Líbano dos mártires

Praça dos Mártires, 1982.

Praça dos Mártires (redzijs.wordpress.com)

Duas mulheres de mãos dadas (foto), uma com véu, muçulmana, e a outra cristã, simbolizavam a unidade do Líbano, na Praça dos Mártires, desde 1930. Entre elas, uma urna com as cinzas de 21 enforcados, o marco do longo martírio libanês. Em setembro de 1948, as duas mulheres foram atacadas a machadadas. Depois, sumiram. Só reapareceram, de repente, em 2001, no Museu Sursoq, em Beirute.

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A mulher de bronze perfurada de balas abraça um jovem de braço amputado. A outra mão levanta uma tocha, como a estátua da Liberdade. Os dois refletem o sol laranja mergulhando no Mediterrâneo. Estão à beira de um precipício em que um homem, entre mortos, clama por vida. Homenageiam 21 libaneses cristãos e muçulmanos enforcados em 1916, na Praça dos Mártires, em Beirute.

Mas o martírio libanês é feito de muito mais cadáveres. Em 15 anos e 6 meses, até 1990, foram mortos 152 mil maronitas, sunitas, greco-ortodoxos, drusos e xiitas, em batalhas que ainda tiveram a participação extra de palestinos, israelenses e sírios.

Estátuas feridas, o braço da união mutilado, elas são agora uma monumental lição aos libaneses que estão tentando reconstruir o país e a identidade nacional esfacelados: ninguém venceu a guerra.

 Este monumento à união do Líbano, uma vez já sequestrado e escondido, vai sobreviver metralhado e aleijado na nova Praça dos Mártires. Mas em volta, no coração de Beirute, outras ruínas, esqueletos de prédios e ruas serão definitivamente arrasados por tratores numa nova batalha – agora, pela paz.

O projeto prevê uma avenida dez metros mais larga do que a Champs-Elysée, em Paris. Diante do mar se erguerão duas torres de 40 andares inspiradas nas do World Trade Center de Nova York (que ainda existiam). Uma ilha de lixo que emergiu no Mediterrâneo ganhará uma Ponte Vecchio, como em Florença, e se transformará num jardim de 60 mil metros quadrados. A reforma do governo libanês pretende apagar os vestígios da guerra; não restaurar os fragmentos que restaram. “Vamos ressuscitar a Suíça do Oriente Médio”, disse-me o ministro da Habitação, Mahmoud Abou Hamdane. Um provérbio popular o ampara: “Jogue um libanês ao mar, e ele voltará com dois peixes na boca”.

  Os turistas já fazem pose ao pé do casal de bronze na Praça dos Mártires devastada. Estão reaparecendo aos poucos em Beirute tranquilizados por três anos de silêncio dos canhões. O último obus foi disparado em 13 de outubro de 1990, agora também o aniversário do primeiro acordo entre a OLP e Israel. É o turismo de uma tragédia ainda cheirando a pólvora. A guia explica em alemão: “Aqui era a Embaixada dos Estados Unidos, destruída por um suicida com um carro-bomba em 1983”. As câmeras miram a carcaça do prédio em que 67 pessoas morreram. Cozinhas e quartos improvisados pelos novos “diplomatas”, os sem teto da guerra, estão expostos como se abertos a serrote. Crianças brincam entre os escombros já verdejantes de musgo e mato. E em frente, a praia do Mediterrâneo verde-azulado. Voam aviões, e não são mais caças F-16 despejando bombas. “Aqui morreram 300 americanos e franceses das Forças Multinacionais de Paz”, continua a guia. Mais ao sul estão os campos de Sabra e Shatila, onde dois mil palestinos foram massacrados por milícias falangistas em 1982, enquanto cercados por tropas israelenses. Mas neles turistas ainda não entram.

  O termômetro do otimismo durante a guerra era o movimento dos vidraceiros. Se vendiam vidros para janelas, projetavam a esperança de que acabariam os booms supersônicos que estilhaçavam as vidraças. Agora são os cartões de crédito. “Que país os aceitaria à beira de uma guerra?” – desafia Rachid Fayed, diretor da Sociedade Libanesa para o Desenvolvimento e Reconstrução do Centro de Beirute (Solidere). E ele acrescenta com muita certeza: “O mundo está confiando no futuro do Líbano”. Mas é bom ser precavido, como a própria Middle East Airlines (MEA). Sua passagem mostra, com desenhos didáticos, o que os passageiros não devem levar na bagagem: revólveres, espingardas, gases comprimidos ou venenosos, ácidos corrosivos, munição e até material radioativo. Nada mais natural no Líbano. Afinal, numa conferência de paz em Genebra, na Suíça, os delegados libaneses chegaram fortemente armados, e foram barrados nos detectores de metal.

1982: Israel cerca Beirute.

1982: Israel cerca Beirute.

“Crazy beoble”, explica um curioso armênio que faz ponto toda noite no saguão do hotel Cavalier, o substituto para a imprensa do memorável hotel Commodore, destruído no final da guerra. “O povo aqui é louco”, ele comenta para justificar um conselho pessoal: “Se fosse você diria que me chamo Pedro, não Moisés. Pedro é melhor”. No aeroporto de Beirute o guarda da imigração, depois de ler no passaporte, e certificar-se perguntando-me o nome, preferiu não acreditar: “OK, Maurice. Pode passar”. O armênio me propôs logo no primeiro contato: “Você me vende um passaporte brasileiro por US$ 5 mil, e ainda lhe dou outros US$ 5 mil”. Depois, inflacionou o pedido com mais outros cinco passaportes. “Quero dos bons”, avisou, “porque falsos compro ali na esquina por US$200”. Era talvez um agente sírio suspeitando de uma identidade falsa, como concluiu um funcionário da Embaixada do Brasil, veterano no Líbano. Beirute é uma cidade em que todos ainda são suspeitos. Quando o porteiro xiita viu o aperto de mãos com um druso, aconselhou: “Agora, conte os dedos”.

  Olha-se a destruição em volta, e concorda-se: “crazy beople”. Em “A Morte de uma Nação”, a cientista política americana Sandra Mackey lembra uma estatística de um amigo libanês: “50 por cento dos libaneses consideram-se líderes naturais, 25 por cento acham que são profetas, e 10 por cento imaginam-se deuses”. O presidente da Assembleia Nacional, Nabih Berri, explicou uma vez: “Se você nos toma como indivíduos, somos muito civilizados. Mas se você nos toma como um grupo, vai pensar que está de volta à Idade Média”. 

  Cada um dos dois predominantes grupos no Líbano, muçulmanos e cristãos, subdivididos em 16 seitas oficialmente reconhecidas, tentou aniquilar o outro, numa violenta e autodestrutiva competição pela identidade nacional desde a independência da França, em dezembro de 1943. Deveriam viver em harmonia com um presidente cristão maronita, um primeiro-ministro muçulmano sunita, e um xiita como presidente de um Parlamento de maioria cristã, com a proporão de 6 por 5 entre 128 deputados. Era o Pacto Nacional. Mas o balanço de forças sofreu uma reviravolta quando os muçulmanos e drusos tornaram-se 2/3 da população, e os cristãos encolheram para 1/3, em 1970. Os xiitas passaram a ser a maior comunidade do país. Os muçulmanos exigiram reformas. E os cristãos resistiram. Cada grupo se armou e criou sua própria milícia. Num Líbano em pé de guerra palestinos e israelenses começaram a travar um combate extra, pela Palestina.

  A guerra civil libanesa começou em 13 de abril de 1975. O estopim foram os disparos saídos de um carro em alta velocidade contra uma igreja no bairro de Ain Rummane. Com quatro mortos, os cristãos decidiram ir à forra. Horas depois, emboscaram e mataram 27 palestinos dentro de um ônibus. A escolha nada teve de casual. A liderança cristã via a Organização de Libertação da Palestina (OLP), já a maior milícia em Beirute, aliada dos muçulmanos, como a principal ameaça à soberania libanesa. Morteiros e foguetes riscaram o céu numa imediata reação da OLP. Canhões miraram das colinas os campos palestinos. Levantaram-se barricadas nas ruas. Grupos que compunham o exército debandaram para aderir às milícias comunitárias. Bairro contra bairro, duelos pelas janelas dos prédios, sequestros, carros-bombas, kamikazes, franco atiradores, e o Líbano mergulhou em fogo e cinzas. Os sírios tentaram garantir a paz com a força de suas tropas, em 1976, e continuam ainda hoje acampados por todo o país. Israel invadiu o sul libanês atrás da OLP em 1978, cercou Beirute em 1982, quando expulsou o líder Yasser Arafat para Tunis, e retirou-se em 1984, sem criar uma “nova ordem” que ampliaria a paz isolada com o Egito. E continua retendo uma “faixa de segurança” dentro do Líbano, ao longo de sua fronteira.

  “Beije a mão que você não pode morder, e peça a Deus para quebrá-la”, diz outro provérbio libanês. Nenhum dos grupos no conflito do Líbano acabou impondo a sua vontade. O Pacto de Reconciliação Nacional de 1989, assinado em Taif, na Arábia Saudita, manteve um cristão na Presidência e um sunita como primeiro-ministro, estabeleceu a igualdade parlamentar e legitimou a presença militar síria. Mas os combates ainda prosseguiram por mais um ano até a derrota do general cristão Michel Aoun, que desde 1988 travava uma “guerra de liberação” contra a Síria. O diretor da Solidere, Rachid Fayed, gosta de explicar que “os libaneses prolongaram a guerra, ao se adaptarem a ela tão bem no dia-a-dia”. Os fios nas ruas são um impressionante exemplo. Brotam dos postes e se reproduzem como trepadeiras. Formam pencas, se entrelaçam e cruzam Beirute pelo ar. Alguns vendem energia de geradores particulares. São as mini-centrais elétricas particulares. Outros ligam bairros com horários de racionamento opostos. Assim ninguém fica sem luz. O bairro a ser apagado de 4 às 8 horas é iluminado pelo que apagará de 8 às 12 horas, e vice-versa. Ainda há fios de roubo de energia e os de telefone, muitos sem uso.

Carros luxuosos se misturam aos atingidos pela guerra no trânsito caótico de Beirute. Não existe um único farol. Houve um tempo em que se disparava ao alto para atravessar um cruzamento. Não mais. A cidade ganhou guardas de trânsito chiquérrimos, todos com luvas brancas. Levantam a mão, e ela se destaca das ruínas sempre ao fundo, por toda a parte. Talvez por isso a usem: para que os motoristas a vejam. Mas os próprios guardas não sabem ao certo. “Deve ser por elegância”, arriscou um diplomata. Alguns pontos da “linha verde” que antes dividia a cidade ainda estão guardados por tanques estacionados sobre calçadas. Nos bloqueios militares, soldados carregam lançadores de granadas às costas. Posters com os rostos de aiatolá Khomeini, do presidente iraniano Ali Akbar Rafsanjani e do íman Mussa Sadr, líder libanês do Amal (Esperança) que sumiu enquanto viajava para a Itália, em 1978, enfeitam os bairros dominados pelo Hezbollah, o Partido de Deus. As guaritas sírias ostentam a foto de um sorridente presidente Hafez Assad. Para completar, bandeiras pretas tremulam sobre os escombros dos campos de Sabra e Shatila em sinal de luto pelo aperto de mãos entre o “presidente” Yasser Arafat e o primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin. A impressão é a de que uma nova guerra está por explodir. Mas os libaneses vão vivendo e repetindo: “Al hamdallah”, graças a Deus. Os restaurantes de Jouniê lotam todas as noites, as mesas fartas com os variados pratos do mezzeh, e o cheiro adocicado do Arak e do narguilé.

  Deitado numa cadeira da piscina do outrora luxuoso hotel Saint-Georges, hoje um esqueleto vazio, o torrefador de café Maher Haddad queima-se ao sol como uma de suas sementes, enquanto admira as ruínas de Beirute. Bem em frente estão dois outros hotéis destruídos: o charmoso Phoenicia e o americano Holiday In. Linda paisagem, não? “Esta é a imagem de mais de 15 anos de guerra”, ele diz. “Esperamos que tudo seja agora mudado. Se você vive sem esperança, não pode ser feliz”. O futuro de paz no Oriente Médio o perturba só num outro front, o comercial. “Se não corrermos, perderemos o mercado árabe para Israel”. Esta será uma guerra difícil para os israelenses. 

  Os libaneses são imbatíveis nos negócios. Eles têm uma tradição que começa com os fenícios, em 2.800 AC. Então, o principal produto no Líbano era o cedro, hoje o símbolo nacional. Dele extraíam uma tinta púrpura, que simbolizava riqueza e dignidade social, e um óleo e uma resina para a conservação dos mortos. Os faraós do Egito enviavam compradores a Byblos e Tyre. Cada egípcio morto dava um lucro certo. Vocação precoce… Quando o professor perguntou quanto é um mais um, o aluno libanês respondeu: “Você está comprando ou está vendendo?” Sim, os libaneses vendem tudo, e com lucro. Mesmo em guerra, aumentaram de 342.584 para 1.041.216 o número de carros no país. Instalaram mais 200 mil linhas telefônicas, embora só a metade esteja funcionando. (Um minuto de ligação para o Brasil custa US$6, por uma linha especial que não é libanesa, nem cipriota, mas – surpresa! – norte-americana.) A renda média individual caiu de US$1.869, em 1974, para US$1.112, em 1990, e já registrou um crescimento de 15 por cento em 1992. O setor elétrico deu um salto de 260 por cento em 19 anos. O ministro das Finanças, Fouad Siniora, está conseguindo a proeza de reduzir em 8% o déficit público ao mesmo tempo em que aumenta em US$250 milhões o orçamento para 1994. A inflação chegou a 117% contada desde o começo do ano passado pela Confederação Geral dos Trabalhadores do Líbano. E isso num país que teve um estrago de US$ 25 bilhões só em sua infraestrutura de água, esgoto, gás, eletricidade, telefone, ruas e jardins públicos. O dólar, que valeu até 3 mil libras libanesas na guerra, estabilizou agora em 1.700

  Tostando ao sol, Maher Haddad se ufana: “Somos suíços”. Os libaneses estão mais para “a delicadeza do relógio do que para a máquina da guerra”. E ele repete, quase ofendido: “Nunca fomos guerreiros”. Que o desmintam os 67 quilômetros quadrados de destruição ao pé do Monte Líbano, entre os rios do Cão e Damour, os limites da Grande Beirute. As barricadas de areia ainda diante de muitas casas. O casal de bronze furado de balas. E que o confirmem a competição de iates dando a largada na baía de Saint George, os carros luxuosos estacionados diante do Iacht Club, a badalação noturna e o boom da construção. “Temos mais segurança aqui, hoje, do que na Europa”, garante uma funcionária na nova loja da Middle East Airlines, no centro da cidade. Ela só não entende porque os aviões libaneses não podem ainda decolar para os Estados Unidos. E nem porque um visto norte-americano deve ser pedido em Damasco, a hora e meia de carro de Beirute. O presidente Bill Clinton está esperando do Líbano uma prova a mais de confiança: a paz com Israel. A livraria Internationale se beneficia com o terceiro ano de cessar-fogo. Cada dia surge um novo livro explicando o que aconteceu ao país das mil e uma versões.

  O rio Adônis desce vermelho o Monte Líbano, sagrado para fenícios e romanos. Foi nele que Adônis teria morrido nos braços de Vênus. A cor talvez seja a do minério de ferro lavado pela neve derretida. Por 15 anos e meio muitos libaneses fantasiavam que a verdadeira nascente era o Líbano sangrando. Mas os poetas também podem estar certos: o sangue deve ser mesmo o de Adônis, ferido por um javali.

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OS BATRÍCIOS

VALE DE BEKAA – Bem-vindo ao Brasil do Oriente Médio. Aqui vivem nossos “batrícios”. Eles são a maioria em várias aldeias incrustadas entre o Monte Líbano e as montanhas Antilíbano, perto da Síria e Israel. Falam “bortuguês”, tomam guaraná, plantam feijão roxinho, improvisam feijoadas com carne de carneiro, torcem apaixonadamente pela Seleção, às vezes captam novelas repassadas por um canal de televisão da Turquia, e importam abacaxis e manga.

  — Ministro, o Líbano está confiando na paz?

  Hamdane – Com o acordo de reconciliação nacional passamos a planejar seriamente a reconstrução. Agora, no governo do primeiro-ministro Rafic Hariri, entraremos na fase de execução. Não digo que estejamos verdadeiramente cem por cento confiantes na paz. Mas os partidos e religiões se uniram no Líbano. É esta união, o reencontro de todos os libaneses, que vai permitir a reconstrução, já partir do ano que vem. Estamos todos trabalhando juntos. Recomeçamos unidos.

  — O Líbano pode pagar a reconstrução?

  Hamdane – Trabalhamos com empréstimos do Banco Mundial, do Banco Islâmico e de vários países árabes. Já temos contratos assinados que ultrapassam US$1 bilhão. Os italianos também prometeram ajudar. Não estamos mais em dívida no Líbano. Retificamos o orçamento para 1994  (cerca de US$2,5 bilhões, ou US$200 milhões a mais que o de 1993).

  — Os jornais de hoje estão publicando que os Estados Unidos condicionaram o envio de ajuda ao Líbano à paz geral no Oriente Médio. Verdade? O Líbano deverá esperar a paz entre Síria e Israel?

  Hamdane – Os Estados Unidos procuram criar um status no mundo árabe, do qual fazemos parte. Em todo o caso, o governo americano não dará dinheiro de graça aos libaneses. Emprestarão. E pedirão que os amigos árabes ajudem o Líbano. Isto com certeza vai acontecer, mas aos poucos. O Líbano e a Síria estão fora da paz com Israel. Esperamos que este e outros problemas logo se resolvam. Aqui no Ministério não trabalhamos com política.

  — Noto um certo otimismo. Engano?

  (A tradutora, antecipando-se: “Sim, o ministro é otimista”.)

  Hamdane – Com a situação econômica do Líbano sou mais ou menos otimista. Mas com a região, incluindo o Líbano, não é ainda seguro dizer que tenhamos alcançado verdadeiramente a paz.

  — Quinze anos para destruir, quantos para reconstruir?

  Hamdane – Dentro de três anos viveremos sob condições razoáveis. Depois, seremos de novo como a Suíça. Esperamos que as condições o permitam. É preciso levar em conta também o papel do Líbano no desenvolvimento do Oriente Médio. Veremos o que lhe caberá. De qualquer modo, em três anos, se trabalharmos seriamente, teremos condições de vida muito aceitáveis.

  — Os libaneses do Brasil podem ajudar?

  Hamdane – A partir de amanhã, se quiserem.

  — Pode-se dizer aos libaneses no Brasil que o Líbano voltou a ser um país seguro, e que eles podem vir visitá-lo sem medo?

  Hamdane – Diga-lhes: não há nenhum problema.

Eu vi Cícero Dias

O painel Eu Vi o Mundo... (foto divulgação)

O painel Eu Vi o Mundo… (foto divulgação)

A obra mais celebrada do pintor pernambucano Cícero Dias pode ter seu título, enfim, completado:

Eu Vi O Mundo… Ele Começava No Recife… e Acabou em Paris 

Acabou em Paris, no apartamento-ateliê da Rue du Longchamp, 123, com vista para os telhados do Trocadéro, aos 95 anos de uma vida para a arte compartilhada com a nata dos artistas, escritores e compositores europeus e brasileiros do século 20.

O mundo acabou de morte natural, sem doença, ao lado da mulher, filha e dois netos, e interrompeu as memórias  Eu Vi O Mundo, até então só pincelado em cores vivas, mas agora brotando em palavras e fotos para um livro depois completado e lançado pela editora Cosac Naify.

Nós Vimos O Mundo, capítulo final de Eu Vi O Mundo, acrescenta o olhar da mulher francesa de Monsieur Dias, Raymonde, que ele conheceu em abril de 1941, na Paris ocupada por tropas nazistas. O Nós no título deve incluir o editor Augusto Massi, que finalizou as memórias inacabadas em uma operação tão bem executada que ficou imperceptível, os vazios costurados com pesquisa e sensibilidade.

Eu Vi Monsieur Dias com 92 anos, bem agasalhado com cachecol, paletó de lã e cobertor nas pernas em seu apartamento inundado de sol da primavera. “Fui a vida toda um friorento”, lembrou em suas memórias. Uma noite, ele encheu a lareira com tanta lenha que a concierge do prédio telefonou para avisar: “Há um incêndio em sua chaminé”. Os bombeiros que vieram apagar o fogo ficaram para jantar. Apesar do frio em dia morno, encontrei-o bem humorado, memória afiada, encantado com a internet, atualizado sobre o Brasil e o mundo — e ainda um bom copo: “Que vamos tomar?”, perguntou sorvendo uma pequena dose de uísque, a garrafa ao alcance da mão, como a inseparável bengala. As paredes do corredor de entrada até a sala onde passava parte do dia sentado o expunham em sua fase abstrata, geométrica, colorida de Pernambuco — o “colorido insolente” detectado pela amiga Rachel de Queiroz.

Cicero Dias-Picasso-Sylvia-a-Vallauris-1952-

Cicero Dias-Picasso-Sylvia-a-Vallauris-1952-

O amigo Pablo Picasso deixou para C.D., só assim identificado na campainha à entrada do prédio, uma obra invisível, porém onipresente: o próprio apartamento, trés chic. Não fosse aquela natureza-morta… Quando a ganhou, Cícero chegou a reclamar, e por pouco, merci beaucoup, não a devolveu:

— Quero quadro para ver todo o tempo, e não para guardar dentro de um cofre.

Pendurar um Picasso já era um enorme risco, atraía assaltantes. Mas o presente fora dado com uma intenção explícita: “Venda, e compre um lugar para você viver”. Assim se fez: a natureza-morta pagou a entrada da natureza viva dos Dias. Quem procurar ainda achará no apartamento preciosos picassinhos, se é que algo que Ele tenha feito permita um diminutivo. São desenhos em pedras, ossos, madeira, caixa de fósforos e rolha de champanhe como os que fazia, apaixonado, brincando, para a musa e amante Dora Maar, fotógrafa surrealista pintada Adormecida, Na Praia, Chorando, De Unhas Verdes, com O Minotauro e de Perfil Sentada. Estão bem ali no corredor, dentro da maquete de três andares de um museu “ideal”, único vestígio da carreira de arquitetura de Cícero abandonada em 1928, no Rio. E atenção: acompanham-nas outras miniaturas feitas especialmente por Vasarelly, Calder e Léger.

Eu Vi Cícero Dias… o “Cicinho dos canaviais de Jundiá”, no litoral de Pernambuco. Ele me contou que atendeu o telefone para Picasso por 12 anos. Sorri malicioso, e explica: “O homem tinha três, quatro mulheres, e estava sempre metido em tremendas brigas com pelo menos duas delas”. Com zelo desempenhava o papel de protetor da intimidade do amigo. Blindava-o ao sabor das paixões do momento, que variavam como o vento. A amizade rendeu um bônus para o Brasil: a viagem pioneira do célebre painel expressionista Guernica para a Segunda Bienal de São Paulo. “Consegui convencê-lo durante um almoço, mas confesso: saí com indigestão”. Uma revelação lhe vem à lembrança. Mas ele pede: “O que vou contar agora fica por sua conta, e se alguém vier me pedir para confirmar, desmentirei”. Falava sério: em Eu Vi O Mundo, o livronem toca no assunto, resumido apenas a um diálogo entre soldados da Gestapo e Picasso.

meiocridade-plural.blogspot.com

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— Quem fez isso? — perguntou um SS apontando para Guernica, o retrato da destruição da aldeia basca de Guernica pela aviação alemã, em 1937, durante a guerra civil espanhola, a pedido do general Francisco Franco.

— Ué, não foram vocês? — respondeu Picasso.

Eu Vi O Mundo… Ele Começava No Recife, o afresco, de 15 metros de largura por 2,5 metros de altura, foi pintado entre 1926 a 29. Ficou pronto quando Cícero fez 21 anos, e foi sua obra-prima. Nas memórias ele resgata  o clima, a ansiedade e a excitação que vivenciava enquanto a produzia: “Toda hora andava pra baixo e pra cima, de Santa Teresa para o bar Nacional. Tudo se mexia na cabeça. Imagens do começo da minha vida. Tantas coisas: mulheres, histórias fantásticas, escada de Jacó, as onze mil virgens. Levaria todas essas imagens para dentro de um grande afresco? Executar um afresco era uma realização material impossível. Impraticável. Pensei então em executar uma grande tela. Decidi colocar tudo num painel, onde o imaginário se espalhasse para todos os lados. O mais representativo seria a realidade onírica. Eu pintaria a própria vida numa superfície de mais de 50 metros. Tudo teria grandes proporções. Corri todo o Rio de Janeiro à procura do material. Mas, por volta dos anos 20, não se encontrava nada disponível na praça: tela, papel, tintas, pincéis. Tudo era difícil.Passei no Teatro Municipal, onde havia aqueles panos de boca, mas fiquei desiludido. Nas casas de tintas da rua São José também não encontrei a solução. Enfim, indicaram-me um depósito de papéis, perto da Central do Brasil, passagem obrigatória de todo mundo devido ao célebre mangue. No depósito achei papéis, confetes, serpentinas, artigos de carnaval, lança-perfume. Encontrei-me diante do proprietário. Largos bigodes, de tamancos, grande lenço de rapé: — O que quer o rapaz? — perguntou. Avistei-me com uma valentona bobina de papel com dois metros de altura. Gritou o bigodudo: — Papel de primeira, papel kraft, venda em grosso para as indústrias. Tudo resolvido. Uma feliz solução. Faltava resolver somente as tintas e a cola, que terminou por ser de peixe. Mãos à obra. Um porre a mais no bar do Palace Hotel.”

Ao fim de cada dia de trabalho, Cícero se sentia um náufrago, encharcado de suor. Pelo painel, começaram a desfilar procissões, danças, sonhos, delírios, Recife, o nordeste brasileiro, fantasias, carros-de-boi, engenhos, bichos, senzalas, até um autorretrato, e tudo sob a luz amarela da caatinga e do canavial. Atribuíram-lhe certa influência  de Marc Chagall, então desconhecido no Brasil. Surrealista, rotularam-no. “Surnudista”, inventou o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre. Um “fenômeno inexplicável a desafiar a geografia, a cronologia e a genealogia”, descreveu o jornal francês Le Monde. “Maluco!”, elogiou Mário de Andrade, no Diário Nacional. Em carta a Tarsila do Amaral, ele acrescentaria depois, em 1931: Cícero Dias está fazendo com que “rachassem as paredes da Escola Nacional de Belas Artes”. E, no entanto, a primeira exposição aconteceu num hospício, a Policlínica, na Praia Vermelha, porque nenhuma galeria do Rio se interessava por arte moderna, ou tinha espaço para acomodar obra tão gigantesca, decantada como a maior da América Latina. Literalmente, coisa de louco.

Quando Cícero foi ao hospício pedir espaço para Eu Vi O Mundo, armado com os poderosos amigos Graça Aranha, Di Cavalcanti, Murilo Mendes e Ismael Nery, um dos loucos os saudou, gritando: “Os senhores estão em casa”. Lar doce lar que projetou o painel em sua órbita de sucesso e onde foi apreciado, ou analisado, nos primeiros dias, por psicanalistas internacionais, alguns diretamente ligados a Freud e Jung, reunidos na Policlínica, para um congresso. Havia ali material de sobra para seu autor deitar-se num divã por muitos anos. A exposição seguiu depois para o Recife e Escada, a cidade natal, num mergulho na infância que “iluminou-me o espírito”. Foi difícil obter a bênção do vigário Pedrosa para aquela obra do diabo, “uma afronta a Deus”. Nada, porém, que a imponente presença de Gilberto Freyre não pudesse superar. E ao som de viola, cheiro de folhas de canela espalhadas no chão e foguetes espocando no céu, o povo humilde do sertão viu o mundo que um dos seus via — mundo que mais tarde foi castrado por vândalos em três metros, do lado esquerdo, para livrá-lo das exuberantes e pecaminosas mulheres nuas, com seus sexos realçados. Justificando-se, ele diria: “Não cultivo a penumbra, mas a resplandecência. Nada é obscuro na minha obra”.

Eu Vi O Mundo… Ele Começava (e terminava) No Recife. Não ia além do Brasil.  Mas em 1937, Cícero estendeu suas fronteiras e seu horizonte, embarcando para Paris. “O  Groix não era um navio como o Andes ou o Alcântara, mas uma expressão francesa em alto-mar. A começar pelo paladar, pela liberdade, um à vontade que não se encontrava em outros vapores. A bordo, logo procurei o comandante. Fui indiscreto apenas para me informar que a rota ou derrota do navio não passaria pelas costas nordestinas (…) Rumávamos pelo Atlântico, fugindo à ditadura de Vargas. Peixes voadores ao lado do vapor. Baleias soprando seus esguichos. Ilhas perdidas. Íamos a caminho de Dacar.” E da Europa sob o nazismo.

Eu Vi Cícero Dias… E ele era um Louvre de artistas amigos, uma biblioteca de escritores com os quais se dava. Pensemos em alguém improvável: Albert Einstein? Sim, estivera com ele, que se vestia de vaqueiro, no bar do Glória, no Rio. Guimarães Rosa? Ficaram presos juntos em Baden-Baden, na Alemanha, em 1941. Villa-Lobos? Ah, ele saía de noite para jogar bilhar; depois fazia a via sacra pelos bares. “Quando o víamos com seu chapelão e um taco na mão, como se fosse a sua bengala, aplaudíamos”. James Joyce? “Conheci-o em circunstâncias dramáticas em Vichy”. Pintou pratos com Braque, Cocteau, Dupont, Françoise Gillot, Lebowitz, Leonor Fini, Man Ray, Miró e Vasarely. Picasso foi companheiro de todos os dias e padrinho de sua filha, Sylvia. Numa foto dos três juntos, escreveu: “A mi filhinha y com um beso”. Marc Chagall? Era sempre convocado para opinar se Guernica deveria ser colorido ou mantido em preto e branco. “Deixa como tu fizeste. Deixa, não toca, deixa como está”. Eu Vi O Mundo é repleto de nomes, links para outras histórias e dimensões: Manuel Bandeira, Mário e Oswald de Andrade, Di, Tarsila, Malfati, Oscar Wilde, Le Corbusier, Lúcio Costa, Klee, Modigliani, Gertrude Stein… e mais, muito mais…

Eu Vi Cícero Dias… E ele protagonizou uma obra histórica que lhe valeu a medalha azulada estelar da Ordem Nacional do Mérito da França, recebida das mãos do então primeiro-ministro Edouard Balladur, em 1998, na Unesco. A obra foi uma chuva de papel com o poema Liberté, de Paul Éluard, disparada por aviões ingleses sobre a Europa ocupada por tropas nazistas, em 1943. “Se os alemães me pegassem, pá!, me matavam” —  então ele sorve mais um gole de uísque, empolgado com as lembranças que ainda o deixam orgulhoso. Para começar sua “missão”, ele cortou a primeira e a última palavra-chave escrita na muamba, Liberté. Era um perigo de morte, liberdade. Depois, a salvo, as reescreveria.

O poema ficou guardado dentro de uma mala na prateleira de bagagens vazia de um vagão de trem com refugiados espanhóis e portugueses. Dias sentou-se distante. Se a revistassem, não saberiam a quem pertenceria. Veio a Gestapo. Um soldado lhe pediu o passaporte. Gritou para outro, na frente: “Brasília!” Mas o devolveu. E não revistaram o maleiro. Já na Espanha, um susto: “A polícia quis saber como eu, brasileiro, tinha cruzado a fronteira”. Não havia o que discutir, só lembrar que “o Brasil não está em guerra com a Espanha”. E assim ele chegou à Lisboa, de onde a embaixada britânica despachou o poema direto para o poeta surrealista Roland Penrose, piloto da Royal Air Force, a RAF. Alguns dias depois, caía poesia das nuvens em todo o front europeu.

Eu Vi O Mundo… Ele Começava No Recife e jaz, desde 2003, no cemitério de Montparnasse, em Paris.

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Com a mulher, Raymonda, durante a ocupação alemã.

Cícero Dias

No ateliê, em Paris