões de desempregados?

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Foto: Creative Commons

O fracasso está na moda. Foi o que aprendi lendo o boletim digital Quartz (qz.com/). O fracassado de sucesso, Johannes Haushofer, professor de psicologia em Princeton (New Jersey, EUA), postou seu “currículo de fracassos”, com os empregos que não conseguiu, prêmios que não ganhou e sua coleção de textos que foram rejeitados. Viralizou.

“Este CV de Fracassos recebeu mais atenção do que todo o meu trabalho acadêmico”, disse Haushofer.

Resolvi replicar o sucesso do fracasso para alívio de quem, entre os 11 milhões de desempregados no Brasil, eu entre eles, já enviou seus CVs em busca de vaga nas escassas ofertas de emprego anunciadas, sem jamais ter recebido resposta.

O texto do Quartz fala também do novo slogan entre os gênios do Silicon Valley: “Falhe rápido”. O conselho é dirigido a fundadores de startup que não emplacaram seus projetos. O poder do fracasso já chegou ao TED em palestras de ilustres fracassados. E lá tem tido mais chance de ser empregado quem confessa suas falhas.

Fracassados, consolai-vos. Depois da via-sacra de humilhantes rejeições virá o final feliz triunfal. Só não omitir mais no CV os erros cometidos, as demissões sofridas e os projetos desprezados.

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Foto: Creative Commons

“A maioria do que tentei, fracassou” — escreveu Haushofers na introdução de seu CV. “Mas os fracassos são invisíveis, enquanto os sucessos, não — eles aparecem”.

Decidi então incluir no meu CV:

*Não ganhei a bolsa de três meses da Nieman Foundation, em Harvard, para repensar o jornalismo, ao me candidatar em 2013.

* O Museu da Corrupção que criei, e que ganhou um Prêmio Esso de melhor contribuição à imprensa, está fechado por falta de apoio — e isso, ou talvez por isso, no país da corrupção. (www.muco.com.br)

* Ano e meio desempregado, fechado o jornal que dirigia, não recebi um único convite de emprego, mesmo já tendo feito de tudo em jornalismo, de repórter e correspondente internacional a diretor.

* Currículos enviados para preencher vagas abertas na área de comunicação na Disney, Linkedin, Reuters, Google e mais outras duas empresas “confidenciais” tiveram três respostas negativas, e nenhum retorno das demais.

* Nenhum dos amigos bem posicionados em empresas jornalísticas, que, quando eu era diretor do Diário do Comércio, enviaram-me inúmeros candidatos a emprego, alguns atendidos, considerou me convidar sequer para um cafezinho.

* Em 2015, fiz apenas um freelance como repórter. E mesmo que ele tenha rendido um prêmio pelo texto, não recebi  nenhuma nova encomenda.

Meu CV negativo pode prosseguir com muitos itens mais. O que me digo, porém, é que, com 70 anos, o mercado de trabalho deve estar fechado para mim. Esqueci-me disso quando me candidatei a cargos oferecidos a jovens ou iniciantes na carreira.

Será que meus fracassos valerão um convite?

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A manchete oculta

 

13_de_Março_de_2016Qual a manchete oculta nesta capa da Folha de S. Paulo, edição de 13/3, o domingo das manifestações “fora, Dilma” e contra a corrupção?

Respondo: é o avanço da publicidade sobre o editorial, na área mais nobre dos jornais, a sua capa.

Uma interferência, permitida já faz tempo, encobrindo a leitura da manchete e de outros destaques do dia. Bancada por um anunciante, a sobrecapa esconde metade do cardápio oferecido aos leitores com fome de notícias. Por um lado, rende dinheiro; mas, por outro, gera reclamações e cartas irritadas do leitorado.

Alguns responderão: é o retrato da separação entre igreja e estado, ou editorial e publicidade — dogma que a imprensa defende desde sempre para blindar sua independência e integridade. Redação e comercial não se misturam, ou não se misturavam. Houve tempo em que nem se falavam. Entre eles deveria haver um muro inexpugnável — redação num lado e departamento comercial, noutro — melhor ainda se em andar ou endereço diferentes.

Alguém poderá também responder, constatando: “Empate!” Metade da capa é da publicidade; e a outra, da redação. Há um outro tipo de sobrecapa, maior, que cobre mesmo o logotipo dos jornais, a sua identidade. “Esculacho, um deboche”, protestou o jornalista Alberto Dines, do Observatório da Imprensa, num antigo artigo. Temos ainda os anúncios em páginas internas que extrapolam seus formatos, antes bem comportados, e foram parar lá no alto, no cabeço, onde estão os títulos. Mas podem aparecer também no meio, inclinados, tortos, forçando o texto das notícias a contorná-los. Haja malabarismo, dos leitores e diagramadores.

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A invasão das capas e os anúncios esdrúxulos em páginas internas são a ponta de um iceberg, trincado de cima às profundezas, pronto a ruir em alguns jornais, ou já derretido em muitos outros. A essa montanha de gelo entre igreja e estado restaria apenas o que flutua à superfície. Nos EUA, já a dão por dissolvida, os seus escombros soterrando os milhares de jornalistas que perderam emprego no tsunami que matou centenas de jornais que apostaram só no impresso, desprezando o novo mundo de bits e bytes, e ainda se mantiveram isolados do departamento comercial.

No aniversário de 95 anos da Folha, em fevereiro (2016), o editor-executivo Sérgio Dávila defendeu de críticas o patrocínio da Odebrecht à festa e ao seminário que debateu “o que é fazer jornalismo no século 21”. Nem todos se sentiram confortáveis: quatro dos convidados não quiseram ter seus nomes relacionados ao patrocinador, investigado por corrupção na operação Lava Jato, e recusaram participar. Eram VIPs: Eurípedes Alcântara, então ainda diretor de Veja; Fausto Macedo, repórter de O Estado de S. Paulo; e os apresentadores William Waack e Renata Lo Prete, da Rede Globo.

Em nota oficial, a Folha de S. Paulo se explicou: “Toda relação comercial do anunciante com o jornal pressupõe independência do produto editorial em que o anúncio será veiculado, seja um caderno, um site ou um evento. Não há motivo para discriminar anunciante ou local onde o anúncio será veiculado.” A metáfora da igreja e estado foi relembrada por Dávila em entrevista à TV do próprio jornal.

A ombudsman da Folha na época, Vera Guimarães Martins, escreveu que preferia mais um seminário sem patrocinador. Mas se inevitável, que o escolhessem com cuidado. Ela lembrou aos concorrentes: “Todos os meios desenvolvem projetos viabilizados pelo dinheiro de grandes corporações. Para ficar apenas nos jornais, a satanizada Odebrecht patrocina o programa de treinamento da Folha (juntamente com a Friboi e a Philip Morris), de O Estado (em parceria com a Philip Morris) e do curso de jornalismo da Editora Abril (com a BRF e a Heineken). A mesma empreiteira patrocinou no final de janeiro um seminário de O Globo”. Concluindo: “Precisamos ou não falar aberta e honestamente sobre isso?”. Sim, precisamos.

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No site gawker.com, “a fofoca de hoje é a notícia de amanhã”, seu slogan, houve uma briga que bombou nas redações americanas, em 21 de julho de 2015, e que revela a dependência e capitulação ao indispensável anunciante:

“Faça então uma agência de publicidade”, protestou a editora Leah Finnegan ao fundador da Gawker Media, Nick Denton. “Diga abertamente aos leitores o que realmente somos!” — ela continuou. “Isso aqui não é mais lugar para jornalismo”.

Mas o que teria acontecido? Apenas isso: uma fofoca considerada grosseira fora tirada do ar, no site que se esmerava em ironizar a concorrência quando ela fazia o mesmo: deletar pecadilhos que ameaçavam virar processos milionários. No Gawker acrescentou-se uma outra justificativa: o temor da debandada de leitores e anunciantes. Os dois crescem e desaparecem juntos.

“Negócios sujos são feitos por toda parte” — reagiu Denton. “Sua atitude, sua ingenuidade, a revolta quando você descobre que é assim que o mundo funciona, não deixa de ser natural. Fizemos o que deveríamos fazer como empresa”. Ele ainda escreveu em memorando à equipe: “Nossa capacidade para financiar jornalismo independente é crítica. Se não retirássemos o post teríamos perdido, provavelmente, uma quantia de sete algarismos em anúncios”.

As reuniões no Gawker são praticamente públicas. Os presentes tuítam o que debatem, sem problemas. A fofoca tirada do ar envolvia o top executivo financeiro da poderosa editora Condé Nast (New Yorker, Vogue, GQ, Vanity Fair, Traveler, Glamour), David Geithner, flagrado com um ator gay de filmes pornográficos. O caso continha ainda lances de extorsão e fotos. Além do mais, a vítima e personagem principal ainda era irmão de um ex-secretário do Tesouro dos EUA até 2013, Timothy Geithner. Ninguém desmentiu a fofoca, bem apurada e documentada.

Até então, a muralha entre igreja e estado, na Gawker, como na China, ainda estava de pé. Os tempos mudaram.

(Quando pus o ponto final neste texto, recebi um alerta digital do NY Times. Era uma notícia sobre o Gawker, condenado por um júri na Flórida a pagar US$ 115 milhões ao lutador aposentado Hulk Hogan, 62, exposto em vídeo enquanto transava com a mulher de um amigo.)

 

Sem dinheiro, não tem jornal. A regra agora é reunir jornalistas e publicitários na busca conjunta de produtos que rendam lucro. Talvez um caderno especial para o dia das mães? Natal, dia dos namorados? Quem sabe algum artigo para um anunciante? A redação o fará e ele será publicado com a etiqueta de “informe publicitário”. Já se usa uma palavra para isso: advertorial, mescla de advertising (publicidade) e editorial. Em português está criado o eufemismo publieditorial, selo usado nos encartes de oito páginas sobre o Aedes aegypti inseridos nas revistas semanais, pagos pelo governo de SP. Nem se trata mais de experiência. No Times, a editora Trish Hall analisa artigos e projetos em gestação com potencial de atrair patrocinadores, ou agregar valor a marcas como Google, Dell, Netflix, Shell, etc..

Como diretor de um jornal por 11 anos, até 2014, muitas vezes me submeti, docilmente, aos desígnios do setor comercial. Precisava de verba. Senão ela, corte de pessoal. Nunca, porém, recebi algum pedido indecoroso. Durante a safra de balanço legal era comum, e continua sendo, as agências especializadas promoverem um leilão para chegar ao menor preço. Alguns jornais saiam da disputa ao atingirem o deadline de fechamento. Se não rodassem no horário, perderiam os voos que levariam a primeira edição para vários estados e Distrito Federal. Aí o prejuízo não compensaria o ganho.

Pelas 22 horas, ou até mais tarde, martelo batido, o jornal vencedor tinha que alterar a sua programação na gráfica e na redação para acolher uma porção de páginas inesperadas, embora bem-vindas. Quando anunciantes impunham espaços em branco nos balanços para que a redação os preenchessem com noticiário, tornando-os mais atraentes, o trabalho dobrava, fazia-se um mutirão. Valia a pena: R$ 3 milhões por ano.

Até o anúncio legal, hoje, está com os dias contados. Um ex-ministro me contou, justo num velório, que a presidente Dilma deve assinar uma autorização para que a safra dos balanços seja plantada doravante na internet, onde as empresas nada pagam pelo espaço, mas de onde os jornais não colherão lucro algum. Alguns morrerão, porque vivem apenas para eles, de safra em safra.

“Os Diários Oficiais fecharão?” – perguntei. Por eles a mudança sempre foi vetada. Agora, não mais: “Foram todos digitalizados” – respondeu o ex-ministro.

O The New York Times já passou a tratar notícia como produto — combinação de conteúdo editorial, monetização e tecnologia. A metáfora da igreja versus estado perdeu o sentido. Para o editor da página de editoriais, Andrew Rosenthal, o importante, nesta nova fase, é “a soma de julgamento bem fundamentado da redação e sensibilidade comercial”. Será que o jornal permitiria à Apple ou Samsung patrocinar uma coluna sobre smartphones ou computadores? “Eu não gostaria” — disse o editor-executivo Dean Baquet. “Não faremos nada que comprometa nossa credibilidade”.

Estrelas em ascensão no novo mercado de mídia, principalmente Vox Media e Buzzfeed, criaram seus próprios departamentos de publicidade nativa (native advertising). Produzem conteúdos sob encomenda, pagos, que se confundem com artigos e reportagens, mas com um pequeno detalhe diferenciador: trazem um selo que os identifica como anúncios. Revistas tradicionais como a Forbes, Atlantic, New Yorker e Economist também já entraram na era advertorial.

Em antigos jornais brasileiros funcionava o que ainda hoje é conhecido por Editoração. Aqui eram preparados pequenos anúncios para microempresários que não podiam recorrer a agências de publicidade. Às vezes, queriam publicar um quadradinho igual ao seu cartão de visita, apresentando-se ao mercado. Escolhiam o tamanho, ditavam os dizeres, ou deixavam um cartão como modelo, e recebiam a primeira prova já no dia seguinte. A Editoração agora cuida do tratamento de fotos, da qualidade do PDF das páginas que irão para a gráfica, de balanços legais e, raramente, monta algum anúncio fúnebre. Advertorial também é uma palavra antiga em inglês. Está no dicionário Oxford desde 1916.

Os jornais mudaram nos últimos cinco anos mais do que em 500 anos. A questão que enfrentam agora nem é se devem ou não cruzar a fronteira entre igreja e estado, mas, sim, qual a melhor forma de fazê-lo, unindo as duas pontas que, para a Folha do século 21, ainda não se encontram. Os anunciantes estão arredios. Com o advento dos adblockers, softwares gratuitos que bloqueiam anúncios pululando diante dos navegantes da net, cerca de US$ 22 bilhões em publicidade evaporaram no ano passado. Já são 200 milhões os internautas vacinados contra os anúncios on-line. Bom para eles, mas e para os sites? Alguns estão abrindo seu conteúdo só para quem permitir banners, os popups.

91Zy18In8IL._SX342_O jornal Boston Globe ganhou o prêmio Pulitzer e deu o Oscar ao filme Spotlight com a sua investigação sobre casos de pedofilia na igreja católica. Sua extensão on-line, Crux, lançada em 2014, foi fechada em 1º de abril, por não se sustentar. Ótimo produto, comprovado, mas zero em publicidade.

A revista Time derrubou o muro entre igreja e estado em 2013, sob pressão financeira. Foi a mudança mais radical da imprensa americana: sua equipe de jornalistas foi posta sob comando da área de negócios. Mais que extinguir a separação, promoveu, na verdade, um casamento. Que ambos os lados se conhecessem melhor, aprendendo como trabalham. A independência editorial se manteve, preservada. É possível? Tem sido, até agora, porque o comercial não pautou a redação nem uma vez, e nem o fará. A união produziu trocas de informações e cooperação “com honestidade”, resultando em nova postura ante o mercado anunciante.

Algumas empresas jornalísticas celebraram casais de três. Aos dois liberados da muralha que os separava, editorial e publicidade, juntou-se a área de tecnologia, fundamental nos novos tempos em que o jornal de papel tem sua obrigatória versão digital, mais site de notícias 24 horas/dia, TV e rádio on-line, twitters, noticiário para celulares, fóruns, vídeo, blogs e reportagens interativas, que usam recursos de ponta e terceira dimensão. O trio tem mais chances de sucesso do que duplas.

O perigo de pautas conjuntas com a área comercial é a abertura à influência de um anunciante ao conteúdo. Aconteceu com o inglês Daily Telegraph, que estava de rabo preso com o banco HSBC, por contrato publicitário, quando foi acusado de ter conduzido 100 mil clientes à lavanderia de dinheiro da Suíça. A cobertura omissa e tão suave levou o seu articulista político, Peter Oborne, a se demitir e a denunciar publicamente o jornal.

Um editor da revista inglesa Style, do Sunday Times, contou que há cerca de 20 anos foi chamado à sala do editor-chefe, onde o esperava uma carta do costureiro fashion Giorgio Armani reclamando não ter sido incluído numa recente cobertura de moda. A ordem que recebeu o surpreendeu. Que ele escrevesse de volta ao estilista um protesto pela sua “audácia de pretender interferir nas decisões editoriais do jornal”, fosse ou não anunciante.

No Estadão, quando nem existia departamento de publicidade, e quem quisesse anunciar que se dirigisse ao balcão de anúncios no térreo do jornal no centro de São Paulo, um amigo publicitário me procurou com uma proposta: a agência para a qual trabalhava compraria uma página inteira de classificados, que poderia ser revendida para lotar de classificados reais, contanto que, no meio dela, bem pequenino, sobrasse espaço para um só anúncio de área verde à venda, que deveria sair verde em meio a vizinhança preto e branca. Fomos juntos ao diretor da área que incluía publicidade, depois que um agente já havia rejeitado a proposta. Ele ouviu a lábia do publicitário, refletiu um momento, e então declarou, solenemente:

“Não, não podemos aceitar. É a nossa ideologia do preto e branco”.

 

***

Nota do autor: apesar de endossar a fusão das áreas editorial e comercial nas empresas jornalísticas, este artigo não tem patrocinador. Quem quiser republicá-lo, porém…

 

 

 

A expectativa nos jornais

Parabéns, Estadão e Correio Braziliense, pelas capas que produziram hoje, a meu ver as melhores desse domingo, dia do impeachment ou não da presidente Dilma Rousseff. Aqui, também, o slideshow de outros jornais do Brasil.

 

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‘Ligeirinho’ entre Ásia e Europa

Um ligeirinho biarticulado de Curitiba foi levado a Istambul para exibição durante a Hábitat II, em 1996. Ao embarcá-lo num gigante cargueiro russo, o Antonov, o seu motorista permaneceu ao volante. Ali ficou, esquecido, até o pouso na Turquia, sem nada comer ou beber durante 14 horas. Mas foi dele, Cláudio Mariano, o feito histórico: o ônibus curitibano fez várias vezes a ida e volta entre a Europa a Ásia.

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1Istambul, 3 de junho de 1996 — Rebatizado de “Orient Express”, um ônibus “ligeirinho” de Curitiba ligou a Europa a Ásia, levando a bordo, orgulhoso, o governador do Paraná, Jaime Lerner, que marcou o momento com uma paradinha sobre a ponte do estreito de Bósforo, encerrada sob pressão de um policial turco irritado com a fila de carros que logo se formou atrás.

O Orient Express fará um novo passeio da Europa a Ásia, levando a imprensa internacional, depois de uma entrevista coletiva do governador Lerner, uma das estrelas do Hábitat II, em Istambul — cidade com sete colinas, minaretes espetados para o céu e única no mundo a ligar dos continentes. Dois repórteres portugueses, admitidos com os brasileiros na volta de pré-estreia, gostaram muito do que chamaram de “rapidinho”.

O motorista do ligeirinho-rapidinho-expresso do oriente, Cláudio Mariano, aprendeu uma lição no trânsito turco: “buzino bastante”. Os taxistas em Istambul já saem com o carro buzinando. Na verdade, só às vezes é que desligam a buzina. Difícil escutar o canto do muezim nas mesquitas tanto o buzinaço.

“Entrei no jogo deles”, diz Mariano, 34 anos, “para que achem que sou um da turma”. O problema será se habituar, porque é ele quem testa os candidatos a motorista em Curitiba, cidade da moda em Istambul, onde as cidades do mundo estão em discussão. Quando um repórter lhe perguntou se só ele veio a Turquia dirigir o ligeirinho, esclareceu:

“Além de mim, só eu”.

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O governador Lerner contou que Mariano viajou 14 horas no gigantesco cargueiro russo Antonov que trouxe de Campinas a Ancara o “biarticulado”, como agora chamam o ônibus com três carros ligados por sanfonas em Curitiba. Só um detalhe: esqueceram de embarcar a comida para ele. Vermelho, 24,5 metros, placa AEFK 3036, a bandeira do Brasil ao lado da porta dianteira, o biarticulado chama a atenção em Istambul. Os ônibus turcos são menos articulados, só dois carros as vezes, ou mais altos, com dois andares. Nenhum com três, capaz de acolher 270 pessoas entre 53 assentos. Até 300 dá para levar.

“Cidade para Todos” é o tema da palestra do governador Lerner na Hábitat II. As cidades são soluções, não problemas, para ele, que discorda de todos os profetas que veem o apocalipse esgueirando-se pelos arranha-céus ou no trânsito sufocante e congestionado. “Curitiba não chega a ser um paraíso”, reconhece, “mas prova que se pode mudar”. A lição paranaense para o mundo se resumiria num princípio: “respeito ao cidadão”. Por respeitá-lo, o curitibano “tem boas soluções de moradia, um dos melhores sistemas de transporte no mundo, atenção com as crianças e preocupação ambiental”.

O Orient Express do Paraná “transporta mais passageiros do que o metrô de Washington a um custo 200 vezes menor por quilômetro”, ainda exultou o governador Lerner. O motorista Mariano avançava no trânsito turco quase raspando o retrovisor nos outros ônibus. Os passageiros olhavam a tarde cair sobre o estreito de Bósforo, onde a cada 15 minutos passa um navio singrando do Mar Negro ao Mar de Marmara. A travessia de um continente ao outro, dentro da mesma cidade, não demora mais que cinco minutos, e é a rotina de Istambul. Muitos moram na Ásia e trabalham na Europa.

 

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A Mesquita Azul

Era a hora do rush. A volta para a Ásia ocupava uma das pistas na direção da Europa. Comprimido em só duas faixas de tráfego, os carros seguiam lentos. Entre eles, o Orient Express. Então, o governador Lerner teve a ideia de registrar “a travessia histórica”. Mandou Mariano parar. Pulou para o asfalto, mas ao mesmo tempo chegou um policial já furioso, falando muito por rádio, e dando uma clara ordem com gestos, já que não o entendiam. O governador obedeceu.