As novas Repúblicas das Bananas, segundo Trump.

Cuba, Colômbia e México receberam recados ameaçadores do presidente Donald Trump e de seu secretário de Estado Marco Rubio: eles podem ser os próximos a sofrer intervenção direta dos EUA, depois da Venezuela.

“Se vivesse em Havana e fizesse parte do Governo, estaria preocupado”, disse Rubio, filho de refugiados de Cuba e ex-senador republicano pela Flórida. “Cuba é uma nação em crise, em grave crise, e queremos ajudar o povo”.

A ameaça ao presidente da Colômbia, Gustavo Petro, foi feita pelo próprio presidente Trump: “Tome cuidado…” E também: “Fique de olho”. Motivo: “Os laboratórios colombianos de cocaína”.

Quanto ao México, será necessário “fazer alguma coisa”. Trump acha que são os carteis de droga que que governam o país e não a presidente e “amiga” Claudia Sheinbaum, “uma boa mulher” que já rejeitou vários pedidos de intervenção do exercito dos EUA contra os narcotraficantes mexicanos.

A reatualização da Doutrina Monroe, de 1823, cujo lema era “A América para os americanos”, e com o presidente Trump passa a ser “A América para os Estados Unidos”, traz de volta o mote de “República das Bananas”, não no sentido original de países instáveis e dependentes de um único produto sob controle estrangeiro, mas designando a perda de soberania e a vulnerabilidade de nações sob pressão direta e ameaça de intervenção norte-americana.

O governo Trump indicou que pretende reafirmar e aplicar a sua versão da Doutrina Monroe para restaurar suas prioridades na América Latina, considerada um espaço para suas estratégias de segurança. A Venezuela foi a primeira cobaia.

Por coincidência, a captura de Nicolás Maduro ocorreu no aniversário de 36 anos da captura de Manuel Noriega, que era o presidente do Panamá, país do qual Trump, desde que reassumiu a Casa Branca, em janeiro de 2025, repete que quer de volta o canal, que liga o Atlântico ao Pacífico. Construído e administrado pelos EUA, e inaugurado em 1914, o Canal do Panamá foi transferido para o controle panamenho em 31 de dezembro de 1999.

A diferença com a Venezuela é que no Panamá havia, e ainda há, uma base com tropas americanas. O “Cara de Pinha”, como Noriega era chamado popularmente, trabalhou para a CIA algum tempo e acabou se rendendo, e não sequestrado, depois de dias de rock a todo volume de potentes alto-falantes para que não conseguisse dormir dentro da Embaixada do Vaticano, onde tinha se refugiado. Morreu em prisão domiciliar com câncer no cérebro, em 2017.

Na casa de Noriega foi encontrado um saco com pó branco logo classificado como cocaína. Eu estava lá, impressionado diante de um altar montado por pais e mães de santo importados do Brasil “Cara de Pinha” era um místico. Também cultuava espíritos e ancestrais com a religião Vodu, popular no Caribe. A “cocaína” usada para confirmar que ele traficava drogas, descobriu-se depois, era tamale, uma massa cozida em folha de bananeira para rituais de vodu.

Em abril de 2025, o Arquivo Nacional de Segurança dos EUA abriu as atas secretas das reuniões de um Grupo Especial e do Conselho Consultivo Presidencial de Inteligência Estrangeira (PFIAB), durante as presidências de John Kennedy e Lyndon B. Johnson, nas décadas de 50 e 60, revelando a grande extensão do intervencionismo americano em vários países, entre eles o Brasil, Chile, Guiana Britânia, Haiti, Cuba, Itália e Congo.

Sobre o Brasil: “[A CIA] está realizando uma ação secreta no movimento trabalhista e a CIA acredita que o controle comunista pode ser enfraquecido”, disse Richard Helms, Vice-Diretor de Planos da CIA, em briefing ao PFIAB, em 10 de setembro de 1963.

Sobre o Chile: “as próximas eleições presidenciais no dia 13 de setembro são vistas com séria preocupação” (Richard Helms ao PFIAB, em 5 de junho de 1964), alertando que “Os chilenos de política constitucional aceitariam um comunista eleito regularmente como presidente e não tomariam medidas de golpe para tirá-lo do cargo”. A CIA forneceu 750 mil dólares em março de 1964, e 1,25 milhão de dólares em maio, para a campanha do Eduardo Frei, do Partido Democrata Cristão, que governou o chile entre 1964 e 1970.

Sobre o Haiti: “todos preocupados com o projeto concordam que Duvalier deve ser removido de uma maneira ou de outra” (Coronel J.C. King, chefe da CIA para operações do Hemisfério Ocidental).

Sobre uma mudança de estratégia em relação a Cuba: “de ataques externos para operações internas de sabotagem” (resumo do briefing de Richard Helms ao PFIAB). A CIA, revelou-se, possuía em Cuba 108 agentes secretos ativos que realizavam dez operações “negras” por mês contra dissidentes.

A Operação Condor, na década de 1970, foi uma aliança secreta entre as ditaduras militares da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, para reprimir opositores políticos e movimentos de esquerda, com apoio da CIA e do governo americano. Agentes de segurança de um país atuavam em outros, tinham permissão para sequestrar, prender, torturas e assassinar. O objetivo era a erradicar qualquer forma de “subversão”, mesmo as dissidências não violentas de esquerda e centro-esquerda. A Operação Condor deixou muitos desaparecidos políticos e foi responsável pelo assassinato do ex-chanceler chileno Orlando Letelier, em Washington, em 1976.

(Foto: Big Media/Divulgação)

A Doutrina Monroe pode ser considerada a primeira intervenção americana no hemisfério sul. Ela foi promulgada em 1823 para impedir que países europeus interviessem nas nações recém-independentes das Américas, que os EUA queriam em sua órbita de influência.

Em nome dela, os EUA anexaram cerca de 50% do território mexicano, na guerra entre os dois países entre 1846-48. Cinquenta anos depois, em 1898, ocuparam Cuba e Porto Rico. Em 1903, apoiaram a separação do Panamá da Colômbia, e assumiram o controle do Canal do Panamá. De 1906 a 1909, voltaram a Cuba, com soldados. Entre 1912 e 1933 surgiu o nome Repúblicas das Bananas, quando os EUA garantiram governos aliados na Nicaragua e Honduras, entre 1915 a 1934; dominaram o Haiti, de 1916 a 1924; e invadiram a República Dominicana, para proteger os interesses de empresas como a United Fruit e a Standard Oil. Em 1954, promoveram com a CIA um golpe contra o presidente da Guatemala, Juan Jacobo Árbens Guzmán. Em 1961, fracassaram ao invadir a Baía dos Porcos, em Cuba, e em 1962 bloquearam a ilha, endurecendo o embargo comercial. Em 1964, apoiaram o golpe contra João Goulart no Brasil. E em 1973, estiveram por trás do golpe que derrubou Salvador Allende, no Chile. De 1975 a 1980, promoveram a Operação Condor. Em 1983, invadiram Granada para derrubar o governo marxista.

A Doutrina Monroe, na América Central, levou os EUA a apoiar os Contras na Nicarágua, a financiar o governo de El Salvador contra a guerrilha do grupo Farabundo Marti, a capturar Noriega no Panamá, a apoiar uma tentativa de golpe contra Hugo Chávez na Venezuela, a dar um golpe contra Manuel Zelaya, em Honduras, e a reconhecer Juan Guaidó, em 2019, como presidente interino da Venezuela.

Em 3 de janeiro de 2026, uma nova era da Doutrina Monroe foi iniciada, sob o presidente Trump, que agora já ameaça próximas intervenções contra Cuba, Colômbia e México.

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